segunda-feira, 5 de junho de 2023

COMO SURGE UMA SOCIEDADE JUSTA E PACÍFICA


Todas as manhãs em Bonnevaux (França), logo após a meditação, ouvimos o Evangelho do dia. Hoje havia apenas três versículos: “E aconteceu a seguir que ele percorria cidades e povoados, proclamando e anunciando as Boas Novas do Reino de Deus. Os Doze o acompanharam, e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes; Susana e muitas outras que os serviam com seus bens”. (Lc 8, 1-3)

Os primeiros monges se perguntaram: "Qual é o verdadeiro objetivo da vida do monge?" Em meio às confusões de nosso tempo, acho cada vez mais útil usar os termos 'monge' e 'meditador' de forma intercambiável. Com a disseminação da prática séria de meditação em todas as esferas da vida, o meditador é, de muitas maneiras, o novo monge. Então, perguntemos a nós mesmos: “Qual é o verdadeiro objetivo da vida?” e vejamos o que a sabedoria monástica tem a nos dizer. Os Mestres do Deserto falaram dessa meta em dois níveis. O objetivo final é o Reino de Deus. O objetivo imediato é a pureza de coração. Esses dois níveis, como o primeiro plano e o horizonte da paisagem da vida, se unem para formar uma visão focada da vida humana.

Recentemente, tivemos um retiro sobre 'curar um coração partido'. Ouvir as histórias que as pessoas contavam era de partir o coração: a morte de crianças, a perda de um relacionamento querido no qual tínhamos grandes expectativas ou acidentes que perturbaram violentamente uma vida pacífica. A sensação de sofrimento demora a destilar e, à medida que surge, é sentida fortemente, mas costuma escapar à rede das palavras. O significado é mais do que uma resposta ou uma explicação. É conexão, mas também percepção. Meditando nos dias bons e nos dias ruins, a que chegamos quando nos purificamos processando as coisas enquanto continuamos realizando nossas tarefas diárias? Podemos ver como é realmente ver Deus. Então a felicidade, que mal reconhecemos quando acontece, nos surpreende: felizes são aqueles cujo coração é puro, porque vêem a Deus. Mas Deus sempre surpreende: Deus aparece quando nossas ideias sobre Ele se dissolvem.

Os grandes dilemas da vida estão integrados nas rotinas diárias comuns e emergem maravilhosa e terrivelmente em alegrias e sofrimentos excepcionais. Acho que é isso que o Evangelho de hoje descreve. Jesus caminha de um lugar para outro, pregando e proclamando a Boa Nova. Ele fala sobre o propósito da vida de uma forma nunca antes ouvida em nenhum outro lugar. A verdade é dizer a verdade. Para aqueles que estão ouvindo, é uma coisa definitiva. Mas também há personalidades e questões logísticas. Ele tinha companheiros na estrada; as pessoas têm problemas e pontos cegos. Ouvimos falar especificamente das discípulas, que raramente são mencionadas nas histórias, e ouvimos falar dos recursos financeiros que os mantinham no caminho. Jesus não cobrava por seus ensinamentos, e o "preço da gasolina" não era um problema, mas alguém tinha que pagar por comida e hospedagem. Detalhes sobre seus companheiros e suas finanças apontam para o objetivo 'imediato' da vida. A pureza de coração é conquistada pela forma como lidamos com eles no fluxo imediato das interações diárias, lembrando sua razão de estar ali e realinhando-os com o objetivo final. O objetivo 'último' é o que Jesus está pregando e proclamando, mas ainda mais como ele o encarna a cada momento.

A boa notícia é que o reino dos céus está próximo. A dura verdade é que está sempre mais perto do que podemos pensar ou imaginar. O reino está aqui e agora, que molda como reagimos aos objetivos e problemas imediatos da vida. A guerra na Ucrânia. A mudança climática. A degeneração da democracia e a ascensão do nacionalismo. Preços da energia e desemprego. Ser diagnosticado com câncer. A falta de faculdades mentais. A perda do amor. Lidando com esses problemas, muitas vezes sobrecarregados por eles, podemos sentir que “temos que fazer algo agora” para resolvê-los. Nos apegamos a respostas fáceis e soluções sedutoras que prometem sucesso rápido. No entanto, não há respostas ou soluções que funcionem por muito tempo, exceto talvez para evitar uma catástrofe iminente. Todo sucesso, mais cedo ou mais tarde, se transforma em uma sensação de fracasso.

Quanto maior o desafio, mais curta a solução. Assustados e impacientes, vamos aos extremos, como mostra a política atual. Nós escapamos negando problemas, culpando conspirações obscuras ou fazendo julgamentos cínicos. Afastando-nos da responsabilidade social dos cidadãos, tornamo-nos consumidores, e a vida da sociedade torna-se simplesmente “a economia”.

A alternativa passa por novas perspectivas. A melhor solução é não imaginar que as soluções são a resposta imediata. Só a metanoia ("conversão") muda as coisas: uma mudança de mentalidade ocorre quando as ideias se afrouxam. Então, novos 'insights', vendo novas conexões, expandindo-se para novos campos de compreensão, abrindo o olho da sabedoria através do qual Deus pode ser visto, conectam o objetivo imediato com o objetivo final.

Por que isso é difícil? Porque implica a mudança que chamamos de morte: o fim dos velhos modos de ver, a libertação das fantasias e a entrada na nova vida, tão estranha e diferente que parece irreal, mas que chamamos de 'ressurreição': é a vida que vivemos, aqui e agora, depois de cada morte e que transforma até a morte em graça. Ressurreição é virar o carrinho de maçã: tudo o que o carrinho carregava se espalha na estrada. Mas abra o caminho para a paz através do portão do paradoxo, acabando com o mundo de infinitas contradições e conflitos. Neste novo mundo, a morte é revelada como nascimento.

Jesus pregou e proclamou essa nova perspectiva de consciência, chamando-a de "Reino de Deus". Não é longe. Está dentro de nós e entre nós. É o tesouro com o qual tropeçamos, mas também a busca que devemos realizar todos os dias. Não é uma solução, mas uma revelação, uma epifania (manifestação), algo que sempre existiu, mas agora é reconhecido. Jesus ensinou a um grupo de alunos que se tornaram discípulos ouvindo-o e permanecendo com ele, entendendo um pouco mais a cada dia até que ele os deixou. Mas então, o mais estranho de tudo, é que sua ausência mostrou a eles sua presença real.

Se o objetivo da vida fosse uma resposta ou uma solução, eu teria deixado livros e sistemas para trás. Em vez disso, ele deixou uma Palavra falada, uma transmissão lembrada de discernimento, de coração a coração. A experiência é o verdadeiro professor. Ouvir e lembrar transformam a experiência em ver as coisas de uma nova maneira. Isso nos ensina a transmiti-lo, por sua vez, comunicando-o como uma verdade universal através do espírito, em todas as culturas e horários.

Obviamente, então, o Reino não é a Igreja. Por mais frustrante que seja, a Igreja é inevitável, assim como nosso próprio corpo é inevitável. É o meio de comunicar o Reino, apesar de todas as falhas e defeitos de suas formas institucionais. Cada vez que esquece a distinção entre objetivos imediatos e objetivos finais, a Igreja constrói falsos objetivos finais, tornando-se eclesiástica, autorreferencial e até mesmo tocada pelo orgulho e arrogância, contrariando tudo o que Jesus ensinou. Se não fosse o sal dos profetas, mártires e contemplativos, uma de suas muitas mortes seria a última.

Uma Igreja sem profundidade de visão dogmatiza Jesus e o coloca em um pedestal. Quando a Igreja se torna escola de oração, orientando a peregrinação rumo ao Reino, Jesus aparece também para quem está fora da Igreja como um novo modo de ver, uma nova perspectiva para cada vida. Quando reduzido a uma coisa, ele desaparece, mas quando mantemos a fé nele enquanto é invisível, sua presença inominável bane o ilusório.

Nosso rosto é invisível para nós mesmos, a menos que nos olhemos no espelho. Jesus é invisível até que o vejamos refletido na forma mística de seu corpo, a igreja de todo o cosmos.

Na perspectiva da vida de fé, Jesus se faz visível em cada um. O mandamento único de amar uns aos outros abre o caminho para entender que "eu sou o meu próximo". A cada dia, essa percepção muda tudo, subvertendo todos os sistemas de poder construídos. Vê-lo transforma a vida em nível pessoal e social. A consciência unificada inunda a alma do mundo com uma energia de paz mais poderosa do que todas as forças da raiva e da violência combinadas. "Porque ele é a nossa paz: aquele que fez de dois povos um" (Efésios 2, 14). Então, como podemos prejudicar intencionalmente o outro sabendo que estamos prejudicando a nós mesmos e ao todo ao qual pertencemos? Essa perspectiva explica por que Jesus nos chama amigos. Nosso amigo é “o outro mesmo, o próximo”.

Para ver a si mesmo, uma pessoa deve olhar para o outro e focar-se no outro (Fr. John Main, OSB).

À medida que essa perspectiva cresce, a vida se torna uma conversa de iguais respeitosos. Alimenta o crescimento de uma sociedade justa e pacífica para a qual a democracia, por mais imperfeita e confusa que seja, é a melhor ferramenta imediata. Quando a democracia é praticada, a silhueta opaca do reino começa a ser perceptível. Às vezes, como numa comunidade ou numa família, pode mesmo, como uma estrela cadente, brilhar visivelmente, como quando uma cidade inteira esquece os seus problemas e acolhe os estranhos com maiores necessidades imediatas...

No entanto, o que quer que façamos, não é uma solução, nem mesmo uma explicação. A vida não pode ser reduzida a generalidades. Generalizar sobre isso não o torna real: torna-se real apenas quando uma nova maneira de ver surge sobre nós e nos convence de sua verdade. O alvorecer vem antes do amanhecer. A aurora em si é um processo, a aurora é um acontecimento. O próprio acontecimento é um reconhecimento inegável, instantâneo e irreversível: uma percepção sobre a qual podemos ter pensado por muito tempo é real. A aurora da realidade também é importante porque, se não fosse o acontecimento, não haveria processo.

A meditação é o processo imediato que purifica nossos corações diariamente e nos leva a esse estado de consciência unificado mais íntimo e definitivo que chamamos de 'mente de Cristo'.

A visão cristã da realidade é ver todas as coisas como um todo, interconectadas e crescendo juntas, e não faz uma divisão abstrata entre a Igreja e o mundo. A Igreja pode se tornar dolorosa e ridiculamente mundana e o mundo pode ser santo e sagrado. É uma questão de percepção, de ver o que é e como nos relacionamos com isso. Esta percepção nascente da realidade é a fé, a "prova das coisas que não se veem" (Heb 11,1). É por isso que na meditação "não colocamos nossos olhos nas coisas visíveis, mas nas invisíveis" (2 Cor 4,18). Ao amanhecer, a meditação move as montanhas da ilusão dentro da mente e cura as feridas da divisão entre nós e os outros.

Muitas pessoas sentem associações tóxicas quando ouvem as palavras "Igreja, cristão ou cristianismo", dificultando a comunicação da essência da fé. Mas também é difícil ver como a doença do mundo de hoje pode ser curada sem que o espírito do cristianismo participe do processo de renascimento da humanidade por meio de uma transformação universal da consciência. Talvez a contribuição da fé cristã seja favorecida considerando a palavra "Igreja" mais como um verbo, um modo de ver e estar juntos, do que como uma instituição ou uma ideologia. Isso pode acontecer se um número suficiente de cristãos se enxergar como parte de um movimento contemplativo de mudança, parte de um corpo místico que muda a maneira como a humanidade se vê.

[...] Que tipo de oração é necessária para ativar a nova consciência necessária para nossa sobrevivência e transformar esta crise em uma noite escura em que a humanidade se transformará em outra coisa? É claro que precisamos de oração, mas de que tipo? É a oração que Jesus ensinou no seu grande Sermão da Montanha, a 'oração pura' que dele flui para a tradição contemplativa que nos liga a ele.

Os antigos mestres nos dizem que a oração em si é boa, tão necessária para a integridade humana quanto um ambiente saudável, dieta e exercícios são para o bem-estar físico. Mas, mesmo levando em conta todos os estilos, formas e expressões da frase, o que é essencialmente a oração em si? Precisamos saber disso para manter todas as suas expressões — sacramental, bíblica, devocional, pessoal e comunitária — autênticas e transformadoras. Um dos elementos essenciais da oração pura é que ela muda a pessoa que ora. Não é uma tentativa de entorpecer nossa mente ansiosa ou mudar a mente de Deus. Não precisamos rotular algumas formas de oração como "contemplativas" porque, se conhecermos a essência da oração, todas as formas de oração se tornam essenciais. Tijolo por tijolo, a oração desmantela a parede do ego até que ela desmorone e a união possa ser feita.

Agostinho nos disse para amar e fazer o que queremos. Poderíamos dizer 'medite e reze como quiser'. A meditação nos dá o sabor da oração pura e de seus frutos. Encontra-se na pobreza, através do abandono dos pensamentos e da imaginação, e então conduz à pureza do coração. Pureza e pobreza levam uma à outra, e juntas se tornam o caminho reto e estreito para o reino.

O que estou tentando fazer aqui não é apresentar novas ideias. A oração é mais do que uma ferramenta para a renovação da Igreja, embora a transformação social seja fruto da conversão pessoal do coração. É lembrar o que Jesus ensinou como objetivo final e que sua forma de ensinar nos prepara para fazer como ele fez. "Temos a mente de Cristo." Em palavras, ele usou especialmente parábolas simples em vez de declarações dogmáticas ou soluções sutis. Sua maneira de ensinar forma um tipo particular de identidade em seus discípulos. Aprender, é claro, sempre nos faz ver novos aspectos da paisagem de nossas mentes e vidas. Aprender qualquer coisa, um idioma, como programar uma televisão, como fazer uma boa omelete, como criar filhos, até mesmo como entender as placas do aeroporto de Paris, expande nossas mentes e o mundo em que vivemos.

Aprender não é lavagem cerebral. Requer uma mudança de foco e percepção, bem como uma abertura para outros pontos de vista. A experiência da oração pura que a meditação abre mudará a forma de compreender o próprio ensinamento de Jesus. Nas parábolas e na história da vida de Jesus, ainda veremos o primeiro nível óbvio de significado. Mas, com a atenção pura e amorosa que muda nossa mente, veremos outros aspectos em níveis mais sutis e reais. Não se trata de encontrar respostas ou soluções, mas de ver o que antes não víamos. Nesse sentido, a própria vida é uma parábola que nos ensina seu significado e propósito...

À medida que avançamos, equivocados, pelas mudanças climáticas e tempestades políticas, podemos ser tentados a nos apegar à oração como uma fuga da realidade. Seria um meio de entorpecer o medo e reforçar as ilusões. Podemos nos consolar com o pensamento de que podemos provocar mudanças simplesmente rezando com boas intenções. A oração mudará o mundo quando soubermos como nós, Deus e o mundo somos um. Quando estamos em estado de metanoia (conversão), mudar nossas formas de percepção nos tornará agentes de transformação em nosso mundo, quer saibamos disso ou não.

Não muito tempo atrás, um estado americano aprovou uma lei proibindo o ensino da evolução nas escolas e exigindo uma interpretação literal do mito bíblico da criação. Hoje, a Arábia Saudita e o Egito proíbem o ensino da evolução, e cerca de 46% dos americanos (Gallop 2012) agora acreditam que o mundo foi feito em seis dias.

Uma crença de que eles são livres para manter. No entanto, é tão improvável que eles estejam certos quanto que a Terra seja plana ou que Elvis ainda esteja vivo. As pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem, mas os governos e outras pessoas influentes têm o direito de negar às pessoas o direito, as evidências e o treinamento educacional para escolher por si mesmas? Qual é a agenda política por trás da manipulação da mente das pessoas, prendendo-as em formas de percepção desse tipo? É por isso que a meditação é importante. As falsas percepções de qualquer tipo limitam nossa capacidade de abrir os olhos de um coração purificado.

Considere a mudança climática. Temos a ciência e os recursos financeiros para mudar nosso curso desastroso. Mas nos falta a mente e a vontade coletivas, a percepção da solidariedade humana e, sobretudo, a confiança no bem comum que transcende o nacionalismo e a ganância. Como ajudamos as mentes a se abrirem, a verem aspectos novos e mais profundos da realidade? É por isso que nossa comunidade pediu a Herman van Rompuy, um caso raro de político e estadista meditativo, para liderar o Seminário John Main deste ano sobre a crise que a democracia enfrenta. John Main entendeu por que a meditação está ligada a esta questão hoje. Ele entendeu como o objetivo final do Reino e o objetivo imediato da pureza de coração se encontram neste mundo e em nossa responsabilidade de redimi-lo por amor. Ele sabia que a contemplação é a base da civilização, eliminando o medo e abrindo uma nova visão da realidade. A meditação nos ensina a aprender, a ouvir, a equilibrar as diferentes ideias e a reconhecer a diferença entre ilusão e realidade, mentira e verdade. Permite-nos ver, com humor em vez de medo, que a verdade é maior do que pensamos, como por exemplo no famoso teste de percepção: É um coelho ou um pato?

É isso ou aquilo? Ou são os dois ao mesmo tempo? Ver os dois aspectos te assusta ou te expande? Ver que o "Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rm 14, 17), é estar no caminho que une os objetivos últimos e imediatos da vida em um matrimônio de contemplação e ação, Jesus e o Cristo, e todos os coelhos e patos da realidade. A unidade ocorre em um espaço expandido de percepção. Restaura a harmonia perdida da totalidade dentro e entre nós. Não meditamos simplesmente para aliviar o estresse e a ansiedade que nosso "Cavaleiro das Trevas" produziu, mas para chegar à sua causa raiz e transformá-la. Como costumava dizer um mestre medieval de oração contemplativa na linguagem de seu tempo, "este trabalho de oração seca a raiz do pecado em você".



Carta de Laurence Fr. Laurence Freeman, OSB




Fonte do Texto e da Gravura: Bonnevaux - Centre for Peace
Bonnevaux, 86370 Marçay, France
https://bonnevauxwccm.org/

NUNCA TORNAR-SE UM DESERTO


Nunca deixeis de amar e de fazer o bem. Ainda que os outros vos tenham enganado centenas de vezes, deixai correr a vossa fonte, senão vós é que perdereis tudo. Se vos fechardes, por certo já ninguém poderá enganar-vos, ludibriar-vos, mas a água da vossa fonte espiritual deixará de correr e perdereis a vida. Sim, mas, quando deixais secar a vossa fonte, o mundo divino fecha-se e vós ficais pobres, vazios... De um ponto de vista educativo, por vezes é útil fecharmo-nos para com alguém que precisa de aprender a corrigir-se, mas é muito prejudicial fecharmo-nos em relação aos humanos em geral. Quer as pessoas mereçam, quer não, deixai correr em vós a fonte do amor. Dir-me-eis: «Sim, mas isso é injusto, há pessoas que não merecem que eu goste delas!» Não tem importância; praticai essa injustiça, senão transformar-vos-eis num deserto!



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 4 de junho de 2023

FESTIVAL DO ESPÍRITO SANTO


O Espírito Santo cujo princípio é celebrado no Pentecostes, nos recorda nesta segunda parte do ano (de Pentecostes ao Advento, seis meses) o que foi ensinado na primeira parte do ano (do Advento ao Pentecostes, seis meses).

A ideia fundamental em torno do qual o cristianismo gravita é este da Santíssima Trindade, de Quem tudo nos vem e a Quem todos devem regressar. Depois de nos lembrar no decorrer do ano litúrgico o Pai Criador, o Filho Redentor e o Espírito santo Santificador e Regenerador das almas, nesta comemoração é recapitulado os elementos concernentes ao grande mistério em que adoramos a Deus Uno em Natureza e Trino em Pessoas.

O tema da Santíssima Trindade aparece constantemente na liturgia. É em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo que se começa e acaba a Missa e o Ofício e se conferem os Sacramentos. Todos os salmos fecham pelo "Gloria Patri", os hinos pela doxologia e todas as orações concluem em termos cheios de devoção e de ternura para com as Três Pessoas divinas. O simbolismo da Santíssima Trindade resplandece ainda nos templos. Sempre e em toda a parte, no menor detalhe da ornamentação, o número três tem lugar de honra, marca um pensamento de fé na Santíssima Trindade. A iconografia cristã também nos traduz, de diferente maneira, o mesmo pensamento. Até o século XII era comum representar o Pai, a Primeira Pessoa, por uma mão que saía dentre as nuvens do Céu a abençoar. Nos séculos XIII e XIV começou a aparecer primeiramente a face e depois todo o busto. A partir do século XV começou o Pai a ser figurado por um ancião revestido das vestes pontificais. Até o século XII a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade era figurada com mais frequência pela cruz ou pelo cordeiro e ainda por um gracioso jovem no jeito do Apolo grego. Do século XI ao XV, é o Cristo forte, já no vigor da idade, que nos aparece. A partir do século XVI entra o costume de lhe pôr a cruz e de o representar frequentemente pelo cordeiro. O Espírito Santo, a Terceira Pessoa, aparecia nos primeiros séculos sob a figura tradicional da pomba, tocando com as asas abertas na boca do Pai e na do Filho como argumento da sua procedência. A partir do século XI é na figura dum menino que o encontramos por vezes. No século XV, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, assume as proporções dum homem feito semelhante ao Pai e ao Filho, somente com a pomba na mão ou na cabeça para se distinguir das outras Pessoas. Depois do século XVI, a pomba volta a tomar o lugar exclusivo na representação do Espírito Santo. A geometria concorreu também para a simbólica da SS. Trindade. O trevo teve por sua vez lugar de relevo na simbologia tradicional, e igualmente os três círculos enlaçados com a palavra unidade inscrita no lugar vazio pela intersecção. Foi ainda representada por uma cabeça com três faces distintas.

Esotericamente falando, o Espírito Santo corresponde à Terceira Pessoa do Logos, o "Espírito de Deus que paira sobre a face das águas" do espaço e assim traz à existência a matéria qual a conhecemos hoje. À sua energia se devem tosas as combinações primárias dos átomos últimos de nossos planos (de existência).

"O Senhor, o Dispensador de Vida": Bem merece tal título, não só pela grandiosa obra que realizou ao vir à existência o sistema solar e porque dele procede toda a vida de que conhecemos alguma coisa, pois o onipresente fluido vital é a manifestação de sua atividade nestes planos de existência inferiores, como também pela obra igualmente estupenda que mesmo agora ele está realizando.

Os princípios do homem, que chamamos espírito, intuição e inteligência, não são apenas simples correspondência, ou mesmo reflexos ou raios, das Três Grandes Pessoas do Logos, e, sim, em pura verdade, são essas próprias entidades gloriosas, incriadas, incompreensíveis, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Nos primeiros dias do Cristianismo, o Espírito Santo foi uma realidade na vida dos cristãos. Enquanto Cristo viveu na Terra, foi naturalmente o centro de inspiração de seus discípulos, os quais se dirigiam a ele pedindo ensinamentos e conselhos sobre todo assunto. Antes de sua morte, Cristo disse aos seus discípulos que ia partir mas não os deixaria desamparados, e sim, rogaria ao seu Pai que lhes enviasse outro Paracleto, o Consolador, isto é, o Espírito de Verdade, o Espírito Santo; e conferiu o poder de invocar o Espírito Santo àqueles em que ele pusesse as mãos, o que ainda se efetua na Igreja, ao conferir as Ordens sagradas. Enquanto o sacerdócio dos primitivos templos esteve ligado ao Deus Espírito Santo, foi possível a muitos, quando se esforçavam, por-se em contato com o Espírito Santo, e derivar desta Potestade os chamados dons do Espírito Santo, tais como o da profecia, ensinamentos inspiradores, cura dos enfermos, a expulsão dos espíritos malignos ou impuros, o poliglotismo e muitas outras manifestações análogas. Na Igreja primitiva, a inspiração do Espírito Santo, provinda do interior, substituiu a que os discípulos de Cristo receberam dele diretamente, durante toda a sua vida. Sem dúvida, nem sempre era fácil distinguir entre as genuínas manifestações desta grande Potestade e os frequentes excessos histéricos que a remedam e são indícios de uma natureza desequilibrada. Assim é que já São Paulo achou necessário prevenir suas congregações contra semelhantes, desequilibradas e às vezes falsas manifestações, que em algumas igrejas primitivas ocasionaram perturbações.

As coisas se modificaram quando o Cristianismo pouco a pouco foi se concentrando ao redor da Igreja de Roma. Desde o princípio, o mundo latino inclinou-se para o Cristianismo, não tanto pelos dons do Espírito Santo manifestado em seus fieis, e sim, pelo conceito de um Deus que era Pai de todos os homens e não apenas dos cidadãos romanos. A vida religiosa de milhões de pessoas submetidas ao governo de Roma já não estaria determinada por privilégios de berço ou cidadania, senão que dali em diante participariam dela todos os homens, porque todos eram filhos de um só Deus, o Pai de todos. O anelo da fraternidade universal dos homens, tanto romanos como estrangeiros, foi um dos sinais salientes da época e um sintoma do reavivamento espiritual do mundo.

Novamente a tônica do Cristianismo se modifica ao propagar-se pela Europa ocidental. Na Idade Média, nem Deus Pai nem Deus Espírito Santo inspiram a vida religiosa daqueles tempos profundamente devotos, senão que a figura central da vida da Igreja é Jesus Cristo, o Homem das Aflições, que suporta o fardo da espécie humana e com divina compaixão pelos pecados do mundo oferece Sua vida em sacrifício para salvá-lo. Assim, a Idade Média nos mostra um Cristianismo em que a figura de Cristo é o objeto capital da intensa devoção e mística piedade de que a mente medieval foi capaz no mais alto grau. Nunca adornou a Igreja uma tão ardente adoração, uma compaixão tão terna e uma tão íntima unidade com a vida de Cristo, como naqueles dias, quando os insignes santos e místicos medievais, com sua fervente adoração e a veemente devoção de suas consagradas vidas, alcançaram os pináculos espirituais e ficaram na história da religião cristã como luzeiros entre as tenebrosas páginas de ignorante hipocrisia e perseguição cruel.

Contudo, o Renascimento assinalou a transição e o começo de um novo período da história do Cristianismo, em que o fator predominante ia ser Deus Espírito Santo. A teoria da evolução, os conceitos filosóficos de Bergson, a hipótese da relatividade de Einstein, que formará época na história da ciência, bem como a arte cinematográfica, e em geral o mais vivo reconhecimento da obra de Deus neste mundo que nos rodeia, são todos eles, e ainda outros mais, os sinais dos tempos que anunciam o reinado do Espírito Santo. No Cristianismo, num imediato futuro, Deus Espírito Santo ocupará o mesmo lugar proeminente que durante a cristandade latina ocupou Deus Pai, e durante a Idade Média Deus Filho, na vida da Igreja. Incontestavelmente o Cristo vivo, o verdadeiro coração da fé cristã será sempre a suprema realidade da Igreja cristã; porém, assim como nas passadas idades da história cristã predominaram sucessivamente as duas primeiras Pessoas da Trindade, da mesma forma na idade futura prevalecerá a influência do Espírito Santo. Por isto, faz-se necessário hoje, mais do que nunca, obter-se um melhor conhecimento da terceira Pessoa da Trindade e de Sua atuação e influência em nossa vida diária, não apenas na religião cristã, como em todas as religiões fundamentais do mundo, pois em toda a parte a dita influência se fará sentir.

Na Trindade divina o Pai é a vontade criadora; o Filho é Deus crucificado em sua própria criação; e Deus em sua criadora atividade, que projeta seu universo e o cria pelo poder de sua mente, é o Deus Espírito Santo. Com esta energia de Deus nos pomos em contato, por meio da mente superior, e ao experimentar este contato nos convencemos de que há um só Poder, uma Força, uma Energia em todo o Universo, isto é, a Energia criadora de Deus o Poder do Espírito Santo.

É fácil compreender a importância que tem para nossa vida diária o conceito dinâmico do Universo do Espírito Santo. Isto nos capacita a considerar tudo sob o seu aspecto de energia, e entrar em contato, por assim dizer, com o poder criador que impulsiona tudo para a perfeição. Este contato infunde em nós a criadora energia do Espírito Santo, inflama em nós o Fogo criador, e então somos capazes de empreender e realizar obras que comumente éramos incapazes de realizar. O contato com o dinâmico Universo converte o homem em vidente e profeta, em reformador entusiasta, e lhe vitaliza todas as modalidades de sua existência. Certamente o de profecia é um dos dons do Espírito Santo, pois o passado e o futuro são constante realidade no ritmo da criação, na qual se manifesta o Espírito Santo, a cujo reino pertence o conhecimento do ciclo máximo da criação e dos inumeráveis ciclos menores da historia da Natureza, das raças, das nações e dos indivíduos.

O Festival do Espírito Santo é o terceiro e último dos principais festivais é o que ocorre na Lua Cheia, no signo de Gêmeos. É o festival do Espírito Santo no qual a humanidade aspira alcançar o Divino (Santo Espírito). Mais do que em qualquer outro dia do ano, as forças e energias de Reconstrução estão presentes, atuando com a máxima intensidade.

Ao encerrar essas reflexões sobre a experiência do Espírito Santo, poder-se-ia parafrasear Paulo: Vivei e convivei sempre alegres e em equilíbrio com todas as formas de vida emanadas pelo Deus-em-nós. Em todas as circunstâncias dai graças e espaço ao Reino de Deus e ao sopro do Espírito. Não extingais o Espírito, sua dinâmica e seus impulsos de vida. Não desprezeis as profecias e escutai sempre de novo a voz dos profetas. Examinai tudo e ficai com o que é bom, com o que é belo, com o que é saudável, com o que é justo, com o que é amoroso. Abstende-vos de toda espécie de mal, de injustiça, de opressão, de morte.



Fontes:
- "Missal Quotidiano e Vesperal", de Dom Gaspar Lefebvre
- "O Credo Cristão", de Charles W. Leadbeater
- "O Fogo Criador", de J. J. van der Leeuw
- "O Espírito Santo Deus-em-nós: uma pneumatologia experiencial", de Volney J. Berkenbrock

sábado, 3 de junho de 2023

O FESTIVAL DE ASALA (EM GÊMEOS)


Além do grande Festival de Wesak, há uma outra ocasião anual quando todos os membros da Fraternidade se reúnem oficialmente. Neste caso o encontro acontece usualmente na residência particular do Senhor Maitreya, situada também nos Himalaias, mas no flanco sul em vez de no flanco norte. Nesta ocasião nenhum peregrino está presente em corpo físico, mas todos os visitantes astrais que sabem da celebração são bem-vindos para assisti-la. Ela se dá na lua cheia do mês de Asala (Ashadha / Asadha, em sânscrito), usualmente correspondendo ao nosso mês de junho. Este é o aniversário da primeira proclamação, pelo Senhor Buda, de sua grande descoberta - o Sermão que ele pregou aos seus cinco discípulos, comumente conhecido como Dhammachakkappavattana Sutta, que foi poeticamente traduzido por Rhys Davids como "A Colocação em Movimento das Rodas da Carruagem Real do Reino da Retidão". Amiúde ele é traduzido com maior brevidade como "O Giro da Roda da Lei". Ele explica pela primeira vez as "Quatro Nobres Verdades" e a "Nobre Senda Óctupla", expondo o grande "Caminho do Meio do Buda" - a vida de perfeita retidão no mundo, que fica a meia distância entre as extravagâncias do ascetismo de um lado, e a negligência da mera vida mundana de outro.

Em seu amor por seu grande antecessor, o Senhor Maitreya ordenou que sempre que chegasse o aniversário desta primeira prédica o mesmo Sermão deveria ser recitado em presença da Fraternidade reunida, e ele (Maitreya), via de regra, acrescenta uma pequena mensagem própria, expondo-o e aplicando-o.

A récita do Sermão começa no momento da lua cheia, e a leitura e os comentários adicionais usualmente encerram-se ao fim de meia hora. O Senhor Maitreya geralmente assume seu lugar no assento de mármore que está colocado na beira do terraço do adorável jardim que fica bem em frente à sua casa. Os Oficiais mais graduados sentam-se ao seu redor, enquanto que os demais agrupam-se no jardim, poucos metros abaixo. Nesta ocasião, assim como na outra (Wesak), há muitas vezes oportunidade para agradáveis conversas, e os Mestres distribuem amáveis bênçãos entre seus discípulos e aqueles que aspiram a ser seus discípulos.

Pode ser útil fazer uma descrição da cerimônia e do que usualmente é dito nestes Festivais, embora seja, é claro, completamente impossível reproduzir a maravilha e a beleza da eloquência das palavras do Senhor Maitreya em tais ocasiões. O relato que segue não tenta reproduzir nenhum discurso específico, é, antes, uma combinação de fragmentos imperfeitamente relembrados, alguns dos quais já tendo aparecido em outros lugares; mas para aqueles que não os ouviram antes darei uma ideia da linha geralmente seguida.

O grande Sermão é maravilhosamente simples, e seus pontos principais são repetidos muitas vezes. Não havia blocos de notas naqueles dias, de modo que pudesse ser escrito e lido por todos após; seus discípulos tinham que lembrar suas palavras através da impressão que elas lhes causaram naquele momento. Assim, ele os compôs com simplicidade, e os repetiu muitas vezes à guisa de refrão, para que as pessoas pudessem recordar. Ao lermos o Sermão temos a impressão de que ele foi construído com um propósito especial - para que pudesse ser facilmente lembrado. Seus pontos são arranjados de forma sequencial, de modo que quando um ponto é mencionado ele já leva ao seguinte, num jogo mnemônico eficiente, e para os Budistas cada uma destas palavras separadas sugere todo um corpo de ideias relacionadas, e assim o Sermão, curto e simples como é, contém uma explicação e toda uma regra de vida.

Poderíamos pensar que tudo que pode ser dito sobre o Sermão já foi dito muitas vezes; porém o Senhor, com sua maravilhosa eloquência, e da forma que ele o apresenta, a cada ano traz ao sermão uma nota nova, e cada pessoa sente sua mensagem como se fora especialmente endereçada a ela. Nesta ocasião, assim como na pregação original, repete-se o milagre Pentecostal. O Senhor fala no sonoro páli original, mas todos os presentes o ouvem "na língua em que nasceram", como se diz no Ato dos Apóstolos.

O Sermão inicia com a proclamação de que o Caminho mais seguro é o do Meio, e na verdade o único verdadeiro Caminho. De um lado, mergulhar nos excessos sensuais e prazeres da vida mundana comum é vil e degradante, e não leva o homem a lugar algum. Por outro lado, o ascetismo excessivo é mau e inútil. Pode haver alguns a quem atraia a vida altamente ascética e solitária, e que sejam capazes de levá-la corretamente, embora mesmo então ela não deve ser excessiva; mas para todas as pessoas comuns o Caminho do Meio de uma boa vida vivida no mundo é sob todos os aspectos o melhor e mais seguro. O primeiro passo em direção a uma vida assim é entender as suas condições, e o Senhor Buda as apresentou para nós no que ele chamou de "As Quatro Nobres Verdades". Elas são:

1 Sofrimento / Aflição;

2 A Causa do Sofrimento;

3 A Cessação do Sofrimento (A Fuga da Aflição);

4 O Caminho que leva à Cessação do Sofrimento.

1 e 2 - Sofrimento e sua Causa: A Primeira Verdade é uma declaração de que toda a vida manifesta é tristeza, a menos que o homem saiba como vivê-la. Comentando sobre isso, o Bodhisattva disse que há dois sentidos em que a vida manifesta é triste. Um deles é de certa maneira inevitável, mas o outro é um completo erro que pode mui facilmente ser evitado. Para a Mônada, que é o verdadeiro Espírito do homem, toda vida manifesta é em certo sentido uma tristeza, pois é uma limitação, uma limitação que em nossa consciência física não podemos sequer conceber, porque não temos a menor ideia da gloriosa liberdade da vida superior. Exatamente no mesmo sentido sempre tem sido dito que Cristo oferece a Si mesmo em sacrifício quando Ele desce à matéria. Sem dúvida é um sacrifício, porque se trata de uma limitação inexprimivelmente grande, pois lhe retira todos os gloriosos poderes que são seus no seu próprio nível. O mesmo vale para a Mônada do homem; ela sem dúvida faz um grande sacrifício quando entra em contato com a matéria inferior, quando paira sobre ela pelas longas eras de seu desenvolvimento até o nível humano, quando ela desce um pequeno fragmento de si mesma (como que a ponta de um dedo) e com isso forma um ego, ou alma individual. Mesmo que possamos ser apenas um pequeno fragmento - de fato, um fragmento de um fragmento - somos não obstante parte de uma realidade magnífica. Não há nada para nos orgulharmos em sermos somente um fragmento, mas há por outro lado a certeza de que pelo mesmo motivo somos parte do superior, e por isso podemos eventualmente ascender ao superior e lá nos tornarmos unos com ele. Este é o fim e objetivo de toda nossa evolução. E mesmo quando chegarmos lá, lembremos que não será para nosso deleite no avanço, mas para que possamos ser capazes de ajudar no esquema. Todos estes sacrifícios e limitações podem corretamente ser descritos como envolvendo sofrimento, mas eles são assumidos com alegria assim que o ego os entende plenamente. Como um ego não tem a perfeição da Mônada, não entende, de início, a finalidade do sacrifício, e assim ele tem de instruir-se como todos os demais. Esta imensa limitação a cada degrau descendente em direção à matéria é um fato inescapável, e assim há muito sofrimento inseparável da manifestação. Temos de aceitar esta limitação como um meio para um fim, e como parte do Esquema Divino.

Há um outro sentido em que a vida é muitas vezes uma tristeza, mas um tipo de tristeza que pode ser inteiramente evitado. O homem que vive a vida comum do mundo muitas vezes se encontra aflito de várias maneiras. Não seria verídico dizer que ele está sempre triste, mas que frequentemente está ansioso, e que está propenso a cair a qualquer momento em grande tristeza ou ansiedade. A razão para isso é que ele está cheio de desejos inferiores de vários tipos, não todos necessariamente maus, mas desejos por coisas baixas, e por causa destes desejos ele permanece atado e confinado aqui "embaixo". Ele está constantemente tentando obter alguma coisa que não possui, e fica cheio de ansiedade sobre se a obterá ou não, e quando a consegue, fica ansioso temendo perdê-la. Isso vale não só para o dinheiro, mas também para posição e poder, fama e progresso social. Todos estes desejos causam problemas incessantes de muitas formas diferentes. Não é só a ansiedade individual do homem que tem ou não algum objeto de desejo geral, temos de levar em conta ainda toda a inveja e ciúme e maus sentimentos causados nos corações dos outros que estão lutando pelo mesmo objeto. [...]

3 - Cessação do Sofrimento: Vimos que a Causa do Sofrimento é sempre o desejo. [...] Entenderemos, então, como o sofrimento cessa e como a calma é obtida: sempre mantendo-se o pensamento nas coisas superiores. Temos ainda de viver neste mundo, que foi descrito poeticamente como "a estrela tristonha" - como o é de fato para muitas pessoas, embora não precise sê-lo, pois podemos viver nele muito felizes se não estivermos acorrentados a ele pelo desejo - ou pelos menos não em uma extensão que nos cause preocupações, problemas e vexames. Sem dúvida nosso dever é ajudar aos outros em suas aflições e problemas e preocupações, mas a fim de fazê-lo com eficácia não devemos ter nada disso em nós mesmos. Devemos deixar que aqueles torvelinhos, que poderiam fazer os outros cair, passarem suavemente, mantendo-nos calmos e contentes. Se levarmos esta vida inferior com filosofia veremos que para nós terminam quase todas as tristezas. Pode haver alguns que considerem esta atitude inatingível. Não é assim, pois se o fosse o Senhor Buda jamais a teria aconselhado para nós. Todos nós podemos conquistá-la, e deveríamos fazê-lo, pois somente quando a conquistarmos poderemos real e efetivamente ajudar nossos irmãos.

4 - O Caminho que leva à Cessação do Sofrimento: "A Senda Óctupla". [...] A Nobre Senda Óctupla - outra daquelas maravilhosas classificações ou categorizações do Senhor Buda. É uma apresentação muito bela, pois pode ser aplicada a todos os níveis. O homem do mundo, mesmo o inculto, pode tomar seus aspectos inferiores e encontrar um caminho para a paz e o conforto através dela (a Senda). E mesmo o mais erudito filósofo pode também aceitá-la e interpretá-la no seu nível e aprender muito com ela.

O primeiro passo nesta Senda Óctupla é a Reta Crença. Algumas pessoas objetam a esta qualificação, pois dizem que exige delas algo como uma fé cega. Não é nada disso o que é requerido, é antes a exigência de um certo conhecimento sobre os fatores que governam a vida. Exige que entendamos um pouco do Esquema Divino até onde ele se aplica a nós, e se não podemos ver por nós mesmos, devemos aceitar o que nos dão. [...] É bem verdade que as escrituras e religiões diferem, mas os pontos em que todas concordam têm de ser aceitos por uma pessoa antes que ela possa entender a vida o bastante para viver feliz. Um destes pontos é a eterna Lei de Causa e Efeito. Se uma pessoa vive sob a ilusão de que pode fazer tudo o que quiser, e que os efeitos de suas ações jamais voltarão para ela, certamente descobrirá que algumas destas ações eventualmente a envolverão em infelicidade e sofrimento. Se, ainda, ela não entende que o objetivo da vida é o progresso, que a Vontade de Deus para ela é que ela cresça para ser algo melhor do que é agora, então ela atrairá infelicidade e sofrimento para si mesma, pois provavelmente viverá apenas o lado inferior da vida, e este lado jamais pode, em última análise, satisfazer o homem interno. [...]

O segundo passo da Nobre Senda Óctupla é o Reto Pensamento. [...] Devemos ter sempre como pano de fundo em nossas mentes pensamentos belos e elevados, ou senão estas mentes poderão se encher de pensamentos sobre os assuntos cotidianos comuns. Não haja enganos aqui - qualquer trabalho que estivermos fazendo deve ser feito completa e diligentemente, e com a concentração de pensamento que for necessária para seu acabamento perfeito. [...] Aqueles que se devotam ao Mestre procuram sempre manter o pensamento naquele Mestre como o cenário de suas mentes, de modo que quando há um momento de pausa na ação no mundo de imediato aquele pensamento nele vem para a frente e ocupa a mente. Imediatamente o discípulo pensa: "O que posso fazer para tornar minha vida como a do Mestre? Como posso melhorar a mim mesmo para que possa mostrar a beleza do Senhor para aqueles ao meu redor? O que posso fazer para colaborar em seu trabalho de ajudar as outras pessoas?" Uma das coisas que todos podemos fazer é enviar pensamentos de ajuda e simpatia. Lembremos, ainda, que o Reto Pensamento deve ser definido e não fragmentário; pensamentos que demoram só um momento sobre uma coisa e então voam instantaneamente para outra são inúteis, e não ajudarão em nada no aprendizado de como administrar nossos pensamentos. O Reto Pensamento jamais deve ter o menor toque de mal em si, nem deve ser de modo algum dúbio. [...] Há um outro significado no Reto Pensamento, e é o de pensamento correto - isto é, que devemos pensar apenas na verdade. Tantas vezes pensamos inverdades e maldades sobre pessoas apenas por causa de preconceitos ou ignorância. [...]

O terceiro passo é a Reta Fala. Devemos falar sempre sobre coisas boas. Não nos compete falar sobre as más ações alheias. Na maioria dos casos as histórias que nos chegam sobre as outras pessoas não são verdadeiras, e assim se as repetirmos nossas palavras serão inverídicas, e estaremos fazendo mal a nós mesmos e à pessoa de quem falamos. E mesmo se a história é real ainda é errado repeti-la, pois não podemos fazer nenhum bem a ela dizendo mil vezes que ela procedeu mal; a coisa mais gentil que podemos fazer é não dizermos nada. [...] Além disso, a fala deve ser gentil, e deve ser direta e conveniente, jamais tola. Uma grande parte do mundo vive sob a ilusão de que deve manter conversações, que é excêntrico ou descortês não estar perpetuamente tagarelando. [...] Lembremos que quando Cristo andou pela Terra, deixou um mandamento bastante claro de que a pessoa seria responsabilizada por toda palavra ociosa que proferisse. [...]

O quarto passo é a Reta Ação. De imediato vemos que estes três passos necessariamente seguem-se um ao outro. Se pensamos sempre coisas boas, certamente não falaremos coisas más, pois falamos o que existe em nossas mentes, e se nosso pensamento e fala são bons, então a ação que segue será boa também. A ação deve ser rápida, mas ao mesmo tempo ponderada. [...] Aprendamos a pensar agilmente e a agir com presteza, mas sempre ponderadamente. Acima de tudo, que a ação seja sempre altruísta, que jamais tenha como móvel a menor das considerações pessoais. [...] Devemos ter sempre em mente que nosso pensamento, nossa fala e nossa ação não são meras qualidades, mas sim poderes - poderes dados a nós para uso, uso pelo qual somos os responsáveis diretos. Todos devem ser empregados no serviço, e usá-los de outra forma seria falhar em nosso dever. [...]

O quinto passo é o Reto Meio de Vida. [...] Um Reto Meio de Vida é aquele que não causa mal a nenhum ser vivo. De imediato vemos que esta regra baniria ofícios tais como o de açougueiro e o de pescador, mas o mandamento vai muito além. Não devemos obter nosso sustento prejudicando qualquer criatura, e portanto vemos logo que a venda de bebidas alcoólicas não é um Reto Meio de Vida. O vendedor de bebidas não necessariamente mata pessoas, mas sem dúvida faz um mal, e vive deste mal que faz aos outros. Esta ideia vai ainda mais longe. Tomemos o caso do mercador que no desempenho de seu ofício é desonesto. Isso não é um Reto Meio de Vida, pois seu comércio não é justo e ele engana as pessoas. [...] Um meio de vida reto pode ser tornar errado se tratado de forma errada. [...]

O sexto passo é Reto Esforço ou Reto Empenho. [...] Não devemos nos contentar em sermos negativamente bons. O que é desejado de nós não é a mera ausência de mal, mas a positiva prática do bem. Quando o Senhor Buda fez aquela maravilhosa e curta apresentação de sua doutrina em um único verso, ele começou dizendo: "Cessa de fazer o mal", mas a seguir ajuntou: "Aprende a fazer o bem". Não é bastante sermos passivamente bons. Há muitas pessoas boas que mesmo assim não conquistam nada. [...] Reto Esforço significa colocarmos nosso trabalho ao longo de linhas úteis, sem desperdiçá-lo. Há muitas coisas que podem ser feitas, mas algumas delas são imediatas e mais urgentes que as outras. Devemos olhar em torno e procurar onde nosso esforço seja mais útil. [...]

O sétimo passo é a Reta Memória, ou Reta Lembrança. [...] A Reta Memória de que muitas vezes falou o Senhor Buda foi tomada pelos seus seguidores como a lembrança das encarnações passadas, um poder que ele possuía plenamente. [...] A maioria de nós, contudo, não tem o poder de lembrar as suas vidas passadas; mas com isso não devemos pensar que o ensinamento sobre a Reta Memória não se aplica a nós. Primeiramente ela significa auto-recolhimento. Significa que devemos lembrar todo o tempo quem somos, qual é nosso trabalho, qual é o nosso dever, e o que deveríamos estar fazendo pelo Mestre. Então mais uma vez Reta Memória significa o exercício de uma escolha razoável sobre o que devemos lembrar. Todos nós já experimentamos coisas agradáveis em nossas vidas, e também coisas desagradáveis. Uma pessoa sábia cuidará de lembrar as coisas boas, e deixará que as ruins feneçam. Suponhamos que alguém venha e nos fale com grosseria; uma pessoa tola lembraria disso por semanas, meses e anos, e continuaria a dizer que tal pessoa lhe tratou mal; isso se agravará em sua mente. Mas que bem lhe trará? Obviamente nenhum, só a aborrecerá e manterá vivo em sua mente um mau pensamento. Certamente isso não é Reta Memória. Devemos imediatamente esquecer e perdoar o mal que nos fazem, mas devemos manter sempre na mente a gentileza que recebemos, pois isso encherá nossa mente de amor e gratidão. Com certeza todos havemos de ter cometido muitos erros, é bom lembrarmos deles para que não os repitamos, mas ir além disso e os ficar remoendo, sempre enchendo nossa mente de remorso e tristeza por sua causa não é Reta Memória. [...]

O oitavo e último passo é chamado de Reta Meditação ou Reta Concentração. Ele se refere não só à meditação habitual que realizamos como parte de nossa disciplina, mas também que ao longo de todas as nossas vidas devemos nos concentrar no objetivo de fazermos o bem e de sermos úteis e prestativos. [...] Não podemos manter nossas consciências sempre fora do plano físico. Lá nos níveis superiores, porém é possível viver uma vida de meditação no sentido de que as coisas superiores estejam sempre tão poderosamente presentes no pano de fundo de nossas mentes que, assim como eu falei sobre o Reto Pensamento, elas de pronto passem para o primeiro plano quando a mente não se encontrar ocupada com outra coisa. Nossa vida então será de fato uma vida de meditação perpétua sobre os objetos mais nobres e elevados, interrompida aqui e ali pela necessidade de colocar nossos pensamentos em prática da vida diária. Um tal hábito de pensamento nos influenciará de mais maneiras do que imaginamos a princípio. O semelhante atrai o semelhante; duas pessoas que adotam tal linha de pensamento logo se encontrarão, sentirão atração uma pela outra [...]. Além disso, aonde quer que andemos seremos rodeados de multidões invisíveis, Anjos, espíritos da Natureza e pessoas que já deixaram seus corpos físicos. A condição de Reto Pensamento atrairá para nós os melhores tipos dentre aquelas classes de seres, de modo que aonde formos seremos rodeados por influências boas e nobres.

Este é o ensinamento do Senhor Buda assim como ele o deu naquele primeiro Sermão; é sobre este ensinamento que está fundado o Reino universal da Retidão, cujas Rodas de sua Carruagem Real ele colocou em marcha pela primeira vez naquele Festival de Asala há tantos séculos passados. Quando, no longínquo futuro, chegar o tempo do advento de um outro Buda, e o atual Bodhisattva encarnar pela última vez a fim de dar este grande passo, ele pregará a Lei Divina para o mundo na forma que lhe parecer mais adequada para as necessidades daquela era, e então o sucederá em seu posto o Mestre Kuthumi, que se transferiu para o Segundo Raio a fim de assumir a responsabilidade de se tornar o Bodhisattva da sexta Raça-Raiz.



Charles W. Leadbeater




Fonte: Excertos do livro "Os Mestres e a Senda"
Da edição espanhola "Los Maestros y el Sendero", traduzida do inglês por Frederico Climent Terrer, e para o português por este blog. Ediciones EISA, Biblioteca Orientalista, Mexico, D.F., 1956
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/buda-medita%C3%A7%C3%A3o-relaxamento-meditar-709880/

A LUA CHEIA DE GÊMEOS


Na Lua Cheia de Gêmeos ocorre  o Festival ou comemoração também referido como:

FESTIVAL DE MAITREYA
FESTIVAL DE CRISTO
FESTIVAL DE ASALA
FESTIVAL DA HUMANIDADE
FESTIVAL DA BOA VONTADE
FESTIVAL DO ESPÍRITO SANTO

Este Festival, culminante na Lua Cheia de Gêmeos, honra a Cristo e celebra o potencial da humanidade para resolver a dualidade e gerar boa vontade. Num ato supremo de invocação, neste dia o Cristo representa toda a humanidade. Ele clama pela unificação do espírito humano: alma e personalidade, eu superior e eu inferior, fundidos em "um novo ser humano", como a Bíblia o chama.

A realização significativa de Cristo no passado foi sintetizar ambos os aspectos do ser. A unificação é necessária hoje mais do que nunca, porque, como Alice Bailey aponta, toda a família humana está dividida na rocha da dualidade. Seja porque a personalidade é dual – e portanto incontrolável – ou porque grupos e nações se dividem em campos opostos, a dualidade ressurge em dinâmicas e intensas dificuldades.

A Sabedoria Eterna oferece o pensamento inspirador de que a unificação é o tema básico do nosso planeta. “O objetivo de todas as coisas é se unir. A unificação das múltiplas partes separadas é a tônica do nosso sistema.” A ilusão de que alguém está sozinho, separado e independente de tudo o mais, é o único mal verdadeiro, o único pecado real.

À medida que homens e mulheres de boa vontade se unem com maior intensidade, a energia da contraparte espiritual superior da boa vontade, que é a vontade para o bem, se faz sentir. Isso segue a lei segundo a qual o menor invoca o maior. Os fatores superiores são evocados e respondem de acordo com a medida de compreensão e tensão dinâmica exibida por aqueles que fazem o chamado invocativo, e isso, em resumo, é o impulso esotérico por trás do Festival de Unificação de Gêmeos. Esta é uma das razões pelas quais o Dia Mundial da Invocação é celebrado neste dia e somos convidados a fazer tudo ao nosso alcance para promover o uso mais amplo possível de "A Grande Invocação".

Nota-Chave: "RECONHEÇO MEU OUTRO EU E NA CONQUISTA DESSE EU, CRESÇO E BRILHO."

Às vezes, Gêmeos é referido como "a constelação da resolução da dualidade na síntese fluida". Governando, como o faz, todos os pares de opostos do zodíaco, ele preserva a interação magnética entre eles, mantendo-os fluidos em seus relacionamentos, a fim de eventualmente facilitar sua transmutação em unidade, pois ambos devem finalmente se tornar Um. Você tem que lembre-se que - do ponto de vista do desenvolvimento final dos doze poderes zodiacais - os doze opostos devem ser transformados nos seis fundidos, e isso é produzido pela fusão dos pares de opostos na consciência.

Na época de cada Festival da Lua Cheia, a energia qualificada pela constelação influencia o fluxo periódico dentro do alcance da consciência humana, estabelecendo os atributos divinos na consciência da humanidade. Este influxo espiritual pode ser canalizado através da meditação para as mentes e corações de todas as pessoas. A técnica da meditação rege todas as expansões da consciência, todo registro do Plano ou Propósito e todo o processo de desenvolvimento evolutivo.

Como Festival de Asala é conhecido como o Festival da Boa Vontade, pois representa o espírito da humanidade que anseia se harmonizar com a Vontade Divina, que é o aspecto do Amor que Jesus, o Cristo propagou e do qual Ele é a expressão perfeita. É  o dia em que a natureza Divina do homem é reconhecida e em que são realçados o Seu poder de expressar a Boa Vontade e de estabelecer corretas relações humanas. Asala significa mês de junho, a data em que o Senhor Buda pronunciou o Sermão aos seus discípulos, apresentando as "Quatro Nobres Verdades".

É o terceiro e último dos principais festivais é o que ocorre na Lua Cheia, no signo de Gêmeos. É o festival do Espírito Santo no qual a humanidade aspira alcançar o Divino (Santo Espírito). Mais do que em qualquer outro dia do ano, as forças e energias de Reconstrução estão presentes, atuando com a máxima intensidade.

Neste Festival comemora-se ainda o aniversário do notável Sermão pronunciado pelo Senhor Buda a seus discípulos, anunciando-lhes o descobrimento da Verdade. Este Sermão é chamado comumente de Sutt Dhammachakkappavattana, cuja tradução significa colocação em movimento das “Rodas da Régia Carruagem do Reino da Retidão” e que nos livros budistas é simplificado para o Giro da Roda da Lei. Neste Sermão, Buda Gautama apresentou as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho que explicam as causas das dificuldades humanas e apontam os meios pelos quais essas dificuldades podem ser solucionadas.

Devido a este singular alinhamento, este Festival do Cristo de precipitação e distribuição de energia é celebrado também como Dia Mundial da Invocação, durante o qual inúmeras pessoas utilizam a oração mundial, "A Grande Invocação". Isto estabelece um campo de força invocativo e magnético que dirige, literalmente, as energias de luz, amor e vontade-para-o-bem diretamente à consciência da humanidade, impactando todos os corações sensíveis e todas as mentes abertas, produzindo efeitos planetários.

Esta Invocação é o Mantra do próprio Cristo, o programa do Plano para a humanidade e uma fórmula de dirigir energias ao campo da percepção humana. É efetiva porque é empregada como uma fórmula de energia por todo o planeta, em todos os níveis de consciência humana e em toda a Hierarquia. À medida que são usadas estas três energias básicas -- LUZ, AMOR e VONTADE-PARA-O-BEM -- que estão corporificadas na Invocação, fluem e se misturam com as forças de reconstrução e com todas as energias disponíveis através do Cristo, neste festival anual de Gêmeos.



Fontes:
Fundação Lucis Trust - https://www.lucistrust.org/
"Os Trabalhos de Hércules", de Alice A. Bailey
https://www.lucistrust.org/es/resources/festivals/gemini_2

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O PODER DA LINGUAGEM E O SILÊNCIO


O Abba Hyperichio, um dos Padres do Deserto, disse: "É melhor comer carne e beber vinho do que comer a carne dos irmãos que os caluniam".

A fofoca e a calúnia eram altamente desaprovadas, porque eram uma forma de julgar os outros. Mas havia também outro motivo importante: os eremitas do deserto estavam convencidos do poder da linguagem para curar ou ferir as pessoas. Devemos lembrar que no século III ainda havia, em grande medida, uma cultura oral. As palavras expressas oralmente eram consideradas uma arma muito poderosa, especialmente aquelas que vinham das Escrituras e as ditas pelos Abbas e Ammas (Pais e Mães - Padres e Madres). Os Padres e Madres do Deserto só usavam palavras críticas quando se dirigiam aos jovens eremitas, para corrigir seu comportamento e alinhá-lo com as bem-aventuranças.

Eles eram "puros de coração"; por trás de suas palavras e comportamentos não havia sentimentos ou motivos inconscientes egocêntricos. Portanto, as palavras que eles usaram eram palavras com poder porque curavam e renovavam a vida. Eles também estavam bem cientes do dano que uma palavra poderia causar. Eles consideraram cuidadosamente quando falar e quando ficar em silêncio. Daí a importância que atribuíam ao silêncio em geral e o conselho de não falar se não fosse necessário. Eles evitavam conversas descuidadas e prejudiciais e permitiam que palavras de sabedoria surgissem. Embora já não vivamos numa cultura oral, também nós sabemos o poder que uma palavra encorajadora ou depreciativa pode ter para todos aqueles que nos acompanham no caminho espiritual.

Uma razão importante pela qual eles usassem uma palavra de crítica ou admoestação era quando as Sagradas Escrituras estavam envolvidas. A maior parte do conhecimento dos Padres e Madres do Deserto vinha da escuta da Palavra das Escrituras na “synaxis”, reunião semanal realizada pelos monges. Há uma história sobre um irmão que se distraiu momentaneamente e se esqueceu de dizer algumas palavras do Salmo que estava recitando. Um monge idoso aproximou-se dele e disse: "Irmão, onde estavam seus pensamentos que você esqueceu de pronunciar o salmo durante a sinaxis? Você não sabe que estava na presença de Deus e falava com Ele?"

A meditação, repetindo certas palavras das Escrituras, recitando-as de memória, ajudava os monges a lidar com seus pensamentos e tentações, seus próprios "demônios" internos. Muitas vezes, eram invadidos por lembranças de sua vida anterior, remorsos por atos cometidos no passado ou por boas ações que não haviam praticado.

A frase que Juan Cassiano aconselhou: "Oh, meu Deus, ajuda-me, vem depressa em meu socorro" foi para ele como "uma parede intransponível, uma armadura impenetrável e um escudo forte". Ele enfatizou isso: "Você deve constantemente pronunciar este versículo em seu coração. Você não deve parar de repeti-lo enquanto trabalha ou viaja. Diga isso enquanto dorme, enquanto come e até mesmo quando atende às necessidades básicas da vida."

As Sagradas Escrituras eram o fundamento de suas vidas. Quando alguns monges foram perguntar a Santo Antônio como deveriam viver, ele lhes disse: "Se vocês ouvirem as palavras das Escrituras, aprenderão como".

Também nós podemos aprender com as palavras de Jesus no Evangelho. Seja lendo-as depois da nossa meditação ou, melhor ainda, através da Lectio Divina beneditina (Leitura Divina), selecionando uma passagem, lendo-a devagar e prestando atenção às palavras que pronunciamos. Laurence Freeman disse que, ao fazer isso, "nós lemos o Evangelho e permitimos que o Evangelho nos leia".



Kim Nataraja




Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/p%C3%B4r-do-sol-mar-mar-b%C3%A1ltico-1342101/

O QUE LEVAREMOS PARA O OUTRO MUNDO?


Calculai o tempo que passais diariamente a comer e a dormir – o que é útil, obviamente –, mas também a falar dizendo o que é divertido ou a ocupar-vos de futilidades. Assim passais os anos, longe da verdadeira vida, da vida com Deus. Que desperdício! E, quando chegar o dia de deixardes a Terra, partireis pobres e nus. Compenetrai-vos bem do seguinte: ao deixardes a Terra, só podereis levar, como pedras preciosas, as vossas virtudes, como ouro, o vosso próprio saber, e como joias, os enfeites da vossa alma. Sereis como aquelas pessoas que, expulsas das suas casas, obrigadas a deixar as suas terras, os seus lares, os seus móveis, abrem os cofres às pressas, para levarem o ouro e as joias, as únicas coisas que lhes permitirão sobreviver. De igual modo, quando a morte chega, ninguém pode levar os seus bens para o outro mundo, só se pode lançar mão às qualidades e às virtudes, todo o resto tem de ficar para trás. Portanto, a partir de hoje procurai perceber se possuís ouro e pedras preciosas verdadeiras.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal