quinta-feira, 11 de junho de 2026

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA E ORAÇÃO SILENCIOSA


A ideia de Evágrio Pôntico (*) de aproximar-se de Deus através das Escrituras, da natureza e da oração pura foi um conceito fundamental para os Padres e Madres do Deserto.

Um dos sábios da época perguntou a Santo Antão: "Pai, como podes ser feliz quando és privado da consolação que a leitura dos livros traz?" Antão respondeu: "Meu amigo filósofo, meu livro é a natureza e todas as suas criaturas; e este livro está sempre diante de mim quando quero ler a palavra de Deus."

Encontramos este mesmo pensamento expresso no cristianismo celta: "Através das letras das Escrituras e de todas as espécies da criação, revela-se a luz eterna" (João Escoto Erígena, século IX). É uma experiência humana que transcende o tempo e o espaço. A contemplação da natureza ajuda-nos a deixar para trás os nossos pensamentos e imagens, que são o que obscurecem a Presença Divina. Tenho certeza de que muitos de vocês que estão lendo isto já tiveram uma experiência semelhante em algum momento, onde as fronteiras desaparecem, surge uma sensação de interconexão e admiração, um sentimento de "algo a mais" ao contemplar a natureza, como a beleza de um pôr do sol.

Essa mesma experiência também pode ser alcançada por meio da oração silenciosa, que pode ser obtida através de muitas formas de oração. Mas, para mim, é especialmente a meditação que permite que isso aconteça. A chave é se desapegar de pensamentos e imagens, até mesmo sobre Deus: "Quando estiver orando, não pense na Divindade como uma imagem formada dentro de você. Além disso, evite deixar que seu espírito seja impressionado pelo efeito de qualquer forma particular, mas, livre de toda matéria, aproxime-se do Ser incorpóreo, e você chegará a compreender essa eliminação gradual de todas as imagens e formas do eu e de Deus, o que lhe permitirá o contato direto com a Realidade Divina."

Os dois estágios da jornada espiritual aos quais Evágrio Pôntico se referiu, "praxis" e "theoria" — oração, a purificação dos impulsos do ego, e contemplação — caminham juntos. Não estamos falando de um processo linear; não se trata de se tornar um ser completo antes de alcançar a contemplação. É um processo de diferentes níveis de consciência que às vezes se sobrepõem e outras vezes se aprofundam. De fato, um nível de consciência súbito e profundo, uma "metanoia", uma mudança de rumo, uma nova maneira de ver a realidade, é frequentemente o início da jornada. Contudo, não devemos presumir que alcançaremos a Presença apenas por nossos próprios esforços, pois a graça desempenha um papel igualmente importante, como enfatiza Evágrio Pôntico:

"O Espírito Santo se compadece de nossa fraqueza e, embora sejamos impuros, muitas vezes vem nos visitar. Se Ele descobre que nosso espírito ora a Ele por amor à verdade, então Ele desce sobre ele e dissipa todo o exército de pensamentos e ideias que o assaltam. E Ele também o encoraja a se engajar na obra da oração espiritual."

Não precisamos ser perfeitos no início de nossa peregrinação em direção ao nosso verdadeiro Eu e ao Cristo que habita em nós. Tudo o que precisamos fazer é perseverar fielmente em nossa jornada de oração e estar abertos à mudança. Deixemos o medo de lado para que o amor possa tomar o seu lugar.


Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido do inglês para o espanhol por WCCM España, e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/panorama-arco-%C3%ADris-tropical-atol-7373484/


Nota:
(*) Evágrio do Ponto ou Evágrio Pôntico foi um escritor, asceta e monge cristão. Evágrio dirigiu-se ao Egito, a «Pátria dos Monges», a fim de ver a experiência desses homens no deserto, e acabou por se juntar a uma comunidade monástica do Baixo Egito. (Wikipédia)

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