quarta-feira, 18 de março de 2015

PROBLEMAS DA EVOLUÇÃO

A semente, portadora de vida, quando colocada para germinação, experimenta a compressão do solo e sua umidade, desenvolvendo os fatores adormecidos e passando a vigorosas transformações celulares. Intumesce-se e, dirigida pela fatalidade biológica, desata a vida sob nova forma, convertendo-se em vegetal, para repetir-se, ininterruptamente, em futuras sínteses...

A criatura humana, de alguma forma fadada à perpetuação da espécie e à sua plenificação, encarna-se, reencarna-se, repetindo as façanhas existenciais até atingir o clímax que a aguarda. Em cada etapa nova remanescem as ocorrências da anterior, em uma cadeia sucessória natural. E através desse mecanismo os êxitos abrem espaços a conquistas mais amplas e complexas, assim como o fracasso em algum comportamento estabelece processos que impõem problemas no desenvolvimento dos cursos que prosseguem adormecidos.

Esmagada pelas evocações inconscientes do agravamento da experiência, ou sem elas, a criatura caracteriza-se, psicologicamente, por atitudes de ser fraco ou forte, segundo James, como decorrências do treinamento na luta a que foi submetida, podendo, bem ou mal, enfrentar os dissabores ou as propostas de crescimento e graças a essa conduta se torna feliz ou atormentada.

Ninguém se encontra isento do patrimônio de si mesmo como resultado dos próprios atos. São eles os responsáveis diretos por todas as ocorrências da marcha evolutiva, o que constitui grande estímulo para o ser, liberando-o dos processos de transferência de responsabilidade para outrem ou para os fatores circunstanciais, sociais, que normalmente são considerados perturbadores.

Mesmo quando os imperativos genéticos inculpem situações orgânicas ou psíquicas constritoras no indivíduo, esses se derivam da conduta pessoal anterior, e devem ser considerados como estímulos ou métodos corretivos, educacionais, a que as Leis da Vida recorrem para o aprimoramento dos seres humanos.

O estado de humanidade já é conquista valiosa no curso da evolução; no entanto, é o passo inicial de nova ordem de valores, aguardando os estímulos para desdobra-los todos, que jazem adormecidos — Deus em nós — para a aquisição da angelitude.

Da insensibilidade inicial à percepção primária, dessa à sensibilidade, ao instinto, à razão, em escala ascendente, o psiquismo evolve, passando à intuição e atingindo níveis elevados de interação com a Mente Cósmica.

Os indivíduos, no entanto, mergulhados no processo do crescimento, raramente se dão conta de que o sofrimento, que é fator de aprimoramento, ainda constitui instrumento de evolução, em se considerando o estágio de humanidade.

Assim posto, o autoconhecimento desempenha relevante papel no adestramento do ser para a sua superação e perfeita sintonia com a paz.

Nesse desiderato, são investidos os mais expressivos recursos psicológicos e morais, de modo a serem alcançadas as metas que se sucedem, patamar a patamar, até alcançarem o nível de libertação interior.

Mediante esse comportamento surgem os problemas, as dificuldades naturais que fazem parte do desempenho pessoal e da sua estruturação psicológica.

Quando imaturo, o ser lamenta-se, teme e transforma o instrumento de educação em flagelo que o dilacera, tornando-se desventurado pela rebeldia ou entrega de ânimo, negando-se à luta e autodestruindo-se, sem se dar conta.

Surgem, então, como decorrência da sua falta de valor moral, os transtornos depressivos ou de bipolaridade, que o conduzem a lamentável estado de autoabandono, portanto, de autocídio.

Há pessoas que afirmam ter problemas, por cultivá-los sem cessar, transferindo-se de uma dificuldade para outra, vitimadas pelo egoísmo, pela autocomiseração, pelo amor-próprio exacerbado.

Há aqueles que têm problemas e não se encontram dispostos a enfrentá-los, a solucioná-los, esperando que outros o façam, porque se consideravam isentos de acontecimentos dessa ordem, negando-se, mesmo sem o perceberem, à mudança de estágio evolutivo.

Outros há que vivem sob problemas, preservando-os mediante transferências psicológicas continuadas, assim adiando as soluções no tempo e no lugar, ignorando-os e ignorando-se. Esses cultivadores da ilusão fantasiam-se de felizes até os graves momentos, quando irrompem as cobranças da vida - orgânicas, sociais, econômicas, emocionais -, encontrando-os entorpecidos e distantes da realidade.

Na maioria das vezes, porém, as pessoas são os problemas, que não solucionam nos pequenos desafios, mas os transformam em impedimentos, assim deixando-se consumir por desequilíbrios íntimos nos quais se realizam psicologicamente.

É lícito e natural que cada pessoa se considere humana, isto é, com direito aos erros e aos acertos, não incólume, não especial.

Quando erra, repara; quando acerta, cresce.

A evolução ocorre através de vários e repetidos mecanismos de erro e acerto, desde os primeiros passos até a firmeza de decisão e de marcha.

Reflexão e diálogo, honestidade para consigo mesmo e para com o seu próximo, esforço constante para a identificação dos limites e ampliação deles constituem terapias e métodos para transformar os problemas em soluções, as dificuldades em experiências vitoriosas, crescendo sem cessar.

O ser psicológico, amadurecido, ama e confia, fitando o alvo e avançando para ele, sem ter, nem ser problema na própria trajetória.




Joanna de Ângelis / Divaldo Pereira Franco





Fonte: do livro "AUTODESCOBRIMENTO - UMA BUSCA INTERIOR",
Ed. LEAL, 17ª ed., Salvador/BA, 2013
Fonte da Gravura: Monte Kailash
Fotografía de Rosa Sorrosal
http://www.good-will.ch/postcards_es.html

PARA SER PERFEITO É PRECISO MUDAR FREQUENTEMENTE

Winston Churchill disse certa vez:" Para melhorar é preciso mudar. Para ser perfeito é preciso mudar frequentemente."

Este mundo foi criado para nos dar o ambiente para mudarmos! Para subirmos a escada da transformação e nos tornarmos um ser espiritualmente evoluído.

Quando passamos por dificuldades, é porque a grandiosa sinfonia da vida nos colocou naquela situação para que a nossa alma pudesse passar pelo seu processo de correção. Toda pessoa que foi colocada neste mundo nasce em uma determinada família ou ambiente, em função de suas vidas passadas, para melhorar o trabalho de sua alma. 

Tudo o que vivenciamos é para nos ajudar a evoluir e mudar. A alma pode viajar através de muitas diferentes vidas para alcançar sua perfeição, tornar-se integral e, ao final voltar à sua Fonte, o Criador.

A questão é que viemos a este mundo para mudarmos. E quando um número suficiente de pessoas despertar para esse entendimento e começar a verdadeiramente trabalhar em si mesmas e abraçar essa mudança, seremos capazes de mudar o mundo para melhor de uma forma muito expressiva.

Existe uma oração denominada "Shacharit", que os kabalistas rezam pela manhã. Shacharit significa "escuridão" e então, a pergunta é :Por que uma oração matutina seria chamada "escuridão"? Não seria mais apropriado denominá-la luz? Ou Sol? Ou manhã? Quero dizer, qual é o segredo nesse nome?

O que aprendemos é que a oração se chama escuridão porque representa a escuridão antes do amanhecer. Quanto mais caos virmos do lado de fora e quanto mais poeira for sacudida do tapete, por assim dizer, mais perto estaremos do fim da escuridão.

Mas a única coisa que podemos mudar para contrabalançar a escuridão que enxergamos lá fora é nossa própria consciência - nossa capacidade de sermos servidores da Luz do Criador. Todos nós precisamos nos tornar soldados da Luz, pois é assim que conseguiremos dar entrada ao amanhecer.

Não precisamos esperar uma tragédia acontecer para despertarmos para a necessidade de mudança. Se abrirmos nossos olhos e nos sintonizarmos um pouquinho mais com nossa vida, descobriremos que temos oportunidades todos os dias de transformar negatividade em positividade.

Geralmente, quando alguém ou alguma situação nos desafia, nosso primeiro pensamento é: “Como posso fazer esta situação ir embora o mais rápido possível?”, em vez de pensarmos: “Qual a lição para eu aprender aqui ? Por que isso está acontecendo?” Às vezes, podemos afastar a situação com tanta rapidez que nem percebemos que perdemos uma oportunidade de nos transformarmos.

Hoje, vamos estar prontos para agarrar as oportunidades que o universo nos apresenta para mudarmos a nós mesmos para melhor. Essa é a maior dádiva que podemos receber.

Às vezes, criamos desculpas para explicar por que não conseguimos seguir em frente em nosso caminho espiritual. Por exemplo, uma pessoa pode dizer: "Já fiz tantas coisas em minha vida, não há mais nenhum lugar para eu ir. O lado negativo tem tanta força sobre mim, sou um caso perdido."

Nesses momentos, precisamos lembrar que mesmo na mais baixa alma sobre a terra, e mesmo e especialmente nos lugares mais escuros de nossas vidas existe o poder da Luz.

Às vezes, colocamos a nós mesmos em uma rígida dieta espiritual. O foco de nossas energias é dirigido a nos conectarmos com ferramentas espirituais, a nossa consciência com relação à maneira como podemos ajudar os outros, a nossa energia para superar aqueles vícios ruins que nos mantém prisioneiros do nosso ego. Mas, então, por algum motivo, afrouxamos a dieta um pouquinho e, cada vez que caímos, vamos nos aproximando mais do dia em que diremos: "Chega de tudo isso. Eu não consigo mudar."

Minha esperança para todos nós é que, em vez de jogar a toalha quando tropeçamos em nosso caminho, vejamos a experiência aparentemente negativa como ela realmente é: uma oportunidade perfeita de levantar a poeira e dar a volta por cima, escolher estar ainda mais conscientes de nossas ações e servir ao bem do universo o mais que pudermos.

Qualquer dificuldade, desafio, ou negatividade que experimentarmos em nossas vidas, estará ali para nos ajudar a crescer ou para nos purificar.

Já dissemos isso centenas de vezes, e diremos novamente. Sem dor, não conseguimos crescer.

Quando nos exercitamos e levantamos pesos e nos esforçamos fisicamente, nossos corpos se tornam mais fortes. Isso nós entendemos e aceitamos.

Mas, quando se trata de nossa força interior e de “construir” nossa alma, há momentos em que queremos as coisas de graça, quando não queremos levantar os pesos pesados necessários para o nosso verdadeiro crescimento espiritual.

Em outras ocasiões, sentimos que realmente nos esforçamos e pensamos: “Ok, então agora será que não posso apenas dar uma relaxada?” ou “Ok, cadê o meu premio?” Nesses momentos é melhor reconsiderar nossos objetivos, porque a força e a Luz que construímos dentro de nós mesmos é a recompensa por nosso trabalho espiritual.

A chave é a certeza de que, independente do que acontecer em nossas vidas neste momento, isso é o melhor para nosso processo e nosso crescimento.




Karen Berg




Fonte: Centro de Cabala
www.kabbalah.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 17 de março de 2015

MOTIVAÇÃO - LEVEZA - INOCÊNCIA - MUDANÇAS - LIBERDADE

Em latim, a raiz da palavra “movimento” é "motus anima", que significa “o espírito que nos move. Motivo e motivação também têm suas raízes em “mover. Perguntar o que me motiva é perguntar o que me move, o que coloca minha consciência em movimento. Então se pergunte: Essa energia que me faz mover vem de dentro ou de fora? A verdadeira motivação é intrínseca. E o segredo da automotivação está tão perto de casa que até nos esquecemos dele. O segredo está na própria mente. Pensar com prazer e ser criativo. Nossas satisfações mais profundas na vida não vêm no fim de algo mas no processo de criar e dar forma a algo. (Mike George)

Se eu permitir que os obstáculos me paralisem, ficarei mais preocupado com eles e não conseguirei progredir. Quero avançar rápido, mas fico sem ar ao correr. E me pergunto: como posso avançar? Para correr, uma pessoa precisa ser leve. Então, não importa o que aconteça, nunca perca sua leveza. A leveza é a resposta para superar as dificuldades. Seja leve o bastante para correr e permaneça em sua própria raia. Não fique no caminho de outra pessoa. Continue correndo em linha reta, mantenha seus olhos abertos e só olhe adiante. (Dadi Janki)

A humildade coloca uma pena a mais em nossas asas. Esta virtude nos mostra o caminho mais suave, rápido e seguro para qualquer lugar. Todos se aproximam e oferecem ajuda àqueles que são humildes. Com humildade os corações se abrem e grandes tarefas se tornam fáceis. Humildade é a virtude que lega todos os seus poderes aos outros. Uma pessoa humilde tem consciência do seu valor, mas não o enaltece.

Assim como o pai sempre tem esperança no filho, Deus, o Pai das almas, só vê o que há de bom em seus filhos. Ele também sabe que não somos o mal, mas nos deixamos possuir pelo mal. Porque somos filhos do Senhor que é Inocente, e também temos o 'gene' da inocência. Resgatar essa virtude no mundo presente, onde reina a falsidade, a ganância e a esperteza, é como encontrar água no deserto. Ser inocente não é ser tolo, é estar além e a salvo do mal.

Se palavras ofensivas foram trocadas, por que não ver tal situação como uma chance para checar quais aspectos do nosso caráter precisam ser mudados? Dessa forma podemos transformar qualquer coisa numa lição construtiva. Nunca deveríamos pensar que aprendemos o suficiente e que podemos parar. Deveríamos ser gratos pelas críticas e conselhos das pessoas. Isso nos mantém alertas, nos dá a oportunidade de colocar nossa verdade na prática.

Assim como um pássaro não pode voar até que ele deixe o galho, eu só posso ser livre quando deixo as limitações. A maioria das limitações que eu vivo vem do meu próprio pensar. Quando penso que não sou capaz de fazer alguma coisa, que não sou capaz de deixar alguma coisa, que não sou capaz de criar a vida que eu quero, eu estou me mantendo preso ao galho. Deixar de lado os pensamentos limitados sobre o eu é o primeiro passo para voar. (365 Beautiful Thoughts, Brahma Kumaris, Canada)




Brahma Kumaris





Fonte: www.bkumaris.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 16 de março de 2015

A CRISE NO CAMPO DA IDEAÇÃO

Obviamente, a presente crise mundo afora é excepcional, sem precedente. Houve crises de vários tipos em diferentes períodos ao longo da história - sociais, nacionais, políticas. As crises vão e vêm; recessões econômicas, depressões, chegam, são modificadas e continuam sob diferente forma. Sabemos disso; estamos familiarizados com esse processo.

Certamente a crise atual é diferente, não é? É diferente, primeiro, porque estamos tratando não com dinheiro nem com coisas tangíveis, mas com ideias. A crise é excepcional porque está no campo da ideação. Estamos discutindo com ideias, estamos justificando o assassinato; em todo lugar do mundo estamos justificando o assassinato como meio para um fim correto, o que em si não tem precedente. 

Antes, o mal era reconhecido como mal, assassinato era reconhecido como assassinato, mas hoje assassinato é um meio para se obter um resultado nobre. O assassinato, seja de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, é justificado, pois o assassino, ou o grupo que o assassino representa, o justifica como meio de obter um resultado que beneficiará o homem.

Ou seja, nós sacrificamos o presente pelo futuro, e não importam os meios que empregamos desde que declaramos que nosso propósito é produzir um resultado que afirmamos, será benéfico ao homem.

Assim, a implicação é que um meio errado produzirá um fim correto e você justifica o meio errado através da ideação. Nós temos uma magnífica estrutura de ideias para justificar o mal e, certamente, isso não tem precedente.

Mal é mal; não pode produzir bem. A guerra não é um meio para a paz.




J. Krishnamurti





Fonte: The Book of Life
http://www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura:
http://www.taringa.net/posts/ciencia-educacion/16865761/Jiddu-Krishnamurti.html
http://fightlosofia.com/krishnamurti-en-imagenes-krishnamurti-in-pictures/

O NOME DE DEUS E SEUS ATRIBUTOS

Os cabalistas exprimem o nome de Deus através de uma só letra chamada "iod", assim representada י; ela forma a décima letra hebraica e corresponde igualmente ao número 10.

A unidade desse número representa o primeiro princípio; o zero é um sinal hieroglífico que forma o emblema do mundo. (1)

A primeira proporção do compasso, isto é, a primeira figura geométrica, dá por resultado o número 10. É preciso, necessariamente, apoiar-se sobre um ponto, sem o qual não se pode operar; prolongando-se esse ponto tem-se uma linha; prolongando-se essa linha, obtém-se uma superfície, e, percorrendo-se esta superfície, tem-se uma figura com a mesma forma do zero. O ponto de centro forma a unidade que é o número 1; o valor desses dois algarismos é 10, símbolo de Deus e do universo. (2)

Desde um ponto até o número 1, etc., tudo existe; e além do número 1, e da forma de um ponto, o infinito começa... Mas antes do infinito, antes do número 1 e antes da forma de um ponto, nada existe.

Consequentemente, nada é o princípio de toda coisa, e a partir dele Deus criou tudo o que existe no universo.

Os magos representam os três principais atributos da divindade através da letra "iod", repetida três vezes, em forma de triângulo, encerrada em um círculo. (3)

O primeiro atributo é o tempo, símbolo da eternidade. É o emblema do Pai Eterno que se divide em três partes, a saber: o passado, o presente e o futuro.

O segundo é o espaço, que representa o infinito, e divide-se em longitude e latitude; é o símbolo da cruz e do Cristo.

O terceiro é a matéria, que se divide e se subdivide infinitamente através do movimento perpétuo e universal, símbolo do espírito eterno, que é a alma do mundo ou o Espírito Santo.

Tudo o que existe na natureza passa por esse triângulo místico, o que significa que tudo cresce, se destrói e se reproduz. (4)

O grande nome de Deus, adorado por todos os sábios filósofos do universo, é denominado "Jehovah" יהוה: esse nome sagrado é conhecido por todos os sábios e é composto de quatro letras hebraicas.

Os antigos sábios e os primeiros fundadores das nações do mundo escreveram esse nome, cada um em sua língua, com quatro letras, e todos esses nomes divinos designam os diferentes atributos da Divindade; eles correspondem ao grande nome quaternário que preside a terra (5), aos quatro pontos cardeais, aos quatro elementos e às quatro estações que a cruz representa.

A letra inicial "iod" י, do nome "Jehovah" יהוה, exprime o Pai ou a primeira pessoa, os dois "he" הה simbolizam as duas naturezas do Filho, ao mesmo tempo agente e paciente, e a letra "vau" ו, que as une, representa o Espírito Santo, o Rouach Elohim, isto é, o espírito de Deus que ordenou o caos.

Segundo Voltaire (6), "apenas na França se pronuncia "Jehovah", quando se deve pronunciar "Ieve"; é assim que se acha escrito no Sanchoniaton. No Oriente, esse nome sagrado compôs-se de quatro vogais i, e, o, u; uns pronunciavam "ieoh", aspirando "ieova", outros "yeaou"; era preciso que tivesse sempre quatro letras, ainda que coloquemos cinco devido à impossibilidade de exprimir os quatro caracteres".

Acrescenta ainda, segundo a narração de Clément d'Alexandrie, que, "captando-se a verdadeira pronúncia desse nome, poder-se-ia matar um homem. Clément cita um exemplo". E em outra passagem que "os judeus não pronunciam esse nome há muito tempo, ele era comum aos Fenícios e Egípcios. Significava o que é, e provavelmente daí advenha a inscrição de ísis: Eu sou tudo o que é''.

Os cabalistas hebreus dizem que Deus comunicou a Moisés a verdadeira pronúncia de seu nome inefável, sobre o Monte Sinai, com todos os principais mistérios da lei; desde então, esse nome foi, cuidadosamente, ocultado por Moisés nas dobras do forro das vestes sacerdotais.

Segundo Kircher (7) , somente o grande sacerdote tinha o direito de pronunciá-lo por esses caracteres, uma só vez na semana (8). Outros dizem "que o grande sacerdote o proferia no templo uma só vez ao ano, no dia dez do mês "thishri" (setembro) (9), dia de jejum e de expiação; nessa ocasião "Jehovah" era dito "Schemhammephorasch" ("Shem hameforash") שמהמפורש, que significa "nome bem pronunciado e explicado"; porém recomendava-se ao povo que fizesse muito barulho durante essa cerimônia, a fim de que o nome sagrado só fosse ouvido por aqueles que tivessem direito a ouvi-lo, pois, dizem os judeus, qualquer outro que o ouvisse seria acometido de morte repentina".

Para os filósofos modernos, o nome de "Jehovah" designa a palavra universal (10), ou "eu sou aquele que é".

Outros, o chamam o Deus triplo e gerador, porque todos os outros nomes divinos procedem dele, e nele está contida a essência da divindade.

Os adeptos e os cabalistas assim representam o tetragrama "Jehovah" (11):


Encerram os caracteres sagrados em um triângulo ou delta, e a decomposição desse nome resulta em outros três nomes que são dados às três pessoas da Santíssima Trindade. (Ver a gravura no topo desta postagem.)

Eis aqui as explicações sobre esses caracteres místicos e simbólicos.

A primeira letra do triângulo chama-se "iod" י; é o nome do Deus de Abraão e exprime o Deus vivo. Essa letra é atribuída a Deus-pai, primeira pessoa e causa primeira que produz e não é produzida. As outras pessoas emanam dele, porque ele é o princípio primeiro de tudo o que existe e não há outro princípio além dele mesmo.

O segundo nome é composto de duas letras, יה, que correspondem a "iah" (Deus); é o nome do Deus de Isaac, o qual significa: verdadeiro Deus. É atribuído ao Filho, segunda pessoa, produzida e engendrada, cuja faculdade é a de produzir. (12)

O terceiro nome é composto de três letras, יהו, que correspondem a "iaho", nome do Deus de Jacó, o qual significa Deus Santo. É atribuído ao Espírito Santo.

Essas três pessoas formam o tríplice triângulo (13), símbolo da união hipostática a qual constitui a unidade e a identidade da essência divina, e foi comunicada exclusivamente a cada pessoa ou natureza. O Espírito Santo foi produzido pelo Pai e o Filho nada produz, porém emana de todas as coisas criadas pelas duas pessoas.

O quarto nome compõe-se de quatro letras יהוה e encerra em si todos os mistérios da sabedoria; eis por que os cabalistas chamam o triângulo místico de o selo do Deus vivo. Observe-se, ainda, que a decomposição deste nome faz retornar ao Número 10.




(1) Os primeiros egípcios adoravam o Ser Supremo, representado por um ponto imperceptível no centro de um círculo. Os adeptos dividem em dez graus todas as ciências sacerdotais e maçônicas, o que significa ser necessário passar por dez trabalhos diferentes antes de penetrar no santuário da natureza. Somente após se ter adquirido os dez graus de conhecimento é que se chega à perfeição da grande obra.

(2) É por essa razão que os sábios pronunciam sempre "ó Deus", etc., em suas preces; o "o", antes de qualquer coisa, deve ser pronunciado aspirado.

(3) Essas três letras têm estreita relação com os três pontos maçônicos colocados no esquadro; o padre Kircher fala, sabiamente, a esse respeito em sua obra intitulada O Edipus Egyptiacus, t2, págs. 24, 106 e 287.

(4) A História Sagrada apresenta-nos três eventos maiores, que devem chamar a atenção dos sábios: primeiramente, a criação de onde veio a geração dos seres; em seguida o dilúvio que foi a sua destruição, e a redenção pelo Cristo, regenerador do gênero humano.

(5) As divindades celestes são invocadas pelo número três, e as que presidem a Terra pelo número quatro.

(6) Voltaire, dicionário filosófico, ver o vocábulo "Jehovah".

(7) Kircher, OEdipus Egyptiacus, t2, cap. 2.

(8) Ver o Thuileur des 33 degrés de l'Ecossisme, pág. 92, in-8°, edição 1813. Em Paris, livraria Delaunay, Palais-Royal.

(9) Segundo outros, mês de março.

(10) Observações sobre a palavra universal ou "Jehovah", impressa em Paris, em 1804; pela viúva Nyon, rua do Jardinet.

(11) Ver o grande calendário mágico de Tycho-Brahé. (É encontrado, também, no Cobridor escocês.)

(12) O profeta Isaías (cap. 7, v.4) quis expressar a dupla natureza do filho de Deus e a união hipostática do Verbo com a natureza humana, isto é, o filho de Maria, pelo nome Emmanuel (nobiscum Deus), que significa Deus conosco. São Mateus dá igualmente este nome a Jesus (cap. 1 v. 23). Os teólogos explicam a expressão "nobiscum Deus", por Deus homem ou composto teândrico.

(13) O tríplice triângulo corresponde ao número 9. A unidade do centro é um e forma o número 10. Encerra em si vários mistérios... Motivos relevantes impedem-me de falar mais... Abro a porta do santuário, cabe a você entrar. A Sagrada Escritura ensina-nos o mesmo através das seguintes parábolas: Procurai e achareis; pedi e recebereis; batei e se vos abrirá.




LENAIN





Fonte do Texto e da Gravura:
do livro "A CIÊNCIA CABALÍSTICA", cap. 1
Sociedade das Ciências Antigas
Ordem Rosacruz Cabalística
Ordem Martinista
Ordem Maçônica
Ed. Martins Fontes

SENTIR-SE PLENO

Muitas vezes, seguimos em frente com nossas vidas nos sentindo vazios por dentro, porque não queremos "sucumbir" aos ensinamentos da espiritualidade. Não conseguimos tomar consciência do fato que espiritualidade é simplesmente criar um caminho certo para nós, de tal forma que, independente de onde estivermos na escada social e financeira da vida, nos sentiremos preenchidos, apesar de tudo.

No caminho espiritual, recebemos plenitude duradoura, fazendo coisas que agregam valor às vidas dos demais e ao mundo.

Espiritualidade tem a ver com o crescimento de nossa alma.

Lembre-se de que a alma não envelhece. Em vez disso, cresce e se expande de acordo com o que, por meio de nossos esforços espirituais, a ajudamos a se tornar.




Karen Berg





Fonte: Centro de Cabala
www.kabbalah.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 15 de março de 2015

AUTOCONHECIMENTO - O QUE NOS TROUXE ATÉ A CRISE (A ILUSÃO DE SER DIFERENTE)

Estamos enfrentando uma tremenda crise; uma crise que os políticos nunca conseguem resolver porque estão programados para pensar de um modo específico – nem os cientistas conseguem compreender ou resolver a crise; nem ainda o mundo dos negócios, o mundo do dinheiro. O momento decisivo, a decisão perceptiva, o desafio, não está na política, na religião, no mundo científico; está na nossa consciência. Tem de se compreender a consciência da humanidade, que nos trouxe a este ponto. (The Network of Thought, p 9)

E nós somos responsáveis. Não se engane dizendo: “Que posso fazer? Que posso fazer como indivíduo, vivendo uma vidinha de imitação, com toda a sua confusão e ignorância?” A ignorância só existe quando você não conhece a si mesmo. Autoconhecimento é sabedoria. Você pode desconhecer todos os livros do mundo, todas as teorias mais recentes, mas isso não é ignorância. Ignorância é não se conhecer profundamente; e você não pode se conhecer se não conseguir olhar para si mesmo, ver-se como é realmente, sem nenhuma distorção, sem nenhum desejo de mudar. (Talks in Europe 1968, p 56)

É a nossa Terra, não a sua ou a minha ou a dele. Estamos destinados a viver nela, ajudando-nos uns aos outros, não nos destruindo uns aos outros. Isto não é nenhuma bobagem romântica, mas o fato real. Mas o homem dividiu a Terra, tendo esperança de que com isso no particular ele vá encontrar felicidade, segurança, uma sensação de permanente conforto. Até que ocorra uma mudança radical e apaguemos todas as nacionalidades, todas as ideologias, todas as divisões religiosas, e estabeleçamos um relacionamento global – primeiro psicologicamente, interiormente, antes de organizarmos o exterior – continuaremos com guerras. Se você causar dano a outros, se você matar outros, quer por raiva quer pelo assassinato organizado que é chamado de guerra, você – que é o resto da humanidade, não um ser humano separado combatendo o resto da humanidade – está destruindo a si mesmo. (Krishnamurti to Himself, p 60)

Um ser humano é, psicologicamente, a humanidade inteira. Ele não só a representa: ele é a totalidade da espécie humana. Ele é essencialmente toda a psique da humanidade. Contra essa realidade, várias culturas impuseram a ilusão de que cada ser humano é diferente. Nessa ilusão a humanidade tem sido presa durante séculos, e essa ilusão acabou se tornando uma realidade. Se a pessoa observar de perto toda a estrutura psicológica de si mesma, descobrirá que, quando uma pessoa sofre, toda a humanidade sofre em graus variados. Se você é solitário, a humanidade inteira conhecerá essa solidão. A agonia, o ciúme, a inveja e o medo são conhecidos de todos. Portanto, psicologicamente, interiormente, uma pessoa é como a outra. Pode haver diferenças em termos físicos e biológicos; uma pessoa é alta, baixa etc., mas, basicamente, uma pessoa é o representante de toda a humanidade. Assim, psicologicamente você é o mundo; você é responsável por toda a humanidade, e não por si mesmo como ser humano à parte, o que é uma ilusão psicológica... Se compreende todo o significado do fato de que uma pessoa é psicologicamente o mundo, então a responsabilidade se torna amor irresistível. (Letters to the Schools vol I, p 20)

Por que existe, temos de perguntar, esta divisão, – os russos, os americanos, os britânicos, os franceses, os alemães etc. – por que existe esta divisão entre homens, entre raças, cultura contra cultura, uma série de ideologias em oposição a outra? Por quê? Onde é que existe esta separação? O homem dividiu a Terra entre sua e minha – por quê? Será que tentamos encontrar segurança, autoproteção, em um grupo específico ou em uma crença, fé, específica? Porque as religiões também dividiram os homens, colocaram homem contra homem – os hindus, os muçulmanos, os cristãos, os judeus etc. O nacionalismo, com o seu lamentável patriotismo, é na realidade uma forma glorificada, uma forma enobrecida, de tribalismo. Numa tribo pequena ou numa tribo muito grande, há um sentido de estar unido, de ter a mesma língua, as mesmas superstições, o mesmo tipo de sistema político, religioso. E a pessoa sente-se segura, protegida, feliz, confortada. E por essa segurança, esse conforto, estamos dispostos a matar outros que têm o mesmo tipo de desejo de estarem seguros, de se sentirem protegidos, de pertencerem a algo. Este terrível desejo de nos identificarmos com um grupo, com uma bandeira, com um ritual religioso etc., dá-nos a sensação de termos raízes, de não sermos andarilhos sem lar. (Krishnamurti to Himself, pp 59-60)

O que é que fica magoado? Diz-se que sou eu que fico magoado. O que é esse “eu”? Desde a infância que se constrói uma imagem de si mesmo. Uma pessoa tem muitas, muitas imagens, não só as imagens que as pessoas lhe dão, mas também as imagens que a própria pessoa construiu: como americano – isso é uma imagem – ou como hindu, ou como especialista. Portanto o “eu” é a imagem que a pessoa construiu de si mesma, como um grande homem, ou um homem muito bom, e é essa imagem que fica magoada. A pessoa pode ter uma imagem de si mesma como um grande orador, escritor, ser espiritual, líder. Estas imagens são o núcleo da pessoa; quando a pessoa diz que está magoada, ela quer dizer que as imagens estão magoadas. Se alguém tem uma imagem de si mesmo e outra pessoa vem e diz: “Não seja idiota”, esse alguém fica ofendido. A imagem que foi construída acerca de si mesmo como não sendo idiota é o “eu”, e esse “eu” fica ofendido. A pessoa carrega essa imagem e essa ferida pelo resto da vida. (The Flame of Attention, p 88)

Ao produzir uma mudança radical no ser humano, em você, você está naturalmente produzindo uma mudança radical na estrutura e na natureza da sociedade. Penso que tem de ser muito claramente compreendido que a mente humana, com toda a sua complexidade, sua intricada rede, faz parte deste mundo externo. O “você” é o mundo, e ao ocasionar uma revolução fundamental – nem comunista nem socialista, mas um gênero de revolução totalmente diferente, dentro da própria estrutura e natureza da psique, de você mesmo – você ocasionará uma revolução social. Ela precisa começar, não exteriormente mas interiormente, pois o exterior é o resultado da nossa vida interior, privada. Quando há uma revolução radical na própria natureza do pensamento, do sentimento e da ação, então obviamente haverá uma mudança na estrutura da sociedade. (Talks with American Students, pp 8-9)




J. Krishnamurti





Fonte: http://www.jkrishnamurti.org/pt
Fonte da Gravura:
http://www.taringa.net/posts/ciencia-educacion/16865761/Jiddu-Krishnamurti.html
http://fightlosofia.com/krishnamurti-en-imagenes-krishnamurti-in-pictures/

sábado, 14 de março de 2015

NOTAS SOBRE A TRADIÇÃO CABALÍSTICA


No primeiro número de L'Initiation do século XX, datado de janeiro de 1901, Papus publicou algumas notas que Saint-Yves d'Alveydre lhe havia endereçado, com o objetivo de trazer sua pedra ao estudo da cabala. Ei-las, em sua íntegra.


Meu caro amigo,

Para mim é um verdadeiro prazer responder à sua apreciada carta. Nada tenho a acrescentar ao seu notável livro sobre a cabala judaica. Ele se coloca entre os melhores, conforme a apreciação tão eminente e tão meritória que dele fez o saudoso senhor Franck, do Instituto, homem mais autorizado a fazer um julgamento sobre esse tema.

Sua obra completa a dele, não somente no que tange à erudição, mas também no que se refere à bibliografia e à exegese dessa tradição especial. Mais uma vez, creio ser esse belo livro definitivo. Mas, sabedor do meu respeito pela tradição e, ao mesmo tempo, da minha necessidade de universalidade e de verificação por todos os procedimentos dos métodos atuais, e conhecendo, além disto, os resultados dos meus trabalhos, você não teme que eu amplie o tema; ao contrário, pede-me que o faça.

Na verdade aceitei apenas como inventariante os livros da cabala judaica, por mais interessantes que sejam. Mas uma vez concluído o inventário, minhas pesquisas pessoais conduziram à universalidade anterior de onde procedem esses documentos arqueológicos, e sobre o princípio assim como sobre as leis que puderam motivar esses fatos do espírito humano.

A cabala dos judeus provinha dos caldeus, via Daniel e Esdras. Já a cabala dos israelitas anteriores à dispersão das dez tribos não-judias, provinha dos egípcios, via Moisés.

Para os caldeus, como para os egípcios, a cabala fazia parte daquilo que todas as universidades metropolitanas chamariam a Sabedoria, ou seja, a síntese das ciências e das artes conduzidas ao seu Princípio comum. Esse Princípio era a Palavra ou o Verbo.

Um precioso testemunho da antiguidade patriarcal pré-mosaica declara essa Sabedoria perdida ou abastardada cerca de três mil anos antes de Cristo. Esse testemunho é Jó e a antiguidade desse livro é assinalada pela posição das constelações que ele menciona: "Que foi feito da Sabedoria, onde estará ela?" - diz este santo patriarca.

Em Moisés, a perda da unidade anterior e o desmembramento da Sabedoria patriarcal, estão indicados sob o nome de divisão das línguas e da Era de Nemrod. Essa época da Caldéia corresponde à de Jó.

Um outro testemunho da antiguidade patriarcal é o bramanismo. Ele conservou todas as tradições do passado, superpostas como as diferentes camadas geológicas da Terra. Todos os que a estudaram do ponto de vista moderno foram surpreendidos por suas riquezas documentais e pela impossibilidade em que se encontram seus possuidores de classificá-las de uma maneira satisfatória, tanto do ponto de vista cronológico quanto do ponto de vista científico. Suas divisões em seitas bramânicas, vishnavistas, sivaístas, para citar apenas estas, aumentam ainda mais a confusão.

Não é menos verdadeiro que os brâmanes do Nepal fazem remontar ao começo do kali-yuga a ruptura da antiga universalidade e da unidade primordial dos ensinamentos.

Esta síntese primitiva retrata, bem antes do nome de Brahma, o de Ishva-Ra, Jesus-Rei: Jesus Rex Patriarcharum, dizem nossas litanias.

É a esta síntese primordial que São João faz alusão no começo do seu evangelho; mas os brâmanes estão longe de considerar que seu Ishva-Ra seja nosso Jesus, Rei do Universo, como Verbo Criador e Princípio da Palavra humana. Sem isto eles seriam todos cristãos.

O esquecimento da Sabedoria Patriarcal de Ishva-Ra data de Krishna, o fundador do bramanismo e de sua trimourti. Ainda aí há concordância entre os Brâmanes, Jó e Moisés, quanto ao fato e quanto à época.

Desde os tempos babélicos nenhum povo, nenhuma raça, nenhuma universidade não possuem mais, senão em estado de fragmentos, a antiga universalidade dos conhecimentos divinos, humanos e naturais, restabelecidos ao seu Princípio: o Verbo-Jesus. Santo Agostinho designa sob o nome de "Religio Vera" esta síntese primordial do Verbo.

A cabala rabínica, relativamente recente como redação, era conhecida a fundo e integralmente em suas fontes escritas ou orais pelos adeptos judeus do primeiro século da nossa era. Certamente ela não tinha segredo para um homem do valor e da ciência de Gamaliel. Como também não o tinha para seu primeiro e proeminente discípulo, São Paulo, tornado apóstolo do Cristo ressuscitado.

Ora, eis o que diz São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo II, versículos 6,7 e 8: "Entretanto, o que pregamos aos perfeitos é uma Sabedoria, porém não a Sabedoria deste mundo, nem a dos grandes deste mundo, que são aos olhos daquele, desqualificados. Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória)".

Todas estas palavras são pesadas como o ouro e o diamante de quilate, e não há uma delas sequer que não seja infinitamente precisa e preciosa. Elas proclamam a insuficiência da cabala judaica.

Uma vez esclarecida a universalidade da questão que nos interessa, concentremos esta luz sobre esse fragmento dos mais preciosos da Sabedoria antiga que é ou que pode ser a cabala judaica.

Esclareçamos, inicialmente, o sentido da palavra Cabala.

Esta palavra possui dois sentidos, dependendo de ser escrita, como fazem os judeus, com o "Q", ou seja, com a vigésima letra do alfabeto assírio, aquela que traz o número 100, ou com o "C", a décima primeira letra do mesmo alfabeto, e que traz o número 20.

No primeiro caso a palavra significa Transmissão, Tradição, e a coisa permanece assim indecisa; pois tanto vale o transmissor quanto a coisa transmitida; tanto vale o traidor quanto a tradição. (1)

Acreditamos que os judeus transmitiram bem fielmente o que receberam dos sábios caldeus, com sua escrita e a refundição dos livros anteriores de Esdras, que foi ele próprio orientado por Daniel, Grande-mestre da Universidade dos Magos da Caldéia. Mas do ponto de vista científico isto não faz a questão avançar; só faz recuar a um inventário dos documentos assírios e, na sequência, à fonte primordial. No segundo caso, Ca-Ba-La significa o Poder. La, dos XXII, CaBa, já que C = 20 e B = 2.

Mas a questão é então resolvida com exatidão, pois se trata do caráter científico, associado na antiguidade patriarcal aos alfabetos das vinte e duas letras numerais.

Seria necessário fazer desses alfabetos um monopólio de raça, chamando-os semíticos? Talvez, se for realmente um monopólio, não no caso contrário.

Ora, a partir da minha pesquisa dos alfabetos antigos da Caba-La, de XXII letras, o mais oculto, o mais secreto - que certamente serviu de protótipo, não somente para todos os outros do mesmo gênero, mas para os signos védicos e as letras sânscritas - é um alfabeto ariano. Exatamente aquele que fiquei muito feliz te ter comunicado a você, e que eu mesmo resguardo de brâmanes eminentes que jamais tentaram perguntar-me o seu segredo.

Ele se distingue dos outros ditos semíticos por serem suas letras morfológicas, ou seja, falando exatamente por suas formas, o que faz dele um tipo absolutamente único. Além do mais, um estudo atento me fez descobrir que essas mesmas letras são os protótipos dos signos zodiacais e planetários, o que é também de relevante importância.

Os brâmanes chamam esse alfabeto de Vattan, e ele parece remontar à primeira raça humana, pois por suas cinco formas-mães rigorosamente geométricas, ele se auto-assina Adão, Eva e Adamah.

Moisés parece designá-lo no versículo 19 do capítulo II do seu Sepher Bereshith. Além do que esse alfabeto se escreve de baixo para cima e suas letras agrupam-se de maneira a formar imagens morfológicas ou falantes. Os pânditas (2) apagam esses caracteres do quadro-negro tão logo a lição dos gurus é concluída. Eles os escrevem também da esquerda para a direita, como o sânscrito, portanto à européia. Por todas as razões precedentes, esse alfabeto prototípico de todos os Kaba-Lim pertence à raça ariana.

Portanto, não se pode mais dar aos alfabetos desse gênero o nome de semíticos, já que eles não são o monopólio das raças assim denominadas, com ou sem razão.

Mas pode-se e deve-se chamá-los de esquemáticos. Ora, o esquema não significa somente o signo da Palavra, mas também Glória. É a esse duplo significado que se deve prestar atenção ao ler a citada passagem de São Paulo.

Ela existe também em outras línguas como o eslavônio. A etimologia da palavra eslavo, por exemplo, é "slovo" e "slava", que significa palavra e glória.

Esses sentidos já levam bem alto. O sânscrito vai corroborar essa atitude. "Sama", que também encontramos nas línguas de origem céltica, significa similitude, identidade, proporcionalidade, equivalência etc.

Veremos mais adiante a aplicação desses significados antigos. Por enquanto, resumamos o precedente.

A palavra cabala, tal como a compreendemos, significa o alfabeto das XXII Potências, ou a Potência das XXII letras desse alfabeto. Esse gênero de alfabetos tem um protótipo ariano ou jafético. (3) Ele pode ser designado, com toda a propriedade, sob o nome de alfabeto da Palavra ou da Glória.

Palavra e Glória! Por que estas duas palavras são tão próximas em duas línguas antigas tão distantes quanto o eslavônio e o caldeu? Isto se deve a uma constituição primordial do Espírito humano em um Princípio comum, ao mesmo tempo científico e religioso: o Verbo, a Palavra cosmológica e seus equivalentes.

Jesus, em sua última prece tão misteriosa, lança - nisto como em tudo - uma luz decisiva sobre o mistério histórico que nos ocupa aqui: "Ó Pai! Coroa-me com a Glória que tive antes que este mundo fosse!"

O Verbo encarnado faz aqui alusão à Sua Obra, à Sua criação direta como Verbo criador, criação designada sob o nome de mundo divino e eterno da Glória, protótipo do mundo astral e temporal, criado pelos "Alahim" sobre esse modelo incorruptível.

Que o Princípio criador seja o Verbo - a Antiguidade é unânime sobre esse ponto. Falar e criar eram então sinônimos em todas as línguas.

Para os brâmanes os documentos anteriores ao culto de Brahma representam Isou-Ra, Jesus-Rei, como o Verbo criador.

Para os egípcios, os livros de Hermes Trismegisto dizem a mesma coisa; e Oshi-Ri é Jesus-Rei lido da direita para a esquerda.

Para os trácios, Orfeu, iniciado nos Mistérios do Egito aproximadamente na mesma época que Moisés, havia escrito um livro intitulado "O Verbo Divino".

Quanto ao próprio Moisés, o Princípio é a primeira palavra e o objeto da primeira frase de seu Sepher. Não se trata de Deus em sua essência, IHOH, que só é nomeada no sétimo dia, mas de Seu Verbo, criador da Hexada divina: Bra-Shith. Bara significa falar e criar; Shith significa Hexada. Em sânscrito, mesmos significados: BaRa-Shath.

Esta palavra Bara-Shith deu lugar a inúmeras discussões. São João a apresenta como Moisés, desde o começo de seu Evangelho e diz, em siríaco, (4) língua cabalística de XXII letras: "o Princípio é o Verbo". Jesus havia dito: "Eu sou o Princípio".

O sentido exato é desta forma fixado por Jesus, mesmo corroborando toda a universalidade anterior pré-mosaica.

O precedente explica que as universidades verdadeiramente antigas consideravam o Verbo criador como a incidência da qual a Palavra humana é a Reflexão exata, quando o processo alfabético molda exatamente o Planisfério do Cosmos.

O processo alfabético, armado de todos os seus equivalentes, representa então o mundo eterno da Glória, e o processo cósmico representa o mundo dos céus astrais.

É por isto que o Rei-Profeta, eco de toda a Antiguidade patriarcal, diz: "Coeli enarrant Dei Gloriam" (em bom Português, "o mundo astral conta o mundo da Glória divina".) O universo invisível fala através do visível.

Restam aqui duas coisas a serem determinadas:

1) o processo cósmico das escolas antigas;

2) o processo dos alfabetos correspondentes.

Para o primeiro ponto, III Formas-mães: o centro, o raio ou diâmetro e o círculo; XII signos involutivos; VII signos evolutivos.

Para o segundo ponto, ao qual os anciãos concediam o primeiro plano: III letras construtivas; XII involutivas; VII evolutivas.

Nos dois casos:

III + XII + VII = XXII = CaBa

Pronúncia de:

C = 20, B = 2, total 22, C.Q.F.D.

Os alfabetos de vinte e duas letras correspondiam, pois, a um zodíaco solar ou solar-lunar, armado de um setenário evolutivo. Eram os alfabetos esquemáticos.

Os outros, seguindo o mesmo método, tornavam-se por 24 letras os horários dos precedentes, por 28 letras, seus lunares, por 30, seus mensais solar-lunares, por 36 seus decânicos etc.

Nos alfabetos de vinte e duas letras, a Real, a Emissiva da ida, a Remissiva da volta, era o "I" ou "Y" ou "J"; e colocado sobre o primeiro triângulo equilátero inscrito, ela devia formar autologicamente, com duas outras, o nome do Verbo e de Jesus: IshVa-(Ra), Oshi-(Ri).

Contrariamente, todos os povos que abraçaram o cisma naturalista e lunar tomaram por Real a letra "M", que comanda o segundo trígono elementar.

Todo o sistema védico, depois bramânico foi assim ordenado por Krishna, a partir do começo do Kaly-Yuga. Tal é a chave do livro das guerras de IEVE, guerras da Real "I" ou "Y" contra a usurpadora "M".

Você viu, meu caro amigo, as provas bem modernas - quer dizer, de simples observação e experimentação científica - pelas quais a mais antiga tradição foi ao mesmo tempo restabelecida e verificada por mim. Colocarei aqui apenas o estritamente necessário à elucidação do fato histórico da Cabala.

Segundo os patriarcas que os precederam, os brâmanes dividiram as línguas humanas em dois grandes grupos:

1) devanágaris, (5) línguas da cidade celeste ou de civilização reconduzidas ao Princípio cosmológico divino;

2) prácritos, (6) línguas de civilizações selváticas ou anárquicas.

O sânscrito é uma língua devanágari de quarenta e nove letras, o veda igualmente com suas oitenta letras ou signos derivados do ponto do AUM, ou seja, a letra "M".

Essas duas línguas são cabalísticas em seu sistema peculiar, no qual a letra "M" forma o ponto de partida e de retorno. Mas elas foram desde sua origem, e permanecem até hoje, articuladas sobre uma língua de templo de vinte e duas letras, cuja Real primitiva era o "I".

Qualquer retificação se torna possível e fácil, graças a esta chave, aos maiores triunfos e glória de Jesus. Verbo de IEVE, em outras palavras, da Síntese primordial dos primeiros Patriarcas.

Os brâmanes atuais atribuem ao seu alfabeto de vinte e duas letras uma virtude mágica; mas esta palavra não tem para nós outro significado senão superstição e ignorância.

Superstição, decadência e superstição de elementos arqueológicos e de fórmulas mais ou menos alteradas, mas que um estudo aprofundado pode algumas vezes, como é aqui o caso, ligar a um ensinamento anterior, científico e consciente, e não metafísico e místico. Ignorância maior ou menor dos fatos, das leis e do princípio que motivaram esse ensinamento primordial.

De resto, a escola lunar vedo-bramânica não é a única onde a ciência e sua síntese solar, a religião do Verbo, degeneraram em magia. Basta explorar um pouco a universidade terrestre a partir da época babélica para ver uma decadência crescente atribuir cada vez mais aos alfabetos antigos um caráter supersticioso e mágico.

Da Caldéia à Tessália, da Cítia à Escandinávia, dos Kouas de Fo-Hi e dos Musnads da antiga Arábia, às Runas dos Varegues, pode-se observar a mesma degenerescência.

A verdade, nisto como em tudo, é infinitamente mais maravilhosa do que o erro, e você bem conhece, caro amigo, esta admirável verdade.

Enfim, como nada se perde na humanidade terrestre, assim como em todo o Cosmos, o que foi ainda é e testemunha a antiga universalidade de que fala Santo Agostinho em suas Retratações.

Os brâmanes fazem cabala com os oitenta signos védicos, com as quarenta e nove letras do sânscrito devanágari, com as dezenove vogais, semivogais e ditongos, ou seja, toda a massorá (7) de Krishna, acrescentada por ele ao alfabeto vatan ou adâmico.

Os árabes, os persas, os subas fazem cabala com seus alfabetos lunares de vinte e oito letras e os marroquinos com o seu, ou Koreish.

Os tártaros mandchus fazem cabala com seu alfabeto mensal de trinta letras.

As mesmas observações se aplicam aos tibetanos, chineses etc.; mesmas reservas quanto às alterações da ciência antiga dos equivalentes cosmológicos da Palavra.

Resta saber em que ordem esses XXII equivalentes devem ser funcionalmente classificados no planisfério do Cosmos.

Você tem diante dos seus olhos, caro amigo, o modelo de acordo com o que foi legalmente registrado sob o nome de arqueômetro. Sabe também que as chaves desse instrumento de precisão, a ser utilizado nos altos estudos, me foram dadas pelo evangelho, por certas palavras muito precisas de Jesus, que devem ser cotejadas com as de São Paulo e de São João.

Permite-me agora resumir com um mínimo de palavras.

Todas as universidades religiosas, asiáticas e africanas, munidas de alfabetos cosmológicos, solares, solar-lunares, lunares, mensais etc., servem-se de suas letras de uma maneira cabalística. Quer se trate de ciência pura, de poesia interpretando a ciência ou a inspiração divina, todos os livros antigos, escritos em línguas devanágaris e não prácritas, só podem ser compreendidas graças à cabala de suas línguas. Mas estas devem ser levadas aos XXII equivalentes esquemáticos, e estes a suas posições cosmológicas exatas.

A cabala dos judeus é, portanto, motivada por toda a constituição anterior do espírito humano; mas ela precisa ser arqueometrada, (8) ou seja, medida por seu Princípio regulador, controlada pelo instrumento de precisão do Verbo e de sua síntese primordial.

Não sei, caro amigo, se estas páginas irão responder à sua afetuosa expectativa. Tive que resumir capítulos inteiros em algumas linhas.

Queira, portanto, desculpar as imperfeições e ver aqui apenas um testemunho da minha boa vontade e da minha velha amizade.




Saint-Yves d'Alveydre
10 de janeiro de 1901




Fonte: do livro "A CABALA, A TRADIÇÃO SECRETA DO OCIDENTE"
PAPUS (DR. GÉRARD ENCAUSSE)

Fonte da Gravura: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Saint-Yves_d'Alveydre




Esta matéria foi publicada originalmente no número 3, de 1999, da edição francesa de L'Initiation.
A presente tradução foi publicada no número 9, de Abril/Junho de 2003, da edição em língua portuguesa.



NOTAS DO TRADUTOR:

(1) O autor faz aqui um jogo de palavras entre traditeur e tradition, a primeira delas significando "traidor" (francês arcaico, e em voga no século XV) e a outra "tradição", palavras de raiz idêntica e sentidos inteiramente dessemelhantes.

(2) Na Índia, homem estimado por sua sabedoria e/ou conhecimentos. A palavra também é frequentemente usada como título honorífico. Sua origem etimológica se encontra no sânscrito "pandita".

(3) De, ou descendente de Jafet, filho de Noé.

(4) Aramaico clássico.

(5) Segundo o Dicionário Houassis, devanágari é o alfabeto derivado do brami, utilizado na escrita do hindi e de muitas outras línguas da Índia (prácrito, marata, sânscrito etc). Etimologicamente, sua origem é o sânscrito devanágari 'id.', complemento de deva, 'deus' e nágari 'urbano', isto é, 'cidade de Deus', usado para caracterizar o 'alfabeto da cidade de deus'.

(6) Ainda segundo o Dicionário Houassis, "prácrito" é a denominação geral de um grande grupo de línguas e dialetos da Índia, da família indo-européia, ramo indo-ariano, sub-ramo indo-árico, grupo sânscrito, falados em diferentes épocas [De maneira geral, os prácritos eram línguas faladas, por oposição ao sânscrito, que possuía escrita e rica literatura e que com o tempo se tornou língua somente escrita; alguns prácritos evoluíram para línguas literárias antigas e modernas, como o páli, o marata antigo e o moderno.

(7) Segundo o Dicionário Houassis, "massorá" é um conjunto de comentários críticos e gramaticais (soletração, vocalização, divisão em orações e parágrafos etc.] sobre a Bíblia hebraica, feitos por doutores judeus com o objetivo de determinar a forma correta do texto escrito, mantendo-lhe a pureza e evitando que ocorram alterações em sua transmissão. Naturalmente, neste caso, a definição é extendida à tradição hindu.

(8) Submetida à análise do Arqueômetro. Para uma melhor compreensão, sugerimos a leitura do livro Saint-Yves d'Alveydre: A Sinarquia • O Arqueômetro • As Chaves do Oriente, de Yves-Fred Boisset, publicado pela Gnosis Editorial.