quarta-feira, 20 de julho de 2022

SILÊNCIO, SIMPLICIDADE E ABISMO INTERIOR


No processo de simplificação evangélica é necessário aludir à estreita relação que tem com o silêncio. No fundo, essa renúncia aos apegos, afetos, necessidades, preocupações consiste no exercício de silenciar todas as pressões externas que me dizem o que é importante para os outros, e também as pressões internas que me impõem o que absolutamente preciso para viver: os afetos , estima, valor, segurança ou prestígio. De fato, o silêncio é o clima em que o olhar se simplifica e o coração se unifica. Mas, para isso, não basta o silêncio externo, em que se silenciam as vozes e os ruídos ao nosso redor, é necessário sobretudo o silêncio interior, que consiste em silenciar as reivindicações e os ruídos que vêm das paixões.

Se meus desejos, meus medos, minhas alegrias e minhas dores, se todos os movimentos que vêm dessas "quatro paixões" não fossem perfeitamente ordenados a Deus, eu não estaria solitário, haveria ruído em mim; é necessário o apaziguamento, o "sono das paixões", a unidade do ser. [1]

É a mesma coisa que São João da Cruz nos ensina quando fala de acalmar a casa interior: "Daí, nas quatro paixões da alma, que são: alegria, dor, esperança e medo, sendo acalmado pela mortificação contínua, e nos apetites naturais adormecer na sensualidade pela secura ordinária, e na elevação da harmonia dos sentidos e poderes interiores, cessando suas operações discursivas, como dissemos, que é todo o povo e morada da parte inferior da alma, que é o que chama aqui de sua casa, dizendo: Minha casa já está calma. [2]

O silêncio de que precisamos não pode consistir simplesmente em calar a boca ou fugir dos ruídos externos. O verdadeiro silêncio tem a ver com a descoberta do tesouro, porque é fruto da atração de Deus. Se ele me encontra, me oferece seu amor e me chama para ele - essa é a essência da vocação cristã - ele me atrai para ser dele. E a primeira resposta a essa atração é atenção prioritária a ele, escutá-lo; e só podemos ouvir se calarmos, silenciarmos. Mas presos nas complicações da vida e dentro de nós mesmos, não podemos ouvir a Deus. Devemos, então, entrar num processo pelo qual tudo se simplifica, precisamente porque as vozes interiores e exteriores que não vêm de Deus são silenciadas e o supérfluo desaparece, para que Deus possa começar a ser verdadeiramente Deus em nós. É um itinerário ao qual Deus nos atrai para nos fazer seus e entrar em profunda comunhão de amor com Ele; itinerário que se percorre na desapropriação e no abandono, que supõe uma verdadeira descida ao abismo interior em que tudo o que não é Deus é silenciado e, assim, tudo se simplifica à força de olhar apenas para Deus e buscar apenas a sua vontade. Esta mudança é como a inclinação que nos faz descer para o abismo interior onde Deus habita. É o caminho necessário para que nossa habitação em Cristo se torne uma realidade da mesma forma que ele habita em nós. E a simples intenção é o que nos torna semelhantes a Deus.

A simplicidade da intenção é o que dá às almas o descanso em Deus, como um abismo insondável ao qual devemos aspirar, como nos diz a carta aos Hebreus: "Esforcemo-nos, pois, por entrar nesse descanso". (Hb 4,11)

"A simplicidade comunica à alma o repouso do abismo." Ou seja, o descanso em Deus, abismo insondável, prelúdio e eco daquele descanso eterno de que fala São Paulo: "Nós, os que cremos, seremos introduzidos no descanso". (Hb 4,3) [3]


Notas:
[1] Santa Isabel de la Trinidad, Últimos ejercicios, día décimo.
[2] San Juan de la Cruz, Noche Oscura, Libro I, cap. 13, 15.
[3] Santa Isabel de la Trinidad, Últimos ejercicios, día tercero, que comenta una frase de Ruisbroeck.





Fonte: Hermandad de Contemplativos en el Mundo
https://contemplativos.com/retiro-espiritual/la-simplicidad-espiritual/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mar-p%c3%b4r-do-sol-arvores-papagaios-4420591/

NOSSA VIDA MENTAL


Nossa vida mental é o campo de nossa consciência desperta na faixa evolutiva em que o conhecimento adquirido nos permite operar.

Encarnados e desencarnados povoam o planeta Terra na condição de habitantes de um imenso edifício de vários andares, em posições horizontais diversas, de acordo com o estado consciencial de cada um, produzindo pensamentos múltiplos que poderão atrair, repelir ou neutralizar.

A mente transmite de dentro para fora as impressões da alma e recebe de fora para dentro as sensações da matéria, motivo pelo qual a alma reflete sua vontade, seu desejo, sua inteligência, sua memória e sua imaginação.

O pensamento desloca, em torno de nós, forças sutis ou campo vibratório, construindo paisagens ou formas e criando centros magnéticos ou ondas, com os quais emitimos a nossa atuação ou recebemos a atuação dos outros.

Os pensamentos são ondas de força que poderão alimentar, deprimir, sublimar, arruinar, integrar, induzir e desintegrar, razão por que, quem mais pensa, dando corpo ao que idealiza, mais apto se faz à recepção das correntes mentais invisíveis, nas obras do bem ou do mal.

É por esta razão que, quando vivemos e convivemos com criaturas idealistas, operosas, confiantes, otimistas e realizadoras, somos beneficiados, nutridos ou abastecidos de substância mental em grande proporção, favorecendo o nosso trabalho em forma de impulsos e estímulos que a nossa mente recolhe; ao passo que, quando vivemos e convivemos com criaturas desanimadas, pessimistas e amarguradas, nosso nível mental ou tônus mental fica sujeito a depressões e enfermidades.

Todos somos afetados pelas vibrações de paisagens, de pessoas e de coisas que nos cercam, e é por isso que, quando não nos habilitamos a conhecimentos mais altos e não exercitamos a vontade para sobrepor-nos às circunstâncias de ordem inferior, sofremos a imposição do meio onde vivemos e convivemos.

Princípios idênticos regem as nossas relações, uns com os outros; conversações alimentam conversações, pensamentos ampliam pensamentos, e é em função deste princípio que demoramos muito mais conversando com aqueles que se afinam com o nosso modo de ser e de proceder.

Quando estamos pensando, imaginando, desejando ou agindo, seja no mundo físico ou no mundo espiritual, nossa mente está sintonizada com todos aqueles que pensam, imaginam, desejam ou agem como nós, da mesma forma que a fonte está comandada pela nascente.

Daí a grande necessidade de constante renovação para o bem, orando e vigiando, trabalhando e servindo, aprendendo e amando, para que a nossa vida mental ou vida íntima se ilumine e aperfeiçoe, se realmente desejamos a companhia dos bons, dos sábios e dos justos, através do intercâmbio mental.



Ruy Gibim




Fonte: Revista "Reformador" - Junho 2007
Federação Espírita Brasileira - https://www.febnet.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/homem-cabe%c3%a7a-silhueta-tingir-3591573/