quarta-feira, 9 de março de 2022

MEDITAÇÃO - UM ESTADO DE UNIDADE


Diz-se que nunca é possível convencer alguém por meio de argumentos. Tampouco podemos nos convencer da verdade de qualquer argumento apenas por meio de ideias. Sempre haverá outro argumento, mais ideias. As verdades espirituais são igualmente difíceis de comunicar em palavras por causa do papel que o paradoxo desempenha. Na verdade, o paradoxo é o caminho para evitar o erro de unir a verdade apenas com ideias ou com palavras.

Tomemos por exemplo o argumento de que precisamos renunciar a nós mesmos para seguir um caminho espiritual. Esta é uma verdade, mas também está contida no argumento de que devemos nos encontrar para encontrar Deus. Entre esses dois pólos, de renúncia e autodescoberta, encontramos o ponto médio do argumento simplesmente puro de que na oração somos nós mesmos. Vamos começar com este ponto:

Aprender a meditar é aprender a ser uma pessoa verdadeira em harmonia. Não há nada de renúncia à vida ou auto rejeição na meditação. É simplesmente a maneira como cada aspecto de nossa vida está em um relacionamento harmonioso uns com os outros. Se tentarmos alcançar isso apenas através do pensamento, seremos vencidos por sua pura complexidade, e é por isso que a oração é mais profunda e poderosa do que o pensamento. Nosso intelecto e nossas emoções não precisam competir porque a oração os harmoniza para que possam trabalhar juntos em paz.

Toda vez que nos sentamos para meditar, entramos em um estado de unidade em que toda a nossa vida se integra suavemente à presença de Deus. Deus é um e nos chama para ser um. Na verdade, há um ponto na "Nuvem do Desconhecido"* que define a meditação como o processo de se tornar um. Através da análise é possível descobrir ou isolar todos os elementos separados de nossa vida e história pessoal, mas na meditação tecemos o caminho da síntese em que vários elementos felizes ou infelizes se unem no conhecimento de que somos um com Deus. É uma descoberta à qual cada um de nós é convidado a realizar pessoalmente. Cada um de nós aceita a responsabilidade pessoal de meditar, sentar, de manhã e à noite, e repetir nosso mantra. Aceitar e cumprir esta responsabilidade é um fator poderoso no desenvolvimento integral de nossa pessoa.

* Nuvem do Desconhecido - livro escrito por um autor desconhecido. Trata sobre a religião e a fé. Mostra quão profunda pode ser a fé e o amor contemplativo ao entregar-se às palavras de Deus.



Fr. John Main, OSB



Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón
www.permanecerensuamor.com
permanecerensuamor@gmail.com
Ixtapa, México
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/lua-mulher-silhueta-medita%c3%a7%c3%a3o-1815984/

OS FRUTOS DA ÁRVORE DA VIDA




São João tinha o conhecimento perfeito da letra Aleph, que é o “primogênito de Deus”, o começo de todas as coisas, pois ele refere: «No começo, era o Verbo.» O Verbo é o Cristo; portanto, é ele o Mago cósmico; ele age com a ajuda dos quatro elementos, pelos quais tudo foi criado. Quando Jesus dizia: «O Meu Pai trabalha e eu trabalho com Ele.», era o Cristo que falava por seu intermédio, querendo sublinhar a ideia de que a sua atividade nunca acaba. E agora compreendeis que a cruz, o símbolo do Cristo, está ligada, ela própria, à ideia desta atividade de Deus no Universo. Quando é representada com a barra transversal inclinada, isso mostra que ela está em ação e, então, pela sua forma, é comparável a Aleph. É também esse o sentido da suástica, que se encontra em várias religiões, na Índia e na Grécia antiga… Aleph é a cruz cujo braço horizontal está inclinado, cujo equilíbrio foi rompido para permitir a ação, enquanto a cruz com os quatro braços iguais simboliza o equilíbrio absoluto dos dois princípios, masculino e feminino. Mas há outras formas de representar a cruz, por exemplo esta em que ela se torna uma chave que permite abrir todas as portas do Universo. A chave é uma imagem do homem, mas, enquanto não se souber nada sobre o homem, também não se saberá como abrir o Universo, que, na verdade, é o homem expandido até às dimensões do infinito.

Também se pode encontrar Aleph representado sob outras formas simbólicas: um cordeiro com uma cruz ou ainda uma serpente trespassada por uma flecha. Ambas são a imagem de Aleph, mas também a imagem do homem. Reparai: com o que é que se parece o esqueleto humano só com a coluna vertebral e a cabeça?... Tem a forma de uma serpente. E a flecha são os braços, a linha transversal de Aleph: a flecha que representa um movimento, o sentido no qual se dirige a atividade. Cristo, o Verbo, é precisamente uma cruz viva.

O que significa o cordeiro com a cruz? O cordeiro é a vítima do sacrifício, é o Amor. No começo, antes da criação do mundo, o Cordeiro sacrificou-se para que o mundo pudesse subsistir. Sim, para manter unidos os átomos e as moléculas, era necessária uma força de coesão, e essa força é o amor. Por isso se diz que o Cristo é o Cordeiro que foi imolado no começo do mundo… Encontramos em todos os domínios da vida esta força que permite ao mundo manter-se: é graças a ela que existem e se mantêm todos os corpos químicos, todas as moléculas, mas também todas as coletividades humanas, as famílias, as sociedades, as nações… Sem sacrifício, nada existe. Um conjunto só pode subsistir graças ao sacrifício de cada uma das suas partes. Se acabardes com o sacrifício nas suas múltiplas formas – olhares, palavras, atenção, entreajuda, renúncias –, tudo se desagregará e desaparecerá. Se quereis que uma coisa dure muito tempo, colocai na sua base o Cristo, o amor.

A conclusão prática do que eu acabo de transmitir-vos a respeito da letra Aleph, a primeira letra, é que nunca se deve começar o que quer que seja sem se conhecer as forças que se põe em movimento, pois o essencial é o começo. Desencadear forças e movimentos é sempre fácil, mas é muito difícil dirigi-los, orientá-los e, portanto, dominá-los. Se os políticos estivessem conscientes desta lei, refletiriam mais antes de decidirem certas mudanças. Muitas pessoas desencadearam um movimento revolucionário que julgavam poder dominar, mas acabaram completamente esmagadas por ele! A expressão “aprendiz de feiticeiro” designa precisamente o homem que, por imprudência, desencadeia correntes que, depois, é incapaz de controlar ou orientar.

Quer seja no plano físico, no plano astral ou no plano mental, o vosso poder não está no meio nem no fim, mas no começo. Imaginai que estais numa montanha, junto de um grande rochedo; se o fizerdes tombar ou rolar, ele obedecer-vos-á. Tendes a possibilidade de o deixar no mesmo sítio ou de o fazer rolar pela encosta; se o fizerdes tombar, ele obedecer-vos-á, evidentemente, mas depois acabou-se, perdereis o controlo do seu movimento e ele talvez provoque estragos que não conseguireis evitar. Do mesmo modo, quando sentirdes a cólera crescer dentro de vós, se decidirdes reprimi-la imediatamente, ela não explodirá, mas, se a deixardes explodir, já não conseguireis parar o seu curso. Isto também é verdade em relação a certas ideias que deixais instalarem-se em vós e que acabarão por tornar-se impossíveis de eliminar. Então, estai vigilantes, nunca esqueçais que Tav depende de Aleph, o fim depende do começo. Sede como o mago que, tendo iniciado conscientemente uma operação mágica, consegue chegar ao fim.

Ao dizer «Eu sou Aleph e Tav...», o Cristo indica-nos de que maneira devemos abordar a nossa atividade. O começo é o Céu, o mundo divino, e é começando pelo Céu que devemos descer progressivamente à matéria. Aquele que começa pela matéria para ir em direção ao Céu tem por diante desaires e sofrimentos. Duas pessoas que se amam devem começar por se amar espiritualmente, antes de se amarem fisicamente. Em geral, os homens e as mulheres fazem o contrário: começam por Tav e colocam Aleph no fim! Quando tudo estiver estragado, elas irão amar-se espiritualmente? Em tudo é preciso começar pelo começo, pela cabeça. Quando estudam o alfabeto hebraico, os cabalistas abordam primeiro as três letras mãe – Aleph, Mem e Shin – que criaram, respetivamente, o ar, a água e o fogo; em seguida, as sete letras duplas: Beth, Ghimel, Daleth, Kaf, Pe, Resch e Tav, que criaram os sete planetas; por fim, as doze letras simples: He, Vav, Zain, Heth, Teth, Iud, Lamed, Nun, Samech, Ain, Tsade e Quf, que criaram as doze constelações zodiacais. As vinte e duas letras abrangem, portanto, a totalidade da Criação.

Evidentemente, estas letras são apenas uma expressão material de princípios abstratos. Quando falais ou escreveis, vós combinais, como Deus, as letras e as palavras, e deste modo criais. Podeis criar nos seres a alegria, a confiança, o amor, a luz, ou então a mágoa, a sombra, a doença, o desespero. No segundo caso, não há escrita nem palavra, mas sim rabiscos e uma incoerência. A verdadeira evolução significa aprender a servir-se da palavra, da escrita, das formas e das imagens tendo em vista resultados divinos, ou seja, preparar os elementos do Verbo para criar unicamente o que é bom, belo e justo. Aquele que trabalha conscientemente neste domínio participa na obra de Deus e virá o dia em que será recrutado como obreiro de Deus, pois a Criação ainda não está completa. O Criador continua a trabalhar e necessita de operários que Lhe tragam um pouco de areia, um pouco de gesso. «Apenas isso?», questionareis vós. Sim, e não fiqueis envergonhados, não é certamente a nós que Ele escolherá para desempenhar o papel mais importante, mas, seja a que nível for, participar neste trabalho divino é glorioso. Refleti sobre a vida que Deus vos deu, focai-vos em todas as suas manifestações como n’O próprio Deus e dizei: «Doravante, esforçar-me-ei por só falar e agir com o objetivo de vivificar, apaziguar, esclarecer, reconfortar, encorajar e fortalecer as criaturas.» A partir do momento em que tomais esta decisão, o Verbo começa a encontrar o seu lugar em vós, e apercebeis-vos cada vez mais claramente de que possuís uma multiplicidade de elementos dados por Deus. Ainda não sabeis servir-vos deles, mas, pouco a pouco, sentis que esses elementos começam a obedecer-vos e tornais-vos mais poderosos. Mas também não podeis contentar-vos em pronunciar boas e belas palavras. É preciso levar essas palavras até ao fim, até à sua realização. Então, elas tornar-se-ão “verdades verdadeiramente verídicas”.

Agora, quero contar-vos uma história pessoal. Eu tinha dezessete anos e sentia necessidade de encontrar uma forma, uma figura geométrica que me desse, ao contemplá-la, a harmonia e a paz. Depois de pesquisar durante algum tempo, concentrei-me no círculo; em seguida, tomando como medida o raio desse círculo, dividi a circunferência em seis partes, o que me permitiu traçar seis círculos, e obtive uma rosácea (figura simétrica, terminada em circunferência, e que revela analogia com a rosa). Então, colori os seis círculos com as seis cores do prisma: violeta, azul, verde, amarelo, laranja, vermelho. E contemplei esse desenho, que me mergulhava num estado de êxtase. Era, para mim, o símbolo da perfeição. Ao fim de algum tempo, pareceu-me que ainda faltava alguma coisa. Ao tentar perceber o que era, um impulso misterioso levou-me a escrever por baixo da rosácea o início do Evangelho de S. João: «No começo, era o Verbo, e o Verbo era com Deus e o Verbo era Deus. Ele era no começo com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e nada do que foi feito foi feito sem Ele.» Por que estes versículos? Será que eu tinha uma ligação especial com eles? Sem dúvida, e pensei nisso toda a minha vida. Hoje, sei o porquê, completei assim o meu desenho…

São João revelou os mistérios do Verbo, que dão o poder de agir sobre as forças da Natureza. É este o seu Ensinamento. Se os cristãos se desviaram dele e se contentam em comunicar com o pároco, com o sacristão, é lá com eles. Os cristãos esqueceram os mistérios do Verbo, que contêm todos os segredos do Universo. Recordai-vos das promessas que, nos primeiros capítulos do Apocalipse, são feitas nas Cartas às Igrejas: «Ao que vencer, eu dar-lhe-ei a comer do maná oculto e dar-lhe-ei uma pedra branca; na pedra branca, estará gravado um novo nome, que ninguém conhece a não ser quem a recebe… Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer do fruto da Árvore da Vida, que está no Paraíso de Deus… O que vencer será coberto de vestes brancas… O que vencer, dele farei uma coluna no templo do meu Deus… Ao que vencer, farei com que se sente comigo no meu trono.» Todas estas promessas são uma Iniciação aos mistérios do Verbo.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte do texto e gravura do topo: do livro "Os Frutos da Árvore da Vida - Tradição Cabalística"
Parte do Cap. XI, pp. 139 a 143
Publicações Maitreya
Rua Dr Alberto de Macedo, 182 R/C Esq., Porto 4100-027, Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt/
Fonte do alfabeto hebraico: http://www.hebraicoinfinity.comunidades.net/

MEDITAÇÃO - EXPERIÊNCIA DE ENTRAR NA PRESENÇA DO AMOR


Dizer um mantra nunca é meramente repetição. Cada vez que o dizemos, confirmamos nossa entrada pessoal na realidade de Deus, onde tudo é permanentemente criado. O próprio ritual - todo verdadeiro ritual - é tornar a realidade eterna sempre presente no tempo. E o ritual é o outro lado de uma mera repetição chata. A repetição é apenas uma rotina fechada, mas através do ritual entramos na totalidade do mistério expansivo do ser. É total porque combina o mistério do nosso ser com o mistério do ser de Deus. Cada vez que recitamos um mantra, encontramos nosso caminho mais profundo no eterno presente de Deus, aquele que é, e que é descrito como o "Eu Sou".

A meditação diária é um ritual que nos leva à abnegação, mas também é muito mais do que abnegação. É entrar no último ser, na última realidade, no último amor. Isso se consegue desprendendo-nos de nossa forma limitada de ver, sentir e compreender, pois estamos abrindo nossos corações para a totalidade da percepção e da consciência.

Pela meditação e pelo silêncio ao qual um mantra nos conduz, chegamos à maior experiência humana; nos reconhecemos como “conhecidos”. Compreendemos que somos compreendidos e, na experiência de entrar na presença do amor, descobrimos que somos amáveis.



Fr. John Main, OSB




Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón
www.permanecerensuamor.com
permanecerensuamor@gmail.com
Ixtapa, México
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

PARADOXOS DA VIDA MÍSTICA


Um dos paradoxos da vida mística e este: ninguém pode entrar no mais íntimo de seu ser e passar dali a Deus se não for capaz de sair inteiramente de si mesmo, esvaziar-se de si mesmo e dar-se a outras pessoas na pureza de um amor altruísta.

E uma vida de contemplação, uma das piores ilusões seria, portanto, tentar encontrar Deus fechando-se em si mesmo e deixando fora dessas barricadas toda a realidade exterior pela simples concentração e força de vontade, cortando todo contato com o mundo e os outros ao se enfurnar dentro da própria mente e fechar as portas como uma tartaruga.

Quanto mais eu me identificar com Deus, mais me identificarei com todos os que com Ele estão identificados. Seu amor vivera em todos nós. Seu Espírito será nossa única vida, a vida de todos nós e vida de Deus. E haveremos de amar-nos uns aos outros e a Deus com o mesmo Amor com que Ele nos ama e Se ama. Esse amor é o próprio Deus.



Thomas Merton, OSB




Fonte: do livro "Novas Sementes de Contemplação", Ed. Vozes, 2017, p. 70
Via Associação Thomas Merton
https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/garoto-sentar-guarda-chuva-2028088/

NO SILÊNCIO ENTRAMOS NA LUZ CÓSMICA


O silêncio é a região mais elevada da nossa alma e, no momento em que atingimos essa região, entramos na luz cósmica.

A luz é a quinta-essência do Universo; tudo o que vemos ao nosso redor, e mesmo o que não vemos, é atravessado e está impregnado pela luz.

O objetivo do silêncio que nos esforçamos por fazer em nós durante as meditações é a fusão com essa luz, que é viva, poderosa, e penetra em toda a Criação.



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/deserto-noite-c%c3%a9u-estrelado-pessoa-2897107/

O VERDADEIRO DESCANSO


A qualquer hora do dia, ao nos lembrarmos do propósito (divino), tendemos a nos colocar na atitude do verdadeiro descanso, mesmo em meio à atividade. Lembramos que não é o que fazemos, mas como fazemos que nos cansa ou descansa. Vamos verificar como é a tensão física e mental que nos fatiga e verificar como essa tensão deriva do desejo de controle, que se sustenta na ilusão de que o resultado de ações e acontecimentos depende de nós e não da vontade de Deus.

O exercício da atenção correta nos repousa, é um estar atento sem tensão. (...) Deixe Deus fazer a si mesmo em nós, não deixemos impedir Sua obra purificadora no coração.

"A tranquilidade é característica de uma alma perfeita, enquanto é característica de uma alma imperfeita ser consumida com preocupações. Diz-se que a alma perfeita é como um lírio entre os espinhos, e isso indica que a alma vive tranquilamente entre muitas preocupações; porque no Evangelho o lírio significa a alma sem preocupações, porque não trabalha, não tece, e está revestido de uma glória maior que a de Salomão". (do "Discurso Ascético" de Nilo, o Asceta, vol. 1 de Philokalia)




Fonte: Blog EL SANTO NOME
https://elsantonombre.org/2022/01/02/el-verdadero-descanso/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/cais-mulher-sentado-relaxante-doca-1834801/

REENCARNAÇÃO - UMA FONTE DE ESPERANÇA


Embora já se saiba que a doutrina espírita é reencarnacionista, nem todos quantos batem às portas de sociedades espíritas, em situações graves ou para "chorar as suas mágoas", estão em condições de compreender prontamente certos problemas à luz da reencarnação. Em determinados casos, o esclarecimento deve ser muito prudente, mas sempre compreensivo, pois é inútil, e às vezes contraproducente, começar falando logo em "resgate de dívidas do passado", "situações cármicas" etc, se a pessoa aflita está inteiramente fora do assunto e vem de um ambiente todo estranho ao meio espírita.

Quem está nessa situação, sem saber o que fazer nem que rumo tomar, procura o meio espírita justamente para receber uma palavra de conforto, uma prova de solidariedade humana, o apoio espiritual de que necessita, mas não pode apreender logo umas tantas elucidações, justamente porque a mente ainda está muito tumultuada. É um problema psicológico.


Adequação do diálogo e acolhimento

Há explicações que até desorientam, embora sejam bem intencionadas. Figuremos, como simples ilustração, o caso de uma senhora que, na condição de mãe sofredora, profundamente deprimida porque o filho "morreu afogado", sem nenhuma noção do que seja doutrina espírita, sem jamais haver pensado em reencarnações, recorra a um centro espírita como ponto de apoio e conte o seu caso, "banhada em lágrimas" inconsoláveis.

Situação dificílima, evidentemente. E exige muito tato, muita paciência. Imagine-se, agora, se alguém, com a intenção caridosa de esclarecer e ajudar, comece logo dizendo: É assim mesmo. É a lei de causa e efeito. Conforme-se com a realidade. É a sua prova, porque a senhora já deve ter afogado alguém noutra existência!...

Francamente, parece mais crueldade do que caridade. Certas maneiras de interpretar a reencarnação podem até comprometer a própria lógica da doutrina.

É preciso aguardar o momento psicológico para entrar no assunto. Não se deve usar a mesma linguagem para todas as pessoas, como não se deve apresentar o mesmo fio de argumentos em todos os casos, em todas as circunstâncias, a propósito de todas as situações.

Ainda assim, é bom frisar, há ocasiões em que o modo de encarar os problemas pelo prisma reencarnacionista, ao invés de esclarecer, lançam ainda mais confusão. A experiência que o diga.


Rigidez no entendimento sobre reencarnação

Quem estuda a doutrina espírita já sabe muito bem que a reencarnação é um princípio universal, válido no tempo e no espaço. É o caminho lógico da compreensão da Justiça divina, a resposta filosófica aos chamados desafios da natureza. Mas acontece que, às vezes, se leva a reencarnação para um terreno muito rígido e casuístico, esquecendo-se de que a reencarnação não anula totalmente o livre-arbítrio, não significa o puro fatalismo.

A reencarnação deve ser entendida como lei geral. Sob a lei, que é inevitável, mas não é somente punitiva, porque proporciona meios de reparação perante a justiça divina, assim como oferece campo para o desempenho de missões nobres e grandiosas na Terra, sob a lei repita-se – cada qual pode fazer as suas opções, ajustar-se a esta ou aquela conjuntura.

Ninguém foge à lei, é certo. Quem causa prejuízo aos outros terá de responder pelos seus atos, mas justamente aí é que se nota a inconveniência de certas explicações muito restritivas e prejudiciais ao entendimento da suprema justiça, que fica parecendo rígida demais, senão até desumana!


Questão de lógica

A pessoa que causou afogamento não poderá voltar à Terra com a incumbência, de trabalhar como salva-vidas, uma profissão humanitária, a fim de reparar o que fez? E não será muito mais útil do que voltar para ser afogado?... É questão lógica. O espírito reencarnado pode interferir no carma, ainda que não possa desviar o curso da lei.

Há várias maneiras de saldar dívidas do passado e reparar os danos causados ao próximo. É a perspectiva da reencarnação. Algumas interpretações da reencarnação, muito ao pé da letra, entretanto, levam certas pessoas a uma confusão ainda maior, quando não saem dos centros dizendo que o ensino espírita é um absurdo. Infelizmente.

No entanto, a reencarnação, quando bem compreendida, abre uma janela nova ao espírito para que compreenda seguramente a grandeza e a perfeição da obra divina. A tese da reencarnação é também uma fonte de esperança.



Deolindo Amorim




Fonte: do acervo do Jornal Correio Fraterno, edição de dezembro de 1980.
Correio.news - canal de mídia digital do jornal Correio Fraterno
https://correio.news/reflexoes/reencarnacao-uma-fonte-de-esperanca
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

REINO DE DEUS - UM ESTADO DE CONSCIÊNCIA


O Reino de Deus não pode ser realizado no plano físico antes de ter sido realizado no intelecto, no pensamento. Depois de realizado no pensamento, ele descerá ao coração, aos sentimentos, e então poderá, finalmente, exprimir-se por atos.

É este, obrigatoriamente, o processo de realização na matéria: pensamento – sentimento – ação.

Um dia, o Reino de Deus realizar-se-á tangivelmente, na matéria. Mas primeiro deve instalar-se nas ideias, nos pensamentos.

E pode ver-se que esse processo já começou… Há milhares de pessoas no mundo que alimentam em si este ideal do Reino de Deus, este ideal de amor. O Reino de Deus já abre caminho nos pensamentos e nos desejos de alguns seres e até já se instalou no seu comportamento, na sua maneira de viver.

O Reino de Deus começa por ser um estado de consciência, uma maneira de viver e de trabalhar, e quando esse estado de consciência se tiver generalizado, o Reino de Deus e a sua justiça descerão verdadeiramente à terra.



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal