O estado de paz e relaxamento que alcançamos quando sentamos com a mente alerta difere fundamentalmente do estado de indolência e semiconsciência de quem descansa ou dormita. Sentar para meditar em tal estado, longe de estar alerta, é como estar sentado dentro de uma escura caverna. Quando sentamos com a mente alerta, não apenas nos sentimos descansados e contentes mas também super despertos.
Meditação não é evasão; é um sereno confronto com a realidade. Para praticá-la a pessoa precisa estar alerta como o motorista de um carro; se a mente não estiver desperta, ela será arrastada pela dispersão e esquecimento, exatamente como um motorista desatento pode ser levado a causar um grave desastre. Você deve estar alerta como alguém caminhando sobre um fio de arame - qualquer descuido pode levá-lo à morte. Deve ser como um cavaleiro medieval caminhando desarmado por uma floresta de espadas. Deve ser como o leão que avança com passo vagaroso, brando e firme. Somente com essa total vigilância é que você poderá alcançar o despertar.
Para os principiantes, recomenda-se o método de simples reconhecimento. Eu disse que esse reconhecimento deve ser feito sem julgamento: tanto a compaixão como a irritação devem ser recebidas, reconhecidas e tratadas com absoluta igualdade, pois elas são nós mesmos. A tangerina que estou comendo sou eu mesmo. A mostarda que estou plantando sou eu mesmo, eu planto com todo coração e toda alma. Eu limpo esta chaleira com a mesma atenção com que daria banho no bebê Buda. Nenhuma coisa deve ser tratada com menos cuidado do que outra. Para a mente alerta, compaixão, irritação, planta de mostarda, chaleira, todos são iguais, todos são Budas.
Quando estamos dominados por tristeza, ansiedade, ódio, paixão, ou seja o que for, podemos achar difícil praticar o método de simples observação e reconhecimento. Nesse caso é melhor se voltar para o método de meditar num objeto fixo, usando o próprio estado mental em que se encontra como objeto da meditação. Essa meditação revela e cura. A tristeza, a ansiedade, o ódio ou a paixão, sob a mira da nossa concentração e meditação revelam sua própria natureza. E a revelação leva naturalmente à cura e emancipação. Se foi tristeza a causa de sua dor, use-a como meio para libertar-se da tortura e do sofrimento. Chamamos a isto, usar um espinho para remover um espinho.
Devemos tratar nossa ansiedade, dor, ódio e paixão, com brandura, não resistindo, mas vivendo com eles, fazendo as pazes com eles, penetrando em sua natureza através da meditação na interdependência. O praticante imaginoso sabe como selecionar o tema de meditação que melhor corresponde a cada situação. Temas como interdependência, compaixão, vacuidade-do-eu e desapego todos pertencem à categoria de meditação que tem o poder de revelar e curar.
Meditar nesses temas, no entanto, só pode ter resultado se tivermos um certo poder de concentração. E esse poder é adquirido através da prática de alertar a mente na vida diária, observando e reconhecendo tudo o que está acontecendo conosco. O objeto da meditação deve ser algo com raízes em você mesmo; não pode ser apenas um tema para especulação filosófica. Deve ser como certo tipo de comida que precisa ser cozida por longo tempo no fogo. A panela somos nós mesmos, e o calor usado para cozinhar é o poder de concentração. O combustível vem da contínua prática de alertar a mente. Sem o necessário calor, a comida não cozinhará nunca. Mas uma vez cozida, ela revela sua natureza e nos ajuda a chegar à libertação.
Thich Nhat Hanh
Fonte: do livro "Para Viver em Paz"
Editora Vozes
Via Boletim "Flor de Lótus", nº 22, 1999
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/homem-pessoa-humano-silhueta-10080453/

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