O lento e seguro processo de desenvolvimento do Self, adquirindo as inestimáveis conquistas do pensamento e ampliando-lhe o campo das emoções, faculta-lhe a aquisição do nível cósmico, diluindo as exigências do ego, de forma que se lhe integra nos objetivos essenciais e inevitáveis para a autorrealização em plenitude como ser humano.
Desde o homem de Cro-Magnon ao biótipo sapiens sapiens todo o crescimento de valores psicológicos vem-lhe ocorrendo mediante experiências repetitivas, nas quais o erro e o acerto têm definido o caminho a ser trilhado com sabedoria, sem o impositivo do sofrimento.
Essa grandiosa marcha de sublimação opera-se no Espírito, que desabrocha todo o divino potencial de que se encontra possuidor, avançando no rumo da cosmovisão, numinoso e feliz.
Os conflitos naturais que foram herdados em decorrência de anteriores comportamentos, nessa fase, encontram-se solucionados no seu próprio campo, mediante os impulsos do arquétipo primordial que os propeliram à visão global da Humanidade como um todo, no qual a célula individual executa um papel fundamental, harmonizando-se com todas as outras que constituem o conjunto.
Não obstante, até ser alcançado o estágio transpessoal, muitos resíduos desses experimentos evolutivos permanecem nos períodos diversos do pensamento, assinalando a criatura com as marcas aflitivas, que se apresentam como transtornos de conduta emocional, perturbações psíquicas sutis ou profundas, complexos e repressões de vária ordem...
O fato de atingir-se o pensamento superior não implica, de início, a ausência de dificuldades existenciais que são detectadas, especialmente em razão do entendimento dos significados da vida apresentarem-se mais amplos e expressivos, sem os limites estabelecidos pelo ego antes dominador.
Uma análise cuidadosa, porém, da individualidade, auxilia a reestruturação da psique, facultando o esforço para a libertação das dificuldades, das fugas psicológicas, da culpa, do medo, da ansiedade, da solidão, identificando o profundo bem-estar que se deriva da alegria de viver de maneira saudável e jovial, sem tormento nem aflição.
O pensamento harmônico propicia, então, o equilíbrio psicofísico, em face das infinitas possibilidades de que dispõe a mente, especialmente no que se refere ao dualismo saúde/doença, trabalhando pela conquista possível da plenitude, mesmo durante a jornada carnal. Certamente que essa conquista não se trata de uma autorrealização que conduz ao egoísmo, a uma indiferença pelo que se passa em volta. Antes, significa uma conscientização das próprias responsabilidades diante da vida em favor do Si e da sociedade, sem o que, a cosmovisão ainda se apresenta limitada, necessitando de amplitude e de realização.
Sem qualquer dúvida, o ser psicológico é também biossocial, devendo promover o grupo no qual se encontra, e vivenciando os efeitos desse meio, num saudável intercâmbio de vivências emocionais, culturais, profissionais, tecnológicas, religiosas...
Transforma-se, então, num dinâmico agente da evolução geral, tornando-se em exemplo de vitória sobre as vicissitudes durante o curso de suas grandiosas realizações, sem amarras com o passado de onde procede nem angústias em relação ao futuro para onde se dirige.
O tempo atual é seu, rico de possibilidades de autoiluminação e não o linear, em face da amplitude de entendimento da vida e das suas inestimáveis contribuições. O ontem converteu-se-lhe em hoje e o amanhã estagia num incessante momento atual de compreensão do papel que lhe cabe desempenhar a benefício pessoal e social.
A conquista do pensamento cósmico apresenta-se, portanto, sob vários aspectos, sem limite nem fixação unívoca, ampliando-se pelas diversas áreas do conhecimento artístico, cultural, filosófico, religioso, científico, moral... Por serem facetas da mesma realidade eterna.
Ludwig Van Beethoven, não obstante surdo, atingiu o pensamento cósmico no momento da composição da Nona Sinfonia, o mesmo acontecendo a Händel, ao escrever o Aleluia, no extraordinário Messias.
Não somente eles, porém, mas toda uma extensa galeria de homens e de mulheres que alcançaram o pensamento cósmico, logrando a plenitude e prosseguindo no trabalho ininterrupto, sem deixar-se dominar pelo estado pleno, diminuindo o esforço de edificação dos ideais, antes, pelo contrário, mais se afadigando por alcançar patamar ainda mais grandioso na escala da evolução.
No caso em tópico, não desapareceram muitos dos conflitos existenciais que os tipificavam, em razão dos impositivos castradores da época em que viveram, dos atavismos ancestrais, das frustrações sexuais e afetivas que, de alguma forma, impeliram-nos para os ideais que abraçaram como caminho de libertação, como processo psicoterapêutico salvador.
Não fossem esses os seus compromissos iluminativos ter-se-iam alienado, mergulhando em transtornos de grave porte. Muitos deles, conquistadores do infinito, apresentaram-se algo estranhos ao conceito convencional, por vivenciarem experiências pertinentes ao pensamento cósmico, embora sem libertação dos níveis anteriores.
Da mesma forma como um estágio do pensamento depende daquele que foi vencido, nem sempre dele liberado, o vislumbrar do cósmico pode apresentar-se com tintas próprias decorrentes das fixações ainda não diluídas e pertinentes ao curso de crescimento.
O pensamento cósmico é, sem dúvida, o mais alto nível a ser conquistado pelo ser humano enquanto na roupagem física, no entanto, outros mais significativos existem fora dos limites do corpo, aguardando o infinito.
Krishna, Buda, Akhenaton, Sócrates, Paulo de Tarso, Agostinho de Hipona, Descartes, Allan Kardec, entre outros muitos vitoriosos são exemplos grandiosos da conquista da plenitude, da cosmovisão, em cujo período de realização, e logo após, abriram os braços à posteridade num grande convite para a integração de todos os indivíduos na família universal.
Jesus Cristo, porém, Guia e Modelo da Humanidade, é o exemplo máximo da harmonia e da cosmo-realização, de tal modo que, superando todo e qualquer impulso egoico, doou-se em regime de totalidade ao Amor, para que todos aqueles que o desejassem seguir, experimentassem Vida em abundância.
É muito confortador poder-se perceber que a superação dos instintos, graças à evolução do pensamento e da razão, constitui fenômeno natural, ao alcance de todos os seres humanos que, após ultrapassadas as fases mais primárias do processo antropológico, aspiram à conquista das metas reservadas à angelitude.
Em uma imagem poética, o Self sai da escuridão no rumo da luz, qual o diamante que se liberta do envoltório grosseiro em que se esconde, a fim de poder refletir na sua face límpida, após a lapidação, o brilho das estrelas.
Divaldo Pereira Franco / Joanna de Ângelis
Fonte: do livro "Encontro com a Paz e a Saúde"
Série Psicológica - Especial, vol. 14, 4ª ed., 2014
LEAL - Livraria Espírita Alvorada Editora
Salvador/BA
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