quinta-feira, 11 de junho de 2026

A CURA É UMA FUNÇÃO DO AMOR


A psicologia dos budas, a visão psicológica do Oriente, não é nem análise nem síntese; é transcendência, é ir além da mente. Não é um trabalho que acontece dentro da mente, é o trabalho que leva você para fora da mente. Esse é exatamente o significado da palavra “êxtase” – sair de si.

Se você é capaz de ficar fora da sua própria mente, se é capaz de criar uma distância entre a sua mente e o ser, então deu o primeiro passo em direção à psicologia dos budas. Um milagre acontece: quando você está fora da mente, todos os problemas da mente desaparecem, porque a própria mente desaparece; ela deixa de ter controle sobre você. (...)

A psicologia dos budas corta as próprias raízes da árvore, responsáveis por todos os tipos de neurose, psicose, que deixam o ser humano fragmentado, o ser humano mecânico, o ser humano robotizado. (...)

A psicologia dos budas não funciona dentro da mente; não tem interesse em analisar ou sintetizar. Simplesmente ajuda você a sair da mente para dar uma olhada do lado de fora. E justamente esse olhar é uma transformação. No momento em que você consegue ver sua mente como um objeto, você se desapega dela, você se desidentifica; cria-se uma distância e as raízes são cortadas.

Por que as raízes são cortadas dessa maneira? Porque é você quem continua alimentando a mente. Se você se identifica, você alimenta a mente; se você não se identifica, pára de alimentá-la. Ela desaparece por conta própria. (...)

E isso acontece por si só, porque no momento em que se senta à margem da sua mente, você deixa de dar energia a ela. Isso é meditação de verdade. Meditação é a arte da transcendência. (...)

Fique mais consciente da sua mente. E, quando fizer isso, você perceberá o fato de que você não é a mente, e esse é o começo da revolução. Você começou a fluir cada vez mais alto. Você não está mais amarrado à mente. Ela funciona como uma pedra e mantém você embaixo. Mantém você dentro do campo de gravidade. No momento em que não está mais apegado à mente, você entra no campo búdico. Quando a gravidade perde o poder sobre você, você entra no campo búdico, e entrar no campo búdico significa entrar no mundo da "levitação". Você começa a flutuar, a subir.

A mente continua arrastando você para baixo. Portanto, não é uma questão de analisar ou sintetizar. É simplesmente uma questão de tomar consciência. (...)

A cura acontece quando você não está mais ligado à mente. Quando você está desconectado da mente, não identificado, absolutamente livre; quando a escravidão termina, a cura acontece.Transcendência é terapia de verdade, e não é apenas psicoterapia. Não é apenas um fenômeno limitado à sua psicologia, é muito mais que isso. É espiritual. Cura você no seu próprio ser. (...)

A propósito, por que você se tornou um doente mental? Porque aprendeu algo errado. Você aprendeu algo tão radicalmente errado que você é preso a isso. Você precisa de alguém que possa descondicionar você, que possa ajudá-lo a desaprender e a canalizar sua energia para um caminho diferente, isso é tudo. (...)

A sociedade continua sendo contraditória, incoerente, e continua ensinando a você coisas que são absolutamente erradas. Por isso a doença acontece; por isso surge o tumulto psíquico dentro de você, o conflito dentro de você. Então chega a um ponto em que tudo fica na maior desordem, de pernas para o ar. (...)

A cura é uma função do amor. O amor é a maior das terapias e o mundo precisa de terapeutas porque falta amor no mundo. Se as pessoas estivessem amando – se os pais tivessem amado, se professores tivessem amado, se a sociedade tivesse um clima amoroso – não haveria necessidade de terapia.

Todo mundo nasce para permanecer saudável e feliz. Todo mundo está buscando saúde e felicidade, mas em algum lugar algo está faltando e todo mundo fica infeliz. A infelicidade deveria ser uma exceção; tornou-se a regra. A felicidade devia ser a regra; tornou-se uma exceção. (...)


OSHO



Fonte: do livro "A verdadeira essência da iluminação"
Tradução: Denise de Carvalho Rocha
1ª ed., São Paulo/SP, Ed. Pensamento Cultrix, 2020.
Fonte da Gravura: https://www.pexels.com/pt-br/foto/adoraveis-suricatos-demonstram-afeicao-no-zoologico-29568986/

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA E ORAÇÃO SILENCIOSA


A ideia de Evágrio Pôntico (*) de aproximar-se de Deus através das Escrituras, da natureza e da oração pura foi um conceito fundamental para os Padres e Madres do Deserto.

Um dos sábios da época perguntou a Santo Antão: "Pai, como podes ser feliz quando és privado da consolação que a leitura dos livros traz?" Antão respondeu: "Meu amigo filósofo, meu livro é a natureza e todas as suas criaturas; e este livro está sempre diante de mim quando quero ler a palavra de Deus."

Encontramos este mesmo pensamento expresso no cristianismo celta: "Através das letras das Escrituras e de todas as espécies da criação, revela-se a luz eterna" (João Escoto Erígena, século IX). É uma experiência humana que transcende o tempo e o espaço. A contemplação da natureza ajuda-nos a deixar para trás os nossos pensamentos e imagens, que são o que obscurecem a Presença Divina. Tenho certeza de que muitos de vocês que estão lendo isto já tiveram uma experiência semelhante em algum momento, onde as fronteiras desaparecem, surge uma sensação de interconexão e admiração, um sentimento de "algo a mais" ao contemplar a natureza, como a beleza de um pôr do sol.

Essa mesma experiência também pode ser alcançada por meio da oração silenciosa, que pode ser obtida através de muitas formas de oração. Mas, para mim, é especialmente a meditação que permite que isso aconteça. A chave é se desapegar de pensamentos e imagens, até mesmo sobre Deus: "Quando estiver orando, não pense na Divindade como uma imagem formada dentro de você. Além disso, evite deixar que seu espírito seja impressionado pelo efeito de qualquer forma particular, mas, livre de toda matéria, aproxime-se do Ser incorpóreo, e você chegará a compreender essa eliminação gradual de todas as imagens e formas do eu e de Deus, o que lhe permitirá o contato direto com a Realidade Divina."

Os dois estágios da jornada espiritual aos quais Evágrio Pôntico se referiu, "praxis" e "theoria" — oração, a purificação dos impulsos do ego, e contemplação — caminham juntos. Não estamos falando de um processo linear; não se trata de se tornar um ser completo antes de alcançar a contemplação. É um processo de diferentes níveis de consciência que às vezes se sobrepõem e outras vezes se aprofundam. De fato, um nível de consciência súbito e profundo, uma "metanoia", uma mudança de rumo, uma nova maneira de ver a realidade, é frequentemente o início da jornada. Contudo, não devemos presumir que alcançaremos a Presença apenas por nossos próprios esforços, pois a graça desempenha um papel igualmente importante, como enfatiza Evágrio Pôntico:

"O Espírito Santo se compadece de nossa fraqueza e, embora sejamos impuros, muitas vezes vem nos visitar. Se Ele descobre que nosso espírito ora a Ele por amor à verdade, então Ele desce sobre ele e dissipa todo o exército de pensamentos e ideias que o assaltam. E Ele também o encoraja a se engajar na obra da oração espiritual."

Não precisamos ser perfeitos no início de nossa peregrinação em direção ao nosso verdadeiro Eu e ao Cristo que habita em nós. Tudo o que precisamos fazer é perseverar fielmente em nossa jornada de oração e estar abertos à mudança. Deixemos o medo de lado para que o amor possa tomar o seu lugar.


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/panorama-arco-%C3%ADris-tropical-atol-7373484/


Nota:
(*) Evágrio do Ponto ou Evágrio Pôntico foi um escritor, asceta e monge cristão. Evágrio dirigiu-se ao Egito, a «Pátria dos Monges», a fim de ver a experiência desses homens no deserto, e acabou por se juntar a uma comunidade monástica do Baixo Egito. (Wikipédia)