sábado, 13 de junho de 2020

MEDITAÇÃO: NOSSO OFERECIMENTO INCONDICIONAL A DEUS


O desafio da meditação é o de que ela leva cada um de nós a encarar a pergunta redentora fundamental: “Buscamos a Deus, ou, buscamos a nós mesmos?” Outra maneira de formular isso, seria dizer: “Buscamos nosso destino além de nossos próprios limites confinados, estamos em busca de nos definirmos meramente dentro de nossos próprios recursos, ou, buscamos nosso destino além de nós mesmos, em Deus?” É disso que trata nossa meditação: buscar romper os limites que nosso próprio egoísmo nos impõe...

Ora, nosso desafio não é o de rejeitarmos o mundo, nem o de rejeitarmo-nos a nós mesmos. O desafio é o de aprender a sacrificar. Para sacrificarmos, oferecemos algo a Deus e, na lei judaica, tudo era oferecido. Isso era chamado holocausto. Nada era retido. Tudo era dado a Deus. É isso o que a meditação faz à nossa vida.

O mantra, nossa meditação, permite que nos percamos inteiramente, que nos ofereçamos inteiramente, em nossa plenitude, a Deus. Nos ajuda a nos tornarmos um holocausto, em que tudo o que somos é oferecido, incondicionalmente, a Deus. É por isso que mantemos apenas a emissão do mantra. Ao chegar a hora, estaremos preparados para entregar isso também, pois, em nossa meditação estamos à inteira disposição de Deus. Só existimos em sua presença e, nos encontramos em sua presença por sua generosidade.

O aspecto maravilhoso da meditação é o de que nesse auto-sacrifício, e perda de identidade, sua Presença torna-se nossa presença e sua generosidade torna-se nossa generosidade. Ao perseverarmos na meditação, a perda de identidade torna-se cada vez mais completa, o sacrifício torna-se cada vez mais perfeito e, assim, a generosidade aumenta constantemente.

É por isso que, tão frequentemente, procuro ressaltar a todos a importância da repetição do mantra, do início ao fim de seu período de meditação. Sem pensamentos, sem palavras, sem imaginação, sem ideias. Lembrem-se do holocausto, do sacrifício. Ora, isso talvez seja a maior das coisas que podemos fazer como seres humanos conscientes: oferecermos nossa consciência a Deus. Ao oferecê-la, nos tornamos plenamente conscientes.

É esta a experiência de São Paulo, quando ele fala acerca da proximidade de Deus: “Então, a paz de Deus, que excede toda compreensão, guardará os vossos corações e pensamentos, em Cristo-Jesus.” Precisamos aprender a buscar essa paz, de maneira completa.


Dom John Main, OSB


Fonte: "A exatidão do Sacrifício" - Leitura de 27/04/2008
Moment of Christ (New York: Continuum, 1998) pp. 113-114.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/medita%C3%A7%C3%A3o-no-lago-humor-%C3%A1gua-4882027/

VACUIDADE


"Quando você estuda budismo, deve fazer uma 'faxina geral na casa' de sua mente."

Se você quer compreender o budismo, é necessário que deixe de lado todas as ideias preconcebidas. Para começar, abandone toda ideia de substancialidade ou de existência. A noção comum da vida está firmemente enraizada na ideia de existência. Para a maioria das pessoas, todas as coisas existem; pensam que tudo que vêem e ouvem existe. É claro, o pássaro que vemos e ouvimos existe. Ele existe, mas o que eu quero dizer com isto pode não ser exatamente o que você quer dizer. A compreensão budista da vida inclui tanto a existência como a não-existência. O pássaro existe e não existe ao mesmo tempo. [...] Dizemos que a verdadeira existência emerge da vacuidade e retorna à vacuidade. O que emerge do vazio é verdadeira existência. Devemos atravessar o portal do vazio. Tal ideia de existência é muito difícil de explicar.

[...] Não há trajetória que exista permanentemente. Não há uma trajetória estabelecida para nós. A cada novo momento, temos de encontrar nossa própria trajetória. Qualquer ideia de perfeição, ou de trajetória perfeita estabelecida por outrem, não é o verdadeiro caminho para nós. Cada um de nós deve fazer seu próprio caminho e, quando o fazemos, esse caminho expressa o caminho universal. Eis o mistério. Quando você compreende uma coisa em profundidade, compreende tudo. Mas quando você tenta entender tudo, não entende nada. O melhor é compreender a si mesmo; então você compreenderá tudo. Assim, ao se empenhar em realizar seu próprio caminho, você ajudará outros e será ajudado por outros. Antes de construir seu próprio caminho, você não pode ajudar ninguém e ninguém pode ajudá-lo. Para sermos independentes nesse sentido verdadeiro, temos que deixar de lado tudo o que temos em mente e descobrir algo novo e distinto, momento após momento. É assim que se deve viver neste mundo. Por isto dizemos que a verdadeira compreensão emerge do vazio.

[...] Se você procura liberdade, não pode encontrá-la. A própria liberdade absoluta é necessária para se obter absoluta liberdade. Esta é a nossa prática. Nosso caminho não é ir sempre na mesma direção. Algumas vezes, vamos para o leste, outras para o oeste. Avançar uma milha para o oeste significa retroceder uma milha do leste. Em geral, andar uma milha para o leste é o oposto de andar uma milha para o oeste. Mas, se é possível andar uma milha para o leste, significa que é possível andar uma milha para o oeste. Isso é liberdade. Sem essa liberdade, você não pode se concentrar no que faz. Você pode acreditar que está concentrado em alguma coisa, mas, até que não obtenha tal liberdade, não estará inteiramente à vontade naquilo que faz. É por você estar preso a alguma ideia de ir para o leste ou oeste que sua atividade está em dicotomia ou dualidade. Enquanto estiver sujeito à dualidade, você não pode atingir nem a liberdade absoluta nem se concentrar. [...]


Shunryu Suzuki



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budista-monge-budismo-medita%C3%A7%C3%A3o-737275/

SER MÍSTICO


Na expressão Antiga e Mística Ordem da Rosacruz, existe a palavra “mística”. Esta palavra não designa nada de estranho, de bizarro ou nebuloso. Não designa tampouco um estado de êxtase permanente. Uma pessoa dita mística não vive separada do mundo e de seus problemas e nem se furta as provações e as vicissitudes inerentes á condição humana. No entanto, esta palavra é mui frequentemente empregada de maneira pejorativa, designando, deste jeito, uma pessoa por certo geralmente doce e gentil, mas sobretudo inconsequente, fantasista e desprovida de toda lógica, já que demasiado sonhadora ou utopista.

Na realidade, a palavra “místico” tem um alcance mais amplo. Ela indica que devemos manifestar as duas polaridades do nosso ser de maneira igual. Devemos, pois, ser realistas e idealistas, ou seja, levar em consideração as contingencias materiais sem negligenciar as aspirações profundas e espirituais de nossa alma. Costumamos opor com frequência essas duas noções. Ora, é no entanto essencial que elas estejam em perfeita concordância. Devemos nos esforçar para manter este estado de equilíbrio por meio de um trabalho cotidiano em nós mesmos. Se digo nos “esforçar”, é porque não é fácil e nem tampouco evidente sermos perfeitamente coerentes e justos em nossos hábitos, nossas reações e nossos desejos. Nossas ações diferem constantemente de nossas intenções e o resultado dificilmente é aquele que nós esperávamos, ou mesmo aquele no qual tínhamos nos fixado. Apesar disso, mesmo se nossos esforços não são sempre tão mantidos como deveriam ser, é essencial que tenhamos em nosso espirito que um místico deve ser o reflexo da harmonia e do equilíbrio.

Quando abordamos a vida como místicos, somos mais fortes interiormente e uma serenidade ativa se desprende de nós, sendo sentida por muitos. Em geral, a força da alma que veiculamos então é apreciada, e mesmo admirada. Mas esta força pode também ser invejada ou cobiçada e, desta maneira, desencadear a animosidade de algumas pessoas. Pensamos geralmente que a beleza, a riqueza e a ascensão social são os únicos vetores de sentimentos negativos; isto não é nada. A Paz Profunda, a serenidade e a força y interior de um individuo podem bastar para um incômodo. E assim que uma pessoa dita mística, mesmo se as suas condições de vida forem pouco invejáveis em vários planos, pode ser objeto de ataques infundados. Não se compreende por que, apesar dos problemas e provações, uma tal pessoa pode permanecer positiva. Logo, é invejada, mesmo em seu infortúnio.

Portanto, não é fácil se comportar como um místico, mas o que importa a quantidade de trabalho a fazer e a duração da tarefa para aquele que tem fé, convicções pessoais e uma consciência luminosa? Se os seus pensamentos estão constantemente voltados para o interior, se ele medita cotidianamente e ora por seus semelhantes, não deve excluir de sua vida o contato com a sociedade e seus fatos. Ao contrário, seu espírito esclarecido pode acrescentar mais ao seu entorno, seja ele restrito ou muito amplo. Por menor que seja a chance de ter uma profissão ou um dom que lhe ponha em relação com o grande público, suas palavras trarão frutos promissores. Sua voz e suas palavras serão uma expressão do Divino. Quais sejam seu destino e seu campo de ação, um místico deve alcançar a fusão entre os dois mundos, o temporal e o atemporal, o material e o espiritual, para que possa atingir o milagre da unidade e fazer sua esta célebre injunção: “Tudo o que está em cima é como o que está em baixo”.

Ser místico é ter a percepção de que existe uma meta, que avangamos na direção de um último zênite e que somos guiados na direção dele. Nossos guias são as nossas virtudes, entre elas a coragem e a perseverança. Quando em nosso céu aparecer a nuvem da incompreensão, da angústia, da dúvida e da discórdia ameaçando o nosso avango no caminho, ajamos como místicos. A senda que leva á Iluminação é árdua e a tentação de deter a marcha é grande as vezes. A vertigem pode nos abalar e a bruma se tornar mais densa. Dissipemo-la por meio de nossa vontade interior e mantenhamos nosso olhar na direção do pináculo. Não nos queixemos do que resta por fazer, mas alegremo-nos pelo caminho já percorrido.

Aquilo que é válido para a nossa caminhada interior e para nossa evolução também o é em qualquer outro campo de nossa vida, pois os estudantes do misticismo não são, conforme já havia dito, seres etéreos, cortados do mundo e de suas realidades. Sejamos místicos, afinemo-nos com os outros e sejamos um numa verdadeira fraternidade de coração.


Christian Bernard, FRC



Fonte: do livro "Reflexões Rosacruzes", 1a. ed., 2011
Biblioteca Rosacruz - Ordem Rosacruz (AMORC), Curitiba - PR
Fonte da Gravura: Tumblr.com

MEDITAÇÃO: ALÉM DO CONHECIMENTO HABITUAL


A meditação é para os que não se satisfazem com um conhecimento meramente objetivo e conceitual em relação à vida, em relação a Deus, em relação a realidades de primeira importância.

Querem entrar em contato íntimo com a própria verdade, com Deus.

Querem experimentar as mais profundas realidades da vida, vivendo-a. (…)

Não nos esqueçamos jamais de que o fecundo silêncio em que as palavras perdem seu poder de expansão, e os conceitos nos escapam, é, talvez, a mais perfeita meditação. (…)

Devemos regozijar-nos e repousar na noite luminosa da fé.

Esse é um degrau mais alto de oração. A finalidade última da meditação deve ser uma comunhão mais íntima com Deus, não só no futuro, mas também aqui e agora.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Direções Espirituais e Meditação"
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Tumblr.com

A VERDADEIRA EXPERIÊNCIA


A verdadeira experiência consiste em compreender, pela nossa própria vigilância e pelo apercebimento, as causas que condicionam o pensamento.

Para compreender uma experiência no presente, para colher a sua frescura, deveis ter a mente limpa de crenças, de ilusões. A compreensão plena de uma experiência vos libertará de toda experiência, que é o tempo.

A verdade realiza-se por meio da iluminação e a iluminação é a descoberta do verdadeiro mérito da experiência. Para encontrardes este mérito verdadeiro tendes de vos concentrar sobre o que cada experiência tem de essencial, então ficareis libertos da experiência e depois a iluminação será permanente.

Ninguém pode estabelecer uma regra para se saber qual a experiência que conduz à verdade e qual a que não conduz. Cada um tem de discernir, por si mesmo, a essência de todas as experiências, a todos os instantes.

Se tiverdes interesse de ser completos, de ser a própria vida, então não evitareis coisa alguma, por causa do medo. A todo o instante vos esforçais por compreender e assimilar o significado de cada experiência.

O ponto de vista mecânico da vida priva o homem da verdadeira experiência da realidade. Esta não é uma experiência qualquer, fantástica, imaginativa, porém aquela que se manifesta, quando a mente está livre de todos os estorvos do medo, do dogma, da crença e daquelas doenças psicológicas que resultam das restrições e limitações que aceitamos, em nossa busca de própria proteção, segurança e conforto.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Medo", 2a. ed., 1948
Instituição Cultural Krishnamurti, RJ
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal