sexta-feira, 24 de abril de 2026

QUIETUDE - A MENTE ZEN


Há um poema Zen que diz: “Depois que o vento cessa, eu vejo a flor que cai. Por causa do pássaro cantando, descubro a quietude da montanha”. Antes que algo aconteça no reino da quietude, nós não sentimos a quietude; só a percebemos quando algo a perturba. Há um ditado japonês que diz: “Para a lua, há nuvem; para a flor, vento”. Quando vemos parte da lua encoberta por uma nuvem, uma árvore ou uma planta, percebemos melhor o quão redonda ela é. Quando vemos a lua clara sem nada que a encubra, não percebemos sua redondez do mesmo modo que a percebemos ao vê-la através de alguma outra coisa.

Quando em zazen (1), você está dentro da completa quietude de sua mente: você nada sente. Você está apenas sentado lá. Mas a quietude que vem desse sentar irá encorajá-lo na vida cotidiana. Assim, você achará de fato o valor do Zen no dia-a-dia, mais do que quando se senta. Porém, isto não significa que você deva negligenciar o zazen. Muito embora nada sinta quando sentado, se não tiver essa experiência do zazen, você nada encontrará em sua vida diária exceto plantas, árvores ou nuvens: você não verá a lua.

Eis por que está sempre reclamando de algo. Mas, para o estudante Zen, uma erva daninha que para a maioria das pessoas nada vale - é um tesouro. Com tal atitude, o que quer que você faça, sua vida se torna uma arte.

Quando você pratica zazen não deve procurar atingir nada. Sente-se na completa quietude da sua mente e não busque apoio em coisa alguma. Mantenha o corpo reto sem inclinar-se ou apoiar-se em nada. Manter o corpo reto significa não contar com nada. Dessa maneira, você obterá completa quietude, física e mental. Contar com alguma coisa ou tentar fazer algo no zazen é dualismo; não é quietude total.

Na vida diária, geralmente estamos tentando fazer algo, tentando transformar uma coisa em outra ou atingir algo. Essa tentativa é, em si mesma, expressão da nossa verdadeira natureza. O sentido reside no próprio esforço. Temos de descobrir o sentido do nosso esforço antes mesmo de atingir algo. Por esta razão, Dogen (2) disse: “Devemos alcançar a iluminação antes de alcançá-la”. Não é depois de atingir a iluminação que descobriremos seu verdadeiro significado. A própria tentativa de fazer alguma coisa já é iluminação.

Quando estamos em dificuldades ou em desgraça, aí temos iluminação. Quando afundamos na lama, aí devemos conservar a serenidade. Achamos muito difícil viver na fugacidade da vida, mas é justamente na fugacidade da vida que podemos encontrar a alegria da vida eterna.

Prosseguindo na prática com tal compreensão, você poderá aperfeiçoar-se. Mas, se tentar atingir algo sem essa compreensão, não conseguirá trabalhar sobre isso de forma adequada. Você perderá a si próprio na luta pelo seu objetivo; nada alcançará e continuará a sofrer em meio a suas dificuldades. Com a correta compreensão, poderá fazer algum progresso. Então, faça o que fizer, ainda que não seja perfeito, isso estará baseado na sua natureza mais íntima e, pouco a pouco, alguma coisa será alcançada.

O que é mais importante: atingir a iluminação ou atingir a iluminação antes de atingi-la? Ganhar um milhão de dólares ou desfrutar a vida aos poucos com seu próprio esforço, ainda que seja impossível ganhar aquele milhão? Ter sucesso ou encontrar algum sentido em seu esforço para ser bem sucedido?

Se você não sabe a resposta, não será capaz de praticar zazen; se a sabe, terá encontrado o verdadeiro tesouro da vida.


Shuniyu Suzuki



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante"
Editora Palas Athena
Via Boletim "Flor de Lótus", nº 22, 1999
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/medita%c3%a7%c3%a3o-zazen-meditar-budismo-3998095/


Notas:
(1) Zazen - meditação no Zen-budismo.
(2) Dogen (1200-1253) - Primeiro Mestre da Escola Zen-budista Soto.