O perispírito representa importantíssimo papel no organismo e numa multidão de afecções, que se ligam à Fisiologia, assim como à Psicologia. (1)
Para a Doutrina Espírita, existe um envoltório ligado à alma que lhe dá forma e guarda profunda relação com ela. A existência desse envoltório é falada desde há muito por várias tradições culturais. Paulo de Tarso o chamou de corpo espiritual, ou corpo incorruptível. André Luiz, por meio de Chico Xavier, deu o codinome de psicossoma. Recentemente, o pesquisador Hernani Guimarães Andrade o denominou de modelo organizador biológico (MOB). Igualmente, no seu livro "A Gênese", cap. 1, it. 39, Kardec o intitulou de corpo fluídico da alma ou perispirito, comparando-o ao perisperma que envolve o gérmen dos frutos; e verificou que, por meio dele, se dão vários adoecimentos.
Conforme as visões da Codificação Kardequiana e de Léon Denis, ele é inseparável da alma e forma junto desta o que se chama de Espírito. (2) (3)
Assim, é um dos elementos que constituem o ser. E, por sua vez, é formado de uma matéria mais sutil, (4) ou energia mais grosseira, para os encarnados, uma matéria mais sutil do que o corpo. Para os desencarnados, uma energia mais grosseira que aquela existente nas entranhas, sendo, por isso, chamado de envoltório semimaterial.
Essa formação tem origem a partir da alma por meio do fluido universal, que, para o Espiritismo, é uma espécie de energia basilar que permeia o Universo e as criações divinas.
Como consequência, cada ser terá uma constituição perispiritual própria, considerando que o fluido cósmico não é homogêneo na psicosfera dos planetas. Além disso, ela não é estática, pois que o psicossoma é extremamente mutável e sensível às influências do ser. Em geral, essas influências acontecem da alma em direção à carne. Contudo, o inverso também pode ocorrer.
Isso tem uma grande importância, já que esse corpo espiritual é o agente de transmissão do pensamento originário da alma e laço intermediário entre esta e a indumentária carnal, denominada material.
Salienta-se, outrossim, que, do mesmo modo que o perispírito tem sua origem na essência espiritual, o corpo biológico tem sua formação feita a partir do psicossoma. Por isso, foi denominado de MOB por Hernani Guimarães Andrade.
Nesse sentido, pode-se dizer que ele tem duas esferas.
Em uma, é o ponto de registro das existências da criatura, aí sendo o corpo causal da carne. Assim, originará o biológico levando em conta alguns aspectos. Primeiro, as necessidades geradas pela Lei de Causa e Efeito fazendo as demandas evolutivas do indivíduo. Segundo, como consequência direta das alterações perispiríticas já presentes, surgidas por impositivo dessa Lei de Causalidade.
Em outra esfera, o perispírito é o ponto de ligação da alma com a matéria. Aí, tem-se o duplo etérico, que abrange também os eflúvios neuropsíquicos das células, ou halo energético, sobretudo do sistema nervoso. (5)
As alterações perispirituais, consequentes à Lei de Causa e Efeito, têm grande importância na etiologia do adoecimento mental. Nesse tipo de doença, especificamente, elas, grande parte das vezes, são geradas em existências pretéritas. Contudo, igualmente, podem ser ocasionadas na atualidade em um passado mais recente. Como seja, poderão gerar transtornos psíquicos através de algumas vias.
Durante a formação do corpo de carne, por meio da reencarnação, alteraram-se os genes, “tijolos” na arquitetura biológica, que poderão vir a se expressar ou não, a depender de vários fatores, mas que, invariavelmente, irão predispor o surgimento de síndromes com a posterior expressão proteica biológica.
Em outras situações, no entanto, as mutações genéticas só acontecerão em período ulterior ao processo reencarnatório. Nesse caso, geralmente, elas irão se expressar em doenças.
Nessa segunda possibilidade, de igual modo, pode-se estar diante de uma pendência oriunda de vidas passadas. A diferença é que, na primeira, fez-se logo o registro genético.
Como seja, do ponto de vista do adoecer neuropsiquiátrico, é lançando mão dos genes que ocorre o chamado planejamento reencarnatório da provável doença.
Às vezes, a transição da perturbação perispiritual para a doença física não se dá por meio dos genes, mas diretamente na carne, por mecanismos ainda mal compreendidos. Também aqui, pode-se estar diante de complicações desta ou de outras existências.
Algumas pessoas, por exemplo, que já estão vivendo dias além do planejado antes de reencarnarem, no que se convencionou chamar de moratória, (6) são acometidas por afecções neuropsiquiátricas graves. Vencedoras em diversos aspectos da vida, têm a chance de sublimarem outras áreas que seriam buriladas em vidas posteriores, saindo, desde já, amplamente vitoriosas, a depender da dinâmica que empreendem no lidar com o adoecimento. Pode-se ter, aí, uma pendência reencarnatória expressada sem a necessidade genética.
Igualmente, em alguns casos de distúrbios que cursam com percepção distorcida da imagem corporal, como a anorexia nervosa e a vigorexia, vê-se no bojo dessas distorções aberrações perispirituais. Assim, pacientes extremamente magras não conseguem ver-se como tal, captando as impressões perispiríticas horripilantes que, em alguns casos dessa doença, existem. Salientam-se alguns casos porque não necessariamente o indivíduo com doenças que afetam a perturbação da imagem corporal ainda permanece com o perispírito deformado no curso de seus distúrbios psiquiátricos. Esses distúrbios também podem ser devidos a reminiscências de perturbações perispirituais no período pré-reencarnatório ou de quando o ser permanecia nas regiões inferiores do Mundo Espiritual. Estes podem ser alguns dos motivos do desequilíbrio de neurotransmissores que vem sendo achado nesses transtornos.
As alterações perispirituais, a maior parte das vezes, são concentradas nas áreas que o ser identifica, por um mecanismo não tão óbvio e sobretudo inconsciente, como sendo o motivador de seu sofrimento.
Sendo assim, Espíritos que abusaram da inteligência por meio da astúcia, da crueldade e correlatos, muitas vezes nascem com graves retardamentos mentais. Identificando esse departamento como o motivador de suas quedas morais, geram alterações perispirituais que se traduzirão em modificações anatômicas ou funcionais do encéfalo. Não necessariamente foi somente essa área do corpo que os fez cair, no entanto há uma identificação, até mesmo pelo impositivo da lei de atração, que faz surgir um desarranjo nesse setor.
Em outras ocasiões, seres que se mataram com tiros no crânio reencarnam com dolorosas síndromes neuropsiquiátricas. E isso acontece não porque a bala atravessou o corpo e atingiu o perispírito de modo literal/material. Na verdade, a imensa dor projeta no ato suicida e na região afetada a forma de expressar o sofrimento psíquico, gerando a alteração, e até mesmo, a malformação cerebral.
Desse modo, as perturbações do psicossoma ocasionam alterações biológicas específicas, variando muito a maneira de manifestação clínica. E isso devido, no caso das doenças neurológicas e psiquiátricas, às várias regiões cerebrais que podem ser implicadas.
Igualmente, essas fragilidades de áreas-alvo do corpo espiritual, quer se expressando na carne ou não, irão facilitar as interferências obsessivas. E aqui, também, os sintomas variarão bastante.
Assim, o perispírito, de uma ou de outra forma, tem papel de destaque na gênese dos distúrbios psiquiátricos. Isso porque é elemento chave na reencarnação, na Lei de Causa e Efeito, na genética e nas obsessões.
Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar, antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque, na realidade, é o corpo físico que o reflete, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação. (7)
Dr. Leonardo Machado
Fonte: do livro "Transtornos Psiquiátricos - Um Olhar Médico Espírita"
1ª ed., 2019, Brasília/DF
FEB - Federação Espírita Brasileira
www.febeditora.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/wailpaper-aura-medita%C3%A7%C3%A3o-emo%C3%A7%C3%A3o-2111346/
Notas:
(1) KARDEC, Allan. A gênese. Cap. 1, it. 39.
(2) Nota do autor: Vide O que é o espiritismo, cap. 2; A gênese, cap. 1, it. 39; Cristianismo e espiritismo, Nota complementar no 9; Depois da morte, cap. 24. Todos os livros editados pela FEB.
(3) Nota do autor: Muito embora, com a evolução do ser, o perispírito fique tão etéreo que é como se não existisse, confundindo-se com a própria alma. Vide: O livro dos espíritos, q. 186.
(4) Nota do autor: Na época de Kardec, os trabalhos de Albert Einstein sobre a relatividade e a constituição energética da matéria ainda não existiam. Mesmo assim, embora com uma linguagem diferenciada, os benfeitores espirituais e o próprio codificador anteviram essas questões. Vide: A gênese, cap. 14, I, notadamente no it. 6.
(5) XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Cap. 17; e Nos domínios da mediunidade. Cap. 11.
(6) Nota do autor: Os motivos de isso acontecer são os mais variados. Muitas vezes, porém, trata-se de indivíduos que guardam grande cota de responsabilidades em seus ombros, cuja ausência física poderia afetar negativamente bastante outras vidas. Tais períodos de acréscimo são vistos como dadivosos por permitirem maior cota de aprendizado. Contudo, há casos em que servem como corretivos.
(7) XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. 1ª pt., cap, 2.

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