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sábado, 16 de março de 2024

O VERDADEIRO CAMINHO DA MEDITAÇÃO


No caminho da meditação, vemos cada vez mais claramente que é um caminho de amor, nada mais e nada menos que o caminho do Amor. Apreciamos o quão valioso é o guia que a meditação nos fornece para compreender a dinâmica do amor: amor a si mesmo, amor ao próximo e amor a Deus. Quando meditamos vivenciamos o retorno para casa, onde realmente nos sentimos – talvez pela primeira vez – à vontade e unidos conosco mesmos.

A meditação não é uma competição. Não estamos competindo com o nosso desempenho passado; não competimos com mais ninguém; nem com São João da Cruz, nem com o resto dos meditadores do nosso grupo.

Isto é algo que devemos lembrar frequentemente porque o ego é competitivo e individualista por natureza. Quando há separação do outro, há competitividade. Podemos até ter divisões dentro de nós e, assim, tentaremos competir conosco próprios no nosso próprio caminho espiritual.

A meditação também não é ambiciosa. Não tentamos adquirir nada, porque não há nada para adquirir. É precisamente o oposto. O que pretendemos na meditação é perder, deixar ir. E é nesta perda, neste desapego, que encontraremos tudo o que temos, tudo o que nos foi dado.

Às vezes, esse “deixar ir” ocorre de forma drástica se for forçado por alguma experiência que irrompe de forma dramática e repentina em nossas vidas. Pode ser devido a uma doença que ocorra, a uma nova visão da vida ou, simplesmente, como resultado do desenvolvimento das etapas da nossa própria vida.

De alguma forma, devemos aprender a “deixar ir” se quisermos viver livremente. Na meditação temos o dom precioso de aprender a “deixar ir” do nosso centro todas as posses e competitividade que acumulamos. O que parecia uma prisão vira escola; o que parecia uma alienação nos mostra como conexão.


Seleção de “Aspects of Love” de Laurence Freeman OSB


Transcrição de Carla Cooper


Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/religi%C3%A3o-medita%C3%A7%C3%A3o-f%C3%A9-luz-nuvens-3491357/

Para mais detalhes ver:
JOHN MAIN E A MEDITAÇÃO CRISTÃ: https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2020/05/john-main-e-meditacao-crista.html

quarta-feira, 10 de junho de 2020

CONFLITOS INTERPESSOAIS



Vivêssemos nós numa ilha absolutamente deserta, não teríamos com que nos comparar e nem noção da posição que ocupamos. Há quem diga então que isso seria benéfico pelo fato de não nos inquietarmos com o que nos falta. Além disso, não experimentaríamos as inconveniências que os relacionamentos nos impõem dia a dia. Aliás, diz-se que o sofrimento neste mundo tem origem justamente no confronto com as pessoas e é comum ouvirmos — e talvez dizermos — “eu não dou trabalho a ninguém”, “as minhas coisas são todas certinhas”, “se eu vivesse sozinho eu não passaria raiva com ninguém”...

Sendo uma lei inexorável o convívio social (ninguém nasce sozinho), é imperativo percebermos a que estamos submetidos e quais os propósitos da Natureza que nos impôs essa vida carnal — se bem é improvável supormos que a vida espiritual seja de isolamento.

Os contratempos entre as pessoas ocorrem primeiramente em razão do livre arbítrio de cada um. A liberdade de pensamento e de ação aliada à inteligência particular de cada indivíduo estabelece o encontro de consciências independentes. Logicamente, por que nem todos pensam sob os mesmos valores, vez ou outra, as opiniões se contradizem e até podem ser tão extremas a ponto de gerar sérios conflitos. Pelo fato de compartilharem um mesmo plano e por muitas vezes a caminhada exigir uma única escolha dentre as variadas proposições, aqueles que foram preteridos podem conservar sentimentos negativos.

A concorrência natural da vida nos convida a uma competição social. Ora, sendo tripulantes de um mesmo navio, obrigatoriamente todos viajamos sob um itinerário único, ainda que dentre nós haja quem deseje mudar a rota. Em algumas situações, podemos descer desse navio e, tomando de um barquinho particular, seguir um rumo diferente. Entretanto, em geral, ou estamos sob o leme de alguém ou em nosso barco conduzimos outras pessoas.

Somos tendenciosos a culpar os outros pelos contratempos sociais a partir de quando não temos domínio sobre as consciências, porque não conseguimos influenciar a todos exatamente segundo os moldes que julgamos acertados para a organização das coisas. Essa injustiça para com os semelhantes se dá pela ignorância de nossa parte em percebermos que a ordem da natureza terrena não pertence a nenhum dos que nela habitam, quer dizer, ninguém dentre nós é o responsável absoluto pelas leis que aqui imperam. Se tivéssemos que culpar alguém este seria a Consciência superior criadora deste mundo — que seria Deus. Mas como não nos sentimos à vontade para condenar a Divindade, somos convidados a pensar sobre o que enxergamos como imperfeição no mundo. Será que ele não é perfeito e que a imperfeição esteja justamente em nós, que não enxergamos a perfeição das coisas?

No jogo de opiniões diversas e a precisão de decisões, somos compelidos a buscar o equilíbrio social, ou seja, o acordo mútuo entre as opiniões — que os gregos intitularam democracia. Mas como os ideais pessoais são por vezes tão discordantes — porque cada qual prejulga possuir a razão das coisas —, cremos viver num plano de ideias incompatíveis, e, por conseguinte, de plena infelicidade, já que não há acordo total. Isto se dá em decorrência de fixarmos nossa vida exclusivamente pelos valores humanos a que estamos submetidos neste orbe. Despertando nossa consciência para a essência superior — da vida espiritual —, teremos alargado o pensamento, potencializando nossa capacidade de melhor elaborar nossas ideias — seja para vivermos melhor o hoje, seja para o amanhã, no plano dos Espíritos.


Louis Neilmoris



Fonte: do livro "O Grande Encontro Filosófico - Autodescobrimento Aplicado"
Ed. Luz Espírita, abril de 2014, digital - www.luzespirita.org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/c%C3%A9rebro-acho-que-pensamentos-4065092/

sexta-feira, 31 de março de 2017

A ESSÊNCIA DO FUTURO HUMANO


Um Conhecimento Adequado da Lei do Carma Levará a Humanidade à Felicidade Suprema

O equilíbrio que surge do conhecimento filosófico produz uma satisfação duradoura. Para obter esta conquista, devemos adotar uma visão de longo prazo em relação à vida, esforçar-nos para viver corretamente, e aprender com os nossos erros.

A Lei do Carma constitui a chave e o código que levam desde o sofrimento até a felicidade. O conhecimento da lei do universo liberta o buscador da verdade.

O pensador Robert Crosbie escreveu:

“Na realidade, a Teosofia não exagera de modo algum a importância do ‘lado árido’ da vida. Ela explica com lógica e bom senso as coisas que ocorrem; e uma vez que o ser humano entende em função de que a meta da vida existe e qual é o seu verdadeiro significado, e percebe as suas grandes possibilidades, ele não pode mais concentrar-se no ‘lado árido’, mas sente uma imensa confiança, uma grande esperança e alegria – e tem uma base verdadeira para este sentimento.”

Crosbie acrescentou:

“O fato de que a Lei do Carma governa todas as coisas e cada circunstância é uma evidência de que a mais exata Justiça é a lei da vida. Quando o ser humano vê que não há um ‘Deus’ que o condenará ou punirá, e percebe que só receberá o que é justo e que seguramente receberá tudo o que pertence a ele porque o Universo é regido pela Lei, então ele não tem mais motivo para sentir-se ‘sem alegria’; mas se sente satisfeito, responsável e confiante.” [1]


O Dhammapada Ensina a Ser Feliz

O pessimismo constitui uma característica dos ingênuos. Esse sentimento é frequentemente infantil. Está ligado à falta de uma autoconfiança profunda, e pode ser curado através da busca da verdade. Mohini M. Chatterjee escreveu sobre o fato de que a Teosofia é um caminho para a felicidade. [2] O “Dhammapada” budista examina cuidadosamente o processo pelo qual o desapego leva à bem-aventurança. Em um estilo que inclui um grau de repetição mantrâmica, esta obra clássica afirma:

“Devemos viver, pois, livres do ódio e felizes entre os que odeiam. Entre os homens que odeiam, que nós vivamos livres do ódio. Devemos viver, pois, livres da doença da cobiça e felizes entre os que sofrem desta doença. Entre os homens que têm a doença da cobiça, que vivamos livres desta doença. Devemos viver, pois, livres da ansiedade e felizes entre os que estão consumidos pela preocupação. Entre os ansiosos, que nós vivamos livres da ansiedade. Devemos viver com felicidade, pois, nós que nada possuímos. Vivamos como os Seres Iluminados, alimentados pelo contentamento.” [3]

É um fato que a primeira nobre verdade do budismo é Dukkha, uma palavra frequentemente traduzida como Sofrimento. No entanto, as outras três nobres verdades do budismo ensinam sobre o caminho que vai do Sofrimento para o Nirvana, ou Felicidade.

Um pensamento lúcido e uma visão equilibrada da vida nos permitem compreender pouco a pouco o fato de que Sabedoria é Felicidade; e perceber, também, que toda satisfação verdadeira e durável deve emergir como resultado natural de uma vida correta.


Três Verdades Sobre o Futuro Humano

Os sábios ensinam que a humanidade está no rumo correto. O futuro não corre perigo. As crises e os renascimentos fazem parte da aprendizagem. O inverno e a primavera são necessários à natureza. Nada há de separado ou isolado no universo, e a ajuda mútua é a lei. No final do século 19, Mabel Collins publicou alguns princípios fundamentais da filosofia esotérica em relação à evolução dos seres humanos.

Ela escreveu:

“Há três verdades que são absolutas e não podem ser perdidas, mas podem permanecer em silêncio por falta de quem as expresse. A alma do homem é imortal, e o seu futuro é o futuro de algo cujo crescimento e esplendor não têm limites. O princípio que dá vida habita em nós e fora de nós. Ele é imortal e eternamente benéfico; não é ouvido, nem visto, nem sentido pelo olfato, mas é percebido pelo homem que deseja a percepção. Cada homem é o seu próprio absoluto legislador, produzindo para si glória ou trevas; é o decretador da sua vida, da sua recompensa, da sua punição. Estas verdades, que são grandes como a própria vida, são tão simples como a mais simples das mentes humanas. Alimenta com elas os famintos.” [4]

A competição egoísta é a marca dos desinformados. Na verdade, a felicidade surge da combinação de fatores como boa vontade e discernimento, cooperação e responsabilidade própria, autonomia e confiança mútua.

A chave para o futuro está no fato de que um conhecimento adequado da Lei do Carma leva a humanidade à felicidade suprema.

A vida é sempre simétrica. Ao ajudar, recebemos ajuda. Ao observar e compreender a dor, nos libertamos dela. Quando abrimos o nosso próprio caminho para a satisfação duradoura do auxílio mútuo, tornamos mais fácil a caminhada de todos os seres. Um Mestre escreveu:

“… Olhe para o futuro; cuide para que o contínuo cumprimento do dever, sob a orientação de uma Intuição bem desenvolvida, possa manter sempre o equilíbrio. Ah! Se seus olhos estivessem abertos, vocês poderiam ter tamanha visão das bênçãos potenciais para vocês mesmos e para a humanidade, que repousam no germe do esforço de agora, que teriam suas almas incendiadas pela alegria e pelo entusiasmo!” [5]




Carlos Cardoso Aveline




Fonte do Texto e da Gravura: Blog "Filosofia Esotérica"
http://www.filosofiaesoterica.com/a-essencia-do-futuro-humano/




NOTAS:

[1] “The Friendly Philosopher”, Robert Crosbie, Theosophy Co., Los Angeles, 1945, 415 pp., ver p. 197.

[2] “Theosophy as the Path to Happiness”, artigo de Mohini M. Chatterjee. O texto pode  ser encontrado em nossos websites associados.

[3] “O Dhammapada”, capítulo quinze. A obra está publicada em nossos websites.

[4] “Luz no Caminho”, de M. C., tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, 85 páginas. A obra foi publicada em 2014 por The Aquarian Theosophist. Ver nota de pé de página à p. 29.

[5] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 1996, Carta 20 da primeira série, p. 66.


O texto acima foi publicado pela primeira vez em inglês em janeiro de 2012. Título original: “The Essence of Human Future”. Ele também é um dos capítulos do livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Aveline. A presente tradução – feita pelo próprio autor e portanto não literal – foi liberada para publicação em fevereiro de 2012.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

QUANDO APRENDER É POSSÍVEL?

A palavra “aprender” tem grande significado. Existem dois tipos de aprendizagem. Para a maioria de nós aprender significa o acúmulo de conhecimento, de experiência, de tecnologia, de uma habilidade, de uma língua. Existe também aprendizagem psicológica, aprender pela experiência, ou as experiências imediatas de vida, que deixam certo resíduo, de tradição, de raça, de sociedade. Existem estes dois tipos de aprendizagem de como encontrar a vida: psicológico e fisiológico; habilidade externa e habilidade interna. Não existe realmente linha de demarcação entre os dois; eles se sobrepõem. Nós não estamos considerando, no momento, a habilidade que aprendemos pela prática, o conhecimento tecnológico que adquirimos pelo estudo. Estamos interessados na aprendizagem psicológica que adquirimos através dos séculos ou herdamos como tradição, como conhecimento, como experiência. Isto nós chamamos de aprender, mas eu questiono se é de fato aprender. Não estou falando de aprender uma habilidade, uma língua, uma técnica, mas estou perguntando se a mente aprende psicologicamente. Ela aprendeu, e com o que aprendeu encontra os desafios da vida. Ela está sempre traduzindo a vida ou o novo desafio com o que aprendeu. É isso que estamos fazendo. Isso é aprender? Aprender não implica uma coisa nova, uma coisa que eu não sei e estou aprendendo? Se eu fico apenas adicionando ao que já aprendi, não é mais aprender.

Inquirir e aprender é a função da mente. Por aprender não estou querendo dizer o simples cultivo da memória ou a acumulação de conhecimento, mas a capacidade de pensar claramente e sensatamente sem ilusões, começar com fatos e não com crenças e ideais. Não há aprendizagem se o pensamento se origina de conclusões. Meramente adquirir informação e conhecimento não é aprender. Aprender implica o amor de compreender e o amor de fazer uma coisa por ela mesma. Aprender só é possível quando não há coerção de nenhum tipo. E a coerção assume muitas formas, não é? Existe coerção pela influência, pelo apego ou ameaça, pelo encorajamento persuasivo, ou formas sutis de recompensa. Muitas pessoas consideram que a aprendizagem é encorajada pela comparação, ao passo que o contrário é o fato. Comparação gera frustração e simplesmente encoraja a inveja, o que é chamado de competição. Como outras formas de persuasão, a comparação impede a aprendizagem e gera medo.




J. Krishnamurti




Fonte: The Book of Life
http://www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NÃO HÁ VENCEDORES REAIS

Ganhar e perder é um jogo de azar, diz Sakyong Miphan Rinpoche. De qualquer forma, todo ganho acaba em perda, e tentar alcançar a vitória sobre os outros é desagradável e ilusório.

Eu sempre gostei de esportes – andar a cavalo, golfe, correr. Uma vez perguntei a meu pai, Chögyam Trungpa, o que ele pensava sobre futebol, já que é um esporte que não existia no Tibete. Ele respondeu, “Eles têm ganhado e perdido o mesmo jogo há uma centena de anos”. Eu fiquei chocado pelo seu senso de humor, mas ainda mais pela verdade sutil por trás do que ele havia dito. Por esses cem anos, ganham-se e perdem-se partidas. Os jogadores podem ter ganhado resistência, disciplina e camaradagem, mas no final, não fizeram nenhum progresso, porque eles sempre jogaram com o propósito de ganhar.

No samsara – o eterno ciclo de sofrimento – estamos sempre ganhando e perdendo o mesmo jogo, esperando fazer progresso, de alguma forma. Passamos uma parte de nossa vida juntando as coisas, e a outra parte vendo tudo desmoronar. Não nos damos conta de que, se tentamos ganhar algo, devemos estar preparados para perder. A partir do momento em que temos tempo – “Tenho uma hora inteira livre” – já estamos o perdendo. Trabalhamos duro para construir um relacionamento, e então ele acaba. Reunimo-nos para uma festa de fim de ano, e então ela termina. Compramos um novo carro, e o para-lama amassa.

Tudo o que ganhamos está sujeito à perda. Embora isso seja tão verdadeiro quanto o céu é azul, continuamos tentando fazer um ganho permanente de modo a tentar trazer felicidade para o “eu”. Nós pensamos, “Se ao menos fulano me amasse, eu seria feliz”, “Se ao menos as coisas mudassem, eu seria feliz”, “Se ao menos as coisas continuassem do jeito que estão, eu seria sempre feliz”, e isso só traz mágoa. Esse tipo de querer envolve muita esperança e medo, todos baseados na negação de uma simples verdade: todo o prazer que o mundo pode oferecer eventualmente se transforma em dor. E tentar se segurar nesse prazer só causa mais dor.

Por que colocamos todo esse esforço em ganhar, quando no fim das contas iremos perder? Satisfazer-se com ganhar e perder é como induzir a amnésia. Estamos sempre achando algo novo para ganhar, o que nos faz esquecer a última coisa que perdemos, há apenas alguns segundos atrás. Fabricar essa cadeia de desejos é a forma como nos mantemos no samsara. Diferentemente de qualquer coisa que possuímos, esse padrão pode se manter por várias vidas. Contemplar isso nos permite dar um passo para trás e ver tudo por um ponto de vista mais profundo, de modo a ficarmos menos hipnotizados. Assim, estamos menos aptos a trabalhar fervorosamente em direção ao ganho.

O Buda disse que nossa existência é marcada pela impermanência, da não existência do eu, e do sofrimento. Quando contemplamos essa percepção na nossa meditação da manhã, estamos deixando a verdade da existência penetrar nosso ser. Estamos trazendo essa verdade para dentro de nossa própria experiência: qualquer coisa que acumularmos, perderemos. Até esse corpo se dissolverá. Contemplar o ganho e a perda não é dizer que iremos escapar dessa realidade, mas nos ajuda a não sermos enganados a pensar que o ganho terrestre nos trará felicidade permanente. Essa é a forma pela qual harmonizamos nossa mente com a verdade sobre ganho e perda. Nós nos damos conta de que GANHAR E PERDER É APENAS UMA ILUSÃO - QUE PERMITIMOS QUE GOVERNE NOSSA VIDA. Quando paramos de ser confundidos, surpreendidos, ou insultados por ela, não mais iremos experimentar os altos e baixos que acompanham o ganho e a perda.

Muitas vezes, perdemos nossa perspectiva acerca do ganho e da perda, já que o mundo moderno é muito competitivo. Com essa atitude, estamos num atrito eterno com nosso ambiente. Estamos brincando com o jogo do “E o que tem para mim?”: “Se eu ganhar alguma coisa serei feliz. Se eu perder alguma coisa serei extremamente infeliz”. Esse tipo de atrito sempre nos derruba. A COMPETITIVIDADE não nos permite realizar o que queremos. Ela apenas adiciona a chateação de tentar ganhar à custa de outra pessoa. Ela nos torna agressivos – incapazes de relaxar nossa própria mente. Tornamo-nos mais suscetíveis à raiva, o que destrói qualquer virtude que tenhamos reunido.

Tentar manipular o ambiente promovendo a nós mesmos e torcer para que os outros fracassem é desagradável e ilusório. Apenas somos bons do jeito que somos, e forçar outra pessoa para baixo não nos torna nada melhores. A COMPETIÇÃO É INSTÁVEL. Mesmo quando ganhamos, não ganhamos realmente. Temos sempre que provar nosso valor novamente. SE DESEJARMOS FAZER ALGUM PROGRESSO NO CAMINHO ESPIRITUAL, NÃO PODEMOS BASEAR NOSSO VALOR NO SUCESSO OU FRACASSO DE UM EVENTO.

QUANDO COMPETIMOS, ESTAMOS APRIMORANDO NOSSAS HABILIDADES DE AGRESSÃO. ABSTENDO-NOS DE UM ESTADO MENTAL DE COMPETITIVIDADE, ESTAMOS CONFIANDO NO NOSSO VALOR COMO SERES HUMANOS QUE PODEM CULTIVAR A SABEDORIA E COMPAIXÃO. Esse potencial não pode ser perdido ou conquistado. Se nós o desenvolvermos, somos capazes de viver a vida de maneira vasta, com prazer. Não nos afligimos sobre o que o outro esteja ou não fazendo. Nós valorizamos os outros. Quando eles nos superam, não nos sentimos diminuídos, mas vemos isso como uma oportunidade para relaxar na possibilidade extravagante de não estarmos apegados à perda ou ao ganho.

PERDA E GANHO SÃO PREOCUPAÇÕES SEM PROPÓSITO QUE USAMOS PARA ESTIMULAR A ILUSÃO DE UM EU PERMANENTE. Estivemos preocupados desse modo por muitas vidas, ganhando e perdendo o mesmo jogo todas as vezes. O propósito de contemplar o ganho e perda é o de parar de desperdiçar nosso tempo. Essa vida é preciosa, nosso tempo é precioso, e nossa mente é preciosa. A VERDADEIRA VITÓRIA É NÃO SER PEGO PELA ILUSÃO DA PERMANÊNCIA. É não ser fisgado pelas emoções negativas. Ela existe quando nos libertamos da ilusão do “eu”. Esse é o motivo por que o Buda é chamado de “o vitorioso” – ele venceu sobre a ignorância, desejo, e paixão pelo eu. Ao contrário de nós mesmos, o Buda não vê a qualidade onírica da existência em retrospecto. Ele a vê agora. O Buda vê o presente – assim como o passado e o futuro – como um sonho, uma ilusão.

Prajna – “sabedoria elevada” – nos diz que, enquanto acreditarmos que a agressão e competitividade podem trazer ganhos reais, sempre jogaremos o jogo do samsara. Se pudermos ver através de nossa própria ignorância, não mais agiremos a partir de apego à perda e ganho convencional. Não precisaremos mais de provar o nosso valor a cada momento. Podemos superar o ciclo do sofrimento, investindo nossa energia na causa da felicidade duradoura, que é o abandono do “eu”.

Textos antigos de meditação nos dizem que depois que ficamos familiarizados com a verdade da impermanência, deveríamos praticar como se nossos cabelos estivessem pegando fogo. O que praticamos? Praticamos meditação, generosidade, paciência, humor, e ajudamos os outros. Quando nós realmente compreendemos a impermanência, vivemos com gratidão por nossa boa sorte, como se fosse nosso último dia na terra. Acordamos de manhã animados por termos a oportunidade de usar cada momento de nossa vida de modo que levará à sabedoria. Quando fazemos desse modo, ficamos com o coração mais leve, naturalmente e espontaneamente. Não somos apanhados pelo jogo do bem ou do mal. Temos o que os tibetanos chamam de “tropa” – alegria. Tudo o que resta é ser totalmente destemido e dar o primeiro passo em ajudar os outros. É assim que seremos verdadeiramente vitoriosos.





Sakyong Mipham Rinpoche

(Diretor espiritual da Shambhala, uma rede internacional de centros de meditação e de retiro. É o autor de “Faça da sua Mente uma Aliada” e ” Governe seu Mundo”.)






Fonte: publicado na revista Shambhala Sun em julho de 2005
Tradução de Rafaela Batista
Via CEBB - Centro de Estudos Budistas Bodisatva
http://bodisatva.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal