segunda-feira, 14 de março de 2022

DESPERTAR: UMA PERCEPÇÃO


Há um livro de aforismos que nunca foi e provavelmente nunca será publicado. Esse livro diz: “O homem pode nascer, mas para nascer precisa morrer antes, e para morrer, antes precisa despertar”. Outro trecho diz: “Quando o homem desperta, pode morrer. Quando morre, pode nascer”. O que isso significa?

“Despertar”, “morrer”, “nascer” representam três estágios sucessivos de um processo. Volta e meia, encontramos nos Evangelhos referências à possibilidade de “nascer”. São feitas diversas referências à necessidade de “morrer” e muitas à necessidade de “despertar” ou de nos mantermos despertos, como “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora...”. Mas essas três possibilidades — despertar ou não dormir, morrer e nascer — nunca são apresentadas como conceitos correlacionados, apesar de seu relacionamento ser o ponto mais importante.

“Nascer” está relacionado ao primeiro estágio do crescimento da essência, o começo da formação da individualidade e o surgimento de um “eu” unificado e indivisível. Mas, a fim de poder perceber ou mesmo começar a perceber isso, a pessoa precisa morrer no sentido de se tornar livre de uma miríade de apegos e de identificações mesquinhas que a mantém no lugar em que ela está. Estamos apegados a tudo na vida — à nossa imaginação, à nossa estupidez e, talvez mais do que qualquer outra coisa, ao nosso sofrimento. Precisamos nos libertar desse apego às coisas, dessa identificação com as coisas, que mantém vivos milhares de “eus” inúteis em nós. Esses “eus” precisam morrer a fim de que um “eu” maior possa nascer. Mas como? Eles não querem morrer.

É aí que entra em cena a possibilidade do despertar, isto é, do despertar para nossa insignificância. Despertar significa perceber nossa total e absoluta mecanicidade e nosso desamparo. E não basta perceber isso de modo intelectual. Precisamos ver isso nos fatos evidentes, simples e concretos, em nossa própria vida. Quando começamos a nos conhecer um pouco melhor, vemos muitas coisas que nos horrorizam. Ao vermos algo que nos choca, nossa primeira reação é mudar aquilo, livrarmo-nos daquilo. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, sempre fracassamos, e tudo permanece como está. Então percebemos nossa impotência, nosso desamparo, nossa insignificância. Ou, novamente, quando começamos a nos conhecer, vemos que não temos nada que nos pertença de fato. Vemos que o que considerávamos nosso — nossas posições, nossos pensamentos, convicções, gostos, hábitos, até nossos defeitos e vícios — não nos pertence. Tudo isso foi formado mediante imitação ou tomado de empréstimo, já pronto, de outra pessoa. Ao percebermos isso, podemos sentir nossa insignificância. E, ao sentir nossa insignificância, devemos nos ver como realmente somos, não apenas por um momento, mas constantemente, sem nunca nos esquecermos.

A percepção contínua de nossa insignificância e de nosso desamparo irá acabar nos dando a coragem de “morrer” — não apenas mentalmente, mas de fato — por meio da renúncia permanente a esses aspectos em nós mesmos, os quais são obstáculos ou não são necessários para nosso crescimento interior. Esses obstáculos são, em primeiro lugar, nossos “falsos eus” e, depois, todas as ideias fantásticas sobre nossa “individualidade”, “vontade”, “consciência”, “capacidade de fazer”, bem como nossos poderes, iniciativas, determinação, e assim por diante.

Porém, a fim de podermos nos conscientizar permanentemente de alguma coisa, precisamos vê-la antes, mesmo que apenas por um instante. Qualquer poder e capacidade de percepção recém-adquiridos aparecem sempre da mesma maneira básica. No começo, aparecem em flashes, em momentos raros e breves, depois com mais frequência e por mais tempo e, finalmente, após muito tempo e esforço, tornam-se permanentes. Isso também se aplica ao despertar. É impossível despertar de modo pleno de uma só vez. Primeiro precisamos despertar por breves momentos, um ou dois momentos de vez em quando. Todavia, após ter feito certo esforço, superado certos obstáculos e tomado uma decisão irrevogável, precisamos morrer de uma vez e para sempre. Isso seria muito difícil ou mesmo impossível caso não fosse precedido por um processo gradual de despertar.

Há, no entanto, mil coisas que nos impedem de despertar, que nos mantêm sob o poder de nossos sonhos. No intuito de agirmos de modo consciente e despertarmos, precisamos conhecer a natureza das forças que nos mantêm em estado de sono. Precisamos compreender que o sono em que existimos não é um sono comum, mas uma espécie de hipnose, um estado hipnótico mantido e reforçado continuamente. Poderíamos pensar que há forças que se aproveitam do fato de estarmos em um estado hipnótico, mantendo-nos nele e impedindo-nos de vermos a verdade e de compreendermos nossa posição.

Existe uma parábola oriental sobre um mago rico que tinha muitas ovelhas. Ele também era muito sovina e se recusava a contratar pastores ou a pagar por uma cerca ao redor de seus pastos. Por isso, volta e meia as ovelhas vagavam pela floresta e caíam em ravinas. E, sobretudo, fugiam, pois sabiam que o mago queria seu couro e sua carne, e elas não queriam isso. Por fim, o mago encontrou uma solução: hipnotizou as ovelhas. Primeiro, fez com que pensassem que eram imortais e que nada lhes aconteceria quando tirassem sua pele, mas que isso seria muito bom para elas e que elas gostariam disso. Segundo, sugeriu que ele era um “Bom Mestre”, que gostava tanto de seu rebanho que faria qualquer coisa neste mundo por elas. Terceiro, sugeriu que, se algo fosse acontecer com elas, não seria naquele momento, ou não naquele dia pelo menos, e que por isso elas não tinham motivo para pensar a respeito. Finalmente, o mago fez com que seu rebanho pensasse que não eram nem mesmo ovelhas. A algumas, sugeriu que eram leões, elefantes ou águias; a outras, que eram homens e, a outras, que eram magos. Depois disso, ele nunca mais precisou se preocupar com suas ovelhas. Elas não fugiram, ficaram esperando pacientemente pelo dia em que o mago precisaria de sua pele e de sua carne.

Essa parábola é uma excelente ilustração da posição do homem. Se pudéssemos ver e compreender de fato o horror de nossa verdadeira situação, não seríamos capazes de suportá-la nem por um segundo. Começaríamos imediatamente a tentar encontrar um modo de escapar e logo o encontraríamos, pois existe uma saída. A única razão pela qual não a enxergamos é que estamos hipnotizados. “Despertar”, para o homem, significa “acordar da hipnose”. Logo, isso é possível, mas, ao mesmo tempo, difícil. Não há motivo orgânico para estarmos adormecidos. Podemos despertar, pelo menos na teoria. Na prática, porém, isso é quase impossível. Assim que despertamos por um momento e abrimos os olhos, todas as forças que nos fizeram adormecer ficam dez vezes mais poderosas. No mesmo instante voltamos a dormir, sempre sonhando que estamos acordando ou que estamos despertos.

No sono comum, às vezes acontece de querermos despertar sem conseguir. Às vezes pensamos estar acordados, mas ainda estamos dormindo, e isso pode acontecer várias vezes até conseguirmos despertar de fato. No sono comum, porém, após despertarmos, nos vemos em um estado diferente. Não é o caso do sono hipnótico. Não há maneira precisa de dizer se despertamos mesmo, pelo menos no começo. Não podemos nos beliscar a fim de ter certeza de que não estamos dormindo. E se, Deus nos livre, alguém tiver ouvido falar de alguma maneira de descobrir se estamos dormindo, nossa fantasia a transformará em sonho na mesma hora.


Georges Ivanovitch Gurdjieff




Fonte: do livro "Em Busca do Ser - O Quarto Caminho para uma Nova Consciência"
Ed. Pensamento, 1ª ed. digital, 2019, São Paulo/SP
www.editorapensamento.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/conto-de-fadas-noite-m%c3%basica-peixe-1180921/

UTOPIA ROSACRUZ


Utopia Rosacruz


Deus de todos os seres humanos, Deus de toda vida, na Humanidade com que sonhamos:

Os políticos são profundamente humanistas e trabalham a serviço do bem comum.

Os economistas gerem as finanças dos Estados com discernimento e no interesse de todos.

Os sábios são espiritualistas e buscam sua inspiração no Livro da Natureza.

Os artistas são inspirados e expressam em suas obras a beleza e a pureza do Plano Divino.

Os médicos são motivados pelo amor ao próximo e cuidam tanto das almas quanto dos corpos.

Não há mais miséria nem pobreza, pois cada qual tem aquilo de que precisa para viver feliz.

O trabalho não é mais vivenciado como uma coerção, mas como uma fonte do desabrochar e de bem-estar.

A natureza é considerada como o mais belo dos templos e os animais como nossos irmãos em via de evolução.

Há um Governo mundial, formado pelos dirigentes de todas as nações, trabalhando no interesse de toda a Humanidade.

A espiritualidade é um ideal e um modo de vida que têm sua fonte numa Religião Universal, baseada mais no conhecimento das Leis Divinas do que na crença em Deus.

As relações humanas são fundadas no amor, na amizade e na fraternidade, de modo que o mundo inteiro viva em paz e harmonia.

Assim seja!


A  Ordem Rosacruz - AMORC publicou o Manifesto acima, no qual seus dirigentes expressam sua posição sobre a situação geral do mundo, de onde seu título “Positio Fraternitatis Rosae Crucis”[1]. Esse Manifesto, que foi traduzido para cerca de 20 línguas, é concluído por uma utopia cujos autores têm, portanto, nacionalidades, opiniões políticas, crenças religiosas e culturas diferentes. Se para além dessas diferenças eles se puseram de acordo sobre uma mesma visão da sociedade ideal, é precisamente porque a Filosofia Rosacruz traz em si um desejo de universalidade que privilegia a unidade na diversidade.


[1] Historiadores situam o “Positio Fraternitatis Rosae Crucis” na linhagem dos três Manifestos que os rosacruzes publicaram no século XVII: o “Fama Fraternitatis”, o “Confessio Fraternitatis” e as “Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz”, publicados respectivamente em 1614, 1615 e 1616.



Fonte do Texto e da Gravura: Ordem Rosacuz - AMORC
https://www.amorc.org.br/utopia-rosacruz/

O LÓCUS* DO INCONSCIENTE


A consciência de si mesmo é o que conhecemos como eu. É a identidade de uma pessoa. Quando afirmamos eu sou fulano, estamos nos referindo àquilo que, de fato, temos consciência que somos. Mesmo assim, sabemos que existem interferências no nosso modo de pensar, sentir e agir, de que não temos consciência, mas que emergem do nosso próprio ser. Afirmamos que se tratam de vetores inconscientes, mas não sabemos se realmente eles se encontram naquilo que chamamos de Inconsciente. Para elucidar melhor a questão, temos de considerar que existe uma outra instância, que é a individualidade humana. O eu ou ego é uma representação construída, ao longo da vida, pelos fatos e impressões que a marcaram e que nos parece ser a nossa identidade essencial. Aquela outra instância, inacessível à consciência, propalada pelas religiões como sendo a alma ou espírito, é a máxima individualidade essencial do ser humano. Essa individualidade é a natureza da Natureza, momento obscuro da criação divina, que se tornou epicentro do processo de ascensão infinita, coagulador dos fenômenos que compõem a vida. Sua singularidade constitui o grande mistério que reúne a unidade e a totalidade num mesmo princípio.

A possibilidade da existência desses dois “senhores” não deve ser motivo de dúvida. Ego e Espírito são indissociáveis até determinado nível de evolução, mas possuem diferentes domínios e consequentes áreas de atuação. É possível ao ego perceber aspectos inerentes ao Espírito? Ou melhor, é possível, conscientemente, o Espírito se revelar além dos limites do ego, tornando-se a ele perceptível? O caminho para tal, passa primeiro pela percepção, pelo ego, de que é independente do corpo e existe sem ele. O segundo passo será a percepção de que a mente é um órgão a serviço do Espírito e que não o abriga nem o limita totalmente.

A inacessibilidade direta e a subjetividade que envolve as hipóteses para os assuntos que dizem respeito à mente são muito grandes, dificultando as certezas e a precisão de conceitos. Isso nos leva a considerar que o “terreno” da mente está longe de ser o corpo físico. A resposta está na dimensão quântica, em que se “situam” as probabilidades e possibilidades inalcançáveis diretamente pela consciência humana.

Engano pensar que, uma vez libertos do corpo pela ocorrência natural da morte, alcançaremos diretamente aquela dimensão. Na dimensão espiritual, também existem as limitações psíquicas e de compreensão da realidade pertinente. Em cada dimensão vibratória encontrar-se-á limites típicos.

Atuar, visando educar e promover o autoconhecimento de uma pessoa, requer que se tenha em mente que a ação deve alcançar o ser na dimensão quântica, que é o lócus alquímico das verdadeiras transformações. A fala, o olhar, o gesto, a tonalidade afetiva, o exercício modelar, bem como a intencionalidade do instrutor ou educador, devem conter a consciência de que existe aquela dimensão e é nela que se processam as modificações profundas na alma. Isso interferirá na forma como se processam as falas, palestras, doutrinações, diálogos, relacionamentos, bem como toda comunicação entre as pessoas. Se o objetivo não é simplesmente uma compreensão da realidade restrita aos limites físicos nem uma simples mudança de hábitos externos, então a comunicação entre os indivíduos deve levar em conta a dimensão quântica em que estão situados.

A Consciência, produto último da evolução humana, é uma coagulação de conteúdos e experiências inconscientes, isto é, o Inconsciente é matriz da Consciência. Imersos no corpo físico, passamos a acreditar que a Consciência a ele se restringe, sem considerar sua origem inconsciente e seu lócus original.

Há quem acredite que a vida após a morte descortina a ignorância do Espírito. É mais adequado pensar que ela a acentua, pois retira as fantasias oriundas da ideia de um mundo macro que convida o ser humano a conhecê-lo, mas que, em face das inúmeras e constantes projeções, mitifica-o. Olhar para fora leva-o a construir aqueles mitos e fantasias. Olhar para dentro o faz acordar para um mundo diferente, convidativo e profundo. Sem os limites do corpo, levado a perceber a grande ilusão que viveu, tendo de encarar sua ignorância, terá certamente dificuldade em conceber o Universo a sua volta. Continuará mitificando, provavelmente divinizando a realidade. Quando se consegue desvestir a consciência dos mitos e projeções simbólicas milenares, pode-se perceber melhor o Universo.

As ideias quânticas tornam-se importantes para o esclarecimento do ser humano, pois reduzem as ilusões e fantasias, levando-o à consciência do véu interposto não só pelos sentidos físicos como também pelos paradigmas da ciência clássica, mecanicista e causalista. Esses paradigmas configuram uma psiquê enrijecida até então. É hora de se buscar modificar esse estado.

A vida verdadeira, propalada pelo Espiritismo como sendo a espiritual, é parte da questão a ser resolvida pelo Espírito. Vir e voltar para o mundo espiritual, cuja existência é questionada pela ciência, é apenas uma das muitas fases da evolução.

O Inconsciente não se estrutura de forma padronizada, cronológica ou convencional. Imagens, vibrações e configurações complexas compõem seu conteúdo. Palavras, sons e raciocínios lógicos dele não fazem parte. Tudo que dele sai recebe a conformidade da Consciência, portanto, de acordo com protocolos convencionais.

Quando analisamos sob o paradigma espírita, temos de considerar a complexidade da relação entre o Inconsciente e o Espírito. À primeira vista, pode-se pensar que o Inconsciente é o próprio Espírito. A distinção clara está na individualidade deste último. O Inconsciente surge da relação entre o Espírito e o meio. O Espírito precede ao Inconsciente que, por sua vez, gera a Consciência, campo de atuação do primeiro através do ego, estrutura que lhe representa.

A frequência vibratória do Inconsciente o situa fora dos limites do corpo e isso permite que seja acessado fora dos limites da consciência, isto é, por meios não convencionais. Nisso se baseiam as técnicas psicológicas projetivas, as relações mediúnicas, as comunicações telepáticas, bem como qualquer outro modo de apreensão da realidade sem a utilização dos cinco sentidos.

O corpo não tem condições de abrigar o Inconsciente em face das características físico-químicas do cérebro. A frequência vibratória do Inconsciente necessita de outro tipo de estrutura, razão pela qual a frequência vibratória do Perispírito abriga o Inconsciente.

O termo perispírito surge com o Espiritismo. É o corpo espiritual que serve de abrigo à mente e de veículo de manifestação do Espírito. Em breve a ciência perceberá sua existência, provavelmente dando-lhe outra denominação e origem.

A psiquê não é dissociada do todo e das coisas. O Inconsciente se conecta ao mundo real independentemente da Consciência e do ego.

* Lócus (local, lugar, posição) - Nota deste blog.



Adenáuer Novaes



Fonte: do livro "Psicologia e Universo Quântico", pp. 121-4, 1ª ed., 2009
Fundação Lar Harmonia - Salvador/BA - www.larharmonia.org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/psicologia-linhas-de-campo-5872032/

REALEZA E AUTODOMÍNIO


A realeza está ligada à ideia de autodomínio.

Um rei que domina os outros e não consegue dominar-se a si mesmo não é um rei, mas um escravo.

O verdadeiro rei é aquele que sabe ser senhor de si mesmo.

Quando o discípulo estabelece como ideal para si mesmo escapar ao domínio das suas tendências egoístas e controlar, orientar os seus pensamentos e os seus sentimentos, está no caminho da realeza.

Então, os Espíritos da Natureza inclinam-se quando ele passa, segredando entre si: «Aproxima-se um rei…», e fazem-lhe uma festa, apressam-se a rodeá-lo, muito contentes.

Isto porque do seu sangue real emana um fluido de uma grande pureza, impregnado por uma influência curativa, apaziguadora, como uma nascente divina que corre e vivifica todos os seres em seu redor.



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal