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quinta-feira, 29 de maio de 2025

ENCONTRO COM DEUS (Temas de Cabala)


Para incitar ao homem a buscar o conhecimento de Deus, a Torá formula um mandamento: conhece a Deus. Mas, para que o homem sinta que é capaz de empreender tal esforço, é necessário que o despertar de seu desejo de empreender a busca venha do Alto. A iniciativa, pois, vem do céu (do Alto): va-yeda Elohim..., "o Senhor conheceu aos filhos de Israel", e teve piedade de seu miserável estado no Egito; lhes enviou a Moisés para dizer-lhes que "Ele é o Eterno", que se interessa pelos assuntos humanos, "que os quer retirar de suas tribulações no Egito, que os adota como seu povo, a fim de que o conheçam". (1)

Em seu amor ao homem, Deus lhe faz saber que o conhece e que o homem pode também conhecê-lo. Uma voz celeste lhe murmura ao ouvido: levanta-te! Pois "não há homem que não tenha sua hora": a hora em que essa chamada se faça perceptível.

O que deve fazer o homem quando é solicitado por Deus? Como pode chegar até seu interlocutor? Acabará por reconhecê-lo se o "busca com todas as suas forças e com toda a sua alma". (2) Mas, acaso haverá algum caminho que conduza até Ele para chegar a conhecê-lo? O profeta o indica assim: "Eleva o olhar e observa: Quem criou estas coisas? Ele é quem fez sair seu exército em ordem e quem chama por seu nome a todas as coisas; é tal a grandeza de seu poder e sua força poderosa que nenhuma delas deixa de obedecer-lhe". (3) Este versículo do profeta que se tornou, por assim dizer, clássico, foi utilizado sobretudo pelos racionalistas judeus da Idade Média, que queriam estabelecer a demonstração naturalista, 'a posteriori', da existência de Deus. A natureza, criada e ordenada, despertou sua intuição de um Deus criador e ordenador. Em sua opinião, esta passagem de Isaías traduz, em linguagem bíblica, o conceito aristotélico do princípio das coisas ou primeiro impulso do cosmos. Os racionalistas judeus reelaboraram e ampliaram esta intuição na ideia de um Deus pessoal que mantém e cultiva sua obra e que se interessa pelas suas criaturas, sobretudo pelo homem. Também a cabala fez uso desse versículo, não para demonstrar a existência de Deus, senão que para indicar ao homem como pode encontrá-lo e vivê-lo. Não deduz a ideia de Deus a partir da obra da natureza, senão que, pelo contrário, deduz a ideia da natureza da obra de Deus. Tal é a interpretação do Zohar: "Está escrito: 'no principio'. Rabi Eleazar abriu uma de suas conferências com o seguinte prólogo: 'Eleva teu olhar e considera quem criou todas as essas coisas'. 'Eleva teu olhar' para o local em que estão fixos todos os olhares... E então compreenderás que o misterioso Ancião, eterno objeto das investigações, 'criou essas coisas'. 'E quem é Ele'. MI? (Quem?), Aquele que foi chamado 'a Eternidade do céu' (4), nas alturas; porque tudo está em seu poder. Acaso se chama MI porque é o objeto eterno de busca e porque está em um caminho misterioso e porque não se deixa ver?... Esta extremidade superior do céu é chamada MI (Quem?). Mas existe também uma extremidade inferior chamada MA? (que?). A primeira, misteriosa, chamada MI, é o eterno objeto de busca. Quando o homem empreende esta busca e quando se esforça por meditar e subir degrau por degrau até o final, acaba por chegar ao MA? O que aprende? O que compreende? O que buscou? De fato: tudo permaneceu tão misterioso como antes."

"E Rabi Shimon, dirigindo-se a seu filho, fala como segue: 'Eleazar, meu filho, continua explicando o versículo para que seja revelado o mistério que os filhos deste mundo ainda não conhecem'. E como Rabi Eleazar guardasse silêncio, Rabi Shimon disse: 'Eleazar, o que significa a palavra ELEH (aquilo, essas coisas)?...' Esse mistério não me foi revelado até o dia em que o profeta Elias me apareceu enquanto eu estava na margem do mar. Disse-me: 'Rabi, tu sabes o que significam as palavras MI BARA ELEH? (Quem criou as essas coisas?)' E eu lhe respondi: ELEH significa os céus e os corpos celestes; a Escritura recomenda ao homem contemplar as obras do Santo, bendito seja, como está escrito: 'Quando considero os céus, obra de tuas mãos...'; e um pouco mais adiante: 'Deus, nosso Senhor, quão admirável é teu Nome em toda a Terra'. (5) Elias me replicou: 'Rabi, essa palavra encerra um segredo; foi pronunciada diante do Santo, bendito seja, e seu sentido foi ocultado na escola celestial; é este o sentido: quando o Mistério de todos os mistérios quiz manifestar-se..., revestiu-se com uma túnica preciosa e resplandecente e criou ELEH (aquilo, todas as coisas), que se agregaram a seu Nome. ELEH somado a MI (invertido = IM) formou ELOHIM'." (6)

A interpretação desse importante versículo de Isaías, tal como nos oferece o Zohar, corresponde ao conceito original que a Bíblia nos dá de Deus. Quando o livro do Gênesis relata a criação do mundo, insiste o mesmo na obra realizada por Deus que nas ordens e exigências formuladas por Ele durante a realização de sua obra criadora. E o relato do Gênesis nem sequer se refere a seu modo de consumação. Desde o princípio nos põe diante do Criador, que não é um poder impessoal: nos incita a estabelecer relações com Ele, relações que Ele já iniciou com nossos pais e nas quais já fomos comprometidos.

Esta individualidade que é Deus leva um nome, ELOHIM, que indica sua qualidade de Criador. Como interlocutor do homem, levará um segundo nome, inefável, que simboliza o Tetragrama YHVH (YUD, HEI, VAV, HEI). Este Deus age. Cria, BARA, o universo em um momento determinado, que fixou como ponto de partida do tempo: BERESHIT. (7) E neste universo criado atualmente existimos. Encontramo-nos diante do mesmo Deus, com o qual estamos atualmente relacionados.

O acontecimento único da criação "dos céus e da Terra" é designado BARA, "criou", pretérito indefinido. Seguem duas formas verbais cujo alcance é reduzido e cujo significado é secundário: praticamente desaparecem diante do vigor e a grandiosidade do primeiro. ("Então a Terra era informe e vazia... e o espírito de Deus se movia sobre as águas.") Deus trabalha para dar forma a sua criação e proporcionar um objetivo a sua obra produzida no "começo" por uma ação repentina: "Fala", "considera", "distingue" e "chama". A Bíblia nos relata assim todas as sucessivas etapas que, encadeadas, permitiram a este universo apenas "começado" a converter-se em uma obra completa, mas não acabada: Deus "produziu esta obra para ser feita". (8) As ações divinas que nos relata a Bíblia não estão ditas com um pretérito indefinido, senão com um passado orientado ao futuro: VA-YOMER, VA-YAR, VA-YAVDEL, VA-VIKRA... Deus ordenou e continua ordenando; e ordenará sempre que determinadas coisas se façam, com o fim de indicar ao homem o uso que deve fazer delas. (9)


Rabi Alexandre Safran


Notas:

1 - Ex 6, 6-7; cf. Zohar II, 25a-b.

2 - Dt 4, 29; cf. Jr 29, 13; ICr 28, 9; IICr 15, 2.

3 - Is 40, 26.

4 - Dt 4, 32.

5 - Sl 8, 4, 10.

6 - Zohar I, 1a-2, a; cf. Zohar II, 138, a; 197, b; 231, a; Tikunei Zohar, Tikune 49.

7 - Gn 1, 1; cf. Rabi Eliahu de Vilna, Aderet Eliahu, Gn I, 1, p. 9; Maimônides, More Nevuhim II, 30.

8 - Gn 2,3.

9 - Cf. Zohar I, 47, a; Sefer haBahir 57.


Fonte: LA CÁBALA

Ediciones Martínez Roca, S.A., 1976

Barcelona, España

Original: LA CABALE

1972, Payot, Paris, France

Traducción (español): Carlos Ayala

Tradução (português): deste blog

Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/livro-tora-cabala-selo-de-salom%C3%A3o-7283777/

sábado, 14 de janeiro de 2017

NO GRÂNULO DA VIDA ESTÃO A LEMBRANÇA E O SABER

O Universo é uma escala de repetições progressivas, determinadas por leis e forças preexistentes. No primeiro degrau devem existir os demais degraus latentes com as particularidades proporcionais daquilo que há de existir nas causas dos efeitos vindouros. A seu tempo, também os efeitos se convertem em causas de outros efeitos e, assim, sucessivamente. A vida, então, não é mais que um eterno recordar e saber ou um eterno intuir e recordar, que se gravam indelevelmente no grânulo da vida. Essa mesma prática é a que faz o mestre.

Essas sucessivas repetições são as que formam ou determinam o automatismo psíquico em todos os indivíduos, mas com particularidades diferentes em cada um. O sábio desenvolveu algumas partes da massa cerebral devido à sua consciente vontade de trabalhar e, por isso, ele é sensível a determinados estímulos mais do que eu.

Na célula seminal primitiva estão, em partes iguais, os elementos masculinos e femininos, e a diferença está em que os elementos de certa classe alcançam maior desenvolvimento. A diferenciação se dá em virtude da maior atividade dos elementos que produzem hormônios de certas classes e que dependem de muitos fatores, como, por exemplo, a temperatura, a luz, a presença no interior de determinados ácidos, de certos sais minerais, da força vital que aviva a ação de uns elementos e conserva outros em equilíbrio estável etc...

No grânulo da vida está, em potência, o conhecimento destas fórmulas e a subconsciência e consciência possuem os órgãos físicos que permitem liberá-lo, porém falta-nos a chave mestra que nos abra totalmente a porta da SUPERCONSCIÊNCIA.

Que é a superconsciência? É a consciência que sabe sem pensar e trabalha sem equívoco. Que nos falta para obter esta chave mágica? É necessário alcançar três objetivos:

1 - Disciplina física: Submeter-se a um regime racional e adequado de dietas e exercícios musculares e respiratórios, até alcançar um domínio sobre si mesmo.

2 - Disciplina mental: Instruir-se nas ciências humanas, aprender e conhecer a unidade da vida e das ideias com as formas, até fazer-se apto para compreender e fazer-se compreensível.

3 - Disciplina espiritual: Penetrar nos mistérios da criação, nas leis de causa e efeito, nos processos de transmutação e veículos que unem o mental ao espiritual até que se identifique e se faça um com o todo.

Estas disciplinas dão ao adepto o poder de abrir conscientemente suas portas internas e fazer com que sua consciência leia os arquivos da subconsciência e, assim, libere sua superconsciência ou Onisciência, e se converta em sacerdote do saber, vendo o passado, o presente e o futuro. A ALMA QUE SABE SE CONSOME NO DESEJO DE SABER MAIS. A QUE VISLUMBRA DEUS SE CONSOME NO DESEJO DE CHEGAR A ELE... disse a Torah.





Dr. Jorge Adoum.'.
Fraternitas Rosicruciana Antiqua






Fonte: do livro "O Átomo da Vida"
Tradução de Yara Ramos
1ª ed., Niterói, RJ, 2000
Fundação Cultural Avatar
Fonte da Gravura: tumblr.com

terça-feira, 28 de maio de 2013

SEFER HABAHIR (LIVRO DA LUZ/CLARIDADE) - uma síntese

Ensinamentos principais:

- TZIMTZUM: ocultamento, contração, retração, esvaziamento, recuamento. O recuo ou ocultamento da Luz Infinita para permitir que um mundo finito viesse a existir, através da emanação.

- GUILGUL HANESHAMOT: a transmigração (reencarnação) das almas.

- GALGAL: os ciclos reencarnatórios (semelhante ao samsara hindú).

- Interpretação das 22 letras hebraicas e dos números.

- Os 32 Caminhos da Sabedoria (na Árvore da Vida - Etz Chaim).

- As 12 bordas diagonais do cubo do espaço.

- Ensina que o mundo inferior simboliza o mundo superior divino através das "Sefirot", (estruturas divinas, níveis, atributos, forças divinas ativas em manifestação).

- A verdadeira compreensão da Torá (Pentateuco) se dá pela percepção do mundo superior divino atuando no mundo inferior através das "Sefirot"; a Torá é vista como um código e representação dessa atuação.

- O "mal" deste mundo é resultante da "revolta de 'satã'" e de suas hostes contra Deus. (Satã representa o "oponente", o "adversário", ou seja, as adversidades e provações na vida e não um ser).

- O Livro da Claridade atribui grande importância à doutrina da transmigração ou reencarnação das almas, explicando as causas do sofrimento.

- O renascimento é comparado a uma vinha que deve ser replantada para que possa produzir boas uvas.

- O Bahir se baseia no misticismo das letras e dos Nomes Sagrados do Sefer Yetzirá (Livro da Criação ou Formação) e em seu uso.

Sobre o livro:

- Obra de misticismo judaico do início da Idade Média.

- Atribuído a um sábio mishnaico do séc. I (Mishná é a transcrição da Torá oral).

- Supõe-se ser de origem babilônica.

- Foi editado na Provença, em fins do séc. XII, por discípulos do místico Isaac, o Cego.


Prof. Hermes Edgar Machado Jr.



Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 22 de maio de 2013

54 PARASHIÔT (PORÇÕES)


Os judeus, os cabalistas e outros que seguem o esoterismo da Torá (Pentateuco), centralizam suas práticas e reflexões em porções semanais da Torá (PARASHIÔT (porções) e PARASHÁ (porção), em hebraico).

A Torá, para este estudo, é dividida em 54 porções, uma para cada semana. Cada "parashá" contém em si uma CERTA ENERGIA A SER TRABALHADA, uma MEDITAÇÃO, uma INTROVISÃO, um TRABALHO PSICOLÓGICO, uma REFORMA ÍNTIMA, um ENTENDIMENTO ESPIRITUAL e uma CONSCIENTIZAÇÃO DE ALGO TRANSCENDENTE.

A semana começa no sábado, às 18h, e termina no outro sábado, às 18h. O ponto culminante da semana é no dia do "SHABAT" (sábado) que começa às 18h de 6ª feira e termina às 18h de sábado. O horário do "Shabat" pode apresentar pequenas diferenças de horários dependendo do local e tradições.

Estudar, meditar, trabalhar a energia, visualizar em letras hebraicas os textos da Torá e do Zohar (Livro do Esplendor) e meditar na sequência semanal dos 72 Nomes do Altíssimo, propicia que nos conectemos com o Divino e com o nosso Ser interior (Eu Sou).

Assim, durante o ano judaico-cabalístico, no nosso dia-a-dia pessoal, íntimo e inter pessoal, irão ocorrer situações e oportunidades de fazermos as nossas correções (tikun/karma), ascensões e cumprir nossa missão nesta atual encarnação.


Prof. Hermes Edgar Machado Jr.




Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sábado, 9 de março de 2013

ONDE ESTÁ A VERDADEIRA CABALA



Com o advento da chamada "nova era", em que as pessoas estão mais sedentas de conhecimentos e de evolução espiritual, muitas pessoas correram para o Judaísmo em busca da antiga Cabala. 

É interessante observar que este fenômeno está gerando um número muito grande de gurus, mestres, "ravs" e rabinos cabalistas, visando lucrar um pouco com a explosão do interesse pela Cabala. 

No entanto, somos obrigados a formular algumas perguntas que necessitam de suas respectivas respostas para que possamos entender melhor a Cabala e o fenômeno que a envolve neste início de milênio. 

Qual a diferença que existe entre a Cabala original e a que, hoje em dia, cuida dos amuletos, da magia, da bruxaria? Em quem devemos acreditar se desejamos estudar Cabala de maneira séria? 

O que primeiro devemos entender que a Cabala original (em hebreu, Kabbalah Yunit), a Cabala Contemplativa, que nada tem a ver com a bruxaria ou magia ou amuletos, é uma série de estudos intelectuais que tratam do misticismo, da filosofia judaica de ir mais além intelectual e espiritualmente. 

Este estudos se originaram na Espanha, do século XII ao XVI. Era, então, um estudo esotérico, mas não de magia ou outra coisa. Tratava da união do homem com D'us e era uma disciplina mental e espiritual. 

A partir do século XVI veio o colapso da civilização judaico-espanhola, que é a que deu origem à Cabala. Neste ponto, a atitude com que se tratava os assuntos místicos mudou. Ao invés de tomar uma atitude contemplativa de procurar entender o porquê do universo, se adotou uma atitude manipulativa, na tentativa de mudar o universo para que essas coisas não voltassem a ocorrer. Neste momento, surgem todas as superstições da Cabala, com amuletos, magias, adoração aos mortos e diversas coisas que o Judaísmo condena e considera pura idolatria. 

O florescimento da Cabala, se deu a partir do século XII, no leste espanhol e sudeste francês, em toda a região conhecida como Catalunha, quando surgiu uma filosofia humanista, muito ligada com o misticismo. Ao contrário do bruxo, que desejava manipular a realidade, o místico buscava entender o que estava oculto no universo e seu sentido simbólico. O místico buscava a união entre todos os homens e o universo. 

O que os rabinos místicos diziam era que todos deviam procurar o sentido oculto escondido na Torah. Isso não é magia. Esse é todo o sentido da Cabala original. 

Com a chegada do século XIII, veio a público o que se toma como a obra mestra da Cabala: o Sepher há-Zohar (O Livro do Esplendor), que foi publicado pelo rabino Moisés de Leon, em 1274. Segundo o próprio de Leon, o espirito de Shimeon Bar Yohai o revelou. 

Para Moisés de Leon, o objetivo principal da Cabala era tentar entender e descobrir o esquema oculto do universo. O Zohar fala da Árvore da Vida, que é uma estrutura das distintas emanações de luz, cada uma representando uma Virtude Divina, e que engloba a totalidade de D'us. 

A Árvore da Vida é um simbolo que representa a estrutura do universo e do homem. Ela vê o universo como macrocosmos e o homem como microcosmos. Ou seja, o homem é a representação em tamanho menor do universo. 

No entanto, a Árvore da Vida não é D'us. É uma imagem através da qual a mente humana poderia tentar compreender a D'us. 

Outro conceito muito importante na Árvore da Vida é o conceito do equilíbrio. Todas as suas virtudes têm o seu oposto ou seu complemento. Por exemplo, Binah, que é a Intuição, está equilibrada com Chochmah (Sabedoria). Isto significa que a Intuição sem a Sabedoria é algo sem controle e incompreensível. Do mesmo modo, a Sabedoria sem nenhuma emoção, passa a ser um conhecimento sem nenhuma iluminação, que é o que precisamos para chegar na essência das coisas. 

Até o início do século XIV, os escritos da Cabala na Espanha são muito elevados intelectualmente, chegando a ser mais rebuscados que o próprio Talmud. Nos meados do século XIV, se começa a verificar uma troca para a magia. No ano de 1391, um século antes da expulsão, foram criados uma série de programas contra os judeus da Espanha. Neste ano, a comunidade judaico-espanhola foi dizimada. Em 1492, Fernando e Isabel estavam expulsando menos da metade de todos os judeus que viviam ali. 

Para entendermos essa virada (o que não quer dizer que aceitemos), devemos ver a Inquisição batendo à nossa porta e queimando a nossa mãe, nossos filhos, nossa família. É muito fácil ser contemplativo quando se está de bem com a vida, e, naturalmente, a Inquisição não coloca ninguém de bem com a vida. A reação foi de desesperança e de uma vontade quase histérica para mudar essa realidade. A tentativa de manipular os poderes da natureza para que esta se modifique, chegou com esse desespero. 

A partir deste episódio, começaremos a ver a Cabala Prática, não mais a Cabala Contemplativa. Isso já é magia. 

Neste período surge o uso, entre os cabalistas, dos amuletos. Não que seu uso não era conhecido anteriormente. O próprio Rambam, no século XII já condenava essas práticas. Mas ela não era associada aos cabalistas, mas aos curandeiros, gente de pouco valor para a comunidade. 

O massacre de 1391 foi uma tragédia tão grande, que conduziu à degeneração de uma cultura inteira. Todos começaram a carregar vários amuletos contra o mal-olhado. 

Na época da expulsão, o judaísmo espanhol está numa histeria desenfreada, como uma visão do Apocalipse, e não havia tempo para estudar de modo contemplativo e filosófico. Esta atitude histérica do século XV, vai penetrar no mundo ashkenazi, que também passava por um momento difícil. O que os ashkenazis pegaram dos sefaradis não foi o Zohar intelectual, mas o Zohar interpretado com o novo olhar de desespero, pois os cossacos estavam fazendo a sua própria matança, e eles não eram muito melhores que os inquisidores espanhóis. 

Neste período, chegamos as lendas como a do Golem, que era uma espécie de ser que não era exatamente humano, criado de acordo com uma fórmula cabalística secreta. 

Essa lenda vem da Tchecoslováquia, do século XVI, quando chegam os primeiro refugiados da Espanha. Como os refugiados foram para este país e outros para a Polônia, chegaram junto com eles as influências da Cabala. 

Nos dias de hoje, convivem a Cabala Contemplativa e a Cabala do Desespero. 

E o que fazem os estudiosos sérios da Cabala? Estudam a Cabala para entendê-la, desde o seu início e sua passagem através dos séculos. Estudam o Zohar, os escritos dos principais cabalistas, procurando entender o que se passou nos diversos "progroms" que fizeram sofrer os judeus e analisando como mudou o pensamento cabalístico. 

Para quem se diz "mestre", devemos analisá-lo. Se este diz que tudo é mistério e que não se pode entender nada, deixe-o de lado, porque está colocando um véu de mistério sobre algo que pode ser estudado. Por outro lado, se tenta ensinar como um sistema barato de auto-ajuda, sem tentar aprofundar os ensinamentos, deixe-o de lado, também. 

Os mestres devem entender a Cabala, e ao mesmo tempo ter uma atitude crítica com relação a ela. Os primeiros cabalistas não se propunham a criar um nova doutrina, buscavam entender o universo e a relação do homem com D'us e com o mundo ao seu redor. Este deve ser a atitude, tanto do mestre quanto do discípulo. A Cabala não é uma panaceia, que se compra no bar da esquina e que cura todos os males. Antes, a Cabala é uma forma de entender o mundo e nossa relação com ele.


Julio C. Gonçalves




Nota: Baseado no texto "CABALA CONTEMPLATIVA, CABALA DEGENERADA", de SHARONA FREDERICKO, publicado em www.wzo.org.il


Texto completo de Sharonah Fredericko-Marcelo Kisilevski no sítio: http://www.jaimegorenstein.com/buscando-la-verdad/30/1147-cabala-contemplativa-cabala-degenerada.html

Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/menorah-judeu-juda%c3%adsmo-hebraico-5100275/


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PODER DA CABALA


A sabedoria milenar da Cabala — inicialmente transmitida apenas de forma oral e a pouquíssimas pessoas — apresenta uma forma de interpretar as Sagradas Escrituras de forma a revelar conhecimentos ocultos nas palavras e que não podem ser compreendidos a partir de uma interpretação literal dos textos. Desta maneira, o Velho Testamento não é entendido simplesmente como um relato de acontecimentos ocorridos há milhares de anos, mas como uma das formas mais bem elaboradas e herméticas de transmissão de informações, que podem estar ao alcance daqueles que estudarem a decodificação dos símbolos.

Já houve épocas em que o estudo da Cabala era bastante restrito, o que está mudando um pouco nos tempos recentes. Para falar mais sobre esse conhecimento, a Sexto Sentido entrevistou o professor Shmuel Lemle, tradutor do livro O Poder da Cabala, e responsável pelo Centro de Cabala do Rio de Janeiro.

O senhor pode nos dizer o que é a Cabala?

A Cabala é uma antiga sabedoria espiritual baseada num livro chamado Zohar. A sabedoria do Zohar é universal — provê conhecimento e ferramentas para toda a humanidade, que são tão úteis hoje como eram há milhares de anos. Esse conhecimento e essas ferramentas podem ser aplicados por pessoas de todas as religiões e práticas espirituais. A Cabala proporciona a metodologia, instruções e ferramentas para ajudar as pessoas a alcançarem a auto-realização, a plenitude espiritual, e um fim para o sofrimento e o caos. O Zohar, escrito há 2 mil anos, explica os mistérios da vida e os códigos secretos da Bíblia.

Qual a relação — se é que existe — entre a Cabala, a religião judaica e as religiões que dela derivaram, como a católica?

O Zohar é um guia para a Bíblia que foi dada a Moisés no Monte Sinai, quando ele recebeu os Dez Mandamentos e a Torá. A Cabala explica os segredos e o verdadeiro significado das histórias da Bíblia, revelando sua sabedoria e espiritualidade, e sua intenção é ajudar a acabar com o caos que assola a humanidade. A Cabala era uma tradição oral originalmente estudada apenas por rabinos, mas seus ensinamentos, derivados do Zohar, eram para toda a humanidade, não importando a origem religiosa ou espiritual. Na verdade a Cabala nos ensina todos os porquês por trás da prática religiosa.

Como se chega ao estudo da Cabala? Como a pessoa se inicia?

O Centro de Cabala oferece cursos desde o nível iniciante até níveis mais avançados de estudo. O curso para iniciantes, chamado Introdução à Cabala 1, cobre assuntos como as origens do universo, o sentido da vida, e como transformar nossos hábitos negativos, reativos, em comportamento proativo. Os cursos mais avançados penetram nos estudos da vida após a morte, relacionamentos, desenvolvimento pessoal e crescimento espiritual. Outros cursos são dados sobre saúde e cura, como criar milagres na vida, oração e meditação, e a ciência da astrologia cabalística.

Antigamente se dizia que mulheres não podiam estudar a Cabala, e que quem estudasse antes dos 40 anos ficaria louco. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Se tentássemos explicar a uma pessoa que vivesse na Idade Média a ideia de um aparelho de fax, um telefone celular, ou mesmo da Internet, seriamos rotulados de místicos ou loucos. Hoje, todos nós temos acesso a esses avanços tecnológicos. As idéias da Cabala só podem ser transmitidas para todos agora, porque os avanços da ciência e da consciência nos proporcionam uma linguagem que torna os conceitos espirituais compreensíveis. Podemos falar de interconexão, porque a própria física quântica explica que todos os eventos estão interconectados. Antes não existia uma linguagem para falar sobre esses conceitos, por isso, a Cabala ficava limitada a poucos sábios por geração. Mas o próprio Rabi Isaac Luria, o Ari, que viveu há 500 anos, um dos maiores cabalistas que da História — a Cabala estudada hoje se chama Cabala Luriânica em sua homenagem — deixou este mundo com 38 anos. E no Zohar está escrito que na nossa época — a Era Messiânica, Era de Aquário, Nova Era, chame como quiser — até crianças de 6 anos devem aprender Cabala. Agora estamos prontos para receber a sabedoria cósmica do universo.

Existe mais de um tipo de Cabala, ou mais de um tipo de interpretação e aproximação à Cabala?

Existem algumas variações nas interpretações, mas basicamente toda Cabala estudada hoje vem do Ari, Rabi Isaac Luria, e se chama Cabala Luriânica. Existem também níveis de estudo da Cabala. O primeiro nível se chama Taamei Torá — o sabor da Torá — que é o que estudamos, e que pode e deve ser estudado até por crianças. O segundo nível é Sitrei Torá — a parte oculta. Para atingir esse nível o estudante precisa estar imbuído de um desejo tão grande de aprender que recebe uma revelação direta. Esse nível não pode ser ensinado diretamente, a pessoa tem que chegar no nível de receber a revelação.

Qual a relação entre Cabala e magia?

Algumas pessoas utilizam a Cabala como magia — isto se chama Cabala Maassit, Cabala prática. No Centro de Cabala não estudamos de jeito nenhum esse tipo de Cabala. É muito perigoso mexer com forças espirituais sem saber direito os efeitos colaterais que isso pode causar.

Como se desenvolve a compreensão do cabalista sobre Deus?

O cabalista fala na Luz Infinita. A Luz Infinita não é Deus, mas uma Energia Infinita que emana de Deus. O próprio Deus, segundo os cabalistas, nós não temos capacidade de compreender. A Luz é a Sua emanação, e é este nível que podemos atingir. Os diferentes nomes de Deus que aparecem na Bíblia, segundo os cabalistas, são denominações de diferentes níveis dessa emanação luminosa — as Sefirot. Cada nome está ligado a uma determinada Sefirá — ou um determinado nível de emanação da Luz. Quer dizer, os nomes não indicam o próprio Criador, que é totalmente inatingível, mas diferentes níveis de Suas emanações.

Existe alguma escritura sagrada da Cabala além das antigas escrituras? O estudo da Cabala é centrado em alguma escritura em particular ou em toda a Torá?

Como já dissemos, o principal livro de Cabala é o Zohar, escrito por Rabi Shimon Bar Yohai há 2 mil anos, decifrando os segredos e códigos da Torá. O Zohar foi escrito originalmente em aramaico, e o fundador do Centro de Cabala, Rabi Yehuda Ashlag, traduziu o Zohar por completo para hebraico moderno. Pela primeira vez, está sendo disponibilizada uma tradução completa do Zohar para o inglês. Em português ainda não existe uma versão do Zohar. Mas o primeiro livro de Cabala é ainda anterior à própria Torá. É o Livro da Formação — Sefer Yetzirá — de autoria do Patriarca Abraão. Em forma de código, este livro contém todos os segredos do universo e da Criação. Entre outras coisas, fala de astrologia e do poder energético das letras hebraicas.

O Zohar vai de acordo com a Torá e segue todo o Antigo Testamento, explicando o verdadeiro sentido de cada passagem. Mais tarde, há 500 anos, veio o Rabi Isaac Luria, o Ari, que trouxe uma metodologia mais compreensível para os ensinamentos do Zohar. Seus ensinamentos foram passados para a forma escrita por seu principal aluno, Rabi Chaim Vital, e pelo filho deste, Rabi Shmuel Vital, e se chama Kitvei Ari, os Escritos do Ari.

No século XX, o grande cabalista Rabi Yehuda Ashlag trouxe os ensinamentos do Ari para uma forma ainda mais próxima de nós, pessoas leigas, no Estudo das Dez Emanações Luminosas. Rabi Ashlag, fundador do Centro de Cabala, completou também uma tradução do Zohar do original em aramaico para hebraico moderno.

A Torá é o centro de todo o ensinamento. Mas o cabalista frisa o fato de que a Torá é um código. Não pode ser lida de forma literal, pois isto oferece uma compreensão completamente equivocada e contraditória. O trabalho do cabalista é decifrar o código por trás da Torá. O Zohar enfatiza uma crença fundamental da Cabala de que é uma obrigação analisar e questionar as histórias da Bíblia. Com a instrução do Zohar, os segredos dessas histórias são revelados e sua sabedoria pode ser usada para melhorar as vidas de todos.

Como o estudo da Cabala afeta o homem moderno?

Os estudantes aprendem respostas para como vencer o jogo da vida. Utilizando as ferramentas poderosas fornecidas pelo Zohar, o homem pode controlar o caos em sua vida e atingir a plenitude duradoura. Uma vez postos em prática os ensinamentos, os estudantes passam por mudanças positivas em suas vidas.

Qual a relação entre Cabala e ciência?

O cabalista Rav Berg, atual diretor do Centro de Cabala, costuma dizer que a ciência finalmente está alcançando a Cabala. De fato, é impressionante como os últimos avanços da física e da biologia se assemelham aos antigos ensinamentos dos cabalistas. Em busca de uma teoria que unifique a Relatividade de Einstein, que funciona para sistemas macroscópicos, e a Teoria Quântica, que se aplica ao mundo subatômico, a física moderna chegou à Teoria das Supercordas (Superstrings, em inglês). Sem entrar em detalhes, de acordo com essa teoria o universo tem dez dimensões, mas no momento do Big Bang seis delas se compactaram em uma, por isso, só percebemos quatro dimensões (três espaciais e o tempo). É exatamente o que ensina a antiga Cabala. Da mesma forma, a teoria genética, junto com a ideia do DNA, já era explicada de forma bem mais profunda pelos cabalistas. O Rav Berg costuma dizer que a Cabala é a ciência do século 25.

Qual o verdadeiro significado da Árvore da Vida segundo a Cabala?

A Cabala explica que há dois universos paralelos, duas realidades existindo lado a lado. A primeira é a realidade onde o caos predomina, onde existe a lei de Murphy, que diz “tudo que pode dar errado dará errado”. É o mundo dos altos e baixos, onde hoje está tudo bem, mas há completa incerteza quanto ao amanhã. Esta realidade é codificada na Bíblia como “A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”. Hoje está bem, amanhã está mal, e assim por diante. A segunda realidade é a Árvore da Vida. Neste nível da realidade, o caos não existe, a própria morte foi cancelada. É a realidade da nossa alma, da Luz plena, da plenitude total, da satisfação completa, da imortalidade. O que determina com qual das duas realidades nos conectamos é a nossa consciência.

Dentro de um entendimento mais profundo da Árvore da Vida, compreendemos que para a Luz Infinita poder se revelar num mundo finito, nos proporcionando o livre arbítrio, era preciso que existissem diferentes níveis de ocultação da Luz, desde um nível em que a Luz está totalmente revelada até o nosso nível físico, em que a Luz está oculta. Existem então dez níveis de revelação ou ocultação da Luz, que são as Dez Sefirot, formando a estrutura conhecida como a Árvore da Vida.

Segundo a Cabala, quais as funções espirituais do homem e da mulher?

A energia masculina é a energia de compartilhar. A energia feminina é a energia de receber. Tudo no universo tem essas duas forças, dar e receber, Luz e receptor. Quando um professor dá uma aula, está compartilhando com os alunos seu conhecimento. Neste caso, o professor é a Luz e os alunos são o receptor. O professor representa a energia masculina e os alunos, a energia feminina. Quando falamos, estamos revelando nosso pensamento. A fala é o receptor para o pensamento. Sem a fala o pensamento não poderia se expressar. Neste caso, o pensamento é a Luz, a energia masculina, e a fala é o receptor, a energia feminina. Tanto homem quanto mulher são formados pelas duas energias, masculina e feminina. Mas o papel do homem é mais de compartilhar e o da mulher é mais de receber e manifestar a Luz. O homem planta a semente dentro da mulher, que a alimenta e guarda, para fazer a gestação de uma nova vida. As duas energias se complementam, uma precisa da outra. A semente não se manifesta sem a Mãe-Terra. E a Terra não pode cumprir sua função de gerar vida sem a semente. Nenhuma energia é melhor ou pior, superior ou inferior que a outra, mas certamente as energias são diferentes, bem como suas funções.

Aplicação Prática

Apesar do interesse mágico não constituir o centro dos estudos cabalísticos, a utilização da Cabala na magia despertou imenso interesse nos eruditos europeus, especialmente a partir do século XV. Nessa época surgiram muitas obras sobre o tema e também inúmeros cabalistas cristãos, como Pico della Mirandola, Johan Reuchlin, João Pistorius, Cornélio Agrippa e outros.

Muitos preferiram seguir pelo caminho da Cabala prática, a partir da concepção de que as letras e números em que estão escritos os textos sagrados não são apenas signos inventados pelo homem para registrar fatos e pensamentos, mas formas que contêm o poder divino — conforme explica o historiador Kurt Seligmann em seu livro A História da Magia. Assim, a compreensão da Cabala também se firmou como uma forma de exercer as artes mágicas, reconhecendo o poder das palavras.

Segundo Seligmann, o que ocorreu é que enquanto um bom número de eruditos cristãos se dedicavam à especulação metafísica, seguindo os passos dos letrados judeus, outros se sentiram mais atraídos pela aplicação prática dos conhecimentos apresentados nos livros cabalísticos.

É provável que o relato mais fantástico de uma aplicação prática esteja representado pela história do Golem, um ser artificial que teria sido criado em alguns momentos da história a partir do conhecimento cabalístico. A ideia básica é que, assim como Deus tinha criado através da palavra, também se poderia criar um ser artificial dessa maneira. No século XII, conta-se que a seita dos Chassidim elaborou 221 combinações diferentes utilizando as letras do alfabeto e, amassando uma quantidade de barro, tornou possível a criação de um homem, desde que a combinação exata de palavras fosse pronunciada. Para desfazer a criatura, bastava pronunciar as combinações invertidas. Um dos problemas do Golem era que ele crescia muito rapidamente, assumindo proporções de um gigante. Outra aproximação da lenda afirma que ele trazia a palavra emeth (verdade) escrita na testa, e para fazer com que a criatura deixasse de existir era só apagar a primeira letra, transformando a palavra em meth (morte).

As histórias também dizem que Elias de Chelm criou um Golem no século XVI, e que o ser começou a viver quando ele escreveu o nome secreto de deus em sua testa. Outro rabino, que também teria feito um Golem, foi Judah Löw bem Bezalel, de Praga, que o destruiu quando percebeu que ele não parava de crescer.

Algumas versões da lenda afirmam que o Golem era utilizado para realizar serviços domésticos; em outras, suas funções não eram tão superficiais, e o ser andava pelo mundo realizando façanhas e ajudando o povo judeu quando este se encontrava em dificuldades. A versão mais conhecida da lenda é a escrita em forma de ficção por Gustav Meyrink (O Golem, publicado no Brasil pela Ed. Hemus), mas ele também surge na obra de vários autores de literatura fantástica, como E.T.A. Hoffmann e Villiers de l’Isle-Adam, além de algumas adaptações para o cinema. 



Rabino Shmuel Lemle



Fonte: Revista Sexto Sentido nº 22, por Gilberto Schoereder
http://www.espiritualismo.hostmach.com.br/cabala.htm
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/estrela-de-davi-magen-david-7157606/

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A TORÁ (PENTATEUCO) SEGUNDO A CABALA



A Torá não é um rolo sagrado que tenta definir a moral e a ética adequadas pelos quais o ser humano deveria viver...

Por tradição, descreve-se a Torá como constituída pelos Cinco Livros de Moisés, em que estão inscritas as leis fundamentais de conduta moral e física.

Algumas pessoas não-religiosas vêem a Torá como um documento que registra a história, enquanto outros a vêem como uma coletânea de histórias que falam da relação de D-us com o homem e da criação do mundo.

Para o cabalista, todas essas descrições erram o alvo.

Por exemplo, o eminente cabalista Rabi Shimon bar Yochai, o autor do Zohar, dizia que em sua própria geração havia grandes escritores que seriam capazes de compor histórias bem mais interessantes do que os relatos que aparecem na Torá. E ainda por cima, ele classificou todos esses rabinos, estudiosos e filósofos que tomam a Torá literalmente como inteiramente tolos. Estas são palavras muito fortes, vindas de uma figura histórica, um conhecedor tão respeitado da Bíblia.

Concepções erradas sobre moral

A Torá não é um rolo sagrado que tenta definir a moral e a ética adequadas pelos quais o ser humano deveria viver. Esta talvez seja uma das concepções mais equivocadas da religião - um equívoco que contribuiu para 2000 anos de sofrimento, perseguição e apatia. A humanidade jamais passará por uma mudança duradoura e positiva enquanto conceitos vagos de moralidade e ética forem nossa motivação e recompensa pela bondade e pela decência. Esta pode ser uma causa nobre, mas é uma causa que por mais de dois mil anos vem fracassando em trazer-nos paz e unidade.

De acordo com a Cabala, enunciados da Bíblia como “não matarás” ou “não roubarás” não estão na Torá para nos ensinar moralidade.

O que vem a ser realmente a Torá?

O código da Torá

Quando nosso olho, o órgão físico, vê um objeto, registra-o de cabeça para baixo. Transmite então a imagem invertida para o cérebro. De acordo com a ciência, um mecanismo inverte no cérebro essa figura de forma tal que temos agora uma percepção mental da imagem de cabeça para cima.

A Cabala diz que esse processo ocorre dentro da alma. O olho como órgão físico está conectado com o nosso mundo físico do caos - conhecido em termos cabalísticos como a "Árvore do Conhecimento". A alma está conectada com uma realidade mais elevada com ordem e plenitude absolutas - conhecida pelo termo em código "Árvore da Vida".

Quando nosso olho observa um objeto neste mundo físico, a imagem invertida vai para o nosso cérebro. A alma, conectada com a realidade da Árvore da Vida, pega essa informação caótica e a transforma em ordem - invertendo a imagem mental no nosso olho da mente.

Esta relação inerente entre o corpo e a alma é um processo natural do nosso universo - um processo que também se estende até a Torá do plano físico.

A Torá, como o corpo físico da sabedoria universal, também apresenta suas histórias de cabeça para baixo, invertidas. Somente a alma da Tora - a Cabala - pode reverter a imagem e nos apresentar a verdadeira compreensão e o verdadeiro significado espiritual.

Antídoto

Basta olhar para o mundo da medicina para obter uma outra instância da perspectiva cabalística do mecanismo interno da Torá. Para evitar que a doença de pólio aflija nossas vidas, a medicina moderna criou uma vacina contra a poliomielite. Dentro dessa vacina encontramos uma linhagem fraca da doença! Injetando porções mínimas da própria doença no corpo, evitamos que a doença completa se materialize.

Para a Cabala, a Torá funciona de acordo com um princípio semelhante. Quando a Torá fala de matar, assassinar, roubar e de outras ações negativas, na realidade estamos recebendo uma vacinação para evitar que essas "doenças" recaiam sobre nossas vidas. A Torá é a vacina ou o antídoto, se você preferir, que nos protege e nos cura das forças negativas e destrutivas de que fala em suas histórias.

Não matarás

Existe na Torá uma história muito famosa em que D-us ordena que os israelitas matem seu inimigo, uma nação conhecida como "Amalek". O massacre deve incluir todos os homens, mulheres e crianças de Amalek. Essa nação inteira deve ser exterminada. Para dizer o mínimo, é uma instrução controversa, principalmente à luz do mandamento de "não matarás". Como se pode conciliar o mandamento de D-us de "Não Matarás" com essa ordem para matar homens, mulheres e crianças? A Cabala explica essa aparente contradição.

O Zohar revela que a palavra Amalek tem o mesmo valor numérico que a palavra em hebraico para incerteza. E o que há de tão importante acerca da palavra "incerteza"? Segundo os cabalistas, a "incerteza" é a semente de todo o mal do mundo. Todos nós temos, em algum nível: Incerteza sobre nós mesmos. Incerteza sobre a existência de D-us. Incerteza sobre o nosso destino e sobre nossa capacidade de superar desafios. Incerteza sobre se há justiça no mundo. Incerteza sobre as recompenses associadas ao comportamento positivo, espiritual.

Por exemplo, se D-us estivesse do nosso lado, a plena vista, será que pegaríamos uns poucos "trocados" a mais do cofrinho se não houvesse ninguém mais no quarto? Será que perderíamos a cabeça e xingaríamos nossos amigos e familiares quando eles nos incomodassem? Será que mentiríamos, roubaríamos, enganaríamos, abusaríamos ou manipularíamos os outros para gratificar o nosso próprio ego?

É claro que não. Mas a Força que chamamos de D-us está oculta. Por isso, ficamos incertos acerca da presença de D-us em nossa vida. Então, nos comportamos com intolerância. Colocamos a nós mesmos na frente dos outros. Duvidamos da existência do Criador e por isso nos sentimos confiantes de poder ficar numa boa com nosso comportamento insensível e com nossas ciumeiras pessoais e profissionais. Viramos as costas para a noção de espiritualidade e de transformação de caráter. Ficamos motivados unicamente pelo intelecto e pelo ego, e esquecidos de outros anseios que deixamos ociosos em nossa alma.

Decodificando a história

"Eu vi o inimigo, e somos nós" - Pogo.
A Cabala explica que D-us na verdade está dizendo aos israelitas - e às pessoas de todas as gerações, incluindo a nós mesmos - para matar as incertezas dentro de nossa própria natureza. Cada um de nós é um "cidadão" da nação de Amalek. Não existe uma nação inimiga "lá fora". O inimigo é interno. A palavra Amalek é um código que significa a incerteza que habita dentro de nossa própria mente racional.

A história da Torá está invertida. Virada pelo avesso. De cabeça para baixo. De pernas para o ar. Invertida.

As percepções espirituais ocultas por trás da história carregam a verdade!

Matar os "homens, mulheres e crianças de Amalek" significa a destruição de nossas próprias incertezas. Os "filhos de Amalek" representam as sementes iniciais de dúvida que se insinuam em nossa mente no momento em que somos expostos a obstáculos ou a verdades espirituais. Os "homens e mulheres de Amalek" correspondem às incertezas, aos cepticismos e aos pensamentos adulterados já totalmente ampliados que nos assolam diariamente.

Este é um aspecto da Torá. Há um outro...

O objetivo da história da Torá

Essa história possui uma dimensão adicional, que forma o núcleo do objetivo último do rolo da Torá. Siga com cuidado: Esta história específica da Torá emana influências espirituais que ajudam as pessoas a erradicar e a remover a incerteza de suas vidas. A dúvida é apagada de nossa consciência através da energia mística que flui através de cada letra e palavra da Torá.

O pergaminho, a tinta, as letras e os versículos que formam a Torá são todos componentes intricados que transformam o rolo num "gerador de força espiritual".

Quando a Torá fala de maldições, de doenças, de fome ou de guerra, as influências que emanam desse instrumento nos inoculam com uma "vacina" para impedir que essas calamidades nos afetem.

O Zohar extrai percepções espirituais de cada uma das porções da Torá que são lidas ao longo do ano. Cada semana oferece uma energia diferente que podemos usar em nossa vida de maneira prática. Essas influências incluem: cura; prosperidade; eliminação da inveja; capacidade para atrair nossa alma gêmea; força para ascender acima de nossos medos.

Sem o conhecimento espiritual que decifra a história, a Torá se torna inoperante. Ela se torna um símbolo de tradição improdutivo, em vez de ser um instrumento incrível de poder. Ainda pior, os sábios nos dizem que se alguém simplesmente aceita a Torá literalmente - lendo-a com uma postura mental religiosa ao invés de se conectar com ela num nível espiritual - a Torá se tornará um veneno.


Rav Philip Berg



Fonte: Centro da Cabala - www.kabbalah.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/b%c3%adblia-livro-p%c3%a1ginas-abrir-lendo-1868070/

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

EDUCAÇÃO ESPIRITUAL



O estado do mundo, como todos nós sabemos, está mudando. Mas não perca as suas esperanças – no método cabalístico, os pais ensinam suas crianças a dar amor, e, no processo, lembrar o que esqueceram há tempos.

A Educação espiritual (cabalística) tem sido o coração da nossa nação desde o seu início. É por isso que os judeus são chamados de Am HaSefer ("A nação do livro"). A formação espiritual tem sido o meio essencial para a existência da nossa sociedade; ela a construiu e foi um elemento vital dentro dela.

De fato, desde a recepção da Torá até a ruína do Segundo templo, velhos e novos, igualmente, tinham vivido em unidade e com clara percepção da força superior. Moisés estabeleceu a educação espiritual na nação, e crianças aprenderam desde cedo a conhecer a realidade baseada nas suas raízes no mundo superior. Foi dito que desde Beer Sheba no sul até a Represa no Norte, nenhuma criança era ignorante em relação à assuntos sobre pureza e impureza.

Pureza e impureza não se referem à assuntos espirituais, mas à força egoísta impura em nós, e a pura força de doação. Em outras palavras, mesmo o mais novo entre a nação sentiu altos níveis espirituais.

Uma Crise Agravante

Ainda, após a ruína do Segundo templo, a nação perdeu a sua tangível sensação da espiritualidade, embora a importância da espiritualidade tivesse permanecido bem enraizada nos corações das pessoas.

Mesmo estando em exílio, cada criança judia sabia como ler, escrever e calcular, e foi ensinada através dos antigos escritos. A educação para unidade, estabelecida pelos cabalistas, manteve as comunidades judaicas unidas durante a diáspora.

Apesar do fato que a educação produziu grande prosperidade, hoje, a importância da educação está declinando rapidamente. Jornais estão repletos com notícias e pesquisas descrevendo a violência escolar, abuso de drogas, depressão e desorientação entre os jovens. Pessoas jovens estão indiferentes em relação a valores e parecem querer mais do que este mundo pode oferecer.

Além do mais, a crise na educação e parte de uma crise muito mais ampla – uma de proporções globais. Cabalistas explicam que esse é um processo pelo qual o ego humano está ampliado para um ponto onde a pessoa não consegue mais saciá-lo.

Outro exemplo da arrogância do ego é a "crescente diferença de geração", que começou a acelerar no século passado. O jovem atual não consegue relacionar-se com a geração dos seus pais, e vê os adultos como fora de moda, desatualizados. Então, por um lado, nós não sabemos como educar as nossas crianças e satisfazer suas necessidades que mudam e aumentam.

Por outro lado, os jovens não possuem o meio de como comunicar-se com a geração prévia. Mais do que nunca, precisamos de um método que sirva como apoio para uma sociedade uniforme e feliz, na qual todas as partes encontram seu lugar e trabalho frente a um objetivo comum.

Leis de Doação e Amor

A sabedoria da cabala lida com a educação e a construção da sociedade como meio de atingir a força superior. Nos seus escritos, cabalistas revelam a evolução pela qual cada pessoa deve passar numa sociedade fundada na espiritualidade. Assim como cada alma recebe o que precisa do seu ambiente nos mundos espirituais, uma pessoa deve receber a educação correta em cada fase da vida.

Numa sociedade fundada nos princípios da sabedoria da cabala, nós podemos aprender, desde a infância, a apreciar a vida num nível profundo. Vamos entender que este mundo é muito mais rico do que os nossos cinco sentidos conseguem perceber. Desde cedo, nós vamos aprender através de jogos e exemplos a identificar as causas e latentes forças que controlam a realidade. Então, nós vamos conhecer as leis espirituais de amor e doação, aprender a usá-las corretamente, e poder viver em harmonia e equilíbrio com a natureza.

O Melhor Futuro

As crianças só podem implementar o que elas aprenderam após observar os exemplos feitos pelos adultos. A educação correta origina-se somente do exemplo pessoal. Um dos exemplos atuais na educação mundial é que nos comportamos de forma contraria à que ensinamos. Por exemplo, enquanto ensinamos valores altruístas como doação e colaboração, agimos de forma contrária a isso.

Tais contradições evocam confusão e desrespeito das crianças em direção aos seus pais. No entanto, num sistema de educação baseado na sabedoria da Cabala, os exemplos pessoais dos pais, de valores altruístas, estarão em harmonia com o que ensinam. A educação vai resultar da responsabilidade mutua; vai unir as gerações.

Os pais entenderão que tal consistência vai criar o melhor futuro para as suas crianças, e cometerão a adequada conduta por causa do seu amor pela sua prole. Similarmente, as crianças estarão expostas aos valores e exemplos pessoais de doação dos seus pais e aspirarão a unir-se a eles como membros ativos da sociedade. Elas obterão seu lugar do lado dos adultos e trabalharão juntos por uma sociedade próspera.

No final das contas, uma educação espiritual vai promover a sociedade como um todo.

Além do mais, tal tipo de criação vai mudar a vida de forma considerável. A geração jovem vai ser ajudada pela experiência adquirida pelos adultos, e usarão seus exemplos para aprender como vencer seu próprio ego quando ele estalar. Ao fazer isso, os jovens apreciarão a geração antiga e criarão uma ligação forte de amor e respeito entre eles.

A sociedade futura que os cabalistas sempre ansiaram pode ser construída através da educação espiritual, e pode ser feita hoje. É suficiente educar uma geração para "dar um chute inicial" no processo.

Isso, por sua vez, criará uma sociedade uniforme, não contaminada pela diferença de época. Ambas as gerações passada e atual vão apoiar uma a outra para que uma seja a garantia do sucesso da outra. Os velhos servirão como exemplo, e a necessidade para educar os jovens, via valores espirituais vai compelir os antigos a demonstrarem o certo exemplo. Então, eles vão complementar um ao outro e marcharão juntos frente à completa realização da realidade superior.


Rav Dr. Michael Laitman, PhD.



Fonte: http://www.kabtoday.com/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/ler-literatura-um-livro-%c3%b3culos-9370928/

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CONSCIÊNCIA SUPERIOR



“Moshé diz a Yihavehah: O povo não poderá subir ao Monte Sinai. Sim, Tu o certificas junto a nós dizendo: limita a montanha, consagra-a.” (Yitró 19: 23)

A Cabalá nos ensina que as dimensões física e espiritual estão intimamente entrelaçadas. Da mesma forma como somos influenciados pelo plano espiritual, nossas ações na vida diária afetam diretamente aquilo que os cabalistas chamam de Mundos Superiores. E o que entendemos como Mundos Superiores? Isso nada mais representa do que uma consciência superior. Os Mundos Superiores são conhecidos pelo nome código de “Monte Sinai”. O Monte Sinai (Mundos Superiores) existe dentro de nós. Mas, por que o Criador “limita a montanha”? Por que a transformação espiritual precisa ser tão difícil? Se não existe limite para o poder da Luz Infinita, por que a Luz não nos reinventa imediatamente como bilhões de "tzadiyquiym" (justos), cada um de nós uma alma humana completamente iluminada? A resposta para isso está no fato de que não podemos alcançar a plenitude sem realizar o trabalho espiritual que nos leva a merecer a plenitude. Nossa essência é a essência da Luz Infinita, cuja natureza é dar e compartilhar, e para quem o conceito de “presentes gratuitos” é inadmissível. Há na Cabalá uma expressão que é pertinente a essa idéia – "nachamá dichisufa", que pode ser traduzido como “pão da vergonha”. Isto se refere a qualquer tipo de sustento que, por não ser merecido, nos traz dor e desgosto em vez de alegria e inteireza. Por isso temos que lapidar nossa alma para nos aproximarmos dos domínios da Santidade. Essa questão é de tão fundamental importância, que foi amplamente abordada por nosso mestre, o Rav Avraham Abuláfia em sua obra – "Chaiê Olam HaBá".

“Todos que vêm para estes portais para buscar a Hashem não devem correr e se adiantar ao seu espírito, assim, vindo como que em qualquer momento para entrar nos domínios da Santidade!” (Rav Avraham Abuláfia)

De igual forma, a Torah nos alerta: “limita a montanha, consagra-a”. Nos círculos abulafianos, nenhum discípulo era admitido antes de passar por certas “provas” espirituais. Cada um tinha de possuir "midot" (qualidades) cabalísticas específicas, tais como devoção sem ambição, paciência, generosidade, humildade, autocontrole, amor ao aprendizado, capacidade mental para absorver os conhecimentos e capacidade de auto-avaliação imparcial. Além disso, Rav Abuláfia informava a seus discípulos que todos os graus de espiritualidade estavam sujeitos a obstáculos, os quais ele denominava "mastin" (impedimentos). Com isso o mestre procurava trabalhar cada discípulo de modo a evitar que seu "mastin" particular dominasse-lhe a mente. O refinamento do caráter, por assim dizer, o aprimoramento das "midot" (atributos) de cada indivíduo que almeja penetrar o caminho espiritual é o que permite ao mesmo sair do estado de escravidão ("goi") para ingressar no estado de “reconhecimento” – "yehudi" – espiritual.

Para os cabalistas da tradição contemplativa, todos nós possuímos três estágios da consciência espiritual, são eles – "goi" (escravo); "guer" (estrangeiro ou convertido) e "yehudí" (reconhecedor). Estes três estágios representam latências que derivam dos mais diversos níveis de nossa alma – "néfesh" ("goi"), "ruach" ("guer") e "neshamá" ("yehudi"). A "néfesh" é essencialmente escrava dos desejos mais elementares e está limitada pelos sentidos comuns, por isso é de natureza essencialmente “escrava”. O início do processo de purificação passa essencialmente pela iniciativa de purificar o corpo e os desejos mais densos da alma, tal como o “poder” e o “orgulho”.

“Ele deve abominar o gosto pelo poder e orgulho, assim como o desejo e gosto de comer o que é impuro, e o desejo e gosto para com a luxúria.” ("Chaiê Olam HaBá" – Rav Abuláfia)

O "ruach" simboliza o desejo pelo crescimento espiritual, que nos impulsiona a perceber uma versão ampliada da realidade. Aqui reside a natureza da conversão espiritual, não a conversão a uma outra religião e sim a conversão de um estado de consciência para outro. Isso equivale a perceber uma nova versão dos fatos – por isso é um estado de com-versão. Já a "neshamá" representa o caminho do cabalista, o caminho dos que reconhece a natureza da Consciência Infinita em todas as coisas. Este “lugar” que vem a ser a habitação de nossa "neshamá" é conhecido pelo nome código de Monte Sinai. O caminho de acesso a esse “monte” é um caminho de retificação. A pessoa precisa retificar a sua "néfesh" – purificando os desejos mais elementares – para somente então merecer um "ruach" muito mais elevado. E da mesma forma, para que a pessoa alcance a "neshamá", ela precisa retificar cada parte de seu "ruach" – e por assim dizer, as suas “versões” devem se iluminar e se aproximar do desejo pelo refinamento espiritual constante. Esse que anseia por penetrar nos domínios da Santidade é o “guer”. Ele precisa iniciar seu percurso dentro do “terreno” santificado purificando seus pensamentos das coisas tolas e passageiras, limpando-se da arrogância e da reatividade. Ele precisa retirar o foco sobre os títulos e funções espirituais para concentrar sua energia no seu papel – aquilo que ela veio realmente fazer nesta vida, como nos ensinam os sábios: “...e quem se aproveita da coroa da Torah, perecerá.” (Pirkei Avot 1: 13)

Mas como limpar-se das impurezas inerentes ao ser humano? Quando nos aproximamos das coisas sagradas, recebemos um "ruach" elevado através de um processo de impregnação espiritual chamado “ibur”. Assim a pessoa recebe literalmente um “espírito vivo” que é acrescentado a ele, e representa um grau de iluminação maior e na expansão de sua consciência. E isso é conhecido pelos cabalistas, pois as letras da palavra “guer” (convertido) são as iniciais de “guilgul ruach” – a reencarnação do espírito. Aqui residem os mistérios da “reencarnação em vida”, quando uma pessoa – ainda em vida – recebe uma centelha superior de alma e se acopla a uma consciência mais elevada. Mas como podemos nos purificar ao ponto de nos tornarmos um “yehudi”? O patriarca Avraham foi o primeiro "yehudi". E como ele conseguiu isso? Através de uma conversão “oficial”? Através de uma hereditariedade? Definitivamente não! A formula encontrada da Torah é bem clara: “vai para dentro de ti... rumo à terra que te farei ver”. Foi assim que o primeiro “guer” se tornou “yehudi”. O processo inicia-se por um mergulho interno “para dentro de ti” mesmo e descobrindo uma outra versão para a “terra que te farei ver”, ou seja para o mundo físico. Não é um chamado para uma nova religião, nem mesmo para uma nova cultura e sim, um auto-conhecimento. É importante notar que o agente que permite “ver” é a Luz e nada mais. Desta forma, tornar-se “yehudi” é então um ato de “ver”, de reconhecer. Quando não reconhecemos (a Presença Divina), quando não reconhecemos os nossos graus de santidade e retificação de caráter, estamos fortalecendo o nosso aspecto “goi” e enfraquecendo o nosso aspecto “yehudí”. O termo “yehudi” deriva de “YEHUDAH” e possui a raiz etimológica na palavra “hoda’a” que significa “reconhecimento”. No sentido de ser capaz de “identificar” algo. Aquele que “reconhece” está pronto para receber a Torah e elevar-se ao Monte Sinai (Mundo Espiritual).

“Eu mesmo, Yihavehah, teu Elohym que te fiz sair da terra de Mitz’raym, da casa dos servos.” (Yitró 20: 2)

E desta forma o cabalista deve sentir que Ele mesmo (a Luz Infinita) o faz sair da condição de “escravo” ("goi") e o conduz em direção a Torah (Sabedoria Espiritual). O reconhecimento de que é a própria Luz Infinita quem lhe conduz deve produzir aquilo que Rav Avraham Abuláfia classificou como ENTUSIASMO ("cheshek"). Os discípulos de Rav Abuláfia eram instruídos a reconhecer esse “sinal” (ou a falta dele) quando se dedicavam aos assuntos sagrados. Para Rav Abuláfia, o entusiasmo era a via de acesso ao "DEVEKUT" (Subordinação). A busca da concentração no "cheshek" (entusiasmo) transformava o pensamento do cabalista de forma que o mesmo eliminava totalmente seu "mastin" (obstáculos) e todo e qualquer pensamento voltava-se exclusivamente ao Eterno.

“Tudo o que a pessoa deve fazer deve ser pela Causa dos Céus...” ("Chaiê Olam HaBah")

Para Rav Abuláfia, se um "cheshek" (entusiasmo) fosse fraco demais, ele não poderia projetar seu "ruach" suficientemente longe. Quando reconhecemos com entusiasmo que a própria Luz Infinita nos guia dentro do caminho, estamos condensando todos os outros desejos no desejo único pelo "DEVEKUT", e ele estará pronto para receber a Torah (Sabedoria Espiritual).


Rav Mario Meir



Fonte: Academia de Cabala
www.academiadecabala.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal