Mostrando postagens com marcador teosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teosofia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de março de 2024

PLANO MONÁDICO E DIVINO - PLANOS E DIMENSÕES

 


O plano monádico é o espaço onde o Logos Solar “gera” as mônadas, suas “filhas” que, um dia, evoluirão como seres humanos. Segundo informações provenientes de diversos quadrantes espiritualistas, existirão no plano monádico cerca de 40 a 60 biliões de mônadas em evolução no nosso sistema solar.

Tanto quanto sabemos, estas mônadas são formadas por um processo em que o Logos Solar isola segmentos da sua consciência com “membranas porosas” formadas de matéria monádica que permite dois resultados:

– por um lado, cria unidades / centros de consciência, individualizadas e auto-conscientes que irão evoluir no universo solar;

– por outro, permite que elas se mantenham em contacto e comunicação permanente através da porosidade dessas membranas individualizadoras.

É também neste plano que as mônadas desenvolvem aquela parte da sua evolução que não passa pela encarnação nos planos inferiores e sobre a qual nada se conhece.

O plano divino é um espaço “privado” do Logos Solar, provavelmente onde serão planeadas as estruturas e diretrizes fundamentais do seu universo – o sistema solar – conjuntamente com outras “atividades” que ignoramos completamente.

Como atrás referimos, alguma literatura “espiritualista” descreve os planos suprafísicos de uma forma algo romanceada que sugere serem lugares diáfanos e etéreos, uma espécie de “paraíso do universo”, onde se viveriam estados eternos de lazer e felicidade sem nada para fazer senão a sua fruição infinita. Ora, uma eternidade onde nada houvesse que fazer senão “contemplar” Deus infinitamente, em pouco tempo se tornaria algo de tão profundamente monótono e fastidioso que pouco se assemelharia ao “paraíso celestial” proposto pelas religiões tradicionais. Claro que nada disto corresponde minimamente à verdade. Estes mundos, habitados por um número de seres incomensuravelmente superior aos encarnados no plano físico, são lugares de trabalho e evolução onde cada ser desenvolve e aperfeiçoa capacidades e qualidades determinadas, interage com outros seres e aprende a tornar-se um criador e um auxiliador da humanidade. Existem no universo muitas trajetórias evolutivas que nada têm a ver com a nossa, com as quais nunca nos cruzamos e sobre as quais pouco ou nada sabemos. É um erro tipicamente humano pensar que o universo somos nós e que a vida e forma humanas são as únicas que existem e contam. Nós somos apenas uma espécie no seio de milhões de outras, com formatos e objetivos evolutivos diferentes dos nossos.

Para se ter uma pequena ideia da grandeza e vastidão da vida nos planos suprafísicos, valerá a pena apresentar aqui um pequeno excerto de uma mensagem transmitida por um Mestre da Grande Fraternidade Branca, Morya, um dos mais conhecidos Mestres da Sabedoria:

“Cada raio de ação divina sobre a Terra é composto por inúmeras cidades espirituais repletas de trabalhadores em corpo astral e em corpo causal. Somente em relação ao Raio Azul, o Raio de Poder Divino, Vontade Divina e Ordem Divina, temos uma quantidade incalculável de núcleos de operação sobre a Terra, como se fossem para vós, milhares de células de um organismo. Estas células do organismo vivo do Raio Azul são como cidades de uma nação, cidades de planeamento e execução das estratégias de aplicação da Vontade Divina sobre a Terra, através de milhares de mecanismos.

Dentre esses mecanismos, as religiões são também, desde sempre, parte das nossas atribuições sobre o vosso planeta. Os representantes espirituais das religiões, de tempos em tempos, descem à Terra para controlar os impulsos humanos e fomentar o progresso, a elevação, os conhecimentos de ordem metafísica e manifestar a vontade divina de que a sabedoria e a luz se ancorem definitivamente na Terra.

Em cada uma dessas cidades, em que laboram devotados seres de envergadura inquestionável, existem centenas e centenas de especialistas de cada área do conhecimento espiritual universal e planetário. Em cada uma delas, a extensão e a arquitetura das cidades comporta ministérios, laboratórios, templos, teatros abertos, jardins, salões imensos para palestras, cursos e debates sobre os assuntos terrenos, canais de telecomunicação, de informação, de reciclagem de arquivos de sabedoria planetária, escoadouros de lixo astral provindos de vossas mentes, e assim por diante.

Em cada uma dessas estâncias, por sua vez, trabalham em regime de dispensação do raio azul milhares de almas comprometidas com o bem e com a iluminação das consciências.

Podem imaginar uma metrópole grande da vossa Terra e imaginar o funcionamento de todos os órgãos de poder, de ensino, de artes, de política, de administração de instituições, de comunicação, de lazer etc.? Temos milhares delas assim, em dimensão superior, mas ainda no plano astral. Agora imaginem, irmãos da Terra, os núcleos que não se situam na dimensão astral e sim na dimensão causal.”

Nas obras esotéricas, confundem-se por vezes as noções de “planos e dimensões”. Existe contudo uma diferença entre elas:

– A noção de “plano” refere-se à estrutura material e atômica de cada plano e patamar do universo e do sistema;

– A noção de “dimensão” remete para os níveis de consciência, o grau de abrangência com que um ser compreende o mundo onde vive. Quanto mais sutil for a matéria, mais ampla e abrangente é a visão que se possui do universo, no espaço e no tempo e vice-versa.

Uma ilustração deste fenômeno poderá ser dada pela imagem de um alpinista a escalar uma montanha. Quanto mais alto sobe, mais ampla e desimpedida é a visão que tem do horizonte. Aquilo que ele é capaz de observar a partir do topo da montanha, embora seja invisível a quem se encontra em patamares inferiores, sempre existiu e existirá. O que acontece é que a sua visualização só é possível a partir de uma certa altitude. Para quem ainda não atingiu essa altitude, essa panorâmica é como se não existisse. Isto significa que a capacidade de apreender e compreender o lado oculto da vida e do universo está vedado aos seres cuja consciência se encontre ainda focada nos planos materiais da existência. No sistema solar, só a partir da 6.ª dimensão (a dimensão da alma) é que é possível começar a ter uma visão integrada e unificada da vida e do universo.


José Caldas



Fonte: do livro «AO ENCONTRO DA TEOSOFIA (O Homem e o Universo à Luz da Sabedoria Antiga)», de José Caldas, inserido na Coleção "Luz do Ocidente". Parte do Cap. "O TERRITÓRIO EVOLUTIVO DO SER HUMANO – O SISTEMA SOLAR" - "PLANO MONÁDICO - PLANO DIVINO - PLANOS E DIMENSÕES" - pp. 93 a 97
Fonte da Gravura: a capa do livro em questão

sexta-feira, 7 de abril de 2023

O SACRIFÍCIO DA EUCARISTIA


Sacrifício da Eucaristia, um símbolo do Sacrifício eterno, o sacrifício diário da Igreja Católica em todo o mundo, espelhando o Sacrifício eterno pelo qual os mundos foram feitos, e pelo qual são eternamente mantidos. Por ser perpétua a existência do seu arquétipo, deve ser ele oferecido diariamente, e, para essa celebração, os homens põem em ação a própria Lei do Sacrifício, com ela se identificando, reconhecendo-lhe o caráter de unificação e voluntariamente se associando a ela na ação que exerce nos diferentes mundos.

Esta grande função do culto Cristão perde sua força e significado quando é considerada nada mais que uma mera comemoração de um sacrifício passado, como uma alegoria figurada sem uma verdade profunda que o anime, como uma partilha do pão e do vinho sem uma participação no Sacrifício eterno. Vê-la assim é torná-la uma mera concha, uma imagem morta em vez de uma realidade viva.

Todos os que comem de um sacrifício se tornam partícipes de uma natureza comum, e são reunidos num só corpo*, que está unido e participa da natureza do Ser que está presente no sacrifício. Aqui está envolvido um fato do mundo invisível... Seres invisíveis derramam sua essência nos materiais usados em qualquer rito sacramental, e aqueles que compartilham destes materiais - que são assimilados pelo corpo e passam a fazer parte de seus constituintes - são por isso unidos àqueles cuja essência está neles, e todos compartilham de uma mesma natureza.

Se entendermos o significado e uso da Eucaristia devemos compreender estes fatos dos mundos invisíveis, e deveremos ver nela um elo entre o terreno e o celeste, bem como um ato de adoração universal, uma co-operação, uma associação, com a Lei do Sacrifício, senão ela perde grande parte de sua significância.

O pão permanece como o símbolo geral para a comida que constrói o corpo, e o vinho como símbolo do sangue, considerado como o fluido vital, "pois a vida da carne está no sangue" (Levítico, XVII, 11). Na Eucaristia os adoradores participam do pão, simbolizando o corpo, a natureza, de Cristo, e do vinho, simbolizando o sangue, a vida do Cristo, e se tornando parte da Sua família, unos com Ele.

A Palavra de Poder é a fórmula "Este é o Meu Corpo", "Este é o Meu Sangue". Isto é o que produz a mudança..., e transforma os materiais em veículos para energias espirituais. O Sinal de Poder é a mão estendida sobre o pão e o vinho, e o Sinal da Cruz feito sobre eles. Estas são as partes externas essenciais do Sacramento da Eucaristia.

É importante entendermos a mudança que tem lugar neste Sacramento, pois ela á mais do que a magnetização..., embora ela também ocorra. Temos aqui um exemplo particular de uma lei geral.

Para o ocultista, uma coisa física é considerada como a expressão última, física, de uma verdade invisível. Tudo é uma expressão física de um pensamento. Um objeto não passa de uma ideia externalizada e densificada. Todos os objetos no mundo são ideias Divinas expressas na matéria física. Sendo assim, a realidade do objeto não está em sua forma exterior, mas em sua vida interna, na ideia que o modelou numa expressão de si mesma. Nos mundos superiores, sendo a matéria ali muito sutil e plástica, ela conforma-se rapidamente à ideia, e muda de forma quando o pensamento muda. À medida que a matéria se torna mais densa, mais pesada, ela muda mais lentamente, até que no mundo físico as mudanças estão em seu ponto mais lento, em consequência da resistência da matéria de que o mundo físico é composto.

Esta é a verdade que subjaz àquilo que é chamado de doutrina da Transubstanciação...  A "substância" que é alterada é a ideia que faz uma coisa ser o que é; "pão" não é meramente farinha e água; a ideia que governa a mistura, a manipulação da farinha e da água, esta é a "substância" que o faz ser "pão", e a farinha e água são o que se chama tecnicamente de "acidentes", os arranjos de matéria que dão forma à ideia. Com uma ideia, ou substância, diferente, a farinha e a água tomariam uma forma diferente, como o fazem quando são assimiladas pelo corpo. Assim também os químicos descobriram que o mesmo tipo e o mesmo número de átomos químicos pode ser arranjado em diferentes maneiras e se tornar assim coisas inteiramente distintas em suas propriedades, embora os materiais não tenham sido mudados.

O que, então, é esta mudança de substância nos materiais usados na Eucaristia? A ideia que faz o objeto foi mudada; em seu estado normal o pão e o vinho são alimentos, expressivos das ideias divinas de objetos nutritivos, objetos adequados á construção dos corpos. A ideia nova é a da natureza e vida de Cristo, adequada para a construção da natureza e vida espirituais do homem. Esta é a mudança de substância; o objeto permanece inalterado em seus "acidentes", seu material físico, mas a matéria sutil associada a ele mudou sob a pressão da ideia alterada, e por esta mudança novas propriedades são lhe comunicadas. Elas afetam os corpos sutis dos participantes, e os sintonizam na natureza e vida do Cristo. Da "dignidade" do participante depende a extensão em que ele poderá ser sintonizado.

Deste modo tem sido ensinado verdadeiramente na Igreja que aqueles que corretamente tomam parte na Eucaristia desfrutam de uma participação na vida Crística derramada para os homens. A transmutação do inferior no superior é o objetivo deste Sacramento. A mudança da força inferior por sua união com a superior é o que é buscado por aqueles que nela participam; e aqueles que conhecem a verdade interna, e compreendem o fato da vida superior, podem, em qualquer religião, através de seus sacramentos, entrar em contato mais pleno e completo com a Vida divina que sustém os mundos, se eles levam ao rito a atitude receptiva, o ato de fé, o coração aberto, que são necessários para a possibilidade do Sacramento ser realizado.

* Companheirismo - conforme Alice A. Bailey, em seu livro "De Belém ao Calvário". Ver texto em https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2023/04/a-eucaristia-e-o-companheirismo.html (Nota deste blog)



Annie Besant




Fonte: do livro "O Cristianismo Esotérico"
Ed. Pensamento, São Paulo/SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/religi%c3%a3o-eucaristia-eucar%c3%adstico-1990055/

sábado, 16 de julho de 2022

SANTO ANTÔNIO E A TEOSOFIA DO SOL


A visão parcial da foto (acima) de Roberto Gil mostra a antiga escultura de Santo Antônio, patrono da cidade de Lisboa, que está na Igreja de Santo Antônio. A escultura foi poupada pelo terremoto de 1755. A imagem contém um Sol acima da cabeça do Santo.



O Santo de Lisboa e Pádua Ensina Ideias e Princípios Básicos da Filosofia Esotérica



A alma e o espírito nunca se separam da natureza. Apenas o ser humano desinformado faz isso, e assim provoca sofrimento.

A sabedoria antiga anda perto da natureza e vê o sagrado nos fenômenos do meio ambiente. A filosofia esotérica sabe que a natureza tem sete níveis de existência e consciência.

Antes de ela ser física, ela é espiritual; durante sua existência física ela é espiritual, e depois de ser física, ela volta a ser apenas espiritual por algum tempo. A filosofia esotérica autêntica é uma filosofia da natureza, ao mesmo tempo que é uma filosofia do espírito.

Este fato fica claro também no cristianismo do frei Antônio de Lisboa e Pádua. Em sermão do início do século XIII, Santo Antônio cita a Epístola de Tiago, 1,17:

“Toda dádiva excelente e todo dom perfeito vem do alto, desce do Pai das luzes, como o raio desce do Sol.”

Em seguida Antônio identifica a luz do Sol com Jesus:

“Assim como o raio do Sol, descendo do Sol, ilumina o mundo e, todavia, não se afasta nunca do Sol, também o Filho de Deus, descendo do Pai, iluminou o mundo e, contudo, não se afastou nunca do Pai, porque faz um todo com o Pai; ele mesmo o disse em S. João: eu e o Pai somos um só.” [1]

A teosofia ou sabedoria divina não foi criada por Helena Blavatsky mas existe desde antes do surgimento da humanidade atual. Olhando para estas passagens desde o ponto de vista da filosofia esotérica, vemos uma alusão aos sete níveis de consciência do ser humano. O Sol ou Pai do Céu corresponde a Atma, o sétimo princípio, uma fagulha do Absoluto. O Sol envia ao mundo o seu Filho, isto é, um raio de luz, Jesus, o sexto princípio, chamado em sânscrito de Buddhi, o princípio da compaixão universal.

O “mundo” que é iluminado por Jesus ou Buddhi, a Luz divina, significa os cinco princípios inferiores da consciência. O quinto é a mente pensante, “Manas”. O quarto princípio é a emoção, “Kama” em sânscrito. O terceiro, “Linga Sharira”, garante as estruturas sutis astrais do corpo (pelas quais flui a vitalidade). O segundo princípio é “Prana”, a vitalidade. Finalmente o primeiro princípio é o corpo físico propriamente dito, Sthula Sharira.

E é preciso lembrar que a luz da estrela está presente em cada átomo do corpo físico do ser humano. A luz astral, cujo nível espiritual e superior os cristãos chamam de Jesus, permeia todas as coisas.

Temos então em primeiro lugar a estrela, ou Sol; em seguida a luz da estrela, e finalmente o mundo. Ou seja, o Pai do Céu, o Filho, e o mundo, ou humanidade. E cada ser humano possui em si mesmo o Pai, Atma, o Filho, Buddhi, e os outros cinco níveis de consciência.

Mas Jesus e o Pai são um só. Atma e Buddhi são inseparáveis. Não há Sol sem Luz, nem Sabedoria sem Compaixão, nem Pai sem Filho. E esta unidade fundamental é a Mônada.

Antônio destaca algumas linhas mais adiante que todos somos filhos da Luz e nascemos através da Verdade.

A luz permite ver a Verdade.

O Sol é o Logos, ou seja, o conjunto harmônico das leis que comandam o universo. O Sol é a Verdade e o conhecimento absolutos. Através da Verdade alcançamos a iluminação. É por isso que nas imagens e esculturas de muitos santos e sábios – inclusive de Santo Antônio – é comum ver um pequeno Sol junto às suas cabeças.


Nota:

[1] Da p. 417 do volume I de “Obras Completas”, Santo António de Lisboa, Lello & Irmão, Editores, Porto, Portugal, 1987, edição bilíngue (latim e português) em dois volumes. Sobre sermos todos filhos da luz, veja a p. 418.





Carlos Cardoso Aveline




Fonte: FILOSOFIA ESOTÉRICA.COM
https://www.filosofiaesoterica.com/
Fonte da Gravura: https://www.patriarcado-lisboa.pt/site/index.php?id=10105

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O VERDADEIRO SER HUMANO


Há alguma coisa em nós que entra no estado chamado de sonho, no estado chamado de sono, e no estado chamado de morte. Nenhuma compreensão pode ser obtida dos estados a que passamos, e dos quais emergimos, exceto com base na ideia de que existe um Ego, um pensador, um observador, um conhecedor, um experienciador, que ingressa nos estados e emerge deles, e de que este Ego, o verdadeiro ser humano, preserva a sua integridade em todos eles.

Nós somos mais do que qualquer um dos estados em que ingressamos, por mais admiração que possamos ter por algum destes estados. Mesmo se imaginarmos que já alcançamos, ou que podemos alcançar o estado mais elevado de inteligência e ação – aquele que chamamos de divino – somos nós que ingressamos nele. Assim, uma compreensão dos estados nos quais ingressamos só pode ser obtida quando reconhecermos que existe um Algo em nós que atravessa todos aqueles estados; devemos, portanto, tentar entender o que é este algo, e começar o esforço exatamente onde nós estamos agora. Não podemos começar de qualquer outro lugar ou posição que não seja aquele em que estivermos no momento.

O que descobrimos, então? Que somos uma identidade continuada. Já passamos por muitas mudanças desde o nascimento até agora, mas nossa identidade não mudou, sejam quais foram as mudanças pelas quais ela necessitou passar. Quando temos este fato claramente fixado em nossas mentes, alcançamos o ponto da percepção de que há uma natureza imortal em cada um de nós; de que ela é divina em sua essência, e de que não é sujeita a mudanças, mas imutável.



Robert Crosbie




Fonte: do texto “O Sono e os Sonhos”, de Robert Crosbie, publicado em www.FilosofiaEsoterica.com
http://www.filosofiaesoterica.com/sono-os-sonhos/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 23 de novembro de 2021

O QUE É QUE REENCARNA ?


Investigando a Dimensão Imortal da Consciência


O que reencarna é um mistério para muitos, porque há uma certa dificuldade de compreender a permanência que existe através de repetidas encarnações. Eles sabem que o corpo nasce, e morre, e se dissolve. Mas suas mentes estão tão identificadas com o corpo, em suas relações e sua ambientação, que são incapazes de se dissociar dele. Eles pensam em si mesmos como pessoas, como corpos de natureza física e, portanto, não conseguem ver onde, neles, pode estar o poder de encarnar através de uma vida e outra.

A teosofia apresenta uma visão ampliada, ao mostrar que o homem não é o seu corpo, porque o corpo está continuamente mudando; e que o homem não é sua mente, porque ele está constantemente a mudar de opinião; mas que existe no homem algo permanente, que é a sua identidade através de todos os tipos de personificações.

Não houve nenhuma mudança em nossa identidade desde a infância até os dias atuais. O corpo mudou, o ambiente mudou, mas a identidade permanece a mesma e não vai mudar daqui para a frente, apesar de todas as alterações no corpo, ou na mente, ou nas circunstâncias. Só aquilo que é imutável em nós é real. Nada que muda é real. Só o que é real percebe a mudança. A mudança não pode ver a mudança. Só o que é constante percebe a mudança. Apenas o permanente pode perceber a impermanência. Por menos que o percebamos, há algo em nós que é eterno e imutável.

Esta alguma coisa imutável, constante e imortal em nós não está distante de qualquer partícula, nem de qualquer ser. Há apenas uma vida no mundo, à qual nós pertencemos assim como todos os outros seres. Nós todos viemos da mesma Fonte Única – e não de muitas fontes -, e estamos trilhando o mesmo caminho para o mesmo grande objetivo. Os antigos diziam que o Eu Divino está em todos os seres, mas não brilha em todos. Aquilo que é real é interior, e pode ser reconhecido por qualquer ser humano dentro de si mesmo. Todo ser humano precisa da compreensão de que é capaz de brilhar e manifestar o Deus interior, ainda que todos os seres o expressem apenas parcialmente.

Se, então, a Fonte é a mesma em todos os seres – e a fonte é o Espírito Único -, por que há tantas formas, tantas personalidades, tantas individualizações?

A teosofia mostra que tudo isso são desenvolvimentos. Nós nos movemos, vivemos e temos nosso ser neste grande Oceano da Vida, que é ao mesmo tempo Consciência e Espírito. Esse oceano é separável em suas gotas constituintes. A separação é realizada por meio do grande processo da evolução. Mesmo nos reinos abaixo de nós, que são da mesma Fonte, a tendência a se separar em gotas de consciência individualizada acontece em grau cada vez maior. No reino animal, as espécies que estão mais próximas de nós se aproximam da autoconsciência, mas nós, como seres humanos, já chegamos a esse estágio, no qual cada um é uma gota constituinte do grande oceano da Consciência. Assim como acontece com um oceano de água, em que cada gota contém todos os elementos do grande todo, assim também cada gota constituinte da humanidade – um ser humano – contém em si todos os elementos do grande universo.

O mesmo poder existe em todos nós: No entanto, desde onde nós estamos na escada da existência, podemos ver muitos seres abaixo de nós, e outros seres maiores acima de nós. A humanidade está agora construindo a ponte de pensamento, uma ponte de ideias, que conecta o inferior ao superior.

O propósito da encarnação ou da nossa descida à matéria não é apenas obter mais conhecimento da matéria, mas também ajudar os reinos inferiores para que subam até onde estamos. Nós somos como deuses, para os reinos inferiores. É o nosso impulso que traz a eles felicidade ou sofrimento. É a nossa visão errada do propósito da vida que faz da Natureza algo tão duro; que provoca toda a angústia e as catástrofes que nos afligem em ciclones, tornados [1], doenças e pestilências de todo tipo. Tudo isso é criado por nós próprios; e por quê? Porque há uma sublimação dos reinos mineral, vegetal e animal em nossos corpos, e estes reinos têm vida em si mesmos.

Cada célula do nosso corpo tem o seu nascimento, sua juventude, maturidade, decadência, e sua morte; e a sua reencarnação. Estamos impulsionando cada uma dessas vidas conforme o pensamento, a vontade ou sentimento que temos, no sentido de ajudar ou de prejudicar os outros. Estas vidas saem de nós para o bem ou para o mal, e voltam para seus reinos como boas ou más. Portanto, devido à nossa falta de compreensão da nossa própria e verdadeira natureza, e sem ter uma compreensão da fraternidade universal, estamos desempenhando mal nossos deveres neste plano, e ajudamos imperfeitamente a evolução dos reinos inferiores.

Nós só percebemos a nossa responsabilidade para com eles quando vemos que todo ser está no seu caminho para cima; que tudo o que vive acima do homem foi humano algum dia; que todos os seres abaixo do homem serão, em um momento futuro, elevados ao nível da humanidade, quando nós tivermos ido mais além; que todas as formas, todos os seres e todas as individualizações são apenas aspectos do Espírito Único.

Partindo, então, do ponto de vista de que este Espírito Único e imutável está em tudo – e de que ele é a causa de todo desenvolvimento evolutivo, a causa de todas as encarnações – onde está, podemos perguntar, o nosso poder de carregar de uma vida para outra aquilo que vemos e que sabemos? Como é preservada a continuidade do conhecimento adquirido através da observação e da experiência? De que modo a individualidade é mantida como tal?

Devemos lembrar-nos de que éramos seres autoconscientes quando este planeta começou; alguns até mesmo eram autoconscientes quando esse sistema solar começou; porque há uma diferença nos graus de desenvolvimento de diferentes seres humanos.

Se o planeta e sistema solar começaram em um estado de substância primordial, ou matéria nebulosa, como diz a Ciência, então devemos ter tido corpos feitos daquele tipo de substância. Naquela substância mais refinada estavam todas as possibilidades de cada grau de materialidade, e, por causa disso, todas as mudanças de matérias gradualmente mais densas ocorreram dentro do verdadeiro corpo da matéria primordial; e toda a experiência está dentro desse corpo. Nosso nascimento ocorre dentro desse corpo. Tudo o que nos ocorre está dentro do corpo – um corpo de uma natureza que não muda ao longo de todo o Manvântara [2]. Cada um tem um corpo de substância mais sutil, de natureza interna, que é o real recipiente do indivíduo. Nele o indivíduo vive, se move e tem o seu ser, e mesmo a grande glória e delicadeza daquele corpo não é o homem; mas apenas a veste mais elevada da Alma. O Verdadeiro Homem que somos é o Homem que foi, é, e que sempre será, para quem a hora da morte nunca vai chegar – o Homem pensador; o Homem observador – sempre pensando e agindo continuamente.

A vida é uma só. O Espírito é um. A Consciência é uma. Estes três são um – uma trindade – e nós somos esta trindade. Todas as alterações de forma e substância são produzidas através do Espírito e da Consciência que se expressam nas várias formas de vida. Nós somos este Espírito Único. Cada um de nós se posiciona na vasta congregação de seres neste grande universo, vendo e sabendo aquilo que consegue perceber através dos instrumentos que tem. Nós somos a Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo; ou, na linguagem teosófica, somos Atma, Buddhi e Manas. Atma é o Espírito Único, que não pertence a ninguém, mas a todos. Buddhi é a experiência sublimada de todo o passado. Manas é o poder do pensamento, o pensador, o homem, o homem imortal. Não há ser humano sem o Espírito. E não há ser humano sem a experiência do passado. Mas a mente é o reino da criação, das ideias, e o próprio Espírito, apesar de todo o seu poder, age de acordo com as ideias que estão na mente.

A obra “A Voz do Silêncio” (de Helena Blavatsky) diz: “A mente é como um espelho. Ela reúne poeira enquanto reflete.”

A mente necessita da sabedoria da alma para afastar o pó. Aquilo que chamamos de mente é apenas um refletor que apresenta, conforme a treinamos, diferentes imagens. O Espírito age para o bem ou para o mal, de acordo com as ideias vistas. Existe o mal no mundo? É o poder do Espírito que o causou. Existe o bem no mundo? É o poder do Espírito que o causou. Porque há apenas um poder. A distorção desse poder traz o mal; o seu direcionamento correto traz o bem.

Devemos abandonar a ideia de que somos seres pobres, fracos e miseráveis, que não podem fazer nada por si mesmos. Enquanto mantivermos essa ideia, nunca faremos nada. Temos de adotar a outra ideia – a ideia de que somos Espírito, somos imortais. E quando percebermos o que isso significa, esse poder irá fluir diretamente em nós e através de nós, sem restrições de qualquer tipo, salvo aquelas que surgem dos instrumentos que nós mesmos tornamos imperfeitos. Portanto, devemos abandonar a ideia de que somos este corpo físico pobre, miserável, limitado, sobre o qual temos tão pouco controle. Nós não podemos parar as batidas do coração; não podemos parar a respiração sem destruir o corpo; não podemos interromper a constante dissociação de matéria que acontece nele, nem impedir sua dissolução final. Algumas pessoas falam de fazer “demonstrações” contra a morte, mas seria o mesmo que protestar contra a queda das folhas das árvores, quando chegam as rajadas de vento do inverno. A morte acontecerá sempre, e há uma grande vantagem nisso. Se não conseguíssemos trocar de corpos, como haveria qualquer possibilidade de avanço? Será que estamos tão satisfeitos com nossos corpos atuais que não desejamos mudar? Certamente que não.

Há apenas uma coisa nesta vida que pode ser preservada permanentemente, e esta coisa é a natureza espiritual, a grande compaixão divina que podemos traduzir pela palavra “amor”.

Nós somos os Eus Superiores reencarnantes, que continuarão a renascer até que a grande tarefa à qual nos propusemos esteja concluída. Essa tarefa é a elevação de toda a humanidade para o estágio mais elevado possível de perfeição numa Terra deste tipo.

Nós encarnamos de tempos em tempos para a preservação do que é correto, para a destruição da maldade e o estabelecimento da justiça. É para isso que estamos aqui, quer saibamos ou não, e devemos alcançar um reconhecimento da imortalidade na nossa própria natureza, antes de poder libertar-nos da angústia que aflige a humanidade por toda parte. Temos de nos manter em contato e em sintonia com o grande propósito da natureza, que é a evolução da Alma, e em função do qual existe todo o universo.


Robert Crosbie



O texto a seguir é traduzido do livro “The Friendly Philosopher”, de Robert Crosbie, Theosophy Co., Los Angeles, 416 pp., 2008, pp. 234-239. Acrescentamos duas notas numeradas. (CCA - Carlos Cardoso Aveline)


Fonte: Filosofia Esotérica
https://www.filosofiaesoterica.com/o-que-e-que-reencarna/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/renascer-de-volta-novo-nascido-4360768/



NOTAS:

[1] “É a nossa visão errada do propósito da vida que faz da Natureza algo tão duro; que provoca toda a angústia e as catástrofes que nos afligem em ciclones, tornados…”. Nesta frase, Robert Crosbie menciona a relação direta que há entre os pensamentos e as ações da humanidade, de um lado, e os ciclos geológicos e ecológicos do planeta Terra, de outro lado. A humanidade responde, de certo modo, pela vida mental do planeta. Cada vez que a vida do planeta decai no plano da mente da humanidade, a vida geológica também decai. O processo é regulado pela Lei dos Ciclos. Todos os níveis de consciência estão carmicamente interligados e interagem ativamente entre si. (CCA)

[2] Manvântara: um período de manifestação do Universo, ou de um sistema solar. Cada Manvântara é seguido de um Pralaya ou período de descanso, e depois surge outro Manvântara. (CCA)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A MUDANÇA SOCIAL SEGUNDO MOSHE CORDOVERO


A vitória da justiça e da fraternidade pode ocorrer tão logo haja o número necessário de cidadãos honestos. Até lá, deve-se aceitar o fato de que a natureza humana é imperfeita e precisa ser aprimorada de dentro para fora. É sábio implementar a estratégia da alma imortal, e desenvolver a política do coração. Moshe Cordovero, um rabino que viveu no século 16, pode ensinar lições sociológicas de grande importância.

Séculos atrás, membros da comunidade judaica de Safed estudaram a tradição da Cabala seguindo um curso apresentado por Moisés, ou Moshe Cordovero (1522-1570).

O ensinamento transmite a mesma ética e sabedoria presentes no que há de melhor em outras religiões e filosofias, e nas comunidades saudáveis ao redor do mundo. [1]

As lições consistiram em pontos práticos e mostraram treze níveis de misericórdia do indivíduo equilibrado em relação aos seus semelhantes, incluindo os adversários:

1) Calmo autocontrole em face do insulto.

2) Paciência ao suportar a maldade.

3) Perdão, a ponto de esquecer a maldade sofrida.

4) Identificação total com o seu próximo.

5) Ausência completa de raiva, combinada com a prática da ação correta.

6) Compaixão, a ponto de relembrar apenas as boas qualidades daquele que nos atormenta.

7) Eliminar todo desejo de vingança.

8) Esquecer o sofrimento causado a si pelos outros e lembrar o bem.

9) Compaixão pelos que sofrem, sem condená-los.

10) Sinceridade.

11) Compaixão além da letra da Lei com os bons.

12) Ajudar os injustos a melhorar, sem condená-los.

13) Ver todos os seres humanos sempre na inocência de sua infância.

Esses princípios fundamentais podem inspirar uma atitude equilibrada em relação aos problemas sociais. As tentativas de aplicá-los mecanicamente a cada nação e a todos os aspectos da sociedade seriam inúteis, mas avançar passo a passo em direção a eles é sábio.

Como comentário ao item 10, “Sinceridade”, cabe lembrar algumas frases de Helena P. Blavatsky.

A teosofista russa escreveu:

“O nosso lema é e será sempre ‘não há religião superior à verdade’. O que procuramos é a verdade, e, uma vez encontrada, nós a colocamos diante do mundo, aconteça o que acontecer”. [2]

A verdade, naturalmente, é imparcial e não deseja derrotar ninguém. O ódio é uma ilusão passageira. Por outro lado, o respeito incondicional e a cooperação realista são partes duradouras da realidade.



Carlos Cardoso Aveline



NOTAS:

[1] “Teachings of the Jewish Mystics”, Compiled and Edited by Perle Besserman, Shambhala Inc., Boston & London, 1998, 150 pp., veja p. 46.

[2] “Collected Writings”, H. P. Blavatsky, TPH, Adyar/Wheaton, Volume IX, p. 7.



Fontes: O texto acima traduz um trecho do artigo “Moshe Cordovero and Social Activism”: https://www.carloscardosoaveline.com/moshe-cordovero-and-social-activism/.
O texto original também está disponível no blog teosófico de “The Times of Israel”: https://blogs.timesofisrael.com/moshe-cordovero-and-social-activism/
Outros textos: https://www.filosofiaesoterica.com
Fonte da Gravura: Capa do livro "Tamareira de Devorá", de Moshe Cordovero, Ed. Sêfer, São Paulo

domingo, 28 de fevereiro de 2021

EVANGELHOS E SIGNIFICADOS OCULTOS E ATEMPORAIS


Os evangelhos revelam verdades eternas tais como as leis do ser, as experiências místicas interiores e progresso das nações e dos homens.

Os incidentes relacionados, em acréscimo ao significado temporal como história, tem pelo menos quatro significados atemporais.

Eles descrevem leis e operações do divino na natureza cósmica e solares; a experiência mística do gênero humano em geral; despertares interiores em discípulos ou naqueles que se desenvolvem adiante da raça; e experiências durante as grandes iniciações.


Geoffrey Hodson



Fonte: do livro "A Vida do Cristo da Natividade à Ascensão", Ed. Teosófica, Brasília/DF
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/livro-aberto-b%C3%ADblia-escrituras-981405/

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

ESCUTA A CANÇÃO DA VIDA


Procura-a e escuta-a primeiro em teu próprio coração. A princípio talvez digas: "não consigo encontrá-la; ao procurar, encontro apenas discórdia". Procura mais fundo. Se ficares de novo desapontado, detém-te e busca mais fundo ainda. Existe uma melodia natural, uma fonte oculta em todo o coração humano. Pode escutar oculta e completamente escondida e silenciada - mas lá está. Na própria base da tua natureza encontrarás fé, esperança e amor. Aquele que escolhe o mal se recusa a olhar para dentro de si, fecha os ouvidos à melodia do seu coração, assim como tapa os olhos para a luz da sua alma. Ele procede assim porque acha mais fácil viver nos desejos. Porém, sob toda vida existe uma forte corrente que não pode ser detida; as grandes águas na realidade ali estão. Encontra-as e perceberás que ninguém, nem a mais maldosa das criaturas, deixa de ser parte dela, por maior que seja a sua cegueira em relação a esse fato, e mesmo que tenha construído para si uma horripilante máscara externa. É neste sentido que eu te digo: todos os seres entre os quais tu lutas são fragmentos do Divino. Tão enganadora é a ilusão em que vives, que é difícil que prevejas onde pela primeira vez detectarás a doce voz no coração dos outros. Sabe, porém, que ela está certamente dentro de ti. Procura-a em ti e, uma vez que a tenhas ouvido, mais prontamente a reconhecerás ao redor de ti.


Mabel Collins



Fonte: Luz no Caminho, Ed. Teosófica, Brasília-DF, 6ª ed. - www.editorateosofica.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A LEI DO SACRIFÍCIO E A UNIDADE DA VIDA


[...] O homem que vive segundo a Lei do Sacrifício compreende a unidade do Ser, e reconhece apenas uma diferença no veículo em que está contido e não na vida que nele habita; por esta razão, ele colhe, em seu veículo separado, sabedoria e conhecimento somente com a finalidade de compartilhar com os outros, e para os outros; perde completamente o senso de vida separada, e torna-se parte da Vida do Mundo.

À medida que compreende isso, e sabe que o único valor do corpo é ser um canal do superior, ser um instrumento daquela vida, lenta e gradualmente ele se eleva acima de todo pensamento, exceto o pensamento de unidade, e se sente parte deste grande mundo sofredor. Então ele sente que as aflições da humanidade são as suas aflições, os pecados da humanidade são seus pecados, as fraquezas do seu irmão são suas fraquezas; assim realiza a unidade, e, através de todas as diferenças, vê o subjacente Ser Uno.

Somente desta maneira podemos viver no Eterno.

"Aqueles que veem diferenças passam de morte em morte"; assim falam os Shruti*. O homem que vê diferenças, na verdade está morrendo continuamente, pois vive na forma - que está se deteriorando a cada momento e que portanto é morte - não no Espírito, que é vida.

Exatamente, então, na proporção em que... não reconheçamos a diferença entre um e outro, mas sintamos a unidade da vida, sabendo que essa vida é comum a todos, e que ninguém tem o direito de se vangloriar de sua parte dessa vida, nem de se sentir orgulhoso de que sua parte é diferente da de outro, somente assim e nessa proporção é que viveremos a Vida Espiritual.

Essa, ao que parece, é a última palavra da Sabedoria que os Sábios nos ensinaram. Nada menos do que isso é espiritual, nada menos do que isso é sabedoria, nada menos do que isso é vida verdadeira. [...]


Dra. Annie Besant



Fonte: do livro "As Leis do Caminho Espiritual", pp. 110-12, Tradução de Maria Teresa D. Moreira e Edvaldo B. de Souza. Ed. Teosófica, Brasília, 2011 - www.editorateosofica.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal


Nota:
* Shruti (do Sânscrito "aquilo que é ouvido") é um cânon de escrituras hindus. (Wikipédia)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O RUGIR DA TEMPESTADE


Um dos mais desconcertantes problemas da vida espiritual é o de mantermos nosso interesse em meio às intermináveis dificuldades e aos mais cruéis desafios. É a rotina e monotonia de nossa vida diária que solapa nossa vitalidade e força. A vida da maior parte da humanidade é feita de pequenos fatos e incidentes que podemos chamar de trivialidades da existência. Grandes e extraordinários acontecimentos raramente ocorrem nas vidas de homens e mulheres comuns. Demonstrar entusiasmo por coisas extraordinárias é fácil, porém é extremamente difícil mantê-lo em meio à rotina diária. O maior dos desafios do ser humano consiste na manutenção da integridade espiritual em meio dos detalhes triviais da vida. Manter equilíbrio perfeito de pensamento e emoção entre as provocações incessantes causadas pelos fatos e acontecimentos da existência diária, demanda uma energia que a maioria não está em condições de apresentar. E, além disso, a prova da vida espiritual está no âmbito das atividades comuns e não na esfera de empreendimentos extraordinários.

Foi Emerson quem disse que jamais algo de grandioso fora conseguido sem o entusiasmo. [...] Isso tem sido bem evidenciado nas vidas de inumeráveis aspirantes, que retornaram à existência mundana devido à sua inabilidade em manter o entusiasmo na vida espiritual. Entretanto, o entusiasmo não deve ser confundido com o desempenho eficiente de nossas obrigações. A chamada eficiência do mundo é devida, geralmente, ao cultivo de certos hábitos. Uma vida eficiente não é necessariamente uma vida criadora - muitas vezes é uma vida automática. [...] O entusiasmo por alguma coisa emana de uma condição de profundo interesse.

[...] A dificuldade para a maior parte de nós é que vivemos nossas vidas num nível demasiado superficial; nossos pensamentos e emoções são extremamente rasos. Esta tendência para a superficialidade aumentou enormemente nos últimos tempos devido a uma primazia indevida dada à rapidez. Nossa civilização está num estado de precipitação terrível - embora não saiba para onde corre tanto! Ora, uma vida superficial tem constante necessidade de excitações, sejam materiais ou espirituais. Há um anseio por mais e mais excitações, sensações e entretenimentos.

[..] É quando a vida interna feneceu que as dificuldades objetivas parecem intransponíveis. Assim, é a falta de interesse profundo que arrefece o entusiasmo humano. O ser humano está ressequido por dentro e procura renovação de fora! Nenhuma mudança na condição objetiva, nenhuma alteração na disposição do Karma lhe trará renovação, enquanto não penetrar nas reais profundezas de seu próprio ser.

[...] A experiência de todos os místicos espirituais é de que as dificuldades objetivas são varridas pelo impacto do entusiasmo nascido do interesse profundo. Entusiasmo e interesse profundo são fenômenos conjugados, ou então podemos também dizer que um é a expressão e o outro a fonte. O entusiasmo surge somente num estado de interesse profundo intrinsecamente presente, não de forma relativa, porém absolutamente presente no indivíduo. Realmente significa que o interesse não é por alguma coisa, nem em relação a algo particular. É somente o estado de puro interesse que serve de base para o verdadeiro entusiasmo. O interesse por alguma coisa só produz superficialidade, porque constitui entrave para a mente. Uma sensibilidade apenas por alguma coisa não é de modo algum sensibilidade, porque pelo processo inconsciente da resistência, ela torna a mente insensível a outras coisas. A mente aberta unicamente a uma coisa é uma mente fechada. Assim, a condição de puro interesse é que é essencial para o despertar do entusiasmo. É a mente de grande amplitude que é capaz de interesse profundo. A mente sem amplitude é mente rasa ou superficial. Ter amplitude é ter profundidade para poder receber e reter as influências e os impulsos da vida. A mente rasa recebe pouco e, portanto, também dá muito pouco à vida. Quando o recebimento é escasso, a doação também é pequena, desprovida de toda generosidade.

[...] Porém a questão é: Temos de provocar tormentas e perturbações a fim de criar o entusiasmo de viver? Este remédio parece ser pior do que a doença! Afinal de contas o que é uma tormenta ou uma perturbação? Obviamente, é um desafio da vida. Devido a estes desafios, ficamos perturbados. Mas como no rio da vida correm novas águas a todo o momento, a vida é um desafio incessante. Não há momento em que não exista o desafio da vida.

[...] Não há dúvida de que a vida está constantemente enviando, de maneira incessante, desafios de todos os lados e em diversos níveis. Porém, a mente, através de suas respostas, emanadas das esferas de sua memória, trabalha como um "amortecedor de choques", em relação a estes desafios. É esta atividade da mente que nos leva à passividade. Somos, então, impedidos de enfrentar os desafios da vida, devido à intervenção da mente. A mente está interessada em agir como intermediária, porque só assim pode manter sua continuidade. Devido a essa mediação, nós nem mesmo nos tornamos conscientes dos desafios da vida. Algumas vezes, as suas fortificações desmoronam devido à natureza esmagadora do desafio, porém tais circunstâncias raramente acontecem na vida de uma pessoa comum. A pessoa não percebe os contínuos desafios da vida, devido às barreiras colocadas pela mente entre ela e o seu ambiente. Dessa forma a mente a mantém afastada de um contato direto com a vida.

[...] A maioria de nós está circunscrita a uma existência estagnada. Como haver entusiasmo numa existência assim? Se a mente pudesse receber os desafios da vida, sem emitir qualquer resposta de seus centros de memória, permaneceria viçosa e vital. Da mesma forma como a natureza é purificada pela tormenta que ruge, assim o será a mente humana pelos desafios da vida. Recebê-los, porém não reagir a eles, a partir dos centros de memória, é "ficar impassível" no meio da tempestade, é ficar quieto onde se está, porque qualquer movimento da mente, nesta hora de tormenta, conduzirá o peregrino espiritual a uma confusão cada vez maior.

[...] Mas permanecer impassível numa tormenta requer tremenda coragem. Não resistir à tormenta, nem fugir dela implica em receber em cheio o impacto da tormenta. E ao receber este impacto, o homem fica absolutamente só. O desafio sem resposta é um estado de solidão. Quando uma tempestade ruge na Natureza, cada árvore está sozinha, pois tem que se apoiar em sua própria resistência. Porém naquela solidão, se a árvore não resiste, torna-se mais leve devido à queda das folhas e galhos mortos. Da mesma forma, se a pessoa puder permanecer quieta, sozinha e renovada. E na renovação subjetiva, as dificuldades do ambiente objetivo se dissolverão na atmosfera. A solidão criada pela tormenta está cheia de tremendas possibilidades espirituais. [...]


Rohit Mehta



Fonte: do livro "Procura o Caminho", Ed. Teosófica, Brasília, DF
Fonte da Gravura: Mais Yoga - maisyoga.com

terça-feira, 26 de maio de 2020

O SUBLIME MISTÉRIO OCULTO NO HOMEM



[...] O Ocultismo sabe que o homem é um ser mental agindo através do corpo físico que lhe serve de instrumento para a aquisição de experiência no plano físico. Ele não é apenas uma entidade mental, mas tem também um núcleo espiritual de potencial ilimitado no qual pode ver a si mesmo como sendo um com a Realidade que fundamenta o universo, geral e vagamente designada como Deus. É através deste Centro espiritual, ou antes divino, oculto sob muitas camadas da mente, que ele pode entrar em contato com todo o universo, em todos os níveis de sutileza e resolver em seu interior, no mais profundo de sua consciência, o total e eterno mistério de sua própria natureza, do universo e da Realidade da qual ambos são derivados. Por conter em si mesmo o sublime mistério de sua existência, oculto nas profundezas de sua mente, é que o homem pode vir a percebê-lo, transcendendo sistematicamente as diferentes camadas da mente.

A filosofia do Ocultismo baseia-se desse modo na revelação sistemática do mistério por um grande número de Adeptos do Ocultismo, alguns dos quais têm se manifestado ao mundo, de tempos em tempos, como sábios, santos e místicos. Esse grupo de homens coordenou a Sabedoria Eterna, repetidamente verificou-a com sua própria experiência e preservou-a através das idades como um legado para toda a humanidade. São esses homens, os verdadeiros guardiães da humanidade, que trabalham constantemente por trás dos bastidores guiando-a pelo caminho da evolução, que é seu destino, com sabedoria e vontade infalíveis.

Pelo exposto acima fica claro que não pode haver comparação entre esta filosofia e a do materialismo. Esta ultima baseia-se em percepções sensoriais de pessoas ainda envolvidas nas limitações da mente inferior e que, com dados incompletos e vagos, tentam desenvolver, sobre o homem e o universo, teorias experimentais constantemente em mutação. A primeira fundamenta-se na experiência direta de seres Auto-realizados e liberados que têm não apenas investigado sistematicamente os mundos mais sutis, como também encontraram a Verdade final da existência e procuram projetá-la nos reinos do pensamento, em benefício daqueles que ainda são prisioneiros de suas próprias mentes.

Nos dias atuais tem-se dado grande consideração às realizações da ciência, como o homem está descobrindo os segredos do átomo, sondando cada vez mais as enormes profundezas do espaço, caçando micróbios, controlando doenças etc., e por isso muitos ingênuos acreditam que a ciência acabará por resolver todos os problemas humanos e por fazer da Terra um céu sem Deus. Seria absurdo minimizarem-se as realizações da ciência. Elas são realmente admiráveis, mas não exageremos sua importância ou eficácia na solução dos problemas mais profundos que a humanidade tem de enfrentar. A ciência já criou problemas muito sérios e urgentes por ignorar as realidades da vida, e o desenvolvimento de nossa natureza moral e espiritual não acompanhou o do intelecto. Talvez nunca tenha antes havido tanta inquietação, medo, conflito, incerteza, tanto acúmulo de meios de destruição em massa, tanta concentração de poder em indivíduos, muitos dos quais, por simples acidente ou erro de julgamento, podem destruir populações inteiras, infligindo enorme sofrimento a pessoas inocentes e desamparadas. Mesmo os inúmeros prazeres e meios de diversão que a ciência vem proporcionando não são benefícios puros, pois fazendo com que o homem se volte cada vez mais para o exterior tornam-no superficial e isolado da única fonte de verdadeira força, paz e sabedoria que está dentro dele. A quase universal e progressiva insatisfação da juventude que procura lenitivo na mudança constante, nas excitações de várias espécies e mesmo nas drogas, é um sintoma da moléstia básica que aflige nossa civilização - a desintegração da psique que se verifica quando o homem repudia sua natureza espiritual e é separado de seu Centro Divino. Nem tudo isso, é claro, deve-se propriamente à ciência, mas à filosofia materialista desenvolvida e adotada por aqueles que trabalham pelo progresso da ciência ou a exploram para seus propósitos políticos e sociais de curta visão.

Ao considerarmos a filosofia do Ocultismo, não devemos confundi-la com as filosofias geralmente associadas às doutrinas das religiões ortodoxas. É verdade que as grandes religiões do mundo foram transmitidas por instrutores espirituais que estavam em contato com as realidades interiores, e assim as doutrinas fundamentais dessas religiões refletem mais ou menos as doutrinas que fazem parte do Ocultismo. Mas nenhuma religião permanece em sua pureza original, livre de acréscimos que, no decorrer do tempo, vão se acumulando; nenhuma permanece incólume aos preceitos e fraquezas daqueles que transmitem as doutrinas de uma geração para outra, apos a perda de contato com as realidades interiores. É inevitável, por conseguinte, que todas as religiões se tornem cada vez mais deterioradas, ineficientes e formais. Eis por que o estudo e a prática de todas as religiões requerem discriminação, e aquele que procura seriamente a Verdade deve tentar separar cuidadosamente o que é verdadeiro e fundamental do que é falso e supérfluo, resultante de acréscimos que tiveram lugar no decorrer do tempo.

É necessário o mesmo cuidado no estudo das várias filosofias que, de tempos em tempos, são formuladas por filósofos acadêmicos nos diversos países. Cumpre estudá-las com discernimento, fazendo-se um esforço para separar o que é baseado em pura especulação do que é apoiado no conhecimento. O teste decisivo no caso de todas as doutrinas, quer de natureza religiosa quer filosófica, é estarem fundamentadas em experiência direta e poderem ser verificadas experimentalmente por alguém que possua as qualificações necessárias. Esse teste talvez não seja fácil de ser efetuado, mas todas as religiões e filosofias devem ser submetidas a ele, a fim de se comprovar sua validade. [...]


I. K. Taimni



Fonte: do livro "O Homem, Deus e o Universo", I. K. Taimni, Ed. Pensamento, pp. 7-9
Fonte da Gravura: Acervo de autorial pessoal

domingo, 24 de maio de 2020

O CARMA NÃO OPRIME


O karma é a grande lei da natureza, com tudo o que isso implica. Assim como somos capazes de nos movermos no universo físico com segurança, conhecendo suas leis, também podemos nos mover com segurança nos universos mental e moral quando aprendemos suas leis.

A maioria das pessoas, a respeito de seus defeitos mentais e morais, estão muito como na posição do homem que recusa subir as escadas por causa da lei da gravidade. Ele senta-se desanimado, e diz: "Esta é minha natureza, não posso fazer nada". É verdade, é a natureza do homem, já que ele a construiu no passado, e é "seu karma". Mas com um conhecimento sobre o karma ele pode mudar sua natureza, tornando-a amanhã diferente do que é hoje. Ele não está nas garras de um destino inevitável, imposto de fora sobre si; ele está num mundo de lei, cheio de forças naturais que ele pode utilizar para produzir o estado de coisas que ele deseja. O conhecimento e a vontade - isto é o que ele precisa.

Ele deve perceber que o karma não é um poder que oprime, mas um estabelecimento de condições das quais derivam resultados invariáveis. Enquanto ele viver negligente, em um caminho fortuito, enquanto ele for como um homem flutuando na corrente, atingido por qualquer entulho que passa, soprado por qualquer brisa casual, sugado por qualquer redemoinho casual, isto promete fracasso, azares e infelicidade.

A lei lhe possibilita atingir seus fins com sucesso, e coloca a seu alcance forças que ele pode usar. Ele pode modificar, alterar e reconstruir ao longo de outras linhas a natureza que é o resultado inevitável dos seus desejos, pensamentos e ações anteriores; esta natureza futura é tão inevitável como a presente: o resultado das condições que ele cria agora deliberadamente.

"O hábito é uma segunda natureza", diz o provérbio, e o pensamento cria hábitos. Onde existe Lei nenhuma conquista é impossível, e o karma é a garantia da evolução do homem até a perfeição mental e moral.


Dra. Annie Besant, MST



Fonte: do livro "Um Estudo Sobre o Karma", Ed. Pensamento, SP
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

sábado, 16 de maio de 2020

CORPO FÍSICO E VIBRAÇÕES DA CONSCIÊNCIA SUPERIOR


Eis aqui as providências essenciais, que permitem ao corpo físico responder às vibrações da consciência superior:

- Eliminar os materiais grosseiros que este corpo encerra, por meio de uma alimentação e vida puras;

- Subjugar inteiramente as paixões e cultivar sempre um equilíbrio emocional e mental que não seja afetado pelo turbilhão e vicissitudes da vida exterior.

- Acostumar-se à meditação calma sobre assuntos elevados, desviando a mente dos objetos dos sentidos, assim como das imagens mentais deles derivadas, para fixá-la em coisas superiores.

- Evitar toda a pressa, e sobretudo esta excitação febril do pensamento, que obriga o cérebro a trabalhar continuadamente, saltando de um assunto para outro.

- Desenvolver um amor sincero pelas coisas do mundo superior, que as torna mais atraentes que as do inferior, de modo que a mente descanse em sua companhia como na de um amigo querido.

De fato, estas providências são semelhantes às que se necessitam para que a alma se separe conscientemente do corpo, e que já foram assim descritas (*):

- O estudante deve começar pela prática de uma extrema ponderação em todas as coisas, cultivando um estado equânime e sereno da mente.

- Sua vida deve ser limpa e os seus pensamentos puros, trazendo o seu corpo numa constante submissão à alma, e sua mente treinada a se ocupar com assuntos nobres e elevados.

- Deve fazer da compaixão e da simpatia um hábito constante, sempre disposto a ir em auxílio dos outros sem se preocupar com as contrariedades e satisfações que o afetam pessoalmente.

- Deve cultivar a coragem, a constância e a devoção.

- Em resumo, deve viver a religião e a ética que, para outras pessoas, é apenas verbal.

- Tendo aprendido, por uma aplicação perseverante, a governar a sua mente até certo ponto, de modo a mantê-la fixa, durante algum tempo, em uma mesma linha de raciocínio, deve iniciar para ela um treinamento mais rígido ainda, por uma prática diária de concentração sobre algum assunto difícil ou abstrato, ou sobre algum objeto de elevada devoção. Esta concentração significa a firme fixação da mente em um ponto único, sem oscilar, sem distrair-se com objetos exteriores ou com a atividade dos sentidos, ou mesmo com a da mente. Ela deve ser mantida com fixidez e energia inflexíveis, até que, finalmente, aprenda assim a retirar sua atenção tão completamente do mundo exterior e do próprio corpo, que os sentidos possam permanecer calmos e tranquilos, enquanto a mente está intensamente ativa, com todas as suas energias concentradas para o interior e dirigidas sobre um único ponto de pensamento, o mais elevado que lhe seja possível alcançar.

- Uma vez que ela seja capaz de manter-se assim com certa facilidade, está pronta para mais um passo: por um esforço poderoso, mas calmo da vontade, a mente lançar-se-á além do mais elevado pensamento que possa atingir enquanto funcionar no cérebro físico, e nesse esforço se elevará e se unirá com a consciência superior e achando-se livre de seu corpo físico.

- Quando isto for conseguido, não se experimenta nenhuma impressão de sono ou de sonho, nem de qualquer perda de consciência. O homem acha-se fora de seu corpo, com a sensação de sentir-se aliviado de um fardo pesado, e não de haver perdido qualquer parte de si mesmo. Não está realmente privado do corpo, apenas elevou-se fora de seu corpo físico para um corpo de luz que obedece aos seus mínimos pensamentos e lhe serve como um belo e perfeito instrumento para a execução de sua vontade. Revestido deste corpo, pode percorrer à vontade os mundos sutis, mas as suas faculdades necessitarão de uma educação longa e cuidadosa, antes de poderem trabalhar, de maneira confiável, nestas condições novas.

- Pode-se chegar a libertar-se do corpo ainda por outros métodos: pelo êxtase intenso de devoção, ou por métodos especiais que um grande Instrutor pode comunicar ao seu discípulo. Qualquer que seja o método, o fim é o mesmo: a libertação da alma plenamente consciente, capaz de examinar seus novos ambientes que se situam em regiões inacessíveis ao homem de carne. Pode retornar à vontade ao corpo e nele entrar, e nestas condições, pode imprimir no cérebro físico e transmitir ao estado de vigília a lembrança das experiências que adquiriu.


Annie Besant


Nota: (*) Em "Condições da Alma Depois da Morte", Nineteenth Century, Nov. 1896.


Fonte: do livro "A Sabedoria Antiga"
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org