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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A DIALÉTICA DO ESPIRITISMO


Por singular coincidência, enquanto Karl Marx apresentava em Londres o seu Manifesto comunista, no dia 31 de março de 1848, naquela mesma noite, em Hydesville, no Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, os Espíritos conseguiram comunicar-se com a família Fox através de ruídos, realizando uma façanha dantes ainda não conseguida com o mesmo êxito, que foi o intercâmbio mediante perguntas e respostas lúcidas.

É verdade que em diferentes épocas da Humanidade as comunicações espirituais se fizeram exuberantes, mediante ruídos, aparições, materializações e transportes de objetos sem contato físico, mas a partir dessa data foi possível estabelecer contato direto e programado, de que resultaram incontáveis benefícios para as criaturas terrestres.

Graças à irrupção da mediunidade ostensiva responsável pela ocorrência dos fenômenos exuberantes, na mesma ocasião em que surgiu a dialética marxista, igualmente trabalhada por Engels, os pródromos (1) de uma outra de natureza espiritual se desenharam nos painéis da cultura, a fim de que o ser humano que se encontrava submergindo no materialismo cruel tivesse possibilidade de encontrar um roteiro de segurança para a própria iluminação e felicidade.

Ocorreu esse evento quando Allan Kardec, o magnífico Codificador do Espiritismo, observando aqueles fenômenos perturbadores para a cultura da época, encontrou a sua lógica, resistindo às mais variadas hipóteses que se levantaram para negá-lo ou diminuir-lhe a vitalidade, apresentando o resultado das suas cuidadosas observações e reflexões através de O Livro dos Espíritos. Com essa obra granítica (2) nasceu a dialética espírita, portadora de conteúdos para resistir aos camartelos do marxismo e de outras expressões do materialismo.

Filosoficamente a dialética, segundo Hegel, é a natureza verdadeira e única da razão e do ser que são identificados um ao outro e se defendem segundo o processo racional que procede pela união incessante dos contrários — tese e antítese — numa categoria superior, a síntese.

Por sua vez, Marx definiu a dialética como o processo de descrição exata do real, fundamentando a sua proposta nas lutas de classe, nos relacionamentos entre o trabalho e o capital, que desbordaram na revolução proletária.

Allan Kardec, por sua vez, descrevendo o mundo real e causai (3), constatou que as condições de felicidade e de desdita da criatura humana, embora se apresentem nas relações que existem entre o trabalho e o capital, especialmente nas sociedades injustas, no desenfreado apego das criaturas pelo poder através do capitalismo e da política, as suas causas legítimas se encontram no próprio indivíduo, ainda egoísta e vão, que acredita ser a vida física a única existente, portanto, deixando-se levar pela paixão da dominação do seu próximo, asfixiando-o na miséria social e econômica que, infelizmente, conduz à luta de classes, à revolta do proletariado que tem vivido esmagado.

Ocorreu, no entanto, que em razão do mesmo engodo, a vitória do proletariado não equacionou o problema da miséria econômica, porque com a queda do capitalismo e das elites dominantes onde proliferou a revolução marxista outro poder se fixou, mantendo os excluídos, porque não filiados ao partido dominante, e o povo, sempre a grande massa, sucumbindo nos estertores das necessidades de toda ordem.

A revolução que se deve operar no mundo não pode centrar-se na destruição e na morte, cujos efeitos são sempre perversos e vingativos.

As vítimas de hoje falam no silêncio do túmulo sobre as injustiças que sofreram e se tornarão mártires mais tarde, quando outras revoluções vierem suceder as que triunfam por um dia.

Desse modo, o materialismo dialético mantido nos fundamentos das lutas entre o trabalho e o capital não pode resistir ao processo de evolução da cultura que avança no rumo de Deus e da alma imortal, escrevendo nova página na história da Humanidade.

Uma religião científica sempre foi anelada pelos pensadores e investigadores que se rebelavam contra os dogmas ultramontanos. Com o Espiritismo surgiu essa nova doutrina que se fundamenta na realidade dos fatos experimentados em laboratórios, nos quais a mediunidade é convidada a comprovar a imortalidade do Espírito e a sua destinação evolutiva, a reencarnação e a justiça de Deus, as psicoterapias da desobsessão e mediante o otimismo que deflui das suas incomparáveis lições de edificação moral.

E esse contingente de propostas libertadoras está exarado na dialética espírita, graças a Allan Kardec, que postula uma visão nova da realidade, utilizando-se dos métodos avançados do diálogo, da dúvida, da afirmação, da síntese, elaborando direcionamentos que libertam os seres humanos em geral da ditadura do trabalho e do capital, ensejando a conquista de novos valores que a morte não consome, ninguém rouba, nem desaparecem...

A dialética em torno de um ser integral - Espírito, perispírito e matéria - atende a todas as necessidades filosóficas e de comportamento, por explicar as injustiças sociais e como solucioná-las, trabalhando o caráter de cada qual, de modo que, ao assumir a governança do lar, da oficina de trabalho, de uma cidade, estado ou nação, não haja diferença de conduta entre o ser que pensa e aquele que age a serviço e para o bem de todos.

Destrinçando os enigmas do pensamento e esclarecendo que o egoísmo é o gerador da miséria social, e que a pequenez moral e a poluição da mente são os responsáveis pelos males que assolam o planeta e a sociedade, a dialética espírita favorece a lógica existencial e a destinação futura que está reservada à criatura humana.

Não será, portanto, através das lutas de classes, as encarniçadas batalhas que matam uns ditadores e condutores cruéis dos povos, erguendo outros vândalos e perversos, que se solucionará o problema das diferenças sociais e econômicas que vigem entre os seres, porque o ódio sempre desenvolve mais ressentimento e sede de vingança. Mas, sim, por intermédio da revolução, na qual o egoísmo, a crueldade, o orgulho, a presunção, a indiferença moral dos indivíduos cederão lugar ao altruísmo, à bondade, à humildade, à dedicação ao próximo, à participação nos labores da solidariedade, dignificando o cidadão e elevando o mundo.

Têm sido tentados os métodos da agressão e da barbárie, da traição e da guerra, do ódio e da submissão de indivíduos, raças, povos, que logo se levantam e esmagam aqueles que os infelicitavam...

Chega, inevitavelmente, o momento no qual, estimulados por uma nova filosofia de vida, os homens se erguerão para a construção da felicidade real, vivendo a promessa de Jesus centrada no amor e atualizada pela dialética espírita, na razão direta em que, morrendo o materialismo em todas as suas expressões, por falta da matéria e dos alicerces filosóficos, mecanicistas e históricos em que se sustentava, as mentes e os sentimentos estarão livres de algemas e de alucinações destrutivas.


Divaldo Pereira Franco / Vianna de Carvalho



Fonte: do livro "Espiritismo e Vida"
LEAL - Livraria e Editora Espírita
www.livrarialeal.com.br
Catanduva/SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/allan-kardec-kardec-9970433/


Notas:
(1) Pródromo: preâmbulo, prefácio, prelúdio, proêmio, prólogo.
(2) Granítica: duro, consistente.
(3) Causai: razão, motivo, causa, origem.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

DESAFIOS À FÉ


A sociedade hedonista atual, vinculada ao consumismo exorbitante, no qual parece encontrar segurança em relação aos conflitos existenciais, mantém atávica resistência a todas e quaisquer expressões de fé religiosa, buscando mecanismos de fuga da realidade, como afirmação de liberdade de expressão e de autorrealização.

Nada obstante, avança em desabalada correria para as fugas psicológicas, tombando, não poucas vezes, no vazio existencial, na depressão ou no consumo do álcool, do tabaco, das drogas ilícitas, dos alucinógenos e dos desvios de comportamento sexual.

As castrações decorrentes das religiões ortodoxas do passado prosseguem afligindo-a de tal forma, que a simples lembrança de qualquer expressão doutrinária indu-la ao pensamento das imposições asselvajadas dos regimes políticos ditatoriais, ou quando se referem ao Espírito, ressuma inconsciente aversão, decorrente dos abusos da fé arbitrária dos tempos recuados.

Pensa-se unicamente em viver-se as comodidades defluentes da tecnologia e das ciências, sem dúvida, portadoras de valores inestimáveis, mas nem por isso, únicas proporcionadoras de harmonia e de completude.

O ser humano renasce para a conquista da autoconsciência, para a superação dos arquétipos perturbadores que lhe permanecem no inconsciente impondo diretrizes de libertação que mais o afligem.

O prazer tornou-se o novo deus, substituindo os deuses de outrora, e os ases dos esportes, do cinema, da televisão, do poder, dos divertimentos, das fantasias, tornam-se inspiração para as buscas atormentadoras, gerando mais conflitos que se tornam epidêmicos.

Eles próprios, os novos centuriões e gladiadores do Panis et circenses da velha Roma, desfilam nos carros da alucinação e da glória de um dia, logo substituídos por outros mais audaciosos, inumeráveis deles, porém, portadores de graves transtornos psicológicos e psiquiátricos, que se opõem à ordem, à beleza, à estesia, celebrizando-se pelas alucinações e agressões que lhes retratam a violência e o desconforto interno.

Pergunta-se: - Para onde segue a sociedade?

Os padrões éticos destroçam-se nas aventuras chocantes e desastrosas em que malogram os novos programadores dos destinos, dando lugar a tragédias contínuas, à violência e à degradação dos costumes.

A juventude, sem a assistência da família, opta pelo aproveitamento do tempo para o desordenado jogo do prazer, especialmente quando os pais imaturos competem com os filhos nos seus campeonatos de insensatez, entregando-se à exaustão dos vícios, perdendo a infância que cede lugar ao amadurecimento precoce, invariavelmente resultado da necessidade de competir desde muito cedo com os mais velhos, aproveitando-se das oportunidades que lhes chegam... 

Os tormentos sexuais instalam-se-lhes prematuramente e as experiências dessa natureza sucedem-se, sem qualquer controle, atingindo níveis de elevada frustração e de desencanto.

Sem o amparo do lar, os jovens formam clãs primitivos, fogem para as ruas do desgoverno social, entregando-se, na sua ignorância, curiosidade e inexperiência a toda sorte de sensações apressadas.

Certamente, existem exceções enobrecedoras, que mantêm o equilíbrio social e trabalham pelo progresso com elevados sentimentos morais.

Referimo-nos, porém, à devastadora cultura newtoniana e cartesiana estruturada no conceito da matéria, cuja máquina expressa na organização física dos seres de todas as espécies, demanda ao aniquilamento, em razão do desconserto de suas peças.

Como efeito, somente apresenta validade o que pode ser apalpado, medido, programado, exatamente no momento quando as conquistas da tecnologia avançada oferecem à reflexão o bóson de Higgs, o mapeamento do DNA ou código da vida, a visão do universo com os seus bilhões de galáxias, induzindo o pensamento a uma Causalidade não física ou a uma assinatura de Deus nas expressões mais extraordinárias da energia.

A alucinação pelo conforto, no entanto, sempre transitório e frustrante, em razão da sua fugacidade, que logo exige novas expressões mais fortes, deixa o indivíduo distante dessas referências que induzem ao aprofundamento da mente nas causas da vida e no seu significado, mantendo-o iludido quanto ao sentido da sua existência planetária que, não sendo interrompida pela morte, para ela ruma...

Desse modo, quando as forças físicas e mentais, emocionais e estruturais do corpo diminuem com o advento das enfermidades inevitáveis e da velhice, a amargura, a revolta ou o desespero mais se insculpem no âmago do indivíduo, que não se conforma com o aniquilamento, nem a perda dos recursos propiciatórios dos gozos, agora, mais difíceis...

Para todos os seres humanos, entretanto, existe o Espiritismo com as suas portentosas demonstrações positivistas em torno da sobrevivência do ser real, em torno do mundo legítimo e causal, da programática existencial no cômputo das leis universais perfeitas, elaboradas pela inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, que é Deus. 

Aos espíritas cabe a desafiadora tarefa de apresentar a fé raciocinada e lógica legada pela codificação do Espiritismo, de maneira a enfrentar o materialismo nos seus significativos estertores, de maneira a atender a grande massa humana aturdida por haver perdido o rumo religioso na neblina da ignorância e do dogmatismo. 

Observando-se o interesse dos astrofísicos em constatar a probabilidade de vida em outros planetas ou quaisquer outros astros do Universo, qual ocorre com as extraordinárias análises do solo de Marte, ora estudado pelo jipe robô Curiosity, deve o ser humano reflexionar em torno da vida de maneira mais grave e não superficialmente com indiferença qual vem ocorrendo com a quase generalidade.

Breve meditação em torno do ser existencial e logo chega-se à conclusão do sentido da vida na Terra, do seu magnífico programa educacional e de desenvolvimento da divina fagulha de que se constitui, despertando-se para os valores éticos e os objetivos reais, proporcionadores da harmonia interior e do equilíbrio dos sentimentos com a razão.

A existência terrena é mais do que um licor ou fel para serem tragados pela imposição nefasta do acaso ou do destino injustificável.

Pode, sim, tornar-se uma e outra coisa dependendo de como se considera a experiência fantástica do viver, dela fazendo um vale de lágrimas das ultrapassadas alegorias religiosas ou um paraíso de benesses das utopias passadistas...

Desse modo, esta filosofia científica, em razão dos seus fundamentos poderem ser demonstrados nos laboratórios das experiências mediúnicas, que é uma ciência filosófica, face aos seus paradigmas elucidativos em torno do ser, do destino e do sofrimento, é, também, uma religião de profundos conteúdos psicológicos e éticos centrados no amor, na autoconquista, na iluminação interior.

Investigá-la com seriedade sem parcialismo é dever de todo ser inteligente que anela pela autoconsciência, a fim de viver com discernimento e harmonia.



Divaldo Pereira Franco / Vianna de Carvalho



Fonte: http://www.divaldofranco.com/mensagens.php?not=309
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/pintura-criatividade-imagina%c3%a7%c3%a3o-4916338/