segunda-feira, 13 de julho de 2026

O QUE REENCARNA


A reencarnação implica a formação de novo personagem em face da mudança de realidade que o Espírito enfrenta e forja. A cada reencarnação um novo personagem surge, sem prejuízo à individualidade do Espírito. O personagem morre quando o Espírito inicia nova experiência na dimensão seguinte, independentemente de ele conservar a memória das imagens referentes à sua identidade anterior. A morte do corpo físico sela a morte do personagem de cada encarnação, mesmo que a consciência continue assumindo a identidade imediatamente precedente à desencarnação. A conservação da identidade, ou representação conhecida de si mesmo, já não mais permitirá que o Espírito exerça sua cidadania em face da mudança de dimensão, por força da desencarnação ou da reencarnação. Trata-se de mecanismo cujo resultado é a existência de um espectro de personagens abrigados no perispírito do Espírito que lhe trazem uma maior compreensão a respeito da natureza humana e de Deus.

A reencarnação ainda é tida como o processo de retorno da atual personalidade a um novo corpo físico. Esta compreensão dificulta o entendimento preciso do que de fato ocorre. Impõe-se uma compreensão mais específica da reencarnação com a percepção do que reencarna, sobretudo o entendimento da relação do Espírito com seu personagem, sem o que se torna difícil perceber a natureza espiritual do ser humano e do que é ser imortal. A personalidade atual não é a anterior reencarnada. O Espírito que constituiu a personalidade anterior, da mesma forma que construiu a nova, é que reencarna. São duas distintas personalidades de um mesmo Espírito, que, por sua vez, possui muitas outras gravadas em sua memória. A mudança de personalidade, com características muito diferentes uma da outra, não implica alteração da individualidade. Mudanças biológicas, psicológicas e culturais não interferem na individualidade do Espírito.

A reencarnação é uma crença antiga, presente em muitas culturas, sobretudo no subcontinente indiano. Baseada na ideia de que a vida no corpo físico é uma punição para o ser espiritual, teve seu significado associado à ideia de causalidade, sendo justificada pela necessidade de aperfeiçoamento moral, mediante a aquisição de virtudes para que não mais a ela se submetesse. Com novos e recentes estudos científicos a respeito da reencarnação, fora do contexto religioso, sobretudo com relatos de crianças que se lembraram de suas vidas passadas, verificou-se que se trata de um fenômeno natural, não punitivo, mas educativo, que faz parte do fluxo natural da evolução de todo Espírito. Mais ainda, que a personalidade atual, mesmo guardando alguns traços da anterior, apresenta características que, ao menos aparentemente, sugere ser outra pessoa. Trata-se, porém, do mesmo ser humano, Espírito que retornou em outra roupagem, portanto, outro personagem.

A encarnação é processo obrigatório para a evolução dos Espíritos no nível de desenvolvimento em que se encontram aqui na Terra. Não é punição, não é descida nem involução, mas tão somente meio contínuo de conexão com um tipo de vibração denominada de material, para a integração de habilidades. Graças à encarnação, o Espírito formou um ego que lhe deu consciência de si como individualidade. A reencarnação possibilita a vivência de inúmeros personagens, que também, entre outros ganhos, permite ao Espírito a percepção das distintas faces de Deus.

Personagem, em uma concepção simples e fora do domínio religioso ou desconsiderando a imortalidade e a reencarnação, significa pessoa, ser humano, indivíduo no mundo, personalidade autônoma, representação de uma unidade humana. Quando se considera a imortalidade e a reencarnação, entende-se melhor que se trata da manifestação concreta do Espírito que, ao reencarnar ou ao desencarnar, constrói um determinado personagem. O Espírito, portanto, é considerado o senhor que conduz o personagem, ora identificando-se com ele, ora tentando guiá-lo para o atendimento de seus propósitos. Não se trata de uma dissociação psicológica, mas da percepção de si mesmo sob diferentes ângulos, visando educar a exteriorização do Espírito da forma adequada aos seus propósitos e de acordo com o meio em que se manifesta. Esta percepção permite um diálogo entre o Espírito e seu personagem para adequação de rumos, firmação de propósitos e para uma melhor compreensão dos aspectos sombrios da personalidade resultante.

O personagem formado pela nova reencarnação guarda, no perispírito que lhe presidiu a construção do novo corpo físico, a memória das experiências vividas anteriormente. Este novo personagem apresenta as tendências do Espírito, acumula a resultante das experiências que acontecerão na nova existência em um corpo, recebe as alterações oriundas das influências hereditárias que merece portar e é também influenciado pela educação doméstica e pelas contingências inerentes ao meio e à época. Todas estas características reunidas compõem a nova personalidade que apresenta, dando continuidade a sua evolução.

As memórias das experiências dos personagens anteriores vividos pelo Espírito influenciam a personalidade construída na nova encarnação, apresentando-se no formato de tendências, podendo, ou não, ter prevalência sobre a educação que recebe e as decisões que tome a respeito de suas novas condutas. Estas tendências podem influenciar em escolhas de profissão, de acasalamento, de religião, de local de moradia, portanto, em todo tipo de preferência e de decisão do Espírito. Os personagens anteriores vivem dentro do atual, tornando-o um ser alquímico e complexo com características que se misturam, formando o que conhecemos como sendo a natureza humana.

A opção consciente, fruto da cultura e da ignorância humana sobre si mesmo, de pensar e agir tendo como referência sua existência física, dificulta a compreensão de que se trata, ele mesmo, de uma representação possível, na dimensão em que se situa, de algo mais complexo, precedente e anterior, que lhe dá causa: o Espírito imortal. Sua percepção deveria ser de si mesmo como Espírito, utilizando um corpo, que construiu um personagem que momentaneamente o cooptou. Enquanto dure esta cooptação, reduz sua percepção de si mesmo, invertendo o olhar, colocando-se em busca de algo transcendente, acreditando que é ele mesmo, o ser limitado, o ego do personagem que criou, que deve se tornar divinizado. Quando amadurecer e tomar consciência plena de sua imortalidade, entenderá que sua essência é divina e tudo quanto considere ser a realidade está disponível para que se realize, moldando o Universo a seu favor.

A visão de si mesmo como pessoa finita encerrada em um corpo físico que delimita sua existência, submetida a uma realidade distanciada de sua natureza e contrária a ela, dificulta a percepção de que há um Espírito e de que é ele que deve manejar seu personagem. O entendimento de que se é uma pessoa finita e de que a realidade é algo externo, absoluto, em que está imerso, posta para que interaja e dela venha a extrair, nas experiências de contato, o necessário aprendizado, dificulta a compreensão de que, sendo Espírito, existe algo mais complexo a ser percebido e de que ela é completamente flexível ao seu pensamento. A realidade não é absoluta, nem tampouco, por ser material, se opõe ao Espírito, pois se trata de algo moldável e que se presta a ser a representação de todos os processos psíquicos internos do ser humano. A realidade deve ser compreendida como representação de tudo quanto existe na intimidade da mente humana, tendo sua contribuição como agente de transformação para se apresentar como é percebida. Não se trata de uma ilusão, pois não é possível existir sem representar-se, projetando-se em suas nuances.

O indivíduo tem que entender que a cooptação deve se inverter. O ego do personagem deve dar lugar ao ego do Espírito e a dimensão material ser olhada como uma experiência em que se formatiza uma representação limitada de um ser mais complexo, mais maduro e com mais habilidades. É preciso o personagem perceber a si mesmo e simultaneamente o Espírito que o constitui, o que não é simples nem se obtém por uma crença ou decisão instantânea e improvisada. É trabalho de desconstrução de conceitos e crenças em paralelo à construção de uma relação saudável entre ego do personagem e ego do Espírito. Torna-se possível com a consciência da imortalidade, com o entendimento de que a personalidade atual vai morrer quando deixar esta dimensão, com a ausência de medo ou receio do futuro, com a eliminação de culpas, com a disposição permanente de enfrentar os desafios da vida e com a leveza de ter uma suave relação com Deus.

Viver tão somente a vida do personagem, desprezando a riqueza de uma existência fundamentada na própria imortalidade, é um grande desperdício, com atraso na evolução e com distanciamento de seus afetos. A vida de um personagem com as experiências que vivencia é o meio para que o Espírito conquiste a integração de importantes habilidades evolutivas, que o capacitam a alcançar dimensões cada vez mais complexas e superiores. A dimensão material é tão somente uma das muitas em que o Espírito penetra e se estabelece, por um breve período, em sua jornada ascensional. Quando apreende tudo que é possível em uma dimensão, estabelece-se em outra mais evoluída, vislumbrando outra superior.

Cada personagem é uma face do Espírito, útil para que interaja com o mundo em que pretende aprender. É uma espécie de ferramenta que utiliza para se mostrar e para apreender, da realidade em que se situa, o máximo e o melhor para a compreensão de si mesmo. A integração de ambos deve dar primazia ao Espírito, sem prejuízo da importância do personagem no mundo físico. Espírito e seu personagem compõem mais uma das maravilhas do Criador, que sempre apresenta nuances inimagináveis àqueles que O veem como um salvador mágico e pronto para atender as rogativas pueris humanas.


Adenauer Novaes



Fonte: do livro "O Voo do Espírito"
Fundação Lar Harmonia
Salvador – Bahia
distribuidora@larharmonia.org.br
www.larharmonia.org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/al%C3%A9m-vida-ap%C3%B3s-a-morte-1161899/

OS DOIS POLOS DO AMOR CRÍSTICO


O amor Crístico é uma força ativa em nós; uma força que irrompe pelas paredes que nos separam dos nossos semelhantes, que nos une aos outros; o amor Crístico nos leva a superar o sentimento de isolamento e de separação nos permitindo, porém, ser nós mesmos e retermos a nossa integridade. No amor Crístico, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois.

Ao dizermos que o amor Crístico é uma atividade, enfrentamos uma dificuldade que reside na significação ambígua desta palavra. Por “atividade”, no emprego moderno do termo, queremos, normalmente, nos referir a uma ação que produz mudança numa situação existente, por meio de gasto de energia. Assim, somos considerados em atividade quando fazemos negócios, estudamos, trabalhamos ou nos dedicamos a esportes. Todas estas atividades têm isto em comum; dirigem-se para um alvo exterior a ser alcançado. O que não se leva em conta é a motivação da atividade.

Vejamos, por exemplo, uma pessoa impelida a incessante trabalho por um sentimento de profunda insegurança e solidão; ou por outra, impulsionada pela ambição ou pela avidez por dinheiro. Em todos esses casos a pessoa é escrava de uma paixão, e sua atividade é de fato uma “passividade” porque ela é impelida; é a paciente e não o “sujeito”.

De outro lado, uma pessoa que se assente calma e contemplativa sem outro alvo que não o de se experimentar e a sua unidade com o mundo, é considerada como “passiva”, porque não está “fazendo” coisa alguma.

No entanto, esta atitude de meditação concentrada é a mais alta atividade que existe, uma atividade da alma; só possível sob condições de independência e liberdade interiores.

Um conceito moderno de atividade se refere ao uso de energia para consecução de metas externas, o outro conceito também moderno de atividade se refere ao uso dos poderes inerentes em nós, sem que importe a produção de qualquer mudança exterior. Note aqui os afetos ativos e passivos, “ações” e “disposições”. No exercício de um afeto ativo, somos livres, somos “senhores” do nosso afeto; no exercício de um afeto passivo, somos impelidos, e objetos de motivações de que nós próprios não temos consciência. Assim, virtude e poder são uma só e a mesma coisa. A inveja, o ciúme, a ambição, qualquer espécie de cobiça são paixões, criadas por nós quando usamos materiais das três Regiões inferiores do Mundo do Desejo (Astral *). Já o amor Crístico é uma ação, a uma prática nossa, que pode ser exercida com liberdade e nunca como resultado de uma compulsão!

O amor Crístico é uma atividade, e não um afeto passivo; é um “erguimento” e não uma “queda”. De modo mais geral o caráter ativo do amor Crístico pode ser descrito afirmando-se que o amor Crístico, antes de tudo, consiste em “dar, e não em receber”.

Que é “dar”? Embora pareça simples a resposta a esta pergunta, ela, em verdade, é cheia de ambiguidades e complexidades. O equívoco mais vastamente espalhado é o que entende que dar é “abandonar” alguma coisa, ser privado de algo, sacrificar. A pessoa cujo caráter não se desenvolveu além da etapa da orientação receptiva, explorativa ou amealhadora, experimenta o ato de dar dessa maneira. O caráter mercantil deseja dar, mas, só em troca de receber; dar sem receber, para ele, é ser defraudado. Aqueles cuja principal orientação é não produtiva sentem que dar é um empobrecimento. A maioria dos indivíduos desse tipo, portanto, recusa dar.

Alguns fazem do ato de dar uma virtude, para eles, reside no próprio ato de aceitação do sacrifício. Para eles, a norma de que é melhor dar do que receber significa que é melhor sofrer privação do que experimentar alegria.

Para o caráter produtivo dar tem um sentido inteiramente diverso. Dar é a mais alta expressão da potência. No próprio ato de dar, nós pomos a prova nossa força, nossa riqueza, nosso poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência nos enche de regozijo. Provamo-nos com superabundante pródigo, cheio de vida e, portanto, como regozijante.

Não é difícil reconhecer a validez desse princípio aplicando-o a vários fenômenos específicos. Na esfera das coisas materiais, dar significa ser rico. “Não é rico quem muito tem, mas quem muito dá”. O avaro que ansiosamente receia perder alguma coisa é, psicologicamente falando, uma pessoa pobre, a empobrecida, não importa quanto possua.

Quem é capaz de dar de si, este sim é rico. Põe-se à prova como quem pode conceder de si aos outros. Só quem for privado de tudo quanto vá além das mais simples necessidades da existência será incapaz de gozar o ato de dar coisas materiais. Mas a experiência diária mostra que aquilo que alguém considera como necessidade mínima depende tanto de seu caráter quanto de suas posses efetivas. É bem sabido que os pobres são mais inclinados a dar do que os ricos. Não obstante a pobreza além de certo ponto pode tornar impossível dar, e assim é degradante, não só pelo sofrimento que causa diretamente, mas pelo fato de privar o pobre da alegria de dar.

A mais importante esfera de dar, entretanto, não é das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa à outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas, que lhe dê aquilo que em si tem vivo: dê-lhe de seu regozijo, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza – de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si.

Dando assim de sua vida, enriquece a outra pessoa; valoriza na pessoa que recebe o sentimento da vitalidade ao valorizar o seu próprio sentimento de vitalidade.

Não dá a fim de receber; dar é, em si mesmo, requintada alegria. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado a vida se reflete de volta ao doador; ao dar verdadeiramente não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno.

Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo à vida. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas são gratas pela vida que para ambas nasceu.

Com relação especificamente ao amor Crístico, isso significa: o amor é uma força que produz amor. Só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança. Se queremos nos regozijar com a arte, devemos ser uma pessoa de sensibilidade e preparo artístico; se queremos ter influência sobre outras pessoas, deveremos ser uma pessoa que tenha sobre outras pessoas influência realmente estimuladora e promotora.

Cada uma de nossas relações com o semelhante e com a natureza deve ser uma expressão definida de nossa vida real, individual, correspondente ao objeto de nossa vontade. Se amamos sem atrair amor Crístico, isto é, se nosso amor Crístico é tal que não produz amor Crístico, se através de uma expressão de vida como pessoa amante não fazemos de nós mesmos uma pessoa amada, então nosso amor Crístico é impotente, é um infortúnio.

Mas não é só no amor Crístico que dar significa receber. O professor é ensinado por seus alunos; o ator é estimulado por sua audiência; o psicanalista é curado por seu cliente – contando que não se tratem uns aos outros como objetos, mas se relacionam uns com os outros produtiva e genuinamente.

Quase não é necessário acentuar o fato de que a capacidade de dar depende do desenvolvimento do caráter da pessoa. Pressupõe o alcançamento de uma orientação predominantemente produtiva; nessa orientação a pessoa superou a dependência, a onipotência narcisista, o desejo de explorar os outros, ou de amealhar, e adquiriu fé em seus próprios poderes humanos; coragem de confiar em suas forças para atingir seus alvos. No mesmo grau em que faltem essas qualidades é ela temerosa de se dar e, portanto, de amar como Cristo: o amor Crístico!



Fonte: Revista ‘Serviço Rosacruz’
Fraternidade Rosacruz de São Paulo/SP - agosto de 1967
Via: Fraternidade Rosacruz de Campinas/SP
www.fraternidaderosacruz.com
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/amor-cora%C3%A7%C3%A3o-m%C3%A3os-receber-dar-4209760/


Nota:
(*) Em outras Escolas e Tradições.