Uma das primeiras ideias falsas que temos que eliminar ou modificar mediante o estudo profundo de nós mesmos, é a ideia ou a crença de que somos indivíduos. Isso é falso! Ainda não temos verdadeira individualidade! Em realidade, somos uma coletividade psicológica usando uma máscara de indivíduo. Em linguagem psicológica temos a dizer que o homem não é detentor de um único ego, como propôs Freud. Na dura realidade dos fatos diários notamos claramente que o homem é dotado de muitos egos que usam a mesma máscara, ou seja, a cada momento somos um eu diferente, mas para quem observa de fora sem atenção, parece ser um ego único por causa da máscara que utiliza para se expressar.
Dito de outra forma: num dado instante somos uma pessoa, no momento seguinte já somos outra pessoa totalmente diferente da primeira e ainda num terceiro instante somos uma terceira pessoa, sem nenhuma relação com as duas primeiras. Essa sucessão de eus acontece de forma permanente e contínua e em alta velocidade. A cada mudança externa, a cada pressão proveniente do mundo exterior (e mesmo do interior) muda o eu que está no comando da máquina.
O que cria no homem a ilusão da unidade do eu e que nos leva a crer que somos sempre um mesmo eu, único e imutável, é a integridade de nosso corpo físico, nosso nome, a memória e certos hábitos mecânicos desenvolvidos desde a infância pelos condicionamentos da educação. Porém, quando morrermos, não tendo mais a âncora do corpo, nos sentimos perdidos e sem rumo; esse é o grande drama de quem desencarna de consciência adormecida.
Desse modo, tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre sermos chamados pelo mesmo nome e tendo a capacidade de recordar fatos passados, cremos ser sempre os mesmos. Infelizmente, no atual estado humano não temos um centro permanente de consciência. Não existe em nós uma vontade única; não existe em nós uma mente única; nem uma emoção ou sentimento permanente – porque não existe em nós um centro permanente de consciência nem uma personalidade única. Existem, sim, dezenas ou centenas de mentes; existem, sim, dezenas ou centenas de vontades; existem, sim, dezenas ou centenas de sentimentos, desejos, sonhos, ilusões, fantasias, aspirações etc. Em resumo: Somos uma pluralidade ambulante (ou como disse aquele poeta, somos “uma metamorfose ambulante”).
Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou cada “eu não gosto”, é sempre um “eu” diferente. Todos esses “eus” não estão ligados entre si ou coordenados por algo entre si. Cada um deles, isoladamente, pode assumir o controle de um ou mais centros psicofisiológicos e manejar a máquina humana a seu bel prazer. Para que cada um desses eus possa se manifestar e conduzir a máquina humana, depende de situações externas ou internas e de mudanças de impressões. Cada eu desencadeia mecânica e automaticamente um ou vários outros eus em associações aleatórias. Do mesmo modo como existem afinidades entre as pessoas aqui neste mundo também existem afinidades entre as dezenas ou centenas de eus que habitam nossa mente.
Isso não quer dizer que haja ordem, hierarquia, sistema. Pelo contrário: o ego pluralizado é o caos dentro de nós, fazendo com que sejamos criaturas confusas e sem continuidade de propósitos; é a coletividade dentro do indivíduo; é a mesma sociedade externa dentro do reino interno; por isso mesmo, o que vemos no mundo externo é a exata projeção de nossa realidade interna. O mundo exterior não é melhor porque não somos melhores internamente. O exterior é a projeção do interior.
Alguns desses eus têm vínculos naturais entre si, porém o mais comum é que eles se associem acidentalmente devido ao funcionamento mecânico da máquina ao pensar, sentir ou recordar alguma cena. Cada um desses eus representa, num dado momento, apenas uma ínfima parte de nossas funções, ainda que cada um deles se creia o todo, o conjunto, o único e imutável eu.
Quando um homem diz “eu” ele tem a impressão de que fala de si como se fosse sua totalidade, mas ainda que assim acredite, na realidade está falando apenas de um simples pensamento ou de uma simples emoção ou recordação ou fato passageiro que pode durar apenas um segundo, alguns segundos ou pior ainda, sutileza das sutilezas, uma fração de segundos. Uma hora mais tarde — pouco mais, pouco menos — esse homem poderá ter esquecido completamente o que disse e que promessas fez; e com a mesma convicção expressará outra ideia ou opinião totalmente diferente. E a cada novo dia, menos encontramos pessoas de palavra...
(...) Esse é o motivo pelo qual o ser humano é tão contraditório e difícil de se relacionar. A boa notícia é que essa realidade pode ser modificada. Aquele que se propuser a se tornar uma pessoa íntegra, dotada de um centro único de gravidade, poderá chegar lá.
Todos esses acontecimentos e fenômenos descritos nos parágrafos anteriores acontecem dentro da máquina humana, ou seja, dentro do corpo mental, do corpo de desejos *, do corpo vital * e do corpo físico. Dentro desse quaternário inferior estão localizados cinco centros psicofisiológicos, que funcionam como se fossem cinco cilindros de um motor. Esses cinco cilindros são, de acordo com sua finalidade ou função, denominados de:
1. centro intelectual
2. centro motor
3. centro emocional
4. centro instintivo
5. centro sexual
Um dos motivos da sobrevivência e continuidade dos “eus” são os amortecedores. Normalmente, eles são criados de forma involuntária pelo homem. Esse processo começa na infância, quando somos surpreendidos fazendo “artes” de criança. Como nosso pai ou nossa mãe “não gostam” que façamos isso ou aquilo, para “ocultar” nosso “erro”, negamos (mentimos). Assim tem início o processo de defesa, da mentira que, com o tempo, mascara a realidade, atenuando os impactos dos eventos naturais e de relacionamento em nossa vida.
Hoje, sem a máscara da mentira, o convívio social seria impossível. Usamos máscaras e mentiras para esconder nossas contradições, nossas próprias mentiras, nossas invejas, nossos ódios, nossos desejos de vingança etc. Se há algo que não somos hoje - por absoluta incapacidade de sê-lo - é ser honestos; não somos honestos nem conosco mesmos, nem com nossos semelhantes. Só as crianças, no começo da vida, são 100% honestas, espontâneas, puras, inocentes. Por isso dizem coisas que surpreendem os adultos, embaraçando-os muitas vezes diante de estranhos ou de amigos. É porque as crianças ainda não formaram os amortecedores (os processos das mentiras e das autojustificativas).
Um homem sem amortecedores é considerado louco, debiloide ou infantil. Os loucos não têm amortecedores, tal qual as crianças e os animais, que dizem e fazem o que querem, de forma simples e natural, sem se importarem com as reações dos demais e sem se preocuparem com sua autoimagem, sua autoimportância e seu amor próprio. Os Mestres de Sabedoria também não têm amortecedores, mas como são escolados pela vida, sabem calar-se prudentemente e sabem agir de forma reta e equilibrada; por isso não são compreendidos pelo homem atual. A humanidade rejeita os Mestres de Sabedoria por não compreendê-los; não compreendendo, os temem; temendo, matam. Já os loucos ou desequilibrados mentais são pessoas sem autocontrole e muitas vezes realmente se tornam ameaçadoras e violentas.
De um modo ou de outro, para se sentir seguro e tranquilo, o homem atual necessita de amortecedores, verdadeiro ópio que o mantém escravo das aparências e das opiniões alheias. Por isso, esse “homem” não tem em si a capacidade de fazer algo; as coisas simplesmente acontecem na sua vida, e ele não tem escolha; segue obrigatoriamente o curso natural dos acontecimentos da vida cotidiana.
Os amortecedores, as máscaras, o verniz social impedem qualquer tipo de vida psíquica (espiritual) verdadeira. Não há nem pode haver crescimento espiritual enquanto vivermos essa farsa. Portanto, a primeira decisão que uma pessoa séria e determinada precisa tomar, caso queira realizar dentro de si um novo mundo psicológico ou espiritual, é acabar com o processo da mentira e começar a ser honesto consigo mesmo; mentimos aos demais porque não temos consciência que mentimos a nós mesmos o tempo todo; nunca percebemos nossas próprias mentiras, nem nos damos conta de nossas incoerências e contradições.
Enquanto houver máscaras, mentiras e farsas, todos os choques psicológicos proporcionados pela vida para o despertar da consciência, resultarão inúteis, pois serão atenuados pela “interpretação”, pelo “amortecimento”, pelas justificativas (as mentiras). Com isso estaremos impossibilitados de sentir ou perceber nossa própria consciência. O drama maior dessa triste realidade é que não poderá haver Iluminação, nem avanço espiritual verdadeiro sem eliminar a mentira dentro de nós.