segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A DIFERENÇA ENTRE O VER CONCEITUAL E O VER REAL

Qual é a diferença entre o ver conceitual e o ver real?

Vê você uma árvore conceitualmente ou a vê em realidade?

Quando vê uma flor, vê-a diretamente, ou a vê através do peneira de seu próprio conhecimento botânico ou não botânico, ou do prazer que lhe brinda? Como a vê você? Se o ver é conceitual, ou seja, através do pensamento, é isso ver? 

Vêem vocês a sua esposa ou a seu marido? Ou vêem a imagem que têm dele ou dela? 

Essa imagem é o conceito mediante o qual alguém vê de modo intelectual, mas quando não há imagem alguma, então, a gente realmente vê, então está realmente em relação.

Assim, pois, qual é o mecanismo que constrói a imagem, que nos impede de ver realmente a árvore, a esposa ou o marido, ou o amigo, ou o que seja?

Espero me equivocar, mas é óbvio que vocês têm uma imagem de mim, não é assim? Se tiverem uma imagem do que fala, não estão realmente escutando-o absolutamente. E quando um olha a sua esposa, ou a seu marido etc., e o faz através de uma imagem, não vê realmente a pessoa, mas sim a vê através da imagem, e portanto não existe relação absolutamente. A gente pode dizer “te amo”, mas isso não tem sentido algum.

Pode a mente deixar de construir imagens no sentido em que estamos falando? Isso é possível só quando a mente está por completo atenta no momento, no instante mesmo da provocação ou da impressão.

Tomemos um exemplo muito simples: o adulam, isso gosta, e o mesmo “gostar de” constrói a imagem. Mas se você escutar essa adulação com atenção completa, sem gosto nem desgosto, se a escuta completamente, totalmente, então não se forma a imagem; não chama a essa pessoa seu amigo e, à inversa, tampouco chama inimigo à pessoa que o insulta.

A “formação de imagens” surge da não atenção. Quando há atenção não se cria conceito algum. Faça-o; verá o singelo que é descobri-lo. Quando você põe atenção completa ao olhar uma árvore, ou uma flor, ou uma nuvem, não há então projeção alguma de seus conhecimentos de botânica, ou de seu gosto ou desgosto; você simplesmente olha (o qual não quer dizer que se identifica com a árvore; de maneira nenhuma pode você converter-se na árvore). Se olha a sua esposa ou amigo sem nenhuma imagem, então a relação é de tudo diferente; então o pensamento não intervém absolutamente e há uma possibilidade de amor.





J. Krishnamurti





Fonte: do livro "O Voo da Águia", Ed. Estampa, 1ª ed., 2002
Tradução de Maria Beatriz Branco
Fonte da Gravura: https://www.pinterest.com/Spoturnovilches/krishnamurti/

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