sexta-feira, 14 de agosto de 2026

EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL


A educação que recebemos tem como objetivo programar pessoas para produzir e consumir, e não em despertar a consciência. Desde pequenos, somos conduzidos à escola como autômatos: sentamos, copiamos, decoramos, repetimos, passamos em exames, acumulamos diplomas, mas raramente paramos para perguntar por que estamos ali, qual é o verdadeiro sentido de estudar, o que isso tem a ver com a nossa vida e com o nosso ser mais profundo. A educação está estruturada para servir à máquina social, não para libertar o indivíduo.

Na infância e na juventude, vamos e voltamos da escola movidos por inércia, medo ou fantasia. Dizem-nos que precisamos estudar para “ser alguém na vida”, para arrumar um bom emprego, ganhar dinheiro, conseguir prestígio, escapar da miséria. Assim, criamos sonhos vazios, imaginamos futuros brilhantes, mas não enxergamos o presente.

Estudamos matemática, física, química, geografia, história, mas não sabemos quem somos, por que sofremos, por que repetimos erros, por que destruímos a natureza, por que o mundo está cheio de guerras e conflitos. A escola nos enche de respostas que não nascem de perguntas verdadeiras. Somos preparados para ganhar a vida, mas não nos ensinam a viver, a enfrentar a dor, a solidão, o conflito, a velhice e a morte.

A nossa mente foi treinada para acumular dados, não para perceber o novo. A memória infiel guarda fórmulas, datas, teorias, conceitos, que repetimos como papagaios diante de provas e exames. Ao sairmos da escola, tudo isso se desfaz pouco a pouco, pois não se transformou em experiência consciente. A verdadeira inteligência não consiste em saber repetir o que outros disseram, mas em compreender diretamente a realidade, dentro e fora de nós. Essa inteligência só pode florescer quando a consciência começa a despertar.

A educação atual está baseada no medo. Tememos a reprovação, a nota baixa, a bronca dos pais, a crítica dos professores, a zombaria dos colegas. Mais tarde, tememos perder o emprego, o status, a relação, o prestígio. Por temor, obedecemos; por temor, nos adaptamos; por temor, imitamos. O medo se mascara de amor e responsabilidade, mas nos deixa pequenos, submissos, dependentes. A mente dominada pelo medo não ousa questionar, não ousa ir além do conhecido, não ousa ser livre.

É desse medo que nasce a imitação. Sentindo-nos pobres por dentro, procuramos nos completar por fora: imitamos o modo de falar, de vestir, de pensar, de sentir. Seguimos modas, repetimos opiniões, copiamos vícios, aderimos a ideologias, aderimos a grupos e bandeiras, porque temos pavor de ficar de fora, de ser rejeitados, de não pertencer. A escola nos ensina a imitar desde cedo: em vez de criar, copiamos exercícios, copiamos estilos, copiamos modelos. Na arte, por exemplo, somos estimulados a reproduzir imagens como uma câmera, quando deveríamos aprender a perceber a essência de um pôr do sol, de uma árvore, de um rosto, e a expressá-la com liberdade. Uma mente que só sabe imitar é uma mente mecânica, e uma mente mecânica não pode conhecer a verdade.

Enquanto houver medo, não pode haver livre iniciativa; o aluno que teme nota, castigo ou crítica jamais ousará pensar por si mesmo.

A verdade não se alcança pela repetição, não se alcança por meio de crenças herdadas, não se alcança por meio de dogmas aceitos por medo. A verdade é algo vivo, é o desconhecido de momento a momento, que se revela a cada instante à consciência desperta. Quando aceitamos uma ideia por autoridade, não a compreendemos; quando recusamos uma ideia por orgulho, também não a compreendemos. Quando a educação tem o objetivo de despertar a consciência, ela nos convida a investigar, não a crer nem a descrer cegamente. Olhar, observar, comparar, meditar, experimentar, ver por nós mesmos. Só quando vemos, quando percebemos diretamente, é que realmente sabemos.

Estamos cercados de autoridades: pais, professores, chefes, governantes, líderes religiosos. A maior parte delas é inconsciente: manda, proíbe, castiga, premia, sem se conhecer. Pais e professores, cheios de seus próprios medos, frustrações e ressentimentos, tratam crianças e jovens como seres inferiores, como se fossem propriedade sua e não almas que precisam despertar. Essas autoridades inconscientes impõem regras que não cumprem, exigem virtudes que não possuem, condenam nos filhos os defeitos que carregam escondidos. Assim se repete, de geração em geração, uma cadeia de cegos guiando cegos.

Uma verdadeira autoridade só pode nascer de uma consciência que despertou, de alguém que conhece a si mesmo. Quem se viu de frente, quem se reconheceu nos próprios erros, não domina o outro com brutalidade ou com chantagem, mas o orienta com firmeza e amor. Na educação, precisamos dessa autoridade consciente: alguém que não tem medo de ser questionado, que não elimina a liberdade do aluno, mas que compreende profundamente a responsabilidade de guiar. A educação não pode ser um caos onde tudo é permitido, nem uma ditadura psicológica; ela precisa ser um espaço em que a liberdade interior e a responsabilidade caminham juntas.

Nós confundimos disciplina com repressão. Reprimimos impulsos, desejos, emoções, tentando nos enquadrar em padrões externos. Engolimos a raiva, desejamos às escondidas da consciência, fingimos pureza, fingimos bondade, enquanto o interior se enche de tensões e conflitos ocultos. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que foi reprimido explode em forma de vícios, doenças, violências, crises. A disciplina autêntica não nasce da força bruta da vontade, mas da compreensão. Quando compreendemos profundamente o mecanismo de um defeito – sua origem, suas consequências, suas máscaras –, vamos deixando de alimentá‑lo. A mudança, então, não é uma violência; é o abandono consciente daquilo que já não tem sentido, que já não serve mais.

A consciência adormecida se mantém pela identificação e pela fascinação. Um pensamento aparece e nós o seguimos; uma emoção surge e nos arrasta; um desejo brota e se torna centro da nossa vida por horas, dias, anos. Esquecemos de nós mesmos, esquecemos que somos algo além daquele impulso momentâneo. Quando estamos fascinados por uma pessoa, por um prazer, por uma dor, por uma ideia, agimos como se o mundo inteiro se resumisse àquilo. Ao sair desse estado, muitas vezes nos surpreendemos com o que dissemos, com o que fizemos, e perguntamos: “Como fui capaz disso?”.

A educação interior começa quando desenvolvemos a capacidade de lembrar de nós mesmos em meio a qualquer situação, sem nos deixarmos hipnotizar pelos objetos externos, pelas situações, pelos movimentos internos.

Há um exercício que nos ajuda a manter a atenção, a consciência: aprender a observar, em cada experiência, o sujeito, o objeto e o lugar. O sujeito somos nós mesmos, a presença que observa; o objeto é aquilo que estudamos, vemos ou sentimos; o lugar é o ambiente em que tudo acontece. Quando nos acostumamos a perceber essa tríade, fortalecemos a memória. Não se trata de decorar, mas de estar presente. A memória verdadeira nasce da atenção viva, não da repetição mecânica.

A educação não pode ignorar a estrutura do ser humano. Em cada um de nós existe uma essência e uma personalidade. A essência é o que temos de mais verdadeiro: a capacidade de amar, de intuir, de perceber a beleza, de se comover, de sentir a presença do sagrado na vida. A personalidade é construída: pelas palavras que escutamos, pelos exemplos que vemos, pelos costumes da família e da sociedade, pela cultura, pela escola.

A educação atual alimenta quase exclusivamente a personalidade: ensina a competir, a representar papéis, a defender interesses, a acumular informações, a parecer. A essência, quase nunca é alimentada, fica sufocada, esquecida. Nem o ensino puramente religioso, nem o ensino puramente materialista podem libertar o ser humano; ambos fracassam quando não servem para despertar a consciência.

Os primeiros sete anos de vida são cruciais. Ali, a personalidade toma forma, absorvendo tudo sem filtro. A maneira como os pais se tratam, como lidam com o dinheiro, com a verdade, com o sexo, com o trabalho, com a espiritualidade, fica gravada como uma marca profunda. Gritos, chantagens, surras, ironias, humilhações, abandonos, falsidades, criam tensões que se manifestam depois em neuroses, vícios, agressividade, depressão. Amor, respeito, firmeza, exemplo, sinceridade, criam uma base mais saudável para a consciência despertar. A educação não começa na escola, começa no lar, e começa antes mesmo do nascimento.

O modo como concebemos um filho também é educação. Quando reduzimos o ato sexual a mero divertimento, descarga ou fuga, profanamos a semente humana e destruímos o que há de mais sagrado nela. Essa semente é a base da nossa vida e nela está o poder de nossa verdadeira transformação interior. Cuidamos das sementes na agricultura, na pecuária, melhoramos raças animais, desenvolvemos técnicas sofisticadas para preservar e aperfeiçoar a genética. Mas desprezamos a semente humana, tanto no plano físico quanto no psíquico. Uma educação verdadeiramente fundamental exige que aprendamos a viver a sexualidade com responsabilidade e reverência.

Quando um casal se prepara conscientemente para gerar um filho, não se trata apenas de planejar financeiramente a chegada da criança. Trata-se de purificar o modo de viver, de abandonar hábitos que envenenam corpo e alma, de cultivar pensamentos e sentimentos serenos, de transformar a união sexual em um ato de amor e não em um jogo de luxúria. A forma como a mãe vive a gestação – suas emoções, suas angústias, suas alegrias, seus medos, suas orações – influencia profundamente o ser que está se formando em seu ventre. O pai, ao invés de ser mero espectador, precisa se envolver, proteger, sustentar emocionalmente, participar do processo com consciência. Depois do nascimento, a maneira como se vive o período depois do parto, como se cuida do corpo e da alma da mãe e do bebê, também é educação.

A juventude é a grande encruzilhada. Nela, a energia vital se manifesta com força: desejos intensos, criatividade, inconformismo, necessidade de autonomia. Se essa força é entregue ao ego, transforma‑se em promiscuidade, alcoolismo, consumo de drogas, violência, fuga permanente das responsabilidades. Os anos passam em festas, aventuras, experiências desordenadas, e depois o preço é cobrado com doenças, frustrações, culpas, vazio. Mas a mesma energia, se canalizada com consciência, pode abrir caminhos extraordinários: estudo profundo, trabalho criativo, serviço desinteressado, construção de um lar baseado em amor verdadeiro, busca espiritual autêntica. Para isso, é preciso orientação e exemplo; não basta proibir, é necessário mostrar um sentido maior para a vida.

O casamento não é apenas uma convenção social. Ele é um laboratório intensivo de autoconhecimento, de amor, de sacrifício. Quando casamos por paixão cega, por interesse, por pressão, por medo da solidão, estamos plantando sementes de sofrimento. A paixão deseja possuir, controlar, usar o outro para preencher seus vazios. O amor deseja compreender, apoiar, libertar, crescer junto. Se confundimos ciúme com amor, vamos inevitavelmente cair em dramas, brigas, violências, traições, paranoias. O ciúme é o medo de perder o objeto de apego, não é expressão de amor; onde há ciúme, o amor foi distorcido.

Nós carregamos dentro de nós uma multiplicidade de “eus”. Há um eu que promete e outro que esquece, um eu que ama e outro que odeia, um eu que tem fé e outro que debocha, um eu que se sacrifica e outro que apenas exige. Essa multiplicidade explica nossas contradições. Enquanto acreditarmos que somos uma unidade, continuaremos prisioneiros do caos interior. A educação da consciência exige que reconheçamos essa multiplicidade e que comecemos a observar os diversos eus em ação: o eu da ira, o eu da preguiça, o eu da inveja, o eu da luxúria, o eu da vaidade, o eu da cobiça. Ao vê-los claramente, ganhamos a possibilidade de nos separar deles, de não nos identificar, de permitir que morram pouco a pouco.

Chamamos de morte psicológica esse processo de dissolver, através da compreensão, os múltiplos eus que nos escravizam. Essa morte psicológica é a morte do que nos torna mecânicos, egoístas, violentos, falsos. Na medida em que essa morte vai acontecendo, algo novo pode nascer dentro de nós. Surge uma presença mais unificada, uma identidade mais profunda, uma capacidade de amar sem tanto egoísmo, uma lucidez. A educação que ignora essa dimensão da morte interior forma pessoas talvez hábeis e cultas, mas sem consciência de si mesmas, sem um centro.

A educação deve preparar também para a morte física. Morrer não é um acidente distante que acontece “com os outros”; é a única certeza que temos. Se passamos toda a vida fugindo do tema, a morte nos encontrará desesperados, agarrados a tudo aquilo que vamos ser obrigados a largar. Se, ao contrário, aprendemos desde cedo a contemplar a impermanência, a aceitar a transitoriedade de todas as coisas, a viver com desapego, a morte perde parte de seu terror. O ego teme a morte porque teme ver a verdade; a consciência reconhece a morte como passagem dentro de um processo maior.

A crença ingênua na evolução automática nos impede de assumir a responsabilidade interior. Pensamos que, com o tempo, com o avanço científico, com novas leis, com reformas políticas, tudo melhorará por si só. Entregamos ao futuro e às estruturas externas a tarefa de nos salvar. No entanto, vemos o mundo se encher de sistemas mais complexos, de tecnologias mais poderosas, e ao mesmo tempo de violência, corrupção, destruição. A evolução tecnológica ou científica não traz, por si, evolução moral ou espiritual. Sem revolução íntima, qualquer progresso externo se converte em ferramenta mais sofisticada para o egoísmo.

Educar é participar dessa revolução interior. É ajudar a criança, o jovem, o adulto a tomar consciência de si mesmo, a lidar com o medo, a reconhecer a força da sexualidade, a desenvolver atenção, a pensar por conta própria, a amar com maturidade, a trabalhar com sentido, a servir à vida e não apenas ao próprio interesse. É mostrar que a vida não é só estudar, trabalhar, consumir, se divertir, casar, envelhecer e morrer, mas uma oportunidade para despertar da consciência. É fazer de cada disciplina – matemática, arte, história, biologia – um espelho para conhecer a nós mesmos e o mundo de forma integrada.

A educação atual exalta certas profissões e despreza outras, como se o mundo não precisasse de agricultores, pedreiros, marceneiros, donas de casa, jardineiros e tantos outros; porém o importante não é o título, e sim a consciência com que cada um trabalha e serve.

Enquanto aceitarmos uma educação que apenas nos molda a um sistema doente, continuaremos repetindo a mesma tragédia humana em novas formas. Quando assumimos a Educação Fundamental como caminho, começamos a olhar para a escola, para a família, para o trabalho e para as relações com outros olhos. Deixamos de ser engrenagens, passamos a ser buscadores. Deixamos de viver apenas para sobreviver, passamos a viver para despertar.

Sem a Educação Fundamental, o mundo caminha para a degeneração: a sociedade moderna multiplica leis, máquinas e instituições, mas não resolve a miséria moral do ser humano, e a tragédia humana segue se repetindo com diferentes nomes e formas.


Escola Gnóstica



Fonte: https://escolagnostica.org.br/
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domingo, 9 de agosto de 2026

EPIGÊNESE: O TRABALHO ORIGINAL DO ESPÍRITO


O próprio Espírito que renasce incorpora em si a quintessência de seus primitivos Corpos Vitais (1); além disso, faz um pequeno trabalho original. Isso acontece para que na vida futura possa haver lugar para a expressão individual original, expressão que não esteja determinada por ações passadas (2).

Existe uma grande tendência para se pensar que tudo o que existe agora é o resultado de algo que existiu previamente; mas, se esse fosse o caso, não haveria margem para esforços novos e originais que exigem novas causas. A cadeia de causas e efeitos não é uma repetição monótona. Há um influxo contínuo de causas novas, originais. Essa é a base real da evolução, a única coisa que lhe dá significado e que a converte em algo mais do que um simples desdobramento ou desenvolvimento de qualidades latentes. Isto é EPIGÊNESE, o livre-arbítrio que supõe a eleição entre dois cursos de ação. Esse é o fator importante que sozinho pode explicar de maneira satisfatória o sistema (3) ao qual pertencemos.

A forma foi construída pela Evolução; o Espírito a construiu e entrou nela pela Involução (4); porém o meio para inventar os melhoramentos é a Epigênese.

O pai e mãe dão a substância de seus corpos para construir o corpo do filho; no entanto, a Epigênese faz possível que se agregue algo, o que torna o filho diferente dos seus pais.

Quando a Epigênese não atua ou torna-se inativa no indivíduo, na família, na nação ou na raça, a evolução cessa e começa a degeneração.

Durante toda a vida, a qualidade que os rosacruzes chamam de Epigênese está em atividade; essa qualidade é o poder de pôr em ação um número limitado de causas novas que não são determinadas nem impostas a nós por atos do passado (5). Se estivéssemos totalmente sujeitos ao passado e incapazes de gerar novas causas, seria impossível desenvolver um poder criador e original, nem haveria livre-arbítrio. Vem aqui nos ajudar a faculdade espiritual da Epigênese, portanto; capacitando-nos, se for essa a nossa vontade, a abrir caminho para esferas ainda maiores de poder e atividade proveitosa.



Fonte: Publicado na Revista "Serviço Rosacruz" de julho/1970
Via: Fraternidade Rosacruz de Campinas/SP
www.fraternidaderosacruz.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/andr%C3%B3ide-intelig%C3%AAncia-artificial-7707034/


Notas deste Blog:

(1) Corpos Etéricos em outras tradições.
(2 e 5) Carma, ação e reação, causa e efeito.
(3) Sistema Evolutivo.
(4) "Descida" do Espírito à matéria.

VISÃO RETROSPECTIVA NO MOMENTO DA MORTE


Este é um dos fenômenos mais singulares que ocorrem em todos os casos de morte natural e, até mesmo, em algumas mortes subitâneas, por acidentes diversos.

A pessoa, nos instantes finais de sua existência, vê passar diante de si, como numa tela de cinema ou num monitor de vídeo, toda a Vida que está prestes a deixar. Os primeiros meses do renascimento, a pré-infância, a infância, a puberdade, a adolescência, a juventude e a fase adulta, tudo que foi experimentado em cada um desses estágios do desenvolvimento bio-psicológico do ser humano, vem à tona com uma riqueza de pormenores, absolutamente, incomum.

Deve-se este fenômeno ao registro minucioso feito pelo corpo perispiritual de todos os acontecimentos vividos pelo ser humano em cada uma de suas existências. Nada deixa de ser fixado pelo envoltório sutil da alma, e é graças a essa transcrição minuciosa que podemos, aqui mesmo, em nosso mundo e, mais tarde, na Vida Espiritual, lembrar-nos de todas as nossas existências pregressas.

Essa visão retrospectiva possibilita ao ser uma contemplação crítica e analítica de todas as ações por ele praticadas, durante a última existência, num prévio julgamento consciencial, com vistas à situação que ele merece na Pátria Espiritual.

Através desse retrospecto, pode o espírito avaliar a imensa distância que ainda o separa de um viver realmente pautado dentro da legislação divina. Por outro lado, verifica-se, também, que até o centavo que um dia doamos, como esmola, ao mais humilde dos pedintes, ali está registrado.

O fenômeno é instantâneo. Acontece num átimo. O que mais importa, entretanto, não é a sua duração, mas a sua qualidade. Mesmo os segredos mais íntimos que, por vezes, o ser humano reprime para o seu inconsciente, vêm à tona com absoluta fidelidade, numa demonstração de que nada permanecerá enterrado, para sempre, nos porões da mente.

E isto apenas confirma as palavras de Jesus, quando disse: "Nada há oculto que não venha, um dia, a ser conhecido."

Nessa retrospectiva, os fatos negativos servem de advertência, e possibilitam ao espírito entrever as consequências cármicas que, no futuro, eles desencadearão. Isto nas almas mais esclarecidas, com senso de responsabilidade e noções precisas de Vida Eterna e reencarnação. Já os fatos positivos, também recordados, servem como estímulo a um maior crescimento moral e espiritual nas novas dimensões da Vida em que a alma está penetrando.

0 grande vate português Luiz de Camões, em soneto célebre, afirma: "Numa hora, encontro mil anos e é de jeito que em mil anos não encontro uma hora...". De fato, o tempo psicológico do espírito e suas vivências espirituais não são medidos exteriormente com os parâmetros habituais dos ponteiros dos relógios. Esse tempo não cronológico, representado pelo acúmulo de experiências vividas, só pode ser avaliado, interiormente, em visões retrospectivas, no instante da morte, ou nos estados de emancipação da alma. No sonho, no sono hipnótico ou sonambúlico, é perfeitamente possível ao espírito reviver, em segundos, fatos que ocuparam, por vezes, metade de uma existência.

Ao despertar no Além e na posse integral dessa visão panorâmica de sua última existência, o espírito transformar-se-á no grande juiz de si mesmo, no tribunal silencioso de sua consciência...



Waldo Lima do Valle




Fonte: do livro “Morrer e Depois” 
Ed. A União
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/ai-gerado-t%C3%BAnel-9201406/

sábado, 8 de agosto de 2026

O SAGRADO CORAÇÃO E O TEMPLO INTERIOR: UMA LEITURA MAÇÔNICA DO CENTRO DIVINO


"O Divino Coração foi-me apresentado sobre um trono de chamas, mais resplandecente que o sol, transparente como cristal, com esta adorável ferida."

– Santa Margarida Maria Alacoque, 1674


Entre os grandes símbolos espirituais da humanidade, poucos possuem uma força tão universal quanto o coração. Para além de sua dimensão religiosa ou sentimental, o coração representa, em diversas tradições iniciáticas, o ponto central do ser humano, o lugar simbólico onde o homem encontra a si mesmo e estabelece uma relação com o Princípio Criador.

A visão do Sagrado Coração de Jesus revelada a Santa Margarida Maria Alacoque, no século XVII, pode ser compreendida, sob uma perspectiva simbólica, como a manifestação de um antigo arquétipo espiritual: o coração como Centro, como templo interior e como morada da Luz Divina.

Essa interpretação aproxima-se de muitos princípios presentes na tradição maçônica, especialmente aqueles relacionados ao aperfeiçoamento interior, à construção do Templo espiritual e à busca da Verdade.


O coração como centro do Templo Interior

A Maçonaria ensina que o verdadeiro trabalho iniciático ocorre dentro do próprio homem. O templo exterior é apenas uma representação simbólica do templo interior que cada iniciado deve construir.

Assim como o Templo de Salomão representa a ordem perfeita do Universo, o coração humano simboliza o santuário íntimo onde a consciência busca harmonizar-se com o Grande Arquiteto do Universo.

O iniciado é chamado a transformar a pedra bruta em pedra polida, removendo suas imperfeições, paixões desordenadas e limitações interiores.

Esse processo é, em essência, uma jornada de retorno ao Centro.

O Sagrado Coração, nesse contexto simbólico, representa esse ponto central onde a personalidade humana encontra a sua dimensão espiritual mais elevada.


A ferida do coração e o despertar da consciência

A imagem tradicional do Sagrado Coração apresenta uma ferida aberta, muitas vezes atravessada por uma chama.

Na linguagem simbólica das tradições iniciáticas, a ferida não representa apenas sofrimento, mas uma abertura.

É a passagem pela qual a luz penetra.

O filósofo e estudioso do simbolismo René Guénon associava essa imagem ao "olho do coração", expressão encontrada em antigas tradições espirituais para designar a capacidade de contemplação interior.

Na Maçonaria, encontramos um conceito semelhante na ideia de iluminação do iniciado. A Luz recebida simbolicamente no momento da iniciação não é uma luz exterior, mas o despertar de uma faculdade interior capaz de conduzir o homem ao conhecimento de si mesmo.

A ferida do coração representa, portanto, a ruptura da ignorância e a abertura da consciência para uma realidade superior.


O Logos e a Palavra Perdida

A tradição cristã identifica Cristo como o Logos, o Verbo Divino: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." (João 1: 1)

O Logos representa a Sabedoria eterna, o princípio ordenador do Universo.

Na tradição maçônica, a busca pela Palavra Perdida possui profundo significado simbólico. Ela representa a procura pela Verdade primordial, pela sabedoria que foi esquecida ou obscurecida pela condição humana.

Quando o homem encontra essa Palavra em seu interior, ele descobre que ela nunca esteve realmente perdida; estava apenas adormecida no centro mais profundo de seu ser.

O coração, como templo interior, torna-se então o lugar simbólico onde a Palavra pode novamente manifestar-se.


A câmara interior e o Santo dos Santos

No Templo de Salomão existia o Santo dos Santos, o espaço mais sagrado, onde se manifestava simbolicamente a presença divina.

Nas tradições místicas, esse lugar não é apenas uma construção física, mas uma realidade interior.

Mestre Eckhart, grande místico medieval, ensinava que Deus gera eternamente o Filho no mais profundo da alma humana.

Essa ideia aproxima-se da concepção maçônica de que o verdadeiro templo não é aquele construído com pedras, mas aquele edificado no interior do homem.

O Santo dos Santos está dentro de cada iniciado.

O coração é a câmara secreta onde o homem encontra o silêncio necessário para ouvir a voz da consciência e aproximar-se do Princípio Criador.


O Centro e a busca maçônica

Toda tradição iniciática possui o conceito de um Centro.

Na simbologia maçônica, o ponto central aparece representado pelo ponto dentro do círculo, símbolo de equilíbrio, unidade e origem.

O círculo representa a manifestação universal; o ponto representa o princípio indivisível de onde tudo procede.

O coração possui exatamente essa mesma função simbólica: é o ponto central do ser humano.

Aquele que vive afastado de seu centro encontra-se disperso nas ilusões do mundo exterior. Aquele que retorna ao centro reencontra equilíbrio, harmonia e sabedoria.

A jornada maçônica pode ser entendida como esse retorno progressivo ao Centro.


A chama do coração e o fogo iniciático

O Sagrado Coração frequentemente aparece envolvido por chamas.

O fogo sempre foi um dos maiores símbolos iniciáticos da humanidade.

Ele destrói o que é impuro, transforma a matéria e ilumina a escuridão.

Na Maçonaria, a chama representa conhecimento, inteligência e transformação.

O fogo do coração é o fogo espiritual que impulsiona o homem a superar suas limitações e buscar uma condição superior de existência.

É o mesmo fogo simbólico que ilumina o caminho do iniciado em direção à Verdade.


O coração universal das tradições

O mais impressionante no simbolismo do coração é sua presença em diferentes culturas.

No Cristianismo, encontramos o Sagrado Coração de Jesus.

No Judaísmo místico, o coração representa o lugar onde habita a presença divina.

No Islamismo espiritual, o qalb é considerado o centro onde Deus deposita Seu segredo.

Nas tradições orientais, o coração é o espaço onde reside a consciência superior.

Todas essas tradições apontam para uma mesma realidade simbólica: existe no ser humano um ponto sagrado onde o finito encontra o infinito.


O verdadeiro templo está dentro de nós

A mensagem profunda do Sagrado Coração é também uma mensagem iniciática.

Ela nos lembra que a maior construção que o homem pode realizar não é exterior, mas interior.

Palácios, templos e monumentos podem desaparecer com o tempo, mas o templo construído pela transformação moral e espiritual permanece.

O iniciado que trabalha sobre si mesmo constrói silenciosamente esse templo invisível.

Ele descobre que a Luz procurada nos mistérios não está distante, mas habita o próprio coração.

Assim, o Sagrado Coração de Jesus torna-se um símbolo universal do Centro Divino, da presença do Logos e da eterna busca humana pela Verdade.

A grande obra maçônica — o aperfeiçoamento do homem — nada mais é do que a jornada de retorno ao coração, onde a verdadeira Luz sempre esteve presente.



Luiz Sergio de Freitas Castro



Fonte do Texto e Gravura: Revista "O Malhete", nº 208 - agosto 2026
https://revistamalheteonline.blogspot.com/2026/07/208-o-sagrado-coracao-e-o-templo.html

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

SUPERANDO INCERTEZAS


Sentir-se fraco, incapaz. Estagnar diante das tarefas que a vida lhe traz. Congelar os movimentos e preferir a inação, a qualquer tentativa de resolução. São escolhas. Mas quem assim escolhe, escolhe ter a morte em vida. Escolhe ser alguém organicamente vivo, mas sem propósitos benéficos, inativo como a morte, destituído de movimentação salutar. E, muitas vezes, apenas a incerteza é a causa primária de tal cenário.

É preciso superar. É preciso ter certeza. Primeiro, tente se lembrar se viveu situação análoga anteriormente, pois que, em momentos passados, a confiança em si mesmo poderia ser outra, mais consistente. Portanto, havia certeza de sucesso e, consequentemente, a situação adversa foi superada.

Tal confiança pode não estar presente na situação de momento e isso pode acarretar na incerteza e na consequente estagnação. Mas você já superou antes. Você já fez. Já provou ser possível. E, se já fez antes, por que não pode realizar novamente? Isso lhe dará força para conquistar a certeza. E isso o moverá para frente. Mas a incerteza pode estar vinculada também a excesso de conteúdos inúteis ou até inexistentes, vivos apenas em sua imaginação. Significa que você pode desconfiar de algo, mas não pode provar. E, se não pode provar, a situação pode mesmo não existir fisicamente, apenas existir para você. E isso é a incerteza. Esqueça situações assim. São distrações, armadilhas de sua própria mente para lhe desviar do propósito principal. Deixe de lado incertezas desta natureza. Isso o moverá para frente.

Você pode ter dúvidas sobre suas capacidades ou habilidades de administrar determinado cenário ou situação. Simples. Se algo assim está em suas mãos, pode realizar. Acredite nisso e apenas comece a fazer. As incertezas são nuvens de distrações geradas interna ou externamente, com o propósito de bloquear as ações voltadas à evolução do ser. Elimine-as. Supere o medo de derrota. Sentir insegurança, por entender que pode perder, é imaturidade. Perder é uma possibilidade, mas não é o apocalipse. Portanto, você pode perder, sim, e isso não é nada demais. Tenha essa maturidade em seu raciocínio. E entenda que, além de perder, também pode ganhar. Mas, para isso, precisa de ação. Precisa fazer. E essa é a vitória real. Fazer.

A consequência de praticar qualquer ato é perder ou ganhar, em determinada situação. Mas a consequência de não se intimidar com o tamanho do desafio e fazer o que tem de ser feito, é estabilizar um ganho evolutivo, é progredir firmemente rumo ao Pai. Ganhar ou perder é transitório. Evolução, como ser, é para sempre.


Fabio Bento / Ermance Dufaux



Fonte: do livro "Luzes do Amanhecer"
Mensagens para Renovação Íntima
www.institutopiramide.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/humor-sa%C3%BAde-mental-depress%C3%A3o-7529903/

AS LUZES DA ÁRVORE DA VIDA


Kéther: a Coroa; Hohmah: a Sabedoria; Binah: a Inteligência; Hessed: a Graça; Géburah: a Força; Tiphéreth: a Beleza; Netsah: a Vitória; Hod: a Glória; Iésod: o Fundamento; Malhuth: o Reino.

Aprendei a meditar sobre as dez séfiras, a Árvore da Vida, com a consciência de que ela está em vós, e de que a única atividade que vale a pena é fazê-la crescer, florescer e dar frutos.

Não deveis preocupar-vos com o tempo que demorareis a tornar-vos realmente esta Árvore. Talvez tenhais de voltar a esta imagem e de a vivificar milhares de vezes, até que as dez séfiras inscritas em vós comecem a vibrar e o vosso ser interior seja iluminado por todas as luzes da Árvore da Vida.


Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: http://prosveta.com/
Fonte da Gravura: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Kabbalistic_Tree_of_Life_%28Sephiroth%29_2.svg#filelinks

A GRANDE REBELIÃO


A Grande Rebelião é um chamado para morrermos para tudo o que somos psicologicamente hoje e nascermos como algo totalmente diferente.

O verdadeiro problema do mundo é o nosso ego, e a única revolução que vale é a destruição consciente desse ego em cada um de nós.

As cidades estão cheias de edifícios, vitrines luxuosas, tecnologias e discursos sobre progresso, enquanto, por baixo disso, a vida se tornou feia, mecânica e interiormente vazia. Andamos pelas mesmas ruas, fazemos as mesmas coisas, vemos as mesmas estruturas, e sentimos um tédio profundo, uma repetição cansativa e estéril que nos esgota.

As relações humanas se embruteceram. A amizade perdeu seu perfume, a sinceridade desapareceu, as pessoas se tornaram desconfiadas, interesseiras, cruéis, e o sexo feminino é artificializado pelo culto à aparência, afastando-se da simplicidade natural.

O sistema empurra todos para o consumo, para o hedonismo e para o egoísmo, e a alma é praticamente esquecida, escravizada por um ego excitado, superficial, faminto por sensações. Os meios de comunicação, a propaganda e até a educação formal funcionam como uma hipnose coletiva, programando nossa mente para servir ao sistema e abafando desde cedo a expressão da Essência.

Vemos uma devastação ecológica brutal, um cenário que empurra a humanidade para um colapso global. Os mares foram transformados em lixeiras, o plâncton está sendo destruído, o ar está contaminado, a água potável está envenenada e é reciclada sem cessar, os solos estão exaustos, os campos são consumidos pela exploração desenfreada, o lixo atômico não tem destino seguro.

A fome, a miséria, a superpopulação, as epidemias, o abuso dos recursos naturais, as catástrofes climáticas compõem um cenário em que a própria sobrevivência se torna incerta.

Não há um “inimigo externo”. É o próprio “animal intelectual” que produz essa agonia planetária, projetando para fora a voracidade, a ignorância e a violência que carrega dentro.

Todos lutam para sobreviver, para ganhar dinheiro, ter algum conforto, formar um lar, viver prazeres, mas, apesar disso, ninguém é realmente feliz. Ficamos correndo atrás de pequenas satisfações: festas, diversões, sexo, viagens, status, compras, conquistas; ou então acreditamos que seremos felizes quando ganharmos na loteria, encontrarmos o “par ideal”, tivermos sucesso profissional, criarmos os filhos, conquistarmos uma posição social. Conforme a vida se desenrola, vemos o choque entre essas ilusões e a realidade: casamentos desfeitos, traições, problemas financeiros, filhos ingratos, doenças, envelhecimento, frustrações, rotina, e uma sensação íntima de que a promessa de felicidade nunca se cumpre.

Confundimos prazer com felicidade. O prazer é excitante, mas curto, seguido de tédio, vazio, culpa ou sofrimento, e nos torna dependentes de doses cada vez maiores.

A felicidade autêntica só pode surgir se eliminarmos dentro de nós mesmos as causas da nossa dor.

A ideia de “liberdade” hipnotiza, acende guerras, revoluções, discursos inflamados. Porém, na prática, quase ninguém sabe o que é estar livre. Jovens fogem de casa em busca de liberdade, mulheres querem liberdade no casamento, empregados querem liberdade do patrão, povos lutam pela liberdade política. Mas, mesmo quando conquistam essas mudanças externas, permanecem escravos de medos, ciúmes, desejos, ambições, culpas, traumas e hábitos.

A liberdade não se reduz a condições externas. A liberdade real é a libertação da consciência dos grilhões internos do “eu”. Enquanto estivermos agarrados a “meus gostos”, “minhas fobias”, “minhas paixões”, “minhas crenças”, “minhas identificações” e a toda a estrutura do ego, a nossa consciência permanecerá aprisionada.

A liberdade é algo que só podemos experimentar diretamente quando o “eu” morre, quando os grilhões psicológicos se desfazem e a consciência sai dessa prisão de desejos e medos.

Tudo em nós e na história oscila entre extremos: alegria e tristeza, sucesso e fracasso, otimismo e pessimismo, fé e ceticismo, fanatismo religioso e fanatismo materialista. As religiões, as seitas, as ideologias, os partidos, as filosofias, os “ismos” vivem nesse vai e vem pendular, alternando períodos de domínio e decadência, ascendência e queda.

Um fanático religioso, diante de uma decepção ou derrota, pode se tornar ateu; um cético convicto, diante de uma experiência de terror ou um fato metafísico marcante, pode se tornar devoto fervoroso. Vemos que, enquanto nos movemos dentro desse pêndulo, continuamos presos à dualidade: sempre defendendo um lado contra o outro, reagindo, oscilando, sem encontrar um ponto firme.

A Verdade não se encontra em nenhum desses extremos, mas no centro. Esta experiência só pode ser vivida quando a consciência se liberta das oscilações e não se identifica nem com o polo espiritualista nem com o polo materialista.

Confundimos os conceitos com a realidade. Damos nomes aos fenômenos, construímos teorias, definimos causas aparentes, criamos sistemas lógicos, e nos sentimos seguros porque temos “uma explicação”.

Porém, um conceito não é a coisa em si, é apenas uma representação que aponta para uma realidade. Para cada teoria existe outra igualmente lógica e oposta, e o debate intelectual se torna uma disputa infinita de construções mentais.

A ciência acumula dados, fórmulas, classificações e hipóteses, mas continua cega para dimensões mais profundas do ser e da consciência, assumindo uma postura dogmática em nome da “razão”. Em contraste, existe uma ciência objetiva do Ser, uma ciência dos iluminados, baseada não em raciocínios abstratos, mas em experiência direta, em percepção consciente da realidade.

Em vez de nos perdermos na dialética dos conceitos – tese, antítese, síntese mental –, devemos começar a valorizar a dialética da consciência: uma dialética viva, em que a consciência se coloca diante dos fatos internos e externos, observa, percebe e compreende diretamente.

Nascemos com uma quantidade muito pequena de consciência desperta. A maior parte das pessoas está adormecida, mecanizada, mergulhada em subconsciente, inconsciente e infraconsciência. Não ampliamos a consciência com mero esforço físico, com técnicas superficiais ou com simples acúmulo de informações. A consciência cresce quando praticamos trabalhos conscientes e aceitamos padecimentos voluntários, como renunciar a hábitos nocivos, encarar verdades dolorosas sobre nós mesmos e agir contra os impulsos do ego.

Sem trabalho consciente e padecimentos voluntários, continuamos sonhando com mudança, mas seguimos os mesmos. É preciso enfrentar a resistência do ‘eu’ e ir contra nossos próprios desejos.

Existem sete tipos de energia em nós: mecânica, vital, psíquica, mental, de vontade, de consciência e espiritual. Somente a energia de consciência e a espiritual, usadas de modo adequado, podem nos despertar.

Sempre que nos identificamos com situações, emoções, pensamentos, fantasias, desperdiçamos a energia consciente. Por isso é importante aprender a ver a vida como um filme, em que “assistimos” sem nos perdermos na identificação.

Essa mudança começa pela auto-observação. Sem nos observarmos, sem ver o que se passa em nós, não há autoconhecimento. A consciência precisa se voltar para dentro, registrando pensamentos, emoções, impulsos, tensões, reações, sem se justificar nem se condenar, apenas vendo, percebendo.

A meditação é o meio pelo qual penetramos até o fundo de um “eu”, o examinamos em silêncio e abrimos espaço para que ele seja compreendido e dissolvido.

Com auto-observação descobrimos que somos quase totalmente mecânicos, repetimos frases, reações, gestos, padrões emocionais, julgamentos, sem nenhuma escolha real. Aos poucos, começamos a perceber que não existe um “eu” único e íntegro, mas uma multiplicidade de “eus” que se alternam em nós. Um “eu” promete, outro descumpre; um ama, outro odeia; um quer trabalhar, outro quer sabotar; um busca espiritualidade, outro busca prazer ou prestígio.

Nós nos imaginamos uma pessoa única, mas ao nos observarmos o que encontramos é uma legião de pequenos “eus”, cada um com seus desejos, temores, lembranças e ideias.

A personalidade – o modo como falamos, pensamos e nos apresentamos – é um instrumento usado por esses “eus” alternadamente, sem que haja um verdadeiro centro consciente e permanente dirigindo tudo. Os “eus” são os grandes responsáveis pelos nossos conflitos, contradições, sofrimentos e repetições de erros.

Quando esta observação se aprofunda, reconhecemos que existe algo diferente dentro de nós: a Essência, a consciência pura, infantil, que é o que temos de mais digno. A Grande Rebelião é a luta para libertar essa Essência aprisionada pelos “eus”. Esse processo se realiza através da morte desses “eus”.

Internamente, carregamos um “país psicológico”, com regiões de ódio, inveja, medo, luxúria, orgulho, preguiça, vaidade, autocomiseração, ressentimento, e também zonas de paz, devoção, ternura, coragem, amor. Cada vez que entramos num “estado psicológico”, entramos em uma região desse país; e, uma vez lá dentro, atraímos acontecimentos, pessoas e situações que vibram nessa mesma frequência.

O retorno nos faz voltar a este mundo, vida após vida; a recorrência nos leva a encontrar, em cada existência, condições semelhantes e dramas parecidos, porque retornamos sempre ao mesmo ‘país’ interior e às mesmas ‘cidades’ psicológicas. Enquanto não transformarmos esse país psicológico, só mudaremos o cenário externo, repetindo essencialmente as mesmas experiências com rostos e circunstâncias diferentes.

Nós temos “três mentes”, a mente sensorial se apóia exclusivamente nos sentidos; acredita apenas no que pode medir, pesar, ver, tocar, e permanece presa ao imediato. A mente intermediária é o depósito de crenças, teorias, ideologias, dogmas, leituras, conceitos religiosos, filosóficos e políticos, ela vive de conteúdos herdados, aceitos ou rejeitados, mas quase sempre sem experiência direta. A mente interior, por sua vez, é a faculdade de perceber a verdade diretamente, sem intermediários conceituais e sem depender dos sentidos, é a mente que permite o contato com realidades superiores.

A humanidade vive oscilando entre a mente sensorial e a intermediária, discutindo entre materialismo e espiritualismo, ciência e religião, sem abrir de fato a mente interior. Só quando a mente interior se ativa pela meditação profunda e pela morte do ego é que podemos entrar em contato com a verdadeira ciência do Ser.

As drogas – lícitas ou ilícitas, inclusive certas substâncias usadas com pretexto “místico” – são uma fuga psicológica e danificam a mente, desequilibram os centros psíquicos, destroem a energia criadora e nos empurram para estados infra-humanos, gerando loucura, degeneração e perda de qualquer possibilidade séria de trabalho interior.

Muitos pseudo-caminhos que prometem “iluminação” fácil, estados alterados e experiências extraordinárias sem esforço moral, sem disciplina, sem morte do ego, são formas de seduções do próprio ego. Não podemos colher frutos espirituais sem antes criar raízes profundas.

Os pseudo-esoterismos, os fanatismos, as lideranças abusivas e as superstições se mascaram de espiritualidade. Qualquer ensinamento pode ser transformado em bandeira de orgulho, em motivo de separação, em instrumento de poder ou comércio, perdendo o sentido íntimo do trabalho interno.

O caminho exige honestidade brutal consigo mesmo, renúncia a autoilusões, discernimento para não confundir imaginação com experiência espiritual, firmeza para não se deixar enganar por teorias brilhantes e grupos sedutores. Não basta teorizar, crer ou acumular conhecimentos esotéricos, é indispensável trabalhar sobre si mesmo, mudar a forma de pensar, sentir e agir, transformar a vida prática e morrer em defeitos.

O Anticristo não é um personagem apocalíptico, e sim uma mentalidade intelectual orgulhosa que se ergue contra tudo o que é sagrado. O Anticristo é a síntese de todas as forças que absolutizam a razão desligada do espírito: ciência sem consciência, política cínica, tecnologia destrutiva, propaganda massificante e sistemas de pensamento que ridicularizam tudo o que transcende o mensurável.

O Anticristo não está só “lá fora”, ele vive em nós, em cada forma de orgulho intelectual, em cada crença que se recusa a ser examinada, em cada defesa racional do nosso ego. A sociedade nos programa desde cedo com esse tipo de mentalidade, uma educação que nos transforma em robôs adaptados ao sistema, que mata a sensibilidade e adestra a mente para servir a interesses anti-espirituais.

Da mesma forma, o Cristo não é apenas a figura histórica de Jesus, é um princípio espiritual vivo que pode nascer e se desenvolver dentro de nós. Esse Cristo interior nasce de modo humilde em nosso mundo psicológico, luta contra as tentações do ego, realiza milagres interiores (transformações reais), é perseguido pelos ‘fariseus’ internos (nossos moralismos, hipocrisias e crenças) e enfrenta a traição de nossos próprios ‘eus’. Judas é o eu traidor que vende o trabalho íntimo por desejos e vantagens materiais; Pilatos é o eu covarde e racionalizador que “lava as mãos” e justifica o erro; Caifás é o eu dogmático e acusador que condena em nome de uma falsa religiosidade. Depois vêm os flagelos, a crucificação, a morte e a ressurreição em nossa realidade mais íntima.

O Cristo íntimo não vem para nos acariciar, mas para nos conduzir ao sacrifício do “eu”; ele é o fogo que queima, o amor que aceita ser rejeitado e sofre por nós, dentro de nós, para nos transformar. Sem esse princípio crístico atuando, o trabalho de morte do ego seria incompleto; com ele, a rebelião interior se converte em um processo profundamente sagrado.

A meta final desse caminho é o nascimento do verdadeiro Homem, do Super-Homem, não no sentido de um indivíduo arrogante e poderoso, mas de um ser que se integra ao divino, que sai definitivamente da condição de “animal intelectual”.

Esse ser está além das categorias de bem e mal que conhecemos; não é regido pelos moralismos mutáveis das culturas, mas por uma ética superior, enraizada no Ser. O bem e o mal comuns são relativos, dependem de interesses, épocas e pontos de vista; muitas vezes, o “bem” social oculta injustiças, e o “mal” pode esconder atos de coragem ou verdade. O Super-Homem anda pela Senda do Fio da Navalha: um caminho estreito, cheio de perigos internos e externos, onde qualquer desvio pode levar à queda. Ele incompreende a moral comum e, por isso, costuma ser perseguido ou caluniado pelos que julgam a partir de seus códigos estreitos.

O símbolo do Santo Graal expressa o mistério supremo da transmutação. O Graal – a taça sagrada – representa o aspecto feminino, receptivo, o vaso da energia criadora, o mistério do sexo vivenciado com sacralidade. Por trás das lendas do Graal, das histórias de Melquisedeque, de Abraão, de Salomão, de Jesus e de José de Arimateia, percebemos uma mensagem: a energia sexual é o vinho da vida, e o modo como a usamos decide se subimos ou descemos espiritualmente. Quando essa energia é profanada, esbanjada em vício e degeneração, caímos; quando é transmutada, sublimada em amor consciente e pureza interior, alimenta o Cristo íntimo e torna possível a verdadeira imortalidade da alma, e, em certos níveis, até um prolongamento excepcional da vida física. O Graal não é só um objeto mítico, mas um estado do nosso próprio corpo e psiquismo, uma chave que, bem utilizada, abre o templo da realização íntima.

A Grande Rebelião propõe uma ruptura total com a forma comum de viver. Em vez de buscarmos segurança em teorias, crenças, grupos, prazeres ou sistemas, somos chamados a nos observar, a enfrentar nossa mecânica interna, a encarar nossa multiplicidade psicológica, a ver a ação do Anticristo em nós, a abrir a mente interior, a trabalhar com a dor de forma inteligente e a permitir que o Cristo íntimo conduza a destruição do ego. Não se trata de uma revolução contra este ou aquele sistema político ou religioso, mas de uma insurreição contra a tirania do “eu” em todas as suas máscaras. À medida que vamos morrendo psicologicamente, sentimos que a liberdade deixa de ser conceito, a felicidade deixa de ser promessa distante, a verdade deixa de ser teoria, e o amor deixa de ser apego ou paixão: tudo isso começa a ser uma experiência imediata da consciência liberada.


Escola Gnóstica



Fonte: https://escolagnostica.org.br/
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O DESTINO DOLOROSO QUE A HUMANIDADE ENGENDRA PELO MAU USO DA PALAVRA


É evidente que passamos um destino doloroso pelo mau uso da palavra. O emprego de palavras para expressar o pensamento é o nosso mais alto privilégio. Portanto, cada um de nós deveria se compenetrar da tremenda responsabilidade representada pela posse de tão maravilhosa faculdade.

A linguagem originou-se durante a Época Atlante, quando iniciamos a utilização de palavras como meio de comunicação. Quando habitamos Corpos que constituíram o que conhecemos como a primeira Raça Atlante, Rmoahals, começamos a dar nomes às coisas. Éramos ainda uma raça espiritual, tínhamos poderes anímicos idênticos às Forças da Natureza. Por meio de palavras exercíamos o poder sobre essas coisas a que dávamos nomes. Para nós, naquele momento, a linguagem era algo santo por ser a mais elevada expressão do Espírito.

As línguas são expressões do Espírito Santo que trabalha por meio das Raças e do Corpo de Desejos (Astral, em outras tradições). As Religiões de Raça surgiram com o propósito de refrear a natureza de desejos. Quando nos purificarmos suficientemente nosso Corpo de Desejos, nos tornaremos aptos a nos compreendermos mutuamente, mesmo porque o sentimento de separatividade terá desaparecido.

Como exemplos podemos citar os Apóstolos, cujos Corpos de Desejos foram suficientemente purificados pela união com o Espírito Santo, podendo assim falar em diferentes idiomas, fazendo-se inteligíveis àqueles que os ouviam. Esta conquista todos nós, um dia, realizaremos: o poder de falar todas as línguas.

Foi por isso que o próprio Cristo nos ensinou: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus, pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Mas, eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado.” (Mt 12:33-37).

Futuramente deixaremos de pronunciar palavras vãs, pois consideraremos a linguagem como algo profundamente sagrado. Pronunciaremos a “Palavra Perdida”, o “Fiat Criador” que sob a direção das Hierarquias Criadoras foi pronunciada na antiga Época Lemúrica para criar plantas e animais.



Fonte: Publicada na Revista "Rays from the Rose Cross" de setembro/1968 pela Fraternidade Rosacruz - SP
Via: Fraternidade Rosacruz de Campinas/SP
www.fraternidaderosacruz.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/%C3%ADcone-de-fala-voz-falando-audio-2797263/

TORNAR-SE INSTRUMENTO APTO À JORNADA ESPIRITUAL


Vocês devem se moldar para se tornarem instrumentos aptos à jornada espiritual.

Existem quatro categorias de pessoas: 1) a melhor e a mais elevada é a daquelas que prestam atenção aos próprios defeitos e às virtudes alheias; 2) a intermediária é a daquelas que destacam tanto as próprias virtudes quanto as virtudes alheias; 3) em seguida, vem uma categoria inferior, a das pessoas que só percebem as próprias virtudes e os defeitos alheios; 4) a pior de todas é a daquelas que consideram os próprios defeitos como virtudes, e como defeitos as virtudes alheias.

Cada um pode descobrir por si mesmo a qual dessas categorias pertence. Mas tenham em mente o seguinte: quem anseia por alcançar a consciência do Pleno, do Sagrado, do Amor Divino, do Atma (o Ser Interno) e de Bhagavan (o Senhor) deve se esforçar para integrar a primeira e a melhor categoria – a das pessoas que veem apenas defeitos em si mesmas e, nos outros, somente virtudes. Essa é a disciplina espiritual mais desejável.

Atualmente, o ser humano sofre por estar imerso no mundo exterior, sem nenhuma disciplina ou prática espiritual constante que o ajude a corrigir a própria visão. De que adianta tomar dez banhos por dia se a mente está poluída por pensamentos impuros? De que valem a cabeça raspada e as vestes ocres de um renunciante para promover a espiritualidade quando se tem a mente repleta de desejos e vontades? (Discurso Divino, 5 de abril de 1981)


Sri Sathya Sai Baba



Fonte do Texto e Gravura: www.sathyasai.org.br

O HOMEM INTERIOR


Aproximações, desvios e tentativas de falar daquilo que não pode ser dito.

O homem interior não é o meu corpo, que observo em suas constantes mudanças, funções e diversas sensações. Nem é a minha mente, isto é, os meus pensamentos; pois também os observo, mutáveis, fluidos, automáticos, de todas as cores e com seus próprios humores particulares. Não posso negar o olhar interior, aquele que, sem ter olhos, ainda assim vê. Vê tudo como se estivesse entrincheirado num invisível "não-lugar".

O tema não é fácil, mas é necessário. Sem aquele que sou, tudo é demasiado evanescente, fugaz; os significados se perdem na névoa deixada pelo tempo. São Paulo é preciso e deixa isso claro em suas cartas: Romanos 7:22 — “No íntimo do meu ser, tenho prazer na lei de Deus” —, 2 Coríntios 4:16 — “Embora o nosso exterior esteja se desgastando, o nosso interior está sendo renovado dia após dia” —, Efésios 3:16 — “Oro para que, pelo seu Espírito, vocês sejam fortalecidos com poder no seu ser interior”.

Portanto… o eu interior não são pensamentos incessantes; não são sentimentos, outra forma que os pensamentos assumem e que também é altamente variável; nem é a imagem que tenho de mim mesmo, nem mesmo o “ego espiritual” — aquele que pensa ser algo especial de tempos em tempos, escondendo-se atrás de suas práticas religiosas. No entanto, existe uma luz interior que observa todos esses eventos, uma visão consciente que é imutável. E é essa firmeza, essa permanência, que lhe permite perceber todas as mudanças.

Há em mim (não sei como dizer de outra forma) um Ser que permanece. Ele persevera no ser. Esse ser interior é quieto e silencioso, e embora frio, arde com calor. Não tem desejos, pois é pleno; a plenitude reside nele. É a imagem e semelhança divina impressa na atemporalidade. É a fonte do amor de uma pessoa. Toda bondade, verdade e beleza emanam dele. É amor, mas não é sentimental. Existe por amar.

Esse homem interior é silêncio e, claro, não é aquele que escreve e pondera. Contudo, essas palavras carregam o traço de admiração deixado quando foram concebidas. "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus" ressoa em minha memória. Quando aceito meu próprio olhar, percebo minhas reações e renuncio à cumplicidade com elas. Só assim é possível seguir os ensinamentos de Cristo, que contrariam as tendências automáticas.

Em resumo… apenas um compartilhamento, como quando você faz um esboço a lápis sem ainda saber exatamente o que vai desenhar…



El Santo Nombre



Fonte: www.elsantonombre.org
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mulher-rosto-discernimento-5119698/