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quinta-feira, 6 de março de 2014

O QUE É SÁBIO ESPERAR DO YOGA?


Damos toda a razão a quem pretender com o Yoga melhorar suas condições físicas e psicológicas. Você poderá colher tais frutos. Seu corpo remoçará, como o desejo. Os sinais de decadência física, própria da idade avançada, seguramente serão retardados ou substituídos pelos aspectos juvenis que dão encanto às pessoas moças. As adiposidades desaparecerão. A cor rosada e sadia brilhará em seu rosto. As linhas elegantes, o tórax desenvolvido, a harmonia dos gestos, o porte ereto, tudo enfim que embeleze a figura, se encontram a seu dispor. No plano psicológico, alcançará, concomitantemente, outras tantas vantagens. Ao tratar de cada asana e de cada pranayama, em "Autoperfeição com Hatha Yoga" e em "Yoga para nervosos", fiz referência à vantagens terapêuticas. Essas referências foram retiradas de tratados respeitáveis bem como de minha experiência com milhares de casos.

Tão flagrantes e seguros são os proveitos do Yoga que atraíram uma infinidade de aficionados no mundo todo. Como você e eu, homens e mulheres, jovens, velhos e de todas as categorias sociais e profissionais se atiram avidamente à prática. Que pretendem?


Propaganda intensa e eficaz tem divulgado o Hatha Yoga. O conhecimento divulgado, no entanto, é de certa forma infiel. O Hatha Yoga tem sido apresentado como uma nova panacéia, capaz de servilmente recompor a saúde e a forma física de quem delas precisa para triunfos mundanos. Artistas de cinema, elementos do "society", pessoas ociosas do mundo ocidental abraçaram o Yoga, que se transformou em passatempo, mania, moda, divertimento, sei lá o que… Evidentemente, uma deturpação lamentável. Tais homens e mulheres, do Yoga só desejam as vantagens, ao mesmo tempo em que se furtam a um austero comportamento e às implicações de ordem espiritual. Verdadeiros tontos, inebriados pelo mais evidente e mais facilmente desejável, praticam Yoga como quem joga um novo tipo de carteado, como quem vai à sauna ou salão de beleza.

Mesmo a essas pessoas o Yoga faz bem, no plano físico. Não faz todo o bem que poderia fazer, no entanto, em virtude de não atuar mais profundamente no plano psicoespiritual. O que um diletante consegue, praticando asanas por motivos esportivos ou estéticos, é muito menos do que lucraria, se, a par de fazer as técnicas, também amasse o próximo, ajudasse os outros e se comportasse com alta dignidade. A saúde e plástica de uma estrela de cinema naturalmente melhoram com os exercícios, mas muito menos do que se ela transformasse sua vida numa permanente oferenda a Deus. Os frutos mais doces da árvore do Yoga só podem ser colhidos nos ramos mais altos e mais tenros, portanto verdadeiramente impraticáveis àqueles cujo egoísmo pesa uma tonelada. Refiro-me às realizações, às experiências e as vivências mais transcendentes e libertadoras. Os diletantes se contentam em apanhar as frutas do chão que os pássaros já não querem.

Contam que um tolo, ao comer bananas, devorava as cascas e lançava fora a polpa saborosa. Da mesma forma, as pessoas vaidosas se iludem dizendo que praticam Yoga quando apenas cultivam o impermanente. Algumas chegam mesmo a se dizerem yoguinis, quando apenas se contentam com resultados superficiais.

Se no plano físico o Yoga deturpado apenas oferece vantagens menores, no plano ético-espiritual chega mesmo a ser maléfico e luciferino. Já viu o leitor que alimentar o ahamkara (egoísmo) é a fonte de todos os pecados, de toda a fragilidade, dor e angústia. Ao mesmo tempo causa e efeito da vaidade, da cobiça, da inquietude e das vicissitudes, o ahamkara nos mantém exilados da casa paterna. Tudo o que contribui para engordar e criar apego ao eu superficial; tudo o que vier a criar novas ilusões e grilhões novos; tudo, enfim, que levar a crer que o homem é apenas sua posição social, suas vitórias profissionais ou artísticas, que é um amontoado de lembranças, imagens e ideias; tudo o que fizer o homem considerar-se este frágil arranjo temporário de experiências psico-sociais e moléculas químicas; tudo o que o afastar do objetivo último – a unificação – não passa de perigoso inimigo. O Hatha Yoga, mal utilizado, pode ser esse inimigo.

Ora, é certo que morreremos. É certo que somos sujeitos à doenças, acidentes, envelhecimento e dor. Por mais miraculoso que seja o Hatha Yoga, não nos salva dessas coisas. Aliás, elas não são males. São naturais. “A doença é o aluguel que pagamos por morar no corpo”, lembra Ramakrishna. Os sofrimentos são-nos não só naturais, mas também necessários. Por que nos perturbarmos quando ele nos chegar e por que dele tentar fugir? É ainda o muito amado Ramakrishna que nos ensina: “É preciso esquentar o ferro várias vezes e martelá-lo muito tempo, antes que ele possa tornar-se aço temperado. E só então é possível dar-lhe a forma que se deseja e dele fazer uma espada cortante. Da mesma forma, um homem deve passar várias vezes pela fornalha das tribulações, deve ser batido pelas perseguições do mundo antes de tornar-se humilde, puro e capaz de ascender à presença de Deus”.

Qual a atitude mais sábia que se deve manter, na doença e em face do envelhecimento? Temê-las? Tentar fugir?

Devemos cumprir tudo o que é possível e razoável, a fim de preservar a saúde e as energias da mocidade. Não devemos, entretanto, fazer nossa felicidade depender de tais coisas. Não devemos desesperar ao cairmos doentes. Não convém entregarmo-nos ao abatimento quando perdemos cabelos ou notamos rugas no rosto. A Sabedoria Universal ensina que só o espírito é eterno. Só ele pode servir de alicerce à nossa felicidade.

“Todo aquele, pois, que ouve essas minhas palavras e as observa será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela não caiu, pois estava edificada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve essas minhas palavras e não as observa será comparado a um homem néscio, que edificou a sua casa sobre a areia. Desceu a chuva, vieram os ventos e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e foi grande a sua ruína.” (Mateus 7:24)

Edifiquemos, portanto, a nossa sobre a rocha eterna do espírito.

Há os que se dedicam ao Yoga em busca de siddhis, isto é, poderes psíquicos. É uma outra forma de desvirtuar o Yoga e de colher desenganos. A ninguém é lícito brincar de aprendiz de feiticeiro. Essas pretensões são antinaturais e ainda distraem o discípulo de seu objetivo verdadeiro. Disse Krishna a Arjuna: “Podeis estar certo de que um homem que se esforça para obter os poderes psíquicos não realiza Deus. O exercício desses poderes implica o ahamkara, o egoísmo, que é um obstáculo no caminho da realização.”

Quero que o leitor entenda que, se com a prática do Hatha Yoga aspira a lucros mundanos e ligados ao ahamkara, isto é, lucros egoísticos, estará acumulando futuras decepções e perdendo terreno na grande tarefa de sua existência: a libertação, o Reino dos Céus, o “regresso”…

No Hatha Yoga, como em tudo, devemos comportar-nos segundo o preceito evangélico: “Procurai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo”.

Se as praticamos com essa disposição, só teremos proveito e nenhum dano.

“Se conhecerdes o Único, podereis tudo conhecer. Os zeros que se colocam depois do algarismo 1 tornam-se centenas de milhares. Mas se apagardes esse algarismo 1, nada restará.” (Ramakrishna)

Saúde, beleza, energia, poderes ocultos, eficientes realizações mundanas, tudo enfim que o Hatha Yoga proporciona, são apenas zeros. Zeros e mais zeros enfileirados não fazem mais do que zero, se não forem precedidos pelo “1” da realização do Yoga, ou Integração.


Prof. José Hermógenes




Texto (originalmente publicado na década de 1960) extraído das páginas 203 a 206 da 38ª edição, de 1998, do livro Autoperfeição com Hatha Yoga, e digitado por Cristiano Bezerra em 10 de abril de 2001.




Fonte do Texto: EKADANTA YOGA
http://www.ekadantayoga.com.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/r%c3%a3s-cogumelos-personagens-divers%c3%a3o-1175798/


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sábado, 15 de fevereiro de 2014

CASTIGOS E PRÊMIOS --- O HOMEM-EGO



A roda do Samsara, simbolizando a inevitável alternância dos opostos da existência


É próprio do ser humano considerado social e psicologicamente “normal” agir em proveito próprio, no interesse do “eu” e dos “meus”. Há sempre nele uma indagação engatilhada – “quanto é que eu levo nisso?”.

Motivação é o termo técnico com que os psicólogos nomeiam "um conjunto de fatores, intrínsecos e extrínsecos (instintos, necessidades, impulsos, apetências, homeostase, libido e outras variáveis intervenientes) que determina a atividade persistente e dirigida para uma finalidade ou recompensa. Entre o fator variável e a finalidade (ou recompensa) situa-se o comportamento que a ela conduz…".

O comportamento humano é sempre motivado, e a Ciência tem se empenhado em pesquisar sobre a motivação, procurando saber a natureza dessa fantástica força motriz que leva o homem a agir ou evitar agir. Foi a partir da tese do determinismo evolucionário de Darwin que o estudo começou. Da doutrina darwiniana partiram W. James e S.Freud para concluírem que é o instinto a força maior. Em McDougall já se encontra a explicação em termos de propósitos… Outras propostas de teoria para a motivação foram aparecendo: o impulso, o prazer, o ajustamento à realidade social… foram sendo apontados como os motivos predominantes.

Embora respeitáveis, nenhuma das teses conhecidas poderá, no entanto, explicar comportamentos como os de Sócrates de Atenas, Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Madre Tereza de Calcutá, Joaquim José da Silva Xavier, Irmã Dulce de Salvador, Aurino Costa do Rio de Janeiro, Mahatma Gandhi da Índia, Albert Schweitzer da Alemanha, Bahá’U'Llah do Irã e outros apóstolos da Verdade e do Amor. Como os cientistas materialistas explicariam, com suas teses sobre motivação, a conduta dos mártires cristãos na arena dos romanos? Como poderão entender como aquele que é Onipotente se deixou torturar nas masmorras dos romanos, nos escárnios dos fariseus, na morte infame do Gólgota? Que faz um ser evoluído se deixar imolar? Instinto?! Alguma necessidade biológica?! Impulso?! Alguma apetência?! Manutenção da estabilidade do meio interno orgânico (homeostase)?! Libido?! Inclinações “propositárias”?! Conveniências sociais?!

Será que os materialistas (e alguns racionalistas) ainda não tentaram encontrar, em suas “teses científicas”, uma resposta a tais questionamentos? Ou pesquisaram, mas, concluindo que seriam forçados a contradizer suas famosas doutrinas, optaram por uma fuga ao desafio, no velho estilo: “deixa isso pra lá!”?

A ortodoxia científica não terá como contestar uma evidência que a experiência impõe e nos permite dizer: na alma há motivos sublimes, muito acima dos motivos próprios da horizontalidade dos homens “normais”. Foram tais motivos que levaram sábios e santos a se conduzirem de modo tão discrepante e até mesmo contrário àquilo que os cientistas entendem como sendo a normalidade humana.

O instinto de conservação é normalmente humano, na medida em que só se vê no homem um animal. Um santo ou um sábio, que se recusa a matar mesmo em “legítima defesa” e mesmo prefere morrer a matar, é tido por estranho (anormal?!), mas clamam veementemente aos teóricos: “Há valores e motivos bem mais altos que o instinto de conservação“.

O instinto de reprodução, ou o princípio do prazer (Freud), é um forte e mesmo dominante motivo humano. No entanto, quando um jovem brahmacharya, isto é, um estudioso da Realidade Divina, embora eroticamente válido, com sublimação e compreensão, e, portanto, sem repressão, se mantém abstêmio de sexo, pode dizer, com autoridade, a Freud: “Eu sou movido por valores e motivos que estão muito além do princípio do prazer“.

O equívoco dos pesquisadores materialistas parece ter sido que seus estudos, predominantemente, foram feitos sobre pessoas primitivas ou (e) perturbadas ou (e) enfermas, e a partir de suas observações e experimentações (metodologicamente, até certo ponto, corretas), violentando um princípio epistemológico, estenderam suas conclusões ao ser humano em geral, ignorando os Sãos e os Santos. É verdade – e eles efetivamente descobriram – que indivíduos primitivos, perturbados e enfermos ou, até certo ponto, indivíduos medíocres, vivendo ainda quase no reino animal, agem por instinto; são impelidos por impulsos; se entregam ao império de suas necessidades; obedecem a apetências; curtem ou padecem a libido; ou, numa hipótese melhor, buscando “ajustar-se” à “realidade social de seu tempo”, se submetem ao processo massificante ou mesmificante do grupo no qual se enturmam.

Aos psicólogos Jung, Frankl, Fromm e outros, lúcidos e não comprometidos com o dogma materialista, nossa homenagem. A eles não cabem as observações acima propostas. Eles não se ativeram às aparências; não reduziram o campo de suas pesquisas à mediocridade e à patologia humanas, mas mergulharam em realidades sublimes da alma, que nem a todos é dado vislumbrar. Suas sábias teses servem de base a suas eficientes terapias, que estão aí­, ajudando os seres humanos a superar as tristes fronteiras obsedantes da doença e da horizontalidade.

Nos meios científicos ocidentais, os estudos sobre a motivação humanas são recentes, isto é, do século XIX. Na Índia, há milênios, os sábios (rishis) postularam que os seres humanos são almas (Jivas) empenhadas no processo da evolução. Não da evolução conforme conceituada por Darwin, que a descreveu como mudanças que se processam na forma anátomo-fisiológica, mas nas mudanças que se passam na consciência. O evolucionismo na consciência, que é destino e desafio às almas todas, é que determina o evolucionismo na forma. À medida que a consciência se amplia, precisa de formas mais aprimoradas, que lhe permitam os movimentos para uma expansão maior; para expressar e gozar um grau maior de liberdade.

Dentro do que poderíamos chamar de “reino humano”, almas há que estão à frente, no rumo do Objetivo Maior. Outras, atrasadas, com uma pobre consciência ainda cativa nas formas grosseiras, têm muito ainda que avançar.

Quem não vê diferenças profundas entre um sábio e um homem rude; entre um santo e um corrupto, um terrorista, um traficante de drogas?

Conforme a amplitude de sua consciência, isto é, conforme seu nível evolutivo, um homem pode ser motivado pelo Amor e atraído para a Paz, para a Beleza, para a Verdade, para a Libertação; um outro, motivado pelo egoísmo, e seduzido pelo dinheiro, pelas altas posições sociais, pela curtição erótica…

Segundo os Mestres hindus, em sua evolução, as almas atravessam duas fases bem nítidas:

1) Na primeira, enquanto primitiva e medíocre, as motivações predominantes na alma, parecidas com aquelas de que os cientistas se aproximaram de caracterizar, são três: poder, gozo e status social. Elas impelem o indivíduo a sobreviver, se expandir, se impor, se gratificar a qualquer custo, mesmo em detrimento do mundo e de Deus. É a fase em que a alma é presa de uma “doença”, que me acostumei a chamar “egosclerose” pois, com o ego pessoal hipertrofiado, todos os talentos são empenhados na promoção, no fortalecimento e no império do mesmo. Assim se expressa um indivíduo “egosclerosado”: “Eu quero, eu posso, e vou tomar tudo para mim. Eu quero, eu posso e vou gozar prazeres ainda maiores e mais intensos. Eu estou numa religião (partido, doutrina, nação, escola de samba, time de futebol…) que é o máximo e que é a (o) única (o) que merece prevalecer. Eu quero, eu posso, e vou explorar e dominar todos… Eu sou o mais inteligente, mais bonito, mais forte, mais brilhante, mais merecedor… Eu ganho na corrida, na força, na esperteza… Eu mereço e vou crescer cada vez mais…”. São tais pessoas que atraem a si grandes dores e geram os sofrimentos maiores da família humana. Nessa primeira fase, quando a alma se auto-afirma, fase da conquista e crescimento ilusórios e neuróticos, os motivos, segundo a lição dos sábios (rishis), são, em resumo:

a. Kama – desejo de prazer sensual, material, mundanal;

b. Artha – o desejo de poder, sob todas as suas formas (econômico, político, parapsíquico ou mental);

c. Dharma – o desejo de se manter e se sentir segura, mediante aceitar o dever (social e religioso) conforme proposto por homens do mundo para homens do mundo.

2) Em sua segunda fase, a alma, já amadurecida pela experiência e curtida pela dor, já plenamente convencida sobre a impermanência do prazer, do poder, das boas posições sociais, inspirada pela Sabedoria, tendo já escutado a sábia “voz que clama no deserto”, tendo já o vislumbre de sua unidade real com todos, com tudo, comungando com a Luz, consegue ver seu egoísmo (o sentir-se distante e diferente do Todo) como o obstáculo que a mantém exilada da Suprema Felicidade. Nessa fase, a alma começa a com-doer-se do sofrimento mundanal, começa a com-padecer-se da dor do próximo, e vê que o ego-separatista, movido por suas motivações inferiores, é a causa do drama universal. Agora, só uma força a motiva: a Libertação. Essa dependerá de autonegação ou abnegação, que a levará a sacrificar a Deus e sacrificar-se pelos filhos de Deus.

A motivação da fase de renúncia (vairagya), é, segundo os sábios (rishis):

d. Moksha – Libertação.

Libertação – de quê?!

Da ignorância, do sofrimento, da morte e da “obrigatoriedade de renascer“.

Em sua primeira fase, a alma é um indefeso joguete atirado à voragem dos opostos existenciais. O prazer a fascina e ela é levada ao gozo quimérico. Cessado o gozo – e sempre cessa! – se sente infeliz. Servidão e dor, orgasmos e lágrimas, pequenas conquistas e perdas dramáticas… Enquanto egocentrada, isto é, alienada de Deus-Uno-Sem-Segundo, a alma é frágil e vacilante, iludida e padecente. Em seu cativeiro, a alma é levada a nascer, a morrer, a re-nascer, a re-morrer…

É renunciando e sacrificando que a alma pode retornar à sua origem e identificar-se com o Uno-Bem-Aventurado-Ser, libertando-se definitivamente. O único meio de uma alma alcançar Moksha (a Libertação) é a abnegação, ou humildação ou minimização do ego pessoal.

Quando um ser humano se deixa imolar e morre com um hino nos lábios, doçura na mente e paz no coração, é que, evoluindo na segunda fase, já não lhe importa a existência, pois já saboreia a Divina Essência.

Tudo isso continua um absurdo aos olhos dos egoístas. Continua estranho aos pesquisadores “cientistas”.

Ora, se estou aqui alertando você (e por que não a mim também?!) sobre as responsabilidades que nos pesam como gerentes dos dons que Deus em nós investiu, não é pretendendo apelar para o medo ao “pranto e ranges de dentes”, castigo inevitável ao administrador negligente ou doloso. O medo não é uma motivação desejável nem digna.

Também não desejo fazer apelo ao prêmio concedido ao “servo bom e fiel”, que consiste em receber mais talentos e maior confiança do Senhor. É, sem dúvida, uma nobre motivação.

Preferível, no entanto, a evitar castigo e ganhar prêmio, é a motivação da fase segunda – a Libertação.

Conduzir-se como “servo bom e fiel” é condição a entrar na iniciação, isto é, na segunda fase da evolução. A motivação predominante, numa alma evoluindo na segunda fase, é fazer render os bens confiados e corresponder, portanto, à confiança do Investidor. É assim que castigos não a amedrontam. Nem prêmios a seduzem. E o resultado disso é Moksha, a Libertação. É o ego-pessoal que, para se salvar, foge dos castigos e ambiciona prêmios. Se uma onda do mar for verdadeiramente sábia, só terá por motivação seu retorno ao Mar, seu identificar-se com o Mar, seu libertador sumir no Mar.

Mas… que há um castigo certo para o “servo mau e infiel”, isso há mesmo. Se não, o Mestre não teria mencionado as “trevas exteriores”. Se assim não fosse, onde a Justiça?!

“Tudo o que o homem semear, isso também colherá” – disse São Paulo, expressando o que os hindus chamam de “Lei do Karma“.

Conforme nosso karma (ação, comportamento, conduta) de agora, tal virá a ser nosso destino. Hoje, nosso destino é aquele que andamos programando mediante nosso agir no passado. Nossa conduta é um rígido decreto, que nos condena a penar ou nos permite curtir – tal é a Lei.

A Lei do Karma é tão válida e inexorável, tão precisa e certa, como qualquer das leis da Biologia, Física ou Química. É tão lei quanto a da gravidade, por exemplo.

É habitual e fácil driblar as leis humanas. Há muitos truques que são manipulados pelos “espertos” deste mundo. Mas não se iludam eles. As penas kármicas os alcançarão e os farão pagar “até o último ceitil“. As consequências do karma – agradáveis ou desagradáveis, isto é, prêmios e castigos – seguirão nossos atos tal qual, como disse Buddha, as rodas do carro perseguem as patas do boi que o puxa. Segundo a Lei-do-Karma, ninguém sofre sem culpa e ninguém goza sem mérito. A sanção é rigorosamente justa e inevitável.

Embora consiga distrair-se com suas gratificações sensuais e com a ilusão de que é poderoso e importante na escala social (colunável, aplaudível, magistrável, reitorável, prefeitável…), o homem-ego realmente não sabe o que seja Felicidade. Apenas distrai-se gozando, e se supõe feliz. Acredita ser proprietário, e assim se sente forte. Bem situado no society, se julga importante. No entanto, quando sobrevém um desastre, quando só e desiludido sobre suas agradáveis quimeras, cai em depressão, se vê desamparado (derrubável, adoecível, fenecível, arruinável, miserável, defuntável…). Em meu modo de ver, é isso que se pode chamar “trevas exteriores”, em contraste com a “Luz interior“.

O homem só conseguirá saber o que seja “Luz interior” onde, em vez de “choro e ranger de dentes”, se desfruta a Paz, “no gozo do Senhor”, mediante dedicação, abnegação, autodoação, renúncia, humildação e boa gerência dos talentos.

E o Senhor tem ainda uma recomendação que nos convém cumprir: “Assim também vós, todas as vezes que tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: somos servos inúteis, (pois) fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lucas, 17:10).



Prof. José Hermógenes




Fonte: extraído das páginas 24 a 31 da 1ª edição, de 1985,
do livro "Deus investe em você", de José Hermógenes,
e digitado por Cristiano Bezerra.


Ekadanta Yoga
http://www.ekadantayoga.com.br/


Fonte da Gravura: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c2/Wheel_of_Life.jpg

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

YOGA E PSICOTERAPIA



Tratamento psicoterápico é o que procura sanear (tornar sã) a mente, fundamentando-se na tese de que as condições de desequilíbrio, desarmonia, impureza e inquietude mentais são responsáveis pelos transtornos físicos. É tratamento comprovadamente eficaz. Sua eficácia demonstra a solidez da tese.

As escolas de psicologia do inconsciente, principalmente a Psicanálise e a Auto-análise, têm sido as que melhor atendem aos fins psicoterápicos. Têm sido as mais utilizadas pelos especialistas de todo o mundo.

Segundo elas, somos o que somos, fazemos o que fazemos, reagimos como reagimos, sofremos ou gozamos, temos nossas crises e nossos remansos e até mesmo pensamos e cremos, não de acordo com o nível conhecido da mente, mas sim movidos, manobrados e determinados pelas camadas mais profundas, das quais não temos conhecimento claro.

Sendo a mente comparada a um iceberg, a parte aflorada, isto é, a mente consciente, é mínima e relativamente incapaz, enquanto a parte submersa, o inconsciente, tem poder incomparavelmente maior. A psicoterapia pela Psicanálise e pela Auto-análise – tão eficientes -, em linhas gerais, consiste em tornar conhecidos (passar para o consciente ou fazer aflorar) os conteúdos e condições inconscientes e profundos. Tais conteúdos e condições resultam de esquecidas experiências traumatizantes (predominantemente da infância), que, por sua natureza maléfica e poderosa, se expressam através do anômalo comportamento dos nervos e das glândulas endócrinas. Dizem os psiquiatras que a doença é a “somatização” dos conflitos e traumas escondidos, isto é, sua expressão orgânica.

Feita uma faxina do inconsciente, isto é, expulsos de lá os conteúdos reconhecidos como deletérios, já tendo esses perdido o anterior poder perturbador, concretiza-se a cura ou libertação do neurótico. Esse processo de limpeza, vale dizer de desmascaramento do adversário escondido, de alívio de carga, de conscientização do ignoto, de extravasão, de elucidação e de catarse, muda a mente e, em consequência, rearmoniza, corrige e normaliza os mecanismos auto-reguladores do organismo, daí imediatamente redimirem-se os sintomas.

Assim, o neurótico se redime do inferno em que vivia. Diz-se, também, que se corrige a desconfortante “linguagem visceral”. Em outras palavras, desfaz-se a “somatização”.

Quem estuda o Yoga em seus veneráveis textos originais surpreende, em seu aspecto psicológico, atualidade, riqueza e sutileza tão profundas que, não fora a linguagem velada, exótica e simbólica, pareceria obra dos mais refinados e modernos entendidos nos aspectos inconscientes da alma humana. Não tenho receio de concordar com autoridades no assunto e também afirmar que o Yoga é o ancestral comum de todas as modernas escolas de psicologia profunda.

Segundo a psicanalista francesa Marise Choisy, o próprio Freud fundou a Psicanálise em princípios yogikos, que lhe teriam chegado através de Arthur Schopenhauer, o filósofo ocidental que mais se inspirou nos clássicos do Hinduísmo.

Não é diferente a opinião de Carl Gustav Jung, fundador de um dos mais importantes ramos da Psicanálise, que diz: “A própria Psicanálise, bem como as diretrizes de pensamento às quais deu origem e que são, na verdade, um desenvolvimento ocidental, são uma tentativa de principiantes, comparados com o que, no Oriente, constitui uma arte imortal”.

M. Bachelard considera o Yoga a “psicologia da verticalidade”.

Realmente. Se a Psicanálise, num mergulho, atinge o inconsciente e daí não passa, o Yoga, mediante uma experiência transcendente, chamada samadhi, fim e essência do processo yogiko, diviniza o homem no deslumbramento superconsciente.

O objetivo do processo psicanalítico é a cura de um enfermo. O do Yoga é a redenção humana ou libertação (moksha) da alma individual (jiva).

A Psicanálise tem por objeto de estudo a mente enferma. O Yoga estuda e considera o homem integral, isto é, o homem potencialidade do Divino, germe e promessa da Alma Universal, expressão do Absoluto em via de aperfeiçoamento e atualização.

Para o psicanalista ortodoxo, o inconsciente é um depósito de experiências dolorosas, um porão de escória reprimida pela convivência com a sociedade que não a aceita. O Yoga considera o inconsciente apenas uma zona da mente onde o consciente não chega, não sendo fatalmente de má qualidade, formado exclusivamente de negatividades recalcadas. O inconsciente tem, em si, também luzes, tendências, impressões, energias boas, potencialidade infinita e qualidades divinas.

Sendo uma psicologia do inconsciente, o Yoga explica a vida consciente, em parte, como consequência do inconsciente. Todas as nossas experiências, fatal e fielmente, são gravadas numa espécie de “fita de gravação”, através de ininterrupta introjeção. O que introjetamos ou gravamos nos plásticos abismos do inconsciente são: vasanas (tendências, inclinações, impulsos, motivações…) e samskaras (impressões, representações, imagens, juízos…). Lá do fundo, esse conteúdo comanda o nosso comportamento dito voluntário e consciente; comanda o que somos, queremos, sentimos, dizemos, fazemos e pensamos.

Conforme as introjeções que fazemos no curso da vida, tal será nosso destino. Quem introjeta espinho, consequentemente será espetado. Essas noções de vasanas e samskaras dão uma explicação psicanalítica à conhecida Lei do Karma.

Assim esclarecidos, deveríamos, por interesse profilático, selecionar as impressões e tendências que introjetamos, com o mesmo critério com que um dietista escolheria sua refeição num cardápio, visando a que, nos dias de porvir, possam elas (as escolhidas) operar em proveito da saúde e não contra ela; em direção à liberdade e não à servidão; em prol de nossa felicidade e não em seu prejuízo.

A indiscriminada, inconsciente e indisciplinada introjeção de vasanas e samskaras polui, adoece, corrompe, perturba, vicia e infelicita a mente. O yogin, sabendo disso, procura acautelar-se. Evita fisicamente as que pode e, mentalmente, aquelas que, fisicamente, lhe são impostas pelo ambiente.

Seu cuidado não é apenas na área da higiene mental, mas também na fase da cura.

Nesse particular, em que consiste a cura?

Em depurar, liberar, aclarar e aprimorar o mental. O Ashtanga Yoga ou Yoga dos oito componentes, codificado pelo sábio Patañjali, é uma forma técnica de sanear a mente, não a mente que costumamos chamar de doente, mas a mente que costumamos chamar de normal e que, em verdade, é “normalmente” incapaz para a felicidade e para o alcance da Verdade. Agitada como é, tecida de conflitivos desejos, encabrestada pelo egoísmo, sacudida de paixão, obcecada pelo irreal e condicionada a fatores múltiplos, o que chamamos de “mente normal” não deixa de ser, inclusive, um obstáculo para a percepção da Verdade. Essa só é possível quando a mente impura cessa de manifestar-se, isto é, quando emudecem seus vrttis (manifestações, fenômenos, movimentos, vacilações…). Levada a mente à plena quietude, ocorre a comunhão com o Infinito; dá-se o samadhi. Tal é o objetivo da ascese de Patañjali. Tal foi o caminho seguido e ensinado por S. João da Cruz.

As imperfeições mentais, que o método visa a remover, são:

a) mala (ou asuddha), isto é, impureza, luxúria, ódio, cobiça…;

b) vikshepa, ou seja, o estado de vacilação, agitação, insegurança, volubilidade…;

c) avarana, o véu de ignorância, que lhe dá miopia espiritual e limita o alcance e a percepção.

O yogin aprende com Patañjali como purificar, aquietar e iluminar sua mente.

Segundo essa escola de Yoga, a cura mental liberta o homem das condições normais e enfermiças de sua personalidade, que são:

1) avidya (ignorância);

2) asmita (egoísmo);

3) raga (concupiscência ou apego);

4) dvesha (aversão) e

5) abhinivesha (medo de morrer).

Tais defeitos de personalidade podem ser simultaneamente efeitos e causas das imperfeições do psiquismo.

A psicoterapia comum visa a restituir à mente enferma e sofredora as condições caracterizadas como normais. O Yoga ajuda a atingir tais resultados, mas vai mais além. Seu objetivo final é dar à mente: pureza (suddha), transcendência (buddhi) e redenção total (mukti).

Uma forma bem interessante de entender a ação yogaterápica no tratamento do nervoso já foi exposta nas páginas 79a 82 do livro Yoga para Nervosos (35ª edição, 2001, Nova Era), quando expusemos a teoria dos gunas. Ali mostramos que a prática do Yoga, numa ação neuroanaléptica, levanta as forças do abatido ou astênico. Em termos de gunas, poderia ser dito que à mente tamásica a prática do Yoga acrescente rajas. Ao agitado indivíduo de mente rajásica, o Yoga sattiviza, isto é, dá-lhe o equilíbrio, a harmonia e a serenidade sattva.

Até aqui estávamos vendo o Yoga como uma forma de Psicanálise. No entanto, chegou o ponto em que vamos concluir que é exatamente a antítese da Psicanálise, isto é, uma psicossíntese.

Psicanálise, ao pé da letra, quer dizer análise, divisão, separação do todo em partes, da alma (psique). O Yoga, em sua conceituação essencial e ao mesmo tempo etimológica, é exatamente a antítese disso. Yoga vem da raiz sânscrita yuj, que quer dizer juntar, unir, reunir, unificar… Yoga une. Análise separa. Como doutrina e técnica psicológica, seria literalmente uma psicossíntese.

Unificar a alma despedaçada é Yoga. Dar unidade e coerência à mente onde reina conflito é Yoga. É Yoga harmonizar os antagonismos psíquicos. É Yoga dar coerência à vida mental. Se a mente está doente, é porque vive como “uma casa dividida contra si mesma”. Yogaterapia consiste em restaurar a paz interna. Se, em seu estado comum, a mente é fraca, é porque a dispersão a domina, dispersão que a esparrama estagnada como pântano ou a exaure em fluir multidirecional. O Yoga atua no sentido de dar-lhe a concentração necessária, consequentemente gerando poder, segurança, penetração, equanimidade, coerência, harmonia e bem-estar. Como psicossíntese, o Yoga reduz a fluidez e a dispersão.

Em resumo, o Yoga é uma psicoterapia porque socorre o neurótico e o livra dos sofrimentos desde que:

a) harmoniza conflitos;

b) limpa o inconsciente de vasanas e samskaras nocivos, substituindo-os, através de introjeções positivas, condizentes com a libertação e a realização espiritual;

c) unifica a vida mental, mediante harmonizar os vários níveis e as expressões da personalidade;

d) acrescenta sattva à mente rajásica, e rajas, à tamásica, isto é, dá sabedoria e tranquilidade ao excitado e ânimo ao astênico;

e) orienta a mente para os rumos do Divino;

f) reduz o egoísmo, a concupiscência, o apego e o medo;

g) liberta de velhos e dominantes condicionamentos.

O prof. Oskar R. Schlag foi um dos discípulos diretos de Freud, condiscípulo do grande Jung e amigo de E. Fromm. Com ele mantive amigável palestra, lastimavelmente curta demais. Ensina Yoga na Universidade de Zurich (Institut fuer Angewandte Psychologie). Para ele, o Yoga é muito mais do que a Psicanálise como caminho redentor. Em conferência, em 1952, opinava: “Yoga é algo essencialmente prático para chegar-se a um fim (objetivo). Que fim é esse? A libertação. Libertação de que? A libertação de uma situação que Freud denominou “o encargo incômodo da nossa civilização“… Você mesmo é a fonte de todo o incômodo da nossa civilização. Dentro de você se encontra tudo aquilo contra o que você protesta e do qual deseja se libertar”.

Aos estudiosos de Yoga como psicoterapia, e em especial aos psicanalistas, indico principalmente dois livros: Western Psychoterapy and Hindu-sadhana, de Jacobs, Hans (George Allen & Unwin Ltd., Londres) e Yogas et Psychanalyse, da eminente psicanalista católica Marise Choisy (Collection Action et Pensée aux Éditions du Mont-Blanc; Genève, Suíça). Para esta, “o Raja Yoga é o mais admirável tratado dos fatos interiores que o homem concebeu“.


Prof. José Hermógenes


Texto (originalmente publicado na década de 1960) extraído das páginas 94 a 99 da 35ª edição, de 2001, do livro "Yoga para Nervosos", e digitado por Cristiano Bezerra em 13 de junho de 2001.


Fonte do Texto: Ekadanta Yoga
http://www.ekadantayoga.com.br/
Fonte da Gravura:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ashtanga_Yoga_-_Patanjali.jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/17/Ashtanga_Yoga_-_Patanjali.jpg
Renato yoga, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O PRESENTE QUE ELE SEMPRE QUIS



É quase novo milênio! (ano 2000) E é dia de festa. Dia de Natal, de natalício, de aniversário.

Aniversário, logo de quem?! Do menino Jesus!

Então, viva o aniversariante!

É tempo de Papai Noel, nas lojas e na mente da meninada.

É tempo de comprar e vender, de faturar.

É tempo de despesas, agitação e estresse.

É tempo de festejar comendo e bebendo.

É tempo de dar presentes, mas sempre para os outros e nunca para o aniversariante.

Dar presentes para quem?

Para os meus – para aqueles a quem quero bem, ora!

E para o aniversariante? Nada?

Ih! É mesmo! Tinha me esquecido. Só que eu não sei que presente ele prefere. De que está precisando? Que gostaria de receber?




Ele sempre deixou entender que o presentinho que espera de você, de mim, de todos, é a incondicional entrega de nós mesmos, cada um depositando, em seu altar onipotente, o que Ele sempre quis e nunca recebeu – o Fulano de Tal que cada um acredita ser.

A imensa dificuldade está em Ele querer receber exatamente aquilo que, até hoje, desastradamente, imprudentemente, tolamente, temos mais prezado, temos amado acima de tudo – nosso ego pessoal, o Fulano de Tal que pensamos ser, e, admitamos, ainda poluído por mil turbilhões de desejos, apegos, aversões, ódios, depressões, abatimentos, ciúmes, aflições, fobias, ressentimentos… Como abrir mão de nosso ego pessoal que nos tem levado para onde quer? A dificuldade maior de presentear o aniversariantezinho é que Ele, refinadamente exigente, nos quer caprichosamente “embrulhados para presente”. Não nos quer envoltos pela mediocridade de um saco plástico sem cor ou por uma medíocre folha de um jornal qualquer, assim como, até agora, passados dois mil anos, obstinadamente ainda nos achamos.

Ele nos quer vestindo o que, certo dia, numa de suas aulas, mencionou como “veste nupcial”. É outra forma de dizer vistosamente, esmeradamente, “embrulhados para presente”. Se, em espírito e verdade, conseguimos mergulhar na profundidade de seus discursos, vamos entender que a tal “veste nupcial” não pode ser comprada ou alugada em butique. Nada disso. Cada um tem que investir imensos esforços, tem que se empenhar muito para confeccionar a sua.

Falando praticamente, como se faz isso?

Basta seguir as muitas instruções dadas por Ele mesmo. Confeccionar sua própria veste, ou o embrulhar-se para presente, não é nada fácil. Requer difíceis mudanças radicais, que reclamam renúncia, sacrifício, esforço, decisão,disciplina, discernimento, devoção e persistência. E, por ser realmente um árduo empreendimento, até hoje não O deixamos participar de sua própria festa e jamais lhe demos presentes. No divino livro da Vida, Ele esclarece como nos transformar no presentinho natalino de sua refinada preferência.

Tão grandes e difíceis são as mudanças, que levam muitos a dizer, consternados: “Para mim, não dá. Pelos meus muitos e repetidos erros e desvios de minha vida, já me considero incapaz. Nada posso oferecer. Só tenho que, abatido e sem esperança, pedir perdão”.

Mas o aniversariante é obstinado em querer a todos. Não exclui ninguém, até mesmo os que obstinadamente têm andado fora da trilha, sem fazer caso de Suas pregações. Com o generoso propósito de tranquilizar os que se sentem culpados e sem merecimento, de muitas formas e em diversas ocasiões, fez saber que Deus recebe com festa todo pecador que, arrependido, bate-lhe à porta. Bom filho do Divino Pai, Jesus também ama a todos. Não discrimina. Nunca rechaçou quem errara e desejava ser resgatado, empenhando-se para retomar o santo caminho estreito, para conseguir embrulhar-se para presente, sempre tentando confeccionar um vistoso traje nupcial, querendo se doar a Ele.

Em termos bem práticos, em que consistiria esse tal “embrulho para presente”? Como deveríamos nos apresentar para sermos considerados dignos?

O estudo aprofundado do Evangelho pode nos ajudar a detectar as linhas-mestras das transformações pessoais necessárias, e pode informar o que Ele quer encontrar em nós. Eis um possível palpite.

Parece que Ele…
  • Deseja que nos mantenhamos serenos, impávidos, lúcidos e confiantes, ainda quando, sem rumo, em fim de tarde de aguaceiro frio, estamos tentando, sem conseguir, sair do matagal e voltar para a segurança e o conforto da casa.

  • Nos quer com os ouvidos da alma sempre abertos a seus sábios discursos, refletindo sobre o conteúdo essencial de Sua Palavra, para, finalmente, intrépidos, serenos e esclarecidos, segui-lo, andando por onde Ele andou e da maneira que o fez.

  • Nos quer irrestritamente entregues e incondicionalmente rendidos a seus desígnios sábios e misericordiosos.

  • Quer que, atentamente, sem protesto, sem autopiedade, sem queixumes nem lamúrias, corajosamente coloquemos ao ombro a cruz que nos cabe carregar.

  • Nos quer ramos viçosos, permanentemente sorvendo a seiva da árvore da Vida.

  • Nos quer totalmente confiando em sua providência, sem que dúvidas nos esmoreçam, sem que preocupações engendrem ansiedade, sem temores que nos inquietem.

  • Nos deseja permanentemente predispostos a agradecer pelo que vier a nos dar, ainda que seja uma piora, quando, em prece, lhe pedíramos uma melhora; ou um despojamento, quando desejávamos ganhar.

  • Nos quer de costas para os falsos tesouros do mundo efêmero, mas sempre ambicionando os tesouros de validade eterna – os do Reino.

  • Nos quer ajudando os excluídos, sem desejar recompensas, e, ainda mais, sem nos pavonear de caridosos.

  • Nos quer atentos e empenhados no hoje, deixando pra lá as pegadas do ontem e as preocupações com o amanhã.

  • Nos deseja empenhados em saciar a fome e a sede de justiça que tanto escurecem e fazem sofrer este mundo.

  • Nos quer misericordiosos, a sentir em nós o sofrimento ou a alegria dos outros.

  • Nos quer inofendíveis e, consequentemente, inofensivos em nosso conviver.

  • Nos quer mentalmente vacinados contra os vírus que normalmente infestam a mente, tais como a hipocrisia, a violência, a impureza, a ambição, a corrupção, o medo, o orgulho, a maledicência, o desamor, a crueldade, a improbidade, a venalidade…

  • Nos quer caladinhos, atentos, a sós e tranquilos, tanto que consigamos escutar, com os ouvidos da alma, o ansiado sussurro redentor a dizer-nos “Eu Sou Deus”.

  • Nos quer ovelhas de seu cósmico rebanho, acalentadas por sua amorosa voz de pastor, guardando-nos no onipresente redil de sua Verdade e de seu Amor.

  • Quer que o vejamos no deprimido e triste, no faminto, no sedento, no desabrigado, no doente, no aflito, no excluído, em todo aquele que sofre, e os socorramos como nossa melhor forma de O servir e amar.

  • Nos quer de espada desembainhada, não para a estupidez da guerra religiosa, econômica, étnica ou outras, mas para vencer as hostes do mal que ainda continuam entranhadas e escondidas em nós, acorrentando-nos, entorpecidos e frágeis, padecentes e inseguros, dolorosamente alienados da Felicidade Suprema.

  • Nos quer vendendo tudo que, iludidos, ainda pensávamos possuir, para investir na compra da pérola verdadeira, que é a imersão na liberdade, na luz, na paz, no amor e na eterna e incondicional bem-aventurança de Sua casa, que também é nossa.

  • É tão rigoroso, a ponto de exigir que O amemos com exclusividade e nos quer, servidores seus, dedicados só a Ele, pois ninguém pode, ao mesmo tempo, servir a dois senhores.

  • Nos quer como criancinhas totalmente entregues ao regaço da mãe, sem o menor vestígio de insegurança, sem egoísmo, curtindo amor e nutrição.

  • Nos quer derrubando as muralhas do ego pessoal em prol do Amor sem fronteira e atemporal…


Não é necessário continuar essa lista de sugestões para uma auto mudança redentora. O Evangelho ensina muito, muito mais. Que seja estudado em espírito e verdade.

Quem reparar bem, descobrirá que tamanhas exigências, tão rigorosos preceitos, para disciplinar pensamentos, sentimentos, emoções, palavras e ações, constituem um verdadeiro “manual de instruções”, cujo propósito é conduzir nossas vidas para a saúde plena, para o gozo da paz , para a cornucópia da felicidade, e, finalmente, para a desejada e doce redenção para a qual nascemos.

É inaceitável que Ele continue excluído de sua própria festa.

Sem Ele, a festa é sem graça.

Que você, os outros e especialmente eu, consigamos fazer o aniversariante sentir-se feliz e possamos Lhe oferecer uma grande festa, exclusivamente Sua.

Enquanto não conseguirmos nos embrulhar como presente para o aniversariante, passemos a pensar assim: “é Cristo em mim presenteando Cristo nas outras pessoas”.

Dizem que, quando estava para nascer, todas as portas se achavam fechadas para seus aflitos e fatigados pais, e, portanto, para Ele também. Fazia frio. Mas todas as portas estavam fechadas. O jeito foi nascer num velho estábulo desativado, dentro de uma pobre manjedoura abandonada. Porque os homens tinham suas portas fechadas, Ele aceitou nascer ali mesmo, entre dóceis animais que ruminavam ao longo da noite.

Coitadinho!

Não é estranho demais que, passados dois mil anos, as portas dos homens continuem obstinadamente fechadas para Ele?!!!

Nas casas dos homens, comidas, refrigerantes, bebidas alcoólicas, algazarra de festa consumista, a celebrar o aniversário de um menino ainda desconhecido, que jamais foi convidado para entrar e que há dois mil anos continua excluído, ainda lá fora.

Que você, todos e eu, principalmente, motivados pelo amor mais puro, possamos dar um “chega-pra-lá” no egoísmo, em nossa indiferença e alienação, para oferecermos a Ele a chance de um feliz aniversário, abrindo as portas de nossos corações, agora transformados.

Que as dificuldades do caminho e a brevidade da existência não nos desencorajem, para que, vistosamente paramentados com as vestes da pureza, da renúncia e da compaixão universal, da humildade e da devoção, algum dia possamos oferecer-lhe pelo menos um pouco do que Ele, há quase dois mil anos, está teimosa e pacientemente aguardando.

Chega do vexame de celebrar o Natal sem o Cristo, não é mesmo?!




Prof. José Hermógenes




Fonte: Texto extraído das páginas 15 a 29 da 1ª edição, de 2000, do livro O Presente (2000), de José Hermógenes (Editora Letraviva, Brasília), e digitado por Cristiano Bezerra em 24 de dezembro de 2010.
Publicado por Ekadanta Yoga
http://www.ekadantayoga.com.br/
Fonte das Gravuras: 
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https://pixabay.com/pt/photos/menino-cristo-cena-da-natividade-514213/
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