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domingo, 29 de março de 2026

O PAPEL DA ATENÇÃO


“Para entrar na comunhão misteriosa e sagrada com a Palavra de Deus que habita em nós, devemos primeiro ter a coragem de permanecer, cada vez mais, em silêncio. Um silêncio onde devemos escutar, concentrar-nos e prestar atenção” (John Main, 'Uma Palavra Feita Silêncio').

Nesta citação, John Main destaca o papel fundamental da escuta profunda, da atenção prolongada. Concentrar nossa atenção em um único ponto tem um efeito poderoso sobre o funcionamento do nosso cérebro, permitindo-nos receber e processar informações e sintonizar diferentes níveis de realidade.

A Dra. Shanida Nataraja explica em seu livro “O Cérebro Feliz: Evidências Neurocientíficas do Poder da Meditação” que nosso cérebro consiste em dois hemisférios e como o poder da atenção facilita a interconexão entre eles.

O circuito neural da linguagem, o mecanismo intelectual da mente humana (isto é, nosso ego), está localizado no hemisfério esquerdo. Durante a meditação, ao concentrarmos nossa atenção, acessamos o funcionamento do hemisfério direito. Estudos sugerem que o hemisfério direito capta uma representação muito mais precisa da experiência. Nosso hemisfério esquerdo tende a filtrar nossas experiências para que se encaixem em nossa percepção pré-estabelecida de nós mesmos e do mundo. Aquelas experiências que se conformam a esse padrão de nossa visão de mundo, e que, portanto, inflacionam nosso ego, são capturadas. Por outro lado, aquelas experiências que conflitam com nosso paradigma, e que, portanto, desafiam nossa visão de mundo e minam nosso ego, são ignoradas.

O hemisfério direito captura todas as informações da experiência. É por isso que, durante a meditação, memórias há muito esquecidas são frequentemente recuperadas com clareza, ou soluções para problemas não resolvidos emergem à consciência. Assim, vemos como a meditação proporciona ao praticante um método para conectar os mecanismos de pensamento e percepção de ambos os hemisférios.

Essa mudança na forma como percebemos a realidade também nos permite ter uma visão mais completa de quem somos e leva a uma compreensão mais profunda de nós mesmos. Somente nos conhecendo como realmente somos, abandonando os filtros que limitam esse conhecimento, podemos vislumbrar a Verdadeira Realidade.

John Main enfatiza a importância disso, dizendo: “A maioria de nós precisa primeiro se conectar consigo mesma para estabelecer um relacionamento pleno antes de podermos nos abrir completamente para o nosso relacionamento com Deus. Em outras palavras, precisamos primeiro encontrar, experimentar e desenvolver nossa própria capacidade de paz, serenidade e harmonia antes de podermos começar a perceber Deus, o Pai, Criador de toda harmonia e serenidade” ('Uma Palavra Feita Silêncio').


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/medita%c3%a7%c3%a3o-zen-natureza-l%c3%b3tus-lago-8314420/


Para mais detalhes ver:
* JOHN MAIN E A MEDITAÇÃO CRISTÃ: https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2020/05/john-main-e-meditacao-crista.html

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

INSTRUMENTOS DE COMUNHÃO


É muito comum nos encontrarmos subitamente fora de nós mesmos, um tanto exteriorizados, longe da percepção da presença divina ou com sentimento de solidão, como se Deus fosse um estranho inacessível, alguém distante do nosso cotidiano.

Nesses momentos tendemos a esquecer o que é importante, ficamos preocupados com isso ou aquilo e a preocupação é o saldo resultante. A confiança parece ausente e uma perda imediata de força nos rouba a vitalidade, enquanto a mente escurece ao ritmo de pensamentos tempestuosos.

... Examinamos diferentes ferramentas ou recursos que podemos usar para voltar para casa, refazer nossos passos e nos recolher novamente no eremitério interior. Esse recolhimento em princípio nada mais é do que uma mudança de atitude, uma posição que adotamos de espírito diante do que acontece.

Este retorno ao “modo orante” de viver, carregado de sentido e pleno de um sentido íntimo do sagrado, requer, em primeiro lugar, uma firme determinação. É preciso decidir em profundidade o rumo da vida, do próprio comportamento. Tomarei a inquietação como um chamado do espírito, como um aviso para parar e mudar a maneira como estou vivendo o momento? Ou assim que eu sentir desconforto, vou rapidamente "para fora" de mim procurando uma mudança nesta ou naquela situação?

Quando vivemos em paz de coração, muitas vezes descobrimos que não há nada a mudar nas situações ou que essas mudanças são muito mais fáceis de fazer do que imaginávamos. Existem diferentes métodos que podemos usar para retornar ao ser essencial que somos, mas essa decisão prévia que mencionamos é importante, pois nos poupa o exaustivo diálogo interno sobre o que fazer.

O que fazer? Nós já sabemos! Somente retorne ao sagrado que se encontra nas profundezas da alma. Então, se isso não é mais discutido em nossa mente, resta apenas trabalhar quando nos distanciamos de nós mesmos e da presença sagrada. Viver do espírito não implica negar o corpo ou negar a mente, mas integrar as diferentes funções de acordo com o desígnio original.

O corpo e a mente como instrumentos de comunhão e criação a serviço do espírito são maravilhosos. Mas se eles estão no comando, eles se tornam a mais cruel das ditaduras. Peçamos a graça da atenção vigilante, esse dom inestimável que nos mantém ligados ao Espírito Santo.



El Santo Nombre




Fonte: Blog El Santo Nome
https://elsantonombre.org
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sábado, 13 de junho de 2020

MEDITAÇÃO: ALÉM DO CONHECIMENTO HABITUAL


A meditação é para os que não se satisfazem com um conhecimento meramente objetivo e conceitual em relação à vida, em relação a Deus, em relação a realidades de primeira importância.

Querem entrar em contato íntimo com a própria verdade, com Deus.

Querem experimentar as mais profundas realidades da vida, vivendo-a. (…)

Não nos esqueçamos jamais de que o fecundo silêncio em que as palavras perdem seu poder de expansão, e os conceitos nos escapam, é, talvez, a mais perfeita meditação. (…)

Devemos regozijar-nos e repousar na noite luminosa da fé.

Esse é um degrau mais alto de oração. A finalidade última da meditação deve ser uma comunhão mais íntima com Deus, não só no futuro, mas também aqui e agora.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Direções Espirituais e Meditação"
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Tumblr.com