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domingo, 25 de dezembro de 2016

O MITO DE TÂNTALO

Vanitas vanitatum et omnia vanitas – Vaidade das vaidades, tudo é vaidade

Não é de hoje que o homem aspira a mais perfeita e elevada purificação. Como outrora, religiosos ferrenhamente devotados empreendem uma luta interior buscando alcançar o Olimpo, atingir o nirvana ou vivenciar o paraíso na Terra.

O mito grego do rei Tântalo desvela a ambição de um mortal que, não satisfeito em ser notoriamente o “predileto dos deuses”, almeja transmutar-se num “deus” propriamente, incorrendo num erro brutal.

Apontando a hýbris (desmedida) em Tântalo, na obra intitulada “O Simbolismo na Mitologia Grega”, o renomado estudioso francês Paul Diel, afirma que: “Afoito por sua conquista e esquecido de sua condição mortal e seus limites, Tântalo chega a se exaltar com tal intensidade que lhe sobrevém a tentação de querer se tornar um igual entre as divindades, puros símbolos do espírito”.

A fim de obtermos maior clareza sobre esse latente desejo humano e de sua possível perversão, descortinemos o mito legado pelo premiadíssimo tragediógrafo Ésquilo (524-456 a.C.).

A desfrutar néctar e ambrosia, Tântalo, o próspero e abençoado rei de Corinto, justo e bem quisto, torna-se o único mortal admitido à mesa dos olímpicos. A consciência dessa distintiva predileção acaba por enredá-lo numa vaidosa e desvairada grandiosidade imaginativa.

Presunçoso, no afã de confirmar seu estatuto de “igual” entre os deuses, Tântalo convida a todos do Panteão para um banquete em seu palácio e, pondo em teste a onisciência divina, lhes oferece o alimento terrestre sob sua forma mais abjeta: a carne de seu próprio filho, Pélops.

Servir essa funesta iguaria, fruto de sua obsessão doentia, simboliza a maior perversão empreendida por um mortal. Eis que os deuses são mesmo oniscientes, reconhecem a blasfêmia e, horrorizados, repudiam a ofensiva dádiva. Somente a deusa Deméter, da agricultura, perturbadíssima com o recente desaparecimento da filha Perséfone (Prosérpina ou Kore para os romanos), desatentamente ingere um pedacinho da carne.

Malsucedido, Tântalo nem se igualou aos deuses, nem os rebaixou a seu nível, pois Zeus, o soberano do Olimpo, restaurador da ordem, ressuscita Pélops reconstituindo o pedaço faltante do ombro por mármore (daí “hamartía“, a marca) e delibera sobre qual seria o pior castigo para o herege. O menino fora poupado, mas a maldição lançada aos descendentes da Casa de Atreu (cujo expoente será o ganancioso rei atrida Agamêmnon), como a “marca do pecado original” legado no mito de Adão e Eva, trazemos todos até hoje: a eterna insatisfação.

A condenação pelo veredicto dos deuses, pela “lei psíquica”, ilustra a justiça inerente a todos nós. É na perturbação oriunda do conflito interior da psyché (alma) humana que as divindades tornam-se expressões simbólicas da legalidade essencial da vida e de sua necessidade de fazer justiça.

A santidade idealizada e perseguida em ciclos míticos como o hindu, o islâmico e o cristão, por exemplo, é justa. Almejar, no entanto, a santidade absoluta, esquecendo-se da condição humana, é irrealizável. Mais ainda, uma ambição dessa magnitude constitui evidente desmedida (hýbris), caso de Tântalo.

Paul Diel, afirma que: “Justamente em razão dos gregos não terem alcançado a visão clara e mais elevada do ideal simbolicamente expresso pelo mito cristão, é que [neles] o desejo de purificação perfeita só pôde ser visto sob seu aspecto negativo; o perigo de uma superexcitação doentia da esfera espiritual”. A visão mítica dos gregos nos “adverte contra esse perigo exprimindo unicamente o medo de ver rompida a harmonia das pulsões e perder a justa medida”.

Para outras formas de re-ligação (religião), o santo, o homem simbolicamente divinizado, “ungido” pelo “deus”, venceu todos os desejos da matéria, tanto no nível das inquietações físicas quanto no nível da imaginação exaltada e, tendo-os dissolvido, ele não é mais afetado por nenhuma tentação. Como Sidarta Gautama, o Buda, transcende a tudo e a todos.

Ao que Tântalo almeja, tornar-se também um deus, o grego impõe interdito. O ideal de santidade proposto pela doutrina cristã caracteriza um passo evolutivo que transpõe os marcos da cultura pagã. O interdito é esse: a carne se fazer espírito, o homem tornar-se deus. A correção é essa: o Espírito faz-se carne, Deus faz-se homem.

Desse modo, o indivíduo que busca a verdadeira santidade dispõe de toda energia de seus desejos, subtraindo-se ao mundo em relação ao qual ele nada mais deseja e, precisamente por haver-se assim libertado das múltiplas ligações afetivas, permanece unido ao mundo graças a vínculos mais intensos: o amor (caritas), a bondade e a compaixão.





Luciene Felix
(Luciene é professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da ESDC)






Fonte do Texto e da Gravura:  do Blog "O Ponto Dentro do Círculo"
https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/06/21/o-mito-de-tantalo/

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

DEPRESSÃO, CONDUTA, PRESUNÇÃO E DÚVIDA - ASPIRANTE ESPIRITUAL

Discutindo sobre toda pequena coisa, perdendo a paciência, ficando triste pela menor provocação, irritando-se com o menor insulto, preocupando-se com sede, fome e perda de sono - estas nunca podem ser as características de um aspirante. Arroz em seu estado natural e arroz cozido - podem estes dois serem o mesmo? A dureza do arroz natural está ausente no cozido. O grão cozido é suave, inofensivo e doce. O grão cru não fervido é duro, vaidoso e cheio de ilusão. Ambos os tipos são almas (jivis) e seres humanos, sem dúvida, mas aqueles imersos em ilusões externas (avidya-maya) são "pessoas", enquanto aqueles imersos em ilusões internas (vidya-maya) são "aspirantes espirituais". Deus não tem nem ilusões internas nem ilusões externas; Ele é desprovido de ambas. Aquele que não tem ilusões externas, torna-se um aspirante espiritual, e quando ele é desprovido de ilusões internas também, pode ser denominado como Deus. Tal coração de uma pessoa é realmente o assento de Deus. (Prema Vahini, Capítulo 59)

Não é da natureza de um aspirante espiritual procurar defeitos nos outros e esconder os seus próprios. Se suas falhas forem apontadas por alguém, não argumente e tente provar que estava certo, nem guarde rancor contra ele por isso. Avalie dentro de si mesmo como isso é uma falha e corrija seu próprio comportamento. Racionalizar isso para sua própria satisfação ou causar vingança contra a pessoa que apontou - estas não devem ser as características de um aspirante espiritual ou devoto. O aspirante espiritual deve sempre procurar o verdadeiro e o alegre, e deve evitar todos os pensamentos falsos, tristes e deprimentes. Depressão, dúvida, presunção - estas são tão prejudiciais quanto Rahu e Kethu (influências planetárias más) para o aspirante espiritual. Elas prejudicarão a prática espiritual. Quando sua devoção está bem estabelecida, estas podem ser facilmente descartadas se aparecerem. Acima de tudo, você deve ser alegre, sorridente e entusiasmado em todas as circunstâncias. (Prema Vahini, Capítulo 63)

Os aspirantes espirituais devem entender cuidadosamente a distinção entre a conduta da pessoa comum (sahaja) e a do aspirante espiritual. A pessoa comum não tem coragem (sahana), é vaidosa (ahamkara) e cheia de desejos relacionados ao mundo, através do qual a pessoa está tentando ter uma existência contente. Os aspirantes envolvidos na contemplação do Senhor (Sarveswara-chinthana) tão incessantemente como as ondas do mar, acumulam a riqueza de igualdade e de amor sem distinção por todos, e se contentam com o pensamento de que tudo é do Senhor e nada é deles. Ao contrário da pessoa comum, o buscador espiritual não se dobrará facilmente diante de tristeza, perda, raiva ou ódio ou egoísmo, fome, sede ou inconstância. Os aspirantes devem dominar todas as coisas boas, tanto quanto possível e viajar pela vida com fortaleza de espírito, coragem, alegria, paz, caridade e humildade. (Prema Vahini, Capítulo 59)

Esses são os dois principais inimigos de cada aspirante espiritual: a presunção (de que você sabe tudo) e a dúvida (é ou não?). Apenas decida ser firmemente conectado a sua realidade. Se isso for puro, tudo será puro. Se isso for verdadeiro, tudo será verdadeiro. Se você usa óculos azuis, você vê apenas azul, mesmo que a natureza seja resplandecente com muitas cores. Assim também, se o mundo lhe parece tão cheio de diferenças, isso é devido apenas à falha em você. Se tudo aparece como sendo um único e mesmo amor, isso também é apenas seu amor. Os sentimentos dentro de você são a causa em ambas situações. A questão que pode surgir a seguir é se o Senhor tem falhas, pois Ele também identifica falhas. O Senhor só procura pela bondade em um devoto, não por faltas e pecados. A avaliação que o Senhor faz de você é dependente de seus sentimentos. O Senhor derrama a Graça sobre aqueles dotados de retidão, independentemente de sua raça, riqueza e gênero. (Prema Vahini, Cap. 46)





Sathya Sai Baba







Fonte: http://www.sathyasai.org.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 27 de agosto de 2013

ERROS E DEFEITOS DA MENTE

(...) O primeiro defeito mental é a tendência à CRISTALIZAÇÃO, ou seja, a falta de elasticidade, e por causa dele o homem se apega às suas próprias ideias, às suas próprias convicções, e se fecha no limitado círculo formado por elas, sem ser capaz de superá-lo e ampliá-lo toda vez que entra em contato com novas verdades. 

Uma mente realmente madura deve estar aberta para todas as ideias novas, deve ser capaz de um aprofundamento contínuo, deve mostrar-se sedenta de novos conhecimentos e desejosa de ampliar cada vez mais o seu campo de pesquisa. Deve ser capaz de examinar objetivamente e de entender as opiniões e as convicções dos outros, as ideias novas em qualquer campo (...) Em vez disso, porém, frequentemente acontece que se formam, na mente, preconceitos, as ideias cristalizadas, aquelas que Bacon chama de "ídolos", que são um obstáculo para a atividade livre do pensamento e impedem a pesquisa e o aprofundamento no campo do conhecimento. 

Um outro defeito da mente é a PRESUNÇÃO (ou senso de superioridade) que nasce do fato, quase inevitável, de que com o desenvolvimento do intelecto vem acentuar-se o senso do eu pessoal e a auto-afirmação. O senso de superioridade também gera o criticismo e a separatividade, defeitos estes também dos tipos mentais. 

(...) Mesmo que o homem não tenha percepção disso, à medida que ele evolui e procura superar os obstáculos internos, no seu caminho para o amadurecimento intelectual, o aspecto inferior e o aspecto superior da mente se aproximam, por assim dizer, começam a comunicar-se um com o outro e esta comunicação produz uma mudança no modo de pensar e de raciocinar do indivíduo. Antes de mais nada ele começa a sentir maior clareza e limpidez de pensamento, depois começa a sentir uma renovada sede de conhecimento, uma ânsia de pesquisa e de aprofundamento, e se dá conta, com inesperada intuição, dos seus erros e das suas limitações. 

Além disso, em sua mente surge um poder novo, uma clareza de julgamento e de raciocínio que o torna capaz de distinguir e de escolher quase que instantaneamente, entre duas coisas opostas, aquela que é a certa. (...) Este poder novo é chamado discernimento. Contudo, a manifestação do discernimento é gradual, pois tal qualidade é potencialmente ínsita na mente do homem, por isso já existe, em embrião, desde o início do processo evolutivo. 

(...) O discernimento, portanto, é uma qualidade mental importantíssima e essencial porque, na realidade, é aquela que ajuda o homem a alcançar a verdadeira maturidade intelectual e o uso sábio e reto do intelecto. 

(...) A maturidade mental se manifesta com a capacidade de "pensar" realmente, com a mente liberta dos obstáculos emocionais e instintivos e das influências provenientes do exterior e, além disso, com a faculdade de usar corretamente o pensamento, de maneira aberta, elástica, objetiva, compreensiva e sábia, como instrumento de conhecimento tanto voltado para o mundo objetivo quanto para o mundo subjetivo. 

(...) O indivíduo é um conjunto de qualidades interdependentes e a maturidade de uma função psíquica ajuda e favorece a maturidade das outras funções. 

Se não se está efetivamente amadurecido não se pode alcançar a maturidade mental, e também não se pode conquistar a maturidade afetiva se a nossa mente não estiver realmente amadurecida. Pois que o próprio amor é conexo com o conhecimento, e o conhecimento com o amor. 



Dra. Angela Maria La Sala Bata



Fonte: do livro "Maturidade Psicológica"
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A CAUSA CENTRAL DA PRESUNÇÃO

Não pense que simplesmente por querer paz, você terá paz, se em sua vida diária de relação você é agressivo, aquisitivo, buscando segurança psicológica aqui ou ali. Você tem que compreender a causa central do conflito e sofrimento e então dissolver isto e não simplesmente olhar o lado de fora pela paz. Mas veja, a maioria de nós é indolente. Somos muito preguiçosos para tomar a nós mesmos e compreender a nós mesmos, e sendo preguiçosos, que é realmente uma forma de presunção, achamos que outros resolverão este problema para nós e nos darão paz, ou que deveríamos destruir as aparentemente poucas pessoas que estão causando as guerras. Quando o indivíduo está em conflito dentro dele mesmo, inevitavelmente deve criar conflito fora, e só ele pode gerar paz dentro dele mesmo e, então, no mundo, porque ele é o mundo.



J. Krishnamurti



Fonte: www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal