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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

APATHEIA E AGAPE


A virtude do arrependimento nos ajuda a tomar consciência de nossas emoções egocêntricas e nos leva à humildade à medida que nos tornamos cada vez mais conscientes de nossa necessidade de Deus e de que sem Cristo nada podemos fazer.

O reconhecimento de nossas feridas, essa consciência curativa, nos leva a um crescente senso de harmonia e estabilidade em nossa vida emocional. Além disso, sabendo que somos amados apesar de nossas faltas, poderemos aceitar e amar cada vez mais o próximo, pois nos vemos refletidos no outro: "O monge é um homem que se considera um com todos os homens porque constantemente parece ver-se nos outros” (Evagrio Pontico, “Tratado sobre a oração”).

Evagrio chamou esse modo de ser harmonioso para o qual estamos crescendo com a ajuda da graça, uma combinação de "apatheia" (ausência de emoções de acordo com o estoicismo) e "agape" (amor): integração emocional e Amor Divino intimamente ligados: "Agape é a criatura da apatheia." Juan Casiano não usou este termo "apatheia", mas chamou-o de "pureza de coração". Thomas Merton explica que a pureza de coração é “uma total aceitação de nós mesmos e de nossa situação. A renúncia a qualquer imagem ilusória de nós mesmos, a qualquer superestimação de nossas próprias capacidades, para poder obedecer à vontade de Deus tal como ela se apresenta a nós.

Os contemplativos são frequentemente censurados por seu "egoísmo" porque são considerados preocupados apenas com sua própria salvação. Para Evagrio e os Padres e Mães do Deserto, a oração era fundamental. Era o que dava sentido às suas vidas. Mesmo assim, recebemos este ensinamento: “Pode acontecer que, enquanto estamos orando, um irmão venha nos ver. Então, temos que escolher entre interromper nossa oração ou entristecer nosso irmão, recusando-se a respondê-lo. Mas o amor é maior que a oração. A oração é uma virtude entre outras enquanto o amor as contém todas” (São João Clímaco s.VII).

Só depois de ter colocado a nossa própria casa em ordem é que podemos sentir compaixão sincera pelos outros e servir de apoio: "Alcance a paz interior e milhares ao seu redor encontrarão a salvação" (São Serafim de Sarov). Somos exortados a não esquecer que somos um com Cristo e que o que acontece ao próximo é de extrema importância para nós: “A vida e a morte dependem do nosso próximo. Se ganhamos o irmão, ganhamos a Deus. Mas se escandalizarmos nosso irmão, pecamos contra Cristo” (S. Antonio Abad).

O caminho espiritual nos ajuda a estreitar o espaço entre nós e os outros. Nós somos os guardiões de nosso irmão. Como resultado disso, o mundo se tornará um lugar mais pacífico; não mudar o mundo, mas mudar a nossa própria atitude, passando do interesse próprio para a preocupação com os outros, independentemente das relações familiares, do passado, das diferenças culturais ou religiosas. "Seja a mudança que você quer ver no mundo" (Gandhi). Esta é a essência dos ensinamentos de Jesus.


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

O DOM DAS LÁGRIMAS


O objetivo de nossa jornada espiritual é basicamente o mesmo que está expresso nesta frase que Thomas Merton escreveu sobre as Mães e Pais do Deserto: “O que os pais mais ansiavam era o seu verdadeiro eu em Cristo. E para isso eles tiveram que renunciar completamente ao falso eu, o eu fabricado sob a compulsão social do mundo. Precisamos perceber que somos muito mais do que nosso 'eu falso e superficial'. A jornada espiritual é a peregrinação para aquele 'verdadeiro ser em Cristo.'”

Nem todos podemos ir para um verdadeiro deserto, mas podemos entrar no silêncio interior e na solidão que a meditação nos oferece para deixar para trás nossos pensamentos que muitas vezes giram apenas em torno do nosso "eu" condicionado e, nessa quietude e paz interior, vamos experimentar quem realmente somos, "nosso verdadeiro eu em Cristo".

O primeiro sinal de cura é muitas vezes a abundância de lágrimas. Os Padres e Mães do Deserto o chamavam de “o dom das lágrimas”: “Primeiro reze pelo dom das lágrimas para que através da dor você possa suavizar sua aspereza nativa. Então, uma vez que você tenha confessado seus pecados ao Senhor, você obterá o perdão para eles” (Evagrius Ponticus, “Tratado da Oração”, cap. 5). Essas lágrimas são aquelas que não derramamos quando nos machucamos, mas são um sinal da crescente consciência e remorso que temos pelos danos que infligimos aos outros quando agimos por nossa própria ignorância e nossas feridas. Esse reconhecimento, tanto de nossas feridas quanto das que causamos aos outros, é o passo mais importante no caminho da cura.

São Paulo até chama isso de remorso, arrependimento, o primeiro batismo. Você é batizado com suas próprias lágrimas. “Penthos”, a raiz grega da palavra “arrependimento”, significa tristeza e dor. Isso não tem nada a ver com culpa. Na verdade, a culpa é um produto do ego. Ao nos acusarmos de nossas más ações, mostramos a nós mesmos que não somos dignos. E isso se confirma em nossa baixa autoestima. Em vez de buscar a cura e o perdão, ficamos entrincheirados em nossa auto-rejeição prejudicial. No entanto, o verdadeiro remorso leva ao perdão imediato, como vemos pelo que foi dito acima.

Não havia dúvida do que os Padres do Deserto pensavam sobre isso: “Um soldado perguntou ao velho: Deus aceita o arrependimento? O velho responde: diga-me, querido, se suas roupas estão rasgadas, você as joga fora? A resposta do soldado foi: não, eu conserto e continuo usando. E o velho lhe disse: se você salva sua própria roupa, você não acha que Deus seria amável com alguém feito à sua imagem?" (Vitae Patrum).

O segundo batismo, segundo São Paulo, é o batismo do Espírito que só é possível depois que nossas lágrimas abrandaram a dureza de nossos corações, nossa grosseria e nos ajudaram a deixar para trás nosso egocentrismo. Então o véu é levantado momentaneamente e nos é concedida uma experiência dada pela graça sobre “nosso verdadeiro eu em Cristo” à medida que nos tornamos conscientes e abertos à influência curativa e amorosa do Espírito inundando nosso verdadeiro centro em um momento vitalmente transformador.



Kim Nataraja




Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

REFLEXÃO PARA O ADVENTO - MEDITAÇÃO: PRÁTICA QUE SECA A RAIZ DO MAL DENTRO DE NÓS


No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um batismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: "Uma voz clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.'" (Lc 3:1-6)

Lucas gosta de pôr a história que está contando sobre Jesus no contexto da História do Mundo. Do seu registo sobre a liderança política que estava no poder quando João Batista, um parente de Jesus, começou a sua pregação, sabemos que eles tinham ambos cerca de 30 anos de idade quando emergiram na cena pública.

Uma pequenina parte privada de nós mesmos acredita que nunca crescemos realmente. Apesar da nossa experiência, temos um sentido de contínuo de identidade desde as nossas mais precoces memórias. Mesmo que "eu tenha mudado a ponto de ficar irreconhecível", reconhecemos realmente o "eu" que mudou. E, depois, há as nossas questões, os nossos interesses, problemas, fantasias e medos. Estes podem ser mais bem geridos ou ficar camuflados à medida que amadurecemos, mas são essencialmente inerradicáveis. São instilados tanto pelos nossos genes como pelo ambiente e pelas experiências emocionais dos nossos primeiros anos de vida. Os pontos de viragem da nossa história pessoal, seja o que for que estiver a acontecer no mundo em nosso redor, são a forma como ouvimos o nosso chamamento personalizado e como respondemos.

João Batista é o último dos profetas à moda antiga. Na sua caricatura moderna, ele é engraçado – engraçado por ser estranho, não pelo humor. Era retratado como andando meio nu, com rastas no cabelo, comendo insetos e mel e gritando às pessoas que estão no cais esperando pelo comboio matinal que o fim do mundo vem aí por causa da degenerescência dos tempos. Porém, na sua época, ele era visto de modo diferente. As pessoas acudiam a ele com a mais fundamental de todas as questões éticas: "Então, o que é que havemos de fazer?" A sua resposta era simples: partilhem o que têm, não explorem os outros, não abusem do poder, pratiquem a integridade.


Até aqui, ele é reconhecível. Ainda queremos ouvir o que os profetas do nosso próprio tempo têm para dizer, mesmo que tenhamos dificuldade em distinguir os profetas genuínos dos falsos, as teorias da conspiração da verdade sempre mais rica em nuances. Como é que alguma vez aprenderemos a voltar a confiar? Talvez seja através da outra coisa que ele lhes disse para fazer: arrependermo-nos e pedir perdão dos nossos pecados. E como é que recordamos o que realmente significam o arrependimento e o pecado, sem ficarmos devastados pela culpa ou autoconvencidos por sermos penitentes e convertidos? Talvez lembrando porque é que a Nuvem do Não Saber diz que "este trabalho (da meditação) seca a raiz do pecado dentro de nós".

Há uma certa tristeza e sensação de fim duma era neste jovem intenso, condenado e profético, tocado pela Palavra de Deus e conduzido a pregar no Vale do Jordão. Mas ele é, também, um marginal noutro sentido. Apenas a um passo dele está alguém, de fato um familiar mais novo com outro tipo de carisma, que as pessoas irão um dia dizer que encarna a Palavra de Deus e que conhecer, ainda que um pouquinho, significa ser-se mudado (quase) a ponto de se ficar irreconhecível.



Laurence Freeman, OSB




Fonte: Comunidade Mundial de Meditação Cristã - Portugal
Bonnevaux
www.meditacaocrista.com
Canal Youtube: Meditação Cristã-WCCM Portugal
Facebook: https://www.facebook.com/meditacaocristaportugal
Fonte das Gravuras:
https://pixabay.com/pt/photos/vitral-colorido-batismo-adulto-4052419/
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

EM PAZ OU TORTURADOS PELO REMORSO ?


Imagine o leitor o arrependimento, o remorso, nos estados mais expressivos causando perda de sono, de apetite e até afetando o encanto da alegria de viver. Somam-se a ele as angústias próprias das preocupações, de variadas origens, agravadas muitas vezes com as dificuldades de relacionamento, com medos e outros estados.

Por outro lado, considere os estados de tranquilidade da alma pacificada. Sim, aquela decorrente da paz de consciência que traz alegria e harmonia que influem diretamente nos relacionamentos, na produtividade do trabalho, no bem-estar familiar.

Pois esses são estados de consciência, que se pode ampliar também para as noções do dever familiar ou profissional e da consciência como cidadão, como cristão.

Mas não é esse ângulo que queremos destacar. Objetivo é mesmo destacar esses tormentos próprios da ausência da paz de consciência ou da harmonia decorrente exatamente também, agora presente, da paz de consciência.

Há milênios destaca-se a existência de um céu e de um inferno, mas eles nada mais são que estados de consciência. É ingenuidade imaginar um céu de ociosidade ou de contemplação eterna, sem atividade, o que tornaria o céu um outro inferno. Ou, ao mesmo tempo, imaginar um inferno destinado ao sofrimento eterno, sem possibilidade de libertação e ainda entregue ao comando de um ser que o próprio Deus não poderia comandar, na figura infantil do chamado e desacreditado diabo.

Não existem o céu e o inferno. Estes podem existir desde já no interior de cada um de nós, de acordo com nossas posturas morais e comportamentos que adotamos. O que existem são estados de consciência, que pode estar em paz ou torturada pelo remorso, pelo arrependimento.

Diabo somos nós quando nos alimentamos de inveja, de ciúme, de rancor, de desejo de vingança, de avareza, quando agimos nos bastidores para manipular e benfeitores somos quando usamos o perdão, a benevolência, a humildade, a solidariedade.

Não há o castigo do inferno ou a premiação da ociosidade nas leis que regem a vida. O que existem são leis sábias que comandam a vida com justiça e misericórdia, sintetizada na célebre frase: “A cada um segundo suas próprias obras”, na sabedoria do Mestre da Humanidade.

Agora que a mentalidade amadureceu somos convidados a uma postura moral mais adequada com o progresso de nosso tempo e com as diretrizes que começamos a compreender com mais clareza.

Veja-se a complexidade do momento atual do país. Ela é fruto de nossas imperfeições morais, individuais e coletivas, que resultaram no quadro social que aí está. Mas estamos capacitados para superá-lo, colocando a consciência no cumprimento do dever, agindo com retidão para não adentrarmos depois no “inferno” da consciência de culpa. O céu de harmonia e paz que esperamos está em nossas mãos!


Orson Peter Carrara



Fonte: Grupo de Estudos Avançados Espíritas
https://www.geae.net.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/solit%C3%A1rio-homem-chorando-sozinho-1510265/

quarta-feira, 15 de julho de 2020

SOBRE A COMPUNÇÃO *


É uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos.

Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida.


Thomas Merton, OSB


* Contrição; sentimento de remorso, de culpa, de arrependimento; tristeza profunda por ter proferido ofensas; excesso de pesar, de sofrimento por ter praticado uma má ação.


Fonte: A vida silenciosa, Ed. Vozes, 2002, p.108
Via Associação Thomas Merton - https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/homem-pensamento-pensamentos-2546791/



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

NÃO TER NADA DO QUE SE ARREPENDER

Milarepa disse: “Minha religião é não ter nada do que se arrepender quando morrer”. Mas a maioria das pessoas não dá nenhuma importância a essa maneira de pensar. Fingimos ser muito calmos e controlados, cheios de palavras doces, para que as pessoas comuns — que não conhecem nossos pensamentos — digam: “Esse é um verdadeiro bodisatva”. Mas é apenas nosso comportamento externo que elas vêem.

A coisa importante a fazer é não realizar qualquer coisa que possamos nos arrepender depois. Portanto, precisamos nos examinar honestamente.

Infelizmente, nosso apego ao ego é tão grosseiro que, mesmo se tivermos sim alguma pequena qualidade, pensamos que somos maravilhosos. Por outro lado, se temos algum grande defeito, nem mesmo percebemos. Há um ditado que diz: “No pico do orgulho, a água das boas qualidades não permanece”.

Então, devemos ser muito meticulosos. Se, após examinarmos completamente a nós mesmos, pudermos colocar as mãos no coração e honestamente pensar: “Minhas ações estão todas corretas”, então isso é um sinal de que estamos ganhando alguma experiência no treinamento da mente.

Devemos então ficar contentes que nossa prática tem ido bem e nos determinar a fazer ainda melhor no futuro, assim como fizeram os bodisatvas de outros tempos.

Com todos os meios devemos gerar antídotos cada vez mais, agindo de modo a estar em paz conosco.




Dilgo Khyentse Rinpoche





Fonte: do livro “Enlightened Courage”, cap. 5 
Tradução de Flavio Shunya
http://bodisatva.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal




segunda-feira, 4 de março de 2013

APRENDENDO A PERDOAR A SI MESMO



Algumas pessoas prejudicam outras e pedem perdão, que pode ser aceito ou não; mas há algumas atitudes em que o único prejudicado é você mesmo. Se você vive apontando seu dedo indicador constantemente para seu próprio nariz, cuidado!

A culpa varia de acordo com crenças e valores que cada um traz consigo desde a infância, e que muitas vezes não corresponde mais aos valores e crenças atuais. Culpa, remorso, arrependimento, são inimigos constantes de algumas pessoas e traz junto a humilhação, vergonha, o medo e a maior consequência: a autopunição.

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios, pois está relacionado com a capacidade - e leia-se também dificuldade - que cada um tem de se amar e se aceitar. As pessoas não se amam por acreditarem terem feito algo muito terrível, às vezes isso até corresponde à verdade, mas muitas vezes não.

Algumas chegam ao máximo de se culparem por terem nascido e sentem-se como um grande fardo. Para compensarem essa rejeição sentida em algum momento de sua vida, passam a vida tentando mostrar aos outros o quanto são úteis, importantes, como que para provarem para si próprias que são merecedoras da vida.

Procure observar se busca aprovação e reconhecimento de pais, amigos, das pessoas em geral, se está sempre à disposição de todos, cedendo em quase tudo, pela necessidade inconsciente de agradar, ser aceito, mas que muitas vezes confunde-se com a desculpa de querer ajudar e que na verdade oculta a busca pelo amor e atenção.

Por exemplo, as pessoas por não se sentirem amadas quando crianças e não acreditarem em si mesmas passam a ignorar os próprios sentimentos e recorrem à fuga pela comida, como forma de compensação e obtenção do prazer. Com isso, se culpam e como punição, engordam.

Não conseguindo eliminar alguns quilos, mais culpas e assim, desviam o foco da origem de tudo para a comida. O foco passa a ser emagrecer e não o que as levou a engordar. Negam a si mesmas a subnutrição emocional que sentem e que pode levá-las a sentimentos de vazio e fome.

A comida passa a representar uma maneira de alimentar e preencher um vazio emocional. Ou seja, inconscientemente desviam a atenção dos problemas para a necessidade de emagrecer, os problemas continuam ou aumentam por não serem resolvidos e acabam consumindo mais calorias do que o corpo necessita, engordam, culpam-se, punem-se, criando-se assim, um círculo vicioso.

O perdão oferece saída para esse círculo vicioso, como uma escolha consciente de mudança. Será que a verdadeira causa está sendo considerada? Do contrário, tudo tende a piorar. Será que essa fome, esse vazio, não seria a necessidade, também inconsciente, de amor? É preciso perceber que a comida não será transformada em afeto, amor, mas apenas em gordura quando consumida de forma descontrolada. Por que não buscar outras fontes de prazer?

Uma maneira de cultivar a culpa é estar sempre exigindo perfeição de si mesmo. A anorexia e bulimia são exemplos disso. Nunca há satisfação consigo mesmo, gerando culpa, insatisfação e uma enorme dificuldade de se perdoar. Tudo que faz poderia ser melhor. Não importa o que faça ou conquiste. Ou o pior, não importa quem se é, parece que nunca é o bastante.

Para se livrar disso tudo faça uma lista de tudo aquilo que você se culpa, daquilo que fez e não fez. Seja honesto consigo mesmo. Depois, pense sobre as motivações que o fizeram fazer certas escolhas, agir de determinada forma e, ao invés de se culpar, punir ou se castigar, comece a lembrar que muitas escolhas foram feitas porque era o melhor que se podia fazer naquele momento e que na verdade, tudo foi avaliado com valores da época e que nem sempre serão os mesmos neste momento. Nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Para perdoar-se é preciso rever todas suas crenças, valores, que muitos esquecem que com o tempo podem, e devem, se modificar. Analisar o que fez ou deixou de fazer para poder mudar e crescer é válido, como sentir remorso pela dor que pode ter causado a alguém e pedir perdão. Mas se esse remorso começar a dominar sua vida, estará alimentado seu papel de vítima e a autopiedade. Livre-se disso. Você deve aprender e crescer com a experiência passada e isso não quer dizer se punir eternamente por algo já feito.

Perdoar a si mesmo exige uma completa honestidade e integridade para que se alcance a cura de tantos males, de tanta falta de amor-próprio. É um processo de reconhecer a verdade, assumir a responsabilidade pelo que fez, aprender com a experiência, reconhecer os sentimentos que motivaram determinados comportamentos, abrir seu coração para si mesmo, ouvir seus medos, curar certas feridas e isso você pode conseguir sendo amoroso e responsável consigo mesmo.

Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos. Mude o que não acredita mais, livre-se de tudo que te faz mal, cure a ferida que mais lhe dói, cure sua vida emocional. A verdadeira cura é fazer as pazes consigo mesmo. O poder curativo do perdão e do amor talvez seja o remédio mais poderoso que temos. E está nas mãos de cada um de nós. E você pode começar com você mesmo!




Rosemeire Zago (Psicóloga clínica – abordagem jungiana)




(desconheço a fonte do texto)
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/b%c3%adblia-miseric%c3%b3rdia-amor-perd%c3%a3o-2422571/