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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A DIFERENÇA ENTRE EGO E PERSONALIDADE


A diferença entre ego e personalidade é um dos temas mais fundamentais da jornada de autoconhecimento.

A personalidade é uma estrutura dinâmica e multifacetada, composta por aquilo que consideramos ser o “modo de ser” – nossos traços emocionais, mentais, éticos e comportamentais. Ela incorpora memórias, padrões herdados, crenças e molda nossa forma de interagir com o mundo. Formamos nossa personalidade muito cedo, absorvendo valores e modelos do ambiente, e aos poucos vamos acreditando que certos traços são nossos.

A personalidade é um mosaico que opera por hábitos, impulsos automáticos e respostas emocionais que nos mantém socialmente funcionais.

O ego está relacionado com a noção de “eu”. As pessoas tendem a viver identificadas com o ego, acreditando que ele seja o único e verdadeiro “eu”.

O ego é a própria sensação de separatividade, a experiência de sermos um alguém em oposição ao mundo e aos outros. Ele define fronteiras, cria distinções, luta por sobrevivência psicológica. O ego está sempre buscando proteção, aceitação, poder, reconhecimento, controle, segurança. Para manter a história pessoal consistente, ele organiza lembranças, seleciona experiências, justifica decisões, comportamentos, condena fraquezas, oculta aspectos.

O ego filtra a realidade segundo seus critérios limitados e condicionados. Ele é frágil, inseguro, quer proteger a autoimagem, está sempre reagindo, sempre se sentindo ameaçado, sempre preocupado com o que os outros estão pensando.

A personalidade é maleável, pode amadurecer, expandir horizontes, incluir novas qualidades à medida que a experiência se amplia. Já o ego, busca estabilidade, previsibilidade, segurança e domínio, mesmo que isso signifique perpetuar sofrimentos.

Enquanto não compreendermos que o ego e a personalidade são apenas instrumentos a serviço da consciência, seguiremos como escravos de máscaras e condicionamentos, presos à dor de repetirmos sempre os mesmos padrões.

O autoconhecimento começa quando nos damos conta dessas forças internas e passamos a observar sem medo o funcionamento do ego e os limites impostos pela personalidade.

Nem a personalidade e nem o ego são nossa identidade essencial, nossa verdadeira essência. No processo de autoconhecimento, necessitamos enfrentar o ego com sinceridade, desmascararmos suas motivações e trabalhar para deixar que a personalidade se torne permeável à experiência, flexível diante das mudanças existenciais, permitindo que o encontro com novas experiências da vida e com o imprevisto dissolva nossas defesas, para que surjam modos de ser.

O ego e a personalidade fazem parte de nossa realidade, cada um tem sua função. Eles ocultam e revelam verdades e, se estivermos atentos, podem ser um caminho para transformação, para autorrevelação. Não precisamos negar ou combater nossa realidade, precisamos observar com abertura, investigar, purificar, integrar e transcender, para podermos realizar nossa verdadeira natureza.


Escola Gnóstica



Fonte: https://escolagnostica.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/rosto-duas-caras-retrato-homem-8818913/

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL


A educação que recebemos tem como objetivo programar pessoas para produzir e consumir, e não em despertar a consciência. Desde pequenos, somos conduzidos à escola como autômatos: sentamos, copiamos, decoramos, repetimos, passamos em exames, acumulamos diplomas, mas raramente paramos para perguntar por que estamos ali, qual é o verdadeiro sentido de estudar, o que isso tem a ver com a nossa vida e com o nosso ser mais profundo. A educação está estruturada para servir à máquina social, não para libertar o indivíduo.

Na infância e na juventude, vamos e voltamos da escola movidos por inércia, medo ou fantasia. Dizem-nos que precisamos estudar para “ser alguém na vida”, para arrumar um bom emprego, ganhar dinheiro, conseguir prestígio, escapar da miséria. Assim, criamos sonhos vazios, imaginamos futuros brilhantes, mas não enxergamos o presente.

Estudamos matemática, física, química, geografia, história, mas não sabemos quem somos, por que sofremos, por que repetimos erros, por que destruímos a natureza, por que o mundo está cheio de guerras e conflitos. A escola nos enche de respostas que não nascem de perguntas verdadeiras. Somos preparados para ganhar a vida, mas não nos ensinam a viver, a enfrentar a dor, a solidão, o conflito, a velhice e a morte.

A nossa mente foi treinada para acumular dados, não para perceber o novo. A memória infiel guarda fórmulas, datas, teorias, conceitos, que repetimos como papagaios diante de provas e exames. Ao sairmos da escola, tudo isso se desfaz pouco a pouco, pois não se transformou em experiência consciente. A verdadeira inteligência não consiste em saber repetir o que outros disseram, mas em compreender diretamente a realidade, dentro e fora de nós. Essa inteligência só pode florescer quando a consciência começa a despertar.

A educação atual está baseada no medo. Tememos a reprovação, a nota baixa, a bronca dos pais, a crítica dos professores, a zombaria dos colegas. Mais tarde, tememos perder o emprego, o status, a relação, o prestígio. Por temor, obedecemos; por temor, nos adaptamos; por temor, imitamos. O medo se mascara de amor e responsabilidade, mas nos deixa pequenos, submissos, dependentes. A mente dominada pelo medo não ousa questionar, não ousa ir além do conhecido, não ousa ser livre.

É desse medo que nasce a imitação. Sentindo-nos pobres por dentro, procuramos nos completar por fora: imitamos o modo de falar, de vestir, de pensar, de sentir. Seguimos modas, repetimos opiniões, copiamos vícios, aderimos a ideologias, aderimos a grupos e bandeiras, porque temos pavor de ficar de fora, de ser rejeitados, de não pertencer. A escola nos ensina a imitar desde cedo: em vez de criar, copiamos exercícios, copiamos estilos, copiamos modelos. Na arte, por exemplo, somos estimulados a reproduzir imagens como uma câmera, quando deveríamos aprender a perceber a essência de um pôr do sol, de uma árvore, de um rosto, e a expressá-la com liberdade. Uma mente que só sabe imitar é uma mente mecânica, e uma mente mecânica não pode conhecer a verdade.

Enquanto houver medo, não pode haver livre iniciativa; o aluno que teme nota, castigo ou crítica jamais ousará pensar por si mesmo.

A verdade não se alcança pela repetição, não se alcança por meio de crenças herdadas, não se alcança por meio de dogmas aceitos por medo. A verdade é algo vivo, é o desconhecido de momento a momento, que se revela a cada instante à consciência desperta. Quando aceitamos uma ideia por autoridade, não a compreendemos; quando recusamos uma ideia por orgulho, também não a compreendemos. Quando a educação tem o objetivo de despertar a consciência, ela nos convida a investigar, não a crer nem a descrer cegamente. Olhar, observar, comparar, meditar, experimentar, ver por nós mesmos. Só quando vemos, quando percebemos diretamente, é que realmente sabemos.

Estamos cercados de autoridades: pais, professores, chefes, governantes, líderes religiosos. A maior parte delas é inconsciente: manda, proíbe, castiga, premia, sem se conhecer. Pais e professores, cheios de seus próprios medos, frustrações e ressentimentos, tratam crianças e jovens como seres inferiores, como se fossem propriedade sua e não almas que precisam despertar. Essas autoridades inconscientes impõem regras que não cumprem, exigem virtudes que não possuem, condenam nos filhos os defeitos que carregam escondidos. Assim se repete, de geração em geração, uma cadeia de cegos guiando cegos.

Uma verdadeira autoridade só pode nascer de uma consciência que despertou, de alguém que conhece a si mesmo. Quem se viu de frente, quem se reconheceu nos próprios erros, não domina o outro com brutalidade ou com chantagem, mas o orienta com firmeza e amor. Na educação, precisamos dessa autoridade consciente: alguém que não tem medo de ser questionado, que não elimina a liberdade do aluno, mas que compreende profundamente a responsabilidade de guiar. A educação não pode ser um caos onde tudo é permitido, nem uma ditadura psicológica; ela precisa ser um espaço em que a liberdade interior e a responsabilidade caminham juntas.

Nós confundimos disciplina com repressão. Reprimimos impulsos, desejos, emoções, tentando nos enquadrar em padrões externos. Engolimos a raiva, desejamos às escondidas da consciência, fingimos pureza, fingimos bondade, enquanto o interior se enche de tensões e conflitos ocultos. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que foi reprimido explode em forma de vícios, doenças, violências, crises. A disciplina autêntica não nasce da força bruta da vontade, mas da compreensão. Quando compreendemos profundamente o mecanismo de um defeito – sua origem, suas consequências, suas máscaras –, vamos deixando de alimentá‑lo. A mudança, então, não é uma violência; é o abandono consciente daquilo que já não tem sentido, que já não serve mais.

A consciência adormecida se mantém pela identificação e pela fascinação. Um pensamento aparece e nós o seguimos; uma emoção surge e nos arrasta; um desejo brota e se torna centro da nossa vida por horas, dias, anos. Esquecemos de nós mesmos, esquecemos que somos algo além daquele impulso momentâneo. Quando estamos fascinados por uma pessoa, por um prazer, por uma dor, por uma ideia, agimos como se o mundo inteiro se resumisse àquilo. Ao sair desse estado, muitas vezes nos surpreendemos com o que dissemos, com o que fizemos, e perguntamos: “Como fui capaz disso?”.

A educação interior começa quando desenvolvemos a capacidade de lembrar de nós mesmos em meio a qualquer situação, sem nos deixarmos hipnotizar pelos objetos externos, pelas situações, pelos movimentos internos.

Há um exercício que nos ajuda a manter a atenção, a consciência: aprender a observar, em cada experiência, o sujeito, o objeto e o lugar. O sujeito somos nós mesmos, a presença que observa; o objeto é aquilo que estudamos, vemos ou sentimos; o lugar é o ambiente em que tudo acontece. Quando nos acostumamos a perceber essa tríade, fortalecemos a memória. Não se trata de decorar, mas de estar presente. A memória verdadeira nasce da atenção viva, não da repetição mecânica.

A educação não pode ignorar a estrutura do ser humano. Em cada um de nós existe uma essência e uma personalidade. A essência é o que temos de mais verdadeiro: a capacidade de amar, de intuir, de perceber a beleza, de se comover, de sentir a presença do sagrado na vida. A personalidade é construída: pelas palavras que escutamos, pelos exemplos que vemos, pelos costumes da família e da sociedade, pela cultura, pela escola.

A educação atual alimenta quase exclusivamente a personalidade: ensina a competir, a representar papéis, a defender interesses, a acumular informações, a parecer. A essência, quase nunca é alimentada, fica sufocada, esquecida. Nem o ensino puramente religioso, nem o ensino puramente materialista podem libertar o ser humano; ambos fracassam quando não servem para despertar a consciência.

Os primeiros sete anos de vida são cruciais. Ali, a personalidade toma forma, absorvendo tudo sem filtro. A maneira como os pais se tratam, como lidam com o dinheiro, com a verdade, com o sexo, com o trabalho, com a espiritualidade, fica gravada como uma marca profunda. Gritos, chantagens, surras, ironias, humilhações, abandonos, falsidades, criam tensões que se manifestam depois em neuroses, vícios, agressividade, depressão. Amor, respeito, firmeza, exemplo, sinceridade, criam uma base mais saudável para a consciência despertar. A educação não começa na escola, começa no lar, e começa antes mesmo do nascimento.

O modo como concebemos um filho também é educação. Quando reduzimos o ato sexual a mero divertimento, descarga ou fuga, profanamos a semente humana e destruímos o que há de mais sagrado nela. Essa semente é a base da nossa vida e nela está o poder de nossa verdadeira transformação interior. Cuidamos das sementes na agricultura, na pecuária, melhoramos raças animais, desenvolvemos técnicas sofisticadas para preservar e aperfeiçoar a genética. Mas desprezamos a semente humana, tanto no plano físico quanto no psíquico. Uma educação verdadeiramente fundamental exige que aprendamos a viver a sexualidade com responsabilidade e reverência.

Quando um casal se prepara conscientemente para gerar um filho, não se trata apenas de planejar financeiramente a chegada da criança. Trata-se de purificar o modo de viver, de abandonar hábitos que envenenam corpo e alma, de cultivar pensamentos e sentimentos serenos, de transformar a união sexual em um ato de amor e não em um jogo de luxúria. A forma como a mãe vive a gestação – suas emoções, suas angústias, suas alegrias, seus medos, suas orações – influencia profundamente o ser que está se formando em seu ventre. O pai, ao invés de ser mero espectador, precisa se envolver, proteger, sustentar emocionalmente, participar do processo com consciência. Depois do nascimento, a maneira como se vive o período depois do parto, como se cuida do corpo e da alma da mãe e do bebê, também é educação.

A juventude é a grande encruzilhada. Nela, a energia vital se manifesta com força: desejos intensos, criatividade, inconformismo, necessidade de autonomia. Se essa força é entregue ao ego, transforma‑se em promiscuidade, alcoolismo, consumo de drogas, violência, fuga permanente das responsabilidades. Os anos passam em festas, aventuras, experiências desordenadas, e depois o preço é cobrado com doenças, frustrações, culpas, vazio. Mas a mesma energia, se canalizada com consciência, pode abrir caminhos extraordinários: estudo profundo, trabalho criativo, serviço desinteressado, construção de um lar baseado em amor verdadeiro, busca espiritual autêntica. Para isso, é preciso orientação e exemplo; não basta proibir, é necessário mostrar um sentido maior para a vida.

O casamento não é apenas uma convenção social. Ele é um laboratório intensivo de autoconhecimento, de amor, de sacrifício. Quando casamos por paixão cega, por interesse, por pressão, por medo da solidão, estamos plantando sementes de sofrimento. A paixão deseja possuir, controlar, usar o outro para preencher seus vazios. O amor deseja compreender, apoiar, libertar, crescer junto. Se confundimos ciúme com amor, vamos inevitavelmente cair em dramas, brigas, violências, traições, paranoias. O ciúme é o medo de perder o objeto de apego, não é expressão de amor; onde há ciúme, o amor foi distorcido.

Nós carregamos dentro de nós uma multiplicidade de “eus”. Há um eu que promete e outro que esquece, um eu que ama e outro que odeia, um eu que tem fé e outro que debocha, um eu que se sacrifica e outro que apenas exige. Essa multiplicidade explica nossas contradições. Enquanto acreditarmos que somos uma unidade, continuaremos prisioneiros do caos interior. A educação da consciência exige que reconheçamos essa multiplicidade e que comecemos a observar os diversos eus em ação: o eu da ira, o eu da preguiça, o eu da inveja, o eu da luxúria, o eu da vaidade, o eu da cobiça. Ao vê-los claramente, ganhamos a possibilidade de nos separar deles, de não nos identificar, de permitir que morram pouco a pouco.

Chamamos de morte psicológica esse processo de dissolver, através da compreensão, os múltiplos eus que nos escravizam. Essa morte psicológica é a morte do que nos torna mecânicos, egoístas, violentos, falsos. Na medida em que essa morte vai acontecendo, algo novo pode nascer dentro de nós. Surge uma presença mais unificada, uma identidade mais profunda, uma capacidade de amar sem tanto egoísmo, uma lucidez. A educação que ignora essa dimensão da morte interior forma pessoas talvez hábeis e cultas, mas sem consciência de si mesmas, sem um centro.

A educação deve preparar também para a morte física. Morrer não é um acidente distante que acontece “com os outros”; é a única certeza que temos. Se passamos toda a vida fugindo do tema, a morte nos encontrará desesperados, agarrados a tudo aquilo que vamos ser obrigados a largar. Se, ao contrário, aprendemos desde cedo a contemplar a impermanência, a aceitar a transitoriedade de todas as coisas, a viver com desapego, a morte perde parte de seu terror. O ego teme a morte porque teme ver a verdade; a consciência reconhece a morte como passagem dentro de um processo maior.

A crença ingênua na evolução automática nos impede de assumir a responsabilidade interior. Pensamos que, com o tempo, com o avanço científico, com novas leis, com reformas políticas, tudo melhorará por si só. Entregamos ao futuro e às estruturas externas a tarefa de nos salvar. No entanto, vemos o mundo se encher de sistemas mais complexos, de tecnologias mais poderosas, e ao mesmo tempo de violência, corrupção, destruição. A evolução tecnológica ou científica não traz, por si, evolução moral ou espiritual. Sem revolução íntima, qualquer progresso externo se converte em ferramenta mais sofisticada para o egoísmo.

Educar é participar dessa revolução interior. É ajudar a criança, o jovem, o adulto a tomar consciência de si mesmo, a lidar com o medo, a reconhecer a força da sexualidade, a desenvolver atenção, a pensar por conta própria, a amar com maturidade, a trabalhar com sentido, a servir à vida e não apenas ao próprio interesse. É mostrar que a vida não é só estudar, trabalhar, consumir, se divertir, casar, envelhecer e morrer, mas uma oportunidade para despertar da consciência. É fazer de cada disciplina – matemática, arte, história, biologia – um espelho para conhecer a nós mesmos e o mundo de forma integrada.

A educação atual exalta certas profissões e despreza outras, como se o mundo não precisasse de agricultores, pedreiros, marceneiros, donas de casa, jardineiros e tantos outros; porém o importante não é o título, e sim a consciência com que cada um trabalha e serve.

Enquanto aceitarmos uma educação que apenas nos molda a um sistema doente, continuaremos repetindo a mesma tragédia humana em novas formas. Quando assumimos a Educação Fundamental como caminho, começamos a olhar para a escola, para a família, para o trabalho e para as relações com outros olhos. Deixamos de ser engrenagens, passamos a ser buscadores. Deixamos de viver apenas para sobreviver, passamos a viver para despertar.

Sem a Educação Fundamental, o mundo caminha para a degeneração: a sociedade moderna multiplica leis, máquinas e instituições, mas não resolve a miséria moral do ser humano, e a tragédia humana segue se repetindo com diferentes nomes e formas.


Escola Gnóstica



Fonte: https://escolagnostica.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/magia-livro-sabedoria-lua-amor-8391941/

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A GRANDE REBELIÃO


A Grande Rebelião é um chamado para morrermos para tudo o que somos psicologicamente hoje e nascermos como algo totalmente diferente.

O verdadeiro problema do mundo é o nosso ego, e a única revolução que vale é a destruição consciente desse ego em cada um de nós.

As cidades estão cheias de edifícios, vitrines luxuosas, tecnologias e discursos sobre progresso, enquanto, por baixo disso, a vida se tornou feia, mecânica e interiormente vazia. Andamos pelas mesmas ruas, fazemos as mesmas coisas, vemos as mesmas estruturas, e sentimos um tédio profundo, uma repetição cansativa e estéril que nos esgota.

As relações humanas se embruteceram. A amizade perdeu seu perfume, a sinceridade desapareceu, as pessoas se tornaram desconfiadas, interesseiras, cruéis, e o sexo feminino é artificializado pelo culto à aparência, afastando-se da simplicidade natural.

O sistema empurra todos para o consumo, para o hedonismo e para o egoísmo, e a alma é praticamente esquecida, escravizada por um ego excitado, superficial, faminto por sensações. Os meios de comunicação, a propaganda e até a educação formal funcionam como uma hipnose coletiva, programando nossa mente para servir ao sistema e abafando desde cedo a expressão da Essência.

Vemos uma devastação ecológica brutal, um cenário que empurra a humanidade para um colapso global. Os mares foram transformados em lixeiras, o plâncton está sendo destruído, o ar está contaminado, a água potável está envenenada e é reciclada sem cessar, os solos estão exaustos, os campos são consumidos pela exploração desenfreada, o lixo atômico não tem destino seguro.

A fome, a miséria, a superpopulação, as epidemias, o abuso dos recursos naturais, as catástrofes climáticas compõem um cenário em que a própria sobrevivência se torna incerta.

Não há um “inimigo externo”. É o próprio “animal intelectual” que produz essa agonia planetária, projetando para fora a voracidade, a ignorância e a violência que carrega dentro.

Todos lutam para sobreviver, para ganhar dinheiro, ter algum conforto, formar um lar, viver prazeres, mas, apesar disso, ninguém é realmente feliz. Ficamos correndo atrás de pequenas satisfações: festas, diversões, sexo, viagens, status, compras, conquistas; ou então acreditamos que seremos felizes quando ganharmos na loteria, encontrarmos o “par ideal”, tivermos sucesso profissional, criarmos os filhos, conquistarmos uma posição social. Conforme a vida se desenrola, vemos o choque entre essas ilusões e a realidade: casamentos desfeitos, traições, problemas financeiros, filhos ingratos, doenças, envelhecimento, frustrações, rotina, e uma sensação íntima de que a promessa de felicidade nunca se cumpre.

Confundimos prazer com felicidade. O prazer é excitante, mas curto, seguido de tédio, vazio, culpa ou sofrimento, e nos torna dependentes de doses cada vez maiores.

A felicidade autêntica só pode surgir se eliminarmos dentro de nós mesmos as causas da nossa dor.

A ideia de “liberdade” hipnotiza, acende guerras, revoluções, discursos inflamados. Porém, na prática, quase ninguém sabe o que é estar livre. Jovens fogem de casa em busca de liberdade, mulheres querem liberdade no casamento, empregados querem liberdade do patrão, povos lutam pela liberdade política. Mas, mesmo quando conquistam essas mudanças externas, permanecem escravos de medos, ciúmes, desejos, ambições, culpas, traumas e hábitos.

A liberdade não se reduz a condições externas. A liberdade real é a libertação da consciência dos grilhões internos do “eu”. Enquanto estivermos agarrados a “meus gostos”, “minhas fobias”, “minhas paixões”, “minhas crenças”, “minhas identificações” e a toda a estrutura do ego, a nossa consciência permanecerá aprisionada.

A liberdade é algo que só podemos experimentar diretamente quando o “eu” morre, quando os grilhões psicológicos se desfazem e a consciência sai dessa prisão de desejos e medos.

Tudo em nós e na história oscila entre extremos: alegria e tristeza, sucesso e fracasso, otimismo e pessimismo, fé e ceticismo, fanatismo religioso e fanatismo materialista. As religiões, as seitas, as ideologias, os partidos, as filosofias, os “ismos” vivem nesse vai e vem pendular, alternando períodos de domínio e decadência, ascendência e queda.

Um fanático religioso, diante de uma decepção ou derrota, pode se tornar ateu; um cético convicto, diante de uma experiência de terror ou um fato metafísico marcante, pode se tornar devoto fervoroso. Vemos que, enquanto nos movemos dentro desse pêndulo, continuamos presos à dualidade: sempre defendendo um lado contra o outro, reagindo, oscilando, sem encontrar um ponto firme.

A Verdade não se encontra em nenhum desses extremos, mas no centro. Esta experiência só pode ser vivida quando a consciência se liberta das oscilações e não se identifica nem com o polo espiritualista nem com o polo materialista.

Confundimos os conceitos com a realidade. Damos nomes aos fenômenos, construímos teorias, definimos causas aparentes, criamos sistemas lógicos, e nos sentimos seguros porque temos “uma explicação”.

Porém, um conceito não é a coisa em si, é apenas uma representação que aponta para uma realidade. Para cada teoria existe outra igualmente lógica e oposta, e o debate intelectual se torna uma disputa infinita de construções mentais.

A ciência acumula dados, fórmulas, classificações e hipóteses, mas continua cega para dimensões mais profundas do ser e da consciência, assumindo uma postura dogmática em nome da “razão”. Em contraste, existe uma ciência objetiva do Ser, uma ciência dos iluminados, baseada não em raciocínios abstratos, mas em experiência direta, em percepção consciente da realidade.

Em vez de nos perdermos na dialética dos conceitos – tese, antítese, síntese mental –, devemos começar a valorizar a dialética da consciência: uma dialética viva, em que a consciência se coloca diante dos fatos internos e externos, observa, percebe e compreende diretamente.

Nascemos com uma quantidade muito pequena de consciência desperta. A maior parte das pessoas está adormecida, mecanizada, mergulhada em subconsciente, inconsciente e infraconsciência. Não ampliamos a consciência com mero esforço físico, com técnicas superficiais ou com simples acúmulo de informações. A consciência cresce quando praticamos trabalhos conscientes e aceitamos padecimentos voluntários, como renunciar a hábitos nocivos, encarar verdades dolorosas sobre nós mesmos e agir contra os impulsos do ego.

Sem trabalho consciente e padecimentos voluntários, continuamos sonhando com mudança, mas seguimos os mesmos. É preciso enfrentar a resistência do ‘eu’ e ir contra nossos próprios desejos.

Existem sete tipos de energia em nós: mecânica, vital, psíquica, mental, de vontade, de consciência e espiritual. Somente a energia de consciência e a espiritual, usadas de modo adequado, podem nos despertar.

Sempre que nos identificamos com situações, emoções, pensamentos, fantasias, desperdiçamos a energia consciente. Por isso é importante aprender a ver a vida como um filme, em que “assistimos” sem nos perdermos na identificação.

Essa mudança começa pela auto-observação. Sem nos observarmos, sem ver o que se passa em nós, não há autoconhecimento. A consciência precisa se voltar para dentro, registrando pensamentos, emoções, impulsos, tensões, reações, sem se justificar nem se condenar, apenas vendo, percebendo.

A meditação é o meio pelo qual penetramos até o fundo de um “eu”, o examinamos em silêncio e abrimos espaço para que ele seja compreendido e dissolvido.

Com auto-observação descobrimos que somos quase totalmente mecânicos, repetimos frases, reações, gestos, padrões emocionais, julgamentos, sem nenhuma escolha real. Aos poucos, começamos a perceber que não existe um “eu” único e íntegro, mas uma multiplicidade de “eus” que se alternam em nós. Um “eu” promete, outro descumpre; um ama, outro odeia; um quer trabalhar, outro quer sabotar; um busca espiritualidade, outro busca prazer ou prestígio.

Nós nos imaginamos uma pessoa única, mas ao nos observarmos o que encontramos é uma legião de pequenos “eus”, cada um com seus desejos, temores, lembranças e ideias.

A personalidade – o modo como falamos, pensamos e nos apresentamos – é um instrumento usado por esses “eus” alternadamente, sem que haja um verdadeiro centro consciente e permanente dirigindo tudo. Os “eus” são os grandes responsáveis pelos nossos conflitos, contradições, sofrimentos e repetições de erros.

Quando esta observação se aprofunda, reconhecemos que existe algo diferente dentro de nós: a Essência, a consciência pura, infantil, que é o que temos de mais digno. A Grande Rebelião é a luta para libertar essa Essência aprisionada pelos “eus”. Esse processo se realiza através da morte desses “eus”.

Internamente, carregamos um “país psicológico”, com regiões de ódio, inveja, medo, luxúria, orgulho, preguiça, vaidade, autocomiseração, ressentimento, e também zonas de paz, devoção, ternura, coragem, amor. Cada vez que entramos num “estado psicológico”, entramos em uma região desse país; e, uma vez lá dentro, atraímos acontecimentos, pessoas e situações que vibram nessa mesma frequência.

O retorno nos faz voltar a este mundo, vida após vida; a recorrência nos leva a encontrar, em cada existência, condições semelhantes e dramas parecidos, porque retornamos sempre ao mesmo ‘país’ interior e às mesmas ‘cidades’ psicológicas. Enquanto não transformarmos esse país psicológico, só mudaremos o cenário externo, repetindo essencialmente as mesmas experiências com rostos e circunstâncias diferentes.

Nós temos “três mentes”, a mente sensorial se apóia exclusivamente nos sentidos; acredita apenas no que pode medir, pesar, ver, tocar, e permanece presa ao imediato. A mente intermediária é o depósito de crenças, teorias, ideologias, dogmas, leituras, conceitos religiosos, filosóficos e políticos, ela vive de conteúdos herdados, aceitos ou rejeitados, mas quase sempre sem experiência direta. A mente interior, por sua vez, é a faculdade de perceber a verdade diretamente, sem intermediários conceituais e sem depender dos sentidos, é a mente que permite o contato com realidades superiores.

A humanidade vive oscilando entre a mente sensorial e a intermediária, discutindo entre materialismo e espiritualismo, ciência e religião, sem abrir de fato a mente interior. Só quando a mente interior se ativa pela meditação profunda e pela morte do ego é que podemos entrar em contato com a verdadeira ciência do Ser.

As drogas – lícitas ou ilícitas, inclusive certas substâncias usadas com pretexto “místico” – são uma fuga psicológica e danificam a mente, desequilibram os centros psíquicos, destroem a energia criadora e nos empurram para estados infra-humanos, gerando loucura, degeneração e perda de qualquer possibilidade séria de trabalho interior.

Muitos pseudo-caminhos que prometem “iluminação” fácil, estados alterados e experiências extraordinárias sem esforço moral, sem disciplina, sem morte do ego, são formas de seduções do próprio ego. Não podemos colher frutos espirituais sem antes criar raízes profundas.

Os pseudo-esoterismos, os fanatismos, as lideranças abusivas e as superstições se mascaram de espiritualidade. Qualquer ensinamento pode ser transformado em bandeira de orgulho, em motivo de separação, em instrumento de poder ou comércio, perdendo o sentido íntimo do trabalho interno.

O caminho exige honestidade brutal consigo mesmo, renúncia a autoilusões, discernimento para não confundir imaginação com experiência espiritual, firmeza para não se deixar enganar por teorias brilhantes e grupos sedutores. Não basta teorizar, crer ou acumular conhecimentos esotéricos, é indispensável trabalhar sobre si mesmo, mudar a forma de pensar, sentir e agir, transformar a vida prática e morrer em defeitos.

O Anticristo não é um personagem apocalíptico, e sim uma mentalidade intelectual orgulhosa que se ergue contra tudo o que é sagrado. O Anticristo é a síntese de todas as forças que absolutizam a razão desligada do espírito: ciência sem consciência, política cínica, tecnologia destrutiva, propaganda massificante e sistemas de pensamento que ridicularizam tudo o que transcende o mensurável.

O Anticristo não está só “lá fora”, ele vive em nós, em cada forma de orgulho intelectual, em cada crença que se recusa a ser examinada, em cada defesa racional do nosso ego. A sociedade nos programa desde cedo com esse tipo de mentalidade, uma educação que nos transforma em robôs adaptados ao sistema, que mata a sensibilidade e adestra a mente para servir a interesses anti-espirituais.

Da mesma forma, o Cristo não é apenas a figura histórica de Jesus, é um princípio espiritual vivo que pode nascer e se desenvolver dentro de nós. Esse Cristo interior nasce de modo humilde em nosso mundo psicológico, luta contra as tentações do ego, realiza milagres interiores (transformações reais), é perseguido pelos ‘fariseus’ internos (nossos moralismos, hipocrisias e crenças) e enfrenta a traição de nossos próprios ‘eus’. Judas é o eu traidor que vende o trabalho íntimo por desejos e vantagens materiais; Pilatos é o eu covarde e racionalizador que “lava as mãos” e justifica o erro; Caifás é o eu dogmático e acusador que condena em nome de uma falsa religiosidade. Depois vêm os flagelos, a crucificação, a morte e a ressurreição em nossa realidade mais íntima.

O Cristo íntimo não vem para nos acariciar, mas para nos conduzir ao sacrifício do “eu”; ele é o fogo que queima, o amor que aceita ser rejeitado e sofre por nós, dentro de nós, para nos transformar. Sem esse princípio crístico atuando, o trabalho de morte do ego seria incompleto; com ele, a rebelião interior se converte em um processo profundamente sagrado.

A meta final desse caminho é o nascimento do verdadeiro Homem, do Super-Homem, não no sentido de um indivíduo arrogante e poderoso, mas de um ser que se integra ao divino, que sai definitivamente da condição de “animal intelectual”.

Esse ser está além das categorias de bem e mal que conhecemos; não é regido pelos moralismos mutáveis das culturas, mas por uma ética superior, enraizada no Ser. O bem e o mal comuns são relativos, dependem de interesses, épocas e pontos de vista; muitas vezes, o “bem” social oculta injustiças, e o “mal” pode esconder atos de coragem ou verdade. O Super-Homem anda pela Senda do Fio da Navalha: um caminho estreito, cheio de perigos internos e externos, onde qualquer desvio pode levar à queda. Ele incompreende a moral comum e, por isso, costuma ser perseguido ou caluniado pelos que julgam a partir de seus códigos estreitos.

O símbolo do Santo Graal expressa o mistério supremo da transmutação. O Graal – a taça sagrada – representa o aspecto feminino, receptivo, o vaso da energia criadora, o mistério do sexo vivenciado com sacralidade. Por trás das lendas do Graal, das histórias de Melquisedeque, de Abraão, de Salomão, de Jesus e de José de Arimateia, percebemos uma mensagem: a energia sexual é o vinho da vida, e o modo como a usamos decide se subimos ou descemos espiritualmente. Quando essa energia é profanada, esbanjada em vício e degeneração, caímos; quando é transmutada, sublimada em amor consciente e pureza interior, alimenta o Cristo íntimo e torna possível a verdadeira imortalidade da alma, e, em certos níveis, até um prolongamento excepcional da vida física. O Graal não é só um objeto mítico, mas um estado do nosso próprio corpo e psiquismo, uma chave que, bem utilizada, abre o templo da realização íntima.

A Grande Rebelião propõe uma ruptura total com a forma comum de viver. Em vez de buscarmos segurança em teorias, crenças, grupos, prazeres ou sistemas, somos chamados a nos observar, a enfrentar nossa mecânica interna, a encarar nossa multiplicidade psicológica, a ver a ação do Anticristo em nós, a abrir a mente interior, a trabalhar com a dor de forma inteligente e a permitir que o Cristo íntimo conduza a destruição do ego. Não se trata de uma revolução contra este ou aquele sistema político ou religioso, mas de uma insurreição contra a tirania do “eu” em todas as suas máscaras. À medida que vamos morrendo psicologicamente, sentimos que a liberdade deixa de ser conceito, a felicidade deixa de ser promessa distante, a verdade deixa de ser teoria, e o amor deixa de ser apego ou paixão: tudo isso começa a ser uma experiência imediata da consciência liberada.


Escola Gnóstica



Fonte: https://escolagnostica.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/surreal-surrealismo-imagina%C3%A7%C3%A3o-8832241/

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

AMORTECEDORES, MÁSCARAS E VERNIZ SOCIAL


O homem, mesmo sendo um ente mecânico, é uma criatura especial, pois é dotado da capacidade de compreender que é uma máquina ou um ente mecânico. Assim, ao dar-se conta desse processo e, dependendo do cultivo de sua força de vontade, poderá deixar de ser máquina.

Uma das primeiras ideias falsas que temos que eliminar ou modificar mediante o estudo profundo de nós mesmos, é a ideia ou a crença de que somos indivíduos. Isso é falso! Ainda não temos verdadeira individualidade! Em realidade, somos uma coletividade psicológica usando uma máscara de indivíduo. Em linguagem psicológica temos a dizer que o homem não é detentor de um único ego, como propôs Freud. Na dura realidade dos fatos diários notamos claramente que o homem é dotado de muitos egos que usam a mesma máscara, ou seja, a cada momento somos um eu diferente, mas para quem observa de fora sem atenção, parece ser um ego único por causa da máscara que utiliza para se expressar.

Dito de outra forma: num dado instante somos uma pessoa, no momento seguinte já somos outra pessoa totalmente diferente da primeira e ainda num terceiro instante somos uma terceira pessoa, sem nenhuma relação com as duas primeiras. Essa sucessão de eus acontece de forma permanente e contínua e em alta velocidade. A cada mudança externa, a cada pressão proveniente do mundo exterior (e mesmo do interior) muda o eu que está no comando da máquina.

O que cria no homem a ilusão da unidade do eu e que nos leva a crer que somos sempre um mesmo eu, único e imutável, é a integridade de nosso corpo físico, nosso nome, a memória e certos hábitos mecânicos desenvolvidos desde a infância pelos condicionamentos da educação. Porém, quando morrermos, não tendo mais a âncora do corpo, nos sentimos perdidos e sem rumo; esse é o grande drama de quem desencarna de consciência adormecida.

Desse modo, tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre sermos chamados pelo mesmo nome e tendo a capacidade de recordar fatos passados, cremos ser sempre os mesmos. Infelizmente, no atual estado humano não temos um centro permanente de consciência. Não existe em nós uma vontade única; não existe em nós uma mente única; nem uma emoção ou sentimento permanente – porque não existe em nós um centro permanente de consciência nem uma personalidade única. Existem, sim, dezenas ou centenas de mentes; existem, sim, dezenas ou centenas de vontades; existem, sim, dezenas ou centenas de sentimentos, desejos, sonhos, ilusões, fantasias, aspirações etc. Em resumo: Somos uma pluralidade ambulante (ou como disse aquele poeta, somos “uma metamorfose ambulante”).

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou cada “eu não gosto”, é sempre um “eu” diferente. Todos esses “eus” não estão ligados entre si ou coordenados por algo entre si. Cada um deles, isoladamente, pode assumir o controle de um ou mais centros psicofisiológicos e manejar a máquina humana a seu bel prazer. Para que cada um desses eus possa se manifestar e conduzir a máquina humana, depende de situações externas ou internas e de mudanças de impressões. Cada eu desencadeia mecânica e automaticamente um ou vários outros eus em associações aleatórias. Do mesmo modo como existem afinidades entre as pessoas aqui neste mundo também existem afinidades entre as dezenas ou centenas de eus que habitam nossa mente.

Isso não quer dizer que haja ordem, hierarquia, sistema. Pelo contrário: o ego pluralizado é o caos dentro de nós, fazendo com que sejamos criaturas confusas e sem continuidade de propósitos; é a coletividade dentro do indivíduo; é a mesma sociedade externa dentro do reino interno; por isso mesmo, o que vemos no mundo externo é a exata projeção de nossa realidade interna. O mundo exterior não é melhor porque não somos melhores internamente. O exterior é a projeção do interior.

Alguns desses eus têm vínculos naturais entre si, porém o mais comum é que eles se associem acidentalmente devido ao funcionamento mecânico da máquina ao pensar, sentir ou recordar alguma cena. Cada um desses eus representa, num dado momento, apenas uma ínfima parte de nossas funções, ainda que cada um deles se creia o todo, o conjunto, o único e imutável eu.

Quando um homem diz “eu” ele tem a impressão de que fala de si como se fosse sua totalidade, mas ainda que assim acredite, na realidade está falando apenas de um simples pensamento ou de uma simples emoção ou recordação ou fato passageiro que pode durar apenas um segundo, alguns segundos ou pior ainda, sutileza das sutilezas, uma fração de segundos. Uma hora mais tarde — pouco mais, pouco menos — esse homem poderá ter esquecido completamente o que disse e que promessas fez; e com a mesma convicção expressará outra ideia ou opinião totalmente diferente. E a cada novo dia, menos encontramos pessoas de palavra...

(...) Esse é o motivo pelo qual o ser humano é tão contraditório e difícil de se relacionar. A boa notícia é que essa realidade pode ser modificada. Aquele que se propuser a se tornar uma pessoa íntegra, dotada de um centro único de gravidade, poderá chegar lá.

Todos esses acontecimentos e fenômenos descritos nos parágrafos anteriores acontecem dentro da máquina humana, ou seja, dentro do corpo mental, do corpo de desejos *, do corpo vital * e do corpo físico. Dentro desse quaternário inferior estão localizados cinco centros psicofisiológicos, que funcionam como se fossem cinco cilindros de um motor. Esses cinco cilindros são, de acordo com sua finalidade ou função, denominados de:

1. centro intelectual
2. centro motor
3. centro emocional
4. centro instintivo
5. centro sexual

Um dos motivos da sobrevivência e continuidade dos “eus” são os amortecedores. Normalmente, eles são criados de forma involuntária pelo homem. Esse processo começa na infância, quando somos surpreendidos fazendo “artes” de criança. Como nosso pai ou nossa mãe “não gostam” que façamos isso ou aquilo, para “ocultar” nosso “erro”, negamos (mentimos). Assim tem início o processo de defesa, da mentira que, com o tempo, mascara a realidade, atenuando os impactos dos eventos naturais e de relacionamento em nossa vida.

Hoje, sem a máscara da mentira, o convívio social seria impossível. Usamos máscaras e mentiras para esconder nossas contradições, nossas próprias mentiras, nossas invejas, nossos ódios, nossos desejos de vingança etc. Se há algo que não somos hoje - por absoluta incapacidade de sê-lo - é ser honestos; não somos honestos nem conosco mesmos, nem com nossos semelhantes. Só as crianças, no começo da vida, são 100% honestas, espontâneas, puras, inocentes. Por isso dizem coisas que surpreendem os adultos, embaraçando-os muitas vezes diante de estranhos ou de amigos. É porque as crianças ainda não formaram os amortecedores (os processos das mentiras e das autojustificativas).

Um homem sem amortecedores é considerado louco, debiloide ou infantil. Os loucos não têm amortecedores, tal qual as crianças e os animais, que dizem e fazem o que querem, de forma simples e natural, sem se importarem com as reações dos demais e sem se preocuparem com sua autoimagem, sua autoimportância e seu amor próprio. Os Mestres de Sabedoria também não têm amortecedores, mas como são escolados pela vida, sabem calar-se prudentemente e sabem agir de forma reta e equilibrada; por isso não são compreendidos pelo homem atual. A humanidade rejeita os Mestres de Sabedoria por não compreendê-los; não compreendendo, os temem; temendo, matam. Já os loucos ou desequilibrados mentais são pessoas sem autocontrole e muitas vezes realmente se tornam ameaçadoras e violentas.

De um modo ou de outro, para se sentir seguro e tranquilo, o homem atual necessita de amortecedores, verdadeiro ópio que o mantém escravo das aparências e das opiniões alheias. Por isso, esse “homem” não tem em si a capacidade de fazer algo; as coisas simplesmente acontecem na sua vida, e ele não tem escolha; segue obrigatoriamente o curso natural dos acontecimentos da vida cotidiana.

Os amortecedores, as máscaras, o verniz social impedem qualquer tipo de vida psíquica (espiritual) verdadeira. Não há nem pode haver crescimento espiritual enquanto vivermos essa farsa. Portanto, a primeira decisão que uma pessoa séria e determinada precisa tomar, caso queira realizar dentro de si um novo mundo psicológico ou espiritual, é acabar com o processo da mentira e começar a ser honesto consigo mesmo; mentimos aos demais porque não temos consciência que mentimos a nós mesmos o tempo todo; nunca percebemos nossas próprias mentiras, nem nos damos conta de nossas incoerências e contradições.

Enquanto houver máscaras, mentiras e farsas, todos os choques psicológicos proporcionados pela vida para o despertar da consciência, resultarão inúteis, pois serão atenuados pela “interpretação”, pelo “amortecimento”, pelas justificativas (as mentiras). Com isso estaremos impossibilitados de sentir ou perceber nossa própria consciência. O drama maior dessa triste realidade é que não poderá haver Iluminação, nem avanço espiritual verdadeiro sem eliminar a mentira dentro de nós.

Em resumo, uma escola que não ensine essa classe de doutrina, psicologia ou ciência, jamais levará alguém ao autêntico “autoconhecimento”.


Karl Bunn


Fonte: do livro "Doutrina Secreta Gnóstica"
IGB-Edisaw
www.gnose.org.br
1a. Edição – 2012
Fonte da Gravura:https://pixabay.com/pt/illustrations/homem-rosto-psicologia-m%C3%B3dulo-69283/


Nota deste Blog:
*Astral e Etérico em outras tradições.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A MEDITAÇÃO NOS REVELA UMA VERDADE DIFÍCIL E ESSENCIAL


A meditação nos revela uma verdade difícil e essencial. Se quisermos ser completamente humanos, devemos enfrentar o problema de que não podemos comunicar-nos com os demais, porque ainda não nos contatamos conosco mesmos. Se nos sentimos isolados daqueles que nos rodeiam é porque estamos separados de nós mesmos. Só quando sabemos quem somos e quem podemos ser seremos capazes de nos comunicar com os demais. Mas, o que é que realmente nos separa da nossa verdade? A meditação nos traz uma resposta muito simples. Não é fácil, mas simples: nada. Não há nada que se interponha entre nós e nosso verdadeiro ser. O que nos bloqueou o encontro com a verdade é a falsa ideia de que temos de que existe algo que os separa. Essa ideia falsa é o que chamamos de “ego”.

Na meditação, acessamos outro nível de autoconsciência. À medida que nos afiamos nessa dimensão, simplesmente nos convertemos em nós mesmos, desnudos, sem capas que nos cobrem. Isso é o que Jesus chamou de “pobreza de espírito”. É uma bela pobreza de espírito e um caminho estimulante a seguir. É uma pobreza grandiosa porque nos da liberdade para ver a luz de nosso verdadeiro ser e saber que somos essa luz (...).

É possível que, mesmo avançando na meditação, não sintamos que isso aconteça. Mas se perseverarmos, chegaremos a um momento em que toda nossa vida brilhará lenta, mas profundamente com essa luz interior e saberemos que a luz está aí, em tudo o que nos acontecer.


Carla Cooper



Fonte: Extrato de “La Luz del Ser” - “Luz interior: el camino de la meditación"
Father John Main, OSB
Londres: Canterbury Press, 2008, pp. 85-7
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/buda-jardim-zen-buddism-natureza-6705080/


Para mais detalhes ver:

- JOHN MAIN E A MEDITAÇÃO CRISTÃ: https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2020/05/john-main-e-meditacao-crista.html

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O QUE REENCARNA


A reencarnação implica a formação de novo personagem em face da mudança de realidade que o Espírito enfrenta e forja. A cada reencarnação um novo personagem surge, sem prejuízo à individualidade do Espírito. O personagem morre quando o Espírito inicia nova experiência na dimensão seguinte, independentemente de ele conservar a memória das imagens referentes à sua identidade anterior. A morte do corpo físico sela a morte do personagem de cada encarnação, mesmo que a consciência continue assumindo a identidade imediatamente precedente à desencarnação. A conservação da identidade, ou representação conhecida de si mesmo, já não mais permitirá que o Espírito exerça sua cidadania em face da mudança de dimensão, por força da desencarnação ou da reencarnação. Trata-se de mecanismo cujo resultado é a existência de um espectro de personagens abrigados no perispírito do Espírito que lhe trazem uma maior compreensão a respeito da natureza humana e de Deus.

A reencarnação ainda é tida como o processo de retorno da atual personalidade a um novo corpo físico. Esta compreensão dificulta o entendimento preciso do que de fato ocorre. Impõe-se uma compreensão mais específica da reencarnação com a percepção do que reencarna, sobretudo o entendimento da relação do Espírito com seu personagem, sem o que se torna difícil perceber a natureza espiritual do ser humano e do que é ser imortal. A personalidade atual não é a anterior reencarnada. O Espírito que constituiu a personalidade anterior, da mesma forma que construiu a nova, é que reencarna. São duas distintas personalidades de um mesmo Espírito, que, por sua vez, possui muitas outras gravadas em sua memória. A mudança de personalidade, com características muito diferentes uma da outra, não implica alteração da individualidade. Mudanças biológicas, psicológicas e culturais não interferem na individualidade do Espírito.

A reencarnação é uma crença antiga, presente em muitas culturas, sobretudo no subcontinente indiano. Baseada na ideia de que a vida no corpo físico é uma punição para o ser espiritual, teve seu significado associado à ideia de causalidade, sendo justificada pela necessidade de aperfeiçoamento moral, mediante a aquisição de virtudes para que não mais a ela se submetesse. Com novos e recentes estudos científicos a respeito da reencarnação, fora do contexto religioso, sobretudo com relatos de crianças que se lembraram de suas vidas passadas, verificou-se que se trata de um fenômeno natural, não punitivo, mas educativo, que faz parte do fluxo natural da evolução de todo Espírito. Mais ainda, que a personalidade atual, mesmo guardando alguns traços da anterior, apresenta características que, ao menos aparentemente, sugere ser outra pessoa. Trata-se, porém, do mesmo ser humano, Espírito que retornou em outra roupagem, portanto, outro personagem.

A encarnação é processo obrigatório para a evolução dos Espíritos no nível de desenvolvimento em que se encontram aqui na Terra. Não é punição, não é descida nem involução, mas tão somente meio contínuo de conexão com um tipo de vibração denominada de material, para a integração de habilidades. Graças à encarnação, o Espírito formou um ego que lhe deu consciência de si como individualidade. A reencarnação possibilita a vivência de inúmeros personagens, que também, entre outros ganhos, permite ao Espírito a percepção das distintas faces de Deus.

Personagem, em uma concepção simples e fora do domínio religioso ou desconsiderando a imortalidade e a reencarnação, significa pessoa, ser humano, indivíduo no mundo, personalidade autônoma, representação de uma unidade humana. Quando se considera a imortalidade e a reencarnação, entende-se melhor que se trata da manifestação concreta do Espírito que, ao reencarnar ou ao desencarnar, constrói um determinado personagem. O Espírito, portanto, é considerado o senhor que conduz o personagem, ora identificando-se com ele, ora tentando guiá-lo para o atendimento de seus propósitos. Não se trata de uma dissociação psicológica, mas da percepção de si mesmo sob diferentes ângulos, visando educar a exteriorização do Espírito da forma adequada aos seus propósitos e de acordo com o meio em que se manifesta. Esta percepção permite um diálogo entre o Espírito e seu personagem para adequação de rumos, firmação de propósitos e para uma melhor compreensão dos aspectos sombrios da personalidade resultante.

O personagem formado pela nova reencarnação guarda, no perispírito que lhe presidiu a construção do novo corpo físico, a memória das experiências vividas anteriormente. Este novo personagem apresenta as tendências do Espírito, acumula a resultante das experiências que acontecerão na nova existência em um corpo, recebe as alterações oriundas das influências hereditárias que merece portar e é também influenciado pela educação doméstica e pelas contingências inerentes ao meio e à época. Todas estas características reunidas compõem a nova personalidade que apresenta, dando continuidade a sua evolução.

As memórias das experiências dos personagens anteriores vividos pelo Espírito influenciam a personalidade construída na nova encarnação, apresentando-se no formato de tendências, podendo, ou não, ter prevalência sobre a educação que recebe e as decisões que tome a respeito de suas novas condutas. Estas tendências podem influenciar em escolhas de profissão, de acasalamento, de religião, de local de moradia, portanto, em todo tipo de preferência e de decisão do Espírito. Os personagens anteriores vivem dentro do atual, tornando-o um ser alquímico e complexo com características que se misturam, formando o que conhecemos como sendo a natureza humana.

A opção consciente, fruto da cultura e da ignorância humana sobre si mesmo, de pensar e agir tendo como referência sua existência física, dificulta a compreensão de que se trata, ele mesmo, de uma representação possível, na dimensão em que se situa, de algo mais complexo, precedente e anterior, que lhe dá causa: o Espírito imortal. Sua percepção deveria ser de si mesmo como Espírito, utilizando um corpo, que construiu um personagem que momentaneamente o cooptou. Enquanto dure esta cooptação, reduz sua percepção de si mesmo, invertendo o olhar, colocando-se em busca de algo transcendente, acreditando que é ele mesmo, o ser limitado, o ego do personagem que criou, que deve se tornar divinizado. Quando amadurecer e tomar consciência plena de sua imortalidade, entenderá que sua essência é divina e tudo quanto considere ser a realidade está disponível para que se realize, moldando o Universo a seu favor.

A visão de si mesmo como pessoa finita encerrada em um corpo físico que delimita sua existência, submetida a uma realidade distanciada de sua natureza e contrária a ela, dificulta a percepção de que há um Espírito e de que é ele que deve manejar seu personagem. O entendimento de que se é uma pessoa finita e de que a realidade é algo externo, absoluto, em que está imerso, posta para que interaja e dela venha a extrair, nas experiências de contato, o necessário aprendizado, dificulta a compreensão de que, sendo Espírito, existe algo mais complexo a ser percebido e de que ela é completamente flexível ao seu pensamento. A realidade não é absoluta, nem tampouco, por ser material, se opõe ao Espírito, pois se trata de algo moldável e que se presta a ser a representação de todos os processos psíquicos internos do ser humano. A realidade deve ser compreendida como representação de tudo quanto existe na intimidade da mente humana, tendo sua contribuição como agente de transformação para se apresentar como é percebida. Não se trata de uma ilusão, pois não é possível existir sem representar-se, projetando-se em suas nuances.

O indivíduo tem que entender que a cooptação deve se inverter. O ego do personagem deve dar lugar ao ego do Espírito e a dimensão material ser olhada como uma experiência em que se formatiza uma representação limitada de um ser mais complexo, mais maduro e com mais habilidades. É preciso o personagem perceber a si mesmo e simultaneamente o Espírito que o constitui, o que não é simples nem se obtém por uma crença ou decisão instantânea e improvisada. É trabalho de desconstrução de conceitos e crenças em paralelo à construção de uma relação saudável entre ego do personagem e ego do Espírito. Torna-se possível com a consciência da imortalidade, com o entendimento de que a personalidade atual vai morrer quando deixar esta dimensão, com a ausência de medo ou receio do futuro, com a eliminação de culpas, com a disposição permanente de enfrentar os desafios da vida e com a leveza de ter uma suave relação com Deus.

Viver tão somente a vida do personagem, desprezando a riqueza de uma existência fundamentada na própria imortalidade, é um grande desperdício, com atraso na evolução e com distanciamento de seus afetos. A vida de um personagem com as experiências que vivencia é o meio para que o Espírito conquiste a integração de importantes habilidades evolutivas, que o capacitam a alcançar dimensões cada vez mais complexas e superiores. A dimensão material é tão somente uma das muitas em que o Espírito penetra e se estabelece, por um breve período, em sua jornada ascensional. Quando apreende tudo que é possível em uma dimensão, estabelece-se em outra mais evoluída, vislumbrando outra superior.

Cada personagem é uma face do Espírito, útil para que interaja com o mundo em que pretende aprender. É uma espécie de ferramenta que utiliza para se mostrar e para apreender, da realidade em que se situa, o máximo e o melhor para a compreensão de si mesmo. A integração de ambos deve dar primazia ao Espírito, sem prejuízo da importância do personagem no mundo físico. Espírito e seu personagem compõem mais uma das maravilhas do Criador, que sempre apresenta nuances inimagináveis àqueles que O veem como um salvador mágico e pronto para atender as rogativas pueris humanas.


Adenauer Novaes



Fonte: do livro "O Voo do Espírito"
Fundação Lar Harmonia
Salvador – Bahia
distribuidora@larharmonia.org.br
www.larharmonia.org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/al%C3%A9m-vida-ap%C3%B3s-a-morte-1161899/

domingo, 5 de julho de 2026

O EGO NÃO DEMONSTRA DISPOSIÇÃO PARA ACEITAR OPINIÕES ALHEIAS


O indivíduo dominado pelo ego tem prazer em exercer autoridade sobre os outros e não demonstra disposição para ouvir opiniões alheias. Mesmo quando recebe conselhos benéficos, a sua teimosia o impede de aceitá-los. Tais indivíduos enxergam tudo através de um olhar distorcido pela presunção do ego. “As minhas palavras são verdadeiras”, “A minha opinião está certa”, “As minhas ações são sempre corretas” – assim pensam eles, permanecendo agarrados a essa teimosia! Tal comportamento é extremamente prejudicial ao aspirante espiritual, que deve estar sempre disposto a acolher de bom grado quaisquer críticas, sugestões ou conselhos, venham de onde vierem.

Quando cometer algum erro, deve evitar se justificar, pois isso pode levar a discussões desnecessárias e, caso não tenha sucesso nessas discussões, a confrontos motivados pelo desejo de vingança.

Não lutem para conquistar a estima do mundo nem se sintam humilhados ou enraivecidos quando o mundo não os reconhecer nem aos seus méritos.

Se vocês são aspirantes espirituais, antes de mais nada, aprendam essas lições e as coloquem em prática.

Por outro lado, não permitam que os elogios despertem em vocês uma alegria excessiva; nisso reside uma armadilha perigosa, capaz até mesmo de desviá-los do caminho e comprometer o seu progresso.

Procurem aprender e assimilar tudo o que houver de benéfico nos conselhos que receberem e ajam em conformidade com isso.

Treinem-se para encarar insultos e críticas como “condecorações” que lhes são concedidas. (Dhyana Vahini, cap. 14)



Sri Sathya Sai Baba



Fonte do texto e gravura: www.sathyasai.org.br

terça-feira, 9 de junho de 2026

REALIZAR O SI MESMO


O senhor diz que se pode realizar o Si Mesmo através da busca por Ele. Qual é a natureza dessa busca?

Você é a mente, ou pensa que é a mente. A mente nada mais é do que pensamentos. Agora, por trás de cada pensamento particular, existe um pensamento geral, que é o "Eu", isto é, você mesmo. Vamos chamar esse "Eu" de primeiro pensamento. Apegue-se a esse pensamento "Eu" e questione-o para descobrir o que ele é. Quando essa pergunta se apodera de você, você não consegue pensar em outros pensamentos.

Quando faço isso e me apego ao meu Si Mesmo, isto é, ao pensamento "Eu", outros pensamentos vêm e vão, mas eu digo a mim mesmo "Quem sou eu?" e não há resposta. Estar nesse estado é a prática. É assim mesmo?

Esse é um erro que as pessoas costumam cometer. O que acontece quando você faz uma busca séria pelo Si Mesmo é que o pensamento "Eu" desaparece e algo mais das profundezas se apodera de você, e esse algo não é o "Eu" que iniciou a busca.

O que é esse "algo mais"?

É o verdadeiro Eu, o significado do "Eu". Não é o ego. É o próprio Ser Supremo.

Mas o senhor costuma dizer que é preciso rejeitar outros pensamentos ao iniciar a busca, mas os pensamentos são infinitos. Se um pensamento é rejeitado, outro surge e parece não haver fim algum.

Eu não digo que você deve continuar rejeitando pensamentos. Apegue-se a si mesmo, isto é, ao pensamento do "Eu". Quando seu interesse o mantém nessa única ideia, outros pensamentos serão automaticamente rejeitados e desaparecerão.

Então, a rejeição de pensamentos não é necessária?

Não. Pode ser necessária por um tempo ou por algum tempo. Você imagina que não há fim se continuar rejeitando cada pensamento à medida que ele surge. Não é verdade, há um fim. Se você estiver vigilante e fizer um esforço firme para rejeitar cada pensamento à medida que ele surge, logo descobrirá que está indo cada vez mais fundo em seu próprio eu interior. Nesse nível, não é necessário fazer esforço para rejeitar pensamentos.

Então é possível existir sem esforço, sem tensão?

Não só isso, como é impossível fazer esforço além de um certo limite.


Bhagavan Sri Ramana Maharshi



Fonte: Arunachala Ashrama
Bhagavan Sri Ramana Maharshi Center
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/silhueta-mulher-medita%C3%A7%C3%A3o-interior-68716/

segunda-feira, 1 de junho de 2026

QUAIS SÃO OS NOSSOS "DEMÔNIOS" ?


Das duas etapas da jornada espiritual descritas por Evágrio Pôntico, “teoria” e “praxis”, focaremos na última. Não devemos esquecer que nosso crescimento espiritual depende tanto da graça quanto do esforço pessoal. A graça era fundamental para Evágrio, mas ele também considerava o esforço muito importante.

Em seus ensinamentos, que devem ser vistos dentro do contexto da época, no século IV, quando as crenças sobre forças angélicas e demoníacas estavam profundamente enraizadas, o esforço necessário para percorrer o caminho espiritual consistia precisamente em lutar contra esses “demônios”.

Acreditava-se que eles agiam contra os esforços da humanidade e estavam determinados a impedir nossa libertação: "Quando os demônios percebem que você está sendo fervoroso em sua oração, eles trazem pensamentos à sua mente, fazendo você acreditar que são preocupações urgentes que exigem sua atenção. E, de fato, quando você lhes dá atenção, interrompe sua oração. Mas não estamos sozinhos nessa luta: a graça de Deus e os anjos estão presentes para ajudar os seres humanos e, por meio do discernimento, mostrar-lhes o verdadeiro significado da vida: Se você orar em verdade, encontrará um profundo senso de confiança. Então os anjos caminharão com você e o iluminarão para que você possa descobrir o verdadeiro significado de toda a criação."

A primeira frase de Evágrio mostra claramente como os "demônios" se manifestam: através dos pensamentos. Podemos dar-lhes outro nome: "a sombra", como o psiquiatra Carl Gustav Jung a chamou. São apenas nomes. No entanto, estamos falando das mesmas forças negativas em nosso inconsciente pessoal, impulsos do ego que surgem do nosso medo de sobreviver. Eles moldam nossos pensamentos, influenciam nossas emoções e determinam nossas ações.

(...) nascemos como seres humanos frágeis com certas necessidades inatas que garantem nossa sobrevivência: segurança, amor, estima, poder, controle e prazer. Essas são necessidades valiosas que Deus nos deu e que nos permitem sobreviver no ambiente que Ele criou para nós.

Inevitavelmente, algumas dessas necessidades, e em certos casos a maioria delas, não são adequadamente atendidas por nossos pais ou cuidadores, de acordo com nossas percepções infantis dos acontecimentos. Essa percepção de necessidades não atendidas se torna uma ferida interna que eventualmente se transforma em uma verdadeira força "demoníaca", influenciando inconscientemente nosso comportamento e toda a nossa vida. Não falamos mais de uma "guerra contra demônios", mas ainda é importante entendermos e reconhecermos quais são os nossos próprios "demônios". Como esse pode ser um processo doloroso, é fácil entender por que antes era considerado uma "luta".

Quando crianças, não conseguíamos suprir essas necessidades essenciais sozinhos; dependíamos dos outros para isso. E isso pode se tornar um hábito, levando-nos a buscar a satisfação dessas necessidades, especialmente as não atendidas, fora de nós mesmos. Como adultos, somos perfeitamente capazes de sobreviver por nossos próprios méritos, desde que, é claro, não tenhamos limitações físicas ou mentais. No entanto, ainda buscamos satisfazer essas necessidades de sobrevivência fora de nós mesmos. O que esquecemos é que é o ego que impulsiona a sobrevivência; é o ego que está ferido. Não é o nosso verdadeiro Eu. Quando nos tornamos conscientes do nosso verdadeiro Eu através da oração ou da meditação, também descobrimos que somos amados, que nos sentimos seguros e valorizados, que não estamos feridos. Essa compreensão, por sua vez, cura o ego ferido e nos faz sentir íntegros e "plenamente vivos", como nos ensinam as palavras de Jesus.


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/fumo-dan%C3%A7a-escuro-luz-silhuette-1979380/