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terça-feira, 28 de julho de 2026

RELACIONAMENTOS: A ESSÊNCIA DA MEDITAÇÃO


Aprender a meditar não é simplesmente uma questão de dominar uma técnica, mas sim de aprender a valorizar e a responder diretamente à parte mais profunda de nossa natureza — não à natureza humana em geral, mas à natureza única de cada pessoa...

Primeiramente, devemos compreender o contexto cristão da meditação. Aqui, utilizo o termo "meditação" como sinônimo de expressões como contemplação, oração contemplativa e outras semelhantes. O contexto essencial da meditação reside no relacionamento fundamental de nossas vidas: a relação que nós, como criaturas, temos com Deus, nosso Criador. No entanto, a maioria de nós precisa dar um passo preliminar antes de poder apreciar a grande maravilha e o mistério extraordinário desse relacionamento basilar. De fato, muitos de nós precisamos nos conectar primeiro conosco mesmos — estabelecer um relacionamento íntimo com o nosso próprio ser — antes de podermos abordar abertamente nossa relação com Deus. Em outras palavras, devemos primeiro descobrir, expandir e vivenciar nossa capacidade de paz, serenidade e harmonia antes de podermos verdadeiramente apreciar nosso Deus e Criador, o autor de toda harmonia e serenidade.

A meditação é o próprio processo pelo qual nos preparamos, antes de tudo, para estar em paz conosco mesmos, tornando-nos assim capazes de apreciar a paz do Divino em nós. A ideia de meditação frequentemente apresentada às pessoas — como uma técnica de relaxamento ou para manter a serenidade interior em meio às pressões da vida urbana moderna — não está errada em si mesma. Contudo, se for reduzida a isso, o conceito torna-se muito limitado; pois, à medida que alcançamos um relaxamento interior mais profundo e meditamos por mais tempo, tornamo-nos cada vez mais conscientes de que a fonte da calma que descobrimos em nosso cotidiano é, precisamente, a vida de Deus fluindo em nós.

O grau de paz que possuímos é diretamente proporcional ao nosso conhecimento desse fato vital — esse elemento da consciência humana comum a todos os homens neste mundo. No entanto, para descobrir esse fato como uma realidade presente em nossas vidas, precisamos decidir se desejamos estar em paz. É por isso que o Salmista diz: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus" (Sl 46,11). Essa profunda serenidade interior é, em certo sentido, mais acessível a nós hoje do que o era para o poeta hebreu que compôs o salmo recém-citado — ainda que nossos problemas sejam mais complexos e nosso ritmo de vida mais frenético do que o dele. E isso se deve ao grande acontecimento que Jesus de Nazaré representa.


Father John Main, OSB



Fonte: Do livro: *Word into Silence*
© Canterbury Press, 2006 (Reino Unido) © Ediciones Sígueme S.A.U., 2008.
Para a livre difusão da Meditação Cristã.
Editado por Hugo Mateo e Ricardo Centurión.
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón - Ixtapa, México
www.permanecerensuamor.com - permanecerensuamor@gmail.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/lua-mulher-silhueta-medita%C3%A7%C3%A3o-1815984/


Nota deste Blog:

Para mais detalhes ver: JOHN MAIN E A MEDITAÇÃO CRISTÃ: https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2020/05/john-main-e-meditacao-crista.html

domingo, 26 de março de 2023

REENCARNAÇÃO - UMA VISÃO CABALÍSTICA DO RABINO PHILLIP S. BERG


Há dezesseis anos (quando o texto foi escrito) iniciei a missão de trazer este estudo importantíssimo à atenção da humanidade.

Para meu espanto, no entanto, a minha investigação deste assunto da reencarnação, tão delicado e vital, e a importância de seu lugar na Cabala, logo revelou quão pouco conhecimento a respeito deste assunto estava disponível para o cientista e para o público em geral.

Verifiquei que, quando o assunto da reencarnação surge entre judeus, ainda encontro uma falta de interesse e às vezes uma negação latente de que a reencarnação se relacione, ou tenha qualquer conexão ou relevância para com o judaísmo. Nestes últimos dezesseis anos, encontrei pouco material escrito por cabalistas judeus contemporâneos.

Certamente a academia judaica não ganha créditos pelo fato do Zohar e de trabalhos de autores que estavam realmente informados a respeito do assunto, como o Ari, o Rabino Isaac Luria, e seus volumes, os Portões da Reencarnação e o Livro da Reencarnação, nunca terem sido levados a sério.

Bem afastados da religião, embora completamente ligados à Torá, os assuntos Cabala e reencarnação sempre atraíram a hostilidade tanto de religiosos como de cientistas. Do lado da religião teme-se a "blasfêmia" deste tópico, enquanto os cientistas temem a metafísica, que os leva para fora do alcance de seu ambiente familiar. Com a Teoria da Relatividade de Einstein, e com o exame do mundo subatômico, a ciência pôde alcançar os antigos cabalistas e a Cabala.

A filosofia do século dezessete de Descartes, com uma estrita divisão entre mente e corpo, levou a instituição médica a se concentrar no corpo como uma máquina. De acordo com isso, foi dada maior importância aos aspectos físicos, e o campo da psiquiatria foi relegado a um segundo plano na pesquisa. De uma perspectiva cabalística, a história da humanidade é na verdade uma história de almas que retornam. Realmente, nenhum mistério na longa história de nosso universo é tão iluminador como o comportamento universal e repetido de seus habitantes.

Aprofundamentos que, em última análise, promovem saltos maiores, tiveram efeito muito pequeno no pensamento humano. Será que o nosso padrão mental é realmente diferente do das pessoas da Idade Média? Apesar de mudanças ambientais dramáticas, e mais a síndrome do progresso, terão as necessidades psicológicas humanas realmente mudado ao longo dos séculos? Será que realmente melhoramos, devido ao crescente progresso que continua a se tornar cada vez mais complexo com o passar do tempo?

A reencarnação, junto com o processo de tikun (correção - carma), dirige e dita nossos padrões diários de pensamento, sentimentos e atividades, embora o comportamento humano seja geneticamente controlado até um nível significativo. Bem sei que esta posição desafia a visão convencional da maioria dos cientistas sociais, que afirmam que a cultura e o meio ambiente, e não imperativos relacionados à encarnação, moldam a natureza humana. Há efeitos de longo alcance de nosso espírito humano interno que se estendem às nossas características e determinam as nossas ações externas. Estas são plenamente guiadas e executadas por forças cósmicas relacionadas com a encarnação, prevalecendo momento a momento.

As ações do homem são de fato controladas pelo cosmos, mas apenas na medida em que elas já tenham se manifestado em uma vida anterior. Em outras palavras, se um indivíduo cometeu crimes contra a humanidade em uma encarnação anterior, sua alma encarnada volta e é posta defronte do mesmo tipo de situação com a qual foi desafiada em sua vida passada. Uma pessoa nasce em um momento muito específico e particular no tempo, durante o qual os planetas e signos inter-relacionados do Zodíaco coletivamente canalizam o DNA único (física e mentalmente) que incorpora e abrange o alcance da última vida, assim como as vidas anteriores, que se tornam manifestas agora diante de nós.

Está sendo dada à pessoa uma oportunidade de exercer o livre arbítrio e alterar o cenário do cassete (gravação) de vidas prévias, ou de sucumbir à sua influência. Em essência, o cosmos oferece a oportunidade e o campo de ação para lidarmos racionalmente com o nosso cassete de encarnação. As linhas cósmicas de atividade não são a causa da estrutura pré-determinada do cassete da vida. Isso já foi determinado por vidas anteriores.

No entanto, podemos levantar a pergunta: "Quais as chances de termos sucesso desta vez quando já falhamos em inúmeras vidas prévias?" A resposta se encontra na própria Era Aquariana, na qual merecemos a informação cabalística enorme e profunda, por meio da qual a humanidade tem agora uma chance de vencer. Os pontos de referência negativos criados por nós mesmos nos oferecem uma oportunidade de exercer o livre arbítrio e alcançar a eliminação do Pão da Vergonha*. Obviamente, se essas forças cósmicas negativas não existissem, o homem simplesmente se conformaria com um tipo programado de inteligência que prescreve apenas uma filosofia de compartilhar, nos deixando em um estado que pode ser descrito como robótico. Porém, sendo que as forças cósmicas negativas existem, temos a obrigação e o propósito de indivíduos com livre pensar e livre escolha.

De acordo com a perspectiva cabalística, a história da humanidade é na verdade uma história de almas que retornam.

Até agora, a história demonstrou que a humanidade tem falhado em conseguir ser dona de seu destino. Com os avanços científicos, ficamos cientes de uma atividade interna, metafísica, que parece criar ainda mais incerteza. Vivemos agora uma época de enorme convulsão social, uma época em que os costumes, as tradições e as respostas do passado estão todas em questão.

No entanto, antes de prosseguir adiante, para os que questionam a existência da reencarnação, permitam-me que coloque esta questão. Vamos começar com o versículo de Eclesiastes 1,4: "Uma geração se vai e outra geração vem, mas a Terra continua para sempre." O Zohar nos diz que o que este versículo realmente significa é que a geração que se foi é a mesma geração que vem para substituí-la. Uma pista idêntica pode ser encontrada nas "Dez Falas" (Êxodo, 20,5), quando se afirma: "Os pecados dos pais são lembrados mesmo sobre a terceira e a quarta geração." Isto não implica, como alguns erradamente têm argumentado, que Deus é tão cheio de ira que não se contenta em punir apenas o pecador, mas infligirá também punição pelo pecado sobre os netos e bisnetos inocentes do pecador. Quem poderia racionalmente amar e adorar uma divindade tão cruel e vingativa?

O Zohar revela que a verdade deste versículo é que a terceira e a quarta geração são, na verdade, a geração anterior, com a alma retornando na forma de seu próprio descendente para que possa corrigir os pecados citados como "pecados dos pais". Tais exemplos em apoio do argumento da reencarnação abundam na Bíblia.

O conceito de reencarnação não é de forma alguma exclusivo do Judaísmo. A ideia era prevalecente entre os Índios no Continente Americano. No Oriente, o ensinamento da reencarnação está muito difundido e é de grande influência. É a base da maior parte dos sistemas filosóficos da Índia, onde centenas de milhões aceitam o fato da reencarnação do mesmo modo como nós aceitamos o fato da gravidade como uma força da natureza.

Mas, como qualquer ideia de grande antiguidade, o conceito de reencarnação chegou à maior parte do mundo misturado a uma confusão de superstição e mal-entendimento. A superstição é tão repelente para o modo de pensar ocidental que o valor filosófico da própria ideia da reencarnação caiu em grande descrédito. Recentemente, muitos filmes abordaram a ideia da reencarnação, porque por detrás de todas as fantasias esconde-se uma verdade básica e eterna. De que outra forma a ideia pode ter perdurado por tantos milhares de anos? Como ela poderia ter atraído tantos pensadores hábeis?

A única pergunta que toda a humanidade ainda faz é: se Deus realmente existe, porque há tanta miséria no mundo? Por que criminosos ficam sem punição e os justos passam por tanto sofrimento imerecido? Com demasiada frequência o criminoso fica livre e o inocente é aprisionado. Se todas as almas são iguais ao nascerem, por que os destinos humanos são tão desiguais? Deveremos todos recair na doutrina sem esperança de predestinação? Será tudo uma questão de sorte?

No que diz respeito a este mundo, a igualdade humana é um mito. Somos desiguais mentalmente, espiritualmente e moralmente. Alguns têm corpos fortes e saudáveis; outros são frágeis e doentes.

Em uma criança, apreciamos o desenvolvimento evidente da consciência – a mente e o crescimento desta mente com a passagem do tempo. Na idade avançada, a consciência e a lucidez subitamente desaparecem com a morte do corpo. Quando o instrumento é destruído e a consciência não pode mais se fazer sentir fisicamente, será que isto implica no aniquilamento da mente e da alma? A resposta é não!

A alma do homem não é mais dependente da existência do cérebro do que um músico é dependente da existência de seu violino, apesar de ambos os instrumentos serem necessários para a expressão musical no mundo físico. Somente quando podemos capturar plenamente este ponto de vista podemos começar a nos aproximar do estudo da reencarnação. A consciência humana existia antes do nascimento, e por consciência humana quero dizer a alma. Este é o primeiro fato fundamental da reencarnação.

Minha intenção neste artigo não é provar que a reencarnação é um fato da natureza, apesar de que uma preponderância de evidências dão apoio a tal afirmação. Qualquer um que sinta a necessidade de validação estritamente científica deve perceber que assim que nos aprofundamos no mundo subatômico de nossa existência, descobrimos que a validação estritamente científica de qualquer coisa se torna virtualmente impossível. A mecânica quântica e o agora cientificamente respeitável "Princípio da Incerteza" tomaram conta disso.

Essencialmente, a verificação não está na acumulação de provas mais convincentes da reencarnação, mas mais na persuasão dos cépticos, para que aceitem aquilo que já é sabido. Infelizmente, entre o mundo abstrato da conjetura e o mundo real da experimentação, houve e sempre haverá uma tensão contínua – e às vezes até mesmo conflito, e por causa deste problema o leigo foi deixado de fora, apenas conseguindo alcançar as realidades da Cabala muitos séculos, senão milênios mais tarde.

No entanto, na Era de Aquário, com a doutrina e os princípios da Cabala se tornando tão simples, a ideia da reencarnação está se espalhando fenomenalmente. Da forma como é interpretada pelo Zohar e pelo Leão de Safed, o Rabino Isaac Lúria**, a reencarnação permite à humanidade lidar com as soluções das complexidades da vida. O Ari, o Leão de Safed, afirmou em seu livro "Portões da Reencarnação" que, se um homem não reconhece o fato de encarnação ou encarnações anteriores, a capacidade de atingir o tikun (correção) ou de alcançar um estado de correção não é possível.

Por muitos anos, não fui capaz de estabelecer a relação entre a realização do tikun e o conhecimento de encarnações anteriores. No entanto, com o passar dos anos, se tornou muitíssimo claro que, no tempo de uma vida, nós só chegamos a reconhecer os nossos erros depois que já é tarde demais para se fazer qualquer mudança. Ou estamos velhos demais ou fracos demais, na parte final de nossa vida, seja para alterar o nosso estado de consciência, seja para nos tornarmos conscientes das atividades negativas que foram parte de nossa vida individual em encarnações passadas.

No entanto, se conseguíssemos atingir uma consciência das ações negativas em que incorremos em vidas anteriores, o conhecimento de nossa experiência viria cedo em nossas vidas, nos permitindo ter a energia e a coragem para mudar. Ao longo de várias vidas, o homem pode encarnar em qualquer um dos três reinos inferiores***, a saber, o reino animal, o vegetal e até mesmo o inanimado. O reino no qual encarnamos irá depender de nossa natureza e de nossas atividades negativas.

Tome como exemplo o personagem bíblico Bilaam, que estava decidido a amaldiçoar os israelitas durante a sua jornada no deserto. Ele foi encarnado dentro do reino inanimado para lhe ensinar os efeitos de não prestar atenção para as ações verbais. Confinado a uma pedra, a alma de Bilaam suportou a dor do silêncio. Outros podem retornar como a folha encarnada de uma árvore, para serem incessantemente batidos pelo vento.

Admitimos que, para a mente e cultura ocidental, a tradição da reencarnação irá provavelmente soar muito estranha, uma vez que a característica essencial desta cultura está baseada principalmente em uma visão mecanicista do papel do homem no universo. Não obstante, abrir mão da realidade da reencarnação é fechar uma verdadeira experiência de aprendizado. Quando seguimos o caminho de fazer um exame dos nossos traços de comportamento, e do por quê pensamos do modo como pensamos, com certeza chegamos mais próximos de entender a razão de nosso presente estado e o objetivo de nossa existência.

Assumir que viemos a este mundo sem um motivo é rejeitar a ideia de que o vasto universo veio a existir com uma razão e um sentido. O Ari, o Rabino Isaac Lúria, pode bem estar correto quando afirma que ignorar o fato da reencarnação é permitir que a humanidade exista sem um leme, navegando então à deriva, em caos.

Ignorar a realidade de que a nossa existência, desde o princípio dos tempos, está cheia de imenso caos, nos cega para a necessidade de chegar a soluções. Só um tolo rejeita qualquer oportunidade, principalmente quando o mundo não se tornou um lugar melhor para se viver. Rejeitar as regras e os princípios ou a essência da reencarnação irá conduzir a humanidade em direção a um meio ambiente inaceitável, onde os homens continuam a se devorar uns aos outros, seja por meios pacíficos ou por meios violentos.

Abordar a reencarnação simplesmente afirmando, "Eu sou céptico, me mostre," é frear a natureza inquiridora da mente. Como afirmei anteriormente, este artigo não tem como intenção verificar ou validar o argumento da reencarnação. Este assunto foi amplamente discutido em meu livro "As Rodas da Alma". O objetivo deste ensaio é estimular a nossa consciência adormecida e retornar ao nosso estado mental inquiridor e questionador, como quando éramos criancinhas. Naquela época não tínhamos as limitações e os arreios de uma idade adulta adulterada.

Eu relembro a história conhecida contada pelo Ba’al Shem Tov sobre o assunto da reencarnação. Um dia um aluno veio ao Besht, como ele também era conhecido, e perguntou se ele (o Besht) poderia oferecer alguma ilustração que demonstrasse a existência da reencarnação. Este aluno foi aconselhado a ir para um determinado parque, sentar-se e observar. Depois de se acomodar em um dos bancos do parque, ele observou um homem indo para um banco próximo com uma pequena bolsa na mão. Pouco depois, o homem se levantou e saiu, deixando para trás sua bolsa. Poucos momentos mais tarde outra pessoa sentou-se no mesmo banco. Assim que sentou-se, percebeu a bolsa. Ele a abriu e encontrou uma grande quantia de dinheiro. Apressadamente, fechou a bolsa e fugiu correndo como um ladrão. Um instante depois, um terceiro homem que aparentemente estava muito cansado sentou-se neste mesmo banco. Logo após, o primeiro homem voltou ao mesmo banco procurando por sua bolsa. Assumindo que apenas poucos instantes tinham passado desde que tinha saído daquele banco, ele enfrentou o atual ocupante do banco e pediu que lhe devolvesse a bolsa cheia com seu dinheiro.

O homem, desorientado, respondeu com uma expressão vazia e exclamou, "Do que você está falando? Acabei de chegar aqui." Tomando a resposta de quem assumira ser o ladrão como querendo dizer que ele se recusava a devolver a bolsa com o dinheiro, a vítima começou a bater no suposto ladrão até que ele perdeu a consciência. Frustrado, ele então abandonou o homem agredido e foi embora.

O aluno do Besht ficou em total confusão, e imediatamente voltou para a casa de seu mestre. Ao se encontrar com o Besht, o aluno exclamou que o que ele observara o havia levado a pensar que realmente este mundo nada mais é do que o caos. De fato, o conceito da reencarnação, que tende a criar alguma aparência de ordem no universo, nada mais é do que ilusório. O estudante então relatou o que vira. Um homem está desesperado pela perda de sua bolsa. Outra pessoa se beneficia do infortúnio alheio, e, finalmente, o quadro do caos total, um homem inocente apanha sem razão.

O Besht respondeu que ele não havia captado a implicação plena da cena, que na verdade refletia um incidente entre estes indivíduos em uma vida passada. A primeira pessoa, a quem a bolsa pertencia, havia roubado algum dinheiro do segundo indivíduo, e agora, nesta vida, o segundo homem estava recuperando o que havia sido roubado pelo primeiro na vida anterior.

Então, quem era esta terceira pessoa que foi agredida de forma tão inclemente pela primeira pessoa? O terceiro indivíduo, observou o Besht, havia sido o juiz que não reconheceu nem observou bem os fatos do caso em questão. Tivesse ele sido um juiz com mente e coração puros, nenhum falso julgamento poderia ter ocorrido sob sua jurisdição. As leis naturais e os princípios deste universo, continuou o Besht, regem com acuidade precisa. O reino caótico que parece prevalecer leva o homem a acreditar que não há lei e ordem no universo. O Satan ("oponente" - ego) deixa a humanidade com uma impressão de que a justiça não existe no ambiente que conhecemos. O criminoso passa impune e o inocente normalmente sofre indevidamente. Todavia, se chegamos a uma compreensão das doutrinas de reencarnação, compreendemos porque bebês nascem com defeitos e entendemos diversas ocorrências aparentemente injustas.

É precisamente por esta razão que o Ari declarou que se alguém não tem uma compreensão do efeito de vidas passadas e da necessidade de se fazer correções, é inevitável que esta pessoa sofra as consequências, até quando um tikun (correção - carma) completo tiver sido realizado. O Ari deixa claro que antes que uma pessoa possa saber e submeter-se às leis do tikun, ela deve conhecer a raiz e o lugar de sua alma. Para saber isto, porém, primeiro se deve conhecer a estrutura dentro da qual essa raiz e esse lugar se encontram.

Adão, cujo próprio nome quer dizer ‘homem’, foi o repositório de todas as almas que iriam existir na Terra. Assim, sua própria alma era infinitamente subdivisível. Quando ele pecou no Gan Éden ("Jardim do Éden), o repositório do receptor foi despedaçado e isto foi fragmentado no que os cabalistas chamam de ‘faíscas’, cada uma tão única como a dupla hélice microscópica do DNA que determina cada característica do indivíduo que a recebe. Inteligências que foram uma vez parte do cérebro de Adão encarnam como pessoas inteligentes, cujo trabalho está relacionado com a atividade mental. As forças inteligentes que foram parte dos dedos de Adão foram corporizadas em humanos cujas atividades se relacionam com o trabalho com os dedos, como artesãos e artistas. Assim, cada uma das forças de energia inteligente do perfil de Adão transmigraram com sua fórmula de DNA peculiar e particular, o que explica os diferentes tipos de pessoas que habitam a Terra.

O estudo da reencarnação é o fator singular mais importante para a estabilidade mundial.

Uma das muitas questões que surgem para aqueles que entendem completamente o conceito de reencarnação é por que alguns pais são abençoados com crianças com a sabedoria e a ética de um santo, enquanto outros pais têm crianças imorais e ignorantes. É verdade, estas crianças tem alguma coisa ou muitas coisas a corrigir. No entanto, o que determina para onde e para quem cada uma vai?

Para responder a esta pergunta, para qualquer nascimento no passado ou no futuro, devemos observar uma condição específica em um momento específico do tempo – os pensamentos dos pais durante o ato sexual. Se os pensamentos do homem e da mulher são de pura luxúria, motivados somente pelo desejo de auto indulgência, sua criança irá refletir egoísmo e luxúria, enquanto a criança concebida em um momento de profundo amor e entendimento mútuo irá refletir características positivas. Sendo que cada alma, ao retornar após a morte, deve encontrar um lugar cujas condições sejam similares àquelas há pouco deixadas para trás, os pais virtualmente escolhem sua descendência, como se a tirassem de um catálogo cósmico.

Desta forma, a concepção, variando de uma ira de estupro forçado à delicadeza de se fazer amor da forma correta, irá produzir crianças variando de raivosas a justas. Existem, é claro, exceções à regra. Algumas poucas almas, com o tikun completo, retornam a este plano com uma missão para a humanidade que não tem nada a ver com o seu karma pessoal. Rabi Shimon Bar Yochai, uma faísca encarnada de Moisés, não tinha nenhuma razão de tikun para andar por esta terra há 2000 anos atrás. Mas somente ele poderia ter revelado a sabedoria do Zohar. Da mesma forma, Rabi Isaac Lúria apareceu somente para interpretar o Zohar e divulgar sua sabedoria, ele mesmo uma faísca encarnada de Rabi Shimon Bar Yochai.

Para o homem ou mulher comum, tornar-se pai ou mãe é abrir um canal para uma alma que irá elevar suas vidas ou fazê-los infelizes. É uma perspectiva assustadora, e aqueles que não sabem nada de Cabala ou que rejeitam a reencarnação jogam com suas próprias vidas no ato da procriação. Felizes são aqueles que são almas gêmeas nesta situação, pois as almas gêmeas são de fato um, e estão tão felizes em companhia um do outro que nenhum pensamento a não ser o mais benigno pode entrar durante o ato de se fazer amor.

No Mundo Infinito, todas as almas eram uma. Mas o Zohar nos diz que o Criador dividiu cada uma delas do estado de circuito positivo-negativo, assim criando macho e fêmea. As almas gêmeas são estas duas metades de uma única alma, outra vez unidas, geralmente após errarem por muitas vidas procurando uma pela outra e completando o seu tikun.

Como regra geral, as almas gêmeas podem se encontrar e se casar somente após sua dívida kármica ter sido eliminada. Portanto, poucos no mundo em qualquer dada época estão com sua alma gêmea. Mesmo assim, homens e mulheres se encontram e se casam, e não apenas para a procriação; dos dois sexos, os homens têm maiores dificuldades para completarem o seu tikun. Eles são, talvez, mais obstinados e mais teimosos do que as mulheres, que geralmente atingem a correção da alma com tão pouco quanto uma única vida nesta Terra. Quando as mulheres retornam, com a dívida de tikun corrigida, é normalmente para ajudar um homem que está lutando para corrigir a sua. A ajuda nem sempre é suave. Um homem que repetidamente falhou em atingir a correção da alma pode receber uma mulher que tornará sua vida não muito agradável.

Isto poderia implicar que quando o divórcio e o novo casamento – frequentemente diversas vezes – ocorrem, nenhuma destas uniões é desperdiçada. Cada uma delas era destinada a ensinar ao homem uma determinada virtude, que ele só poderia aprender através do casamento. Mesmo após conquistar a sua alma gêmea, no entanto o homem permanece vulnerável. Se ele leva então uma vida extremamente pecadora, ele poderá ter que voltar a este mundo com o objetivo de cumprir o seu tikun, sem a sua alma gêmea. Mesmo se a lei do tikun liberou a mulher da necessidade de reencarnar, ela pode ter um sentimento tão forte por sua alma gêmea que pode voluntariamente voltar para auxiliá-lo em sua luta pela correção.

É um sábio ditado que diz: "O casamento é como uma fortaleza cercada – aqueles que estão fora querem entrar, e aqueles que estão dentro querem sair." Com a taxa de divórcio para aqueles que se casam alcançando proporções epidêmicas, por que então as pessoas ainda se dão a este trabalho? Já que o casamento desempenha um papel tão importante em qualquer sociedade, é importante entender este papel. As leis cósmicas de reencarnação não podem ser modificadas, e é a falta de conhecimento destas leis que gera tantos dos problemas atuais. O Ari diz que se um homem não consegue entender a sua própria alma e a alma da mulher que ele ama, e se este amor não é baseado no conhecimento da reencarnação e na compreensão mais profunda, não existe uma base sobre a qual o casamento possa ser construído. Um homem deveria ter uma verdadeira compreensão do porquê estar com determinada mulher nesta vida. É dentro do vácuo criado pela falta de entendimento que as relações extra conjugais, tão comuns hoje em dia, têm suas raízes.

Quais as possibilidades de ter sucesso desta vez quando já falhamos em inúmeras vidas anteriores?

Não podemos esconder a instabilidade e a falta de devoção que acomete a maioria dos casamentos modernos. Um verdadeiro casamento entre almas gêmeas é quando o amor incondicional é o fundamento da união. O alto nível de amor incondicional não pode ser trazido à existência sem um amplo entendimento de reencarnação. O Zohar afirma que nenhum relacionamento humano mais profundo é resultado do acaso. David e Bat Sheva foram resultado direto de um processo de tikun que foi estabelecido na época da criação do mundo. Um casamento onde os parceiros simplesmente não conseguem suportar estarem um sem o outro o tempo todo é um exemplo de almas gêmeas em seu grau mais elevado. A harmonia do universo inteiro é mantida por este equilíbrio. O estudo da reencarnação é o fator singular mais importante para a estabilidade mundial.


Notas (deste blog):

* Pão da vergonha significa uma sensação desagradável que se sente ao receber alguma coisa boa, sem porém ter feito nada para merecer aquilo. Embora seja agradável receber, algo fica faltando.

** Um homem revolucionou a Kabbalah no século XVI: Rav Isaac Lúria, o Ari, também chamado de Leão Sagrado, o Leão de Safed. Foi um dos grandes estudiosos da Kabbalah do século 16. Viveu apenas dois anos em Safed, para onde mudou-se atendendo a determinação do profeta Eliahu (Elias). Seus ensinamentos foram divulgados através das obras de seu fiel discípulo, rabino Chaim Vital. Após a expulsão dos judeus da Espanha (1492) e da Provença, na França, muitos sábios dirigiram-se para Safed, na região da Alta Galileia, uma das quatro cidades sagradas do Israel antigo.

*** Metempsicose é o termo genérico para transmigração ou teoria da transmigração da alma, de um corpo para outro, seja este do mesmo tipo de ser vivo ou não. Essa crença não se restringe à reencarnação humana, mas abrange a possibilidade da alma humana encarnar em animais, vegetais ou minerais. (Wikipédia) Grande parte da oposição a essa teoria vem do fato de admitir-se que haveria uma involução da consciência a um reino "inferior" ao humano. Ensinam os proponentes dessa teoria que o fato de estarmos encarnados num ser não humano não modifica o nível de consciência ou evolução já atingido. O que ocorre é apenas uma sensação-correção momentânea. Por exemplo, estar sentindo-se imobilizado como uma pedra. O sentir-se imobilizado não significa que ele involuiu, pois a imobilização momentânea é apenas uma consequência de algum ato anterior cometido, e que deve ser sentido para uma correção, embora isso possa ser corrigido numa reencarnação humana também.



Rav Dr. Phillip S. Berg




Fonte: Centro de Cabala
https://kconline.site/tkc/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/al%c3%a9m-morte-vida-ap%c3%b3s-a-morte-744753/

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A TRANSFORMAÇÃO QUE VEM COM A MEDITAÇÃO


A meditação constante, todos os dias de sua vida, é como abrir um caminho na realidade. Uma vez que conhecemos nosso lugar, começamos a ver tudo de maneira diferente sob uma nova luz, porque começamos a ser quem realmente somos. E ao nos transformarmos em quem somos, podemos ver tudo como é.

A verdadeira maravilha da meditação é que também começamos a ver Deus como Deus. Portanto, a meditação é uma forma de estabilidade. Aprendemos, tanto com a prática quanto com a experiência, a estar alicerçados em nosso eu essencial. Aprendemos que estar enraizado em nosso ser essencial é estar enraizado em Deus, o autor e Princípio de toda a realidade. E não é nada pequeno entrar na realidade, transformar-nos em seres realmente reais, porque nesta experiência nos libertamos de todas as imagens que nos invadem constantemente. Não temos que ser a imagem de outra pessoa, mas apenas a pessoa que somos.

A meditação é praticada na solidão, que é a ótima maneira de aprender a se relacionar. A razão deste paradoxo é que, tendo contactado a nossa própria realidade, temos a confiança existencial para estar com os outros, para os encontrar no seu nível real. Então, o elemento solitário da meditação é misteriosamente o antídoto para o abandono. Ter contatado o acordo com a nossa própria realidade permite-nos deixar de nos sentir ameaçados ao nos oferecermos aos outros. Estamos fazendo que o amor busque a realidade do outro. Na experiência de encontrar a realidade do outro, descobrimos nossa existência enriquecida e aprofundada.


Dom John Main, OSB



Fonte: Do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido (ao espanhol) por Lucía Gayón, para a disseminação gratuita da Meditação Cristã
Via: FIQUE EM SEU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón
www.permanecerensuamor.com
permanerensuamor@gmail.com
Ixtapa, México
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 10 de janeiro de 2021

ENCONTRO REDENTOR


Todo relacionamento de nossa vida, toda vez que nos voltamos na direção de outra pessoa, constitui-se em um cada vez mais profundo encontro com o outro, à imagem do qual somos feitos. Sempre que nos permitimos vivenciar isso, o que fazemos quando meditamos e quando amamos, descobrimos que nosso medo só pode ser definitivamente banido através do próprio encontro, e que quanto mais profundo for o encontro, a cada vez, tanto menor será o medo que sobrevive a ele... Até que tenhamos a coragem de encarar e encontrar o outro não nos teremos encontrado ainda. Até lá, seremos sempre outro para nós mesmos. É este o estado do egoísmo, o de sermos um estrangeiro para nós mesmos. Nesse estado, todos os demais estão em oposição a nós mesmos, opostos a nós. Vivenciamos a tristeza, a desconfiança e a violência. O primeiro passo para sair desse inferno é o de termos a coragem de nos encontrarmos conosco mesmos. Nenhum de nós conseguiria fazer isso através de nossos próprios recursos interiores. Não fosse pela intercessão do amor de Deus, estaríamos para sempre não redimidos. O destino que nos conduziu à meditação e ao entendimento das relações de amor, que são a encarnação de nosso encontro com Deus, é o sinal de seu amor redentor em nossas vidas.

Ao meditarmos, aprendemos a deixar para trás todas as imagens que fazemos de nós mesmos, pois essas imagens são estranhas ao nosso verdadeiro ser. São como rótulos imprecisos. Essa nossa autoanálise que rotula, que pensa ser tão esperta, nos separa do conhecimento do verdadeiro ser e do redentor encontro com a realidade. Nos aprisionamos na consciência do si mesmo. Só precisamos compreender que fomos libertados e que a perfeita liberdade se alcança nas profundezas de nosso espírito, na liberdade do Cristo, a liberdade de seu amor puro. Se apenas pudermos aprender a sermos simples, a aceitar o presente que foi livremente doado e a sermos fiéis a esse dom, poderemos nos voltar para essa realidade...


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Encontro com o Outro" - Leitura de 29/06/2008
Light Within: The inner Path of Meditation (New York: Crossroad, 1989) pp. 65-67.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
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quarta-feira, 10 de junho de 2020

CONFLITOS INTERPESSOAIS



Vivêssemos nós numa ilha absolutamente deserta, não teríamos com que nos comparar e nem noção da posição que ocupamos. Há quem diga então que isso seria benéfico pelo fato de não nos inquietarmos com o que nos falta. Além disso, não experimentaríamos as inconveniências que os relacionamentos nos impõem dia a dia. Aliás, diz-se que o sofrimento neste mundo tem origem justamente no confronto com as pessoas e é comum ouvirmos — e talvez dizermos — “eu não dou trabalho a ninguém”, “as minhas coisas são todas certinhas”, “se eu vivesse sozinho eu não passaria raiva com ninguém”...

Sendo uma lei inexorável o convívio social (ninguém nasce sozinho), é imperativo percebermos a que estamos submetidos e quais os propósitos da Natureza que nos impôs essa vida carnal — se bem é improvável supormos que a vida espiritual seja de isolamento.

Os contratempos entre as pessoas ocorrem primeiramente em razão do livre arbítrio de cada um. A liberdade de pensamento e de ação aliada à inteligência particular de cada indivíduo estabelece o encontro de consciências independentes. Logicamente, por que nem todos pensam sob os mesmos valores, vez ou outra, as opiniões se contradizem e até podem ser tão extremas a ponto de gerar sérios conflitos. Pelo fato de compartilharem um mesmo plano e por muitas vezes a caminhada exigir uma única escolha dentre as variadas proposições, aqueles que foram preteridos podem conservar sentimentos negativos.

A concorrência natural da vida nos convida a uma competição social. Ora, sendo tripulantes de um mesmo navio, obrigatoriamente todos viajamos sob um itinerário único, ainda que dentre nós haja quem deseje mudar a rota. Em algumas situações, podemos descer desse navio e, tomando de um barquinho particular, seguir um rumo diferente. Entretanto, em geral, ou estamos sob o leme de alguém ou em nosso barco conduzimos outras pessoas.

Somos tendenciosos a culpar os outros pelos contratempos sociais a partir de quando não temos domínio sobre as consciências, porque não conseguimos influenciar a todos exatamente segundo os moldes que julgamos acertados para a organização das coisas. Essa injustiça para com os semelhantes se dá pela ignorância de nossa parte em percebermos que a ordem da natureza terrena não pertence a nenhum dos que nela habitam, quer dizer, ninguém dentre nós é o responsável absoluto pelas leis que aqui imperam. Se tivéssemos que culpar alguém este seria a Consciência superior criadora deste mundo — que seria Deus. Mas como não nos sentimos à vontade para condenar a Divindade, somos convidados a pensar sobre o que enxergamos como imperfeição no mundo. Será que ele não é perfeito e que a imperfeição esteja justamente em nós, que não enxergamos a perfeição das coisas?

No jogo de opiniões diversas e a precisão de decisões, somos compelidos a buscar o equilíbrio social, ou seja, o acordo mútuo entre as opiniões — que os gregos intitularam democracia. Mas como os ideais pessoais são por vezes tão discordantes — porque cada qual prejulga possuir a razão das coisas —, cremos viver num plano de ideias incompatíveis, e, por conseguinte, de plena infelicidade, já que não há acordo total. Isto se dá em decorrência de fixarmos nossa vida exclusivamente pelos valores humanos a que estamos submetidos neste orbe. Despertando nossa consciência para a essência superior — da vida espiritual —, teremos alargado o pensamento, potencializando nossa capacidade de melhor elaborar nossas ideias — seja para vivermos melhor o hoje, seja para o amanhã, no plano dos Espíritos.


Louis Neilmoris



Fonte: do livro "O Grande Encontro Filosófico - Autodescobrimento Aplicado"
Ed. Luz Espírita, abril de 2014, digital - www.luzespirita.org.br
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domingo, 28 de maio de 2017

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA


Doçura é a maestria dos sentidos. Olhos que vêem o fundo das coisas, ouvindo que escutam o coração das coisas, voz que só expressa a essência das coisas. Doçura é o resultado de uma longa jornada interior ao âmago da vida e a habilidade de lá descansar e assistir. O que é realmente doce nunca pode ser vítima do tempo, porque doçura é a qualidade da pessoa cuja vida tocou a eternidade.

O corpo é como um templo; a alma é como uma centelha de luz. O corpo é como um carro; a alma é como o motorista deste carro. O corpo e o cérebro são como um computador; a alma é quem programa e usa o computador. É dito que a alma é uma estrela minúscula que vive no centro da testa, entre as sobrancelhas. Aqueles que praticam a consciência da alma se tornam auto-soberanos. (B.K. Jagadish Chander, Easy Rajyoga, Brahma Kumaris Ishwariya Vishwa Vidyalaya, Mount Abu)

A diferença entre o que dizemos e o que fazemos, entre o que prometemos e o que realizamos, é como a drenagem de uma estrada. Assim como a água escorre através da drenagem, nosso poder nos escapa quando existe uma diferença entre nossas palavras e nossas ações. Para manter o poder interior pergunte a si todos os dias: meus pensamentos, palavras e ações estão alinhados?

Seja sempre um doador nos relacionamentos. Seja como o sol, que dá luz a todos – sejam eles bons ou não. A natureza não faz distinção entre um ou outro enquanto doa. Seja como uma árvore que dá sombra a todos independentemente das qualidades de cada um. Seja com um rio que dá água a todos. Mostre compaixão nos relacionamentos. Isto significa amar mais do que a pessoa merece. Mude conflito em harmonia com paciência e o relacionamento fluirá suavemente. (R.K. Langar, Relationship – a beautiful aspect of life, The World Renewal, 2012)




Brahma Kumaris






Fonte: www.bkumaris.org.br
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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA

As coisas muito grandiosas tomam forma através do silêncio, solitude e tolerância. Tolerância é a habilidade de acomodar diferentes opiniões e indiferentes atitudes, mantendo o autorrespeito e respeitando os outros. Para reforçar o hábito da tolerância, procure ter uma mente aberta em relação a tudo. Procure entender que cada ser humano possui, dentro de si uma bagagem de conceitos, experiências e memórias absolutamente singulares. A tolerância é o poder que valoriza essas histórias pessoais, com respeito e amor. Onde houver tolerância em uma tarefa ou relacionamento, haverá sucesso.

Antigamente nós encontrávamos lugares tranquilos para praticar silêncio e nos perguntar: Quem sou eu? Mas atualmente parece que ninguém tem tempo para o silêncio. O foco de todos não parece ser esse. Em silêncio podemos ver muitas coisas sobre nós mesmos, caso contrário ficamos vendo apenas as coisas do mundo exterior. Deixe que haja essa realização: Eu tenho que fazer esse esforço agora. (Dadi Janki)

Respeito pelos outros é reconhecer seus esforços para melhorar. Isto nos encoraja a focalizar mais a atenção no potencial deles do que em seus erros. De fato, esse é o método para ajudar as pessoas a ficarem livres de seus defeitos. Uma oportunidade para julgar a qualidade da nossa percepção espiritual. Ver quanta fé nós temos na transformação definitiva daqueles que convivem conosco. Essa fé é respeito verdadeiro.

Relacionamentos verdadeiros começam com silêncio. Portanto, você pode começar a criar um relacionamento melhor consigo, então, com o Supremo, e então com os outros. A razão pela qual os relacionamentos com os outros vêm por último é porque os outros nunca veem em nós o que Deus vê. Frequentemente nos vemos através dos olhos dos outros. Então, se alguém vê somente 20% do que somos, também só vemos esse tanto. Deus nos vê como somos, Ele vê nosso potencial completo. Se você aprender a olhar-se da forma como Deus o vê, você começará a ver seu eu verdadeiro.





Brahma Kumaris






Fonte: www.bkumaris.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PARA IR LONGE DEVEMOS COMEÇAR DE PERTO

Certamente, para ir longe, você tem de começar muito perto; mas começar perto é muito difícil para a maioria de nós, pois queremos fugir de “o que é”, fugir ao fato do que somos. Sem nos compreendermos, não podemos ir longe, e estamos em constante relacionamento; não há existência alguma sem relacionamento. Portanto o relacionamento é o imediato, e para ir além do imediato, tem de haver a compreensão do relacionamento. Mas nós preferimos examinar aquilo que está bem longe, aquilo que chamamos de Deus ou verdade, a realizar uma revolução fundamental em nosso relacionamento, e esta fuga para Deus ou para a verdade é completamente fictícia, irreal. O relacionamento é a única coisa que temos, e sem compreendermos esse relacionamento jamais poderemos descobrir o que é a realidade ou o que é Deus. Portanto, para ocasionar uma mudança completa na estrutura social, na sociedade, o indivíduo tem de purificar o seu relacionamento, e a purificação do relacionamento é o começo da sua própria transformação.





J. Krishnamurti






Fonte: The Collected Works vol. VI pp. 137
http://www.jkrishnamurti.org/pt
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quinta-feira, 14 de maio de 2015

RELACIONAMENTOS - PACIÊNCIA - AMOR - HUMILDADE

Relacionamentos verdadeiros começam com silêncio. Portanto, você pode começar a criar um relacionamento melhor consigo, então, com o Supremo, e então com os outros. A razão pela qual os relacionamentos com os outros vêm por último é porque os outros nunca veem em nós o que Deus vê. Frequentemente nos vemos através dos olhos dos outros. Então, se alguém vê somente 20% do que somos, também só vemos esse tanto. Deus nos vê como somos, Ele vê nosso potencial completo. Se você aprender a olhar-se da forma como Deus o vê, você começará a ver seu eu verdadeiro.

Paciência é uma daquelas virtudes que pode transformar um momento de grande ansiedade em quietude, uma rápida agitação mental no fluir suave de um rio. Na presença de uma pessoa paciente somos envoltos por uma aura de calma como se entrássemos na luz tranquila da ausência de pressa dela. Mesmo quando ela está ocupada, a qualidade da sua ocupação irradia paciência. Para ser paciente, observe a natureza. A natureza é sempre pacientemente ocupada. (Mike George)

O que não se pode conseguir com pressão, pode-se alcançar facilmente com paciência. Paciência traz um estado de calma interior que me ajuda a encontrar as respostas que já existem dentro de mim. Ela me dá coragem para trabalhar sobre o problema de forma leve e relaxada até que a solução seja encontrada. Mesmo nas situações mais desafiadoras, eu consigo ficar calmo quando sou paciente. Eu mantenho minha força interior que me dá coragem para encontrar a solução para todos os problemas. Paciência traz soluções fáceis.

Para haver amor verdadeiro é preciso uma atmosfera fresca e renovada, sem medos. Quando você sente que está espiritualmente preenchido, tudo flui com prazer, felicidade e bem-estar. Esse estado lhe ajuda a aceitar a pessoa que você ama como ela é, porque a partir de sua própria plenitude você não precisa esperar nada do outro. Quando você está satisfeito consigo, o seu relacionamento com os outros é elevado e livre de medo. Você não está pedindo ou tomando nada do outro. Você está sim compartilhando amor, felicidade, conhecimento ou sabedoria sem criar dependência em relação ao outro.

Cooperação é o ingrediente mais importante para o trabalho em equipe e para o sucesso. No futebol, quando o gol é marcado, todo mundo elogia aquele que fez o gol, mas ninguém lembra qual foi o jogador que deu o passe para quem fez o gol. Assim é o trabalho em equipe! Faça sua parte de forma precisa e esqueça a euforia do nome e da fama. Não reivindique o feito para si! Seja humilde! Sucesso é uma coisa, ostentar o sucesso é outra coisa. Lidar com o sucesso com humildade cria um grande impacto!




Brahma Kumaris





Fonte: www.bkumaris.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 21 de abril de 2015

DESAFIOS - RELACIONAMENTOS - OBSTÁCULOS - PENSAMENTOS - SINERGIA

Não podemos pensar que as coisas sempre vão ser como gostaríamos que fossem. Que o comportamento dos outros irá combinar com os nossos sentimentos, atitudes e valores; que eles serão sempre suaves conosco. É dito que tanto a chuva como o sol são necessários para formar um arco-íris. São os desafios que criam os campeões. (BK Suredran, Self-esteem and human relationships, World Renewal, December, 2003)

Os obstáculos que surgem não são para prejudicá-lo, eles vem apenas para se despedir de você. Deixe-os vir e ir mas não deixe que os obstáculos sentem-se com você como seus convidados. Agora faça esse esforço: deixe que os obstáculos simplesmente venham e vão embora. Se você permitir que eles sejam seus convidados de novo e de novo, então isso tornar-se um hábito. Eles se sentiriam em casa com você. Portanto, deixe-os vir e deixe-os ir. Não tenha misericórdia deles.

Relacionamentos verdadeiros começam com silêncio. Portanto, você pode começar a criar um relacionamento melhor consigo, então, com o Supremo, e então com os outros. A razão pela qual os relacionamentos com os outros vêm por último é porque os outros nunca veem em nós o que Deus vê. Frequentemente nos vemos através dos olhos dos outros. Então, se alguém vê somente 20% do que somos, também só vemos esse tanto. Deus nos vê como somos, Ele vê nosso potencial completo. Se você aprender a olhar-se da forma como Deus o vê, você começará a ver seu eu verdadeiro.

Há 4 tipos de pensamentos: necessários, inúteis, negativos e positivos. Pensamentos necessários são neutros, factuais, relacionados às tarefas de rotina. Pensamentos inúteis é quando a mente se engaja em pensamentos desnecessários como preocupação, viver no passado ou no futuro. Pensamentos positivos são gerados quando somos inspirados pelas qualidades originais como amor, felicidade, pureza. Pensamentos negativos resultam de estarmos inconscientes de nosso eu espiritual e são baseados na percepção física e  limitada do eu.

Sinergia é a convergência de ideias, valores e ações. É a matemática da energia humana. Assim como há quatro operações, também há quatro tipos de pessoas. Os agregadores (+), os subtraidores (-), os multiplicadores (*) e os divisores (/). Os agregadores estão sempre adicionando valor a tudo. Os subtraidores são os negativos, aqueles com baixa autoestima. Os multiplicadores são os doadores, aqueles que capacitam outros. Os divisores são os destruidores da unidade. (Ken O’Donnell)





Brahma Kumaris






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Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quinta-feira, 16 de abril de 2015

AÇÃO E RELAÇÃO SÃO SINÔNIMOS - MOVIMENTO DENTRO E FORA DO TEMPO

Para a maioria de nós vida é ação, e por ação queremos dizer alguma coisa que foi feita, está sendo feita, ou será feita. Sem ação você não pode viver. Ação não significa apenas movimento físico, ir daqui para lá; existe também a ação do pensamento, a ação de uma ideia, a ação de um sentimento, do ambiente, da opinião, a ação da ambição, do alimento e de influências psicológicas das quais a maioria de nós não tem consciência. Existem as ações da mente consciente e as ações da mente inconsciente. Existe também – não existe? – a ação da semente na terra, a ação do homem que consegue um emprego e se agarra a ele pelo resto da vida; existe a ação das ondas batendo na costa, a ação do tempo ameno, da chuva; existe toda a ação da Terra e dos céus. Assim, ação é uma coisa ilimitada. Ação é um movimento dentro e fora do tempo. E eu estou pensando alto com vocês; estou explorando. Vim aqui com um pensamento, ação, e quero discuti-la com vocês, investigá-la, explorá-la calmamente, devagar, de modo que vocês e eu possamos compreendê-la juntos. Mas quando você reduz a ação meramente a: “O que vou fazer? Devo fazer isto ou não devo fazer aquilo? Isto é certo ou aquilo?” então a ação se torna uma coisa muito pequena. Naturalmente, nós temos que agir no tempo; eu tenho que parar no fim do horário; a pessoa tem que ir ao escritório, à fábrica, fazer refeições, em determinada hora. Tem que haver ação no tempo, e isso é tudo que conhecemos, não é? Você e eu realmente não conhecemos nada além da ação que é reconhecida e está no campo do tempo. Por tempo queremos dizer ontem, hoje e amanhã. Amanhã é o futuro infinito, ontem é o passado infinito, e hoje é o presente; e o conflito entre o futuro e o passado produz uma coisa que chamamos ação. Assim, estamos sempre perguntando como agir dentro do campo do tempo, do reconhecimento. Estamos sempre perguntando o que fazer: casar ou não casar, ceder às tentações ou resistir, tentar e ficar rico ou buscar Deus. As circunstâncias – que são, realmente, o mesmo que tempo – me forçam a aceitar um emprego porque tenho uma família e tenho que sustentá-la, e há, então, todo o conflito, confusão e labuta. Assim, minha mente está presa no campo da ação no tempo. Isso é tudo que conhecemos; e cada ação produz seu próprio resultado, seus próprios frutos, novamente no tempo. Esse é um passo, não é? Ver que estamos presos na ação do tempo. (Collected Works, Vol. XI", 108, Action)

Nós lidamos com a ação em todos os níveis de nosso ser – não apenas o ato físico, mas o emocional, o psicológico, o mental, o inconsciente, o ato consciente – porque isso é vida. Vida é toda relação ou ação. Você não pode fugir destes dois fatos, já que ação e relação são sinônimos. Por “ação” queremos dizer aquilo que foi feito, e aquilo que há para fazer, e aquilo que vai ser feito. É um movimento, um movimento contínuo ou um movimento desarticulado. Com a maioria de nós, é desarticulado. Nós vivemos em diferentes níveis; há o escritório, há a família, há a opinião pública, há meus medos e meus deuses, minhas opiniões, meus julgamentos, meu condicionamento; e existem as várias pressões, influências da sociedade e assim por diante. Nós vivemos em níveis diferentes, desarticulados, sem relação uns com os outros. (Collected Works, Vol. XIV, Action)

Por que é que nós, seres humanos, não temos sido capazes de resolver este problema do relacionamento embora tenhamos vivido nesta Terra durante milhões de anos? É porque cada um tem sua própria imagem específica construída pelo pensamento, e o nosso relacionamento está baseado em duas imagens: a imagem que o homem cria sobre a mulher, e a imagem que a mulher cria sobre o homem. Portanto, neste relacionamento somos como duas imagens vivendo juntas. Isso é um fato. Se você se observar muito cuidadosamente, se me permite salientar, você verá que criou uma imagem dela e ela criou uma imagem, uma estrutura verbal, sua. Portanto o relacionamento dá-se entre estas duas imagens. Estas imagens foram construídas pelo pensamento. E pensamento não é amor. (The Network of Thought, p 87)




J. Krishnamurti





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sábado, 14 de março de 2015

AUTOCONHECIMENTO - RELAÇÕES

Compreender todo o processo de si mesmo requer constante vigilância, consciência, na ação da relação. Deve haver um olhar constante de cada incidente, sem escolha, sem condenação ou aceitação, com certo sentido de impassibilidade, de modo que a verdade de todo incidente é revelada. Mas este autoconhecimento não é um resultado, um fim. Não há fim para o autoconhecimento; ele é um constante processo de compreensão, que surge apenas quando a pessoa começa, objetivamente e vai mais e mais fundo por todo o problema do viver diário, que é o “você” e o “eu” em relação.(Collected Works, Vol. VI, 233, Choiceless Awareness)


O autoconhecimento não é uma coisa para ser comprada em livros, nem é o resultado de uma longa e dolorosa prática e disciplina, mas é conscientização, de momento a momento, de cada pensamento e sentimento quando ele surge na relação. A relação não está num nível abstrato, ideológico, mas na realidade, a relação com a propriedade, com pessoas e com ideias. Relação implica existência e, como nada pode viver em isolamento, ser é estar em relação. Nosso conflito é na relação, em todos os níveis de nossa existência, e a compreensão desta relação, completa e amplamente, é o único problema real que cada pessoa tem. Este problema não pode ser adiado nem evitado. Evitá-lo só cria mais conflito e miséria; fugir dele só provoca negligência, que é explorada pelos astutos e ambiciosos. (Collected Works, Vol. VI, 50, Choiceless Awareness)


Interrogante: Que relação tem o observador, meu observador, com outros observadores, com outras pessoas? Krishnamurti: O que queremos dizer com a palavra “relação”? Já estivemos relacionados com alguém, ou a relação é entre duas imagens que criamos um do outro? Eu tenho uma imagem de você, e você tem uma imagem de mim. Tenho uma imagem de você como minha esposa ou marido, ou o que seja, e você tem uma imagem de mim também. A relação é entre estas duas imagens e nada mais. Ter relação com o outro só é possível quando não existe imagem. Quando posso olhar para você e você pode olhar para mim sem a imagem da memória, de insultos e todo o resto, então há uma relação, mas a própria natureza do observador é a imagem, não é? Minha imagem observa sua imagem, se for possível observá-la, e isto é chamado relação, mas é entre duas imagens, uma relação que não existe porque ambas são imagens. Estar em relação significa estar em contato. O contato deve ser uma coisa direta, não entre duas imagens. Isto requer muita atenção, uma conscientização, olhar o outro sem a imagem que tenho sobre a pessoa, a imagem sendo minhas memórias daquela pessoa, como ela me insultou, como me agradou, me deu prazer, isto ou aquilo. Só quando não existem imagens entre os dois, existe relação. (Collected Works, Vol. XVII, 7, Choiceless Awareness)


Portanto, a nossa primeira busca é se é possível terminar o conflito em todos os nossos relacionamentos – em casa, no escritório, em cada área da nossa vida – pôr fim ao conflito. Isto não significa que nos retiremos para o isolamento, nos tornemos monges, ou nos afastemos para algum canto da nossa imaginação e fantasia; significa viver neste mundo para compreender o conflito. Porque, enquanto houver conflito de qualquer tipo, naturalmente as nossas mentes, nossos corações, nossos cérebros, não podem funcionar em sua capacidade máxima. Só podem funcionar plenamente quando não há atrito, quando há claridade. E só há claridade quando a mente, que é a totalidade... está num estado de não-conflito, quando ela funciona sem atrito algum; só então é possível ter paz. (Collected Works, vol. XVI, p 4)




J. Krishnamurti





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quarta-feira, 11 de março de 2015

O RELACIONAMENTO É O ESPELHO

O relacionamento é o espelho em que podemos ver-nos como somos. Toda a vida é um movimento de relacionamento. Não existe nada vivo na Terra que não esteja relacionado com uma coisa ou com outra. Mesmo o eremita, o homem que parte para um lugar solitário, está relacionado com o seu passado, está relacionado com aqueles que estão ao seu redor. Não há como fugir ao relacionamento. Nesse relacionamento que é o espelho no qual podemos ver-nos, podemos também descobrir o que somos, as nossas reações, os nossos preconceitos, os nossos medos, depressão, ansiedades, solidão, sofrimento, dor, pesar. Podemos também descobrir se amamos ou se o amor não existe. Por conseguinte examinaremos a questão do relacionamento porque ele é a base do amor. (Mind Without Measure p 79)

Viver é estar relacionado. Portanto tenho que compreender e tenho que mudar. Tenho que descobrir como ocasionar uma mudança radical na minha relação, porque, afinal, isso produz guerras; é isso que está acontecendo neste país entre os paquistaneses e os hindus, entre os muçulmanos e os hindus, entre os árabes e os judeus. Não há , portanto, saída através do templo, através da mesquita, através das igrejas cristãs, através da discussão da Vedanta, deste e daquele e dos outros sistemas diferentes. Não há saída a menos que você, como ser humano, mude radicalmente a sua relação. Surge agora o problema: Como vou mudar, não abstratamente, a relação que está agora baseada em procuras e prazeres egocêntricos? (The Collected Works vol XVI pp 34-35)

A relação só tem um significado verdadeiro quando é um processo de autorrevelação, quando nos revela a nós mesmos na própria ação da relação. Mas a maior parte de nós não quer ser revelada na relação. Pelo contrário, usamos a relação como um meio de encobrir a nossa própria insuficiência, as nossas próprias dificuldades, a nossa própria incerteza. A relação torna-se, portanto, mero movimento, mera atividade. Não sei se repararam que a relação é muito dolorosa, e que desde que não seja um processo revelador em que você descobre a si mesmo, a relação é simplesmente um meio de fuga de si mesmo. (The Collected Works vol V p 230)

A compreensão de nós mesmos não chega através do processo de afastamento da sociedade ou através do isolamento numa torre de marfim. Se vocês e eu investigarmos realmente o assunto cuidadosa e inteligentemente, veremos que só conseguimos compreender a nós próprios na relação e não no isolamento. Ninguém consegue viver em isolamento. Viver é estar relacionado. Só no espelho da relação é que compreendo a mim mesmo, o que significa que tenho que estar extraordinariamente alerta nos meus pensamentos, sentimento e ações na relação. Isto não é um processo difícil ou um empreendimento super-humano; e como em todos os rios, enquanto a nascente dificilmente é perceptível, as águas ganham ímpeto à medida que se movem, à medida que se aprofundam. Neste mundo louco e caótico, se investigarem este processo deliberadamente, com cuidado, com paciência, sem condenar, verão como ele começa a ganhar ímpeto e que não é uma questão de tempo. (The Collected Works vol VI, pp 37-8)

Em um mundo de vastas organizações, vastas mobilizações de pessoas, movimentos em massa, temos medo de agir em pequena escala; temos medo de ser gente insignificante pondo em ordem a nossa própria parte. Dizemos a nós mesmos: “Que posso eu fazer pessoalmente? Preciso unir-me a um movimento de massas para fazer uma reforma.” Pelo contrário, a verdadeira revolução não ocorre por meio de movimento em massa mas mediante a revolução interior do relacionamento – só isso é reforma verdadeira, uma revolução radical, contínua. Temos receio de começar em pequena escala. Porque o problema é tão vasto, pensamos que temos de enfrentá-lo com grande quantidade de pessoas, com uma grande organização, com movimentos em massa. Certamente, temos de começar a procurar resolver o problema em pequena escala e na pequena escala do “eu” e do “você”. Quando eu compreendo a mim mesmo, compreendo você, e dessa compreensão vem o amor. (The Collected Works vol V p 96)

Tomemos por exemplo o mal que cada ser humano sofre desde a infância. É-se magoado pelos próprios pais, psicologicamente; depois magoado na escola, na universidade, através da comparação, através da competição, através de se dizer que tem que se ser excelente nesta matéria, etc. Durante toda a vida existe este processo constante de se ser magoado. Sabe-se isto, e que todos os seres humanos são magoados, profundamente, coisa de que podem não ter consciência, e que de tudo isto surgem todas as formas de ações neuróticas. Tudo isso faz parte da consciência da pessoa – uma consciência em parte oculta e em parte manifesta de que se é magoado. Agora, é possível não se ser de todo magoado? Porque as consequências de se ser magoado são a edificação de um muro em torno de si mesmo, afastando-se no relacionamento com os outros para não se ser mais magoado. Nisso há medo e um isolamento gradual. Agora, perguntamos: É possível não só ficar livre de males passados, mas também jamais ser magoado novamente? (The Flame of Attention, pp 87-88)




J. Krishnamurti





Fonte: http://www.jkrishnamurti.org/pt
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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TEMPOS DE DESCARTE

Nossos dias parecem feitos de momentos instantâneos. As coisas se transformam, as necessidades se sucedem e se modificam, fazendo com que tudo pareça volátil e fugaz.

Por vezes, nos parece que a própria vida é nada mais do que uma leve impressão e que nada vale um grande investimento, pois não há o que sobreviva ao descarte e a se tornar obsoleto.

Talvez por isso alguns de nós imaginamos que nossos relacionamentos também são descartáveis e fugazes, nesses dias em que vivemos.

Acabamos aceitando a ideia infeliz de que qualquer esforço de investimento nas pessoas parece algo inútil, uma verdadeira perda de tempo, pois logo essas serão, ou poderão ser substituídas.

Logo, é natural que nossos relacionamentos não suportem as primeiras rusgas, não sobrevivam aos primeiros embates, não ultrapassem os primeiros enfrentamentos.

Os investimentos da paciência, da consideração, do carinho, perdem sentido, nesse insistente descarte de tudo e de todos.

A amizade logo se desfaz, o relacionamento não cria raízes, os laços não se apertam e os nós se desfazem ao menor esforço.

Tudo isso porque esquecemos de que, muito embora o mundo esteja veloz, a comunicação seja instantânea, e a tecnologia se renove rapidamente, nossa mente e nosso coração são os mesmos de sempre.

Nossas necessidades emocionais em nada mudaram com a tecnologia.

A construção de nossos sentimentos ainda se faz gradual e lentamente, como há cem, quinhentos ou mil anos atrás.

Aprender a amar, cultivar uma amizade, aprender a querer bem, tudo se faz em velocidades medievais, poderíamos dizer.

Nada disso mudou no século XXI. O mundo externo se transformou por completo. Nossas necessidades e capacidades de amar são as mesmas.

Assim, cada vez mais se torna importante que resgatemos o tempo a dedicar aos nossos amores.

Nenhum casamento se fortalecerá sem o investimento de ambos.

Porém, se entre nossas prioridades não há tempo e investimento suficiente para que a vida seja compartilhada, natural que a relação feneça.

Se em nossos dias não há prioridade e tempo para os amigos, como manter as amizades?

Ninguém pode esquecer que a amizade se consolida lentamente, como quem cozinha no fogo brando, através da conversa solta e fraterna, da visita despretensiosa que estreita laços, ou do telefonema sem hora marcada mas que aconchega o ouvido.

Serão esses investimentos lentos, graduais, que serão efetivos, pois que criarão raízes profundas no coração.

Somente dessa forma nossos laços conseguirão vencer o tempo e a distância, a ponto de nos acompanhar para além desta vida, pois que permanecerão no coração.

O mais, o que efetivamente é descartável ou volátil, isso ficará, se perderá no tempo, ganhará esquecimento.

Entretanto, que nunca aquilo que pertença ao coração ganhe a falsa impressão de também ser descartável.

Porque, um dia, ao se perder tudo, inevitável fator da vida, permanecerá em nós somente aquilo que agasalharmos na mente e no coração.

Pensemos nisso.





Fonte: Redação do Momento Espírita
http://www.momento.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal