quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ALÉM DO PENSAMENTO


A experiência de São Paulo com o Cristo ressuscitado reflete a experiência que temos Dele no profundo silêncio da meditação. “Ele é uma presença real, uma presença ressuscitada que se encontra profundamente na experiência pessoal do discípulo, do novo discípulo” (Laurence Freeman).

Porém, muitas vezes, quando começamos a vivenciar essa presença silenciosa, ficamos com medo e voltamos atrás. Ao abandonar os nossos pensamentos estamos “deixando o ego para trás”, como Jesus nos pede para fazer. Mas abandonar a identidade do nosso ego nos deixa muito incomodados: o ego, prestes a ser abandonado, sente-se ameaçado e nos invade com um forte sentimento de solidão e isolamento. Faz-nos sentir como se estivéssemos entrando em um abismo ameaçador, num vazio. Nós, nossos egos, nos sentimos totalmente fora de controle. E, no entanto, é precisamente isso que deve acontecer. Precisamos entrar na “Nuvem do Não Saber”, como a chamou um místico inglês do século XIV.

Somente quando abandonamos o ego – a superfície pensante do nosso ser – poderemos experimentar quem realmente somos e quem Deus realmente é. E assim, quando conseguirmos nos lançar, ao invés do sentimento de solidão e isolamento com que nosso ego nos encheu, nos sentiremos abraçados amorosamente por tudo e por todos. O vazio ameaçador torna-se uma plenitude amorosa interligada.

Essa sensação de se sentir amado e protegido, numa rede formada por todos os seres, é algo que só pode ser vivenciado.

Pesquisas com crianças mostraram que esta forma de conhecimento está presente no cérebro humano desde o nascimento: “Estudos de EEG de crianças menores de 2 anos mostram que seus cérebros funcionam permanentemente no modo “alfa” – o estado de consciência alterada em um adulto – em vez do modo “beta” da consciência madura comum” (Lynne Taggart, “The Field”). Portanto, ao meditar podemos retornar conscientemente a uma forma de percepção que em nossa infância era instintiva e inconsciente.

Este abandono do ego cheio de pensamentos não é, portanto, uma entrada no esquecimento, nem na inexistência. Não perdemos a nossa individualidade: “Não há dúvida de que o indivíduo perde todo o sentido de separação do Um e experimenta a unidade total, mas isso não significa que o indivíduo deixa de existir na realidade Única. Portanto cada ser humano é um centro único de consciência na consciência universal" (Bede Griffiths). É importante lembrar que a palavra “indivíduo” significa etimologicamente “indivisível”. Ou seja, considerava-se indivíduo uma pessoa ou coisa passível de ser objetivada em relação ao todo ao qual pertencia. O todo definia o indivíduo porque o indivíduo era indivisível dele (Laurence Freeman, "Jesus, the Master Within").


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/ai-gerado-ganesha-ganpati-deus-8725261/


Para mais detalhes ver:
* JOHN MAIN E A MEDITAÇÃO CRISTÃ: https://coletaneas-espirituais.blogspot.com/2020/05/john-main-e-meditacao-crista.html

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