sexta-feira, 24 de julho de 2020

O DRAMA DE EROS


O verdadeiro e mais profundo sentido de Eros não é a satisfação individual do homem e da mulher, nem tampouco a procriação da prole. Eros tem um background, um fundo ou substrato de natureza metafísica, cósmica, universal, que não é conscientemente percebido pelos sexos. Por detrás da conhecida profanidade da libido canta a ignota sacralidade de Eros...

Esse substrato cósmico de Eros é o anseio pelo retorno à fonte universal de todas as coisas individuais. Os indivíduos orgânicos, resultantes da união dos sexos, representam um processo centrífugo, dispersivo, rumo à periferia. Por que é que Eros tem o poder de individualizar novas ondas de vida? Unicamente porque, no ato sexual, retorna ao oceano imenso da vida cósmica experimentado, geralmente, na estranha embriaguez do orgasmo voluptuoso.

A eterna Realidade não tem sexo. O Absoluto é essencialmente assexual. O homem – isto é, o ser humano como tal, o homo, o ânthropos, o Mensch; não o vir, o anér, o Mann – desconhece sexo. A ramificação em dois sexos é o primeiro passo para a individualização do homem universal. Entretanto, o homem assim individualizado em macho e fêmea conserva nas incônscias profundezas da sua natureza humana a reminiscência do que foi na sua fase pré-sexual e o que continua a ser, mesmo agora, na íntima essência do seu ser humano. Essa silenciosa nostalgia do seu estado puramente humana, pré-masculino e pré-feminino, ecoa perenemente em cada uma das células do varão e da mulher. A união sexual é uma tentativa de retorno dos dois ramos da árvore humana, macho-fêmea, ao tronco único da natureza humana como tal; o vir e a fêmina anseiam pelo homo; o anér e a gyné suspiram pelo ânthropos; o Mann e a Weib tentam reconstruir o Mensch.

[...] O homem quer ser atualmente o que já é potencialmente. E este processo milenar de auto-realização (Self-realization, Selbstverwirklichung) vai através de Eros. O Eros da mitologia é uma divindade creadora, não no sentido primário de procriar novos indivíduos, mas no sentido profundo de crear, através de muitas individualizações parciais, o homem universal, total. Eros é, de fato, o Amor que cria o homo, o ânthropos, o Mensch, na sua completa, última e absoluta inteireza e perfeição.

Só assim se explica a elementar veemência com que os sexos se atraem um ao outro, sem que eles mesmos conheçam nitidamente a verdadeira razão dessa potência abismal; no zênite da intensidade sexual descem os dois atores praticamente ao nadir da inconsciência, deixando de ser atores do drama para se tornarem sofredores, ou vítimas passivas de uma potência cósmica que os empolga com irresistível veemência. “Paixão” (passio) é passiva, algo que se padece, algo de que se é objeto sofredor, e não sujeito ator.

Em última análise, Eros é o brado cósmico pela plenitude. É sumamente notável que os grandes místicos e gênios espirituais da humanidade se sirvam de uma linguagem visceralmente sexual ou erótica quando se referem ao retorno do homem à suprema Realidade, Deus. Os profetas de Israel representam relações entre Javé e o povo eleito sob a forma de matrimônio, razão por que a idolatria é constantemente equiparada ao adultério. Jesus Cristo descreve o consórcio do divino Logos com a natureza humana como uma festa nupcial. Paulo de Tarso traça o genial paralelo entre Cristo e a igreja sobre a base das relações entre homem e mulher.

Verdade é que o homem animal não compreende o sentido profundo de Eros, limitando-o à esfera da libido, das satisfações meramente carnais. Na realidade, porém, o verdadeiro casamento não se consuma na união física dos corpos, como acontece no acasalamento dos brutos, mas na integração dos espíritos, ou seja, na fusão metafísico-mística do verdadeiro Eu humano como outro Eu. “O que Deus uniu não o desuna o homem” – esta frase mística de Jesus tem um sentido profundo, uma vez que só a união dos espíritos é que é uma união real e, por isto, indissolúvel. Os verdadeiros “casados” encontraram sua “casa”. Eros integra os espíritos, reunificados em um só tronco os dois galhos diversificados pelos sexos.

O veemente brado pela unidade cósmica – é este o mistério último que vibra por detrás da atração dos sexos. Eros a serviço do Cosmos.

[...] Compreende-se assim porque o Cristo não era inimigo de Eros. Se o fora, não teria sido o maior gênio cósmico da humanidade. A sublimação de Eros pela compreensão da sua verdadeira função, no drama multimilenar da humanidade em marcha – é esta a tarefa gloriosa dos verdadeiros luminares do Cristianismo e guias espirituais do gênero humano.


Prof. Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/cupido-eros-grego-amor-mito-1295027/

FÉ NÃO É ADESÃO A UM PONTO DE VISTA, TRADIÇÃO, CRENÇA OU RITUAL


Quando a força da fé atua livremente na pessoa humana, ela nos impele a experimentar uma realidade que está além de palavras, imagens e ideias. Então, descobrimos que os filtros das metáforas, por mais úteis e necessários que eles sejam em um determinado nível, também, podem (e precisam) ser desativados para que a fé cresça. Como em toda característica humana, crescemos na fé, ou a fé se exaure e morre. A fé contém o eterno anseio, que todos sentimos, de enxergar a realidade tal como ela é. “Amados”, assim disse São João, “desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo o que nele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo como também ele é puro” (1Jo 3:2-3). Enxergar a Deus é tornar-se como Deus. A condição dessa visão é a pureza. Em grande parte da religião, todavia, onde quer que a fé esteja restrita à crença ou ao ritual, a pureza é um empilhamento de filtros que se adicionam a camadas intervenientes. No núcleo de cada religião, no entanto, está o inerradicável conhecimento místico, aquela visão 20/20 da realidade, sem filtros, não mediada pela metáfora. A maioria de nós nunca a consegue inteiramente, mas a intuição de que isso assim é, faz parte da profunda natureza da própria fé.

Enxergarmos a realidade tal como ela é ou, ao menos, nos libertarmos progressivamente de alguns dos filtros representa um dos maiores atos de fé. Ele expressa a face confiante da fé, pois nosso apego às crenças e rituais de nossa tradição (mais do que nos próprios rituais e crenças) se transforma em uma segurança falsa e falsificante. E assim, muitas pessoas profundamente religiosas sentem uma aversão ou antipatia à meditação, pois ela parece (e na realidade ela o faz) minar as fronteiras seguras que protegem nossa visão de mundo e nossa sensação de sermos mais elevadamente diferentes dos outros.

Um caminho de fé, entretanto, não é uma adesão teimosa a um ponto de vista, e aos sistemas de crenças e tradições rituais que o expressam. Isso faria dele apenas ideologia ou sectarismo, e não fé. Fé é uma jornada transformadora que demanda que nos “mudemos” para além e através de nossas estruturas de crenças e de nossas observações exteriores, sem trair ou rejeitar as mesmas, mas também sem nos deixarmos capturar pelas armadilhas de suas formas de expressão. São Paulo falou do Caminho da salvação como se iniciando e terminando na fé. Fé é, assim, uma finalidade-aberta, desde o verdadeiro início da jornada humana. É natural que precisemos de uma estrutura, um sistema e tradição. [Porém] caso estejamos centrados neles, de maneira estável, desdobrar-se-á o processo da mudança e nossa perspectiva da verdade crescerá continuadamente.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos amigos" - Leitura de 16/11/2008
WCCM International Newsletter, vol. 32, no. 3, setembro de 2008, p. 4
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/todos-os-santos-christian-santo-f%C3%A9-2887463/

EXERCITE-SE EM NÃO DISTINGUIR


Tanto os taoistas como os zen-budistas pregam unânimes que o mundo que eu percebo é uma peça inseparável de mim. Por isto nos pensamentos eu não devo fazer nenhuma separação entre o “eu” e o meu meio.

O universo e o ser que vive nele formam uma unidade fechada. A física nuclear neste anos nos mostrou indícios indiscutíveis para este fato, por mais incompreensíveis que tais afirmações possam ser para a nossa razão. E os sábios do Tao e do Zen explicam uníssono claramente que o passo para o Satori, para a iluminação, não resulta apenas do reconhecimento desta unidade de pessoa e criação.

Nosso exercício nesta “disciplina” tem de ser determinado pelo sentimento, pois não podemos transmitir esta tarefa à razão, por mais disciplinada que esta seja. Tente uma vez, quando você estiver passeando pela natureza. Você vê pássaros que alegram com o seu canto, você vê um riacho com água correndo sobre as pedras no fundo, você vê árvores, arbustos e todo tipo de plantas, desde um capim até uma margarida. Agora imagine que todas estas coisas vistas, ouvidas, cheiradas sejam um único organismo, sejam membros de seu próprio corpo e estejam totalmente ligadas com você, mesmo que isto não o atrapalhe em seus movimentos. Quando você puder sentir isto, esta relação, então você sentirá algo que realmente é assim. Quando então você estiver diante de uma árvore, esta não será a palavra “árvore”, será uma parte de você, esta árvore faz parte de você. Tente ver o seu meio desta maneira, por mais ilógico que isto possa lhe parecer.

Pare de classificar as coisas que você vê no esquema que você aprendeu, pare de dar nome às aparições na natureza, a não ser que seja o seu próprio nome. Acredite, você sentirá esta relação, a ligação original entre você e estas coisas ao seu redor.

No estado de iluminação este conhecimento da unidade do Homem, do indivíduo com o universo, existe claramente. Esta relação de maneira nenhuma diminui a sua capacidade de viver e agir como um ser independente. Você viverá um verdadeiro crescimento, uma ampliação da sua riqueza interior.


Theo Fisher



Fonte: do livro "WuWei - A Arte de Viver o Tao"
Editora Árvore da Terra, 1999 - Tradução: Ulrike Pfeiffer
Fonte da Gravura: Tumblr.com

quinta-feira, 23 de julho de 2020

ORAÇÃO DO CORAÇÃO - ORAÇÃO HESICÁSTICA


A oração hesicástica *, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a rezar com o coração e a partir dele tem importância especial. Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Os autores espirituais do monte Sinai, do monte Atos e os startsi da Rússia oitocentista apoiam-se todos na tradição do deserto.

Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: "Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós".

No decorrer dos séculos, essa perspectiva da oração tem sido central no hesicasmo. Rezar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós.

É bom saber que aqui a palavra "coração" é usada em seu sentido bíblico pleno. Em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como "coração partido" e "sentido no coração" mostram ser comum pensarmos no coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradição judeu-cristã, a palavra "coração" refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.

No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás** dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.

Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: "A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração". Isso não significa que o monge deva procurar encher sua oração de sentimento; significa que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração.

Isaac, o Sírio, escreve: «Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir.»

E João de Cárpato diz: «É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente 'intracardíaco'), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, "Cristo está em vós.» (2Cor13,5)

Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar.

A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus.

Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador".

A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.

Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o "descanso" do hesicasta. Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Senhor de nossos corações e do universo.

Assim, as palavras de Jesus: "Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mt 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As tentações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranquilos, mesmo em meio a uma existência agitada.


Pe. Henri J. M. Nouwen


* Hesicasmo: Prática espiritual mística de algumas igrejas cristãs, sobretudo ortodoxas. O hesicasmo é a tradição mística do Oriente. Nessa tradição, se enfatiza a necessidade da oração descer ao coração. Silêncio; quietude; solidão. (Minha observação)

** Satanás: Do hebraico "satan" שטן - Significa "questionador", "opositor", "oponente". Não é um ser existente. É mitológico. Apenas uma figura de linguagem, um símbolo, um arquétipo. "Satan" não se refere à entidades (diabo, demônio, satanás etc.); apenas é uma palavra que foi deturpada pelas religiões e pelo senso comum. O sentido original e real é "oponente"; tudo que se opõe à luz (ego etc.). (Minha observação)


Fonte: Parte do capítulo extraído do livro: "A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo - O Caminho do Coração" - Ed. Loyola - ano 2000.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/inverno-queda-de-neve-mulher-natal-3006823/

MELANCOLIA - TRISTEZA PROFUNDA E VAZIO INTERIOR


A melancolia é um sentimento de tristeza profunda, de vazio interior e de falta de algo muito importante, dentro de si mesmo, que se perdeu. Costuma ocorrer na depressão, sendo acompanhada de dores torácicas e ânsia de choro. Causa mal estar e baixa total do humor. É mais comum nas mulheres, principalmente quando enfrentam perdas e rejeições.

Enquanto a tristeza é um sentimento comum ao ser humano, quer esteja em depressão ou não, a melancolia é uma ocorrência ocasional. Ela é componente sempre presente na depressão e provoca um mal-estar por vezes insuportável.

Acompanhei um caso de uma advogada solteira de 45 anos, que sempre viveu na casa de sua mãe, muito embora tivesse independência financeira suficiente para ter a sua própria. Teve poucos e mal sucedidos relacionamentos amorosos, pois se queixava de não conseguir alguém de quem efetivamente gostasse. Trabalhava num escritório de uma grande empresa. Seus colegas tinham o hábito de convidá-la a sair no último dia de trabalho na semana, a fim de “comemorarem” mais uma boa jornada. Deixaram de fazê-lo após sucessivas negativas dela, que sempre alegava cansaço, além de outras ocupações familiares. Porém, todos sabiam de antemão que seu problema era a falta de vitalidade psíquica, isto é, falta de vontade de viver. Ela era vista como uma pessoa triste e sem motivação para viver. Não era inicialmente depressiva, mas melancólica, reservada e de poucos amigos. Sua depressão só veio acontecer de fato, após a morte da mãe.

Sua melancolia era causada por um forte sentimento de inutilidade e de culpa, desde que sua mãe morrera há onze anos. Quando sua mãe adoecera, dois anos antes de falecer, ela se fechou para o mundo. Dedicara-se a ela para que não sofresse. Amava a mãe e não aceitava, desde que adoecera, a ideia de que ela morresse. Sua mãe padecia de um câncer, cujo desfecho fatal ocorreu após dois anos de tratamento. Ela sofreu muito com a morte da mãe, tornando-se depressiva e melancólica. No fundo, culpava-se pela morte da mãe, achando que poderia ter feito mais por ela e que deveria tê-la amado mais.

Sentia saudades e uma profunda gratidão pelo que a mãe fez por ela, dando-lhe uma boa educação e muito amor. Sabia ser grata à mãe, mas achava que fizera pouco por ela. Queria-a de volta para não sentir culpa. Era mais altruísta de sua parte pensar no retorno da mãe e no pesar de sua morte, do que aceitar que todos um dia devem deixar esta vida. Sua melancolia representava sua incapacidade de aceitar a morte e entender sua providência. Rejeitava a ideia de que era importante aceitar a morte de sua mãe, para que se libertasse de tamanha culpa. Não entendia que já tinha retribuído o amor recebido.

A melancolia é uma saudade que permanece dentro da pessoa, sem que seja adequadamente suprida, cuja saída é a compreensão e aceitação dos fatos como pertinentes e adequados. São eles resultantes do mundo interno de cada pessoa, como respostas às necessidades educativas mais íntimas.

Superar a melancolia é um passo que deve ser dado para que o indivíduo saia de seu mundo egoico e pequeno, no qual se enredou por um processo mórbido de auto-piedade. Para isso deve sair da condição inconsciente de “coitadinho” e de vítima do destino, como se ele fosse obra do acaso, e encontrar em si as razões para que as coisas aconteçam como são. Viver de acordo com um sentido interno que coloca os fatos, simultaneamente como consequentes e como antecedentes ao pensar e ao querer. Os fatos antecedem o querer, pela própria exigência da vida, tanto quanto correspondem ao que se deseja, como respostas à vontade humana.


Adenáuer Novaes



Fonte: do livro "Alquimia do Amor - Depressão, Cura e Espiritualidade"
FUNDAÇÃO LAR HARMONIA, 1ª ed., Salvador/BA, 2004
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/fantasia-humanos-misticismo-m%C3%ADstico-2964231/

ENTRE O AMOR E O MEDO


A diferença entre nosso estado mental quando estamos amando, quando comparado com nossa atitude quando estamos em estado de medo ou isolamento é algo que todos conhecemos. O amor evoca um espírito de felicidade na vida; evoca sua diversidade, sua imprevisibilidade, seu colorido. Quanto mais generosamente permitirmos que esse espírito de amor se expanda em nosso interior, tanto mais nos tornamos centrados no outro; tanto mais encontramos nossa perfeição no outro, nossa realização no outro. É nessa experiência que abandonamos nossa auto-consciência e descobrimos nossa verdadeira consciência. Nós a descobrimos em contato com uma outra consciência verdadeira. É desse encontro que surge a energia criativa que nos permite trabalhar inegoisticamente, amorosamente.

À medida em que lemos o Evangelho vemos que há uma escolha diante de nós. A alternativa é entre o amor e o medo. O medo é destrutivo e corrosivo, seja ele medo de doença, guerra ou fome, seja medo do sobrenatural, de deuses raivosos e vingativos que precisam ser aplacados com rituais compulsivos. A diferença entre o mundo bárbaro e o civilizado é que a barbárie prospera no medo. A civilização prospera no amor que impulsiona o vigor, a energia, a vitalidade e a criatividade. A energia bárbara é negativa; seu principal impulso é destrutivo e sua principal arte é a guerra. A principal arte da vida cristã é a paz.

Nosso compromisso com a meditação é nossa abertura para a paz do amor redentor de Deus, nossa total aceitação dele, nossa renúncia à auto fixação e nosso compromisso com a auto-entrega. Enquanto estamos repetindo nosso mantra, não podemos ficar pensando em nós e é precisamente a auto-obsessão que nos reconduz à fantasia. Assim, quando percebemos que paramos de repetir o mantra, que nossa mente está divagando, devemos simplesmente retornar a ele e, com ele, para a realidade. Isto é, retornar para Deus presente em nossos corações. Em outras palavras, retornamos para uma fé que nos impulsiona para além de nós mesmos, para Deus. Todos nós sabemos que esta auto-transcendência é nossa salvação. Fundamentalmente, todos nós sabemos que precisamos encontrá-la no silêncio de nossos corações. As alternativas são, realidade ou ilusão.

A função fundamental da fantasia é a de tentar nos afastar dos medos e ansiedades que sentimos, criando uma realidade alternativa. Mas o que acontece é que o medo é apenas enterrado mais fundo... A função fundamental do Evangelho, que é na verdade o único fundamento, é a de expulsar o medo, de arrancá-lo com suas raízes, para que possamos ir cada vez mais fundo dentro de um coração sem medo e lá encontrarmos o amor mais profundo. Assim, o maior presente que podemos compartilhar com o mundo é a nossa experiência da realidade.


Dom John Main, OSB



Fonte: "A irrealidade do medo" - Leitura de 30/11/2008
THE HEART OF CREATION (New York: Continuum; 1998), pp. 24-25
Tradução de Roldano Giuntoli
Via: Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

FELICIDADE ADQUIRIDA PELO LONGO TRABALHO INTERIOR



“... Assim, pois, aqueles que pregam ser a Terra a única morada do homem, e que só nela, e numa só existência, lhe é permitido atingir o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam aqueles que os escutam...”

(O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. 5, item 20)


As estradas que nos levam à felicidade fazem parte de um método gradual de crescimento íntimo cuja prática só pode ser exercitada pausadamente, pois a verdadeira fórmula da felicidade é a realização de um constante trabalho interior.

Ser feliz não é uma questão de circunstância, de estarmos sozinhos ou acompanhados pelos outros, porém de uma atitude comportamental em face das tarefas que viemos desempenhar na Terra.

Nosso principal objetivo é progredir espiritualmente e, ao mesmo tempo, tomar consciência de que os momentos felizes ou infelizes de nossa vida são o resultado direto de atitudes distorcidas ou não, vivenciadas ao longo do nosso caminho.

No entanto, por acreditarmos que cabe unicamente a nós a responsabilidade pela felicidade dos outros, acabamos nos esquecendo de nós mesmos. Como consequência, não administramos, não dirigimos e não conduzimos nossos próprios passos. Tomamos como jugo deveres que não são nossos e assumimos compromissos que pertencem ao livre-arbítrio dos outros. O nosso erro começa quando zelamos pelas outras pessoas e as protegemos, deixando de segurar as rédeas de nossas decisões e de nossos caminhos. Construímos castelos no ar, sonhamos e sonhamos irrealidades, convertemos em mito a verdade e, por entre ilusões românticas, investimos toda a nossa felicidade em relacionamentos cheios de expectativas coloridas, condenando-nos sempre a decepções crônicas.

Ninguém pode nos fazer felizes ou infelizes, somente nós mesmos é que regemos o nosso destino. Assim sendo, sucessos ou fracassos são subprodutos de nossas atitudes construtivas ou destrutivas.

A destinação do ser humano é ser feliz, pois todos fomos criados para desfrutar a felicidade como efetivo patrimônio e direito natural.

O ser psicológico está fadado a uma realização de plena alegria, mas por enquanto a completa satisfação é de poucos, ou seja, somente daqueles que já descobriram que não é necessário compreender como os outros percebem a vida, mas sim como nós a percebemos, conscientizando-nos de que cada criatura tem uma maneira única de ser feliz. Para sentir as primeiras ondas do gosto de viver, basta aceitar que cada ser humano tem um ponto de vista que é válido, conforme sua idade espiritual.

Para ser feliz, basta entender que a felicidade dos outros é também a nossa felicidade, porque todos somos filhos de Deus, estamos todos sob a Proteção Divina e formamos um único rebanho, do qual, conforme as afirmações evangélicas, nenhuma ovelha se perderá.

É sempre fácil demais culparmos um cônjuge, um amigo ou uma situação pela insatisfação de nossa alma, porque pensamos que, se os outros se comportassem de acordo com nossos planos e objetivos, tudo seria invariavelmente perfeito. Esquecemos, porém, que o controle absoluto sobre as criaturas não nos é vantajoso e nem mesmo possível. A felicidade dispensa rótulos, e nosso mundo seria mais repleto de momentos agradáveis se olhássemos as pessoas sem limitações preconceituosas, se a nossa forma de pensar ocorresse de modo independente e se avaliássemos cada indivíduo como uma pessoa singular e distinta.

Nossa felicidade baseia-se numa adaptação satisfatória à nossa vida social, familiar, psíquica e espiritual, bem como numa capacidade de ajustamento às diversas situações vivenciais.

Felicidade não é simplesmente a realização de todos os nossos desejos; é antes a noção de que podemos nos satisfazer com nossas reais possibilidades. Em face de todas essas conjunturas e de outras tantas que não se fizeram objeto de nossas presentes reflexões, consideramos que o trabalho interior que produz felicidade não é, obviamente, meta de uma curta etapa, mas um longo processo que levará muitas existências, através da Eternidade, nas muitas moradas da Casa do Pai.


Francisco do Espírito Santo Neto / Hammed



Fonte: do livro "Renovando Atitudes", Ed. Boa Nova, 1997
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ASSUMINDO RESPONSABILIDADE PELA PRÓPRIA SOMBRA


Assim como a projeção de emoções negativas, também a projeção de qualidades negativas é muito comum na nossa sociedade, pois caímos na ilusão de equiparar "negativo" a "indesejável". Desse modo, em vez de aceitar nossos traços negativos e integrá-los, nós os alienamos e projetamos, vendo-os em todas as outras pessoas exceto em nós mesmos. Mas eles, como sempre, continuam a nos pertencer. [...]

Todos nós temos pontos cegos — tendências e traços que simplesmente recusamos admitir como sendo nossos, que nos recusamos a aceitar e que, portanto, arremessamos sobre o meio ambiente, onde lançamos mão de todo o nosso falso moralismo para, enfurecidos e indignados, lutar contra eles, sem perceber que o nosso próprio idealismo nos cega ante o fato de que a batalha é travada no nosso íntimo e de que o inimigo está muito mais próximo de nós. E a única coisa necessária para que esses aspectos sejam integrados é tratar a nós mesmos com a mesma bondade e compreensão que dispensamos aos nossos amigos. Como Jung, com a maior eloquência, afirma: 

"A aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e a epítome de toda uma visão de vida. Alimentar os famintos, perdoar um insulto, amar o inimigo em nome de Cristo — todas essas, sem dúvida alguma, são grandes virtudes. Aquilo que faço ao menor dos meus irmãos, eu o faço a Cristo. Mas o que acontece se eu descobrir que o menor dentre eles, o mais pobre dentre os mendigos, o mais impudente dentre os pecadores, o próprio inimigo, todos eles estão dentro de mim e que eu, eu mesmo, preciso das esmolas da minha própria bondade, que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado — o que acontece então?" *

As consequências são sempre duplas: primeiro, chegamos a acreditar que somos totalmente isentos da qualidade que estamos projetando e, portanto, que ela não está à nossa disposição — não agimos sobre ela, não a utilizamos e não a satisfazemos de modo algum, o que provoca em nós um estado crônico de frustração e de tensão. Segundo, vemos essas qualidades como existentes no meio ambiente, onde elas assumem proporções impressionantes ou aterradoras, de modo que acabamos por nos fustigar com a nossa própria energia.

No Nível do Ego, a projeção é identificada com extrema facilidade: se uma pessoa ou coisa no ambiente nos informa, provavelmente não estamos projetando; por outro lado, se ela nos afeta, o mais provável é que sejamos uma vítima das nossas próprias projeções. [...] E essa é a diferença crucial: aquilo que vejo nos outros está mais ou menos correto se apenas me informa; mas, se me afeta fortemente em termos de emoção, então trata-se, sem dúvida, de uma projeção.

Assim, quando nos apegamos de maneira ostensiva a alguém (ou a alguma coisa), estamos abraçando a sombra; e quando evitamos ou odiamos alguém num nível fortemente emocional, estamos travando um combate com a sombra...

O ato de desfazer uma projeção representa um movimento ou transição "descendente" ao longo do espectro da consciência... pois, ao recuperar aspectos de nós mesmos que havíamos alienado, estamos ampliando nossa área de identificação. E o primeiro passo, o passo fundamental, consiste sempre em percebermos que as coisas que julgávamos que o meio ambiente fazia para nós de maneira mecânica são, na verdade, coisas que estamos fazendo para nós mesmos — coisas pelas quais somos responsáveis.

Desse modo, quando sinto ansiedade, geralmente alego que sou uma vítima indefesa dessa tensão e que as pessoas ou situações no meio ambiente estão fazendo com que eu me sinta ansioso. Meu primeiro passo será tornar-me plenamente consciente dessa ansiedade, ficar em contato com ela, estremecer e sentir calafrios e arquejar — sentir realmente toda essa ansiedade, convidá-la a entrar, expressá-la — e assim perceber que eu sou o responsável, que eu estou criando a tensão, que eu estou bloqueando a minha excitação e, por causa disso, estou sentindo ansiedade. Eu estou fazendo isso para mim mesmo; logo, essa ansiedade é um assumo entre eu, o eu, não entre eu e o meio ambiente. Essa mudança da minha atitude significa que, onde antes eu alienava a minha excitação, separava-me dela e alegava ser sua vítima, eu agora estou assumindo a responsabilidade por aquilo que estou fazendo a mim mesmo.

Se o primeiro passo para "curar" as projeções da sombra consiste em assumir a responsabilidade pelas nossas projeções, então o segundo passo consistirá simplesmente em reverter a direção das nossas projeções e fazer aos outros, com toda a gentileza, aquilo que até agora estivemos fazendo a nós mesmos com toda a crueldade.

[...] À medida que vamos progressivamente enfrentando nossos opostos, torna-se cada vez mais evidente — e nunca será demais insistir nessa tecla — que, já que a Sombra é uma faceta real e integrante do ego, todos os "sintomas" e desconfortos que ela parece estar nos infligindo são, na realidade, sintomas e desconfortos que estamos infligindo a nós mesmos; por mais que, no nível consciente, possamos protestar que se trata do contrário. E quase como se, por exemplo, eu estivesse deliberada e dolorosamente me beliscando, mas fingindo que não estava me beliscando! Quaisquer que sejam os meus sintomas nesse nível — culpa, medo, ansiedade, depressão — todos eles, a rigor, são o resultado do meu ato de beliscar "mentalmente" a mim mesmo. A implicação direta, por mais incrível que pareça, é que eu quero que esse sintoma doloroso, qualquer que seja a sua natureza, esteja presente em mim... tanto quanto quero que ele desapareça!

Assim, o primeiro oposto que você pode tentar confrontar é esse desejo secreto e ensombrecido de manter e conservar seus sintomas; esse desejo inconsciente de beliscar a si mesmo. Você me permitiria a insolência de sugerir que, quanto mais ridícula essa ideia lhe parecer, mais essa reação indicará o quanto você está fora de contato com a sua própria Sombra, com aquele seu lado que está beliscando você?

Ao fazer contato com meus sintomas e tentar deliberadamente me identificar com eles, devo manter em mente que qualquer sintoma — se tem um núcleo emocional — é a forma visível de uma Sombra que contém não apenas a qualidade oposta como também a direção oposta.

[...] Como sempre, os traços projetados — assim como as emoções projetadas — serão todos os aspectos "vistos" nos outros que não só nos informam como também nos afetam com certa violência. Em geral, trata-se das qualidades, detestáveis para nós, que imaginamos que outras pessoas possuem; das qualidades que estamos sempre dispostos a denunciar e condenar com a maior violência. Não importa se estamos apenas lançando nossas condenações contra a mesquinhez do nosso próprio coração escuro e esperamos com isso exorcizá-lo. Às vezes, as qualidades projetadas são algumas de nossas próprias virtudes e, nesse caso, aferramo-nos à pessoa sobre quem depositamos as nossas "coisas boas" e, em geral, tentamos febrilmente conservar e monopolizar essa pessoa. Essa "febre" é provocada, naturalmente, pelo imperioso desejo de nos aferrarmos a esses aspectos de nós mesmos.

Em última análise, as projeções surgem em todos os sabores. De qualquer modo, as qualidades projetadas — assim como as emoções projetadas — serão sempre o oposto daquilo que, em nível consciente, imaginamos possuir. Mas (ao contrário das emoções) os traços, qualidades e ideias não possuem, em si, uma direção; logo, sua integração é direta. No primeiro passo do trabalho com seus opostos, você chegará a perceber que as coisas que ama ou despreza nos outros são apenas as qualidades da sua própria Sombra. Não se trata de um assunto entre você e os outros, mas de um assunto entre você e você. Ao trabalhar seus opostos, você irá tocar a sua Sombra; e ao compreender que está beliscando a si mesmo, você irá "parar de se beliscar". Como os traços projetados não envolvem nenhuma direção, sua integração não exigirá o segundo passo — a reversão.

E assim é que, ao lidar com os nossos opostos e ao conceder direitos iguais à Sombra, finalmente estendemos nossa identidade (e, portanto, nossa responsabilidade) a todos os aspectos da psique; deixamos de ser apenas a persona distorcida e empobrecida. E, dessa maneira, a cisão entre a persona e a Sombra é "integrada e curada".


Ken Wilber


* C. G. Jung: Modem Man in Seack of a Soul (Londres: Harcourt Brace Jovanovich, 1955), págs. 271-272.


Fonte: do livro "AO ENCONTRO DA SOMBRA - O potencial oculto do lado escuro da natureza humana", Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.), Tradução MERLE SCOSS
Ed. CULTRIX, São Paulo
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/m%C3%A3o-silhueta-forma-horror-984170/

O SILÊNCIO - ANATMAN


[Um] motivo pelo qual o silêncio nos é tão perturbador [é este]: Assim que começamos a nos tornar silentes, experimentamos a relatividade de nossa mente comum cotidiana. Com essa mente medimos nossas coordenadas de espaço e de tempo, calculamos as probabilidades e contabilizamos nossos erros e acertos. Trata-se de um nível de consciência muito útil e importante. É um estado mental tão útil e familiar que facilmente acreditamos ser tudo o que somos: a totalidade de nossa mente, nosso verdadeiro eu, nossa inteira significação.

A vida, o amor e a morte frequentemente nos ensinam o contrário. Nos encontramos com o silêncio em muitas reviravoltas inesperadas da estrada da vida, em maneiras imprevisíveis, em pessoas improváveis. Sua saudação possui um efeito que é ao mesmo tempo emocionante, pleno de maravilhamento, ainda que frequentemente apavorante.

A cada momento nossos pensamentos, medos, fantasias, esperanças, raivas e atrações estão todos surgindo e desaparecendo. Nos identificamos automaticamente com esses estados, sejam eles passageiros ou compulsivamente recorrentes, sem pensar aquilo que estamos pensando. Quando o silêncio nos ensina o quão transitórios e, portanto, pouco confiáveis na verdade são esses estados, confrontamo-nos com o terrível questionamento de quem somos nós. No silêncio precisamos lutar contra a terrível possibilidade de nossa própria irrealidade.

O pensamento budista faz dessa experiência, denominada "anatman" ou, o “não ser”, um dos principais pilares de sabedoria em seu caminho de libertação do sofrimento e um de seus meios de iluminação essenciais. Incentiva-se o praticante budista a buscar essa experiência da transitoriedade interior e, em vez de fugir dela, mergulhar nela de cabeça, assim como o fizeram Meister Eckhart e os grandes místicos cristãos.

É compreensível que "anatman" seja a ideia budista que outros considerem a mais desafiadora. Quanto absurdo, quão terrível, quão sacrílego dizer que eu não existo. De fato, muito do antagonismo cristão ao "anatman" é infundado ou fundamentado em interpretação errônea. Não quer dizer que não existimos, mas que não existimos em autônoma independência, que é o tipo de existência que o ego gosta de imaginar que tem; o tipo de fantasia de ser Deus... Trata-se da arrogância que frequentemente ataca as pessoas religiosas.

Não existo independentemente, pois Deus é o fundamento de meu ser. À luz desse entendimento, lemos as palavras de Jesus no Novo Testamento, com percepção aprofundada: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me..., mas, o que perder a sua vida por causa de mim, a salvará.” (Lc 9, 23-24)

Caso, através do silêncio, possamos abraçar esta verdade do "anatman", faremos importantes descobertas acerca da natureza da consciência. Descobriremos que a consciência, a alma, é mais do que o fantástico sistema de julgamento, de cálculo e de computação do cérebro. Somos mais do que aquilo que pensamos. A meditação, [por exemplo], não é o que pensamos.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "O Silêncio da Alma" - Leitura de 12/10/2008 (The Tablet: 10 de maio de 1997)
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

quinta-feira, 16 de julho de 2020

SOLIDÃO - QUIETUDE ÍNTIMA


Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Segundo Pascal, o grande pensador científico-filosófico do século XVII, “a verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem, sua verdadeira virtude e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável.”

Nem sempre a solidão pode ser encarada como dor ou insânia. É, em muitas ocasiões, períodos de preparação, tempos de crescimento, convites da vida ao amadurecimento.

De acordo com o pensamento de Pascal, o âmago do ser está intimamente ligado ao bem, à virtude e à religião. É justamente nas “épocas de solidão” que conseguimos a motivação necessária para estabelecer a verdade sobre esse fato.

Na solidão é que encontramos sanidade para nosso mundo interior, respostas seguras para nossos caminhos incertos e nutrição vitalizante para os labores que enfrentamos em nossa viagem terrena.

Nestes nossos apontamentos sobre a solidão, não estamos nos referindo à “tristeza de estar só”, mas sim, necessariamente, à “quietude íntima”, tão importante e saudável para que façamos um trabalho de autoconsciência, valorizando as nuances de nossa vida interior.

Muitos indivíduos vivem dentro de um ciclo diário estafante. Realizam suas atividades num ambiente de competitividade, agitação, pressa e rivalidade, vivendo em constante tensão psicológica e, por consequência, alterando suas funções fisiológicas. Por viverem num estado de cansaço e desgaste contínuos, não conseguem fazer uma real interação entre o meio ambiente e seu mundo interno, o que ocasiona sérios problemas de convivência e inúmeros conflitos pessoais.

Nem sempre é possível abandonarmos a vida alvoroçada, os ruídos e as músicas estridentes, talvez seja até mesmo inviável; mas é perfeitamente realizável dedicarmos algum tempo à solidão, retirando-nos para momentos de reflexão.

Nos instantes de silêncio, exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à Consciência Divina. É nesse momento que ficamos cientes de que realmente não estamos sozinhos e que podemos entrar em contato com a voz da consciência. A voz de Deus, por assim dizer, começará a “falar em nós”.

Inúmeras criaturas criam uma mente agitada por temerem que estão vazias, pensam não haver nada dentro delas que lhes dê proteção, apoio e segurança. Acreditam que são uma casca que precisa exclusivamente de sustentação exterior; por isso, continuam ocupando a casa mental ansiosamente, obstruindo seu acesso à luz espiritual.

A mente pode ser uma ajuda efetiva, ou mesmo um obstáculo ferrenho na escolha da melhor direção para atingimos o amadurecimento íntimo. A crença em nossa limitação é que faz com que restrinjamos nossa mente. Isso se agrava quando envolvemo-la no burburinho de vozes, no tumulto e na agitação do cotidiano, passando assim a não avaliarmos corretamente seu verdadeiro potencial.

São muitos os caminhos de Deus, e a solidão pode ser um deles. “E saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.” (1)

Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “privacidade da solidão”.

O Cristo Amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleceriam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a Vida e unos com todos os seres.

“... buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam. (...) Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.” (2) A Espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranquilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã.

Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Ninguém é capaz de seguir sua verdadeira estrada existencial, se não refletir sobre sua essência. Não encontraremos o caminho de que verdadeiramente necessitamos, se nós mesmos não o buscarmos, usando nossos inerentes recursos da alma para perceber as inarticuladas orientações divinas em nós.

Somente cada um pode interpretar as razões da Vida em si mesmo.

Adotemos o aprendizado com o Senhor Jesus, exemplificado no Horto das Oliveiras: retiremo-nos para um lugar à parte e cultivemos os interesses de nossa alma.

Se não encontrarmos um recanto externo que facilite a meditação, nem alguma paisagem mais afastada junto à Natureza, onde possamos repousar da inquietação da multidão, mesmo assim poderemos penetrar o nosso santuário íntimo.

Sigamos o Mestre, recolhendo-nos na solidão e no silêncio do templo da alma, onde exclusivamente encontraremos as reais concepções do amor e da justiça, da felicidade e da paz, de que todos temos direito por Paternidade Divina.


Francisco do Espírito Santo / Hammed


(1) Lucas 22,39
(2) O Livro dos Espíritos (Allan Kardec), Questão 771 – Que pensar dos que fogem do mundo para se votarem ao mister de socorrer os desgraçados? “Esses se elevam, rebaixando-se. Têm o duplo mérito de se colocarem acima dos gozos materiais e de fazerem o bem, obedecendo à lei do trabalho.” Questão 771-a – E dos que buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam? “Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.”



Fonte: do livro (digital) "As Dores da Alma"
8ª ed., agosto/2000, Boa Nova - Editora e Distribuidora de livros espíritas
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal





O DAR DE DEUS (DANA PRAJNA PARAMITA)


"Não-apego é dar; isto é: não apegar-se a nada é, por si só, dar."


Falando em sentido relativo, tudo quanto existe na natureza, tudo quanto existe no mundo humano, toda obra cultural criada é algo que nos foi e está sendo dado. Mas como originalmente tudo é um, na verdade nós também estamos dando tudo. Momento a momento estamos criando alguma coisa e essa é a alegria da nossa vida. Mas esse "eu" que está sempre criando e dando alguma coisa não é o pequeno "eu", e sim o grande "eu". Mesmo que você não perceba a unidade desse grande "eu" com todas as coisas, ao dar algo, você se sente bem, porque nesse momento você se sente um com aquilo que está dando. Eis por que a gente se sente melhor dando que recebendo.

[...] O mestre Dogen disse: "Dar é não-apego". Quer dizer, não apegar-se às coisas é, por si só, dar. Não importa o que é dado. Dar um vintém ou uma folha que seja, é "dana prajna paramita"*. Dar uma linha ou mesmo uma palavra do ensinamento é "dana prajna paramita". A oferenda de algo material ou de um ensinamento, se feita com espírito de desapego, tem o mesmo valor. Com o espírito correto, tudo o que fazemos, tudo o que criamos é "dana prajna paramita". [...]

De acordo com o cristianismo, todas as coisas existentes na natureza foram criadas e dadas a nós por Deus. Esta é a ideia perfeita do dar. Mas se você pensa que Deus criou o homem e que você, de algum modo, está separado de Deus, você até é capaz de pensar que pode criar algo independente, algo que não tenha sido dado por Ele. Por exemplo, nós criamos auto-estradas e aviões e de tanto repetir "eu crio, eu crio, eu crio", acabamos esquecendo quem é realmente o "eu" que cria coisas e logo nos esquecemos de Deus. Este é o perigo da cultura humana. Na verdade, criar com o "grande eu" é dar; não podemos criar nem possuir o que criamos, uma vez que tudo é criado por Deus. Lembre-se sempre disto. É porque esquecemos quem é que está criando, e qual a razão da criação, que nos apegamos aos objetos ou ao seu valor de troca. Isto é insignificante comparado ao valor absoluto de algo como a criação de Deus. Ainda que uma coisa não tenha nenhum valor material ou relativo para o "eu pequeno", ela tem, em si, valor absoluto. Não estar apegado a uma coisa é estar consciente do seu valor absoluto. Tudo o que você faz deve ser baseado nessa consciência, e não em conceitos de valor material ou egocentrados. Então, o que quer que você faça é o dar verdadeiro, é "dana prajna paramita".

[...] Se você compreender "dana prajna paramita", entenderá como é que criamos tantos problemas para nós mesmos. Claro, viver é criar problemas... Se estamos cônscios de que aquilo que fazemos ou criamos é realmente o dom do "grande eu", então não nos apegamos ao feito, e desse modo não criamos problemas nem para nós nem para os outros.

Além do mais, dia após dia devemos esquecer o que fizemos; este é o verdadeiro não-apego. E devemos fazer algo novo. Para fazermos algo novo, é óbvio que precisamos conhecer nosso passado, e isso está certo. Mas não devemos agarrar-nos àquilo que fizemos; devemos apenas levá-lo em consideração. É igualmente necessário ter alguma ideia do que devemos fazer no futuro. Mas futuro é futuro e passado é passado; aqui, agora, devemos trabalhar em algo novo. Essa é nossa atitude, e é assim que temos de viver neste mundo. Isto é "dana prajna paramita": dar alguma coisa ou criar alguma coisa por nós próprios. Portanto, fazer alguma coisa é assumir nossa verdadeira atividade
criadora. [...]


Shunryu Suzuki



* "Dana prajna paramita". Dana significa dar, prajna é sabedoria, e paramita quer dizer atravessar ou alcançar a outra margem. Nossa vida pode ser vista como a travessia de um rio. O objetivo do esforço da nossa vida é alcançar a outra margem, o nirvana. Prajna paramita, a verdadeira sabedoria da vida, é alcançar a outra margem a cada passo do caminho. Alcançar a outra margem com cada um dos passos da travessia é o caminho do verdadeiro viver. (Shunryu Suzuki)



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budista-ritual-%C3%A1gua-budismo-1807518/

INTELIGÊNCIA É AMOR


A maioria pensa que inteligência é o resultado da aquisição de conhecimento, informação, experiência. Por ter grande soma de conhecimento e experiência, acreditamos ser capazes de fazer face à vida com inteligência. Mas a vida é uma coisa extraordinária, nunca é estacionária; como o rio, está fluindo constantemente, nunca para. Achamos que por amontoar mais experiência, mais conhecimento, mais virtude, mais riqueza, mais possessões, seremos inteligentes. Por isso, respeitamos as pessoas que acumularam conhecimento, os eruditos, e bem assim as que são ricas e cheias de experiência. Mas será a inteligência o resultado de “mais” disso ou “mais” daquilo? O que é que está por trás deste processo de adquirir mais, de desejar mais? Ao desejar mais, estamos às voltas com acumulação, não estamos?

Ora, o que acontece quando se acumulou conhecimento, experiência? Qualquer outra experiência que vocês tenham é imediatamente traduzida em termos de “mais e mais”, e vocês nunca estão realmente experimentando, mas estão sempre amontoando; e esse amontoar é o processo da mente, que é o centro do “mais e mais”. O “mais e mais” é o “eu”, o ego, a entidade encerrada em si mesma que só está preocupada em acumular, seja negativa ou positivamente. Assim sendo, com sua experiência acumulada, a mente se defronta com a vida. Ao defrontar-se com a vida, com esse acúmulo de experiência, a mente ainda está buscando “mais e mais”, de modo que nunca experimenta, só acumula. Enquanto a mente for apenas um instrumento de acumulação, não haverá verdadeira experimentação. Como podem vocês franquear-se à experiência quando estão sempre pensando em obter algo dessa experiência, em adquirir alguma coisa mais?

Por isso, o homem que está acumulando, amealhando, o que está desejando mais, nunca está experimentando a vida em primeira mão. É só quando a mente não está preocupada com o “mais e mais”, com acumular, que há a possibilidade de ser inteligente. Quando a mente está preocupada com o “mais e mais”, toda experiência ulterior fortifica a muralha do “eu” encerrado em si mesmo, o processo egocêntrico que é o centro de todo conflito. Façam o favor de acompanhar isto. Vocês acham que a experiência liberta a mente, mas ela não o faz. Enquanto a sua mente estiver afeta à acumulação, ao “cada vez mais”, toda experiência que tiverem apenas os fortifica em seu egocentrismo, em seu egoísmo, em seu processo fechado de pensar.

A inteligência só é possível quando há liberdade real em relação ao ego, em relação ao “eu”, isto é, quando a mente já não seja o centro da busca de “mais e mais”; quando ela já não está subjugada pelo desejo de experiência maior, mais vasta, mais expansiva. Inteligência é a liberdade em relação à pressão do tempo, não é? Porque o “cada vez mais” implica tempo, e enquanto a mente for o centro da busca de “mais e mais”, ela será o resultado do tempo. Por isso o cultivo do “cada vez mais” não é a inteligência. A compreensão de todo esse processo é o autoconhecimento. Quando alguém se conhece tal como é, sem um centro acumulador, desse autoconhecer provém a inteligência capaz de fazer face à vida; e essa inteligência é criativa.

Examinem suas próprias vidas. Considerem como são tediosas, estúpidas, estreitas, porque vocês não são criativos... Suas vidas estão cercadas de medo, e por isso há autoridade e imitação. Vocês não sabem o que é ser criativo. Por criatividade não entendo o pintar quadros, escrever poemas ou saber cantar. Refiro-me à natureza mais profunda da criatividade que, uma vez descoberta, é uma fonte eterna, uma corrente imorredoura; e ela só pode ser encontrada mediante a inteligência. Essa fonte é o intemporal; mas a mente não pode encontrar o intemporal enquanto for o centro do “eu”, do ego, da entidade que está eternamente pedindo “mais”.

Quando vocês compreenderem tudo isto, não só verbalmente, mas em profundidade, descobrirão que com a inteligência desperta ocorre uma criatividade que é realidade, que é Deus, coisa sobre a qual não se pode especular nem meditar. Vocês nunca chegarão a isso mediante... suas preces por “mais e mais” ou por escapar do “mais e mais”. Essa realidade só pode ocorrer quando vocês entenderem o estado de sua própria mente, a malícia, a inveja, as reações complexas, à medida que surgem, de momento a momento, cotidianamente. Ao entender essas coisas experimenta-se um estado que se pode chamar de amor. Esse amor é inteligência, e produz uma criatividade que é intemporal.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP (texto adaptado)
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 15 de julho de 2020

SOBRE A COMPUNÇÃO *


É uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos.

Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida.


Thomas Merton, OSB


* Contrição; sentimento de remorso, de culpa, de arrependimento; tristeza profunda por ter proferido ofensas; excesso de pesar, de sofrimento por ter praticado uma má ação.


Fonte: A vida silenciosa, Ed. Vozes, 2002, p.108
Via Associação Thomas Merton - https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/homem-pensamento-pensamentos-2546791/