sábado, 25 de maio de 2019

SUPOSTA "DISTÂNCIA" ENTRE O EMANADOR E O RECEPTOR DE LUZ


Por que entramos no ciclo das perturbações? Onde se encontra a ação da Luz do Mundo Infinito? Quando e como a bênção pode chegar ao ser humano? Por que algumas pessoas recebem a bênção e outras não? Existe algum mecanismo que permite que a Luz do Mundo Infinito chegue a nós com mais eficiência?

Para os cabalistas, a verdadeira Luz do Mundo Infinito é imóvel e de natureza eterna. Não se desloca no espaço, portanto ela está neste exato momento atuando imensamente sobre nossas vidas. A Luz não se desloca no espaço e no tempo em função do fato de que não há espaço e não há tempo em que ela não se encontre. Sendo assim, a Luz do Mundo Infinito sempre é. A Luz é um elemento constante e onipresente do Todo Unificado. O nosso sentimento de falta se deve ao nosso esquecimento da natureza onipresente da Luz. Para a Cabalá, este esquecimento é a causa de todo o desequilíbrio e de toda a dor na humanidade.

O que estabelece uma suposta “distância” entre o Emanador e o Receptor desta Luz é o seu sistema de comunicação muitas vezes falho. Se fortalecermos o nosso sistema de comunicação com o Mundo Infinito, evitaremos o esquecimento da unicidade. Segundo nos ensinam os sábios da Cabalá, é esse sistema de comunicação que promove a adesão necessária para que o cabalista perceba constantemente a manifestação desta Presença Divina. Quando perdemos a nossa adesão com o mundo entramos no ciclo robótico das repetições sistemáticas de nossos erros. Esse é o preço do nosso esquecimento da onipresença da Luz – entrarmos no “ciclo das perturbações” de Olam Tohú.

Sendo assim, para o cabalista, a Luz do Mundo Infinito não “viaja” do Mundo Infinito para o mundo físico. E esse é um dos tantos paradigmas que a Cabalá abala. Outros exemplos poderiam ser descritos como: os semelhantes se atraem; o espaço e o tempo são algo ilusório; você é a causa e o efeito de si mesmo, entre outros tantos. O tempo, como nós o percebemos, só existe na perspectiva das sete sefirot inferiores. Mas não possui nenhuma utilidade nas Três Superiores, ligadas com o Mundo Infinito. É por isso que nas sete sefirot inferiores só vemos o mundo da fragmentação, o ilusório mundo do tempo, do espaço e do movimento, como sendo a totalidade da existência. Aqui reside a causa de muitas das dores deste mundo. Quando nos desligamos da Luz, passamos a nos ligar a uma existência negativa da Luz (o não-Él) e por associação nos tornamos fracos e impotentes diante do caos.

É por causa do esquecimento do passado (principalmente dos ciclos de vidas passadas) que mergulhamos no caos de nossos equívocos cotidianos. Para os cabalistas, o presente, o passado e o futuro estão todos presentes no mesmo instante-espacial. O mundo real está, na verdade, unificado. Há um aspecto de unificação em todas as manifestações do universo. Esta condição é plenamente indicada no aspecto circular de todas as coisas, dos planetas ao átomo, tudo está sujeito à regência da esfera e sua estrutura unificadora. O grande paradoxo é que o mundo verdadeiro deve permanecer oculto, pois o ato de descobri-lo é em si o desenvolvimento do mérito espiritual. Nos mantermos ignorantes diante da Luz nos faz acentuar a reatividade (cujo ponto de concentração energética é a narina) e nos lança às dimensões inferiores do desejo de receber para si mesmo.

Uma consciência fragmentada faz com que o mundo a nossa volta se torne impermanente e incapaz de gerar “frutos”. A Cabalá nos ensina que o AMEN que falamos nas orações possui um poder espiritual de adesão com o Mundo Infinito. Quando falamos “AMEN” nas orações, estando certos de seu poder de adesão, resgatamos as centelhas de nossa consciência que tenham se ligado aos mundos de baixo.

Em função de nossa perspectiva limitada e finita, o tempo parece ser um tirano implacável. Estamos tão acostumados a medir nossa percepção de acordo com o relógio e a aparente sequência de nascimento, vida e morte, que aceitamos a tirania do Satan (Energia Inteligente do Ego) e sua manipulação temporal, e nos submetemos a Olam Tohú como um resultado inevitável. A Cabalá nos direciona a reconhecer que o Infinito se encontra presente no aparente finito e que ao nos conectarmos com nosso próprio aspecto infinito, podemos abrir as portas do Ein Sof (Mundo Infinito). A Cabalá nos ensina a nos retirar do ciclo de negatividade, de luta, de fracasso, e da morte, nos ensinando que estes ciclos são empobrecedores e que devemos nos conectar com o Mundo Infinito. Lá onde o tempo, o espaço e o movimento estão entrelaçados, onde todos os seres e todas as coisas se encontram interconectados, onde o “aqui” é “aí” e onde o “futuro” é “agora”.

Assim, devemos nos manter sempre em estado de alerta e procurar sermos sempre cautelosos com a ilusão que parecem ser as chamadas “fases negativas” em nossas vidas. Trata-se de uma grande armadilha do Satan (Energia Inteligente do Ego) . Uma análise do momento nos faz esquecer o passado e também o futuro, pois apaga de nosso registro de consciência a nossa percepção da eternidade. Esquecendo, nos tornamos prisioneiros, mas, como em qualquer prisão, é possível escapar. Esta é uma prisão construída em sua mente e pode ser destruída por ela também. Para ver melhor o que está do outro lado dos muros altos desta prisão, é necessário fecharmos os olhos e abrirmos o coração...



Rav Mario Meir



Fonte: Academia de Cabala
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A AUTORRESPONSABILIDADE E SEU PROGRESSO ESPIRITUAL


Você não supera o sofrimento se não for honesto, a cura e transformação só são possíveis quando você desenvolve a vontade sincera de se comprometer com a verdade. E sem auto-responsabilidade não pode haver progresso espiritual, você culpa o outro pela sua incapacidade de ser gentil, pela sua incapacidade de amar, pela sua infelicidade, pela sua perturbação, ou seja, pela sua incapacidade de viver pacificamente. O que é que te impede de ser verdadeiro consigo mesmo e com o outro?

Tenho dito que alguns valores humanos precisam ser acordados para que você seja bem-sucedido em sua missão maior que é iluminar o amor, deixando para trás os jogos do sofrimento. Estes valores são como os ingredientes alquímicos que possibilitam que o amor desperte, ou seja, que você amplie a sua consciência, libertando-se de crenças e percepções equivocadas que te impedem de ver a realidade de forma objetiva.

São essas crenças as bases do julgamento, da separação e do desejo, responsáveis por alimentar a fogueira do pensamento compulsivo, que faz você viajar no túnel do tempo; ficar preso no tempo psicológico, nos labirintos da mente. Assim, dissolvê-las é o único caminho para a expansão da percepção que por sua vez, permite o amor fluir. Perceber a realidade de forma objetiva é sinônimo de liberdade, de espontaneidade. Você só pode realmente ter a liberdade de ser você mesmo, bem como experienciar o prazer positivamente orientado, quando puder se libertar das crenças que te habitam. Dessa forma, se faz necessário ter inclinação para ir além do sofrimento e para desenvolver alguns dos valores humanos nos quais tenho colocado minha energia.

O primeiro deles é a honestidade, porque você não supera o sofrimento se não for honesto; não poderá expandir nem uma vírgula de consciência se não for honesto, em primeiro lugar, consigo mesmo, para assim poder também ser com a vida.  Há que se ter a disposição sincera de se ver diante do espelho.

Eu tenho dito e repetido que a honestidade é a forma de amor mais urgente e necessária neste momento. Quando você pode ser honesto consigo mesmo, pode ser honesto com o outro, pode realmente estar afinado com os códigos divinos da verdade.

Eu estou sempre lhe convidando a tomar consciência daquilo que te impede de ser honesto. O que é que te impede de ser verdadeiro consigo mesmo e com o outro? Muitas vezes, você não é verdadeiro porque acredita que vai machucar o outro, e assim, você se esconde atrás dessa crença e não encara o medo que te habita – o medo que esconde sentimentos, feridas que precisam ser tratadas e curadas.

Honestidade significa um compromisso com a verdade. Só quando você desenvolve esse valor é que pode responder a grande pergunta: “Quem sou eu? Quem habita esse corpo?” A inconsciência a respeito de sua identidade pode gerar muitos acidentes. Identificado com essas crenças, você pode ficar eternamente caindo no mesmo buraco. A cura e transformação só são possíveis quando você desenvolve a vontade sincera de se comprometer com a verdade.

Outro valor que precisamos desenvolver para expandir a consciência é a autorresponsabilidade. Há que se ir além do egoísmo e dos jogos de acusações; há que se ter disposição para renunciar a vítima que te habita. Sem essa disposição, você inevitavelmente continuará circulando no mesmo lugar. A autorresponsabilidade é a pedra fundamental em que se edifica a consciência. Sem autorresponsabilidade não pode haver progresso espiritual.

Sem autorresponsabilidade não pode haver evolução da consciência. Você vai ficar eternamente andando em círculos, porque o jogo de acusações é um círculo vicioso – você culpa o outro pela sua incapacidade de ser gentil, pela sua incapacidade de amar. Acusa o outro pela sua infelicidade, pela sua perturbação, ou seja, pela sua incapacidade de viver pacificamente.

Portanto, a expansão da consciência só é possível se houver honestidade e autorresponsabilidade. Por mais evidente que seja o erro do outro em qualquer circunstância, se você ficou perturbado, deve olhar o grão de defeito que está em você. Essa é a base. Essa é a fase zero do processo. Sem essa base não adianta fazer malabarismos com a vida porque nenhuma austeridade vai surtir efeito.

Eu já procurei outro caminho porque sei que este é difícil. Poderia haver um caminho mais fácil, ter uma pílula que dissolvesse condicionamentos e crenças, mas até hoje, ninguém inventou isso. Até hoje você dissolve os condicionamentos através do caminho da autorresponsabilidade.

Assim, quando as coisas ficam difíceis em qualquer situação ou relação que você mantém, se faz necessário encontrar a autorresponsabilidade para olhar objetivamente o que fez a energia cair. Se puder fazer isso junto com a outra pessoa envolvida, melhor ainda, mas não se engane achando que sua liberdade depende da percepção do outro assumindo a parte que lhe cabe no conflito.

Vá atrás da sua parte porque te garanto que, quando você assumir sua responsabilidade no episódio, naturalmente a energia começará a subir de novo. É instantâneo. Coloque em prática que você vai compreender o que eu estou falando.



Sri Prem Baba


Fonte: www.sriprembaba.org
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

EM CONFIANÇA


Tudo o que possuímos além da nossa necessidade, na verdade, não nos pertence, mas nos é dado em confiança pelos outros.

Uma das realidades mais difíceis de encarar para aqueles com uma visão espiritual do mundo e com um conhecimento do Criador é: "Por que existem alguns que possuem muito mais do que outros?"

A realidade é que se todos os recursos do mundo fossem distribuídos igualmente entre os habitantes da Terra, muitos dos problemas que afligem nosso mundo não existiriam. Por que então não é assim? Por que o Criador não “distribui a riqueza” equitativamente?

Esta é uma questão muito complexa, com muitas possibilidades de resposta. Mas há um ensinamento que deve influenciar como tratamos aquilo que temos em excesso, além das nossas necessidades. Os cabalistas ensinam que cada um de nós merece receber aquilo de que necessita. Infelizmente, às vezes, por diferentes motivos – talvez uma ação negativa ou algo semelhante – bloqueamos o fluxo do Criador em nossa direção. Mesmo assim, o sustento vem. Ele é concedido a uma outra pessoa, que na realidade não o merece, mas supostamente o obtém em confiança. Ela deve guardá-lo e, eventualmente, devolvê-lo ao seu verdadeiro dono. Este é um ensinamento poderoso, com muitas ramificações e abordaremos uma delas.

Quando vemos ou sabemos sobre uma outra pessoa que esteja necessitada, devemos compartilhar com ela, não com a consciência de que lhe estamos dando aquilo que é nosso. Antes, devemos compreender que provavelmente estamos devolvendo este excesso a seu verdadeiro dono. À medida que continuamos a compartilhar com os outros desta forma, construímos para nós maiores canais para a abundância do Criador, que assim nos abençoa com um potencial contínuo de compartilhar infinitamente.



Rav Michael Berg




Fonte: Centro de Cabala
https://es.kabbalah.com/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O CAMINHO INDIVIDUAL E COLETIVO RUMO A MATURAÇÃO ESPIRITUAL


“Por quanto tempo você tem andado distraído pelo labirinto do autodesenvolvimento sem saber onde realmente se encontra?”

Assim caminhamos como humanidade: alguns na animalidade, estado mais primitivo da alma, mais identificados com os desejos e instintos, outros mais humanizados (mas ainda muito identificados com o ego) e outros mais espiritualizados (já mais identificados com o espírito).

Este é um caminho individual rumo a maturação espiritual, a qual todos estamos sujeitos, onde o tempo do processo se reflete unicamente no indivíduo e não está sujeito a nenhuma imposição externa, apenas pode ser influenciada, pois é um caminho interno de desenvolvimento.

Como uma infância, onde não podemos pular esta etapa, não podemos exigir ou impor uma atuação madura de um adulto. Cabe aos mais espiritualizados, se tornarem fontes de inspiração e atuar de forma a contribuir com este processo de desenvolvimento.

Porque o mesmo acontece com o processo coletivo, que seria a soma das consciências individuais que formam a humanidade… Podemos perceber em que etapa de maturidade está a humanidade olhando para a consciência das pessoas como um todo.

Quantas pessoas ainda estão totalmente dominadas pelos aspectos mais animalescos da alma? Identificados completamente com a matéria? Com os instintos e prazeres sensoriais? Com a mente coletiva?

Quantas pessoas estão na busca por aprovação e reconhecimento social, preocupados excessivamente com sua autoimagem e na busca incansável pelo relacionamento perfeito. Que possuem uma preocupação excessiva com a estética pessoal, como a febre de selfs e busca por likes nas redes sociais – quanto mais curtidas, melhor e mais importante eu me sinto. Que suas aspirações e seu foco são exclusivamente em coisas que satisfaçam o seu ego e seus desejos pessoais, principalmente conquistas de ordem material?

Quantas pessoas estão preocupadas realmente em se tornar melhores seres humanos, que buscam o autodesenvolvimento e têm uma preocupação genuína com os outros seres humanos e com o planeta, que buscam o equilíbrio entre a autorrealização e a atuação em prol do desenvolvimento coletivo?

 Onde você se encontra nesse labirinto?



Leonardo Maia




Fonte: Biblioteca da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br/forum/o-caminho-individual-e-coletivo-rumo-a-maturacao-espiritual/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

DESAPEGO


Nas nossas ações deveríamos seguir o impulso verdadeiro e espontâneo que nos vem do alto e não obedecer aos motivos de ordem contingente, egoística restrita.

Devemos amar a vida, respeitá-la gozar as suas belezas e alegrias, permanecendo, porém, sempre desapegados internamente, sabendo que tudo é transitório, ilusório; esta vida é o reflexo de outra mais verdadeira e real.

Não devemos deixar de nos dedicar às criaturas, às formas, mas devemos dedicar tendo a consciência de que são invólucros da Vida Una, da Vida Divina e não por apego e pavor da morte.

Quanto à felicidade, mesmo sabendo que as alegrias da Terra são efêmeras e transitórias, devemos saber gozá-las como dons temporâneos, sem sermos tétricos, tristes e exageradamente sérios.

Devemos saber gozar um belo dia de sol, um jardim florido, um afeto sincero, a graça de uma criança, uma obra de arte, mas, com desapego, sabendo, em nosso coração, que a verdadeira alegria é outra, que a verdadeira felicidade e qualquer coisa diferente e inexprimível e que um dia nos será possível conhecê-la e prová-la.

Devemos ser alegres e serenos, permanecendo, entretanto, livres e desapegados interiormente.

Enquanto estivermos presos pelo turbilhão dos desejos, estaremos atados a uma infinidade de apegos, estaremos preocupados, agitados, irrequietos, infelizes, sem perceber o chamado da nossa Alma e sem podermos ser sensíveis ao seu contínuo e constante apelo.



Dra. Angela Maria La Sala Batà



Fonte: do livro "Do Eu Inferior ao Eu Superior"
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 14 de junho de 2017

MOZART E A FLAUTA MÁGICA


A Flauta Mágica, obra de Mozart, tem dois aspectos fascinantes: a história, quase infantil, que raramente chega às crianças, e a música que há 200 anos fascina os adultos.

Se a história de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas, desafia claramente o leitor pela sua riqueza simbólica, dificilmente cifrada pelo adulto, a Flauta Mágica tem sido considerada, para os não iniciados, como uma história simplória, com versos medíocres, com uma moral primária e corriqueira.

O libreto de A Flauta Mágica parece ter sido escrito em 1731, relacionado com os Mistérios Egípcios. O próprio Mozart, como iniciado maçom, o conhecia certamente.

Eis a história: "um príncipe (Tamino) e um caçador de pássaros (Papagueno), atendendo ao apelo de uma rainha (a Rainha da Noite), tentam resgatar a princesa (Pamina), sequestrada num castelo.

Para cumprir essa missão, Tamino e Papagueno recebem da Rainha da Noite, por intermédio das suas damas, um carrilhão e uma flauta, ambos mágicos, além de três gênios que serviriam de guias. São representados, na ópera, por três crianças.

Por caminhos diferentes, Tamino e Papagueno chegam ao palácio de Sarastro. Pamina está lá, realmente prisioneira, atormentada por um escravo mouro de Sarastro (Monostatos), que já tentara violá-la na ausência do amo.

Chega Papagueno e Monostatos foge. Entretanto, Tamino discute com um sacerdote do templo de Sarastro: este lhe diz que Sarastro não é mau, mas nobre e justo, e que um dia, ele, Tamino, compreenderá tudo. Isso abala completamente os propósitos iniciais de Tamino.

Os três acabam presos quando Sarastro chega. Manda chicotear o escravo, explica a Pamina que sua mãe, a Rainha da Noite, é uma mulher perigosa e determina que Tamino e Papagueno sejam submetidos às duras provas no templo, como, por exemplo, a prova do silêncio.

Se passarem por tais provas, entrarão para a irmandade. Tamino receberá ainda a mão de Pamina e Papagueno o que ele mais deseja na vida: uma mulher para se casar. Entretanto, Pamina, adormecida, desperta a luxúria de Monostatos. Mas chega então a Rainha da Noite e mostra que Sarastro tinha razão: ela aterroriza a filha e lhe dá, cheia de ódio, um punhal, para que assassine a Sarastro. Depois desaparece.

Monostatos, que viu tudo, chantageia Pamina. Contudo, chega Sarastro, que expulsa o mouro e tranquiliza a rapariga, dizendo que naquele templo não há lugar para a vingança. Enquanto isso, Tamino vai passando nas provas, mas Papagueno não consegue sequer ficar calado. Acaba por ser expulso do templo. Pamina vai encontrar-se com o príncipe e não compreende porque ele não lhe dá resposta.

Julga que Tamino não mais a ama, fica desesperada, pensa em suicidar-se com o punhal – mas é impedida pelos três gênios. Volta ao templo e tem permissão para acompanhar Tamino nas suas últimas provas: a do fogo e a da água – o que os dois conseguem superar com sucesso, protegidos pelo som da flauta mágica.

Vagueando pelos bosques, Papagueno, inconsolado e cômico, pensa também no suicídio, mas também ele é salvo pelos três gênios. Sugerem-lhe que ele, Papagueno, toque o seu carrilhão mágico: ao som do instrumento aparece-lhe o que mais desejava: uma companheira.


Na escuridão da noite chegam a Rainha da Noite e o seu séquito, guiados agora por Monostatos, que se aliou contra Sarastro, ante a promessa da mão de Pamina. Vão destruir o templo e matar Sarastro e os sacerdotes. Mas estes irrompem com um poder descomunal e aniquilam as pérfidas criaturas. Pamina e Tamino casam-se com grande pompa e com muitas congratulações pela sua coragem, fidelidade e virtude".

O libreto fascinou tanto o rosa-cruz Goethe que ele se propôs a fazer com ele o mesmo que fizera com a sua obra-prima Fausto: escrever uma segunda parte. Em resumo, a história é essa.

Comecemos o estudo pelo simbolismo do número das personagens: são nove. Dentro da simbologia gnóstica, o número é chave para a compreensão de múltiplos mistérios, tanto no microcosmos quanto no macro.

O príncipe Tamino é verdadeiramente o herói da história. Ele representa a todos os Iniciados (homens e mulheres), que realizam em carne própria a Grande Obra, a Magnus Opus. Logo nos primeiros acordes surge Tamino numa situação incrível: a fugir de um dragão (uma serpente, no texto original).

Essa Serpente-Dragão representa as forças caóticas da natureza, as forças do Ego. A representação de uma personagem de Mozart é sempre feita de modo que qualquer pessoa a compreenda de imediato.

As primeiras palavras de Tamino, que grita por socorro, é um autêntico aviso do autor de que vamos entrar num território, inédito aos olhos do não-iniciado. Reside aqui precisamente a falta de compreensão desta obra musical. É que ela trata de segredos iniciáticos, que não são do conhecimento vulgar.

A segunda personagem é a princesa Pamina. Tamino, o príncipe, apaixona-se ao ver o seu retrato. Muito se tem escrito sobre esta dualidade, Tamino-Pamina. Quando Tamino vê o retrato, canta uma ária lindíssima. Serviu de fundo musical ao filme O Enigma de Kaspar Hauser. Pamina representa nossa Alma Divina, a Consciência, adormecida e presa pelo Ego e pela Mente.

A 3ª personagem é Papagueno. É a mais exótica, popular e sedutora. É o caçador de pássaros. É o “cão” que guia o cavaleiro, é o instinto que nos auxilia a trilhar corretamente o Caminho.

A 4ª é Monostatos, o criado mouro. (No filme, a cena entre Monostatos e Pamina foi alterada em relação ao original. Bergman substituiu as ameaças e a tentativa de Monostatos apunhalar Pamina por uma única, curta e sibilante entrada do mouro, muito no seu estilo.)

A 5ª, 6ª e 7ª personagens são as três crianças, os 3 Reis Magos, os dois Vigilantes e o Guardião da Maçonaria. Guiam Tamino, informam-no como deve escolher e as atitudes de firmeza que devem adotar, mesmo as de obediência. Quando Pamino pensa no suicídio, essas personagens fazem a ele ver que não conhece verdadeiramente a situação e a inutilidade do seu tresloucado ato.

O mesmo acontece a Papagueno, a quem explicam que nem tudo está perdido e ainda há alguma coisa por que lutar.

A 8ª e 9ª personagens são a Rainha da Noite e Sarastro.



A Explicação Esotérica

A Flauta Mágica inicia-se com três acordes majestosos, que se referem aos três passos ou graus fundamentais de todos os ensinamentos iniciáticos, e também aos 3 degraus de todos os altares místicos.

O terceiro acorde corresponde aos três toques do candidato, quando procura a porta do templo. A esses acordes segue-se, no original, uma marcha solene, preparada para instrumentos de metal, que simboliza o caminho a percorrer pelo Candidato, pelo Aprendiz.

O caminho é longo e o trabalho, cansativo. Mas o aspirante digno chega ao ponto culminante e torna-se um Iniciado. Na abertura, descrevem-se vários processos pelos quais a Pedra Bruta se transforma numa pedra trabalhada e viva. A abertura finaliza com a repetição das três pancadas ou acordes. Essa cena desenrola-se no Egito, num campo aberto, perto do Templo de Ísis. Tamino, quando entra em cena, é perseguido por um dragão, símbolo dos desejos inferiores, egóicos.

Faz uma prece e cai inconsciente. Surgem três jovens cobertas por véus. Simbolizam a purificação do corpo físico, do corpo de desejos e da mente, são os mesmos símbolos dos 3 cravos da cruz crística (os 3 graus de purificação pelo Fogo da Kundalini). A morte do dragão indica que Tamino alcançou a vitória sobre sua própria natureza inferior.

Tamino e Papagueno encontram-se. Logo depois surgem as três jovens que repreendem Tamino por reivindicar a morte do dragão, porque na verdade quem mata o Dragão não somos nós, mas uma força sagrada superior à mente. (Que Força será esta?) Dão a Tamino o retrato de Pamina, a filha da Rainha. Pamina representa a natureza espiritual do ser humano, Budhi, a Bela Adormecida ou a Consciência Espiritual, que é correntemente representada por uma figura feminina – como vemos nos textos de Salomão e de Camões.

Quando o discípulo se aperfeiçoa na busca e começa a sentir a maravilhosa beleza superior, se lhe dedica e consagra, realiza-se o que chamamos bodas místicas ou bodas de Canaã.

As três jovens informam a Tamino que foi escolhido para libertar Pamina, subjugada pela magia negra. Há um ensurdecedor barulho e surge a Rainha da Noite. Com palavras extremamente solenes relata o desaparecimento de Pamina, sua filha. Reconhece a piedade e sapiência de Tamino que considera capaz de a salvar. O cenário escurece de novo. É então que no aspirante se começa a desenvolver a clarividência.


Esta visão permite-lhe ver os mundos internos ou superiores. A pergunta que Tamino faz é a mesma de todos os aspirantes: “É verdade aquilo que vejo? Ou será apenas ilusão?”. O segundo ato começa com uma marcha solene, com música para instrumentos de sopro. Os sacerdotes, acompanhados por Sarastro, querem saber qual o objetivo da vinda de Papagueno.

Este responde-lhe que não se preocupa com a sabedoria, que apenas lhe interessa comer e beber. Tamino, por seu lado, deseja a sabedoria e, também, unir-se a Pamina. Há poucas pessoas, como Tamino, dedicadas ao serviço da Sabedoria! As três jovens experimentam Tamino, tentando-o convencer de que Sarastro lhe prepara uma traição. Tamino nega-se a ouvi-las.

É que em tempos de crise as forças unem-se para impedir o espírito de alcançar a luz e confundi-lo, separando-o da fonte de sabedoria. O segundo ato, na sua maior parte, é dedicado às provas do Aspirante. Esta cena termina com uma magnífica ária de Sarastro.

Cada instituição que se dedica ao estudo das leis divinas cria uma força dinâmica que pode ser utilizada para construir ou destruir. É da máxima importância que cada grupo aprenda a pôr em prática a seguinte regra: “viver e deixar viver”. A prudência é a melhor arma para combater qualquer tendência para a bisbilhotice, ciúmes, inveja ou ódio. Se isso for negligenciado, haverá discórdias, dissidências e, por fim, a destruição.

As jovens oferecem-lhe então uma flauta mágica, o símbolo dos poderes latentes do espírito, da divindade adormecida no homem. (Lembre-se da flauta de Krishna, com 7 orifícios, e que ele utilizava para encantar bestas, homens e deuses.) O mago negro, Monostatos, símbolo dos poderes do espírito usados incorretamente, arrasta Pamina. Atira-a para um caldeirão e ordena a três escravos que a prendam.

Os três escravos são os corpos internos inferiores (de desejos, mental e causal), chamados também de Os 3 Demônios (Judas, Pilatos e Caifás), relacionados com os prazeres inferiores, com o medo e a ignorância.


Quando o cenário muda, veem-se três templos: o da Razão, à direita; o da Natureza, à esquerda e o da Sabedoria, no meio. Os três templos representam as três forças distintas: a masculina, a feminina e a união de ambas, isto é, a força masculina, a beleza feminina e a sabedoria, que é filha das duas. Representam também as Três Montanhas, ou graus de liberação absoluta do Mestre: a Montanha da Iniciação, a da Ressurreição e a da Ascensão.

Aparece depois um sacerdote idoso e Pamino sabe que está no Templo de Sarastro, o Sacerdote do Sol, o mago branco ou o Iniciado-Condutor. Explica-lhe que vivemos cercados de estímulos aos quais se reage conforme a espiritualidade que se tem. É assim que tem de começar o trabalho de autoaperfeiçoamento.

A lei fundamental diz que a verdadeira ação esotérica só pode ter sucesso se for baseada na união com o espírito. A pedra fundamental de todas as sociedades ocultistas iniciáticas pode ser encontrada nas palavras de Sarastro: “Nestas amplas galerias não se conhece vingança”, que não são, afinal, mais do que a repetição daquelas que lemos nas obras dos grande iniciados.

A cena final começa numa quase total escuridão. A Rainha da Noite aproxima-se de Monostatos, que leva uma tocha. Ouve-se um grito de pavor e surge Sarastro e os sacerdotes, Pamina e Tamino.

Nesta ópera, Mozart descreve a senda do candidato, que procura a luz, “pobre, nu e cego” (como todos nós, míseros seres adormecidos). Demonstra os passos do Caminho, as suas Provas, nas quais se prepara o espírito para se tornar digno de entrar no Templo (Interior), naquele templo verdadeiro, que é feito sem ruído de pedra nem de martelo, em que a luz do Conhecimento (Gnose) permanece eternamente.





Fonte do Texto e das Gravuras: GNOSIS ONLINE
http://www.gnosisonline.org/misterios-da-musica/mozart-e-a-flauta-magica/

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CORRUPÇÃO POLÍTICA E A MISSÃO DO ESPIRITISMO


O objetivo central da política é a obtenção do bem comum. O bem comum é “um conjunto de condições concretas que permite a todos os membros de uma comunidade atingir um nível de vida à altura da dignidade humana”. Esta dignidade refere-se tanto às coisas materiais quanto às espirituais. Depreende-se que todo o cidadão deve ter liberdade de exercer uma profissão e aderir a qualquer culto religioso. Diz-se, também, que almejar o bem comum é proporcionar a felicidade natural a todos os habitantes de uma comunidade.

A corrupção, ou seja, o pagamento de propina para obter vantagens, quer sejam de ordem financeira ou tráfico de influência, deteriora a obtenção do bem comum, pois algumas pessoas estão sendo lesadas para que outras obtenham vantagens. Lembremo-nos de que “todo poder corrompe e todo poder absoluto corrompe absolutamente”. Significa dizer que sempre teremos que conviver com algum tipo de corrupção. Eticamente falando, o problema maior está no grau, no tamanho da corrupção e não a corrupção em si mesma.

No Brasil, estamos assistindo a uma enxurrada de denúncias, que vão desde o chamado caixa 2 de campanha política, até a compra de votos para aprovar projetos importantes na área governamental. O vídeo que mostra um funcionário dos Correios recebendo propina foi o estopim da crise. De lá para cá as denúncias não param. O deputado Roberto Jefferson, um dos acusados de comandar a propina nos Correios, saiu distribuindo acusações para todos os lados, no sentido de se defender do ocorrido.

Diante deste fato, pergunta-se: que tipo de subsídio o Espiritismo nos fornece para a compreensão dessa situação? Em O Evangelho Segundo o Espiritismo há alusão aos escândalos. Primeiramente, Jesus nos fala dos escândalos e que estes deverão vir, mas “Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha”. O escândalo significa mau exemplo, princípios falsos e abuso do poder. Ele deve ser sempre considerado do lado positivo, ou seja, como um estímulo para que o ser humano combata em si mesmo o orgulho, o egoísmo e a vaidade.

Lembremo-nos também da frase: “Ninguém há que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso, ou a ponha debaixo da cama; põe-na sobre o candeeiro, a fim de que os que entrem vejam a luz; - pois nada há secreto que não haja de ser descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer publicamente”. (S. Lucas, cap. VIII, vv. 16 e 17). A verdade, assim, não pode ficar oculta para sempre. Deduz-se que aquele que não soube fazer esforços para se pautar corretamente no bem, sofrerá as consequências de suas ações.

O Espiritismo auxiliará eficazmente as resoluções de ordem política, porque propõe substituirmos os impulsos antigos do egoísmo pelos da fraternidade universal. Allan Kardec propõe, em Obras Póstumas, o regime político que deverá vigorar no futuro, ou seja, a aristocracia intelecto-moral. Aristocracia - do grego aristos (melhor) e cracia (poder) significa poder dos melhores. Poder dos melhores pressupõe que os governantes tenham dado uma direção moral às suas inteligências.

Somente quando o poder da inteligência for banhado pelo poder moral e ético é que conseguiremos atingir um mundo mais justo e mais de acordo com o bem comum, pois os que governam propiciarão sob todos os meios possíveis a felicidade da maioria.




+Sociedade dos Espíritos 





Fonte do Texto e da Gravura: http://www.sociedadedosespiritos.com

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA


A fim de manter sua mente limpa, nunca crie dúvidas sobre si nem sobre os outros. Seja como um guerreiro que avança com determinação no campo de batalha para destruir todas as negatividades com a espada dos pensamentos positivos e dos bons sentimentos para todos. Ao manter na mente só o que é limpo, você pode colocar um ponto no passado e encarar o futuro com confiança. (António Sequeira, Virtudes para uma nova consciência, Centro de Raja Yoga Brahma Kumaris de Lisboa, 1999)

Muitas situações vêm como provas para nos tornar mais fortes. O mundo é como um oceano. Pode existir um oceano sem ondas? Existem ondas grandes, ondas médias e ondas pequenas. Algumas ondas vêm para pegar as coisas. Outras ondas vêm para jogar as coisas para fora. O mundo é igual. Diferentes situações vêm e continuarão a vir sempre. O importante é a experiência que acumulamos a cada desafio que decidimos enfrentar. (Dadi Gulzar)

A observação desapegada é a habilidade de nos separarmos dos nossos próprios pensamentos, emoções, atitudes e comportamento. É a arte de ser testemunha das cenas que acontecem ao nosso redor. Enquanto nos desapegamos e observamos como o jogo da vida se desenvolve - sem sermos participantes ativos - somos capazes de ver o quadro todo com mais clareza. Assim fica mais fácil ver claramente o papel que temos a desempenhar e onde nossa contribuição reside. Nós somos criadores. Nossos pensamentos, emoções e atitudes são nossos trabalhadores.

Os obstáculos que surgem não são para prejudicá-lo, eles vem apenas para se despedir de você. Deixe-os vir e ir mas não deixe que os obstáculos sentem-se com você como seus convidados. Agora faça esse esforço: deixe que os obstáculos simplesmente venham e vão embora. Se você permitir que eles sejam seus convidados de novo e de novo, então isso tornar-se um hábito. Eles se sentiriam em casa com você. Portanto, deixe-os vir e deixe-os ir. Não tenha misericórdia deles.




Brahma Kumaris





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quarta-feira, 31 de maio de 2017

ASPIRAIS À LIBERDADE ?


Aspirais à liberdade? Então, seja o que for que vos aconteça, não vos deixeis perturbar nem desanimar, fazei com que o vosso espírito retome, pouco a pouco, o domínio da situação, pois só o espírito é verdadeiramente livre, ele plana acima dos acontecimentos. Quando devolveis ao espírito o seu lugar em vós, algo vos diz que nenhum obstáculo, nenhuma provação, pode fazer-vos perder o equilíbrio, a paz, o amor. E, como as experiências luminosas que fizestes antes vos ensinaram os valores com os quais podeis contar, agarrai-vos a essas experiências, não duvideis do que vivestes de belo e de grandioso, levai-o como um viático para o caminho difícil que ireis percorrer. Quando a tormenta tiver passado, aperceber-vos-eis de que aquilo que poderia ter-vos feito desanimar, pelo contrário, reforçou-vos.




Omraam Mikhaël Aïvanhov





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domingo, 28 de maio de 2017

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA


Doçura é a maestria dos sentidos. Olhos que vêem o fundo das coisas, ouvindo que escutam o coração das coisas, voz que só expressa a essência das coisas. Doçura é o resultado de uma longa jornada interior ao âmago da vida e a habilidade de lá descansar e assistir. O que é realmente doce nunca pode ser vítima do tempo, porque doçura é a qualidade da pessoa cuja vida tocou a eternidade.

O corpo é como um templo; a alma é como uma centelha de luz. O corpo é como um carro; a alma é como o motorista deste carro. O corpo e o cérebro são como um computador; a alma é quem programa e usa o computador. É dito que a alma é uma estrela minúscula que vive no centro da testa, entre as sobrancelhas. Aqueles que praticam a consciência da alma se tornam auto-soberanos. (B.K. Jagadish Chander, Easy Rajyoga, Brahma Kumaris Ishwariya Vishwa Vidyalaya, Mount Abu)

A diferença entre o que dizemos e o que fazemos, entre o que prometemos e o que realizamos, é como a drenagem de uma estrada. Assim como a água escorre através da drenagem, nosso poder nos escapa quando existe uma diferença entre nossas palavras e nossas ações. Para manter o poder interior pergunte a si todos os dias: meus pensamentos, palavras e ações estão alinhados?

Seja sempre um doador nos relacionamentos. Seja como o sol, que dá luz a todos – sejam eles bons ou não. A natureza não faz distinção entre um ou outro enquanto doa. Seja como uma árvore que dá sombra a todos independentemente das qualidades de cada um. Seja com um rio que dá água a todos. Mostre compaixão nos relacionamentos. Isto significa amar mais do que a pessoa merece. Mude conflito em harmonia com paciência e o relacionamento fluirá suavemente. (R.K. Langar, Relationship – a beautiful aspect of life, The World Renewal, 2012)




Brahma Kumaris






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sexta-feira, 26 de maio de 2017

ENCARNAÇÕES DIVINAS - A PERSONIFICAÇÃO DO DHARMA


Dharma (retidão) é o código de conduta que promoverá os ideais de cada estágio de uma pessoa: estudante, chefe de família, assalariado, mestre, servo, aspirante espiritual, asceta (sanyasi) etc. Quando o código é distorcido e a humanidade mina a sua carreira terrena, esquecendo-se do propósito elevado pelo qual alguém veio, o Senhor encarna e conduz as pessoas pelo caminho correto. O Senhor Rama foi uma dessas encarnações. Ele realmente é a Encarnação da Virtude (Dharma-swarupam) envolto em uma forma humana ilusória; Ele aderiu ao dharma na prática diária, mesmo desde Sua infância. Ele é a personificação do dharma. Não há nenhum vestígio de vício (a-dharma) Nele. Sua Natureza Divina é revelada em Seu temperamento calmo e sentimento de amor e carinho. Medite Nele e você ficará cheio de amor por todos os seres; pense a respeito de Sua história e você notará todas as agitações de sua mente se aquietando em perfeita calma. (Discurso Divino, 1 de abril de 1963)




Sathya Sai Baba




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quinta-feira, 18 de maio de 2017

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA


Praticar a força de vontade é escolher os traços positivos dentro de nós para superar hábitos indesejáveis. Quando assimilamos boas qualidades e fortalecemos aquelas que já temos fica fácil ajustar nossas vidas. Mas como podemos fazer isso? Esforçando-se conscientemente para ficar mais calmo e racional e fazer decisões ponderadas ao invés de decisões impulsivas e emocionais. Para esse esforço é preciso força de vontade. Quando desenvolvemos o hábito de olhar para nossos pensamentos e emoções - e identificar porque eles vêm - gradualmente desenvolvemos a habilidade para controlá-los. (BK Satyanarayana, The Power of Detachment, The World Renewal, 2009)

Um grande local de trabalho seria aquele onde houvesse altos níveis de confiança, desempenho e aquisição, como um resultado de equipe e da cooperação dos indivíduos. Águias geralmente voam sozinhas. Mas se estamos falando de grandeza no trabalho, deveria ser como um bando de águias. Indivíduos que são muito, muito fortes em seus próprios valores, assertivos, confiantes em sua posição e identidade. Pessoas que desejam doar e que são capazes de agir por um grande propósito. (Brian Bacon)

Que hoje você experimente a paz e o bom silêncio. Todos nós precisamos de paz porque o coração de todos está partido. As palavras eu sou paz atuam como cola para remendar o coração. Primeiro precisamos de introversão e para isso temos que nos abstrair de tudo que está fora. Temos que terminar tudo que é desnecessário. Para isso, vá fundo para dentro e o poder da introspecção o capacitará a desenvolver concentração. Através do bom silêncio você experimentará pureza, paz, amor e felicidade. Este é o verdadeiro benefício da meditação. (Dadi Janki)

Atitudes são mais importantes que fatos. Mais do que qualquer outro aspecto, é sua atitude – ao iniciar uma tarefa - que determinará seu sucesso. Se você está negativo é porque você decidiu estar negativo e não por causa de outras pessoas ou circunstâncias. Então desenvolva a atitude de que há mais razões para a vitória do que a derrota. Irradie a atitude de confiança, de estar bem, de ser aquele que sabe para onde está indo. E logo você verá coisas boas acontecendo com você. (Dadi Prakashmani)




Brahma Kumaris





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domingo, 14 de maio de 2017

DRÁCULA: A LITERATURA FANTÁSTICA NA ERA VITORIANA

                                                                  STOKER, ABRAHAM "BRAM" (1847 - 1912)


Abraham Stoker (Bram) foi membro da ORDEM HERMÉTICA DA AURORA DOURADA (GOLDEN DAWN) - observação deste blog.


Biografia

Escritor irlandês nascido em Dublin, no histórico subúrbio de Clontarf, em novembro de 1847 e morto em Londres a 20 de abril de 1912. Chamava-se Abraham como seu pai (um oficial público civil e protestante na secretaria do Castelo de Dublin), mas sempre preferiu ser chamado de Bram.

Bram Stoker passou os primeiros oito anos de sua vida confinado à cama por uma doença misteriosa que os médicos não puderam diagnosticar. A sua relação com a mãe, Charlotte Thornley, era excepcionalmente íntima e Sra. Stoker partilhou com o filho seu conhecimento e amor por contos de fadas, histórias de fantasmas e apavorantes narrativas da epidemia de cólera de 1832 que ela havia testemunhado.

Aos dezesseis anos, tendo superado a enfermidade, Bram ingressou no Trinity College de Dublin, onde realizou seus estudos, diplomando-se em Matemática (Bacharel em Ciências, com louvor, 1870). Em 1866, iniciou uma carreira de funcionário público que transcorreu toda na Irlanda. Como burocrata, a serviço da Justiça, escreveu um manual intitulado "Deveres dos amanuenses e escrivães nas audiências para julgamento de pequenas causas e delitos na Irlanda". Desempenhou também cargos universitários e pertenceu a sociedades científicas e literárias, colaborou em periódicos, foi cronista, jornalista, contador, diretor de um jornal vespertino, agente teatral, secretário particular e administrador do Royal Lyceum Theatre, de Londres, para o famoso ator shakespeariano Henry Irving.

             Sir Henry Irving, ator shakespeariano que serviu de modelo para a descrição de Drácula


Foi, aliás, Sir Henry Irving - "de voz sibilante e terrível" - quem inspirou a Bram Stoker a figura do diabólico Conde-vampiro dos Székes Transilvanos (grupo étnico que se localizou na Transilvânia, "a terra situada além das densas florestas" romenas, a partir do século VII ou no fim do século IX, como querem alguns, oriundo de tribos húngaras ou búlgaras), "descendentes de Átila e Hunos", "altiva raça que cruzou o Danúbio para bater o turco em sua própria terra" e "rechaçou de volta a suas origens os magiares, os lombardos, os avares e os turcos". Irving recompensou o seu fiel discípulo e colaborador fazendo uma leitura dos diálogos de Drácula no palco do Lyceum Theatre. Um ano após a publiçação de Drácula (em maio de 1897), a carreira de Stoker entrou em declínio. Um incêndio no Lyceum destruiu a maior parte do guarda-roupa, adereços e equipamentos do teatro, que fechou em 1902. Irving morreu em 1905 e a saúde de Bram piorava sensivelmente. Naquele ano teve um derrame e, logo a seguir, contraiu a doença de Bright que afeta os rins. Foi com grande dificuldade que Stoker escreveu seus últimos livros. O homem que escreveu Drácula faleceu aos sessenta e quatro anos, esgotado e empobrecido por longos anos de luta contra a sífilis, sem ter podido gozar o notável sucesso de sua criação. Drácula continua sendo a obra literária mais frequentemente adaptada para o cinema e seus personagens as figuras mais retratadas na tela, além de Sherlock Holmes e do Dr. Watson. Em 1987, a Horror Writers of America instituiu um conjunto de prêmios anuais em seu campo de atuação que foi batizado com o nome de "Bram Stoker Award".


Publicações

- The Duties of Clerks of Petty Sessions in Ireland (1878);
- Under the Sunset (1881);
- A Glimpse of America: A Lecture Given at the London Institution at 28 December 1885 (1886);
- The Snake's Pass (1890);
- The Watter's Mou (1894);
- Croken Sands (1894);
- The Shoulder of Shasta (1895);
- Dracula (1897);
- Miss Betty (1898);
- The Mystery of the Sea (1901);
- The Jewel of Seven Stars (1903);
- The Man (1904);
- Personal Reminiscences of Henry Irving (1906);
- Lady Athlyne (1908);
- Snowbound: The Re-cord of a Theatrical Touring Party (1908);
- The Lady of the Shroud (1909);
- Famous Impostors (1910);
- The Lair of the White Worm (1911).

Publicações Post-Mortem

- Dracula's Guest and Other Weird Stories (1914);
- The Bram Stoker Bedtime Companion (1973);
- Midnight Tales (1990);
- Bram Stoker's Dracula Omnibus (1992);
- The Essential Dracula, ed. Leonard Wolf (1993).

(...)

Uma análise do panorama intelectual da época em que Stoker viveu revela a forte influência dos movimentos espiritualistas na Inglaterra Vitoriana de Fins-do-Século e inícios da Era Eduardiana: a "Belle-Époque".

Estranhas combinações de esotérico cientificismo e ritualístico misticismo eram dadas à luz, ganhavam notoriedade e esfumavam-se na pira da aclamação popular.

Racional e irracional achavam-se estreitamente ligados, as distinções eram muito artificiais. Neste sentido, a figura e a obra do escritor e médico inglês Arthur Conan Doyle (1859-1930), criador de Sherlock Holmes e de seu fiel biógrafo o Dr. Watson, são emblemáticas: aos domínios de raciocínio lógico e agudeza intelectual de Holmes não era estranho, graças ao poder de observação muito sutil, o Reino das Fadas...

O pensamento e as doutrinas de Henri Bergson (1859-1941) exerciam considerável influência neste período de viragem histórica. O laureado Nobel de Literatura de 1927 postulava a "Ação" como ponto inicial de seu sistema filosófico que pretendia combater o Materialismo.

Para Bergson, além do conhecimento científico, existia o conhecimento filosófico, assim como além do conhecimento pela inteligência existe o que é fornecido pela intuição. Intuição dos dados da consciência separados da ideia de espaço e matéria. O pensamento científico, pela análise e abstração, mostra-se incapaz de compreender ou captar a vida e o espírito, os quais constituem o fundo da Realidade...

No que concerne a Bram Stoker, foi o convite feito por Henry Irving para assumir a direção do Lyceum em 1878 que o trouxe a Londres. Era o início de uma longa colaboração que perduraria até a morte de Irving.

O trabalho com Irving põe Stoker em contato com a sociedade inglesa ou certa sociedade londrina apaixonada pelo sobrenatural. Bram sempre guardou certo gosto pelo fantástico.

Stoker vai se filiar à sociedade secreta mágica-iniciadora da "Golden Dawn in the Outer" cuja história Pierre Victor escreveu com detalhes.

Ao lado de Stoker, encontravam-se outros escritores tais como o poeta William Butler Yeats (1865-1939), Arthur Machen, Algernon Blackwood e Sax Rohmer. A Golden Dawn, ordem iniciática embasada em conhecimentos ocultos e práticas de magia, deve ter influenciado os autores de Le Grand Dieu Pan, Fu-Manchu e Dracula (Machen, Rohmer e Stoker).

Samuel L. Mathers, um dos três fundadores da Golden Dawn , era o marido da irmã de Henri Bergson. É possível supor que venha daí a familiaridade de Stoker com as ideias bergsonianas.

Nesse fim de século, tudo é possível! Foi assim que ele pode encontrar em Londres "vampires personalities", "sugadores de sangue", cujas características permanecem contudo muito vagas.

A presença do "jornalista" Stoker em diligências da Yard londrina, possibilitaram ao futuro autor de Drácula um contato em primeira mão com os corpos exangues de vítimas de homicídios que, na época, ainda apresentavam mutilações e cortes característicos de vampirismo e profanação satânica.

Percorrendo as prisões britânicas, Stoker pode encontrar detentos obcecados pela compulsão de verter sangue, vê-lo fluir ou mesmo bebê-lo.

Mas o vampirismo já havia inspirado o gótico britânico dos séculos XVIII e XIX e nutrido a imaginação do criador de Drácula bem antes de Bram Stoker começar a procurar a ambientação e a legenda para o seu nosferatu carpatiano.

É interessante destacar o aparecimento de Carmilla (de Sheridan Le Fanu) em 1872 e d'O Estranho Caso do Doutor Jekyll e Mr. Hyde (de R.L. Stevenson) em 1886.

Nos trabalhos de Ann Radcliffe, Coleridge, Byron, Polidori, Rymer, Le Fanu e Collins estão as raízes ancestrais do Conde Wampyr de Estyria!

Ignora-se frequentemente que, embora Stoker tenha mudado o nome do seu Conde-vampiro ainda na fase inicial da elaboração do livro (por volta de 1890, quando leu os artigos de Emily Gerard e resolveu delinear o seu personagem como um nobre transilvano do século XV), ele só decidiu utilizar Drácula - como título - pouco tempo antes da sua publicação em maio de 1897.

É o ponto central da carreira literária de Abraham Stoker, os outros livros apresentam intuições brilhantes, ainda que não desenvolvidas plenamente. Como se a partir de Drácula, a inspiração de Bram se interiorizasse, manifestando-se apenas em jatos intermitentes. Infelizmente!

Foram muito poucos os que souberam reconhecer a sua importância e o compararam a Frankenstein. No dizer de J. Gordon Melton: "nenhum crítico percebeu que Stoker tinha chegado ao ápice da literatura, mas a verdade é que poucos autores chegaram ao cume que Stoker alcançou"...

A decisão de contar a história por meio do testemunho de múltiplos registros (diários, cartas, notas, recortes de jornais, gravações) partiu provavelmente da leitura dos livros de Wilkie Collins (The Moonstone, The Woman in White). Esta alternância de pontos de vista dos diferentes personagens tem a propriedade de conservar intacto o mistério de Drácula, dado que este é sempre indiretamente aproximado do leitor. Negando-se uma voz narrativa ao Conde também se reforça textualmente o seu papel como o Outro. O estrangeiro, a criatura das trevas...

Para localizar o cenário da sua lúgubre epopéia, Stoker valeu-se de um completo e pormenorizado guia de viagem, o Baedecker, bem como dos livros e mapas do British Museum, particularmente "The Land Beyond the Forest" de Emily Gerard. As longas conversações que manteve com um amigo húngaro também ajudaram...

Por que optou pela Europa Central e pelos Cárpatos como sítio do Castelo de Drácula? O próprio Stoker responde à questão no Diário de Jonathan Harker (...).


"Três de maio, Bistritz (...) Dispondo de algum tempo livre durante minha permanência em Londres, ali frequentei o Museu Britânico, consultando livros e mapas geográficos na biblioteca, a fim de recolher dados sobre a Transilvânia. (...) Verifiquei então que o distrito por ele citado se achava localizado no extremo oriental do território precisamente na faixa limítrofe de três Estados: Transilvânia, Moldávia e Bukovina, no centro da cadeia dos Cárpatos, um dos mais selvagens e desconhecidos sítios da Europa. Em nenhuma das muitas obras e mapas consultados me foi possível estabelecer a exata localização do Castelo de Drácula". [Drácula, 2ed, Porto Alegre: L&PM Editores, 1985, pp. 7 e 8]

Dessa forma referencia-se o itinerário do procurador Jonathan Harker, cuja viagem pela Alemanha, Áustria, Hungria e Romênia pode ser traçada nos mapas com precisão matemática. Harker viaja de Budapeste para o norte da Transilvânia, então parte do Império Austro-Húngaro. Seu destino final era uma localização não-assinalada em qualquer mapa: o Castelo de Drácula. O percurso, duração e impressões da viagem equivalem a uma experiência real. Stoker informou-se tão bem sobre a Transilvânia que parecia lá já ter estado!

A identificação do Castelo com o seu senhor é um tema que aproxima Drácula da primeira ficção gótica (O Castelo de Otranto publicado em 1764 por Sir Horace Walpole). Mas não podemos deixar de especular... Stoker leu algo a respeito de um antigo castelo no Borgo Pass? Sabia algo sobre o Castelo Bram? É claro que nada poderia saber sobre a fortaleza de Vlad Tepes nos Arges...

                                                                      Vlad Tepes


Igualmente interessante é a questão do vampirismo em Drácula.

Além da significativa influência das fontes literárias (Lord Ruthwen, o vampiro de Polidori; Sir Francis Varney de Rymer e a Condessa Karnstein de Le Fanu são os ascendentes mais prováveis), o artigo de Gerard "Transylvanian Superstitions" pode ter fornecido a Stoker uma explicação para o "estigma de Caim" do seu protagonista: o detalhe do Scholomance, a escola do Demônio nas montanhas da Transilvânia, aonde os Dráculas iam buscar os seus segredos.

(...) Segundo Arminius, da Universidade de Budapeste, os Dráculas pertenciam a uma grande e nobre estirpe, embora vez por outra também apresentassem certas degenerescências que, na versão de seus contemporâneos, os levassem a manter estreitas ligações com o Maligno. Eles se apoderaram dos seus torvos segredos nos antros de necromancia, existentes às escarpadas margens do Lago de Hermanstadt, onde o Demônio ia recrutar o seu dízimo humano entre os indiciados para, a partir daí, submetê-los a seus serviços. Nos registros de então, as expressões mais encontradiças são stregoica, que significa bruxa; ordog e pokol que são o mesmo que Satanás e Inferno; e, num determinado manuscrito, este mesmo Drácula é descrito como um wampyr, cuja lexicologia conhecemos já perfeitamente. Houve neste clã muitas e sucessivas gerações de grandes homens e bondosas mulheres e até hoje seus túmulos santificam aquele chão onde somente o mal podia florescer. Pois não é certamente o menor dos seus terrores devermos admitir que este ser do mal ainda conserva suas raízes profundamente mergulhadas nas terras do Bem, visto como sobre os solos de sagradas memórias ele jamais poderia deter-se. [Drácula, L&PM, p. 301]

É este Drácula fictício e não o histórico que conquistou a imaginação do mundo ocidental. "O fascínio de Drácula reside em seu mito, não em sua realidade" (Florescu & McNally).

A ideia de um morto retornar para reivindicar o amor de um vivo era um tópico popular no folclore europeu. A mais famosa peça literária a abordar o tema foi a balada "Lenore" de Gottfried August Bürger, popularizada na língua inglesa graças a tradução de Sir Walter Scott.

Segundo Roger Vadim (cineasta francês de Rosas de Sangue/Carmilla) "de todas as manifestações poéticas do Ocultismo, o mito do vampiro é a mais atrativa, duradoura, resistente e satisfatória".

Uma justificativa para esse permanente poder de atração da legenda vampiresca pode ser encontrada na riqueza das tradições mitológicas (ainda que a geografia cultural da legenda seja eminentemente ocidental e européia, na forma sob a qual nos foi legada), no grande número de relatos e obras publicadas, na psicanálise freudiana e por extensão nas concepções sociológicas marxistas e marcusianas:

Eros e Thânatos (amor, sexo e morte) são elementos chaves para o entendimento de nossa civilização.

O vampirismo (enquanto relação sublima-da na arte, literatura, etc.) permite o pleno desfrute do binômio sangue-sexo.



Transferimos para o nosferatu - ser vivente que se recusa a acatar a implacável lei natural e perecer - toda a magia de nossa sede de imortalidade que e também uma vontade de liberdade, uma reação contra os mecanismos de coerção e correção social que nos limitam e aprisionam.

A busca de imortalidade é (pode ser), em última análise, a busca de liberdade e da felicidade.

Segundo Marcuse, liberdade e felicidade são termos intimamente relacionados: "A felicidade, como realização de todas as potencialidades do indivíduo, pressupõe liberdade (...), no fundo é liberdade."

(...)

As personagens de Stoker são positivas (em graus diversos) porque agem. A vida é continua modificação e diversificação em sucessivas criações [Byron e Bergson].

Vendo por este prisma, não se pode compreender o mundo, a não ser que seja ele impelido por uma ação, seja ela mágica, onírica ou artística. 

Drácula, o príncipe negro da Transilvânia, ajusta-se a tais critérios mas é mais do que uma hipérbole da reprimida sexualidade vitoriana. (Reprimida e liberada pelas convenções, os vitorianos viviam intensamente uma vida dupla passada em clubes e casas noturnas...)

Sombra especular de nossos egos, oferece a oportunidade de maior liberdade na harmonização das polaridades de uma personalidade pluripotente, em um ser uno, não mais dividido e fragmentado.

Assim o mundo parte do sonho e ao sonho retorna tomando às vezes a forma de um pesadelo. Quando questionado, Abraham Stoker respondia que Drácula fora inspirado num pesadelo provocado por indigestão de frutos do mar...

"La fête du sang" (the feast of blood - subtítulo de um livro de James Malcolm Rymer) celebrada por Drácula, o "Príncipe nas Trevas", deve dar lugar a uma ressurreição e ascese mais espiritual?

Para Stoker, assemelham-se os dois caminhos; é preciso ir até o fim do terror e enfrentá-lo. O grão deve perecer para que frutifique (...).

Depois surge a luz: as páginas finais evocam uma aurora radiosa sem as nuvens portadoras da angústia (...).



Bram Stoker escreveu 17 livros, nenhum deles porém foi capaz de obliterar o fascínio crescente que ia se acumulando em torno da legenda do seu príncipe-vampiro transilvano.

Quando Stoker morreu em 1912, "Drácula" estava em nona edição e já havia ganhado os palcos londrinos.

O biógrafo de Stoker, Harry Ludlam escreveu: "Há um profundo mistério entre as linhas de sua obra... o mistério do espírito do homem que as redigiu...".

Se existem respostas para o mistério de Stoker é nas páginas de sua obra que devemos procurá-las.

(...)





Fábio Silveira Lazzari





Fonte do Texto e das Gravuras: http://www.carcasse.com/sepia/bram.htm

(Os grifos são deste blog.)
(Texto reduzido)




Fontes Consultadas:

ENCICLOPÉDIA VNIVERSAL ILVSTRADA EVROPEO-AMERICANA. Barcelona: Espasa-Calpe. 1930. v. 57. p.1024.

McNALLY, Raymond T. & FLORESCU, Radu R. Em Busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995. 304 p.

MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros. São Paulo: Makron Books, 1995. pp.731-32.

MACINTYRE, Alasdair. As ideias de Marcuse. São Paulo: Cultrix, 1993. pp. 15-18.

MILLER, Elisabeth. A Gênese do Conde Drácula in Megalon, São Paulo, 1997. v. 9. nº 43. pp. 22-25.