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quarta-feira, 9 de março de 2022

OS FRUTOS DA ÁRVORE DA VIDA




São João tinha o conhecimento perfeito da letra Aleph, que é o “primogênito de Deus”, o começo de todas as coisas, pois ele refere: «No começo, era o Verbo.» O Verbo é o Cristo; portanto, é ele o Mago cósmico; ele age com a ajuda dos quatro elementos, pelos quais tudo foi criado. Quando Jesus dizia: «O Meu Pai trabalha e eu trabalho com Ele.», era o Cristo que falava por seu intermédio, querendo sublinhar a ideia de que a sua atividade nunca acaba. E agora compreendeis que a cruz, o símbolo do Cristo, está ligada, ela própria, à ideia desta atividade de Deus no Universo. Quando é representada com a barra transversal inclinada, isso mostra que ela está em ação e, então, pela sua forma, é comparável a Aleph. É também esse o sentido da suástica, que se encontra em várias religiões, na Índia e na Grécia antiga… Aleph é a cruz cujo braço horizontal está inclinado, cujo equilíbrio foi rompido para permitir a ação, enquanto a cruz com os quatro braços iguais simboliza o equilíbrio absoluto dos dois princípios, masculino e feminino. Mas há outras formas de representar a cruz, por exemplo esta em que ela se torna uma chave que permite abrir todas as portas do Universo. A chave é uma imagem do homem, mas, enquanto não se souber nada sobre o homem, também não se saberá como abrir o Universo, que, na verdade, é o homem expandido até às dimensões do infinito.

Também se pode encontrar Aleph representado sob outras formas simbólicas: um cordeiro com uma cruz ou ainda uma serpente trespassada por uma flecha. Ambas são a imagem de Aleph, mas também a imagem do homem. Reparai: com o que é que se parece o esqueleto humano só com a coluna vertebral e a cabeça?... Tem a forma de uma serpente. E a flecha são os braços, a linha transversal de Aleph: a flecha que representa um movimento, o sentido no qual se dirige a atividade. Cristo, o Verbo, é precisamente uma cruz viva.

O que significa o cordeiro com a cruz? O cordeiro é a vítima do sacrifício, é o Amor. No começo, antes da criação do mundo, o Cordeiro sacrificou-se para que o mundo pudesse subsistir. Sim, para manter unidos os átomos e as moléculas, era necessária uma força de coesão, e essa força é o amor. Por isso se diz que o Cristo é o Cordeiro que foi imolado no começo do mundo… Encontramos em todos os domínios da vida esta força que permite ao mundo manter-se: é graças a ela que existem e se mantêm todos os corpos químicos, todas as moléculas, mas também todas as coletividades humanas, as famílias, as sociedades, as nações… Sem sacrifício, nada existe. Um conjunto só pode subsistir graças ao sacrifício de cada uma das suas partes. Se acabardes com o sacrifício nas suas múltiplas formas – olhares, palavras, atenção, entreajuda, renúncias –, tudo se desagregará e desaparecerá. Se quereis que uma coisa dure muito tempo, colocai na sua base o Cristo, o amor.

A conclusão prática do que eu acabo de transmitir-vos a respeito da letra Aleph, a primeira letra, é que nunca se deve começar o que quer que seja sem se conhecer as forças que se põe em movimento, pois o essencial é o começo. Desencadear forças e movimentos é sempre fácil, mas é muito difícil dirigi-los, orientá-los e, portanto, dominá-los. Se os políticos estivessem conscientes desta lei, refletiriam mais antes de decidirem certas mudanças. Muitas pessoas desencadearam um movimento revolucionário que julgavam poder dominar, mas acabaram completamente esmagadas por ele! A expressão “aprendiz de feiticeiro” designa precisamente o homem que, por imprudência, desencadeia correntes que, depois, é incapaz de controlar ou orientar.

Quer seja no plano físico, no plano astral ou no plano mental, o vosso poder não está no meio nem no fim, mas no começo. Imaginai que estais numa montanha, junto de um grande rochedo; se o fizerdes tombar ou rolar, ele obedecer-vos-á. Tendes a possibilidade de o deixar no mesmo sítio ou de o fazer rolar pela encosta; se o fizerdes tombar, ele obedecer-vos-á, evidentemente, mas depois acabou-se, perdereis o controlo do seu movimento e ele talvez provoque estragos que não conseguireis evitar. Do mesmo modo, quando sentirdes a cólera crescer dentro de vós, se decidirdes reprimi-la imediatamente, ela não explodirá, mas, se a deixardes explodir, já não conseguireis parar o seu curso. Isto também é verdade em relação a certas ideias que deixais instalarem-se em vós e que acabarão por tornar-se impossíveis de eliminar. Então, estai vigilantes, nunca esqueçais que Tav depende de Aleph, o fim depende do começo. Sede como o mago que, tendo iniciado conscientemente uma operação mágica, consegue chegar ao fim.

Ao dizer «Eu sou Aleph e Tav...», o Cristo indica-nos de que maneira devemos abordar a nossa atividade. O começo é o Céu, o mundo divino, e é começando pelo Céu que devemos descer progressivamente à matéria. Aquele que começa pela matéria para ir em direção ao Céu tem por diante desaires e sofrimentos. Duas pessoas que se amam devem começar por se amar espiritualmente, antes de se amarem fisicamente. Em geral, os homens e as mulheres fazem o contrário: começam por Tav e colocam Aleph no fim! Quando tudo estiver estragado, elas irão amar-se espiritualmente? Em tudo é preciso começar pelo começo, pela cabeça. Quando estudam o alfabeto hebraico, os cabalistas abordam primeiro as três letras mãe – Aleph, Mem e Shin – que criaram, respetivamente, o ar, a água e o fogo; em seguida, as sete letras duplas: Beth, Ghimel, Daleth, Kaf, Pe, Resch e Tav, que criaram os sete planetas; por fim, as doze letras simples: He, Vav, Zain, Heth, Teth, Iud, Lamed, Nun, Samech, Ain, Tsade e Quf, que criaram as doze constelações zodiacais. As vinte e duas letras abrangem, portanto, a totalidade da Criação.

Evidentemente, estas letras são apenas uma expressão material de princípios abstratos. Quando falais ou escreveis, vós combinais, como Deus, as letras e as palavras, e deste modo criais. Podeis criar nos seres a alegria, a confiança, o amor, a luz, ou então a mágoa, a sombra, a doença, o desespero. No segundo caso, não há escrita nem palavra, mas sim rabiscos e uma incoerência. A verdadeira evolução significa aprender a servir-se da palavra, da escrita, das formas e das imagens tendo em vista resultados divinos, ou seja, preparar os elementos do Verbo para criar unicamente o que é bom, belo e justo. Aquele que trabalha conscientemente neste domínio participa na obra de Deus e virá o dia em que será recrutado como obreiro de Deus, pois a Criação ainda não está completa. O Criador continua a trabalhar e necessita de operários que Lhe tragam um pouco de areia, um pouco de gesso. «Apenas isso?», questionareis vós. Sim, e não fiqueis envergonhados, não é certamente a nós que Ele escolherá para desempenhar o papel mais importante, mas, seja a que nível for, participar neste trabalho divino é glorioso. Refleti sobre a vida que Deus vos deu, focai-vos em todas as suas manifestações como n’O próprio Deus e dizei: «Doravante, esforçar-me-ei por só falar e agir com o objetivo de vivificar, apaziguar, esclarecer, reconfortar, encorajar e fortalecer as criaturas.» A partir do momento em que tomais esta decisão, o Verbo começa a encontrar o seu lugar em vós, e apercebeis-vos cada vez mais claramente de que possuís uma multiplicidade de elementos dados por Deus. Ainda não sabeis servir-vos deles, mas, pouco a pouco, sentis que esses elementos começam a obedecer-vos e tornais-vos mais poderosos. Mas também não podeis contentar-vos em pronunciar boas e belas palavras. É preciso levar essas palavras até ao fim, até à sua realização. Então, elas tornar-se-ão “verdades verdadeiramente verídicas”.

Agora, quero contar-vos uma história pessoal. Eu tinha dezessete anos e sentia necessidade de encontrar uma forma, uma figura geométrica que me desse, ao contemplá-la, a harmonia e a paz. Depois de pesquisar durante algum tempo, concentrei-me no círculo; em seguida, tomando como medida o raio desse círculo, dividi a circunferência em seis partes, o que me permitiu traçar seis círculos, e obtive uma rosácea (figura simétrica, terminada em circunferência, e que revela analogia com a rosa). Então, colori os seis círculos com as seis cores do prisma: violeta, azul, verde, amarelo, laranja, vermelho. E contemplei esse desenho, que me mergulhava num estado de êxtase. Era, para mim, o símbolo da perfeição. Ao fim de algum tempo, pareceu-me que ainda faltava alguma coisa. Ao tentar perceber o que era, um impulso misterioso levou-me a escrever por baixo da rosácea o início do Evangelho de S. João: «No começo, era o Verbo, e o Verbo era com Deus e o Verbo era Deus. Ele era no começo com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e nada do que foi feito foi feito sem Ele.» Por que estes versículos? Será que eu tinha uma ligação especial com eles? Sem dúvida, e pensei nisso toda a minha vida. Hoje, sei o porquê, completei assim o meu desenho…

São João revelou os mistérios do Verbo, que dão o poder de agir sobre as forças da Natureza. É este o seu Ensinamento. Se os cristãos se desviaram dele e se contentam em comunicar com o pároco, com o sacristão, é lá com eles. Os cristãos esqueceram os mistérios do Verbo, que contêm todos os segredos do Universo. Recordai-vos das promessas que, nos primeiros capítulos do Apocalipse, são feitas nas Cartas às Igrejas: «Ao que vencer, eu dar-lhe-ei a comer do maná oculto e dar-lhe-ei uma pedra branca; na pedra branca, estará gravado um novo nome, que ninguém conhece a não ser quem a recebe… Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer do fruto da Árvore da Vida, que está no Paraíso de Deus… O que vencer será coberto de vestes brancas… O que vencer, dele farei uma coluna no templo do meu Deus… Ao que vencer, farei com que se sente comigo no meu trono.» Todas estas promessas são uma Iniciação aos mistérios do Verbo.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte do texto e gravura do topo: do livro "Os Frutos da Árvore da Vida - Tradição Cabalística"
Parte do Cap. XI, pp. 139 a 143
Publicações Maitreya
Rua Dr Alberto de Macedo, 182 R/C Esq., Porto 4100-027, Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt/
Fonte do alfabeto hebraico: http://www.hebraicoinfinity.comunidades.net/

domingo, 10 de maio de 2020

A LUZ E A VIDA (VERBO - PALAVRA)


Não é sem interesse mostrar que existem relações entre a luz e os bioelementos, isto é, os principais elementos químicos que caracterizam a evolução da vida, e que foi a luz que criou a vida sobre a terra.

Na revista Atlantis, publiquei um estudo sob este título: A luz e a vida onde aventei a hipótese de que os bioelementos (o carbono, o hidrogênio, o oxigênio, o azoto) estão em relação direta com as principais radiações luminosas.

Pelos trabalhos de Louis de Broglie sabemos que a matéria é energia que contém luz e calor; a desintegração atômica demonstrou-o de uma forma irrefutável. Mas ainda não foram percebidas as relações que existem entre as diversas radiações da luz solar e os bioelementos, nem se compreendeu ainda, embora isso já esteja contido na lenda do nascimento de Vênus-Afrodite, desde a mais remota antiguidade, que foram radiações luminosas que formaram nas águas primitivas a primeira matéria viva.

Com efeito, no mito do nascimento de Vênus, contado na Teogonia de Hesíodo, 800 anos antes de nossa era, vemos Kronos, o Tempo, mutilar seu pai Urano, o Céu (Aur-Iuz) e lançar no mar os restos de sua virilidade. E é do sêmen do Urano que nasce Afrodite. Eis por que Botticelli representou Vênus saindo das ondas, de pé numa concha de Santiago, símbolo solar.

As principais radiações do sol dividem-se em três grupos distintos:

1º - Os raios infravermelhos, caloríficos, de grande comprimento de ondas.
2º - Os raios visíveis, do vermelho ao azul.
3º - Os raios ultravioletas, cujas ondas são curtíssimas.

Ora, essas três divisões correspondem aos três caracteres da manifestação do demiurgo, enquanto criador, mantenedor e destruidor (que destrói para reconstruir).

Já sabemos que os raios visíveis conservam a vida e que os raios ultravioletas destroem-na. O papel criador pertenceria, portanto, aos raios infravermelhos. Com efeito, estes são os raios caloríficos; não é portanto de admirar que eles se encontrem na origem do carbono e da química orgânica, a química do carbono.

Compreende-se, a partir daí, por que os alquimistas colocavam o carvão e a cor negra na base da Grande Obra que, na realidade, é uma pesquisa acerca das relações entre a luz e a vida.

Na outra extremidade do espectro, encontram-se os raios ultravioletas, os destruidores: eles estão relacionados com o azoto e talvez o tenham engendrado; azoto significa "impróprio para manter a vida" (A, privativo, e ZOÉ, vida). Essa palavra, entre os alquimistas, era escrita assim: AZOT, e era formada da primeira letra dos alfabetos latino, grego e hebraico, e da última letra desses mesmos alfabetos.

Os bioelementos correspondem aos quatro elementos clássicos. Se o carbono se associa ao elemento Terra e o azoto ao Fogo, iremos encontrar o Ar e a Água (Aor e Agni) nos raios intermediários.

Com efeito, os raios vermelhos estão relacionados com o hidrogênio enquanto os raios a se relacionam com o oxigênio, isto é, com os dois principais constituintes da água e do ar.

Restam os raios azuis, que se colocam entre os raios que mantêm a vida e os que a destroem. A que corresponderiam eles? Eu estava na impossibilidade de sabê-lo e já perdia a esperança de vir a descobri-lo, quando fui instruído por uma voz misteriosa, que já ouvira outras vezes, e isso, num momento em que meu pensamento estava ocupado com coisas inteiramente diferentes esses raios correspondiam ao protóxido de azoto. E, com efeito, o protóxido de azoto coloca-se entre o oxigênio (raios amarelos) e o azoto (raios ultravioletas); além do mais, os raios azuis são calmantes, adocicantes; fazem adormecer. O protóxido de azoto é usado para fazer adormecer nas operações cirúrgicas, ocasiões em que, o paciente vislumbra uma luz azul.

É este, portanto, o quadro das relações entre as radiações luminosas vindas do sol e os fenômenos vitais:

Raios ultravioletas - Azoto . . . destroem a vida.
Raios azuis - Protóxido de azoto N2O . . . fazem adormecer.
Raios amarelos - Oxigênio, raios vermelhos - Hidrogênio . . . conservam a vida.
Raios infravermelhos - Carbono . . . criam a vida.

Acrescentamos que o protoplasma, que é encontrado no fundo dos mares, parece constituir a primeira matéria viva; que alguns seres, como as medusas, são formados de uma substância gelatinosa que contém mais de 90% de água. Nosso corpo, em média, contém 65% de água, e reconstitui o meio marinho subterrâneo, no qual se banham células semelhantes aos primeiros organismos.

Assim o problema tantas vezes pesquisado da origem da vida parece ter encontrado a sua solução (por vezes entrevista, aliás) e essa origem está em completo acordo com os ensinamentos do Evangelho joanita. Ele nos da uma clara visão das relações entre o demiurgo solar e suas criaturas. Toda a história da evolução da Humanidade encontra, a partir daí, sua explicação lógica, e não é este um dos menores ensinamentos que podemos tirar do Evangelho iniciático de Ioan (João)

Percebe-se, agora, que a natureza da luz é o maior dos problemas da Física, que os átomos são formados de luz e que eles contêm em si uma força imensa. Essa força é a ENERGIA (energeia, em grego), palavra na qual encontramos Aor-Agni. Por que admirável mistério esse nome caracteriza as qualidades do Verbo, saído da substancia-princípio, a Virgem matéria, a MATÉRIA virgem, que se tornou a Virgem Maria, aspecto feminino do ESPÍRITO?

As teorias sobre a luz levam a conclusões contraditórias e opostas, como tudo o que diz respeito ao Deus universal, no qual os contrários se unem. A palavra luz, está bem próxima da palavra Lex, a lei; e Phos está bem próxima de Sophia, a Sabedoria. Vemos, portanto, que existe um mundo de interferências entre as palavras e as coisas, interferências às quais os homens são estranhos e que não podem ser atribuídas senão àquele a quem João chama de o VERBO, a PALAVRA.

Hermes - que representa o Conhecimento do dualismo representa do pelas duas serpentes do caduceu e as duas asas de seu capacete, está unido a Vênus-Afro a Beleza e o Amor - no hermafrodita - o andrógino dos arquimistos*. Simples clarões que brilham em meio às trevas, para nos guiar até a luz.


Paul Le Cour


Nota deste blog:
* Palavra não encontrada nos dicionários; talvez seja "alquimistas" a correta.


Fonte: do livro "O Evangelho Esotérico de São João", Ed. Pensamento, 2a. Ed., pp. 127-9
Via: HERMANUBIS MARTINISTA
http://www.hermanubis.com.br/artigos/artigos.htm
Fonte da Gravura: http://bibliaecatequese.com/wp-content/uploads/2014/09/sjoaoevangelista.jpg