quinta-feira, 16 de abril de 2026

CULTORES DA MEDIOCRIDADE


Meu ignoto amigo. Se quiseres ser impenitente cultor da rotina e mediocridade, guia-te pelas normas seguintes:

- Antes de pensar, informa-te sempre o que deve ser pensado, a fim de não introduzir no mundo o contrabando de ideias novas.

- Não penses nunca com o próprio cérebro — mas sempre com a cabeça dos outros.

- Dize sempre sim quando os outros dizem sim — e não quando os outros dizem não.

- Lê cada manhã, ao café, o teu jornal, para saberes o que deve ser pensado naquelas 24 horas.

- Quando vier alguém com ideias novas, evita-o como um perigo social e tem-no em conta de herege e demolidor.

- Não te exponhas ao perigo de fazer o que o vizinho não faz — mas lembra-te da comprovada sapiência burguesa: o seguro morreu de velho.

- Sê amigo dedicado da tua tépida poltrona — e não te exponhas a vertigens de vastos horizontes.

- Prefere sempre as paredes maciças dum cárcere e as grades duma gaiola às incertezas dum vôo estratosférico.

- Não abras nunca portas fechadas — abre tão somente portas abertas.

- Não explores caminhos novos, como os bandeirantes — anda sempre por estradas batidas e sobre trilhos previamente alinhados.

- Vai sempre com o grosso do rebanho, como os bons carneiros — e não procures caminho à margem da rotina geral.

Em suma, meu insigne cultor da mediocridade: Deixa tudo como está para ver como fica.

Destarte, conservarás a saúde e a tranquilidade dos nervos e poderás tomar, cada dia, com sossego, teu chope ou coquetel — e passar por homem de bem.

Se, porém, resolveres, um dia, sair da rotina tradicional e expor-te ao perigo mortífero dum ideal superior, então lê com atenção o que te diz um homem que conhece a vida:

- Vai às margens do Ganges e pede ao mais robusto dos elefantes que te ceda a sua pele paquidérmica, para com ela revestires a tua alma.

- Vai as praias do Nilo e arranca ao mais velho dos crocodilos a sua impenetrável couraça e faze dela o invólucro do teu coração.

E, depois de assim encouraçares a tua alma, sai por este mundo afora e dize aos homens da honesta mediocridade que vives por um ideal que não está no estômago, nem nos nervos nem no sangue — e verás que eles te declararão guerra de morte.

Pois, deves saber, meu amigo, que o mundo não sacrifica um só ídolo por um ideal.

Desde que o mais arrojado idealista da história foi crucificado, morto e sepultado — são todos os idealistas crucificados pelos culto da mediocridade.

Nada de grande acontece no mundo sem que o mundo se revolte.

Tudo que é belo e grande — acaba fatalmente entre os braços da cruz.

É esta a gloriosa tragédia dos homens superiores.


Prof. Huberto Rohden



Fonte: do livro "De Alma paraAlma"
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/normalidade-rabugento-ded%c3%a3o-3727074/

Nenhum comentário:

Postar um comentário