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domingo, 1 de junho de 2025

JEJUM DE PREOCUPAÇÕES


Que bom jejum aquele que ajuda a nos unificar! A moderação corporal sempre é um bem e pode ser uma norma que nos guie a vida toda. Quanta falta nos faz hoje reunir os fragmentos dispersos de nossa atenção. A nossa vontade espalhada nos milhares de interesses... um pouco de atenção aqui, outro pouco ali, talvez surja algo que nos pareça atraente ou talvez algo mais atrativo ainda nos chame a atenção... no final do dia, não sabemos onde estamos ou para onde estamos indo.

Encontrar a nós mesmos, juntar as partes que deixamos ligadas aos vários desejos, voltar o rosto para o sagrado interior é a conversão que se nos apresenta todos os dias, em cada atividade. É espiritualizar as ações, ou melhor, por o espirito naquilo que fazemos. Mas isso requer atenção e presença. E que jejum se faz necessário! Assim como o encher do estômago até que a saciedade nos deixe estufado, a dispersão demasiada da atenção nos deixa adormecidos.

Poucas coisas são necessárias, repetem os santos e sábios através da história, e Jesus disse: "Não vos preocupeis por aquilo que haveis de comer, nem por aquilo que haveis de beber, nem vos atormenteis...". (Lc 12, 29) E o apóstolo recomendava: "Não vos preocupeis com coisa alguma; manifestai, porém, a Deus as vossas necessidades por meio de orações e súplicas com ação de graças. Então a paz de Deus, que supera todo o entendimento, guardará vossos corações e vossos pensamentos em Cristo Jesus." (Fl 4, 6-7)

Jejum de preocupações, abandono do modo de vida apressado que se origina no acreditar que estamos sós, sem o acompanhamento de Deus previdente e nos centrando ou retornando ao nosso centro com persistência silenciosa, é caminhar pelo deserto, convertidos e centralizados, em atenção. E isto nos permite uma oração mais profunda e uma verdadeira caridade. A caridade nascida da empatia, da compaixão, de estarmos unidos e centrados em Deus.


El Santo Nombre



Fonte: Blog El Santo Nome
https://elsantonombre.org
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/pescador-pescaria-p%C3%B4r-do-sol-calma-4175917/

sábado, 23 de março de 2024

REFLEXÃO QUARESMAL: DÚVIDA, CORAGEM E MUDANÇA


A Quaresma começa com a história do Êxodo e termina com o mito vivido na pessoa de Jesus. [...] as leituras da liturgia centram-se nos acontecimentos que levaram ao trágico ápice da sua queda, morte e ressurreição. Em Jo 12,20-33, começa com um detalhe aparentemente mundano: entre aqueles que vieram celebrar a festa, havia alguns gregos. Estes se aproximaram de Filipe, que vinha de Betsaida, na Galileia, e lhe perguntaram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus.” Filipe foi contar a André e os dois juntos foram contar a Jesus. Entendemos com isso (1) destacar a expansão de sua influência para além do mundo judaico ou (2) enfatizar o perigo físico em que Jesus se encontrava e a necessidade que ele tinha de segurança?

Em muitos momentos da vida, a própria incerteza sobre qual poderia ser a interpretação correta de um acontecimento aguça nosso senso de realidade. Quantas vezes temos uma sensação de incerteza sobre o significado de algo ou uma sensação incipiente de falta de sentido e ao mesmo tempo sentimos que algo importante está acontecendo? Os detalhes passageiros das últimas horas de vida de um ente querido podem permanecer conosco pelo resto de nossas vidas. Nos momentos importantes prestamos atenção em tudo, inclusive nas pontas soltas e nas questões sem resposta que a vida tem.

Deste ponto em diante no ciclo da Quaresma, somos arrebatados por uma história de intensidade inescapável e por uma sequência de eventos que já ouvimos antes. Mas, como acontece com as crianças, a cada repetição os acontecimentos tornam-se novos.

Jesus acaba de ser informado de que alguns estrangeiros querem vê-lo. Sua resposta a este pequeno assunto é aceitação. (...) ele expressa a sua ansiedade tanto em relação à direção que os acontecimentos estão a tomar como ao significado que já está a começar a revelar-se e cujo resultado ele sabe ser inevitável. Chegou a sua hora e o sentido último da sua jovem vida será cumprido. Isto acontecerá não através do sucesso e da aclamação, mas através do fracasso, da dor, da perda e da inegociabilidade da morte. Por esta razão diz que uma semente tem que morrer antes de produzir uma colheita.

Depois, passando do seu destino pessoal à verdade universal da condição humana, ele partilha connosco o sentido, a verdade. Quem quiser encontrar a sua vida deve perdê-la. E, se ele for o caminho que seguimos, teremos que passar pelo que ele está passando. Por mais difícil que possa parecer este caminho, o discipulado revela-nos o Pai, a fonte, como Jesus o conheceu e viveu desde que iniciou a sua missão.

O êxodo nesta transição pessoal é a ruptura definitiva com os poderes do Samsara, a aliança de forças ilusórias que nos bloqueiam e enganam. O que parece ser o fim torna-se transparente e vemos um novo começo tomar forma. Tudo será novo à medida que nos libertarmos da velha escravidão e abraçarmos o dom único da vida que faz de cada um de nós quem realmente somos.


Laurence Freeman, OSB



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/fundo-de-natal-estrela-mandala-6317027/

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

O DOM DA GRAÇA DIVINA


A conversão espiritual está fora do nosso controle. Esta mudança completa de consciência não pode ser alcançada através do nosso esforço, pois a recebemos como um presente da graça divina.

Muitas vezes a jornada espiritual se apresenta de forma linear, silenciando primeiro o corpo e depois a mente, para que possa ser alcançada pela graça do espírito. Contudo, não se trata de etapas progressivas, mas sim de níveis simultâneos que se sobrepõem e se aprofundam. Nós nos movemos através deles, como se estivéssemos em espiral, e eles nos permitem vislumbrá-los enquanto praticamos o silêncio.

(...) é comum que, no início desta jornada espiritual, sintamos uma súbita compreensão profunda, uma lembrança da nossa verdadeira natureza, um vislumbre de uma dimensão maior e um afastamento da preocupação com a realidade superficial. Lembremo-nos que a “Luz” já vive em nós. Já estamos “iluminados”. “Viemos da Luz, do lugar onde a própria Luz teve a sua origem, onde habitou. Nós somos seus filhos” (Evangelho de Tomé, 50). Os primeiros Padres da Igreja chamavam a isto o momento de “conversão” ou “metanoia”, uma mudança de coração e de mente, uma conversão perspicaz que permite que a memória do nosso verdadeiro “eu” se manifeste mais claramente ao longo do tempo.

Isso nos permitirá superar o limiar entre os diferentes níveis de percepção. Quando entramos no nosso ser interior, o nosso Eu, através da meditação, deixamos para trás a nossa inteligência racional, as nossas emoções e as nossas percepções sensoriais e agimos puramente a partir de uma faculdade superior à razão: a nossa inteligência intuitiva. Este é o nosso elo e meio de comunicação com o Divino. O “eu” não é mais afetado pelos acontecimentos externos da nossa vida e está livre para nos ajudar com suas intuições e visões. Esses insights podem chegar até nós após o silêncio da meditação, em sonhos e através de outras maneiras que nosso eu espiritual encontra para nos alcançar.

O impulso para alcançar a “metanoia” é muitas vezes um momento de crise ou um grande evento que ocorre em qualquer fase das nossas vidas em que a realidade aparentemente segura e imutável em que vivemos é subitamente abalada de forma desconcertante. Por exemplo, quando sentimos rejeição por parte de uma pessoa ou grupo, quando enfrentamos o fracasso ou perdemos a autoestima, ou quando perdemos o emprego ou a nossa saúde piora repentinamente. O resultado deste evento pode ser a recusa em aceitar a mudança ou cair num estado de negatividade, desconfiança e desespero.

Pode acontecer também que, ao percebermos que a realidade não é tão imutável como acreditamos, enfrentemos o desafio de olhar para nós mesmos, para o nosso ambiente, para as nossas opiniões e para os nossos valores com outros olhos.

Nesse momento, a cadeia formada por todos os nossos condicionamentos, pensamentos, memórias e emoções é quebrada e assim nos sentimos livres, sem obstáculos, no Aqui e Agora, no momento eterno. Então, por um momento, somos capazes de ver a Realidade como ela é. Vemos o significado desta percepção na experiência de Maria Madalena. Após a crucificação de Jesus, ela se aproxima do túmulo e o encontra vazio. Ela fica perturbada e envolvida por sua própria dor e tristeza. Quando Jesus aparece diante dela, ela fica tão dominada pela dor que não consegue ver a realidade. Ela não reconhece Jesus e acredita que ele é o jardineiro. No momento em que Jesus chama seu nome, sua visão turva da realidade – condicionada por suas emoções – se rompe e ela vê Jesus, ela vê a verdadeira realidade.

Este momento nem sempre é tão dramático. Nossa consciência perceptiva varia muito de uma pessoa para outra e também de um momento para outro. Há pessoas que vivenciaram um momento de “transcendência”, uma consciência de uma realidade diferente, uma fuga da prisão do “ego”, enquanto ouvem uma bela peça musical, leem uma bela poesia ou ficam encantados com uma obra de arte.

Outras pessoas podem nunca ter tido plena consciência destes momentos de insight e, ainda assim, em algum nível de percepção, sempre estiveram “despertas” para a existência de uma realidade superior e, sem saber, estão se tornando mais sintonizadas com esta realidade. É comum que ao iniciarmos a meditação experimentemos uma sensação de paz e alegria que começa a borbulhar dentro de nós. Momentos como estes, quando estamos livres da preocupação consigo mesmo, são dádivas divinas.


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Com o gesto da imposição das cinzas iniciamos a Quaresma, tempo forte que nos conduzirá à Páscoa.

Na 1ª leitura do profeta Joel nos convida a fazer penitência interior, a rasgar o coração, não a roupa. Esta conversão é possível porque Deus é rico em misericórdia e grande em amor. Somos convidados a experimentar o amor misericordioso de Deus e a deixar-nos converter por Ele.

Na 2ª leitura de 2 Coríntios, o apóstolo convida-nos a olhar para o Senhor e para o seu Santo Nome: "Em Nome de Cristo, pedimos-te que te reconcilies com Deus", isto é, que respondamos ao chamado do seu amor misericordioso e que como "Seus cooperadores, não recebamos a Graça de Deus em vão." Ou seja, que sejamos um evangelho vivo para os demais.

No Evangelho de Mateus, Jesus faz uma releitura das obras de misericórdia, previstas na Lei de Moisés e que aos poucos caíram num formalismo externo e até sinal de superioridade.

Jesus nos convida a sair de uma prática centrada em nós e vivê-la como meio de confiança em Deus.

É um triplo exercício de confiança em Deus: 

Através do jejum ultrapassamos a confiança em tudo o que nos alimenta (não só o alimento do corpo mas também tudo o que nos rodeia e serve de alimento: os meios de comunicação, as redes sociais...) e chegamos ao reconhecimento de que Deus é o nosso verdadeiro alimento.

O jejum está ligado à abstinência, que é a nossa forma de união com aqueles que não têm condições de viver e cuja alimentação é pobre e precária. E através deles, com todos aqueles que sofrem por qualquer causa.

Associada ao jejum e à abstinência está a "esmola". O nosso jejum também tem um sentido de solidariedade para ajudar os outros com a nossa "esmola".

E o que dá sentido a tudo isso é a oração, que nos permite jejuar de nós mesmos para nos abrirmos a Deus e aos outros. Jesus, tanto no deserto como no Getsêmani, vive intensamente a oração. Oração em diálogo com o Pai, a sós, face a face. Oração que desmascara os enganos do "tentador". Oração que atinge o seu ápice na cruz, na qual o coração de Deus se abre para nós. A oração abre-nos a Deus e aos outros e é o que move o mundo e nos introduz na realidade daquilo que o sustenta e governa.



Pe. José Antônio, OP




Fonte: Contemplar e Proclamar
Blog do Padre José Antonio OP
https://padrejosea.wordpress.com/2023/02/21/miercoles-de-ceniza/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/ilustra%c3%a7%c3%a3o-p%c3%a1scoa-ressurrei%c3%a7%c3%a3o-4779064/

A QUARESMA INTERIOR


De certo modo, a vida pode ser vista como uma Quaresma, como preparação para a etapa final, a Páscoa para a Ressurreição. Será bom interiorizar a Quaresma. Dar ao corpo algum jejum nunca é demais. Mostra-nos a dependência que temos da comida como meio de apaziguar as ansiedades, expõe a nossa escravidão a hábitos e costumes adquiridos. A principal purificação que o jejum ou alguma privação nos mostra resulta dessa consciência que nos remete um pouco à humildade. Situa-nos mais criteriosamente na realidade em que vivemos e não naquela em que acreditamos viver.

Que realidade vivemos? A dependência. Desejos infinitos que se tornaram necessidades. Não é mais de água potável que precisamos, mas desta ou daquela bebida com sabor. Não é mais comer o que precisamos, mas sim aquele prato específico que tanto queremos e que quanto mais saboreamos mais desejamos. E assim como fazer o exercício de privar o corpo de algo habitual nos coloca diante da submissão em que vivemos aos seus impulsos, dar um pouco de jejum à mente nos deixa surpresos; notamos o sono de bela adormecida em que costumamos permanecer.

O que seria jejuar mentalmente?

Pare de ruminar os mesmos velhos pensamentos. Pare de pensar sempre nas mesmas coisas como se naquela mastigação de tensões os problemas fossem se resolver. Reconheça que, da mesma forma que costumávamos comer um certo doce no café da manhã, os pensamentos costumam seguir o mesmo caminho já batido, mais ou menos nas mesmas horas. Tendemos a comer sempre a mesma coisa, dependentes que somos desses aromas e sabores. Da mesma forma, sempre tendemos a "pensar" a mesma coisa, dependentes como somos de certas sensações "preocupantes", que, se não existissem, exporiam o vazio de sentido em nossas vidas diárias.

Negligenciar os pensamentos que aparecem e direcionar a atenção para o propósito interior traçado é um formidável jejum mental. Por exemplo, direcionando a atenção para o caminho da oração ao qual nos consagramos ou para a percepção da presença do divino no que está acontecendo, ou simplesmente concentrando-nos em fazer o melhor possível no momento é uma conversão contínua. Retomar repetidamente a atenção que nos escapa e trazê-la de volta para casa, para o coração e levá-la para onde realmente queremos depositá-la, é jejum, esmola, purificação e Quaresma da alma.

Quem fica no presente, cônscio, naturalmente tende a comer menos, apenas o necessário. Desta consciência atenta escuta-se mais o outro e surge uma espécie de caridade espontânea adequada a cada situação. Esta mesma vigilância mostra-nos a mesquinhez constante que nos aprisiona e assim ficamos mais humildes, mas sem tristeza. É tirar a maquiagem e olhar-se de frente e encontrar aí mesmo o amor para si, sem condições. Este tempo litúrgico pretende ser uma oportunidade de conversão, de mudança profunda... penitência...



O Santo Nome




Fonte: Blog El Santo Nome
https://elsantonombre.org
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/quaresma-p%c3%a1scoa-cruz-calv%c3%a1rio-4893751/

domingo, 11 de setembro de 2022

O CRESCIMENTO IMPLICA MUDANÇAS


São Bento entendia a conversão como um processo contínuo. Precisamos constantemente direcionar nossa atenção para a Realidade Superior em oração/meditação e em nossos relacionamentos diários com os outros.

Mas mover-se em direção a algo sempre implica afastar-se de outra coisa. Precisamos mudar nosso foco das realidades externas de nossas vidas para a realidade interna de nosso verdadeiro eu, a consciência de Cristo dentro de nós. Este movimento implica inevitavelmente uma mudança, em parte consciente e em parte inconsciente. No nível consciente, somos confrontados com a escolha de passar nosso tempo meditando em vez de ler ou assistir televisão; uma escolha consciente será conhecer pessoas que pensam da mesma forma em um grupo de meditação ou participar de um retiro; uma escolha consciente será, por exemplo, mudar o conteúdo de nossas leituras e formas de lazer. No entanto, no nível interno, a mudança real, mesmo a transformação que essa nova abordagem traz, é inconsciente e ocorre muito gradualmente. Na verdade, está totalmente fora de nosso controle; não podemos mudar a nós mesmos, somos transformados: este é o grande dom espiritual.

E este é precisamente o problema! Porque gostamos de estar no controle de tudo, gostamos de decidir o que acontece e como acontece. Não entregamos facilmente as rédeas de nossas vidas a ninguém. Mas na jornada espiritual o segredo está justamente aí: no desapego e na entrega a um Poder Superior.

Relacionado a essa necessidade de poder e controle está nosso desejo de alcançar. Quando começamos a meditar, de alguma forma, esperamos que ocorra uma transformação imediata e total da consciência e ficamos francamente desapontados ao ver que ainda somos essencialmente os mesmos. Queremos um resultado imediato do investimento de tempo e energia que a meditação exige...

Mas é a rendição à nossa repetição diária fiel do mantra que permite uma mudança interior gradual de perspectiva que afetará todo o nosso ser. É tão gradual que é quase imperceptível. A “centelha” da Luz Divina dentro de nós não se transforma da noite para o dia em fogo vigoroso e purificador. Não veremos os resultados em algumas semanas, ou em meses, ou talvez em anos. Mas se compararmos nossa maneira de reagir às situações ao longo do tempo, veremos que existem diferenças notáveis. Muitas vezes, são os outros que logo observam essa mudança de comportamento em nós, como disse a lagarta à borboleta: "Nossa, como você mudou!"

Um problema relacionado à nossa necessidade de poder e controle é nosso medo da mudança. Achamos que sabemos quem somos e construímos um sistema de sobrevivência eficaz que nos dá um senso claro de identidade e segurança. Mas, mais uma vez, temos a opção de permanecer como estamos ou de nos permitir crescer e deixar que a promessa de Jesus se cumpra em nós: "Eu vim para que vocês tenham vida, vida em toda a sua plenitude". Aceitar o crescimento sempre implica uma mudança. Devemos abraçar a mudança e parar de nadar contra a maré.



Kim Nataraja




Traduzido por WCCM Espanha
Via: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quinta-feira, 29 de julho de 2021

MARTAS E MARIAS


Evangelho (Lc 10.38-42): Naquele tempo, Jesus entrou num povoado, e uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Ela tinha uma irmã, Maria, a qual se sentou aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com os muitos afazeres da casa. Ela aproximou-se e disse: «Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda pois que ela venha me ajudar!». O Senhor, porém, lhe respondeu: «Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas. No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada».


[...] de que modo poderíamos conseguir que o mundo espiritual, que é a alma do Evangelho, se tornasse para nós pelo menos tão real e eficiente como o mundo material? Que exercesse um impacto veemente e decisivo sobre a nossa vida humana? Que chegasse ao ponto de nos tornar suave e leve o que hoje nos é amargo e pesado? Se tal coisa conseguíssemos, é fora de dúvida que a nossa vida se transformaria completamente; viveríamos agora mesmo o reino de Deus no meio deste “vale de lágrimas”; poderíamos exclamar com um que passou por essa gloriosa experiência: “Eu transbordo de júbilo no meio de todas as minhas tribulações”...

De que modo poderíamos conseguir essa conquista máxima da nossa vida?

Deixando de ser “Martas” e passando a ser “Marias”; deixando de andarmos solícitos e perturbados com as “muitas coisas” do plano horizontal e sentando-nos calmamente aos pés do Mestre, abismados na profunda verticalidade da “única coisa necessária”, intensamente real, unicamente real, essa que não é do tempo e do espaço, ilusórios e transitórios, mas da eternidade, e que, por isto mesmo, “não nos será tirada”...

Cruzar essa fronteira invisível, transpor esse abismo imenso, passar por essa crise redentora, saber por experiência pessoal e íntima o que é essa parte escolhida por Maria e infinitamente mais real e grandiosa que todas as muitas coisas de Marta – isto é redenção cristã, isto é iniciação espiritual, isto é entrada no reino dos céus, isto é renascimento pelo espírito, isto é procurar o reino de Deus e sua justiça, isto é, a vida eterna...

Não ter tempo ou interesse para esta única coisa necessária, esbanjar todo o tempo e todo o interesse nas muitas coisas desnecessárias – isto é suprema insipiência, isto é, horrorosa cegueira e obtusidade espiritual, isto é ser filho das trevas e dormir o sono da morte...

Tudo que temos ou julgamos ter nos será tirado amanhã – só o que somos é o que seremos para sempre, se é que o somos de Verdade, hoje mesmo.

Tudo que eu chamo meu está apenas ao redor de mim, fora de mim, longe de mim, alheio a meu verdadeiro ser; nada disto sou eu, tudo isto é apenas meu, são os pseudo-meus. Somente o meu Eu é que é realmente meu, inalienavelmente meu, eternamente meu, gloriosamente meu.

As quantidades que Marta tem são fictícias, temporárias – a qualidade que Maria é, é real, eterna.

Marta tem muitas coisas – e por isto anda inquieta e perturbada.

Maria é alguém – e por isto se queda aos pés do Mestre, calma, serena, feliz.

Quando o homem deixa de ter muitas coisas e começa a ser alguém, então vem sobre ele a grande paz, que o mundo não pode dar nem tirar.

Não adianta ter – é necessário ser...

O ser inclui o ter – mas o ter não inclui o ser.

O ser é qualidade, é causa, é verticalidade, é fonte – o ter é apenas quantidade, efeito, horizontalidade, canal.

Quem de fato é alguém por sua experiência com Deus pode serenamente perder tudo o que tem, porque sabe que não perde nada; descobriu a divina matemática de que o mais, que é ser, inclui o menos, que é ter; e, como ele possui o mais, o grande MAIS, o TODO, a Deus, não precisa preocupar-se com os pequenos menos, contidos, todos eles, nesse grande MAIS. Pode espontaneamente abrir mão de tudo quanto tem, tornar-se indigente de todas as quantidades horizontais ao redor dele, porque sabe que é milionário daquilo que é, da sublime e profunda verticalidade da qualidade dentro dele. Esse homem descobriu o reino de Deus dentro de si, e já não precisa de dar caça frenética aos pseudo-reinos do mundo fora dele, porque sabe que esses reinos estão todos radicados em Deus, no Deus dentro dele, e que, se os quisesse possuir, os teria todos em grande abundância. Esse homem aprendeu a suprema sapiência de possuir todos os efeitos na causa, e deixou de querer possuir os efeitos sem a causa. Da excelsa atalaia central da sua visão cósmica, esse homem abrange, calma e serenamente, todas as periferias dos mundos que gravitam em torna dele. Possuindo a “única coisa necessária”, abrange todas as outras coisas, e possui-as sem inquietude nem perturbação, mas com a serenidade dinâmica e a paz creadora* com que o homem espiritual penetra todas as materialidades.

Que aproveita ao homem ter algo, mesmo que seja o mundo inteiro, se não é alguém, se sofre prejuízo naquilo que ele é, sua alma? Poderá acaso o ter resgatar o ser? Poderá o menos crear* o mais? Poderão as muitas quantidades produzir a única qualidade?

Essa transformação da nossa falsa política do ter na verdadeira filosofia do ser é que no Evangelho se chama “metánoia”, que quer dizer “trans-mentalização” (metá-trans; nous-mente), geralmente traduzido por “conversão”. Quando o homem começa a compreender a suprema sabedoria de que as coisas do mundo material não são primariamente-reais, senão apenas derivadamente-reais, alo-reais, e não auto-reais, e que só o mundo espiritual é que é real em si mesmo – então passa ele pela grande “metánoia”, converte-se, transmentaliza-se, muda de mentalidade, realiza em si a misteriosa alquimia espiritual, transmudando elementos vis em elemento nobre, deixa de ser Marta e se torna Maria, para que depois possa ser Maria-Marta, um ser humano capaz de tratar das muitas coisas do mundo material sem inquietude nem perturbação e sem abandonar o seu lugar aos pés do Mestre.



Prof. Huberto Rohden


* Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.



Fonte: do livro "Filosofia Cósmica do Evangelho", Ed. Martin Claret
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

IMPULSO À VERDADEIRA MUDANÇA


... Muitos terminaram o ano de 2020 o amaldiçoando e desejando que se fosse. Entretanto, o ano se foi e eu não vi nenhuma mudança, pelo menos em nível de pandemia que nos assola. Seguimos na mesma situação: contágios, desorganização política, mortes, inconsciência e egoísmo.

No que se refere à inconsciência, a mudança verdadeira só é real e realizável se for em nível profundo e com o passar do tempo. Em níveis superficiais as mudanças podem ser quantitativas. Porém, a verdadeira mudança é qualitativa, e não se realiza rapidamente. É um processo que implica a nossa participação e a nossa abertura à atuação de Deus.

Esse egoísmo profundo do ser humano só pode ser sanado com uma purificação profunda. Por isso, a mudança de um ano nada em nós muda se não estamos imersos no processo de que necessitamos mesmo de uma mudança ou conversão, constantemente.

Esse processo é doloroso porque nos abre os olhos e nos leva a descobrir como o joio também habita em nosso coração. "A Verdade vos fará livres", disse Jesus. Descobrir que nos enganamos a nós mesmos nos liberta e liberta a sociedade. A sociedade mudará se cada um de nós realizarmos a nossa própria mudança. E por isso, qualquer propósito que façamos em nível superficial em nada adiantará. E ainda a superficialidade nos desanimará porque veremos que assim nada muda.

Em nossa sociedade, os homens não estão dispostos a mudanças porque não podem reconhecer que se estão equivocando. Vemos nos políticos a dificuldade de reconhecerem seus erros, e não os reconhecendo não há possibilidade de mudanças. E como não se curvam perante a Deus, continuam querendo se passar por deuses, e a situação da sociedade continua a mesma. E os erros que vemos tão claros no mundo exterior, se olharmos para dentro de nós mesmos os veremos até mesmo nas menores coisas do nosso cotidiano.

Cada vez que nos desanimamos e nos rebelamos é porque estamos perdendo de vista nossa pequenez, nossa pobreza e que tudo provém de Deus. E apesar disso, Deus nos ama. E se tivermos essa certeza do amor de Deus é certo que isso será o impulso à nossa verdadeira mudança, a mudança interior...


María Jesús



Fonte: Sanación interior con San Juan de la Cruz
Hozana - https://hozana.org/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/adulto-pessoas-mulher-nude-dois-3373907/

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A SIMPLICIDADE DAS COISAS ESPIRITUAIS


O recolhimento é uma transposição de foco, que harmoniza toda nossa alma com o que está além e acima de nós.

É uma 'conversão', uma 'volta' do nosso ser às coisas espirituais e a Deus.

Como são simples as coisas espirituais, o recolhimento é também uma simplificação do nosso estado de espírito e da nossa atividade espiritual.

Tal simplificação nos confere aquela paz e visão das coisas que Jesus proclama ao dizer:

'Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso' (Mt 6,22).


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Homem algum é uma ilha"
Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal