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terça-feira, 26 de maio de 2020

O SUBLIME MISTÉRIO OCULTO NO HOMEM



[...] O Ocultismo sabe que o homem é um ser mental agindo através do corpo físico que lhe serve de instrumento para a aquisição de experiência no plano físico. Ele não é apenas uma entidade mental, mas tem também um núcleo espiritual de potencial ilimitado no qual pode ver a si mesmo como sendo um com a Realidade que fundamenta o universo, geral e vagamente designada como Deus. É através deste Centro espiritual, ou antes divino, oculto sob muitas camadas da mente, que ele pode entrar em contato com todo o universo, em todos os níveis de sutileza e resolver em seu interior, no mais profundo de sua consciência, o total e eterno mistério de sua própria natureza, do universo e da Realidade da qual ambos são derivados. Por conter em si mesmo o sublime mistério de sua existência, oculto nas profundezas de sua mente, é que o homem pode vir a percebê-lo, transcendendo sistematicamente as diferentes camadas da mente.

A filosofia do Ocultismo baseia-se desse modo na revelação sistemática do mistério por um grande número de Adeptos do Ocultismo, alguns dos quais têm se manifestado ao mundo, de tempos em tempos, como sábios, santos e místicos. Esse grupo de homens coordenou a Sabedoria Eterna, repetidamente verificou-a com sua própria experiência e preservou-a através das idades como um legado para toda a humanidade. São esses homens, os verdadeiros guardiães da humanidade, que trabalham constantemente por trás dos bastidores guiando-a pelo caminho da evolução, que é seu destino, com sabedoria e vontade infalíveis.

Pelo exposto acima fica claro que não pode haver comparação entre esta filosofia e a do materialismo. Esta ultima baseia-se em percepções sensoriais de pessoas ainda envolvidas nas limitações da mente inferior e que, com dados incompletos e vagos, tentam desenvolver, sobre o homem e o universo, teorias experimentais constantemente em mutação. A primeira fundamenta-se na experiência direta de seres Auto-realizados e liberados que têm não apenas investigado sistematicamente os mundos mais sutis, como também encontraram a Verdade final da existência e procuram projetá-la nos reinos do pensamento, em benefício daqueles que ainda são prisioneiros de suas próprias mentes.

Nos dias atuais tem-se dado grande consideração às realizações da ciência, como o homem está descobrindo os segredos do átomo, sondando cada vez mais as enormes profundezas do espaço, caçando micróbios, controlando doenças etc., e por isso muitos ingênuos acreditam que a ciência acabará por resolver todos os problemas humanos e por fazer da Terra um céu sem Deus. Seria absurdo minimizarem-se as realizações da ciência. Elas são realmente admiráveis, mas não exageremos sua importância ou eficácia na solução dos problemas mais profundos que a humanidade tem de enfrentar. A ciência já criou problemas muito sérios e urgentes por ignorar as realidades da vida, e o desenvolvimento de nossa natureza moral e espiritual não acompanhou o do intelecto. Talvez nunca tenha antes havido tanta inquietação, medo, conflito, incerteza, tanto acúmulo de meios de destruição em massa, tanta concentração de poder em indivíduos, muitos dos quais, por simples acidente ou erro de julgamento, podem destruir populações inteiras, infligindo enorme sofrimento a pessoas inocentes e desamparadas. Mesmo os inúmeros prazeres e meios de diversão que a ciência vem proporcionando não são benefícios puros, pois fazendo com que o homem se volte cada vez mais para o exterior tornam-no superficial e isolado da única fonte de verdadeira força, paz e sabedoria que está dentro dele. A quase universal e progressiva insatisfação da juventude que procura lenitivo na mudança constante, nas excitações de várias espécies e mesmo nas drogas, é um sintoma da moléstia básica que aflige nossa civilização - a desintegração da psique que se verifica quando o homem repudia sua natureza espiritual e é separado de seu Centro Divino. Nem tudo isso, é claro, deve-se propriamente à ciência, mas à filosofia materialista desenvolvida e adotada por aqueles que trabalham pelo progresso da ciência ou a exploram para seus propósitos políticos e sociais de curta visão.

Ao considerarmos a filosofia do Ocultismo, não devemos confundi-la com as filosofias geralmente associadas às doutrinas das religiões ortodoxas. É verdade que as grandes religiões do mundo foram transmitidas por instrutores espirituais que estavam em contato com as realidades interiores, e assim as doutrinas fundamentais dessas religiões refletem mais ou menos as doutrinas que fazem parte do Ocultismo. Mas nenhuma religião permanece em sua pureza original, livre de acréscimos que, no decorrer do tempo, vão se acumulando; nenhuma permanece incólume aos preceitos e fraquezas daqueles que transmitem as doutrinas de uma geração para outra, apos a perda de contato com as realidades interiores. É inevitável, por conseguinte, que todas as religiões se tornem cada vez mais deterioradas, ineficientes e formais. Eis por que o estudo e a prática de todas as religiões requerem discriminação, e aquele que procura seriamente a Verdade deve tentar separar cuidadosamente o que é verdadeiro e fundamental do que é falso e supérfluo, resultante de acréscimos que tiveram lugar no decorrer do tempo.

É necessário o mesmo cuidado no estudo das várias filosofias que, de tempos em tempos, são formuladas por filósofos acadêmicos nos diversos países. Cumpre estudá-las com discernimento, fazendo-se um esforço para separar o que é baseado em pura especulação do que é apoiado no conhecimento. O teste decisivo no caso de todas as doutrinas, quer de natureza religiosa quer filosófica, é estarem fundamentadas em experiência direta e poderem ser verificadas experimentalmente por alguém que possua as qualificações necessárias. Esse teste talvez não seja fácil de ser efetuado, mas todas as religiões e filosofias devem ser submetidas a ele, a fim de se comprovar sua validade. [...]


I. K. Taimni



Fonte: do livro "O Homem, Deus e o Universo", I. K. Taimni, Ed. Pensamento, pp. 7-9
Fonte da Gravura: Acervo de autorial pessoal

domingo, 23 de abril de 2017

A SENDA TRÍPLICE - ECLETISMO


A SENDA TRÍPLICE

No processo da evolução consciente, há três grandes caminhos que em paralelo conduzem harmonicamente o desenvolvimento oculto e espiritual do homem.

Quando tomamos somente um deles, com exclusão de um, ou dos outros, produzem-se determinados desequilíbrios que perturbam o desenvolvimento harmônico, ou justo equilíbrio, que deve reinar na consciência do espiritualista.

Estas três sendas são: a filosófica, a mística e a científica.

Na realidade, a atuação operativa atua somente nos aspectos místico e científico, sendo a filosofia unicamente o laço que os harmoniza, coordenando os opostos.

A senda mística desenvolve o aspecto sensitivo do ser, assim como a senda científica e ocultista desenvolve a vontade do operador, sendo indispensável que sentimento e vontade, mística e ocultismo se encontrem devidamente coordenados para os efeitos de evolução harmônica.

O místico exagerado perde o controle da vida e se converte em um autômato perigoso para si mesmo, fisicamente e animicamente.

O ocultista puro desenvolve em si a vanidade extrema e então, por esse meio, pode converter-se em servidor dos chamados "irmãos da sombra".

Somente coordenando o desenvolvimento da mística com o aspecto físico e volitivo, é que consegue a completa harmonia, que é indispensável na vida do endoterista*.

Para estas duas polaridades da vida interna não podem ser devidamente coordenadas e compreendidas se não se faz um estudo de filosofia. É por isso que não poderíamos terminar este manual**, sem mostrar os perigos de um desenvolvimento polarizado à mística, à filosófica ou à ocultista (científica), isoladas, sem estabelecer a coordenação necessária que deve reinar neste tríplice caminho.

O caminho da filosofia pura, ausente de mística e de ciência, conduz comumente ao sofismo, sem importância transcendental; o filósofo que não cultiva sua vontade e que não desenvolve seu coração, resulta ser um empedernido, sem transcendência alguma em seu real progresso.

Um místico que não seja filósofo é enganado por falsas aparências com imitação ou representação da realidade para sua exagerada sensibilidade. Um ocultista sem filosofia pode se converter em um desonesto ou audaz mago que atua para a satisfação de sua própria vanidade, sem pensar nas consequências naturais de cada atuação.

Por isso, é absolutamente indispensável que o tríplice caminho ou senda seja recorrido em paralelo, harmonizando o claro pensamento, o nobre sentimento e a volitiva ação.

A Fraternidade Rosa-Cruz, coordena maravilhosamente a tríplice senda, ainda que haja ocultistas especializados, místicos por excelência e filósofos excepcionais.

É conveniente informar aos estudantes atuais, quais são as principais obras de ciência, de filosofia e de mística.

Como obras ligadas diretamente à ciência oculta temos, dentre muitíssimas outras, por exemplo:

- Os Chacras, de C. W. Leadbeater,
- A Iniciação, de R. Steiner,
- Cabala Mística, de D. Fortune,
- Igreja Gnóstica, de A. Krumm Heller,
- Maçonaria e Catolicismo, de Max Heindel,
- Filosofia Yoga, de S. Vivekananda.

Em obras de filosofia temos, dentre muitíssimas outras, por exemplo:

- Jnana Yoga, de S. Vivekanada,
- Gnana Yoga, de Y. Ramacharaka,
- Ísis Sem Véu, de H. P. Blavatsky
- Karma Yoga, de S. Vivekananda,
- Atmi Jnani, de Avedananda.

Em obras de mística temos, dentre muitíssimas outras, por exemplo:

- Em Harmonia com o Infinito, de R. W. Trine,
- Rosa Esotérica, de A. Krumm Heller,
- Coletâneas de Um Místico, de M. Heindel,
- Na Hora de Meditação, de F. P. Alexander.

E em obras que encontramos as três sendas juntas temos os seguintes autores, dentre muitos outros, por exemplo:

- Max Heindel,
- Rudolf Steiner,
- Franz Hartmann,
- Ramacharaka,
- Vivekanada,
- Dion Fortune.

À medida que o estudante vai se aprofundando no conhecimento das leis que regem o destino e evolução do homem, irá encontrando verdadeiros tesouros de sabedoria na multidão de autores que estão trabalhando pelo melhoramento do mundo; aqui citamos apenas algumas das autoridades genuínas e reconhecidas.


ECLETISMO

Do grego "eklegein" (escolher). Este é o espírito que deve caracterizar o estudante Rosacruz: ler livremente as obras dos Iniciados de todos os tempos e ir selecionando a sabedoria que concerne a sua imediata necessidade e evolução, pois sempre será parcial e desequilibrado todo aquele que imagine que somente o autor "a" ou "b" possuem a razão e a verdade, e que os demais estão equivocados.

O mais sábio dos homens não pode resumir a sabedoria universal, e por tal razão o estudante do transcendental deve ser eclético, para que sua consciência vá abarcando os diferentes aspectos da sabedoria que encarna o conhecimento genuíno das leis da evolução.

Conhecer a filosofia dos orientais e sua elevada mística, resulta de suprema importância, mas como eles aguçaram muito sua inteligência para perceber o mundo transcendental pode não se adequar exatamente a qualquer buscador do mundo ocidental e que, por este mesmo fato, pode não ser um sistema que corresponda adequadamente a todos da raça ocidental.

No Ocidente, temos o aspecto místico-cristão em todas as obras rosacruzes de Max Heindel. No aspecto místico gnóstico temos A. Krumm Heller que se refere à atualização do desenvolvimento por meditação. No aspecto Iniciação temos R. Steiner. Em alquimia se ocupa Franz Hartmann e também Max Heindel em seu livro "Maçonaria e Catolicismo". Enfim, todos os autores ocidentais nos ensinam algo particular que nos é indispensável para o equilibrado desenvolvimento da mística e do cultivo interno.

Com estes pontos necessários para aclarar, damos o necessário a este pequeno trabalho, que esperamos seja de utilidade prática aos estudantes espiritualistas da América, sejam Teosofistas, Yogues, Rosacruzes, Cabalistas, Gnósticos ou simplesmente idealistas.




Israel Rojas Romero





Fonte: do Opúsculo "Manual Rosacruciano"
Fraternitas Rosicruciana Antiqua
Fraternidad Rosa Cruz de Colombia - Gran Logia Raghozini
http://www.fraternidadrosacruzdecolombia.org/
Fonte da Gravura: www.shutterstock.com




Notas deste blog:

* Um dos aspectos do esoterismo. Um conhecimento adquirido por experiência espiritual.

** "Manual Rosacruciano"


segunda-feira, 16 de março de 2015

O NOME DE DEUS E SEUS ATRIBUTOS

Os cabalistas exprimem o nome de Deus através de uma só letra chamada "iod", assim representada י; ela forma a décima letra hebraica e corresponde igualmente ao número 10.

A unidade desse número representa o primeiro princípio; o zero é um sinal hieroglífico que forma o emblema do mundo. (1)

A primeira proporção do compasso, isto é, a primeira figura geométrica, dá por resultado o número 10. É preciso, necessariamente, apoiar-se sobre um ponto, sem o qual não se pode operar; prolongando-se esse ponto tem-se uma linha; prolongando-se essa linha, obtém-se uma superfície, e, percorrendo-se esta superfície, tem-se uma figura com a mesma forma do zero. O ponto de centro forma a unidade que é o número 1; o valor desses dois algarismos é 10, símbolo de Deus e do universo. (2)

Desde um ponto até o número 1, etc., tudo existe; e além do número 1, e da forma de um ponto, o infinito começa... Mas antes do infinito, antes do número 1 e antes da forma de um ponto, nada existe.

Consequentemente, nada é o princípio de toda coisa, e a partir dele Deus criou tudo o que existe no universo.

Os magos representam os três principais atributos da divindade através da letra "iod", repetida três vezes, em forma de triângulo, encerrada em um círculo. (3)

O primeiro atributo é o tempo, símbolo da eternidade. É o emblema do Pai Eterno que se divide em três partes, a saber: o passado, o presente e o futuro.

O segundo é o espaço, que representa o infinito, e divide-se em longitude e latitude; é o símbolo da cruz e do Cristo.

O terceiro é a matéria, que se divide e se subdivide infinitamente através do movimento perpétuo e universal, símbolo do espírito eterno, que é a alma do mundo ou o Espírito Santo.

Tudo o que existe na natureza passa por esse triângulo místico, o que significa que tudo cresce, se destrói e se reproduz. (4)

O grande nome de Deus, adorado por todos os sábios filósofos do universo, é denominado "Jehovah" יהוה: esse nome sagrado é conhecido por todos os sábios e é composto de quatro letras hebraicas.

Os antigos sábios e os primeiros fundadores das nações do mundo escreveram esse nome, cada um em sua língua, com quatro letras, e todos esses nomes divinos designam os diferentes atributos da Divindade; eles correspondem ao grande nome quaternário que preside a terra (5), aos quatro pontos cardeais, aos quatro elementos e às quatro estações que a cruz representa.

A letra inicial "iod" י, do nome "Jehovah" יהוה, exprime o Pai ou a primeira pessoa, os dois "he" הה simbolizam as duas naturezas do Filho, ao mesmo tempo agente e paciente, e a letra "vau" ו, que as une, representa o Espírito Santo, o Rouach Elohim, isto é, o espírito de Deus que ordenou o caos.

Segundo Voltaire (6), "apenas na França se pronuncia "Jehovah", quando se deve pronunciar "Ieve"; é assim que se acha escrito no Sanchoniaton. No Oriente, esse nome sagrado compôs-se de quatro vogais i, e, o, u; uns pronunciavam "ieoh", aspirando "ieova", outros "yeaou"; era preciso que tivesse sempre quatro letras, ainda que coloquemos cinco devido à impossibilidade de exprimir os quatro caracteres".

Acrescenta ainda, segundo a narração de Clément d'Alexandrie, que, "captando-se a verdadeira pronúncia desse nome, poder-se-ia matar um homem. Clément cita um exemplo". E em outra passagem que "os judeus não pronunciam esse nome há muito tempo, ele era comum aos Fenícios e Egípcios. Significava o que é, e provavelmente daí advenha a inscrição de ísis: Eu sou tudo o que é''.

Os cabalistas hebreus dizem que Deus comunicou a Moisés a verdadeira pronúncia de seu nome inefável, sobre o Monte Sinai, com todos os principais mistérios da lei; desde então, esse nome foi, cuidadosamente, ocultado por Moisés nas dobras do forro das vestes sacerdotais.

Segundo Kircher (7) , somente o grande sacerdote tinha o direito de pronunciá-lo por esses caracteres, uma só vez na semana (8). Outros dizem "que o grande sacerdote o proferia no templo uma só vez ao ano, no dia dez do mês "thishri" (setembro) (9), dia de jejum e de expiação; nessa ocasião "Jehovah" era dito "Schemhammephorasch" ("Shem hameforash") שמהמפורש, que significa "nome bem pronunciado e explicado"; porém recomendava-se ao povo que fizesse muito barulho durante essa cerimônia, a fim de que o nome sagrado só fosse ouvido por aqueles que tivessem direito a ouvi-lo, pois, dizem os judeus, qualquer outro que o ouvisse seria acometido de morte repentina".

Para os filósofos modernos, o nome de "Jehovah" designa a palavra universal (10), ou "eu sou aquele que é".

Outros, o chamam o Deus triplo e gerador, porque todos os outros nomes divinos procedem dele, e nele está contida a essência da divindade.

Os adeptos e os cabalistas assim representam o tetragrama "Jehovah" (11):


Encerram os caracteres sagrados em um triângulo ou delta, e a decomposição desse nome resulta em outros três nomes que são dados às três pessoas da Santíssima Trindade. (Ver a gravura no topo desta postagem.)

Eis aqui as explicações sobre esses caracteres místicos e simbólicos.

A primeira letra do triângulo chama-se "iod" י; é o nome do Deus de Abraão e exprime o Deus vivo. Essa letra é atribuída a Deus-pai, primeira pessoa e causa primeira que produz e não é produzida. As outras pessoas emanam dele, porque ele é o princípio primeiro de tudo o que existe e não há outro princípio além dele mesmo.

O segundo nome é composto de duas letras, יה, que correspondem a "iah" (Deus); é o nome do Deus de Isaac, o qual significa: verdadeiro Deus. É atribuído ao Filho, segunda pessoa, produzida e engendrada, cuja faculdade é a de produzir. (12)

O terceiro nome é composto de três letras, יהו, que correspondem a "iaho", nome do Deus de Jacó, o qual significa Deus Santo. É atribuído ao Espírito Santo.

Essas três pessoas formam o tríplice triângulo (13), símbolo da união hipostática a qual constitui a unidade e a identidade da essência divina, e foi comunicada exclusivamente a cada pessoa ou natureza. O Espírito Santo foi produzido pelo Pai e o Filho nada produz, porém emana de todas as coisas criadas pelas duas pessoas.

O quarto nome compõe-se de quatro letras יהוה e encerra em si todos os mistérios da sabedoria; eis por que os cabalistas chamam o triângulo místico de o selo do Deus vivo. Observe-se, ainda, que a decomposição deste nome faz retornar ao Número 10.




(1) Os primeiros egípcios adoravam o Ser Supremo, representado por um ponto imperceptível no centro de um círculo. Os adeptos dividem em dez graus todas as ciências sacerdotais e maçônicas, o que significa ser necessário passar por dez trabalhos diferentes antes de penetrar no santuário da natureza. Somente após se ter adquirido os dez graus de conhecimento é que se chega à perfeição da grande obra.

(2) É por essa razão que os sábios pronunciam sempre "ó Deus", etc., em suas preces; o "o", antes de qualquer coisa, deve ser pronunciado aspirado.

(3) Essas três letras têm estreita relação com os três pontos maçônicos colocados no esquadro; o padre Kircher fala, sabiamente, a esse respeito em sua obra intitulada O Edipus Egyptiacus, t2, págs. 24, 106 e 287.

(4) A História Sagrada apresenta-nos três eventos maiores, que devem chamar a atenção dos sábios: primeiramente, a criação de onde veio a geração dos seres; em seguida o dilúvio que foi a sua destruição, e a redenção pelo Cristo, regenerador do gênero humano.

(5) As divindades celestes são invocadas pelo número três, e as que presidem a Terra pelo número quatro.

(6) Voltaire, dicionário filosófico, ver o vocábulo "Jehovah".

(7) Kircher, OEdipus Egyptiacus, t2, cap. 2.

(8) Ver o Thuileur des 33 degrés de l'Ecossisme, pág. 92, in-8°, edição 1813. Em Paris, livraria Delaunay, Palais-Royal.

(9) Segundo outros, mês de março.

(10) Observações sobre a palavra universal ou "Jehovah", impressa em Paris, em 1804; pela viúva Nyon, rua do Jardinet.

(11) Ver o grande calendário mágico de Tycho-Brahé. (É encontrado, também, no Cobridor escocês.)

(12) O profeta Isaías (cap. 7, v.4) quis expressar a dupla natureza do filho de Deus e a união hipostática do Verbo com a natureza humana, isto é, o filho de Maria, pelo nome Emmanuel (nobiscum Deus), que significa Deus conosco. São Mateus dá igualmente este nome a Jesus (cap. 1 v. 23). Os teólogos explicam a expressão "nobiscum Deus", por Deus homem ou composto teândrico.

(13) O tríplice triângulo corresponde ao número 9. A unidade do centro é um e forma o número 10. Encerra em si vários mistérios... Motivos relevantes impedem-me de falar mais... Abro a porta do santuário, cabe a você entrar. A Sagrada Escritura ensina-nos o mesmo através das seguintes parábolas: Procurai e achareis; pedi e recebereis; batei e se vos abrirá.




LENAIN





Fonte do Texto e da Gravura:
do livro "A CIÊNCIA CABALÍSTICA", cap. 1
Sociedade das Ciências Antigas
Ordem Rosacruz Cabalística
Ordem Martinista
Ordem Maçônica
Ed. Martins Fontes

sábado, 7 de março de 2015

OS 12 APÓSTOLOS E O ZODÍACO

“Tudo o que a sua mão encontrar para fazer, faça-o com todo o seu coração.” (Jesus)

Jesus sentado no centro representa o centro do universo, caracterizando as qualidades de todos os doze signos.

Da direita para a esquerda:

O apóstolo Simão (o Zelote) representa Áries;
Judas Tadeu, Touro;
Mateus, Gêmeos;
Filipe, Caranguejo;
Tiago (o Menor), Leão;
Tomé, Virgem;
João, Libra;
Judas, Escorpião;
Pedro, Sagitário;
André, Capricórnio;
Tiago (o Maior), Aquário
Bartolomeu, Peixes.

Leonardo esquematizou a disposição dos apóstolos de acordo com a posição astronômica, da direita para a esquerda de quem vê o quadro.


Simão – Áries

Na cabeceira da mesa é Simão, que corresponde ao signo de Áries. Signo de fogo e de ação, Simão indica com as mãos a direção a tomar. Áries rege a cabeça na anatomia astrológica, e a testa de Simão é bem realçada na pintura. Sua prontidão ariana também é mostrada pelas mãos desembaraçadas, para agirem conforme a vontade e coragem cardeal de Áries.

Judas Tadeu – Touro

Ao seu lado, está Judas Tadeu, o taurino. Seu semblante é sereno; enquanto escuta Simão (Áries/cérebro) vai digerindo lentamente suas impressões, acolhendo-as com uma das mãos, revelando a possessividade de Touro (que é terra/receptivo). No corpo humano, Touro rege o pescoço e a garganta, e o de Judas Tadeu está bem destacado.

Mateus – Gêmeos

Mateus vem em seguida, correspondendo à Gêmeos, signo duplo que necessita de interação com as pessoas e de colher informações. Mateus tem as mãos dispostas para um lado e o rosto para o outro, revelando a dinâmica geminiana de querer falar e ouvir a todos ao mesmo tempo. Mateus era repórter e historiador da vida de Jesus e Gêmeos rege a casa III, setor de comunicação e conhecimento.

Filipe – Câncer

Logo após está Filipe, o caranguejo. Suas mãos em direção ao peito mostram a tendência canceriana para acolher, proteger e cuidar das coisas. Regido pela Lua, Câncer trabalha com o sentir; Filipe está inclinado, como se estivesse se oferecendo para alguma tarefa.

Tiago Menor – Leão

Ao lado de Filipe está Tiago Menor, o leonino, de braços abertos, revelando nesse gesto largo o poder de irradiar amor (Leão rege o coração e o chacra cardíaco), ele se impõe nesse gesto confiante, centralizando atenções.

Tomé – Virgem

Atrás de Tiago Menor, quase que escondido, está Tomé, o virginiano, que, apesar de modesto, não deixa de expressar o lado crítico e inquisitivo de Virgem – com o dedo em riste ele contesta diante de Jesus; foi Tomé quem quis o ver para crer.

João – Libra

Libra é simbolizada por João, o discípulo amado de Jesus. Com as mãos entrelaçadas, ele pondera e considera todas as opiniões antes de tomar posições – Libra rege a casa VII, é o setor do outro e isso requer imparcialidade e diplomacia.

Judas Iscariotes – Escorpião

Ao lado de Judas, está Judas Iscariotes, representando Escorpião. Com uma das mãos ele segura um saco de dinheiro, pois era o organizador das finanças da comunidade dos apóstolos (Escorpião rege a casa VIII, que trata dos bens e valores dos outros) e com a outra mão ele bate na mesa, protestando.

Pedro – Sagitário

Sagitário é representado por Pedro, o Pescador de Almas. Foi ele quem fez o dogma e instituiu a lei da Igreja – Sagitário rege a casa IX, setor das leis, religiões e filosofia. Seu dedo aponta para Jesus – a meta de Sagitário é espiritual – e na outra mão ele segura uma faca, representando o lado instintivo nos homens. Ele se eleva entre outros dois apóstolos, trazendo esclarecimentos (luz) à discussão.

André – Capricórnio

Ao lado de Pedro está André, que representa Capricórnio. Conhecedor das responsabilidades, com seu gesto restritivo impõe limites. Seu rosto magro e ossos salientes revelam o biótipo capricorniano. Seus cabelos e barbas brancas e seu semblante sério mostram a relação de Capricórnio com o tempo e a sabedoria.

Tiago Maior – Aquário

Os temores de André são apaziguados por Tiago Maior, aquariano, que debruça uma de suas mãos sobre seus ombros, num gesto amigável, enquanto a outra se estende aos demais. Ele visualiza o conjunto, percebendo ali o trabalho em grupo liderado pelo Mestre. Aquário rege a casa XI, que é o setor dos grupos, amigos e esperanças.

Bartolomeu – Peixes

O último da mesa é Bartolomeu, que representa Peixes. Seus pés estão em destaque (que são regidos por Peixes na anatomia astrológica). Ele parece absorvido pelo que acontece à mesa, e, com as mãos apoiado, quase debruçado, revela devoção envolvido pelo clima desse último encontro entre os apóstolos e Jesus, já que numa determinada hora as coisas ficaram um pouco confusas, pois Jesus revelou que “a mão do que me trai está comigo à mesa”.





Fonte da Gravura e do Texto:
Biblioteca Virtual da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br/wordpress/

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A CONQUISTA DO CÉU

Segundo muitas religiões, é na “parte superior” do Universo que está a morada dos bem-aventurados e nas entranhas da Terra que está a habitação dos condenados: o inferno. Os Mestres Rosacruzes iluminam, no entanto, que este é um ensino falso.

Se o destino do homem se limitasse a esta vida tão curta, que mesmo em sua maior duração não nos permitiria atingir os limites das nossas aspirações, que adiantaria ao homem essa sede infinita de conhecimento, de saber, de necessidades, de sonhos, tendências inexplicáveis para um estado melhor? A persistência que temos em prosseguir, apesar das decepções, para um Ideal que não é deste mundo, é uma indicação firme de que a morte não define, de uma vez por todas, o destino do nosso espírito.

DEUS não poderia dar ao homem esperanças irrealizáveis. As necessidades infinitas da alma reclamam forçosamente uma vida interminável. Se para nós tudo começasse com a vida atual, como explicar tanta diversidade nas inteligências, tantos estágios na virtude e no vício, tantas variedades nas situações humanas? Que ideia faríamos de um DEUS que estabelecendo apenas uma vida corporal nos houvesse dotado tão desigualmente? Todas essas obscuridades dissipam-se perante a “doutrina das existências múltiplas”. Os seres, que se distinguem pelo seu poder intelectual ou por suas virtudes, atualmente têm vivido mais, têm trabalhado mais, têm adquirindo experiências e aptidões maiores.

Somos membros de uma mesma família, semelhantes pela carne e pelo sangue, educados em vários princípios, diferentes em bastantes pontos. Porém, essas desigualdades, resultantes dos efeitos do passado, podem ser resgatadas e niveladas nas vidas futuras.

O progresso e a elevação dos nossos espíritos dependem unicamente do nosso trabalho, da energia por nós desenvolvida nos combates da vida. Enquanto alguns lutam com coragem e rapidamente alcançam os graus que os aproximam de uma vida superior, outros se imobilizam durante séculos em existências ociosas e estéreis, e perdem tempo.

Através da sucessão dos tempos, as nossas existências se desenrolam, passam e se renovam e, em cada uma delas, desaparece um pouco do mal que está em cada um de nós. Cada conquista que fazemos sobre as nossas paixões, sobre os nossos instintos egoístas, nos permite uma alegria pura, uma satisfação interna. Quanto maior for o trabalho executado, maior será a recompensa. O céu não está longe, mas em nosso interior.





Fonte do texto e da gravura: Fraternidade Rosa-cruz do Brasil
Gravura: Rosacrucianismo e Alquimia XVII 
– Herbrandt Jamsthaler, Frankfurt, 1625
http://rosacruzdobrasil.org.br/a-conquista-do-ceu/

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A TRAJETÓRIA DA MAGIA

(...) Como os estudantes de arqueologia e os expoentes máximos de religião comparada nos informam, a magia remonta aos primórdios da vida do homem neste planeta. Todos os sistemas religiosos, com exceção possivelmente de algumas seitas protestantes e do budismo meridional, fizeram durante um certo período, uso da magia cerimonial. (...)

Se as autoridades forem cuidadosamente estudadas, observar-se-á que, falando de maneira geral, cada religião assimila o melhor da religião antecedente, e o resto é deixado para a ralé ignorante e para aqueles sacerdotes da velha religião que não se conformam o novo. À medida que a nova religião se organiza, ela começa a perseguir os remanescentes da antiga, e esses remanescentes são empurradas para o submundo. Essa situação aflorou quando o Cristianismo emergiu de sua infância e se tornou a religião dominante do Ocidente. A velha religião desintegrou-se, e a Igreja Católica absorveu muito de sua filosofia e de seu ritual, impregnando, gradualmente, todos os níveis da sociedade, até que os seguidores da velha fé fossem apenas seres rústicos, residentes em lugares distantes e isolados. Esses rústicos ou pagãos, não versados na filosofia de sua religião, transmitiram uma face deturpada da mesma. Eles nunca deixaram de ser perseguidos cruelmente, mas seu número era constantemente acrescido por muitas fontes, incluindo aqueles que se rebelaram contra as posições papais.

Quando, contudo, o impulso do Renascimento tornou possível quebrar o jugo de Roma, as mais piedosas Igrejas reformadas estavam tão intolerantes quanto Roma havia sido em sua perseguição às bruxas, feiticeiras e magos. A história da Europa do século XI ao XVII constitui-se em leitura aterrorizante. Com a emergência da “Idade da Razão”, a crença popular no poder maligno do mago começou a desaparecer. Simultaneamente, nos círculos protestantes ao menos, a crença religiosa começou a se deteriorar em uma formalidade que tinha muito pouca força mobilizadora.

Esse nível de mediocridade na Inglaterra alcançou o apogeu na era vitoriana, quando a Física, pela boca de seus maiores expoentes, declarou “não existir lugar no universo para fantasmas”, e o presidente da Sociedade Real declarou: “Na matéria eu vejo o potencial e a promessa de toda a vida.” Porém, com os crescentes conhecimentos acerca do universo que o desenvolvimento moderno da ciência trouxe, tais ideias tiveram que ser consideravelmente revistas, e físicos modernos como Eddington, Jeans ou Einstein, apresentaram uma ideia da natureza e um propósito do Universo que podem ser facilmente aceitos pelo mago. Levando-se em consideração a diferença de terminologia, os magos vêm falando a mesma coisa há séculos!

É, no entanto, com as modernas escolas de psicologia, mais particularmente a associada ao nome de C. G. Jung, que o mago encontra maior proximidade com o pensamento moderno. Pelo balanço curioso do pêndulo moderno, percebido por Heráclito, chamado de enantiodromia*, o que foi subjugado e obrigado à clandestinidade começa agora a aflorar para desalento dos ortodoxos.

Mas, embora reprimida e perseguida ao longo dos tempos, a magia nunca deixou de existir no mundo ocidental. A Igreja Romana adaptou habilidosamente muito da velha magia para seus próprios propósitos; por outro lado, nos bastidores, a magia tradicional corria para um dos rios clandestinos das terras altas, emergindo aqui e ali à luz do dia, para então desaparecer sob a superfície.

Uma dessas emergências foi a Ordem do Templo, cujos membros, os Cavaleiros Templários, foram aliviados de boa parte do ódio nutrido por eles pelos seus perseguidores; os Albigenses na França foram outra; os Irmãos da Dourada e Rosa Cruz, os Iluminados, os Magnetistas, os Teosofistas e numerosas outras ordens mágicas e fraternidades que surgiram na metade do século XIX estão também entre esses movimentos emergentes.

Desses, a mais famosa e a mais iluminada, do nosso ponto de vista, é a Ordem da Golden Dawn**. Fundada sobre supostas bases rosacruzes, ela conseguiu realizar uma síntese admirável de todas as ramificações oscilantes da magia; e, a despeito de muitas vicissitudes e divisões, ainda permanece fonte da Tradição Mágica Ocidental. (...)



*enantiodromia – de enatios, do grego, contrário, oposto. Seria a capacidade de certas forças, reprimidas por suas antagonistas, virem a substituí-las em movimento pendular. Por exemplo, a condenação medieval ao culto do corpo sendo substituída por esse culto por meio da recuperação dos ideais estéticos do renascimento. (N.doT.)

**Golden Dawn (Aurora Dourada) – ordem hermética fundada por mestres maçons na Inglaterra, que exercem grande influência sobre todo o desenvolvimento do Ocultismo no Ocidente, influência essa que perdura até hoje, ainda que de forma residual. (N.doT.)




E. W. Butler





Fonte: do livro "A Magia e o Mago", Ed. Bertrand, 2ª Edição
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A NOITE NEGRA DA ALMA

No âmbito deste artigo desejo falar de um assunto que é parte de todas as tradições. Refere-se a um dos períodos que todo místico é compelido a vivenciar na senda da Luz. Trata-se da Noite Negra. Não houve um só Avatar, Messias ou Profeta que, de uma forma ou outra, não tenha evocado esse período de grande confusão que todo buscador, num dado momento de sua busca, deve enfrentar e, se possível, superar. Estou certo em dizer "se possível", pois pode acontecer que a Noite Negra nos afaste definitivamente da Luz, pelo menos durante uma encarnação.

Para começar, o que é essa Noite Negra? Posso dizer que, no plano individual, é um ciclo que corresponde a um questionamento do ideal seguido até então. Conforme o caso, esse questionamento pode ter origem numa série de provações que atravessamos, ou numa crise interior sem qualquer ligação com o mundo objetivo.

Uma doença, um acidente, a perda de um ente querido, problemas familiares, problemas profissionais, são alguns elementos que podem abalar a vida mística de um indivíduo e mergulhá-lo nas trevas da dúvida. 

Independentemente dessas provações, também pode acontecer, por razões puramente psicológicas, que o místico se sinta invadido por impulsos interiores negativos que o levem brutalmente a rejeitar os valores em que acredita.

Esteja sua origem nas tribulações terrenas ou num grande sofrimento interior, a Noite Negra costuma se traduzir de uma mesma forma: a chama de nossa fé mística vacila e se apaga por um período, que dura enquanto persistimos em não reacendê-la. Sofremos em todos os planos, mas, mesmo sabendo que somos responsáveis por esse sofrimento, recusamo-nos a sair das areias movediças que, hora após hora, dia após dia, semana após semana, sufocam-nos um pouco mais. Mãos nos são estendidas, mas não queremos vê-las, muito menos pegá-las.

Não acreditamos mais em nada, nem em Deus, nem no homem, nem no amigo, nem em nós próprios. Deixamo-nos aprisionar pela fatalidade e tornamo-nos o espectador entediado de nós mesmos. Vimo-nos partir à deriva no oceano de nossos temores, angústias e desespero. Nossa própria existência torna-se um fardo que carregamos sem a menor convicção, e no lenho dessa cruz deixamos fenecer a rosa, pois sequer a vemos mais.

Dentre nós, muitos já conhecem esses períodos particularmente sombrios da existência, que são o quinhão que a todos nós cabe, mas que, no caso do místico, assume uma dimensão interior muito mais ampla, pois ele sabe que corresponde a escolhas cujo resultado concerne diretamente sua evolução mística. Ele sente no mais profundo de si mesmo, que eles constituem um questionamento do seu ideal, o oprimem, pois sabe que sairá dele engrandecido ou, ao contrário, diminuído. Isso acontece porque a Noite Negra, tal como se manifesta à vida de um místico, é o resultado de um conflito entre seu Eu objetivo e seu Eu espiritual.

É verdade que ele pode ter a impressão de que não é esse o caso, sobretudo se ela tem origem em provações como as que citei anteriormente. Não obstante, quer ele queira ou não, essa Noite Negra só existe porque ele oscila entre os impulsos de seu ego e as injunções de sua alma, ou seja, entre a ilusão terrena e a Realidade Cósmica.

Tomemos um dos exemplos mais dolorosos para ilustrar o que dizemos: a morte. Muitos místicos já vivenciaram um período de total entrega após a perda de um ente querido. Nessas penosas circunstâncias, eles se sentiram assaltados por um sentimento de injustiça que inevitavelmente os levou a duvidar de suas próprias crenças. Por que seu marido ou sua mulher, seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha seu irmão ou sua irmã, morreram tão jovens? Por que com tanto sofrimento? Por que naquele momento? Por quê? Deus verdadeiramente existe? Será que o misticismo só serve para dar falsas esperanças, tornar a existência menos amarga, dissimular um Não-Ser, escusar um acaso cego e arbitrário? É claro que quando se deixa a mente enredar nesse tipo de engrenagem de perguntas-respostas, surgem tantos "Por quês" quanto motivos para duvidar.

O Eu objetivo por todos os meios, busca tornar-se o dono da situação, pois seu egoísmo vê em tudo aquilo uma oportunidade de ficar mais satisfeito. Com efeito, quanto mais duvidamos da dimensão espiritual da existência, mais damos importância ao mundo material. Em outras palavras, quanto mais questionamos o DEUS de nosso coração, mais o "diabo" de nossa compreensão se rejubila.

Na abrangência deste artigo, não farei o inventário dos numerosos argumentos, ao mesmo tempo lógicos e místicos, provando que Deus, tal como o concebo, não pode deixar de existir. Se você negasse totalmente sua existência, não estaria lendo este texto. O problema não é tão simples quando nos defrontamos com circunstâncias tão aflitivas como a perda de um ente querido. Como já disse, pode acontecer que coloquemos em dúvida nosso ideal místico, porque a morte é bem verdade, priva-nos de uma presença à qual nosso Eu objetivo foi apegado por muitos anos. Mas se a existência da alma sempre foi para nós uma evidência, se consagramos toda uma vida terrena à evolução de nossa alma, como não reconhecer sua realidade no momento derradeiro em que ela deixa o corpo de alguém que amamos tanto quanto amamos a nós mesmos?

O que é verdadeiro para essa grande tribulação o é para todas as outras que marcam nossa existência, pois nenhuma delas deveria nos abalar a ponto de provocar nosso mergulho na Noite Negra. No entanto, a experiência mostra que não somos invulneráveis e que a adversidade pode obscurecer nossa vida espiritual. Por quê? Porque o fato de sermos adeptos do misticismo não faz de nós necessariamente misticos com uma fé inabalável.

Por outro lado nossa análise das provações que sofremos pode ser imperfeita. Penso em particular naqueles que, sistematicamente, tentam compreender as razões cármicas dos sofrimentos físicos ou morais de que são vítimas em certos momentos da vida. Alguns se sentem invadidos pela dúvida quando sofrem provações que atribuem a um carma negativo, ao se ver injustificado, em vista do bem que tinham a certeza de ter espalhado ao seu redor. No âmbito de minha função no seio da AMORC, eles vêm me ver para dizer que não compreendem por quê, após terem passado tantos anos estudando e praticando o misticismo Rosacruz, conheceram tantas derrotas, tantos infortúnios e dissabores. Desesperados, feridos em seu coração e sua alma eles me contam suas dúvidas e, às vezes, o abandono total de sua afiliação à fraternidade dos Rosacruzes. Contudo, como lhes disse, nunca se deve estabelecer uma relação sistemática entre uma provação e o carma negativo.

Em outras palavras, parece-me fundamental compreender que nem todas as provações sejam quais forem, são necessariamente cármicas. Muitas delas tem caráter puramente evolutivo, e sua única finalidade é testar nossa força interior, pressionando ao mesmo tempo nossa aptidão física e mental para sobrepujá-las. 

Uma analogia pode ajudá-lo a compreender isso. Imagine um aluno que tem horror à Matemática e é arguido por seu professor. Essa arguição é para ele uma provação que ele é obrigado a enfrentar, mas que, no entanto, não está ligada a um mau comportamento de sua parte. Essa provação ocorre simplesmente como um acontecimento normal na vida de qualquer estudante. Seu objetivo é incitar sua reflexão e contribuir para a aquisição de certo tipo de conhecimento. Nesse sentido, embora ele a vivencie como uma provação, ela nada tem de cármica. Imagine agora que esse mesmo aluno seja punido por uma razão justificada e que seu professor, como castigo, mande-o fazer um exercício de Matemática. Neste caso, tratar-se-á efetivamente de uma prova cármica pois será o resultado de uma aplicação de seu livre-arbítrio.

Esse princípio aplica-se às provações que todo ser humano é inevitavelmente levado a enfrentar. Algumas, efetivamente são cármicas, mas outras, muitas outras, não o são. Elas existem porque são uma condição "sine qua non" de evolução e porque é impossível, como seres encarnados que somos, evoluirmos sem termos problemas a resolver e dificuldades a superar.

Assim, parece-me muito importante não sermos vítimas de um misticismo mal compreendido, que tenda a associar toda tribulação a um carma negativo. Se assim fosse, deveríamos admitir que, se Jesus foi crucificado, para usar apenas um exemplo, foi para compensar uma sucessão de más ações! Esse tipo de conclusão devemos admitir, é absurdo e opõe-se ao mais simples bom senso. Portanto, quando surgirem provações em sua vida, em vez de procurar determinar se são ou não cármicas, enfrente-as de um modo responsável, o que quer dizer de maneira mística, com a certeza de que é capaz de superá-las e de que elas contribuirão para uma aceleração de sua evolução.

A Noite Negra, nem sempre segue a provações de caráter cármico ou não. Ela pode seguir a um desequilíbrio psicológico cujas causas estão ligadas, na maioria das vezes, à personalidade do indivíduo. Cada um de nós sabe que não tem o mesmo temperamento, o mesmo caráter e a mesma estrutura emocional de outras pessoas. Alguns são psicologicamente mais frágeis que outros, sendo essa fragilidade muitas vezes responsável por uma desordem cíclica que pode traduzir-se numa rejeição de valores pre-estabelecidos. Esse gênero de desordem passageira se produz com frequência nas pessoas ansiosas ou angustiadas por natureza. Quando elas estão em crise consigo mesmas, não conseguem definir a causa profunda de seu estado e o sofrem de uma forma negativa, visto que não querem fazer um real esforço para sair daquela situação. O pessimismo as invade, a dúvida as assalta e sua fé vacila. No mais das vezes é uma influência externa que as coloca novamente nos trilhos até o próximo período negro que, elas bem o sabem, virá novamente mergulhá-lhas na obscuridade. Mas bastaria que no momento em que se sentissem arrastadas pela corrente de suas próprias angústias se voltassem para o Deus de seu coração para que as nuvens que ocultam o sol interior fossem afastadas. Se, em lugar de se fecharem nos recônditos sombrios de suas ideias negras, elas se abrissem à luz de tudo o que é belo, claro e límpido, compreenderiam a que ponto tinham sido vitimadas pela própria falta de confiança em seu ideal.

Esta observação me leva agora a abordar os motivos místicos que estão na origem da Noite Negra. Seja ela consecutiva à morte de um ente querido, a uma multiplicidade de provações ou a um abandono muito fácil às nossas próprias angústias, só pode ensombrecer a existência de um místico virtude do apego que ele devota ao seu ideal ser muito frágil, superficial ou ilusório.

Do ponto de vista esotérico, a Noite Negra é o reflexo de uma vitória obtida por nosso dragão interior. Por isso a vida de todo místico é marcada tanto por Noites Negras quanto por derrotas sofridas pelo anjo que nele existe. Enquanto o ser não tiver atingido o ponto de evolução que propicia a experiência íntima do Divino, permanece vulnerável em sua busca, e sua vulnerabilidade é proporcional à sua fé mistica. Isso pressupõe que bem poucos de nós podem afirmar que nunca conheceram períodos sombrios em sua vida espiritual ou que não os conhecerão mais. O próprio Mestre Jesus num momento supremo de sua missão clamou: "Pai, por que me abandonastes?" Por uma fração de segundo, esse Iniciado do mais alto grau duvidou. Mas a questão essencial é saber do que ele duvidou e do que nós duvidamos quando a Noite Negra mergulha nossa alma nas trevas do ateísmo. Quando examinamos atentamente esse acontecimento da vida mística de Jesus, tudo leva a pensar que ele não duvidou de Deus, mas de si mesmo e de sua capacidade de permanecer fiel em seu sofrimento. Em nosso nível, é exatamente o contrário que acontece quando duvidamos, porque na maior parte do tempo duvidamos de tudo, menos de nós próprios. Mas é nesse nível que se encontra a chave que nos deve permitir vencer todos os períodos obscuros que possam marcar nossa existência. Nos momentos de desespero, nas provações, na adversidade, nunca devemos perder nossa fé mística; pelo contrário, devemos pensar, falar e agir com uma confiança ainda maior em Deus.

É quando devemos recusar todo compromisso com a dúvida. Nossa única preocupação deve ser a de pedir o auxílio do Cósmico para termos força interior para vencer nossa própria fraqueza, pois é nessa vitória que está a solução de todos os problemas, por mais dramáticos que sejam no plano humano. Isto pressupõe que a prece e a meditação constituem nossos dois maiores aliados para fazer brilhar novamente a Luz quando as circunstâncias tiverem mergulhado nosso Sanctum interior na mais total obscuridade. Um antigo adágio que todos conhecem, enuncia que "é melhor prevenir que remediar". Isto é verdadeiro no plano do corpo e também no da alma. Quando a doença nos assalta, às vezes é tarde demais para vencê-la. Por isso devemos nos esforçar para sempre reunir as condições físicas e psicológicas mais favoráveis à manutenção da saúde, e assim lançarmos nossas bases para uma prevenção eficaz. O que devemos fazer pelo bem de nosso corpo, também devemos fazer pelo bem de nossa alma. Em vez de esperarmos até que as circunstâncias alterem nossa vida espiritual e destruam nossa fé mística, devemos cultivar nosso jardim interior, semeando ali as sementes de um amor incondicional à Causa Suprema.

Muitos místicos se perdem nas Noites Negras que criaram para si mesmos, porque simplesmente esqueceram de cuidar da rosa que tinham prometido amar sempre. Mas os anos passaram e o tempo, conforme o que eles fizeram, levou-os para a Luz ou os afastou dela. Assim é, na verdade, a lei implacável a que submetemos nosso livre-arbítrio. Se não despertamos voluntariamente para a consciência da alma, a consciência do Eu objetivo se fortalecerá e tomará o controle de nossa existência. Este princípio é colocado em evidência na analogia que fiz acima com a rosa do nosso jardim interior, pois cada um de nós sabe que a manutenção de um jardim requer uma atividade constante. Não basta fazermos uma boa semeadura para termos uma boa colheita. Precisamos cuidar das sementes e velar para que ervas daninhas não invadam o canteiro. Isto significa que nada de belo, bom e útil pode ser obtido sem esforço. Por isso a atividade é o movente do bem enquanto que a passividade, e inclusive a omissão, são os agentes do mal.

Este princípio aplica-se com mais força ainda à nossa busca espiritual, porque tem a ver com um mundo intangível e invisível. Desejo dizer com isto que é mais fácil preservarmos nosso corpo dos perigos que o ameaçam do que protegermos nossa alma dos ataques do abandono espiritual. No primeiro caso, a ameaça é perceptível; no segundo ela não o é. Isso explica porque um Rosacruz que começa a atrasar o estudo de suas monografias acaba não as abrindo mais. Também é por essa razão que, quando começa a deixar para mais tarde seus períodos de prece e meditação, cada vez fica mais difícil realizar o trabalho que dele se espera. Tendo a natureza horror ao vazio, disso resulta que o vazio que se criou em sua vida interior é progressivamente preenchido por uma existência cada vez mais dirigida para o exterior. Finalmente, chega o momento em que ele não é mais Rosacruz a não ser no nome, quando então reúne as melhores condições para passar pela experiência de uma Noite Negra decisiva para seu futuro místico. Este exemplo voltado mais para os membros da AMORC pode ser adaptado a muitas atividades da vida diária.

Gostaria de insistir no fato de que, ao contrário do que costumamos pensar, a Noite Negra não é um assunto individual. Ela pode afetar a evolução de toda uma coletividade. Muitos são os países que, no decurso da história, vivenciaram o abandono total de suas instituições religiosas, sociais, econômicas etc. Isso porque a alma coletiva de uma nação é o reflexo dos milhões de almas que a compõem. Assim, quando um grande número de indivíduos, num mesmo momento vivencia um profundo abismo interior, a consciência do conjunto é afetada. Se dou essa explicação, é porque a humanidade está atualmente mergulhada numa Noite Negra que corresponde ao combate que se desenrola em cada ser. Talvez nunca antes o homem tenha estado tão pronto para o advento da espiritualidade. Ele se busca cada vez mais, e no caos total que sacode o mundo, está a ponto de pôr em cheque todos os valores que nas sociedades modernas cavaram o abismo entre seu corpo e sua alma. Mais do que nunca, atualmente o homem sente que o materialismo, apesar de ter contribuído muito para o seu bem-estar físico, afastou-o de uma vida interior a que ele nunca renunciou verdadeiramente.

Ora, todos sabem que é quando nos encontramos mais distanciados do que amamos, que buscamos por todos os meios nos aproximar. Por isso, além das aparências, devemos ver em nossa época atual as condições de uma aproximação sem precedentes entre Deus e sua Criação. A Noite Negra que a humanidade atravessa é, em si mesma, a prova de que o anjo não está morto no coração de cada homem, mas que, ao contrário, ele nunca bateu com tanta força no dragão que nele existe. Nesse sentido, o que vivemos no plano mundial é só um efeito aparente de uma guerra espiritual em que cada um de nós é um combatente. Isto significa que, se a maioria dos homens forem vencedores de si mesmos e encontrarem a Luz, a humanidade terá todas as oportunidades de ver surgir o Áureo Alvorecer a que todos os Iniciados se referiram.

Como é isso que todos nós ardentemente desejamos, nosso dever é auxiliar nossos irmãos humanos a preencher o vazio interior que os torna tão desamparados diante dos ataques cada vez mais repetidos das forças do mal. Como? Sendo nós próprios seres responsáveis, fortes, e acima de tudo místicos, não só no nome, mas na ação. Devemos nos comportar de tal forma que todos que entrem em contato conosco vejam em nós alguém cujo otimismo e serenidade são capazes de vencer qualquer provação. Cada vez que a ocasião surja, devemos orientar as conversas no sentido do misticismo e dar provas de que tudo, absolutamente tudo, pode e deve ser tratado do ponto de vista espiritual.

Em suma, onde estivermos e do jeito que somos, sejamos a chama que ilumina a alma de nossos semelhantes e aqueça seu coração. Em minha opinião, esta é a única maneira de lhes mostrar o caminho que toda a humanidade deve seguir para sair do labirinto tenebroso onde está perdida.

O dever de todos os místicos, e não falo só dos Rosacruzes, é induzir progressivamente uma mudança nas mentalidades, de modo a estabelecer o equilíbrio entre as preocupações materiais e as exigências espirituais.

Toda Noite Negra, seja ela individual ou coletiva, é uma iniciação. Ao final de cada iniciação há uma pequena chama e, quando todas as pequenas luzes se fundirem em uma só, a consciência, individual ou coletiva, vivencia a Iluminação Cósmica. O acesso à Luz Maior então é definitivo e as trevas são banidas para sempre.




Christian Bernard, FRC
Ordem Rosacruz - AMORC





Fonte: https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/Estacao_Palavra/conversations/topics
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

12º TRABALHO DE HÉRCULES (A CAPTURA DO GADO VERMELHO DE GERIÃO) - SIGNO DE PEIXES

12º Trabalho de Hércules, "A Captura do Gado Vermelho de Gerião", significando a transcendência da animalidade, a salvação.

O Mestre chamou Hércules e disse-lhe: “Tu agora estás diante do último Trabalho. É o que falta para que o ciclo seja completo, e a liberação conquistada. Vai até aquele lugar sombrio chamado Eritéia onde a Grande Ilusão está entronizada; onde Gerião, o monstro de três cabeças, três corpos e seis mãos, é rei e senhor. À margem da lei ele mantém um rebanho de gado vermelho escuro. De Eritéia deves trazer até nossa Sagrada Cidade, este rebanho. Cuidado com Euritião, o pastor, e seu cão de duas cabeças, Ortus.” E depois de uma pausa continuou: “Mais um aviso posso dar. Invoca a ajuda de Helio.” 

Hércules partiu e no templo, fez oferendas a Helio, o deus do fogo e do sol. Por sete dias Hércules meditou, e depois mereceu dele um favor. Um cálice dourado caiu no chão aos seus pés. Ele sentiu no seu íntimo que esse objeto brilhante o capacitaria a cruzar os mares para alcançar o país de Eritéia. E assim foi. Sob a segura proteção do cálice dourado, ele velejou pelos mares agitados até chegar a Eritéia. Numa praia naquele país distante, Hércules desembarcou. Não muito longe dali ele chegou a um pasto onde o gado vermelho escuro pastava. Era guardado pelo pastor Euritião e o cão de duas cabeças, Ortus. Quando Hércules se aproximou, o cão lançou-se como uma flecha para ele, rosnando ferozmente, tentando alcançá-lo. Com um golpe decisivo Hércules derrubou o monstro. Então, Euritião, amedrontado pelo bravo guerreiro que estava diante dele, suplicou que sua vida fosse poupada. Hércules concedeu-lhe o pedido. 

Conduzindo o gado vermelho-sangue adiante dele, Hércules voltou sua face para a Cidade Sagrada. Ainda não estava muito longe daquelas pastagens quando percebeu que o monstro Gerião vinha em louca perseguição. Logo Gerião e Hércules estavam face-a-face. Exalando fogo e chamas de todas as três cabeças simultaneamente, o monstro avançou sobre ele. Esticando bem o seu arco, Hércules lançou uma flecha que parecia queimar o ar e que atingiu o monstro em seu flanco. Tamanho foi o ímpeto com que fora lançada, que todos os três corpos de Gerião foram perfurados. Com um guincho desesperado, o monstro oscilou, depois caiu, para nunca mais se levantar. Hércules conduziu, então, o lustroso gado para a Cidade Sagrada. Difícil foi a tarefa. Volta e meia alguns bois se desgarravam, e Hércules deixava o rebanho para procurar aquelas cabeças que se perdiam. Através dos Alpes ele conduziu o seu rebanho, até a Halia. 

Onde quer que o mal houvesse triunfado, ele golpeava as forças do mal com golpes mortais, e corrigia a balança em favor da justiça. Quando Eryx, o lutador, o desafiou, Hércules o derrubou tão vigorosamente que ele permaneceu caído. Novamente, quando o gigante Alcioneu lançou sobre Hércules uma rocha que pesava uma tonelada, este último a deteve com a sua clava e a mandou de volta, matando seu agressor. Às vezes ele perdia o seu rumo, mas sempre se voltava, refazia seus passos, e prosseguia. 

Embora exausto por este cansativo trabalho, Hércules por fim voltou. Quando chegou, o Mestre que o esperava, disse-lhe: “A joia da imortalidade te pertence. Por esses doze Trabalhos tu superaste o humano e te revestiste do divino. De volta ao lar viestes, para não mais partires. No firmamento estrelado o teu nome será inscrito, um símbolo para os batalhadores filhos dos homens, de seu imortal destino. Os trabalhos humanos estão encerrados, tua tarefa Cósmica começa.”

Este último Trabalho está associado ao signo de Peixes. Hércules viajou, velejando até a ilha numa taça dourada e quando lá chegou, ele subiu até o topo da montanha onde passou a noite em oração. Depois matou o cão de duas cabeças mas não o pastor. Ele também matou o dono daquelas paragens. Aqui está a parte mais bela da história: Hércules colocou o rebanho inteiro na taça dourada da qual se utilizara para a vinda, levou-o para a Cidade Sagrada e o ofereceu em sacrifício a Athena, a Deusa da Sabedoria. Esta cidade sagrada consiste de duas cidades ligadas por um belo muro e um portão chamado o Portão do Leão. Depois que o gado foi entregue, acabou-se o trabalho de Hércules. 

Vamos pensar em Hércules como um salvador mundial. Ele vê a humanidade possuída por um monstro, um homem de três cabeças, o símbolo de um ser humano com os corpos físico, emocional e mental unidos. O simbolismo do gado vermelho é claramente o dos desejos inferiores, o desejo sendo sempre uma destacada característica da humanidade. Eles são guardados por um pastor, que é a mente, o cão de duas cabeças, representando os aspectos matéria e psiquismo. Está claro porque Hércules poupou o pastor: a mente ainda pode ser o pastor do gado, mas o cão de duas cabeças, a natureza psíquica-emocional e o aspecto matéria, Hércules matou, o que significa que foram privados de qualquer poder.





Fonte: Sociedade das Ciências Antigas
http://www.sca.org.br/
“Os trabalhos de Hércules”, de Alice A. Bailey
Gravura de: Johfra Bosschart (Franciscus Gijsbertus van den Berg, 1919, Rotterdam)