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quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O HOMEM DE DESEJO E O HOMEM DA TORRENTE


[...] A partir do momento em que um homem te diz: "Eis o livro sagrado, eis o único, o verdadeiro livro; eis o Credo que se faz mister saber, vinde ao Meu Templo…", esteja certo de que tens diante de ti um homem que o orgulho, o erro ou, ainda mais frequentemente, o interesse, fazem falar. Não discuta, fuja, fuja aterrorizado!

A partir do momento que em tuas pesquisas teus olhos caem sobre um livro intitulado Críticas de tal religião, exposição de tal doutrina, ensaio sobre a evolução dos dogmas etc., não o abras, foge, foge desgostoso.

Mais ainda, quando tua razão se mostra inquieta, levanta objeções sobre a antinomia da Fé e da Ciência, afasta esse fantasma, reencontra o bom cantinho, a natureza, o mundo vivente, harmonioso; foge da tua razão! foge dos demônios que deixaste penetrar em ti. Porque não são os homens, nem os livros, nem tua Ciência que irão te fornecer a solução do problema; nem o saber, nem a paz.

É certo que se pode escrever volumes sobre volumes sem esgotar a história das loucuras, das crueldades humanas. É certo que houve segredos, conchavos, autos-de-fé, predicações e ritos desde a aurora dos tempos até nossos dias. Mas de que serviram todos esses atos, que adiantaria para ti estudá-los? Que ganharíamos com isto?

[...] Há duas categorias de seres humanos, apenas duas. Temos, de um lado, aquele que ainda possui, desenvolvido, o estado de espírito original de seus primeiros dias e que chamaremos o espírito religioso: esse ímpeto de amor que ele havia potencialmente engendrado. Ele pode pertencer a não importa que seita, confissão ou sociedade; ele busca, deseja a felicidade para si e para os outros; ama e gostaria de ser amado. Essa emoção que o emudece diante do belo, empurra-o para o bem, é um movimento irreversível espontâneo, diante do qual ele esquece inteiramente de si. Amo, desejo, quero compreender (isto é, tomar em mim, reunir à unidade em mim). Busco por detrás do objeto da ideia sua tradução em minha língua pessoal, seu eco em meu coração, seu parentesco com aquele desconhecido que persigo por todo o Universo, sob todos os fenômenos.

[...] Aqueles que mantiveram em si esse fogo divino - por menos numerosos que sejam em alguma família, em algum lugar que o destino os tenha colocado, pessoas importantes no mundo ou simples camponeses, sacerdotes ou soldados - fazem parte do mesmo grupo.

Através do espaço, ignorando inclusive suas existências, eles estão unidos em um mesmo ideal. Nenhuma seita os prende, e nenhuma raça, nenhuma profissão interpõe barreira entre eles.

Esse estado de espírito não se limita a ser um sentimento improdutivo. Os que o possuem agem; seus atos são simultâneos, intercambiáveis e fecundos. Do sentimento nasce o saber, o conhecimento real, o discernimento dos espíritos (discernir os espíritos é reconhecer em cada indivíduo seu mandato, seu nome, a função para a qual ele foi criado e ajudá-lo no cumprimento de sua obra). Sua vida é caridosa por seu exemplo. O caminho se revela diante deles e eles podem indicá-lo aos outros. Esse caminho é a renúncia ao "Eu", o abandono ao espírito, o caminho da Cruz.

Mas não se trata aí de uma religião, menos ainda de uma ciência ou filosofia. A religião formula seu Deus, seu Credo. É Manu, Jeová ou o Sol. Ela cria ritos, castas, sanções, constroem templos e celas. Ela entra no mundo para a conquista desse mundo. O espírito religioso não formula nada, não limita nada, conhecedor que é da fragilidade de sua razão, da mobilidade da sua imaginação. Ele encontra o UM presente tanto na floresta quanto na cidade. Ele não materializa o espírito nas palavras ou em pedras; ao contrário, ele transmuta a matéria em espírito, sabendo que dessas pedras Deus pode fazer nascer os Filhos de Abraão. Ele faz sacrifício em todos os Templos e mesmo em lugares públicos. Fato capital que diferencia o espírito religioso do espírito do mundo, seja em meio aos acadêmicos ou às Igrejas; é que o espírito religioso é um sentimento e em nada revela ostentação. É um amor, é o Amor, enquanto que o espírito do mundo é científico, repousa sobre a experiência, sobre o raciocínio, recusando qualquer elemento emotivo.

Os que compõem esta segunda classe da humanidade são as pessoas práticas positivas: homens de negócio, de ação, os struggle for life, que observam, classificam, pensam tudo e buscam tirar o melhor partido possível de tudo o que os cerca para a ampliação do seu Eu. Eles podem atingir, no homem de ciência, no homem de estado, uma grandeza considerável, elevar-se a alturas metafísicas que, à primeira vista, se confundem com o espírito religioso, mas que dele diferem inteiramente pelo fato de partirem da sensação, atribuindo ao mundo exterior uma importância primordial; apoiam-se na razão, na lógica, como meio, e têm um único objetivo: o desenvolvimento do seu Eu ao máximo de suas possibilidades, mesmo que às expensas de outrem. É o Ser racional que não abre nele os diques do amor, a não ser que esteja seguro de auferir daí um proveito imediato ou futuro.

[...] É assim que a humanidade se encontra dividida em duas categorias de seres que, mesmo falando a mesma linguagem, mesmo que intimamente misturados em sua vida cotidiana e sob o verniz da mais perfeita cortesia, são e permanecerão eternamente inimigos. É exatamente quando têm o ar de estarem no mais perfeito acordo, é quando pronunciam as mesmas frases, que estão mais distanciados do coração.

Em todos os países, em todas as raças e religiões, pode-se encontrar uns - em pequeno número - e outros em massa, porque o egoísmo, a luta pela vida, reinam na humanidade. Mas essa grande massa que se inclina diante da ciência, diante da razão, a última deusa, não tem o poder que se poderia supor. Interesses, ambições, crenças, fazem de cada um o inimigo daquele que deveria ser seu companheiro de armas na batalha contra os defensores do espírito. Os homens de ação, de luta, destroem incessantemente pela própria prática de seus princípios, essas nações que eles construíram pela conquista, cercadas de fronteiras, de leis, nações sempre perturbadas por trustes, greves, guerras, revoluções, até o ponto em que não restem senão as agulhas das coníferas.

Entre eles, semeados pelo mundo, estão os outros, aqueles que chamamos "homens de espírito religioso". Artesãos, camponeses, padres ou soldados, pouco importa, são os justos de que fala o Zohar, aqueles dos quais basta um para salvar uma cidade. São os operários do Senhor, os sustentáculos do Mundo. [...]

É a estes "homens dotados" que falamos, que lembramos a frase de Lao-Tsé: "Retornai à simplicidade primitiva", e o ensinamento do Cristo: "Se não vos tornardes crianças, não conhecereis o Reino de Deus".

Porque na simplicidade primitiva o homem possuía esse poder de amor que engendra o homem de desejo, depois o Homem-Espírito. A porta superior do seu coração se abre: o Espírito penetra nele, ele se torna UNO nesse espírito com o Senhor. Ele tem toda liberdade, todos os poderes, como disse o apóstolo Paulo: "O Senhor é espírito; lá onde está o espírito, está também a liberdade". Aí se encontra o único problema que se coloca e que se faz mister resolver; é o único caminho a seguir; é a boa nova (Evangelho) que, de idade em idade, sob formas diversas, os anjos vêm repetir, da qual eles testemunham por vezes ao custo de sua vida, sempre ao custo da sua paz e da sua felicidade, quando não se elevam a esta suprema santidade que Nosso Senhor Jesus Cristo foi o único a atingir, nas alturas da sua Cruz.



Marc Haven (Dr. Emmanuel Lalande)



Fonte: HERMANUBIS - MARTINISTA http://www.hermanubis.com.br/artigos/BR/1234562021OHomemdeDesejoeoHomemdaTorrente.htm
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 29 de março de 2017

UMA NOVA CONSCIÊNCIA PARA UMA MUDANÇA


A pessoa tem que ser uma luz para si mesma; esta é a lei. Não existe outra lei. Todas as outras leis foram feitas pelo pensamento e assim são fragmentárias e contraditórias. Ser uma luz para si mesmo não é acompanhar a luz do outro, embora razoável, lógico, histórico e embora convincente. Você não pode ser uma luz para si mesmo se está nas sombras escuras da autoridade, do dogma, da conclusão.

Uma nova consciência e uma moralidade totalmente nova são necessárias para produzir uma mudança radical na presente estrutura cultural e social. Isto é óbvio, embora a esquerda e a direita e o revolucionário pareçam desconsiderar isto. Qualquer dogma, qualquer fórmula, qualquer ideologia é parte da velha consciência; eles são os produtos do pensamento cuja atividade é a fragmentação – a esquerda, a direita, o centro. Esta atividade inevitavelmente leva ao derramamento de sangue da direita ou da esquerda, ou ao totalitarismo. É isto que está acontecendo a nossa volta. A pessoa vê a necessidade de mudança social, econômica e moral, mas a resposta é da velha consciência, sendo o pensamento o principal ator. A desordem, a confusão e a miséria em que os seres humanos entraram estão dentro da área da velha consciência e, sem mudar isto profundamente, toda atividade humana – política, econômica ou religiosa – apenas nos trará a destruição de cada um e da terra. Isto é muito óbvio para o sensato.




J. Krishnamurti





Fonte: J. Krishnamurti Online
http://www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura: http://thequotes.in

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O FENÔMENO DO DOGMATISMO

O Que Acontece Quando Estamos Convencidos da Veracidade de Algo


O dogmatismo é uma falha de muita gente. Penso que ele é gerado por um sentimento de insegurança, na realidade, ao mesmo tempo que é um esforço de alguém para confirmar diante de si mesmo e dos outros a certeza de que o seu conhecimento é correto.

Naturalmente há outros tipos de dogmatismo, como a manutenção da nossa opinião simplesmente porque é a nossa opinião – uma afirmação egocêntrica. Um “dogma” é definido como aquilo que parece bom e correto para alguém [1]; o dogmatismo, normalmente arrogância, é afirmação.

O dogmatismo sempre traz à minha mente a ideia de uma afirmação cuja veracidade não pode ser comprovada. Alguém pode falar de maneira convincente sobre aquilo que para ele é verdadeiro, sem cair na atitude dogmática. Quando estamos convencidos da veracidade de algo, não há  razão para que não expressemos essa convicção com a intensidade que a situação exige, mas em tal caso também não há razão para que exijamos a sua aceitação por parte dos outros.

Concretamente, nós não exigimos a aceitação da Teosofia; nós apontamos para os seus princípios e as aplicações desses princípios. A Teosofia apresenta algumas afirmações como percepções que são objetos de conhecimento por parte de seres humanos aperfeiçoados, mas não como afirmações em que se deve acreditar. É mostrado que tal conhecimento, tendo sido alcançado por Eles a partir de observação e experiência feitas ao longo de muitas vidas, pode ser alcançado por todos os seres humanos, e os meios para fazer isso são assinalados. O bom senso presente na alegação de que esse é um conhecimento legítimo afasta a afirmativa do terreno do dogmatismo.

A consciência é onipresente, não  pode ser localizada nem centrada em nenhum assunto particular, e tampouco pode ser limitada. Só os seus efeitos é que pertencem à região da matéria, porque o pensamento é uma energia que afeta a matéria de várias maneiras; mas a consciência em si não pertence ao plano da materialidade.




Robert Crosbie





Fonte do Texto e da Gravura: do Blog "Filosofia Esotérica"
http://www.filosofiaesoterica.com





NOTA DO TRADUTOR:

[1] Crosbie está mencionando a definição clássica do termo. (C. C. Aveline)



O fragmento acima foi traduzido do livro “The Friendly Philosopher”, de Robert Crosbie, The Theosophy Company, Los Angeles, EUA, 1945, 416 pp. O texto está na seção “Homely Hints”, à página 113.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

QUANDO TROCAMOS O FIM PELOS MEIOS (A ESPREITA DO EGO)

A religião como geralmente conhecemos ou reconhecemos, é uma série de crenças, de dogmas, de rituais, superstições, adoração de ídolos, de fetiches e gurus que o levarão ao que você quer como meta final. A verdade final é sua projeção, é isso que você quer, que o fará feliz, que lhe dará uma certeza do estado imortal. Assim, a mente presa em tudo isto cria uma religião, uma religião de dogmas, de habilidades sacerdotais, de superstições e adoração de ídolos e nisso você está preso, e a mente fica estagnada. Isso é religião? Religião é uma questão de crença, uma questão de conhecimento das experiências de outras pessoas e afirmações? Ou religião é meramente seguir a moralidade? Você sabe que é comparativamente simples ser moral para fazer isto e não fazer aquilo. Porque é fácil, você pode imitar um sistema moral. Por trás dessa moralidade, espreita o ego, crescendo, se expandindo, agressivo, dominador. Mas isso é religião? Você tem que descobrir o que é verdade porque essa é a única coisa que interessa, não se você é rico ou pobre, não se você está bem casado e tem filhos, porque todos eles chegam ao fim, existe sempre a morte. Assim, sem nenhuma forma de crença, você deve descobrir; você deve ter o vigor, a autoconfiança, a iniciativa, de modo que por si mesmo você saiba o que a verdade é, o que Deus é. A crença não vai lhe dar coisa alguma; a crença apenas corrompe, cega, obscurece. A mente só pode ser livre pelo vigor, pela autoconfiança.


Organizações religiosas se tornam tão fixas e rígidas como os pensamentos daqueles que pertencem a elas. A vida é uma mudança constante, um contínuo se tornar, uma revolução incessante, e porque uma organização não pode ser flexível, ela fica no caminho da mudança; ela se torna reacionária para se proteger. A busca da verdade é individual, não congregacional. Para comungar com o real deve haver solidão, não isolamento, mas liberdade de toda autoridade e opinião. Organizações de pensamento se tornam, inevitavelmente, obstáculos para o pensamento. Como você mesmo está ciente, a ganância por poder é quase inesgotável em uma chamada organização espiritual; esta ganância é encoberta por todos os tipos de palavras doces e autorizadas, mas o câncer da avareza, do orgulho e do antagonismo é nutrido e partilhado. Daí cresce o conflito, a intolerância, o sectarismo, e outras manifestações horríveis. Não seria mais sábio ter pequenos grupos informados de vinte ou vinte e cinco pessoas, sem obrigações ou associação, encontrando-se onde for conveniente para discutir calmamente a abordagem da realidade? Para impedir que algum grupo se torne exclusivo, cada membro poderia de tempos em tempos encorajar e talvez participar de outro pequeno grupo; assim, ele seria extensivo, não estreito e paroquial. Para subir alto deve-se começar baixo. A partir deste pequeno começo a pessoa pode ajudar a criar um mundo mais sensato e feliz.


O que está acontecendo no mundo? Vocês têm um Deus cristão, deuses hindus, maometanos com sua concepção particular de Deus, cada pequena seita com sua verdade particular; e todas estas verdades estão se tornando como muitas doenças no mundo, separando pessoas. Estas verdades, nas mãos de poucos, estão se tornando meios de exploração. Você vai de uma para outra, testando todas elas, porque começa a perder todo o senso de discriminação, pois está sofrendo e quer um remédio, e você aceita qualquer remédio oferecido por qualquer seita, seja cristã, hindu, ou qualquer outra seita. Então, o que está acontecendo? Seus deuses estão dividindo vocês, sua crença em Deus está dividindo vocês e, contudo, você fala de fraternidade do homem, unidade em Deus, e ao mesmo tempo nega a própria coisa que você quer descobrir, porque você se prende a estas crenças como o meio mais poderoso de destruir a limitação, ao passo que elas só intensificam isto. Estas coisas são tão óbvias.


Você sabe o que é religião? Não é o canto, não é a execução do “puja”, ou algum outro ritual, não é a adoração de deuses de metal ou imagens de pedra, não está nos templos e igrejas, não está na leitura da Bíblia ou do Gita, não é a repetição de um nome sagrado ou seguir alguma outra nova superstição inventada pelos homens. Nada disto é religião. Religião é o sentimento de bondade, aquele amor que é como o rio, vivendo, se movendo eternamente. Nesse estado você descobrirá que chega um momento em que não há absolutamente mais busca; e esse fim da busca é o começo de uma coisa inteiramente diferente. A busca por Deus, pela verdade, o sentimento de ser completamente bom – não o cultivo da bondade, da humildade, mas a procura de alguma coisa além de invenções e truques da mente, o que significa ter um sentimento por aquele algo, viver nele, estar nele – isso é verdadeira religião. Mas você só pode fazer isso quando sair da poça que cavou para si mesmo e entrar no rio da vida. Então a vida tem uma forma surpreendente de tomar conta de você, porque então não há você tomando conta. A vida leva você aonde for, pois você é parte dela mesma; então não existe problema de segurança, do que as pessoas vão dizer ou não dizer, e essa é a beleza da vida.





J. Krishnamurti





Fonte: The Book of Life
http://www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

INCORPORAÇÃO: MITOS SOBRE A MEDIUNIDADE


A Umbanda não possui dogmas, mitos e nem tabus, tudo deve ser explicado de forma clara. Mas ainda é possível ouvir disparates sobre Umbanda e sua mediunidade, dentro e fora dos terreiros de Umbanda. 

Desenvolver sua mediunidade não vai resolver todos os seus problemas. Todos temos problemas e dificuldades a serem vencidas. Querer desenvolver a mediunidade para que os seus problemas se resolvam é trocar o efeito pela causa, pois a razão maior para se desenvolver deve ser a vontade de aprender a lidar com o dom e se tornar um ser humano melhor, e o efeito, ou resultado, é que, tornando-se uma pessoa melhor, a vida melhora. Isto quer dizer que você muda por dentro e sua vida muda também, mas muitos não querem se dar ao trabalho de mudar a si mesmos, de se lapidarem, de crescer, evoluir e vencer seus vícios e dificuldades e, ainda assim, querem que a vida mude, simplesmente porque estão desenvolvendo sua mediunidade.

Todos encarnam para resolver problemas e dificuldades, o que quer dizer que todos encarnam para aprender algo nesta vida. Seu esforço em tornar-se alguém melhor cria o que se chama de merecimento, que vai ao encontro de suas necessidades, na medida em que você cresce com as dificuldades. Muitas vezes, os médiuns querem que a Umbanda retire de suas vidas justamente as dificuldades que ali estão para fazê-lo crescer dentro do sentido da vida e do campo de atuação em que têm necessidade. Tanto é verdade que, na maioria das vezes, foi o próprio médium que, com suas limitações e dificuldades internas, criou para si mesmo as dificuldades que está passando na vida. Dificuldades externas são um reflexo das dificuldades internas. 

Não adianta querer que um guia espiritual lhe arrume um amor perfeito e ideal, se você não é uma pessoa perfeita e ideal, cada um atrai para sua vida algo que lhe tem afinidade e correspondência. Antes de querer um amor perfeito é preciso vencer as carências, inseguranças e não projetar seus medos e vícios comportamentais no outro. Amor perfeito é um amor livre, que não prende o outro, é o amor de quem ama mais a felicidade e a liberdade do outro do que seus próprios apegos e paixão. Não adianta querer que os espíritos ou os Orixás lhe arrumem o melhor emprego que há, se você não se preparou para isso ou se não sabe conviver com as pessoas com quem trabalha. Não adianta reclamar das pessoas de seu convívio, de seus familiares ou de um superior a você em seu ambiente de trabalho, antes, é preciso aprender a conviver com as pessoas e crescer com elas e suas dificuldades. Lembre-se, os defeitos que vemos nos outros são os mesmos que nós carregamos, e o que mais nos incomoda é exatamente o que tentamos esconder em nós mesmos. 

Ao desenvolver sua mediunidade em um terreiro, você não fica preso para sempre neste terreiro e, da mesma forma, não fica preso na Umbanda. Frequentar a Umbanda e desenvolver sua mediunidade não é um caminho sem volta, como dizem algumas pessoas mal informadas e ignorantes. Frequentar a Umbanda e desenvolver sua mediunidade é algo que faz parte de seu livre arbítrio, se este não for o seu caminho, você tem toda a liberdade de escolher um outro caminho. Ninguém pode lhe podar de seu livre arbítrio, de sua liberdade, que quem lhe deu foi Deus e é tão sagrado que nem Deus lhe tira. Dizem que: “se você desenvolver sua mediunidade na Umbanda, não terá mais paz na sua vida e que terá que servir os guias para sempre”, “se não desenvolver sua mediunidade, sua vida não vai para frente”, “se abandonar o terreiro, seus guias vão ficar presos”, “se entrar para a Umbanda, terá que fazer um pacto” etc.

Existe um fato: você tem mediunidade de incorporação e portanto é muito sensitivo. Isto não é um castigo, nem um fardo ou carma negativo. Esta mediunidade é simplesmente um dom que você deve conhecer e aprender a lidar com ele. Ter um dom e não saber o que fazer com ele, isto sim pode atrapalhar nossa vida, como sentir coisas, mediunicamente falando, e não saber o que fazer com isso. O que está muito distante das afirmações anteriores. Sem culpa, sem medo, sem pressão e sem traumas, faça sua escolha: aprenda a trabalhar este dom na Umbanda ou aprenda a lidar com este dom de uma outra forma. Uma vez desenvolvida a mediunidade, você não é escravo dela, simplesmente porque tem hora e local para realizar suas atividades mediúnicas. Você deve aprender a lidar com o que sente e ter as rédeas deste dom em suas mãos.

Também pode acontecer de entrar em um grupo despreparado para cuidar de sua mediunidade. Aquele terreiro, médium ou guia que cuida de sua mediunidade deve saber o que está fazendo e ter: experiência, maturidade, clareza e verdade. Exatamente por isso é que é importante passar por uma educação mediúnica e não apenas aprender a incorporar espíritos.



Alexandre Cumino



Fonte: Colégio de Umbanda Sagrada Pena Branca
http://www.colegiopenabranca.com.br/artigos2.html
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal