A reencarnação implica a formação de novo personagem em face da mudança de realidade que o Espírito enfrenta e forja. A cada reencarnação um novo personagem surge, sem prejuízo à individualidade do Espírito. O personagem morre quando o Espírito inicia nova experiência na dimensão seguinte, independentemente de ele conservar a memória das imagens referentes à sua identidade anterior. A morte do corpo físico sela a morte do personagem de cada encarnação, mesmo que a consciência continue assumindo a identidade imediatamente precedente à desencarnação. A conservação da identidade, ou representação conhecida de si mesmo, já não mais permitirá que o Espírito exerça sua cidadania em face da mudança de dimensão, por força da desencarnação ou da reencarnação. Trata-se de mecanismo cujo resultado é a existência de um espectro de personagens abrigados no perispírito do Espírito que lhe trazem uma maior compreensão a respeito da natureza humana e de Deus.
A reencarnação ainda é tida como o processo de retorno da atual personalidade a um novo corpo físico. Esta compreensão dificulta o entendimento preciso do que de fato ocorre. Impõe-se uma compreensão mais específica da reencarnação com a percepção do que reencarna, sobretudo o entendimento da relação do Espírito com seu personagem, sem o que se torna difícil perceber a natureza espiritual do ser humano e do que é ser imortal. A personalidade atual não é a anterior reencarnada. O Espírito que constituiu a personalidade anterior, da mesma forma que construiu a nova, é que reencarna. São duas distintas personalidades de um mesmo Espírito, que, por sua vez, possui muitas outras gravadas em sua memória. A mudança de personalidade, com características muito diferentes uma da outra, não implica alteração da individualidade. Mudanças biológicas, psicológicas e culturais não interferem na individualidade do Espírito.
A reencarnação é uma crença antiga, presente em muitas culturas, sobretudo no subcontinente indiano. Baseada na ideia de que a vida no corpo físico é uma punição para o ser espiritual, teve seu significado associado à ideia de causalidade, sendo justificada pela necessidade de aperfeiçoamento moral, mediante a aquisição de virtudes para que não mais a ela se submetesse. Com novos e recentes estudos científicos a respeito da reencarnação, fora do contexto religioso, sobretudo com relatos de crianças que se lembraram de suas vidas passadas, verificou-se que se trata de um fenômeno natural, não punitivo, mas educativo, que faz parte do fluxo natural da evolução de todo Espírito. Mais ainda, que a personalidade atual, mesmo guardando alguns traços da anterior, apresenta características que, ao menos aparentemente, sugere ser outra pessoa. Trata-se, porém, do mesmo ser humano, Espírito que retornou em outra roupagem, portanto, outro personagem.
A encarnação é processo obrigatório para a evolução dos Espíritos no nível de desenvolvimento em que se encontram aqui na Terra. Não é punição, não é descida nem involução, mas tão somente meio contínuo de conexão com um tipo de vibração denominada de material, para a integração de habilidades. Graças à encarnação, o Espírito formou um ego que lhe deu consciência de si como individualidade. A reencarnação possibilita a vivência de inúmeros personagens, que também, entre outros ganhos, permite ao Espírito a percepção das distintas faces de Deus.
Personagem, em uma concepção simples e fora do domínio religioso ou desconsiderando a imortalidade e a reencarnação, significa pessoa, ser humano, indivíduo no mundo, personalidade autônoma, representação de uma unidade humana. Quando se considera a imortalidade e a reencarnação, entende-se melhor que se trata da manifestação concreta do Espírito que, ao reencarnar ou ao desencarnar, constrói um determinado personagem. O Espírito, portanto, é considerado o senhor que conduz o personagem, ora identificando-se com ele, ora tentando guiá-lo para o atendimento de seus propósitos. Não se trata de uma dissociação psicológica, mas da percepção de si mesmo sob diferentes ângulos, visando educar a exteriorização do Espírito da forma adequada aos seus propósitos e de acordo com o meio em que se manifesta. Esta percepção permite um diálogo entre o Espírito e seu personagem para adequação de rumos, firmação de propósitos e para uma melhor compreensão dos aspectos sombrios da personalidade resultante.
O personagem formado pela nova reencarnação guarda, no perispírito que lhe presidiu a construção do novo corpo físico, a memória das experiências vividas anteriormente. Este novo personagem apresenta as tendências do Espírito, acumula a resultante das experiências que acontecerão na nova existência em um corpo, recebe as alterações oriundas das influências hereditárias que merece portar e é também influenciado pela educação doméstica e pelas contingências inerentes ao meio e à época. Todas estas características reunidas compõem a nova personalidade que apresenta, dando continuidade a sua evolução.
As memórias das experiências dos personagens anteriores vividos pelo Espírito influenciam a personalidade construída na nova encarnação, apresentando-se no formato de tendências, podendo, ou não, ter prevalência sobre a educação que recebe e as decisões que tome a respeito de suas novas condutas. Estas tendências podem influenciar em escolhas de profissão, de acasalamento, de religião, de local de moradia, portanto, em todo tipo de preferência e de decisão do Espírito. Os personagens anteriores vivem dentro do atual, tornando-o um ser alquímico e complexo com características que se misturam, formando o que conhecemos como sendo a natureza humana.
A opção consciente, fruto da cultura e da ignorância humana sobre si mesmo, de pensar e agir tendo como referência sua existência física, dificulta a compreensão de que se trata, ele mesmo, de uma representação possível, na dimensão em que se situa, de algo mais complexo, precedente e anterior, que lhe dá causa: o Espírito imortal. Sua percepção deveria ser de si mesmo como Espírito, utilizando um corpo, que construiu um personagem que momentaneamente o cooptou. Enquanto dure esta cooptação, reduz sua percepção de si mesmo, invertendo o olhar, colocando-se em busca de algo transcendente, acreditando que é ele mesmo, o ser limitado, o ego do personagem que criou, que deve se tornar divinizado. Quando amadurecer e tomar consciência plena de sua imortalidade, entenderá que sua essência é divina e tudo quanto considere ser a realidade está disponível para que se realize, moldando o Universo a seu favor.
A visão de si mesmo como pessoa finita encerrada em um corpo físico que delimita sua existência, submetida a uma realidade distanciada de sua natureza e contrária a ela, dificulta a percepção de que há um Espírito e de que é ele que deve manejar seu personagem. O entendimento de que se é uma pessoa finita e de que a realidade é algo externo, absoluto, em que está imerso, posta para que interaja e dela venha a extrair, nas experiências de contato, o necessário aprendizado, dificulta a compreensão de que, sendo Espírito, existe algo mais complexo a ser percebido e de que ela é completamente flexível ao seu pensamento. A realidade não é absoluta, nem tampouco, por ser material, se opõe ao Espírito, pois se trata de algo moldável e que se presta a ser a representação de todos os processos psíquicos internos do ser humano. A realidade deve ser compreendida como representação de tudo quanto existe na intimidade da mente humana, tendo sua contribuição como agente de transformação para se apresentar como é percebida. Não se trata de uma ilusão, pois não é possível existir sem representar-se, projetando-se em suas nuances.
O indivíduo tem que entender que a cooptação deve se inverter. O ego do personagem deve dar lugar ao ego do Espírito e a dimensão material ser olhada como uma experiência em que se formatiza uma representação limitada de um ser mais complexo, mais maduro e com mais habilidades. É preciso o personagem perceber a si mesmo e simultaneamente o Espírito que o constitui, o que não é simples nem se obtém por uma crença ou decisão instantânea e improvisada. É trabalho de desconstrução de conceitos e crenças em paralelo à construção de uma relação saudável entre ego do personagem e ego do Espírito. Torna-se possível com a consciência da imortalidade, com o entendimento de que a personalidade atual vai morrer quando deixar esta dimensão, com a ausência de medo ou receio do futuro, com a eliminação de culpas, com a disposição permanente de enfrentar os desafios da vida e com a leveza de ter uma suave relação com Deus.
Viver tão somente a vida do personagem, desprezando a riqueza de uma existência fundamentada na própria imortalidade, é um grande desperdício, com atraso na evolução e com distanciamento de seus afetos. A vida de um personagem com as experiências que vivencia é o meio para que o Espírito conquiste a integração de importantes habilidades evolutivas, que o capacitam a alcançar dimensões cada vez mais complexas e superiores. A dimensão material é tão somente uma das muitas em que o Espírito penetra e se estabelece, por um breve período, em sua jornada ascensional. Quando apreende tudo que é possível em uma dimensão, estabelece-se em outra mais evoluída, vislumbrando outra superior.
Cada personagem é uma face do Espírito, útil para que interaja com o mundo em que pretende aprender. É uma espécie de ferramenta que utiliza para se mostrar e para apreender, da realidade em que se situa, o máximo e o melhor para a compreensão de si mesmo. A integração de ambos deve dar primazia ao Espírito, sem prejuízo da importância do personagem no mundo físico. Espírito e seu personagem compõem mais uma das maravilhas do Criador, que sempre apresenta nuances inimagináveis àqueles que O veem como um salvador mágico e pronto para atender as rogativas pueris humanas.
Adenauer Novaes
Fonte: do livro "O Voo do Espírito"
Fundação Lar Harmonia
Salvador – Bahia
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