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sábado, 19 de março de 2022

NOVO ANIVERSÁRIO DO ASSASSINATO DE JACQUES DE MOLAY


Em 18 de março de 1314, o rei Filipe IV da França executou Jacques de Molay. Após sua maldição, o monarca e o papa Clemente V morreram tragicamente.

Em 13 de outubro de 1307 Jacques Bernard de Molay, o último Grão-Mestre da Ordem dos Templários, foi preso junto com outros membros da irmandade por ordem de Filipe IV, “O Belo”, Rei da França, com o apoio silencioso do Papa Clemente V.

A perseguição começou no início daquele ano quando o monarca, acusando-os de heresia, ordenou a captura de todos os membros da Ordem encontrados em território francês. Na verdade, a história começou muito antes.

Em 18 de março de 1314, o Grão-Mestre foi queimado na fogueira. A tradição afirma que ele pediu para ser amarrado ao poste de frente para Notre Dame e que graças ao seu excelente e bem treinado domínio psicofísico ele foi capaz de suportar a tortura do fogo sem sentir dor.

Conta-se também que Dante Alighieri estava presente naquele momento, escondido entre a multidão que presenciou a cena; mas, dias antes, ele tivera uma extensa conversa, em particular, com De Molay, obtida através do suborno dos guardas.

O Templo foi fundado no ano de 1118 quando Hugo de Payen, André de Montbard e outros sete cavaleiros ofereceram Balduíno, então rei de Jerusalém, para organizar e garantir a segurança dos peregrinos à Terra Santa.

Com o tempo, a Ordem do Templo (nome resultante do fato de o seu primeiro povoado ter sido as cavalariças do Primeiro Templo erguido pelo Rei Salomão) enriqueceu graças a doações, magníficos negócios mercantis e financeiros (basta dizer que foram os inventores das letras de câmbio) e os despojos obtidos na Terra Santa que lhe foram concedidos pelas bulas papais Omne Datum Optimum (1139), Milites Templi (1144) e Militia Dei (1145). Os Templários eram credores de nobres e reis e financiaram a construção de inúmeras catedrais no país gaulês. Eles também colaboraram nas cruzadas com dinheiro e militares.

Esse poder, aliado ao sigilo do grupo, começou a gerar desconfiança entre o povo, principalmente os que deviam grandes somas de dinheiro à Ordem. Esta foi a principal razão pela qual Filipe IV decidiu pôr fim à existência dos Templários, que tinha uma grande dívida para com eles.

A desculpa que o rei francês usou para justificar a perseguição foi a de heresia e sacrilégio. Tudo baseado em fofocas e supostas confissões de membros que haviam sido expulsos da Ordem. A realidade é que nada do que lhes foi imputado jamais pôde ser verificado, nem se pôde encontrar qualquer imagem de ídolos ou fetiches.

Quando a prisão dos Templários e de seu último Grão-Mestre foi realizada em 13 de outubro de 1307, apoiada pelo Papa Clemente V através da bula Pastoralis Proeminentiae, os membros da Ordem e sua suposta autoridade máxima não ofereceram resistência e se renderam mansamente à ordem do rei.

Tanta mansidão despertou o espanto dos captores, que, ao longo do tempo, foi interpretado de muitas maneiras diferentes.

Um aspecto muito importante da Ordem do Templo nos permitirá compreender esta questão da falta de resistência à prisão. A irmandade era composta de três ramos: os militares, os monges e os mestres secretos. O verdadeiro Grão-Mestre nunca foi conhecido pelo leigo ou mesmo pela maioria dos membros da Ordem.

Isso não deve surpreender, pois é comum em todas as instituições secretas, esotéricas e iniciáticas, haver um alto comando que permanece fora do conhecimento daqueles que não chegam aos mais altos escalões.

Jacques de Molay (chefe visível e público da Ordem, mas não o real) era um homem analfabeto, assim como o resto dos homens que, aparentemente, submissamente se deixaram capturar pelos soldados do rei Filipe. Eles estavam cumprindo a missão mais delicada e importante de toda a sua vida. Dependia deles que o Templo salvasse seus preciosos mistérios e que as hierarquias ocultas embarcassem, sem serem perseguidas, no porto que mantinham fortificado em La Rochelle, (situado nas águas atlânticas da costa francesa) para fugir definitivamente da Europa e do Oriente Médio para terras chamadas Armórica (o lugar da harmonia), designação dada à América por aqueles que chegaram muito antes de Cristóvão Colombo, e assim também salvaguardar suas riquezas. Por esta razão, Molay obedientemente se rendeu aos seus captores.

O monarca encontrou a imensa fortuna dos Templários? A resposta é não. Ele só poderia se apropriar de fazendas e propriedades que não são nada comparadas ao que ele esperava encontrar. O que era valioso tinha sido salvaguardado. O grande poder da Ordem incluía um "serviço secreto" que poderia facilmente descobrir com antecedência os planos de Filipe IV.

Antes de morrer na fogueira, Jacques de Molay disse: "Deus sabe que fomos levados ao limiar da morte com grande injustiça. Uma imensa calamidade virá em breve para aqueles que nos condenaram sem respeitar a verdadeira justiça. Deus, Ele assumirá o comando de tomar represálias pela nossa morte. Vou perecer com esta certeza.” Coincidência ou não, a verdade é que em menos de um ano morreram Felipe IV e Clemente V, tal como profetizou o Grão-Mestre.

O Papa morreu após 37 dias, em meio a uma dor forte e insuportável. Seus médicos anunciaram que ele havia morrido “através de um sofrimento horrível”. Filipe morreu em 29 de novembro quando colidiu com um galho de árvore enquanto andava a cavalo pela floresta de Fontainebleau. O golpe foi tão grave que o monarca morreu de paralisia geral, com grande sofrimento até sua morte.



Antonio Las Heras 
(Doutor em Psicologia Social, filósofo e escritor - e-mail: alasheras@hotmail.com)




Fonte do texto e gravura: www.diariopopular.com.ar
Via: "Informativo O MALHETE"
http://omalhete.blogspot.com/

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

NOTAS SOBRE A COLUNA TRUNCADA


NOTAS SOBRE A COLUNA TRUNCADA
RITO ESCOCÊS RETIFICADO (RER)

A coluna truncada (do grau de Aprendiz no RER), colocada no lugar correto e posta em evidência na Loja, é uma herança simbólica da Estrita Observância, mas levará no RER uma dimensão incomparavelmente superior, tornando-se o símbolo por excelência da “Queda” (de Adão), e constantemente lembrará ao Irmão que ele está em um estado de lamentável miséria, que é apenas um vestígio, as ruínas de um Templo que já foi glorioso.

Há certa ousadia semântica em conferir, ipso facto, à coluna truncada que vem da Estrita Observância, um caráter inteiramente Martinista (por relacionar, como se poderia argumentar algumas vezes, de forma apressada, esta coluna com as diferentes partes da figura universal de Martinez: Imensidão Terrestre, Celeste, Supraceleste e Divina), quando o significado óbvio que lhe foi dado quando os rituais foram criados é claramente, para Willermoz, evocar os restos em ruínas de um edifício que agora deve ser reconstruído e reedificado em sua totalidade, com a ajuda do Divino Reparador.

No entanto, se considerarmos que o homem representa em si mesmo a totalidade do Grande Templo Universal danificado pela Queda, não é inteiramente errado autorizar-se a considerar que esta coluna é como uma imagem emblemática do homem que reproduz a imagem muito mais ampla do Templo Geral Universal. “O corpo do homem é uma Loja, ou um Templo, que é a repetição do Templo Geral, Particular e Universal” (Lições de Lyon, nº 04, janeiro de 1774).

Por outro lado, Willermoz declarou-se "depositário de alguns conhecimentos que poderiam ser adaptados à Maçonaria caso tivessem pertencido a ele em sua origem". No entanto, como Robert Amadou enfatizou, “Willermoz inseriu estes conhecimentos por doses sucessivas e crescentes no ritual de graus da Estrita Observância Templária, após ter contribuído para o continente o mínimo de correções que o conteúdo impunha.

É verdade que a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa assumiu a forma de Estrita Observância Templária mais próximo do que muitas vezes se supõe, mas mudando seu espírito, substituindo a Doutrina de Reintegração de Martinez de Pasqually pela ideologia templária”. A análise de Robert Amadou coincide assim com a nossa convicção quanto a coluna truncada e a tradução que dela deve ser feita para respeitar o sentido que Willermoz queria dar-lhe e não ultrapassar, por excesso de zelo, o valor exato e o autêntico alcance pedagógico que este símbolo do primeiro grau do Retificado: “Exemplo: no primeiro grau, o quadro representa uma coluna truncada, com a divisa 'adhuc stat'. Interpretação da Estrita Observância Templária: a Ordem do Templo está decapitada, mas o tronco permanece. Você pode ter esperanças! Para os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, as esperanças também podem ser nutridas, mas em um sentido diferente: o homem está caído, mas ainda possui o direito de viver em seu primeiro estado, bem como o direito de possuir os meios para retornar.” (Robert Amadou, Martinisme)


Jean-Marc Vivenza



Fonte do texto e gravura: "O Elus Coën e o Regime Escocês Retificado"
https://www.masoneriacristiana.net/2015/09/notas-sobre-la-columna-truncada-en-el.html?m=1

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

CAVALEIROS TEMPLÁRIOS


Os Cavaleiros Templários


Os Cavaleiros Templários tiveram origem nas Cruzadas da Idade Média. Como é de conhecimento geral, as Cruzadas foram uma série de expedições à Síria e à Palestina, esta última denominada Terra Santa. Consistiam de “devotos e intrépidos reis cavaleiros”, bem como clérigos, soldados e simples camponeses. Seu intuito era libertar ou recuperar a Terra Santa, a terra natal de Cristo, daqueles que os cruzados chamavam de “turcos infiéis”.

Nesse período em particular, o cristianismo ocidental significava a Igreja Católica Romana; não havia outras igrejas cristãs conhecidas. Todas as religiões ou crenças não-cristãs, em conformidade com a intolerância que então prevalecia, eram consideradas pagãs e, seus seguidores, infiéis. No sentido literal, pagão é o indivíduo que não reconhece o Deus da revelação. Todavia, um pagão não é necessariamente ateu. Mas, na opinião dos cristãos daquela época uma pessoa devota que concebe Deus no sentido panteísta, ou como consciência universal, é pagã. Com toda certeza, todos os não-cristãos eram assim considerados.

Parecia uma irreverência, um sacrilégio, para os cristãos, que locais relacionados com o nascimento do Cristo estivessem sob o domínio de alguma autoridade não-cristã. Pequenos bandos de peregrinos, durante anos antes das Cruzadas, haviam viajado para a Palestina, com o fim de visitar os santuários. Em sua devoção e primitiva crença, imaginavam que tais visitas lhes trariam uma graça espiritual, assegurando-lhes bênçãos especiais no outro mundo.

Atravessaram eles regiões agrestes, onde praticamente não havia lei e ordem. E punham em risco a sua segurança, viajando principalmente a pé. Em consequência, eram assaltados, roubados, mortos por bandidos que os atacavam. Esses fatos, chegaram ao conhecimento da Europa Ocidental e da cristandade e tornaram-se incentivo para as cruzadas.

Durante os séculos doze e treze, cada geração formou pelo menos um grande exército de cruzados. Além desses enormes exércitos, que às vezes chegavam a trezentos mil homens, haviam “pequenos bandos de peregrinos ou Soldados da Cruz”. Durante aproximadamente duzentos anos, houve um fluxo quase contínuo de reis, príncipes, nobres, cavaleiros, clérigos, e gente do povo da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Espanha, e da Itália para a Ásia menor. Ostensivamente, essas migrações tinham fins religiosos, levando consigo, como já dissemos, muitos aventureiros, cujo objetivo era de explorar. Assassinos e ladrões viajavam para a Terra Santa e roubavam, pilhavam e violavam mulheres.

Os muçulmanos, devotos e respeitadores da lei, cuja cultura era muito superior a da Europa na época, ficavam chocados com a conduta desses “cristãos”. Era de se esperar que protegessem suas famílias e propriedades desses saqueadores religiosos. Assim, por sua vez, matavam os peregrinos ou os expulsavam. Sem dúvida, muitos peregrinos inocentes perderam a vida por causa da reputação criada pela conduta de alguns de seus companheiros. Os povos não-cristãos do Oriente Próximo não podiam distinguir os peregrinos que tinham nobres propósitos daqueles cujos objetivos eram perversos.


A Primeira Cruzada

Tomando conhecimento desta situação, Papa Urbano II, em 1095, em Clemont, França, exortou o povo a iniciar a primeira grande Cruzada.

Conclamou os cavaleiros e nobres feudais a cessarem a guerra que travavam entre si e socorressem os cristãos que viviam no Oriente. “Tomai a estrada para o Santo Sepulcro; arrebatai a região à raça perversa e sujeitai-a ao vosso domínio”. Consta que, quando o Papa terminou de falar, a vasta multidão que o escutava clamou quase uníssono: “É a Vontade de Deus!”. Esta frase tornou-se depois o grito de guerra da heterogênea massa que formou o exército da Cruzada. Aqueles homens estavam convictos de que estavam obedecendo à vontade de Deus, de modo que brutalidade, assassínio, estupro e pilhagem, nas terras do Oriente, estavam justificados por sua missão.

Era impossível aqueles milhares de homens levarem consigo alimento suficiente para a viagem, visto que esta durava vários meses, em condições muito difíceis. Portanto, eram eles obrigados a buscar sustento nas terras que invadiam. Muitas pessoas inocentes do Oriente, não-cristãs, eram assassinadas, seu gado lhes era tomado e suas casas saqueadas, para o sustento dos cruzados, que sobre elas se abatiam como nuvem de devoradores gafanhotos. Naturalmente, a retaliação vinha rápida e violenta. Muitos cruzados foram mortos pelos húngaros, que reagiram para se proteger contra a depredação causada pelas hordas que passavam por sua região.

O espírito de avareza ou cobiça aproveitou-se das circunstâncias. Muitos cruzados procuravam seguir para a Palestina e a Síria por mar, a fim de evitar a viagem mais longa, toda feita por terra. Ricos mercadores das prósperas cidades de Veneza e Gênova tramaram conceder aos cruzados "livre" passagem para a Síria e a Palestina. Mas exigiam dos peregrinos o compromisso de exclusividade de comércio em qualquer cidade por eles conquistadas. Isto permitiria a esses mercadores ocidentais manter centros comerciais no Oriente, obtendo então excelentes produtos do seu artesanato. As jóias, a cerâmica, a seda. A especiaria, mobília e os bordados do Oriente eram superiores a tudo o que se produzia na Europa Ocidental da época.

Das cruzadas emergiam muitas curiosas ordens religiosas e militares. Duas das mais importantes foram os Hospitalários e os Templários. Essas ordens “combinavam dois interesses dominantes da época, o monge e o soldado”. Durante a primeira Cruzada foi formada, de uma associação monástica, a ordem conhecida como os Hospitalários. Seu objetivo era de socorrer os pobres e enfermos dentre os peregrinos que viajavam para o Oriente.


Cruz de Malta: o emblema


Posteriormente, a Ordem admitia cavaleiros, além dos monges, e depois se tornou uma ordem militar. Os monges usavam uma cruz em sua veste e andavam com uma espada à cinta. Lutavam, quando necessário, embora se dedicassem principalmente em socorrer os peregrinos doentes. Receberam doações de terras, nos países do Ocidente. Também construíram e controlaram mosteiros fortificados, na Terra Santa. No século treze, quando a Síria, principalmente, foi evacuada pelos cristãos, os Hospitalários mudaram sua sede para a ilha de Rodes e, mais tarde, para Malta. Esta Ordem ainda existe e seu emblema é a Cruz de Malta.

A outra ordem tinha o nome de Cavaleiros Templários, ou “Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão”. Esta ordem não foi fundada para fins de auxílio terapêutico. Desde sua formação, era uma ordem militar. Seus fundadores foram Hugues de Pyens, um cavaleiro bolonhês, e Geoffroi de Saint-Omer, um cavaleiro francês.

No começo do século doze, assumiram eles a proteção dos peregrinos que se dirigiam a Jerusalém. Pretendiam realmente construir uma escolta armada para esses grupos. Mais tarde, sete outros cavaleiros se uniram a eles. Esses nove cavaleiros se constituíram numa “comunidade religiosa”. Fizeram um juramento solene ao Patriarca de Jerusalém, no qual se comprometeram a guardar estradas públicas e abandonar o cavalheirismo terreno; seu juramento incluía um voto de castidade, abstinência e pobreza.

A missão dos Templários arrebatou a imaginação, não só dos homens livres de classes inferiores, mas também de altas autoridades seculares e no seio da Igreja. Balduino I, Rei de Jerusalém, cedeu parte do seu palácio a essa Ordem de monges-guerreiros. Esse palácio era adjacente à Mesquita de Al-Aka, o chamado Templo de Salomão. Devido a esta localização os componentes da Ordem passaram a ser chamados Cavaleiros Templários ou Cavaleiros do Templo. A princípio, não usavam uniformes, nem qualquer hábito especial; usavam suas roupas costumeiras. Depois, passaram a usar uma veste branca com a dupla cruz vermelha. O primeiro ato que atraiu atenção mundial para eles foi o seu esforço para redimir cavaleiros excomungados.

Muitos cavaleiros haviam violado seu alto código de cavalheirismo, em expedições à Terra Santa, e haviam sido excomungados pela Igreja. Os Templários procuraram redimi-los e introduzi-los em sua Ordem. Assumiram também a missão de impedir que trapaceiros, assassinos, perjuros e aventureiros, explorassem a Terra Santa.

Um outro ato, no início, colocou os cavaleiros em atrito com o clero. Os Templários tentaram conseguir imunidade a excomunhão por párocos e bispos.

O dirigente principal da Ordem era denominado “Mestre do Templo de Jerusalém”. Mais tarde passou a Grande Mestre da Ordem em Chipre. A autoridade desse Grande Mestre era considerável, mas não era absoluta. Tinha ele de consultar a maioria dos Templários, em questões como, por exemplo, declarações de guerra. Por muitos anos os Templários mantiveram-se em guerra contra os “infiéis”. Os chamados infiéis eram principalmente os sarracenos, a se aliar, por vários meios e particularmente como indivíduos, às famílias reinantes da Europa. “Um Grande Mestre era padrinho de uma filha de Luiz IX”. “Um outro era padrinho de um filho de Felipe IV”. Sua influência se fez sentir em meio ao clero, pois os Templários eram convocados a participar nos concílios privativos da Igreja, como o Concílio Lateranense de 1215.


Banqueiros e Financistas

Uma curiosa função, totalmente distinta de seu objetivo declarado, mas que era um sinal de poder, foi a de que os Templários se tornaram os grandes financistas e banqueiros da época. Consta que seu Templo de Paris era o centro do mercado financeiro mundial. Nesse banco, papas e reis depositaram seu dinheiro. Os Templários ingressaram com êxito no mercado de câmbio com o Oriente. Essa foi talvez a primeira de tais empresas na Europa. Não cobravam juros sobre empréstimo, pois, a agiotagem era proibida – declarada imoral pela Igreja e a Coroa. Aluguéis superiores aos valores usuais para empréstimos sob hipoteca eram uma espécie de juro tolerada.

A história registra que os Templários atingiram o ápice do seu poder pouco antes de sua ruína. Com efeito, haviam eles se tornado uma “igreja dentro da igreja”. Isto acabou provocando uma desavença com o Papa Bonifácio VIII. No dia 10 de agosto de 1303, o rei se aliou ao chefe dos Templários, contra o Papa. Esse mesmo rei, Philippe, acabou traindo os Templários. Havia ele sofrido um grande prejuízo financeiro e não conseguia recuperar seus recursos. Imaginou, então, que a supressão dos Cavaleiros Templários lhe seria vantajosa; assim, planejou unir todas as ordens, sob a sua autoridade.

Primeiro era necessário, pensava ele, desacreditar os Templários. Procurou realizar seu intento proclamando que a Ordem era herética e imoral. Introduziu espiões na Ordem, os quais, segundo consta, cometeram perjúrio revelando os ritos, juramentos e cerimônias que os mesmos profanavam o cristianismo. O público em geral sabia que os Templários tinham ritos secretos, mas não conheciam realmente sua verdadeira natureza. Havia rumores infundados de que esses ritos eram lascivos e blasfemos. Portanto, as declarações dos espiões perjuros do Rei Philippe pareceram confirmar os boatos.

O Papa não se demonstrou inclinado a acreditar naqueles relatos que lhe eram transmitidos através das tramas de Philippe e tomar providências em função dos mesmos. Então o rei, astutamente, apresentou suas inventadas queixas à Inquisição, que na época, prevalecia na França. A Inquisição tinha o poder de agir sem consultar o Papa. Em consequência, o Grande Inquisidor exigiu a prisão dos Templários. No dia 14 de setembro de 1307, Philippe determinou que os membros da Ordem dos Templários fossem capturados.


Jacques de Molay


A 6 de junho de 1306, Jacques de Molay, Grande Mestre dos Templários de Chipre, consultava o Papa Clemente V sobre “a perspectiva de uma nova cruzada”. Aproveitou o ensejo para denunciar as acusações que estavam sendo feitas contra os Templários, e partiu. Durante todo o tempo em que lhes eram imputadas incriminações, os Templários não se defenderam. Seis meses depois, Jacques de Molay e sessenta de seus companheiros foram presos e forçados a confessar. Primeiro, os oficiais do rei os torturaram. Em seguida, entregaram-no aos inquisidores da Igreja, para que fossem ainda mais torturados. Muitos desses Templários eram idosos e morreram em decorrência da desumana crueldade a eles infligida por aqueles representantes da Igreja. As confissões que lhes eram arrancadas eram falsas; haviam eles sido forçados a confessar atos de irreverência e heresia. O Grande Mestre foi obrigado a escrever uma carta em que admitia ter cometido atos contra a Igreja.

O Papa acabou sancionando os atos dos inquisidores e ordenou a prisão dos Templários em toda a cristandade. É possível que tenha se sentido inseguro quanto à medida que tomara, pois, mais tarde, determinou uma nova Inquisição para reconsiderar as acusações contra os Templários, acreditando que teriam um julgamento justo. Os Templários abjuraram suas confissões anteriores, em que tinham sido feitas sob coação. Sofreram, porém, amarga decepção! A retratação de suas confissões era passível de punição com a morte na fogueira, castigo que muitos foram obrigados a sofrer.

No dia 14 de março de 1314, Jacques de Molay, o Grande Mestre, e outro Templário, foram levados a um cadafalso “erguido em frente a Notre Dame”. Deviam então confessar sua culpa, ante os legados papais e o povo. Ao invés disto, retrataram-se de suas confissões e tentaram defender os Templários diante da grande multidão que assistia ao processo. Proclamaram a inocência da Ordem. Foi imediatamente ordenado, então, que eles fossem queimados. E assim foram executados, com a aprovação da Igreja Romana.

Que haviam os Templários realizado? Muitos lhes atribuíram o impedimento da propagação do poder islâmico na Europa. Talvez eles tenham realmente contribuído para isto, mas é discutível a questão de que a propagação da cultura islâmica na Europa teria sido prejudicial. Geralmente, admitem os historiadores que a civilização teria avançado séculos se tivesse sido permitido que a sabedoria dos muçulmanos se propagasse pela Europa, naquela época. Foram necessários vários séculos de progresso do conhecimento, na Europa, para igualar e superar o conhecimento que os muçulmanos então possuíam. Os povos islâmicos eram os preservadores do conhecimento original dos gregos e dos egípcios.

Talvez a maior realização dos Templários tenha sido o estímulo à virtude entre bravos e fortes. Muitos cavaleiros haviam adquirido muito conhecimento nos países orientais, durante as Cruzadas. Tinham descoberto que havia no Oriente uma civilização superior à que existia na mais rude sociedade do Ocidente cristão.

Muitos Templários foram secretamente iniciados nas escolas de mistérios do Oriente, onde lhes foi revelada a sabedoria do passado. Embora constituíssem uma Ordem cristã, os Templários eram independentes da Igreja, no sentido de que esta não dominava o seu pensamento. Muitos se tornaram Templários porque, dentro da esfera de influência e proteção da Ordem, podiam estudar e desenvolver um conhecimento que não ousavam, como indivíduos, estudar e desenvolver fora dessa esfera. As pessoas de mentalidade liberal tinham na Ordem dos Cavaleiros Templários uma espécie de refúgio. Foram estes estudos, a investigação intelectual e os rituais místicos, que provavelmente deram crédito ao boato de que os Templários eram hereges.

Segundo a tradição, muitos cavaleiros Cruzaram o Umbral da Ordem Rosacruz e a ela se afiliaram os que eram membros de escolas esotéricas. Muitos cavaleiros tiveram coragem de investigar os campos de conhecimento que suas incursões por países orientais haviam possibilitado. E esse conhecimento ultrapassava as limitadas fronteiras de investigação da Igreja.



Fonte: Ordem Rosacruz - AMORC
https://www.amorc.org.br/os-cavaleiros-templarios/


Fonte das Gravuras:
https://www.altoastral.com.br/wp-content/uploads/2017/01/templarios_shutterstockimages.jpg
https://www.alamy.com/stock-photo-jacques-de-molay-knights-templar-grand-master-135095667.html
https://img2.gratispng.com/20180722/rv/kisspng-knights-templar-symbol-cross-clip-art-5b554bd62438b9.5421600215323166301484.jpg

BERNARDO DE CLARAVAL* - DIA 20 DE AGOSTO


São Bernardo de Claraval *

São Bernardo nasceu em 1090, no Castelo de Fontaine, região de Borgonha, França. Filho de um nobre chamado Tescelin Sorrel, o Vermelho e de Aleth de Monthbard, mulher virtuosa venerada como bem-aventurada. Teve sete irmãos dentre os quais era o terceiro. Bernardo sempre se destacou pela inteligência e pela beleza física. Aos 9 anos foi para a escola canônica, e destacou-se principalmente na literatura.

Em 1112, aos 22 anos, Bernardo entra na Abadia de Cister, também em Borgonha. Esta abadia era um mosteiro cisterciense fundado por São Roberto de Molesme.

Bernardo era homem de estudo e oração, praticando com austeridade a regra do mosteiro, a mesma escrita por São Bento. Bernardo dedicava-se à oração e ao ensino da catequese. Tinha grande dom de oratória.

Após dois anos em Cister, Bernardo foi enviado para o vale de Langres em 1115, com a missão de fundar a Abadia de Claraval, tornando o seu primeiro Abade, com apenas 25 anos. Em pouco tempo a Abadia ficou conhecida em toda a França e posteriormente por toda a Europa como um lugar onde se vivia a oração, o trabalho, a humildade, a caridade e a cultura profunda.

Com o passar dos anos, São Bernardo fundou 72 casas da ordem dos Cistercienses na França e em vários países da Europa. Participou ativamente do Concílio de Latrão, como secretário. Participou também do Concílio de Troyes, onde exerceu grande influência, e do Concílio de Reims, sempre a pedido do Papa, para tratar de todos os assuntos da Igreja.

A convite do Papa, pregou a segunda cruzada. Era conhecido como o Pai dos fiéis, a Coluna da Igreja, o Apoio da Santa Sé, o Anjo Tutelar do Povo de Deus.

Durante o concílio de Troyes, Bernardo conseguiu o reconhecimento para a Ordem do Templo, os Templários, cujos estatutos ele mesmo escreveu. Além disso, São Bernardo escreveu grandes obras, tratados de teologia.

Quando estava para morrer e os monges rezando para que Deus não deixasse, ele disse: Por que desejais reter aqui um homem tão miserável? Usai da misericórdia para comigo e deixai-me ir para Deus. Assim, São Bernardo faleceu no dia 20 de agosto de 1153, aos 63 anos de idade.


Templários

Os Templários surgem com este objetivo inicial: proteger os peregrinos em seu caminho à Terra Santa (principalmente no trecho entre Jaffa e Jerusalém), e ajudar na defesa do Reino. O Rei da época, Balduíno II, não recusou esta grande ajuda, e cedeu a área do Templo do Rei Salomão para a instalação da nova Ordem de Cavaleiros. De sua vocação monacal, expressa na adoção dos votos de pobreza, obediência e castidade, surgiu o título de "Pobres Cavaleiros de Cristo"; mas como também estavam instalados na área do Templo, eram também ditos "Cavaleiros do Templo do Rei Salomão". Surgiu, então, a denominação completa do nome da ordem: "Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo do Rei Salomão", ou Cavaleiros Templários.

A Ordem cresceu rapidamente. Os interessados em ingressar na Ordem deviam procurar os postos de comando, numerosos na Europa, chamados "commanderies", e eram submetidos a muitas provas, que deveriam mostrar sua sólida espiritualidade, seu amor a Cristo, sua força e habilidade com armas, além de grande coragem. Somente após passar por estas provas, e após renunciar a todo prazer material e carnal, jurando obediência à Igreja, o jovem era admitido como novo Cavaleiro da Ordem.

Entre aqueles que foram atraídos para a Ordem estava André de Montbard, Conde de Champagne, o qual era primo de São Bernardo de Claraval. Por seu intermédio, a Ordem chegou aos olhos de São Bernardo. O intrépido Abade de Clairvaux logo percebeu quão grandiosa era a missão daquela nova Ordem de Cavalaria, que unia os princípios do monasticismo ao ideal do cavaleiro, e não lhe poupou apoios. No seu panfleto De Laude Novae Militiae elogiou-os profundamente. Foi São Bernardo que redigiu a Regra dos Cavaleiros Templários, baseando-se da Regra de São Bento; esta Regra dos Templários foi aprovada pelo Concílio de Troyes em 1128.

A Ordem dos Cavaleiros Templários era uma nobre e valorosa Ordem de Cavalaria, que muito ajudou na defesa da vida dos peregrinos cristãos que iam à Terra Santa, como também na defesa da própria Terra Santa. Ademais, em agradecimento pela proteção recebida, muitos nobres doavam terras aos Templários. Estas terras foram sendo acumuladas, e junto com elas muitas riquezas.


O fim dos Cavaleiros Templários

Tanto poder e riquezas acumuladas pelos Templários deu-lhes inimigos poderosos. Entre estes inimigos estava Felipe IV, o Belo, Rei da França. Felipe estava enfrentando dificuldades financeiras. Apossar-se dos tesouros da Ordem seria, portanto, uma boa saída. Conta-se ainda que o Rei teria inveja da Ordem, ciúmes de seu poder e influência na Europa, e mesmo um ressentimento por não ter sido nela admitido. Provavelmente o Rei Felipe sentia-se impotente diante da poderosa Ordem.

A condenação dos Templários à morte deve-se inteiramente ao Rei Felipe IV. O Rei instaurou um processo injusto, cujo único objetivo era condenar os Templários, de um jeito ou de outro. Felipe, o Belo, ordenou a prisão dos Cavaleiros Templários em todo o território francês na noite de 13 de Outubro de 1307 (o mito do azar na Sexta-Feira 13 tem origem neste episódio). Por meio de um iníquo processo jurídico, o Rei condenou os Templários à morte. Acusou-os de idolatria, infidelidade, práticas homossexuais e diversos outros crimes para legitimar seu veredicto. As "provas" para estas suas acusações foram todas obtidas pelo uso da tortura.

O Papa Clemente V (1305-1314) extinguiu definitivamente a Ordem dos Cavaleiros Templários no Concílio de Viena, em 1312. Clemente V não era dono de uma personalidade tão forte quanto seu Predecessor, o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), que foi preso e assassinado por Felipe, o Belo, por ir de encontro às suas ambições. Sabe-se que Clemente V não concordava com a condenação injusta dos Templários pelo Rei Felipe, muito embora se diga que esta condenação se deu de comum acordo entre o Rei e o Papa. Um reforma talvez resolvesse o problema, servindo para limpar a Ordem do seu poder e posses financeiras. Contudo, diante das pressões e violentas ameaças de Felipe IV, Clemente V cedeu e extinguiu a Ordem.

O fato de Clemente V ter frustrado os planos de Felipe de se apossar das propriedades e riquezas templárias, legando-as aos Cavaleiros Hospitalários, parece provar contundentemente que este Pontífice não concordava ou se arrependeu com a condenação do Rei à Ordem, embora tenha cedido a ela diante das ameaças deste mesmo Rei.

* Clara Vallis, Claraval, Clairvaux, Vale Claro.



Fontes: Hermanibus Martinista - http://www.hermanubis.com.br/
https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-sao-bernardo-claraval/131/102/
Fonte da Gravura: https://i.pinimg.com/564x/ae/21/e8/ae21e863311b128f2d5c7af862d6f2f6.jpg

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

DOS ANTIGOS MISTÉRIOS À MENSAGEM ESOTÉRICA DOS TEMPLÁRIOS


Nada para nós, Senhor, nada para nós, mas para glorificar o teu nome.


Já tendo abordado várias facetas da Milícia de Cristo iremos, neste capítulo, focar um aspecto diferente, mas que é, quanto a nós, talvez o mais importante: refere-se precisamente à Ordem do Templo. Fundada no século XII, teve um papel importantíssimo em toda a Europa, sobretudo no lado ocidental e, muito particularmente, em Portugal.

Há um fato, um fenômeno que nos suscita uma questão: porque é que no imaginário português está tão presente e tão viva a história dos Templários e o seu ideário? Não é fácil encontrar uma resposta definitiva, pois falta-nos ainda muito para compreender na sua totalidade este fenômeno que foi a Ordem do Templo.

Relativamente ao tema deste capítulo há, por um lado, a mensagem propriamente dita – que nem sempre é abordada e, por outro lado, existe um aspecto mais divulgado e extremamente importante, que é o dos símbolos e da história templária. Porém, este último aspecto sem a mensagem, sem o lado esotérico, equivale a um corpo sem alma, impedindo-nos de entender as causas profundas que moveram a Ordem do Templo. Convém, no entanto, esclarecer que o lado esotérico é muito subjetivo. O verdadeiro esoterismo não pode ser dito; o que se pode é propiciar o caminho para se chegar ao interior das coisas, às realidades que se encontram para além das aparências.

      S. Bernardo de Claraval


Se recuarmos um pouco na história, veremos que os finais de Roma coincidiram com a perda dos Mistérios na Europa, que se trasladaram para o Oriente. Nesse momento aconteceu a queda do Império Romano que originou a Idade Média europeia. Oficialmente, Roma caiu em 453 d.C., mas, na realidade, já tinha caído aquando do assassinato do Imperador Juliano e a consequente perda dos Mistérios e dos valores do mundo clássico. A partir daí assiste-se a um interregno enorme, comumente chamado “Idade Média”, que é na realidade um período intermédio entre duas culturas, duas civilizações. Os Mistérios deslocaram-se, pois, para o Oriente e o pouco que ficou foi canalizado por determinadas personagens, a nível individual, e por algumas organizações. A primeira tentativa de fazer emergir a Humanidade ocidental dessa terrível noite medieval nasceu com a Távola Redonda, o Rei Artur e o mito de Camelot, baseado no antigo esoterismo druídico celta. Cinco ou seis séculos mais tarde nasceu um fenômeno na Europa, uma personagem absolutamente excepcional, tanto sob o ponto de vista político como místico: São Bernardo.


Bernardo de Claraval. Mentor da Ordem do Templo a Ocidente e da Ordem Teutônica a Oriente, foi o precursor do projeto espiritual de uma Europa Unida.


O contexto histórico do século XII proporcionou o advento de São Bernardo. Para além deste vulto de gênio também surgiu a Escola de Chartres que muito contribuiu para o renascimento da antiga maçonaria de tipo egípcio na Europa. Os Templários, cuja Ordem foi fundada nos inícios do século XII, vão-se inserir perfeitamente neste portentoso fluxo de conhecimentos e espiritualidade, ao assimilarem os conhecimentos que a Escola de Chartres lhes propiciou, conhecimentos esses baseados na fusão do que restou dos antigos Mistérios de Roma com os Mistérios druídicos.

Havia a necessidade de uma organização que fosse a catalisadora de todo esse fluxo espiritual. Por um lado apareceu São Bernardo e, por outro, a Escola de Chartres, com a qual se deu início à construção das catedrais góticas, autênticos livros de pedra lavrada repletos de significado simbólico e esotérico. Ali estava todo um manancial de saber que, depois, irradiou um pouco por toda a Europa. Porém, a nível de organização propriamente dita, atuando no campo político e esotérico, surge a Ordem do Templo.

Os Templários apareceram com todo um conjunto de símbolos que tornavam evidente a sua missão para aqueles que os sabiam interpretar. Assim, quem sabia ler esses símbolos entrou imediatamente em contato com a mensagem esotérica e aderiu, de uma forma intelectual ou prática, à obra que os Templários se dispunham fazer. Não foi uma obra dentro de um contexto isolado, já que houve condições para que a realizassem. Se assim não fosse, nunca poderiam ter feito o que fizeram. No entanto, há um dado que importa salientar e que, quanto a nós, é a parte mais interessante desta temática: é que eles não concluíram a obra ou, como diria Fernando Pessoa “há uma missão que falta cumprir”. Nesta base, falar do passado é extremamente importante, mas falar do futuro assente no passado não é menos necessário. O passado, não o podemos modificar; o futuro, ainda o podemos construir.






Reflitamos um pouco sobre o significado da palavra TEMPLÁRIO. Eles pertenciam à Ordem do Templo, queriam construir um templo. A Ordem também tinha um outro nome: MILÍCIA DE CRISTO. Contudo, os Templários não se referiam em sentido estrito ao Cristo da Igreja Católica, mas ao Cristo Cósmico, porque Christos significa o Iluminado, que é o mesmo que Budha ou estado búdhico. Da mesma forma que Budha se chamava Sidharta Gautama antes de alcançar o estado búdhico ou a Iluminação, também Cristo se chamava Jesus antes de alcançar o estado crístico, ou seja, a Iluminação. Cedo os homens alteraram a sua mensagem, temporalizaram-na demasiado, tendo-se criado uma ou várias fraturas no cristianismo, a mais importante das quais no século IV, que deu à Igreja Católica Romana o domínio de todo o Ocidente e à qual todos deviam estar submetidos, sob pena de excomunhão. Ficaram de fora todos aqueles que seguiam a pureza do cristianismo original. Foram vários os movimentos que canalizaram esse espírito, nomeadamente a Gnose e, mais tarde – já que não iremos aqui fazer uma retrospectiva do cristianismo -, os Templários. Relativamente à denominação Ordem do Templo, é claro que, oficialmente, referiam-se ao Templo de Salomão; no entanto, este último só tinha importância para eles no seu aspecto simbólico porque, na realidade, o que eles queriam era construir o templo dentro deles próprios para, depois, se refletir no exterior. Por quê? Porque, para os Templários, como para todos os que seguem a via esotérica, o Homem é o templo de Deus. O Homem é feito à imagem de Deus. Só que a parte feita à imagem de Deus não é o corpo físico, mas o Espírito. Quando se entendeu, erroneamente, que era o corpo físico que estava feito à imagem de Deus, antropomorfizou-se Deus e criou-se Deus à imagem do homem e não o Homem à imagem de Deus. Na verdade, o corpo é o receptáculo-templo que alberga o Espírito, como um templo de pedra também alberga o Espírito. Daí haver toda uma relação entre o templo-universo-macrocosmos e o templo/corpo humano-homem-microcosmos. Assim, verificamos que as igrejas de outrora eram todas construídas na base da relação entre o macrocosmos e o microcosmos. Exemplificando, a planta típica de uma igreja compunha-se da seguinte forma:

a) havia uma nave central (linha vertical);

b) depois o transepto que cortava a nave (linha horizontal);

c) e a ábside (forma redonda)

Este esquema representa o Homem com os braços abertos e com a cabeça virada para o Oriente. O templo tinha determinadas formas, regras e leis, pois interessava que ao entrar aí o Homem sofresse um processo de transmutação. É evidente que tudo isso é simbólico, mas havendo a forma adequada o espírito pode entrar nela. O templo estava sempre orientado, pois se não estivesse no eixo oriente-ocidente estaria desorientado.

Ora, já temos um símbolo bastante indicativo do que pretendiam os Templários. Não iremos aqui analisar o número oito, mas sim o número cinco que tem mais diretamente a ver com o tema que agora nos ocupa e é uma das muitas chaves de acesso ao conhecimento interno da Ordem. Tomar, a segunda província templária no mundo, foi um foco importantíssimo de irradiação mística, espiritual e esotérica. Aí, na rosácea do pórtico principal da Igreja de Santa Maria do Olival – onde está sepultado Gualdim Pais, fundador do castelo e da cidade de Tomar -, está inscrita uma estrela de cinco pontas sobre uma rosa com as pétalas abertas. É clara aqui a relação entre a rosa e a cruz, à semelhança da que foi recentemente descoberta no interior do próprio castelo e que despertou, finalmente, a atenção dos nossos historiadores oficiais, ou seja, exotéricos. Começa-se, assim, a relacionar todo o simbolismo existente entre a Rosa e a Cruz.


A estrela de cinco pontas na Igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar. Repare-se na foto de cima, onde a estrela surge de uma flor com as pétalas abertas.


A estrela de cinco pontas representa o microcosmos/homem, o quinto princípio humano – mente superior ou parte espiritual. Representa igualmente aquilo a que Fernando Pessoa chamou o quinto império, porque o quinto elemento é aquele que emerge do quatro, do quadrado. Se tivermos um quadrado e traçarmos duas diagonais, o seu ponto de intersecção é o quinto elemento e, se lhe dermos profundidade ao elevar esse ponto central, obteremos uma pirâmide de base quadrada e quatro lados triangulares que dá o número sete, símbolo da realização humana completa.

A nossa meta é a obtenção do quinto elemento, porque o quatro já nós o conhecemos: os quatro ângulos do espaço, os quatro pontos cardeais, o “quaternário”. O “quadrado” por si vê as coisas de forma quadrada. Necessitamos de uma dimensão metafísica, espiritual. É aí que entra o quinto elemento (o que dá profundidade), que os orientais, os alquimistas chamaram éter. Não interessa tanto o nome, mas sim que esse quinto elemento é o elemento espiritual.

Os Templários também deixaram outros símbolos que todos nós conhecemos. Um deles é o famoso medalhão com dois cavaleiros numa montada, símbolo da pobreza inicial da Ordem, já que os cavaleiros templários, à semelhança de todos os movimentos espirituais, começaram realmente com muitas dificuldades. Mas há um outro simbolismo por detrás desse, que é a representação de dois mundos, de duas missões; representa a dualidade esotérico/exotérico, espiritual/material. Os Templários tinham uma missão exotérica (exterior), pública, que satisfazia a Igreja e outra, interna, que nós ainda hoje não conseguimos desvendar na sua totalidade. Felizmente deixaram-nos símbolos, marcas, sinais que nos possibilitam avançar na busca.


A dualidade inscrita no medalhão templário e no seu gonfalão representa igualmente a luta do bem contra o mal.


Também utilizaram como símbolo o machado duplo, que vamos encontrar nas mais diversas civilizações do passado. Em Creta, no palácio do rei Minos havia o labirinto (da raiz labris = machado) onde estava encerrado o Minotauro. Teseu, o herói grego, entrou aí munido de duas armas ou instrumentos: um fio e um machado duplo. Foi com este último instrumento que ele matou o Minotauro. Do ponto de vista psicológico, este mito significa que o labirinto está dentro de nós e que, para encontrar o seu centro e matar o monstro, há que estar preparado e ir munido com esse fio para não perder o rumo e com o machado duplo para fazer um trabalho interno e outro externo.

Os Templários trabalhavam a sua natureza interna, tornando-se puros e convictos do Ideal que os habitava: um Ideal profundamente humano, universal, que se insere na atual Era de Aquário. Eles sabiam bem o perigo de cair na especulação intelectual. Atualmente, e para nosso grande mal, intelectualizamos muito e atuamos muito pouco, cristalizamos demasiado o nosso pensamento a ponto de a prática não se conformar com o que pensamos. Os cavaleiros do Templo, ao invés, não separavam o intelecto da prática. Recordemos que a divisa templária é “ORA ET LABORA”, ou seja, orar e trabalhar; cultivar o nosso interior e aplicar os seus frutos em prol da comunidade.

Dinis terá sido, na Europa do século XIV, o rei que melhor entendeu e soube da missão dos Templários. Assumindo a qualidade de Pontifex, assegurou a ponte entre o visível e o invisível, entre o mundo material e o mundo espiritual. Rei, poeta, lavrador, o seu símbolo era, por excelência, o machado duplo, que refletia a sua dupla ação: como poeta, lavrou os campos do espírito e, como lavrador, cultivou os terrenos físicos. D. Dinis lavrou as terras, construiu naus e preparou a epopeia marítima lusa que viria no futuro. Tal como diz Fernando Pessoa, “foi o plantador de naus a haver”. Além disso, protegeu os Templários perseguidos em toda a Europa pela cobiça de Filipe o Belo, criando para o efeito a Ordem de Cristo em substituição da extinta Ordem do Templo. A Ordem mudou de nome, mas os cavaleiros da Milícia de Cristo (nome pelo qual também eram conhecidos os Templários) foram preservados assim como os seus bens. D. Dinis, com este golpe político de génio, permitiu que a missão da Ordem do Templo continuasse na Europa, na sua primeira fase e, posteriormente na sua segunda fase, no mundo, como de facto veio a acontecer com resultados palpáveis na época dos Descobrimentos.

No Convento de Cristo em Tomar podemos observar ainda outros símbolos, criptogramas e criptografados com vários níveis de acesso. É interessante depararmos com uma mão com cinco dedos esculpida na pedra, uma das muitas chaves simbólicas representativas do quinto elemento utilizado tanto pelos Templários como pelas facções esotéricas do Islão. Inclusivamente e o que é interessante para um estudioso, trata-se de um símbolo universal que se encontra desde a América pré-colombiana até às culturas megalíticas. Num dos claustros do mesmo convento vemos também, esculpida na pedra, uma figura enigmática: Hermes Trismegisto. É uma divindade egípcia muito esotérica que simboliza, de entre muitas coisas, o conhecimento interno da natureza. De Hermes provém a palavra hermetismo, o que é hermético, fechado, reservado aos iniciados.

Outra figura que presumivelmente podemos encontrar no Convento de Cristo é o célebre Baphomet. Houve quem erradamente pensasse que se tratava do diabo. Na realidade, a palavra Baphomet provém do grego Bafe e Metis que significa “iniciação na sabedoria”, pelo que a sua presença nesse lugar terá um sentido mais amplo… a fazer fé pela forma como este símbolo é representado.

Um outro aspecto a realçar, e já referenciado, é o de que o Castelo de Tomar configura uma barca e está desenhado à imagem da constelação do Boieiro, da qual faz parte a estrela Arcturo (Arthus/Artur). Este desenho ou representação simbólica, figurada da barca do Castelo com a constelação do Boieiro, tem o seu quid, pois induz a missão a cumprir no tempo terreno. É um dos legados transmitidos e que nos indicia uma relação entre os cavaleiros templários em Portugal e o mito do Rei Artur. Lembremo-nos que o Rei Artur, o Rei Urso, num dos seus aspectos, é aquele que encarna na Terra o poder espiritual.


Arthus/Artur: o mito


Há uma lei na evolução do mito por forma a que as proezas de um herói antigo sejam “reatualizadas” nas de um herói mais recente. Assim, o novo Hércules (ou Arjuna, personagem guerreira do Bhagavad Gîta do pensamento indiano) do século VI d.C. chama-se Arthus e o seu instrutor é Merlin (o Krishna galocelta), o mestre iniciador que se manifesta ao discípulo antes de este dar início ao seu trabalho redentor. Merlin, arquidruida ou pontífice, surge epifanicamente perante o olhar assombrado de Arthus, incumbindo-o de empreender a difícil tarefa da conquista do Santo Graal, ou Monte Santo da iniciação, que não é nenhum cálice, taça, jóia ou pedra física.

Merlin, como mestre-iniciador, guarda relações com todos os heróis das teogonias e, deste modo, assume-se como Hércules ógmico – deus civilizador -, que inspira com seus doze trabalhos solares a demanda de seu discípulo Arthus. Este reúne, então, seus doze cavaleiros/discípulos em redor da mesa ou Távola Redonda, cavaleiros esses que representam os doze meses do ano e os doze trabalhos hercúleos que o Sol realiza na Terra ao longo do ano. Ou ainda, os doze patriarcas antediluvianos, os doze discípulos de Jesus Cristo, os doze deuses maiores, ou signos do Zodíaco…

A tradição cavaleiresca apresenta-nos Merlin encerrado na cidade de Daythia do submundo, transformado em corvo, ou seja, sumido nas trevas deste ciclo humano de queda na matéria, à espera do cisne, o Lohengrin ou cavaleiro andante do ideal, que virá um dia desencantá-lo, isto é, propiciar o ressurgimento da magia branca que trará de novo a Idade de Ouro. A lenda simbólica de Merlin está, pois, relacionada com as grandes lendas iniciáticas, desde o Prometeu agrilhoado, até ao Paraíso Perdido, às duas aves, branca e negra, de Odin (Hugin e Munin), e ao símbolo do corvo-cisne dos cavaleiros Templários.

Assim, o ancião Merlin, o jovem Arthus, os doze cavaleiros da Távola Redonda, mesa eucarística do Santo Graal, conformam todos uma teogonia medieval que, como as antigas, se apresenta no seu séptuplo significado (ou sete chaves de interpretação): astronómico, numérico, geométrico, filológico, biológico, artístico e histórico. E, tal como as demais, tratando-se de uma teogonia secreta, somente por iniciação se poderia alcançá-la.

A Távola Redonda, mesa eucarística do Santo Graal


À sua volta encontram-se os doze cavaleiros, iguais entre iguais. O cadeirão vazio (ou trono) aguarda o momento próprio para ser ocupado pelo Senhor do Mundo.


Por conseguinte, é mais um sinal de algo que os Templários nos quiseram deixar quanto ao sentido da mensagem que pretendiam levar ao mundo e a missão que pretendiam fazer. Não foi por acaso que D. Dinis, conhecedor e sabedor da interpretação iniciática da tradição da Ordem do Templo, os tenha protegido, compreendido e impulsionado na sua missão de levarem o ensinamento do Quinto Império ao mundo através da saga dos Descobrimentos Lusos. Porém, ainda não havia chegado a Hora, como bem entenderam os visionários da nossa história, entre os quais Camões e Fernando Pessoa.

O que é que podemos extrair, no imediato, da mensagem templária? Que não se pode realizar uma obra espiritual se se estiver demasiado apegado às coisas terrenas, dissipando a vida em ódios e intrigas. Há que primeiro realizar um trabalho interno de transmutação; depois, ter a coragem de o levar para a frente e de o concretizar. Neste momento, o que mais se necessita é de homens espirituais, de homens de boa vontade imbuídos do espírito de entrega e serviço a uma causa, a um ideal, com o fito de cumprir a missão pela qual a sua existência se realiza; homens de espírito que saibam a missão para a qual foram designados e tenham a luz, a força e o amor suficientes para canalizar todos os que aspiram, sem reservas, a ter um papel na história para que a missão se cumpra.

Esse sonho, esse Ideal habita de tal modo em nós que ainda hoje andamos massacrados interiormente com o Mito Sebastianista que, sob um determinado ponto de vista, é a consequência negativa desse sonho inacabado.

O que é que pretendiam os Templários? Pretendiam criar dentro do espírito da Nova Era e da Idade de Aquário, uma simbiose entre a Ciência e a Religião, ou seja, religião na ciência e ciência na religião, de modo a desenvolver a capacidade de percepcionar Deus, o Inteligível, a Unidade Cósmica na Ciência e na Religião. A Ordem do Templo, em suma, procurava a Verdade.

A mensagem que os Templários têm para nós é a de criar esse Quinto Império – o Império do Espírito na Terra, onde os valores espirituais predominam sobre os valores materiais. Isso não impede que haja concretização. Os frades do Templo sabiam muito bem que, para realizar a missão, era necessária uma sólida estrutura material, embora submetida aos valores do espírito. É esse o conceito de Quinto Império: o império do espírito sobre a matéria, o império do entendimento e da concórdia. No ideal templário todos tinham o seu lugar, porque haviam superado as diferenças de raças, credos, nacionalidades.

Nos séculos XII, XIII, embora fossem obrigados pelas circunstâncias a assumir uma posição oficial de acordo com as diretrizes da Igreja de Roma, mantiveram ocultamente ligações muito estreitas com as elites intelectuais do Oriente. Pretendiam preparar o terreno para que houvesse um entendimento entre os povos, baseado naquilo a que podemos chamar uma religião universal, respeitadora das diferenças de culto. Entendiam que Deus é Uno, que há um Caminho, uma Unidade, um Objetivo Último, um Destino Comum para toda a Humanidade.

Se aceitarmos que somos diferentes e que, apesar ou graças a essas diferenças, podemos conviver uns com os outros, porque sabemos que há algo de superior que nos une, começaremos a realizar no presente a anunciada Confederação de Estados regidos por um princípio unitário.

A obra que os Templários deixaram nas Índias e na América foi significativa; porém, ainda não tinha chegado o momento histórico para implantar um Império espiritual. Na realidade, tal como sucedeu na Grécia clássica com os pré-socráticos, houve naquela época um movimento esotérico que serviu de laboratório de ensaio para o futuro.

Os Templários constituíram um foco de luz de tal modo potente que ainda hoje ilumina o inconsciente coletivo do povo português. É uma força que não conseguimos controlar, pois ultrapassa a nossa razão. Daí querermos entender a mensagem que eles nos deixaram, descobrir verdadeiramente por que é que existiram, já que pressentimos que há algo que ficou inacabado. Há que procurar inteligir os símbolos, procurar compreender a missão templária e depois fazer a ligação com o futuro, com a Nova Era.

Portugal tem um papel importante no mundo. Teve no passado quando desbravou as trevas da Idade Média e terá no futuro dando o exemplo de como se pode conviver com os outros povos, independentemente de credos ou raças. Essa inspiradora luz podemos nós encontrá-la na Ordem do Templo (ou de Cristo) que é parte integrante da nossa história e é essa mesma história que agora nos chama para a missão do futuro. Chegou a Hora.





Eduardo Amarante






Fonte do Texto e das Gravuras: Cerberus Magazine
http://www.cerberusmagazine.com/dos-antigos-misterios-a-mensagem-esoterica-dos-templarios/

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A TRAJETÓRIA DA MAGIA

(...) Como os estudantes de arqueologia e os expoentes máximos de religião comparada nos informam, a magia remonta aos primórdios da vida do homem neste planeta. Todos os sistemas religiosos, com exceção possivelmente de algumas seitas protestantes e do budismo meridional, fizeram durante um certo período, uso da magia cerimonial. (...)

Se as autoridades forem cuidadosamente estudadas, observar-se-á que, falando de maneira geral, cada religião assimila o melhor da religião antecedente, e o resto é deixado para a ralé ignorante e para aqueles sacerdotes da velha religião que não se conformam o novo. À medida que a nova religião se organiza, ela começa a perseguir os remanescentes da antiga, e esses remanescentes são empurradas para o submundo. Essa situação aflorou quando o Cristianismo emergiu de sua infância e se tornou a religião dominante do Ocidente. A velha religião desintegrou-se, e a Igreja Católica absorveu muito de sua filosofia e de seu ritual, impregnando, gradualmente, todos os níveis da sociedade, até que os seguidores da velha fé fossem apenas seres rústicos, residentes em lugares distantes e isolados. Esses rústicos ou pagãos, não versados na filosofia de sua religião, transmitiram uma face deturpada da mesma. Eles nunca deixaram de ser perseguidos cruelmente, mas seu número era constantemente acrescido por muitas fontes, incluindo aqueles que se rebelaram contra as posições papais.

Quando, contudo, o impulso do Renascimento tornou possível quebrar o jugo de Roma, as mais piedosas Igrejas reformadas estavam tão intolerantes quanto Roma havia sido em sua perseguição às bruxas, feiticeiras e magos. A história da Europa do século XI ao XVII constitui-se em leitura aterrorizante. Com a emergência da “Idade da Razão”, a crença popular no poder maligno do mago começou a desaparecer. Simultaneamente, nos círculos protestantes ao menos, a crença religiosa começou a se deteriorar em uma formalidade que tinha muito pouca força mobilizadora.

Esse nível de mediocridade na Inglaterra alcançou o apogeu na era vitoriana, quando a Física, pela boca de seus maiores expoentes, declarou “não existir lugar no universo para fantasmas”, e o presidente da Sociedade Real declarou: “Na matéria eu vejo o potencial e a promessa de toda a vida.” Porém, com os crescentes conhecimentos acerca do universo que o desenvolvimento moderno da ciência trouxe, tais ideias tiveram que ser consideravelmente revistas, e físicos modernos como Eddington, Jeans ou Einstein, apresentaram uma ideia da natureza e um propósito do Universo que podem ser facilmente aceitos pelo mago. Levando-se em consideração a diferença de terminologia, os magos vêm falando a mesma coisa há séculos!

É, no entanto, com as modernas escolas de psicologia, mais particularmente a associada ao nome de C. G. Jung, que o mago encontra maior proximidade com o pensamento moderno. Pelo balanço curioso do pêndulo moderno, percebido por Heráclito, chamado de enantiodromia*, o que foi subjugado e obrigado à clandestinidade começa agora a aflorar para desalento dos ortodoxos.

Mas, embora reprimida e perseguida ao longo dos tempos, a magia nunca deixou de existir no mundo ocidental. A Igreja Romana adaptou habilidosamente muito da velha magia para seus próprios propósitos; por outro lado, nos bastidores, a magia tradicional corria para um dos rios clandestinos das terras altas, emergindo aqui e ali à luz do dia, para então desaparecer sob a superfície.

Uma dessas emergências foi a Ordem do Templo, cujos membros, os Cavaleiros Templários, foram aliviados de boa parte do ódio nutrido por eles pelos seus perseguidores; os Albigenses na França foram outra; os Irmãos da Dourada e Rosa Cruz, os Iluminados, os Magnetistas, os Teosofistas e numerosas outras ordens mágicas e fraternidades que surgiram na metade do século XIX estão também entre esses movimentos emergentes.

Desses, a mais famosa e a mais iluminada, do nosso ponto de vista, é a Ordem da Golden Dawn**. Fundada sobre supostas bases rosacruzes, ela conseguiu realizar uma síntese admirável de todas as ramificações oscilantes da magia; e, a despeito de muitas vicissitudes e divisões, ainda permanece fonte da Tradição Mágica Ocidental. (...)



*enantiodromia – de enatios, do grego, contrário, oposto. Seria a capacidade de certas forças, reprimidas por suas antagonistas, virem a substituí-las em movimento pendular. Por exemplo, a condenação medieval ao culto do corpo sendo substituída por esse culto por meio da recuperação dos ideais estéticos do renascimento. (N.doT.)

**Golden Dawn (Aurora Dourada) – ordem hermética fundada por mestres maçons na Inglaterra, que exercem grande influência sobre todo o desenvolvimento do Ocultismo no Ocidente, influência essa que perdura até hoje, ainda que de forma residual. (N.doT.)




E. W. Butler





Fonte: do livro "A Magia e o Mago", Ed. Bertrand, 2ª Edição
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal