Mostrando postagens com marcador instintos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador instintos. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de janeiro de 2026

COMO A NOSSA MENTE NOS FAZ REPETIR OS ERROS


Como nossa mente nos faz repetir os erros e o que fazer para evitar isso. É preciso muito esforço cognitivo para mudar os atalhos mentais que já construímos.


É errando que se aprende. Pelo menos, a maioria de nós já ouviu isso.

Mas a ciência mostra que, muitas vezes, deixamos de aprender com os erros do passado. E, em vez disso, costumamos repetir os mesmos erros.

O que quero dizer com erros aqui?

Acho que todos nós concordamos que aprendemos rapidamente que, se colocarmos a mão em um fogão quente, nos queimamos. E, por isso, provavelmente não iremos repetir este erro.

Isso acontece porque o nosso cérebro cria uma resposta à ameaça de estímulos fisicamente dolorosos com base em experiências prévias.

Mas, quando a questão é o pensamento, os padrões de comportamento e a tomada de decisões, nós repetimos nossos erros com frequência – como ocorre quando chegamos atrasados para os nossos compromissos, deixamos tarefas para a última hora ou julgamos as pessoas com base na primeira impressão.

O motivo pode estar na forma em que o nosso cérebro processa as informações e cria os modelos que consultamos repetidamente. Esses modelos são, essencialmente, atalhos que nos ajudam a tomar decisões no mundo real.

Mas esses atalhos mentais, chamados de heurísticas*, também podem nos ajudar a repetir os nossos erros.

No meu livro "Sway: Unravelling Unconscious Bias" (Oscilações: desvendando o viés inconsciente, em tradução livre), comento que os seres humanos não são naturalmente racionais, como nós gostaríamos de acreditar. A sobrecarga de informações é confusa e cansativa; por isso, nós filtramos o ruído.

Nós observamos apenas partes do mundo. Temos a tendência de observar o que é repetitivo, haja ou não algum padrão, e costumamos preservar a memória generalizando e recorrendo à tipificação.

Nós também tiramos conclusões a partir de dados esparsos e usamos atalhos cognitivos para criar uma versão da realidade na qual queremos implicitamente acreditar. Isso cria um fluxo reduzido de recebimento de informações, o que nos ajuda a ligar os pontos e preencher as lacunas com aquilo que já conhecemos.

E, por fim, o nosso cérebro é preguiçoso. É preciso muito esforço cognitivo para mudar os roteiros e atalhos que já construímos.

Por tudo isso, somos mais propensos a cair sempre nos mesmos padrões de ação e comportamento, mesmo quando sabemos que estamos repetindo nossos erros.

Este comportamento é chamado de viés de confirmação – nossa tendência de confirmar aquilo em que já acreditamos, em vez de alterar nossa mentalidade para incorporar novas ideias e informações.

Também fazemos uso com frequência dos instintos – uma espécie automática e subconsciente de pensamento, baseada no acúmulo de experiências passadas – para tomar decisões e fazer julgamentos em situações novas.

Às vezes, nós insistimos em certos padrões de comportamento e repetimos nossos erros devido a um "efeito do ego" que nos induz a manter nossas crenças pré-existentes. Temos a tendência de escolher seletivamente as estruturas de informação e feedback que nos ajudem a proteger nosso ego.

Um estudo mostrou que, quando as pessoas são relembradas dos sucessos do passado, elas costumam repetir mais esses comportamentos bem-sucedidos. Mas, quando elas estão cientes ou são ativamente relembradas dos seus fracassos, a probabilidade de alterar o padrão de comportamento que gerou aquela frustração é menor.

Ou seja, as pessoas, na verdade, costumam repetir os mesmos comportamentos.

Isso acontece porque, quando pensamos nos nossos fracassos do passado, provavelmente ficamos tristes. E, nesses momentos, somos mais dispostos a perdoar aquele comportamento que nos é confortável e familiar.

Mesmo quando pensamos de forma lenta e cuidadosa, o nosso cérebro tem um viés voltado para as informações e modelos que havíamos usado no passado, mesmo que eles tenham resultado em erros. Este é o chamado viés da familiaridade.

Mas também é possível aprender com nossos erros. Em outro experimento, por exemplo, macacos e seres humanos precisaram assistir a pontos barulhentos que se moviam sobre uma tela e analisar sua direção final de movimento.

Os pesquisadores concluíram que as duas espécies reduziam a velocidade depois de um erro. E, quanto maior o erro, maior seria a desaceleração posterior ao erro, o que demonstra que mais informações estavam sendo acumuladas.

Mas a qualidade dessa informação era baixa. Nossos atalhos cognitivos podem nos forçar a descartar qualquer informação nova que possa nos ajudar a evitar a repetição dos erros.

E, de fato, quando cometemos erros na realização de uma determinada tarefa, o "viés da frequência" nos torna propensos a repeti-los, sempre que fizermos a mesma tarefa outra vez.

Resumidamente, o nosso cérebro começa a considerar que os erros que cometemos anteriormente são a forma correta de realizar uma tarefa, criando o "caminho do erro" habitual.

Por isso, quanto mais repetirmos as mesmas tarefas, maior será a nossa chance de percorrer o caminho que levou ao erro, até que ele fique profundamente enraizado e se torne um conjunto de atalhos cognitivos permanentes no nosso cérebro.


Controle cognitivo

O panorama parece desanimador. Mas será que há algo que podemos fazer?

Nós temos uma habilidade mental que pode se sobrepor às heurísticas, conhecida como "controle cognitivo". E há estudos neurocientíficos recentes com camundongos que estão nos dando uma ideia melhor de que partes do cérebro estão envolvidas nessa habilidade.

Os pesquisadores também identificaram duas regiões do cérebro que abrigam "neurônios monitoradores dos próprios erros" – células cerebrais que monitoram erros. Estas áreas estão no córtex frontal e, aparentemente, são parte de uma sequência de etapas de processamento, que inclui desde retomar a concentração até aprender com nossos erros.

Os pesquisadores estão estudando se uma melhor compreensão deste mecanismo pode ajudar a desenvolver melhores tratamentos para pacientes com Alzheimer, já que a preservação do controle cognitivo é fundamental para o bem-estar na idade avançada.

Mas, mesmo se não tivermos a compreensão exata dos processos cerebrais envolvidos no controle cognitivo e na autocorreção, há medidas mais simples que podemos tomar. Uma delas é nos sentirmos mais confortáveis quando cometermos erros.

Talvez imaginemos que esta seja uma atitude errada em relação aos fracassos – mas, na verdade, é um caminho mais positivo para o progresso.

Nossa sociedade rejeita as falhas e os erros e, por isso, costumamos sentir vergonha dos nossos erros e tentamos escondê-los.

Quanto mais culpa e vergonha nós sentirmos e quanto mais tentarmos esconder os nossos erros dos outros, maior a nossa probabilidade de repeti-los. E, quando não nos sentimos tão desapontados com nós mesmos, maior a chance de absorvermos novas informações que podem nos ajudar a corrigir os nossos erros.

Também pode ser uma boa ideia fazer um intervalo na realização de uma tarefa que queremos aprender a fazer melhor.

Reconhecer as nossas falhas e fazer uma pausa para analisá-las pode nos ajudar a reduzir o viés de frequência, nos tornando menos propensos a repetir nossos erros e a reforçar os caminhos que nos levam a eles.


* Heurística: significa “descobrir”, "inventar". Em sua acepção moderna, refere-se a métodos informais, intuitivos ou baseados em regras práticas usados para resolver problemas, tomar decisões ou fazer julgamentos de forma rápida.


Pragya Agarwal
Professora de desigualdade e justiça social da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
Visiting Professor of Social Inequities and Injustice, Loughborough University


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation:
https://theconversation.com/global
Republicado sob licença Creative Commons.
Versão original em inglês:
https://theconversation.com/how-the-brain-stops-us-learning-from-our-mistakes-and-what-to-do-about-it-203436
Este texto foi primeiro publicado em língua portuguesa pela BBC NEWS: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4nw80547plo

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2023/05/como-nossa-mente-nos-faz-repetir-os-erros-e-o-que-fazer-para-evitar-isso.shtml
Via: Espiritualidade e Sociedade
https://www.espiritualidades.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/c%c3%a9rebro-ativa%c3%a7%c3%a3o-cerebral-tecnologia-8789957/

sexta-feira, 18 de março de 2022

NOSSO PASSADO E O INSTINTO


Todos os humanos carregam em si o seu longínquo passado de animais: a manha de uns, a brutalidade, a crueldade, a voracidade ou a sensualidade de outros...

Evidentemente, esta natureza animal é muito forte: teve milhares de anos para se fortalecer e se exercitar, porque viveu em condições muito difíceis.

Pensai em todas as dificuldades que os animais têm de enfrentar para poderem sobreviver, encontrar alimento, arranjar abrigo e conservá-lo, e para se protegerem uns dos outros...

Como quereis que, depois de ter vivido em tais condições, a nossa natureza instintiva seja agora doce, boa, clemente?

Mas também é necessário saber que ela não representa a última etapa do desenvolvimento.

O que está em causa, agora, é desenvolvermos as nossas qualidades psíquicas e espirituais, para fazermos face a todas as tendências instintivas.

É esse o problema que todos temos de resolver.



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O CAMINHO INDIVIDUAL E COLETIVO RUMO A MATURAÇÃO ESPIRITUAL


“Por quanto tempo você tem andado distraído pelo labirinto do autodesenvolvimento sem saber onde realmente se encontra?”

Assim caminhamos como humanidade: alguns na animalidade, estado mais primitivo da alma, mais identificados com os desejos e instintos, outros mais humanizados (mas ainda muito identificados com o ego) e outros mais espiritualizados (já mais identificados com o espírito).

Este é um caminho individual rumo a maturação espiritual, a qual todos estamos sujeitos, onde o tempo do processo se reflete unicamente no indivíduo e não está sujeito a nenhuma imposição externa, apenas pode ser influenciada, pois é um caminho interno de desenvolvimento.

Como uma infância, onde não podemos pular esta etapa, não podemos exigir ou impor uma atuação madura de um adulto. Cabe aos mais espiritualizados, se tornarem fontes de inspiração e atuar de forma a contribuir com este processo de desenvolvimento.

Porque o mesmo acontece com o processo coletivo, que seria a soma das consciências individuais que formam a humanidade… Podemos perceber em que etapa de maturidade está a humanidade olhando para a consciência das pessoas como um todo.

Quantas pessoas ainda estão totalmente dominadas pelos aspectos mais animalescos da alma? Identificados completamente com a matéria? Com os instintos e prazeres sensoriais? Com a mente coletiva?

Quantas pessoas estão na busca por aprovação e reconhecimento social, preocupados excessivamente com sua autoimagem e na busca incansável pelo relacionamento perfeito. Que possuem uma preocupação excessiva com a estética pessoal, como a febre de selfs e busca por likes nas redes sociais – quanto mais curtidas, melhor e mais importante eu me sinto. Que suas aspirações e seu foco são exclusivamente em coisas que satisfaçam o seu ego e seus desejos pessoais, principalmente conquistas de ordem material?

Quantas pessoas estão preocupadas realmente em se tornar melhores seres humanos, que buscam o autodesenvolvimento e têm uma preocupação genuína com os outros seres humanos e com o planeta, que buscam o equilíbrio entre a autorrealização e a atuação em prol do desenvolvimento coletivo?

 Onde você se encontra nesse labirinto?



Leonardo Maia




Fonte: Biblioteca da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br/forum/o-caminho-individual-e-coletivo-rumo-a-maturacao-espiritual/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 31 de março de 2017

INSTINTOS → EMOÇÕES → INTELECTO → INTUIÇÃO


O intelecto deleita-se com discussão e disputa. Uma vez que você cede à tentação da dialética, levará muito tempo para escapar de seus grilhões e desfrutar da bem-aventurança. Portanto, esteja ciente da limitação da razão. A lógica deve dar lugar ao amor e à devoção. O intelecto pode ajudá-lo por uma pequena distância ao longo do caminho para Deus, o resto é inspirado e iluminado pela intuição. E muitas vezes, o egoísmo tende a encorajar e justificar a selvageria, pois uma pessoa é conduzida pelo caminho errado por sua própria razão, se esse for o caminho que ela gosta! Você muitas vezes chega à conclusão que deseja alcançar! A razão só pode ser domada pela disciplina, pela aplicação sistemática do jugo da compaixão, da calma, da tolerância e da resistência (Dhaya, Shantham, Kshama, Sahana). Treine-a para caminhar tranquilamente ao longo de pequenos trechos de estrada e depois que você estiver confiante de sua docilidade, você pode levá-la ao longo do tortuoso caminho sêxtuplo das tentações - luxúria, raiva, cobiça, ilusão, orgulho e ciúme. (Discurso Divino, 12 de abril de 1959)



Sathya Sai Baba





Fonte: http://www.sathyasai.org.br
Fonte da Gravura: Pinturas de Freydoun Rassouli
http://www.rassouli.com/

sábado, 15 de fevereiro de 2014

CASTIGOS E PRÊMIOS --- O HOMEM-EGO



A roda do Samsara, simbolizando a inevitável alternância dos opostos da existência


É próprio do ser humano considerado social e psicologicamente “normal” agir em proveito próprio, no interesse do “eu” e dos “meus”. Há sempre nele uma indagação engatilhada – “quanto é que eu levo nisso?”.

Motivação é o termo técnico com que os psicólogos nomeiam "um conjunto de fatores, intrínsecos e extrínsecos (instintos, necessidades, impulsos, apetências, homeostase, libido e outras variáveis intervenientes) que determina a atividade persistente e dirigida para uma finalidade ou recompensa. Entre o fator variável e a finalidade (ou recompensa) situa-se o comportamento que a ela conduz…".

O comportamento humano é sempre motivado, e a Ciência tem se empenhado em pesquisar sobre a motivação, procurando saber a natureza dessa fantástica força motriz que leva o homem a agir ou evitar agir. Foi a partir da tese do determinismo evolucionário de Darwin que o estudo começou. Da doutrina darwiniana partiram W. James e S.Freud para concluírem que é o instinto a força maior. Em McDougall já se encontra a explicação em termos de propósitos… Outras propostas de teoria para a motivação foram aparecendo: o impulso, o prazer, o ajustamento à realidade social… foram sendo apontados como os motivos predominantes.

Embora respeitáveis, nenhuma das teses conhecidas poderá, no entanto, explicar comportamentos como os de Sócrates de Atenas, Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Madre Tereza de Calcutá, Joaquim José da Silva Xavier, Irmã Dulce de Salvador, Aurino Costa do Rio de Janeiro, Mahatma Gandhi da Índia, Albert Schweitzer da Alemanha, Bahá’U'Llah do Irã e outros apóstolos da Verdade e do Amor. Como os cientistas materialistas explicariam, com suas teses sobre motivação, a conduta dos mártires cristãos na arena dos romanos? Como poderão entender como aquele que é Onipotente se deixou torturar nas masmorras dos romanos, nos escárnios dos fariseus, na morte infame do Gólgota? Que faz um ser evoluído se deixar imolar? Instinto?! Alguma necessidade biológica?! Impulso?! Alguma apetência?! Manutenção da estabilidade do meio interno orgânico (homeostase)?! Libido?! Inclinações “propositárias”?! Conveniências sociais?!

Será que os materialistas (e alguns racionalistas) ainda não tentaram encontrar, em suas “teses científicas”, uma resposta a tais questionamentos? Ou pesquisaram, mas, concluindo que seriam forçados a contradizer suas famosas doutrinas, optaram por uma fuga ao desafio, no velho estilo: “deixa isso pra lá!”?

A ortodoxia científica não terá como contestar uma evidência que a experiência impõe e nos permite dizer: na alma há motivos sublimes, muito acima dos motivos próprios da horizontalidade dos homens “normais”. Foram tais motivos que levaram sábios e santos a se conduzirem de modo tão discrepante e até mesmo contrário àquilo que os cientistas entendem como sendo a normalidade humana.

O instinto de conservação é normalmente humano, na medida em que só se vê no homem um animal. Um santo ou um sábio, que se recusa a matar mesmo em “legítima defesa” e mesmo prefere morrer a matar, é tido por estranho (anormal?!), mas clamam veementemente aos teóricos: “Há valores e motivos bem mais altos que o instinto de conservação“.

O instinto de reprodução, ou o princípio do prazer (Freud), é um forte e mesmo dominante motivo humano. No entanto, quando um jovem brahmacharya, isto é, um estudioso da Realidade Divina, embora eroticamente válido, com sublimação e compreensão, e, portanto, sem repressão, se mantém abstêmio de sexo, pode dizer, com autoridade, a Freud: “Eu sou movido por valores e motivos que estão muito além do princípio do prazer“.

O equívoco dos pesquisadores materialistas parece ter sido que seus estudos, predominantemente, foram feitos sobre pessoas primitivas ou (e) perturbadas ou (e) enfermas, e a partir de suas observações e experimentações (metodologicamente, até certo ponto, corretas), violentando um princípio epistemológico, estenderam suas conclusões ao ser humano em geral, ignorando os Sãos e os Santos. É verdade – e eles efetivamente descobriram – que indivíduos primitivos, perturbados e enfermos ou, até certo ponto, indivíduos medíocres, vivendo ainda quase no reino animal, agem por instinto; são impelidos por impulsos; se entregam ao império de suas necessidades; obedecem a apetências; curtem ou padecem a libido; ou, numa hipótese melhor, buscando “ajustar-se” à “realidade social de seu tempo”, se submetem ao processo massificante ou mesmificante do grupo no qual se enturmam.

Aos psicólogos Jung, Frankl, Fromm e outros, lúcidos e não comprometidos com o dogma materialista, nossa homenagem. A eles não cabem as observações acima propostas. Eles não se ativeram às aparências; não reduziram o campo de suas pesquisas à mediocridade e à patologia humanas, mas mergulharam em realidades sublimes da alma, que nem a todos é dado vislumbrar. Suas sábias teses servem de base a suas eficientes terapias, que estão aí­, ajudando os seres humanos a superar as tristes fronteiras obsedantes da doença e da horizontalidade.

Nos meios científicos ocidentais, os estudos sobre a motivação humanas são recentes, isto é, do século XIX. Na Índia, há milênios, os sábios (rishis) postularam que os seres humanos são almas (Jivas) empenhadas no processo da evolução. Não da evolução conforme conceituada por Darwin, que a descreveu como mudanças que se processam na forma anátomo-fisiológica, mas nas mudanças que se passam na consciência. O evolucionismo na consciência, que é destino e desafio às almas todas, é que determina o evolucionismo na forma. À medida que a consciência se amplia, precisa de formas mais aprimoradas, que lhe permitam os movimentos para uma expansão maior; para expressar e gozar um grau maior de liberdade.

Dentro do que poderíamos chamar de “reino humano”, almas há que estão à frente, no rumo do Objetivo Maior. Outras, atrasadas, com uma pobre consciência ainda cativa nas formas grosseiras, têm muito ainda que avançar.

Quem não vê diferenças profundas entre um sábio e um homem rude; entre um santo e um corrupto, um terrorista, um traficante de drogas?

Conforme a amplitude de sua consciência, isto é, conforme seu nível evolutivo, um homem pode ser motivado pelo Amor e atraído para a Paz, para a Beleza, para a Verdade, para a Libertação; um outro, motivado pelo egoísmo, e seduzido pelo dinheiro, pelas altas posições sociais, pela curtição erótica…

Segundo os Mestres hindus, em sua evolução, as almas atravessam duas fases bem nítidas:

1) Na primeira, enquanto primitiva e medíocre, as motivações predominantes na alma, parecidas com aquelas de que os cientistas se aproximaram de caracterizar, são três: poder, gozo e status social. Elas impelem o indivíduo a sobreviver, se expandir, se impor, se gratificar a qualquer custo, mesmo em detrimento do mundo e de Deus. É a fase em que a alma é presa de uma “doença”, que me acostumei a chamar “egosclerose” pois, com o ego pessoal hipertrofiado, todos os talentos são empenhados na promoção, no fortalecimento e no império do mesmo. Assim se expressa um indivíduo “egosclerosado”: “Eu quero, eu posso, e vou tomar tudo para mim. Eu quero, eu posso e vou gozar prazeres ainda maiores e mais intensos. Eu estou numa religião (partido, doutrina, nação, escola de samba, time de futebol…) que é o máximo e que é a (o) única (o) que merece prevalecer. Eu quero, eu posso, e vou explorar e dominar todos… Eu sou o mais inteligente, mais bonito, mais forte, mais brilhante, mais merecedor… Eu ganho na corrida, na força, na esperteza… Eu mereço e vou crescer cada vez mais…”. São tais pessoas que atraem a si grandes dores e geram os sofrimentos maiores da família humana. Nessa primeira fase, quando a alma se auto-afirma, fase da conquista e crescimento ilusórios e neuróticos, os motivos, segundo a lição dos sábios (rishis), são, em resumo:

a. Kama – desejo de prazer sensual, material, mundanal;

b. Artha – o desejo de poder, sob todas as suas formas (econômico, político, parapsíquico ou mental);

c. Dharma – o desejo de se manter e se sentir segura, mediante aceitar o dever (social e religioso) conforme proposto por homens do mundo para homens do mundo.

2) Em sua segunda fase, a alma, já amadurecida pela experiência e curtida pela dor, já plenamente convencida sobre a impermanência do prazer, do poder, das boas posições sociais, inspirada pela Sabedoria, tendo já escutado a sábia “voz que clama no deserto”, tendo já o vislumbre de sua unidade real com todos, com tudo, comungando com a Luz, consegue ver seu egoísmo (o sentir-se distante e diferente do Todo) como o obstáculo que a mantém exilada da Suprema Felicidade. Nessa fase, a alma começa a com-doer-se do sofrimento mundanal, começa a com-padecer-se da dor do próximo, e vê que o ego-separatista, movido por suas motivações inferiores, é a causa do drama universal. Agora, só uma força a motiva: a Libertação. Essa dependerá de autonegação ou abnegação, que a levará a sacrificar a Deus e sacrificar-se pelos filhos de Deus.

A motivação da fase de renúncia (vairagya), é, segundo os sábios (rishis):

d. Moksha – Libertação.

Libertação – de quê?!

Da ignorância, do sofrimento, da morte e da “obrigatoriedade de renascer“.

Em sua primeira fase, a alma é um indefeso joguete atirado à voragem dos opostos existenciais. O prazer a fascina e ela é levada ao gozo quimérico. Cessado o gozo – e sempre cessa! – se sente infeliz. Servidão e dor, orgasmos e lágrimas, pequenas conquistas e perdas dramáticas… Enquanto egocentrada, isto é, alienada de Deus-Uno-Sem-Segundo, a alma é frágil e vacilante, iludida e padecente. Em seu cativeiro, a alma é levada a nascer, a morrer, a re-nascer, a re-morrer…

É renunciando e sacrificando que a alma pode retornar à sua origem e identificar-se com o Uno-Bem-Aventurado-Ser, libertando-se definitivamente. O único meio de uma alma alcançar Moksha (a Libertação) é a abnegação, ou humildação ou minimização do ego pessoal.

Quando um ser humano se deixa imolar e morre com um hino nos lábios, doçura na mente e paz no coração, é que, evoluindo na segunda fase, já não lhe importa a existência, pois já saboreia a Divina Essência.

Tudo isso continua um absurdo aos olhos dos egoístas. Continua estranho aos pesquisadores “cientistas”.

Ora, se estou aqui alertando você (e por que não a mim também?!) sobre as responsabilidades que nos pesam como gerentes dos dons que Deus em nós investiu, não é pretendendo apelar para o medo ao “pranto e ranges de dentes”, castigo inevitável ao administrador negligente ou doloso. O medo não é uma motivação desejável nem digna.

Também não desejo fazer apelo ao prêmio concedido ao “servo bom e fiel”, que consiste em receber mais talentos e maior confiança do Senhor. É, sem dúvida, uma nobre motivação.

Preferível, no entanto, a evitar castigo e ganhar prêmio, é a motivação da fase segunda – a Libertação.

Conduzir-se como “servo bom e fiel” é condição a entrar na iniciação, isto é, na segunda fase da evolução. A motivação predominante, numa alma evoluindo na segunda fase, é fazer render os bens confiados e corresponder, portanto, à confiança do Investidor. É assim que castigos não a amedrontam. Nem prêmios a seduzem. E o resultado disso é Moksha, a Libertação. É o ego-pessoal que, para se salvar, foge dos castigos e ambiciona prêmios. Se uma onda do mar for verdadeiramente sábia, só terá por motivação seu retorno ao Mar, seu identificar-se com o Mar, seu libertador sumir no Mar.

Mas… que há um castigo certo para o “servo mau e infiel”, isso há mesmo. Se não, o Mestre não teria mencionado as “trevas exteriores”. Se assim não fosse, onde a Justiça?!

“Tudo o que o homem semear, isso também colherá” – disse São Paulo, expressando o que os hindus chamam de “Lei do Karma“.

Conforme nosso karma (ação, comportamento, conduta) de agora, tal virá a ser nosso destino. Hoje, nosso destino é aquele que andamos programando mediante nosso agir no passado. Nossa conduta é um rígido decreto, que nos condena a penar ou nos permite curtir – tal é a Lei.

A Lei do Karma é tão válida e inexorável, tão precisa e certa, como qualquer das leis da Biologia, Física ou Química. É tão lei quanto a da gravidade, por exemplo.

É habitual e fácil driblar as leis humanas. Há muitos truques que são manipulados pelos “espertos” deste mundo. Mas não se iludam eles. As penas kármicas os alcançarão e os farão pagar “até o último ceitil“. As consequências do karma – agradáveis ou desagradáveis, isto é, prêmios e castigos – seguirão nossos atos tal qual, como disse Buddha, as rodas do carro perseguem as patas do boi que o puxa. Segundo a Lei-do-Karma, ninguém sofre sem culpa e ninguém goza sem mérito. A sanção é rigorosamente justa e inevitável.

Embora consiga distrair-se com suas gratificações sensuais e com a ilusão de que é poderoso e importante na escala social (colunável, aplaudível, magistrável, reitorável, prefeitável…), o homem-ego realmente não sabe o que seja Felicidade. Apenas distrai-se gozando, e se supõe feliz. Acredita ser proprietário, e assim se sente forte. Bem situado no society, se julga importante. No entanto, quando sobrevém um desastre, quando só e desiludido sobre suas agradáveis quimeras, cai em depressão, se vê desamparado (derrubável, adoecível, fenecível, arruinável, miserável, defuntável…). Em meu modo de ver, é isso que se pode chamar “trevas exteriores”, em contraste com a “Luz interior“.

O homem só conseguirá saber o que seja “Luz interior” onde, em vez de “choro e ranger de dentes”, se desfruta a Paz, “no gozo do Senhor”, mediante dedicação, abnegação, autodoação, renúncia, humildação e boa gerência dos talentos.

E o Senhor tem ainda uma recomendação que nos convém cumprir: “Assim também vós, todas as vezes que tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: somos servos inúteis, (pois) fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lucas, 17:10).



Prof. José Hermógenes




Fonte: extraído das páginas 24 a 31 da 1ª edição, de 1985,
do livro "Deus investe em você", de José Hermógenes,
e digitado por Cristiano Bezerra.


Ekadanta Yoga
http://www.ekadantayoga.com.br/


Fonte da Gravura: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c2/Wheel_of_Life.jpg