O texto abaixo, explora a autoridade como um conceito fundamentado na identidade e na capacidade de criação, diferenciando-a radicalmente do autoritarismo e da anomia. O autor defende que a verdadeira autoridade exige o reconhecimento da alteridade, ou seja, do outro, estabelecendo um equilíbrio saudável entre a expansão e o limite. Enquanto o excesso de controle gera repressão e violência narcísica, a ausência de diretrizes resulta em irresponsabilidade e desintegração social ou psíquica. Utilizando analogias que variam da biologia à bioenergética, o autor argumenta que a maturidade humana depende da aceitação de funções distintas e da coautoria na vida. O texto propõe ainda que a liberdade real surge da consciência de inserção no mundo e do compromisso ético com as próprias ações. Eis o texto:
A questão de diferenciarmos a autoridade, tanto do autoritarismo quanto da falta de autoridade é fundamental em todos os níveis da nossa vida, marcadamente no espaço das relações pessoais, institucionais e sociais. A nossa própria evolução progressiva, sem ter-se claramente discriminado estas questões, sofre séria ameaça.
Nas relações societárias-institucionais históricas, podemos verificar a alternância dos extremos, entre as apresentações das ditaduras com os democratismos anômicos. O medo de uma, muitas vezes, leva reativamente a outra.
A autoridade se constitui enquanto autoria, vale dizer apossamento da criação, da obra criada, lugar de paternidade/maternidade. Interconexão de polaridades, conexão triádica, dois gerando o terceiro, onde a trindade se faz um. A autoridade necessita, para existir e ser reconhecida, de uma identidade, para poder falar de si. A identidade só se realiza na interação com a alteridade, no encontro com o distinto outro. Com os próprios olhos, podemos olhar o olhar do outro que nos olha em um reconhecimento mútuo.
Na realidade ocupamos tanto o lugar de criadores, como o de criaturas. A matéria prima é primeira em relação ao ato criativo. Só o Criador cria a partir do nada. Assim, num certo sentido, compreender a autoridade é conhecer a criatividade. Ambas implicam em sentimentos profundos e ambivalentes, que dever ser aceitos e acatados.
A autoridade baseando-se na identidade do ser em sua unicidade implica, necessariamente, na relação com a alteridade dos outros, em suas diferentes multiplicidades. Na constituição do sujeito, representa o reconhecimento da autoridade materna, na manifestação da forma e na autoridade paterna, na manifestação da força.
Em Análise Bioenergética, o Grounding (1) é o reconhecimento da alteridade da terra, com a autoridade da Lei, que aqui é a da gravidade. É ela que nos possibilita viver este grande acolhimento que nos proporciona, podendo assim nos entregarmos intensamente às nossas sensações telúricas. Ser livre é aquele que tem consciência de sua própria inserção, senão é perdição.
O extremismo da autoridade é o autoritarismo. É a falácia da impotência mascarada de onipotência narcísica. Masculino e feminino, fecundação e gestação são valores análogos com diferentes funções, que numa versão autoritária ou se nega as diferenças polares, geradoras do processo, ou se supervaloriza um dos pólos em detrimento do outro.
A negação da co-autoria, presente no autoritarismo, também se reflete na própria falta do reconhecimento de autonomia da obra criada, cidadã do mundo que é, vida que transborda no nascimento do filho. Através da negação perversa do outro polo se desconecta o triângulo simbólico. O autoritarismo, com seus delírios de grandeza, é o lugar de cobiça do trono Divino. É através do livre-arbítrio da criatura humana que se legitima Deus como autoridade não autoritária.
Já na outra extremidade do autoritarismo, negador do outro, temos na falta de autoridade a negação dela mesma, isto é, de si mesmo, como autor responsável pelo ato ou obra. Diz-se que filho feio não tem pai nem mãe. A negação é do amor vincular, da própria criação e da responsabilidade gênica. Aqui o processo é de nadificação (2) pela anulação retroativa na fuga da responsabilidade.
A falta da lei discriminadora que existe na anomia social, familiar ou institucional, leva a uma anulação da própria existência, possibilitando várias patologias em todos estes níveis. No plano individual, isto também é verdadeiro no organismo humano. A autoridade imunológica, por exemplo, implica no reconhecimento de identidades bioquímicas, na diferenciação do que é auto e do que é hetero. Assim, o autoritarismo imunológico se manifestaria nas hiper reações alérgicas. Já a falta do reconhecimento do que é próprio e do que é estranho estaria presente nas auto-imunes, auto-agressivas, como o Lupus. A anomia imunológica, com a falta de identificação, por outro lado, se manifestaria nas imuno supressivas como a Aids.
A pretexto de não reprimir, o absenteísmo irresponsável da falta de autoridade é destrutivo pela negação dos diferentes níveis das responsabilidades, uma vez que a ausência de contato, com sua consequente responsividade, inviabiliza o surgimento do limite apaziguador. A expansão aparente cronifica-se (3) em dissolução fragmentar, desconectando-se do movimento pulsatório da vida. A liberdade desnatura-se na falta de clareza dos lugares e funções, gerando angústias insuportáveis, aliviadas através das descargas dos acting-out psicopáticos, ameaçando a própria existência pessoal, familiar ou institucional.
A destrutividade autoritária que se dá pelo excesso, da aparente lei, através do esmagamento das diferentes partes do processo criativo, asfixia o espaço-tempo necessários tanto para a germinação quanto para a expansão e crescimento. Aqui ao invés de limite temos repressão coercitiva, contração crônica da vida, desenvolvendo tanto a paranoia persecutória, com o império do terror, quanto a obsessiva culpa depressiva, pela falta de correspondência ao modelo imposto.
Autoridade realmente é o motivo de força maior que se impõe naturalmente. Esta imposição tem vários nomes, tais como Real, Energia, Natureza, Fato (astrológico, histórico, social, psicológico etc.) que em última, ou primeira, análise remete-nos a autoridade máxima do Grande Criador. Este, dá-nos uma resposta trans-narcísica, respondendo sobre quem Ele é: “Sou o que Sou”. Só aqui o idem é absoluto. Só o próprio é que se vê, e é do próprio que se institui o auto.
É, portanto, só na relação com a alteridade, em suas diferenças, que se possibilita o equilíbrio pulsante entre contração e expansão, com a vida e o mundo. O alter, isto é, o outro, remete, inevitavelmente ao auto, o mesmo idem, isto é, o próprio. É o que é próprio ao ser que lhe possibilita responder, responsavelmente, por si, pela própria vida e pela sua própria sociedade. Assumirmos juntos a nossa construção criativa significa sermos inexoravelmente responsáveis por ela.
Benjamin Mandelbaum
Desconheço a fonte do texto.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/martelo-lei-justi%c3%a7a-malho-juiz-6485824/
Notas:
(1) A técnica de grounding (ou aterramento) é uma estratégia de regulação emocional que utiliza os cinco sentidos para ancorar a mente no presente, reduzindo ansiedade, estresse e crises de pânico. Ela ajuda a interromper pensamentos acelerados e a reconectar a pessoa com o corpo e o ambiente atual. (IA)
(2) Nadificação: Refere-se à capacidade da consciência humana (o "para-si") de introduzir o "nada" no mundo, negando ou desprendendo-se da realidade concreta para projetar possibilidades futuras. (IA)
(3) Cronificar: Significa tornar uma doença, sintoma ou condição de saúde crônica, ou seja, de longa duração ou permanente. É a evolução de um quadro agudo para um estado crônico. (IA)
Comentários deste blog +IA:
A diferenciação entre autoridade, autoritarismo e a falta de autoridade reside no equilíbrio entre a identidade do autor, a responsabilidade pela obra e a relação com o outro (alteridade).
Autoridade
A autoridade constitui-se como autoria, o que significa assumir a criação e o lugar de paternidade ou maternidade sobre algo. Ela fundamenta-se na unicidade do ser, mas exige necessariamente a interação com a alteridade (o encontro com o que é distinto) para ser reconhecida.
Características: Representa o reconhecimento da forma (autoridade materna) e da força (autoridade paterna).
Natureza: É uma força que se impõe naturalmente, como as leis da natureza ou da gravidade, permitindo que o indivíduo tenha consciência de sua inserção no mundo.
Equilíbrio: Proporciona um equilíbrio pulsante entre os movimentos de contração e expansão da vida.
Autoritarismo
O autoritarismo é o extremismo da autoridade, descrito como uma falácia onde a impotência se mascara de onipotência narcísica.
Negação do Outro: Ele nega a co-autoria e a autonomia da obra ou do outro, tentando ocupar um "trono divino" através de delírios de grandeza.
Mecanismo: Em vez de estabelecer limites, utiliza a repressão coercitiva e o esmagamento do processo criativo, o que asfixia o crescimento.
Consequências: Gera paranoia persecutória, império do terror ou uma culpa depressiva obsessiva por não se atingir o modelo imposto.
No plano biológico, assemelha-se a uma hiper-reação alérgica do sistema imunológico.
Falta de Autoridade
Situada na outra extremidade, a falta de autoridade é a negação de si mesmo como autor responsável pelo ato ou criação.
Absenteísmo: Manifesta-se como um absenteísmo irresponsável que, sob o pretexto de não reprimir, torna-se destrutivo por negar a responsabilidade e o contato.
Anomia: A ausência de uma "lei discriminadora" leva à anomia (social, familiar ou institucional), inviabilizando o surgimento de limites que tragam paz.
Consequências: Gera uma dissolução fragmentar da vida, angústias insuportáveis e descargas impulsivas (acting-out) que ameaçam a existência. Biologicamente, é comparada a estados de imunossupressão, onde não há identificação do que é próprio ou estranho.
Em resumo, enquanto a autoridade reconhece o "eu" e o "outro" de forma responsável, o autoritarismo esmaga o outro por excesso de controle. E a falta de autoridade anula o próprio "eu" por fuga da responsabilidade.














