sexta-feira, 24 de julho de 2020

O DRAMA DE EROS


O verdadeiro e mais profundo sentido de Eros não é a satisfação individual do homem e da mulher, nem tampouco a procriação da prole. Eros tem um background, um fundo ou substrato de natureza metafísica, cósmica, universal, que não é conscientemente percebido pelos sexos. Por detrás da conhecida profanidade da libido canta a ignota sacralidade de Eros...

Esse substrato cósmico de Eros é o anseio pelo retorno à fonte universal de todas as coisas individuais. Os indivíduos orgânicos, resultantes da união dos sexos, representam um processo centrífugo, dispersivo, rumo à periferia. Por que é que Eros tem o poder de individualizar novas ondas de vida? Unicamente porque, no ato sexual, retorna ao oceano imenso da vida cósmica experimentado, geralmente, na estranha embriaguez do orgasmo voluptuoso.

A eterna Realidade não tem sexo. O Absoluto é essencialmente assexual. O homem – isto é, o ser humano como tal, o homo, o ânthropos, o Mensch; não o vir, o anér, o Mann – desconhece sexo. A ramificação em dois sexos é o primeiro passo para a individualização do homem universal. Entretanto, o homem assim individualizado em macho e fêmea conserva nas incônscias profundezas da sua natureza humana a reminiscência do que foi na sua fase pré-sexual e o que continua a ser, mesmo agora, na íntima essência do seu ser humano. Essa silenciosa nostalgia do seu estado puramente humana, pré-masculino e pré-feminino, ecoa perenemente em cada uma das células do varão e da mulher. A união sexual é uma tentativa de retorno dos dois ramos da árvore humana, macho-fêmea, ao tronco único da natureza humana como tal; o vir e a fêmina anseiam pelo homo; o anér e a gyné suspiram pelo ânthropos; o Mann e a Weib tentam reconstruir o Mensch.

[...] O homem quer ser atualmente o que já é potencialmente. E este processo milenar de auto-realização (Self-realization, Selbstverwirklichung) vai através de Eros. O Eros da mitologia é uma divindade creadora, não no sentido primário de procriar novos indivíduos, mas no sentido profundo de crear, através de muitas individualizações parciais, o homem universal, total. Eros é, de fato, o Amor que cria o homo, o ânthropos, o Mensch, na sua completa, última e absoluta inteireza e perfeição.

Só assim se explica a elementar veemência com que os sexos se atraem um ao outro, sem que eles mesmos conheçam nitidamente a verdadeira razão dessa potência abismal; no zênite da intensidade sexual descem os dois atores praticamente ao nadir da inconsciência, deixando de ser atores do drama para se tornarem sofredores, ou vítimas passivas de uma potência cósmica que os empolga com irresistível veemência. “Paixão” (passio) é passiva, algo que se padece, algo de que se é objeto sofredor, e não sujeito ator.

Em última análise, Eros é o brado cósmico pela plenitude. É sumamente notável que os grandes místicos e gênios espirituais da humanidade se sirvam de uma linguagem visceralmente sexual ou erótica quando se referem ao retorno do homem à suprema Realidade, Deus. Os profetas de Israel representam relações entre Javé e o povo eleito sob a forma de matrimônio, razão por que a idolatria é constantemente equiparada ao adultério. Jesus Cristo descreve o consórcio do divino Logos com a natureza humana como uma festa nupcial. Paulo de Tarso traça o genial paralelo entre Cristo e a igreja sobre a base das relações entre homem e mulher.

Verdade é que o homem animal não compreende o sentido profundo de Eros, limitando-o à esfera da libido, das satisfações meramente carnais. Na realidade, porém, o verdadeiro casamento não se consuma na união física dos corpos, como acontece no acasalamento dos brutos, mas na integração dos espíritos, ou seja, na fusão metafísico-mística do verdadeiro Eu humano como outro Eu. “O que Deus uniu não o desuna o homem” – esta frase mística de Jesus tem um sentido profundo, uma vez que só a união dos espíritos é que é uma união real e, por isto, indissolúvel. Os verdadeiros “casados” encontraram sua “casa”. Eros integra os espíritos, reunificados em um só tronco os dois galhos diversificados pelos sexos.

O veemente brado pela unidade cósmica – é este o mistério último que vibra por detrás da atração dos sexos. Eros a serviço do Cosmos.

[...] Compreende-se assim porque o Cristo não era inimigo de Eros. Se o fora, não teria sido o maior gênio cósmico da humanidade. A sublimação de Eros pela compreensão da sua verdadeira função, no drama multimilenar da humanidade em marcha – é esta a tarefa gloriosa dos verdadeiros luminares do Cristianismo e guias espirituais do gênero humano.


Prof. Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/cupido-eros-grego-amor-mito-1295027/

FÉ NÃO É ADESÃO A UM PONTO DE VISTA, TRADIÇÃO, CRENÇA OU RITUAL


Quando a força da fé atua livremente na pessoa humana, ela nos impele a experimentar uma realidade que está além de palavras, imagens e ideias. Então, descobrimos que os filtros das metáforas, por mais úteis e necessários que eles sejam em um determinado nível, também, podem (e precisam) ser desativados para que a fé cresça. Como em toda característica humana, crescemos na fé, ou a fé se exaure e morre. A fé contém o eterno anseio, que todos sentimos, de enxergar a realidade tal como ela é. “Amados”, assim disse São João, “desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo o que nele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo como também ele é puro” (1Jo 3:2-3). Enxergar a Deus é tornar-se como Deus. A condição dessa visão é a pureza. Em grande parte da religião, todavia, onde quer que a fé esteja restrita à crença ou ao ritual, a pureza é um empilhamento de filtros que se adicionam a camadas intervenientes. No núcleo de cada religião, no entanto, está o inerradicável conhecimento místico, aquela visão 20/20 da realidade, sem filtros, não mediada pela metáfora. A maioria de nós nunca a consegue inteiramente, mas a intuição de que isso assim é, faz parte da profunda natureza da própria fé.

Enxergarmos a realidade tal como ela é ou, ao menos, nos libertarmos progressivamente de alguns dos filtros representa um dos maiores atos de fé. Ele expressa a face confiante da fé, pois nosso apego às crenças e rituais de nossa tradição (mais do que nos próprios rituais e crenças) se transforma em uma segurança falsa e falsificante. E assim, muitas pessoas profundamente religiosas sentem uma aversão ou antipatia à meditação, pois ela parece (e na realidade ela o faz) minar as fronteiras seguras que protegem nossa visão de mundo e nossa sensação de sermos mais elevadamente diferentes dos outros.

Um caminho de fé, entretanto, não é uma adesão teimosa a um ponto de vista, e aos sistemas de crenças e tradições rituais que o expressam. Isso faria dele apenas ideologia ou sectarismo, e não fé. Fé é uma jornada transformadora que demanda que nos “mudemos” para além e através de nossas estruturas de crenças e de nossas observações exteriores, sem trair ou rejeitar as mesmas, mas também sem nos deixarmos capturar pelas armadilhas de suas formas de expressão. São Paulo falou do Caminho da salvação como se iniciando e terminando na fé. Fé é, assim, uma finalidade-aberta, desde o verdadeiro início da jornada humana. É natural que precisemos de uma estrutura, um sistema e tradição. [Porém] caso estejamos centrados neles, de maneira estável, desdobrar-se-á o processo da mudança e nossa perspectiva da verdade crescerá continuadamente.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos amigos" - Leitura de 16/11/2008
WCCM International Newsletter, vol. 32, no. 3, setembro de 2008, p. 4
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/todos-os-santos-christian-santo-f%C3%A9-2887463/

EXERCITE-SE EM NÃO DISTINGUIR


Tanto os taoistas como os zen-budistas pregam unânimes que o mundo que eu percebo é uma peça inseparável de mim. Por isto nos pensamentos eu não devo fazer nenhuma separação entre o “eu” e o meu meio.

O universo e o ser que vive nele formam uma unidade fechada. A física nuclear neste anos nos mostrou indícios indiscutíveis para este fato, por mais incompreensíveis que tais afirmações possam ser para a nossa razão. E os sábios do Tao e do Zen explicam uníssono claramente que o passo para o Satori, para a iluminação, não resulta apenas do reconhecimento desta unidade de pessoa e criação.

Nosso exercício nesta “disciplina” tem de ser determinado pelo sentimento, pois não podemos transmitir esta tarefa à razão, por mais disciplinada que esta seja. Tente uma vez, quando você estiver passeando pela natureza. Você vê pássaros que alegram com o seu canto, você vê um riacho com água correndo sobre as pedras no fundo, você vê árvores, arbustos e todo tipo de plantas, desde um capim até uma margarida. Agora imagine que todas estas coisas vistas, ouvidas, cheiradas sejam um único organismo, sejam membros de seu próprio corpo e estejam totalmente ligadas com você, mesmo que isto não o atrapalhe em seus movimentos. Quando você puder sentir isto, esta relação, então você sentirá algo que realmente é assim. Quando então você estiver diante de uma árvore, esta não será a palavra “árvore”, será uma parte de você, esta árvore faz parte de você. Tente ver o seu meio desta maneira, por mais ilógico que isto possa lhe parecer.

Pare de classificar as coisas que você vê no esquema que você aprendeu, pare de dar nome às aparições na natureza, a não ser que seja o seu próprio nome. Acredite, você sentirá esta relação, a ligação original entre você e estas coisas ao seu redor.

No estado de iluminação este conhecimento da unidade do Homem, do indivíduo com o universo, existe claramente. Esta relação de maneira nenhuma diminui a sua capacidade de viver e agir como um ser independente. Você viverá um verdadeiro crescimento, uma ampliação da sua riqueza interior.


Theo Fisher



Fonte: do livro "WuWei - A Arte de Viver o Tao"
Editora Árvore da Terra, 1999 - Tradução: Ulrike Pfeiffer
Fonte da Gravura: Tumblr.com