sábado, 9 de maio de 2020

O MEDO DA MORTE (MEDITAÇÃO E MANTRA)


Ao meditar […] estamos a encarar a morte todos os dias. E, se encararmos a morte todos os dias, se nos permitirmos morrer um pouquinho mais todos os dias, então, a experiência da morte irá permitir-nos viver cada dia de forma mais plena. A morte encarada com fé leva-nos além do medo e faz-nos viver cada dia com esperança certa da vida eterna. A morte cancela o nosso sentido de futuro e, assim, força-nos a concentrar totalmente no momento presente. Para onde mais podemos ir? Quando realmente encaramos a morte, estamos totalmente no momento presente. Entramos na eternidade antes de morrermos, se conseguirmos enfrentar a morte com esta atenção isenta de fuga. Mas nós tentamos sempre fugir do momento presente.

Habitualmente, fugimos do presente, quer vivendo no passado, quer criando um mundo de fantasia. Mas, quando estamos a meditar, a recitação do mantra fecha-nos a porta a essas duas opções ou caminhos de fuga. Não há sítio algum para onde ir, a não ser estar aqui. O mantra aponta numa direção, para o centro. É um caminho estreito, mas é o caminho da verdade. Ao seguirmos o caminho do mantra, ao aprendermos a dizê-lo com coragem e humildade, ele conduz-nos por um caminho em que tudo o que, em nós, nos poderia impedir de alcançar a plenitude da vida morre. A cada dia, morremos na fé e essa é a suprema preparação para a hora da nossa morte. Mas, enquanto forma de morrer na fé, ela inevitavelmente leva-nos a confrontar duas forças muito poderosas que também devemos estar preparados para enfrentar. São as forças do medo e da raiva. […]

[Mas] a raiva, e o medo que dela nasce, é tudo o que a meditação não é. A raiva mais profunda vem do nosso medo mais profundo – o da morte. Mas vem também das mais diversas causas secundárias, de tudo o que constitui a nossa história psicológica. Precisamos de estar conscientes, quando meditamos, e à medida que nos vamos limpando a nós mesmos dessa raiva, de que não é a nossa preocupação imediata descobrir de onde é que ela vem. Tudo o que é realmente importante é estarmos a deitá-la fora. […] O que é importante é que o amor, que está ativo na recitação com fé do mantra, expulsa o temor e a raiva do nosso coração. […]. Nas palavras da 1ª Epístola de S. João (4:16-18): “Deus é amor e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. É nisto que em nós o amor se mostra perfeito: em estarmos cheios de confiança no dia do juízo, pelo fato de sermos neste mundo como Ele foi. No amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor.”


Laurence Freeman, OSB



Fonte: “O Medo da Morte” – Laurence Freeman OSB, in “O Ser Altruísta” (excerto)
(no original: “THE SELFLESS SELF” - London: Darton, Longman, Todd, 1989 -  pp. 129-131.)
Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - Portugal
http://www.meditacaocrista.com/
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

sexta-feira, 8 de maio de 2020

A DIETA QUE RESPEITA A VIDA


A Forma como Tratamos os Outros Seres Reflete o Tratamento Que Damos à Alma


Os estudos sobre os benefícios da alimentação vegetariana para a saúde dos seres humanos e o equilíbrio do planeta são cada vez mais numerosos. Ainda que lentamente, a ciência começa a ir ao encontro da sabedoria universal neste aspecto.

Muitos seguem o regime alimentar vegetariano como forma de fortalecer a vitalidade. Alguns terapeutas das medicinas alternativas, como a naturopatia, defendem a ideia de que o consumo de carne implica assimilar as emoções do animal. Para eles a agressividade do ser humano aumenta com o consumo de produtos animais. Ao comer um bife, o indivíduo ingere não só proteínas mas um conjunto de hormônios e outras substâncias que escapam ao olhar. A adrenalina que o animal produz enquanto sofre estresse e morte violenta é um exemplo. Quando ingerimos alimentos, ingerimos emoções. Vendo como a maior parte dos alimentos é produzida hoje em dia podemos constatar que as emoções que “ingerimos” nem sempre são as mais saudáveis.

Ao longo da história da humanidade o vegetarianismo tem sido defendido pelos sábios. “Ísis Sem Véu” diz o seguinte:

“Zeller afirma que Xenócrates proibia o consumo de carne animal, não porque ele visse nos animais alguma semelhança com o homem, já que lhes atribuía uma pálida consciência de Deus, mas ‘pela razão contrária, por temer que a irracionalidade das almas animais assim pudesse obter uma certa influência sobre nós’. Mas acreditamos que foi antes porque, como Pitágoras, ele teve os sábios hindus por mestres e por modelos. Cícero mostra-nos Xenócrates desdenhando de tudo, salvo da virtude superior; e descreve a pureza e a severa austeridade de seu caráter. ‘Nosso problema é libertar-nos da sujeição da vida dos sentidos, e vencer os elementos titânicos de nossa natureza terrena por meio da natureza divina’. Zeller fá-lo dizer: ‘Mesmo nos desejos secretos de nosso coração, a pureza é o maior dever, e apenas a filosofia e a iniciação nos mistérios nos permitem atingir tal objetivo’.” [1]

Optar pelo vegetarianismo é acima tudo uma questão de ética. À medida que o contato com a alma imortal é fortalecido, surge o respeito pela vida. Massacrar animais para satisfação do paladar ou como forma de canalizar a energia destrutiva deixa de fazer qualquer sentido. Podemos ler no texto “A Ética da Alimentação Vegetariana”:

“O surgimento de novas teorias alimentares, que nos levam a abandonar o hábito de matar animais para comer carne, é uma das grandes bênçãos que hoje se derramam sobre o difícil caminho da humanidade. Pode ser um dos fatores fundamentais para eliminar a violência de dentro e de fora do indivíduo humano.” [2]

Criar animais para o consumo humano é uma contradição. Como se pode cuidar e tratar os animais para depois os matar e devorar? Alguns podem alegar que os animais são sacrificados para que o homem tenha o que comer e possa cumprir seu propósito. Mas esse  ritual é uma traição à própria vida, um comportamento que demonstra a ignorância humana e não sua “superioridade” em relação aos animais. Cuidar dos animais, dar-lhes abrigo, em alguns casos afeto, alimentá-los e depois matá-los demonstra o lado mais sombrio da humanidade, um lado sádico que os animais não têm. Ser “superior” a eles é acima de tudo respeitá-los e cumprir o dever de os proteger e os auxiliar no caminho evolutivo. Helena Blavatsky escreveu:

“…A natureza física, a grande combinação de correlações físicas de forças que avançam em direção à perfeição (…) modela e remodela enquanto prossegue e, terminando a sua obra no homem, apresenta-o apenas como um tabernáculo apropriado ao obscurecimento do espírito Divino. Mas este não dá ao homem o direito de vida e de morte sobre os animais inferiores a ele, na escala da natureza, ou o direito de os torturar. Exatamente o contrário. Além de ser dotado de uma alma – que qualquer animal, e mesmo qualquer planta, também possui mais ou menos -, o homem tem uma alma imortal racional, ou 'nous', que deveria torná-lo pelo menos igual em magnanimidade ao elefante, que caminha cuidadosamente para não esmagar os animais mais frágeis do que ele.” [3]

A alimentação física reflete a nutrição que damos ao eu interior. A forma como tratamos os outros seres espelha o tratamento que damos à alma. E Paracelso ensinou:

“O homem come e bebe dos elementos, para o sustento do seu sangue e da sua carne, mas dos astros vêm o sustento do intelecto e os pensamentos de sua alma.” [4]

Reconhecendo a dimensão divina da vida e dando à alma o alimento correto surgem o respeito e a compreensão. Assim a paz e a benevolência passam a ser realidades concretas.


Joana Maria Pinho



NOTAS:

[1] “Ísis Sem Véu”, de Helena P. Blavatsky, Ed. Pensamento, SP, Vol. I, 341, p. 79.

[2] Do texto “A Ética da Alimentação Vegetariana”, de Carlos Cardoso Aveline. 

[3] Da obra “Ísis Sem Véu”, de Helena P. Blavatsky, Ed. Pensamento, Vol. III, 301, p. 244.

[4] Palavras citadas no texto “Paracelso e o Livro da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline.



Fonte: FilosofiaEsoterica
https://www.filosofiaesoterica.com/a-dieta-que-respeita-a-vida/
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

LIBERDADE INTERIOR


O que significa Liberdade Interior?


Significa desapego e libertação diante de preocupações desordenadas.

E, assim, podemos utilizar as coisas boas desta vida e também viver sem elas por amor a ideais e fins mais elevados.

Significa a capacidade de utilizar ou de sacrificar todas as coisa criadas aos interesses do amor.



Thomas Merton



Fonte: "A oração contemplativa"
https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: Pintura de Ludger Philips
http://www.ludgerphilips.org/

A ESPIRITUALIDADE HESICASTA


Quando se fala de hesicasmo, pensa-se geralmente em um método de oração baseado na repetição infinita do Nome de Jesus, método codificado no ambiente do Monte Athos, nos séculos XIII e XIV. Trata-se da sistematização filosófico-teológica dada a esta corrente de espiritualidade por Gregório Palamas no século XIV. Trata-se de uma corrente de espiritualidade que se identifica muito bem com a espiritualidade monástica.

Essa corrente de espiritualidade perpassa os Apotegmas dos Padres e as Vidas dos Padres do Deserto. Todavia, aqueles que a descreveram com maior perfeição são os autores da chamada Escola Sinaítica dos séculos VI e VII, de um modo todo especial João Clímaco e Hesíquio, o Sinaíta.

Em grego, a palavra hesychia designa um estado de calma, paz, repouso, quietude, tranquilidade, resultado da ausência disciplinada de agitação interna e externa. É o exercício feito para se libertar do barulho, conflito, inquietude, preocupação e medo.

Assim compreendida, a hesychia, nos autores espirituais, indica também recolhimento da alma, silêncio, solidão interior e exterior, uma plena união com Deus. Este termo é também usado na espiritualidade monástica para indicar o estado de quietude e de silêncio de todo o ser humano, para que ele possa permanecer ligado no divino.

Pode-se, então, definir o hesicasmo como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa, que consiste no aperfeiçoamento do humano na busca da união com Deus através da oração contínua.

Os grandes mestres da oração hesicasta, que criaram o método e sobretudo a teologia da oração hesicasta, podem ser encontrados entre os séculos XIII e XIV no Monte Athos.

Vamos aqui recordar alguns nomes:

Gregório, o Sinaísta (+1346). Do Mosteiro do Monte Sinai, ele transportou a “oração do coração” para o Monte Athos.

Nicéforo, o Hesicasta, de origem calabresa, converteu-se à Ortodoxia e se tornou monge no Monte Athos. Escreveu um pequeno tratado intitulado: “Sobre a Custódia do Coração”, que se tornou um clássico da oração hesicasta.

Do século XIV temos um tratado anônimo chamado: “Método da Santa Oração”, que é às vezes atribuído a São Simeão, o Novo Teólogo, mas não é verdade que seja dele esta obra.

Um outro grande hesicasta é Teolepto, Metropolita de Filadélfia (1250-1345), que formou gerações inteiras de hesicastas.

Finalmente, temos o já citado Gregório Palamas (1296-1359), que é considerado o maior teólogo do hesicasmo.


Pressupostos da espiritualidade hesicasta

1. Hesychia e Amerímnia

A hesychia diz respeito à interioridade do humano. Mais que um modo de vida é um estado de alma. É resultado de uma longa luta contra as paixões escravizantes, as agitações e as preocupações mundanas. É o domínio sobre as paixões para poder amar absolutamente e com a máxima liberdade o Senhor.

Quanto à amerímnia (do grego: não-preocupação, despreocupação, tranquilidade), esta indica de certa forma a mesma coisa: é a conquista disciplinada da serenidade existencial, ser livre de qualquer afã terreno, desvincular-se dos pensamentos deste mundo para se dedicar somente a Deus.

2. Nepsis

Trata-se de outra atitude recomendada pelos mestres hesicastas. Nepsis, palavra de origem grega, significa sobriedade, abstinência (o verbo nepso quer dizer: manter-se sóbrio, abster-se de vinho). É aprender a viver do estritamente necessário, em uma espécie de jejum espiritual que atinge todas as dimensões da existência. É cuidar da inteligência, da mente e do coração, é não se deixar encher de paixões, distrações e excitações, para permanecer sempre em estado de oração. É a atitude do cristão que deve sempre permanecer em Cristo (Jô 15,4), com todas as suas faculdades. É um método espiritual que confronta todo o humano com a graça de Deus.

Graças à nepsis consegue-se afinar sempre melhor a atenção, apurar a atenção do coração. Muitos consideram a nepsis a mãe da disciplina da oração.

3. A Recordação de Deus

A doutrina da recordação de Deus vem de São Basílio. Ele mesmo pergunta e responde: Qual é o “próprio” do cristão? Responde o Santo: É conservar a constante recordação daquele que morreu e ressuscitou por nós! Ser cristão é ter sempre o Senhor diante dos olhos.

É vencer o assalto dos pensamentos contrários para estar sempre no Senhor. É vencer a autocontemplação, o voltar-se mais para si mesmo, a preguiça, o cansaço. O hesicasta é aquele que diz: “Durmo, mas meu coração vigia!” Vale mais um desobediente alerta que um hesicasta distraído.

É também um culto e um serviço ininterrupto a Deus. A recordação de Deus é toda a respiração, se não, a solidão espiritual não pode ser compreendida.

4. A Doutrina da Deificação

O mistério cristão, na sua essência, é a união/a aliança entre Deus e o humano: “Eu lhes dei a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e Tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que Tu me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jô 17,22-23).

Esta união com Deus através da nossa união com Jesus constitui a salvação do humano, o vencer a fragilidade humana para participar da natureza divina. A esta noção os Padres Gregos chamam de “deificação” (em grego: theosis), o processo da divinização do humano.

A oração hesicasta quer sempre recordar esta certeza de “ser em Deus”. Com a oração, esta nossa transformação em Deus se faz sempre mais ativa e consciente, e se desenvolve em todas as suas possibilidades. O hesicasmo mostra que isto é possível através dos sacramentos, da ascese e da “oração de Jesus” (a invocação incessante do Nome de Jesus).


Característica da oração hesicasta

A oração hesicasta possui algumas características inconfundíveis. Vamos elencar as principais:

1. Oração monológica

A Sagrada Escritura não se cansa de exortar o/a fiel a rezar continuamente: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17); “Orai incessantemente com toda a espécie de orações e súplicas no Espírito...” (Ef 6,18). Também Jesus costuma frisar a “necessidade de orar sempre, sem cansar” (cf. Lc 18,1). E exortar os seus discípulos: “Vigiai e orai!” (Lc 21,36).

A oração monológica (repetindo sempre uma só e a mesma coisa; do grego: monos: um só; e logos: palavra) é a preocupação de permanecer sempre na presença do Senhor, com orações simples e jaculatórias. A forma primitiva desta prece é o “Kyrie eleison”. A forma mais comum soa assim: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!” (cf. Lc 18,13 e 18,38). Trata-se de uma junção da oração do publicano da parábola com o grito do cego de Jericó, que implora a cura. A oração monológica é também chamada de “oração pura”.

Esta fórmula é a síntese de tudo aquilo que é necessário da parte de Deus e da criatura humana. A invocação: “Senhor Jesus, Filho de Deus” constitui o pressuposto divino de salvação (Deus quer salvar e salva de fato!); e a expressão: “tem de piedade de mim” constitui o pressuposto humano da confiança e da compunção do coração.

2. A Oração de Jesus ou o Poder do Nome

A oração hesicasta, chamada também de “Oração de Jesus”, devido à contínua invocação do Nome de Jesus, é a oração que vai haurir a sua força no poder do Nome divino. O Nome de “Javé”, no Antigo Testamento, e o Nome de Jesus, no Novo Testamento, se identifica com a Pessoa mesma e é causa de salvação para quem o invoca: “Todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo” (At 2, 21).

Invocar o Nome significa deixar que Deus transforme a pessoa que O invoca por meio de seu Filho Encarnado com o poder ou a força do Espírito; significa deixar que Deus opere a contínua e progressiva cristificação. Em outros termos significa: contemplar a Deus e tornar-se a Ele semelhante. A oração contemplativa, de fato, é o diálogo do humano com Deus, é uma união mística.

O Nome de Jesus salva, cura, purifica, limpa o coração – dizem os autores hesicastas. São Basanúfio e São João, mestres espirituais no Deserto de Gaza (século VI) recomendam: “A memória do Nome de Jesus destrói completamente tudo aquilo que é mau”.

3. A Oração do coração contrito

A segunda parte da Oração de Jesus: “Tem piedade de mim, pecador” revela a atitude fundamental do humano frente a Deus – a fé, a tranquilidade dentro de si, a certeza de que só Deus salva. É a “metanóia”, a mudança radical da criatura para melhor, a partir da força/do poder do próprio Senhor.

Sisões, o Grande (séc. V), não satisfeito com 62 anos de austeridades, em seu leito de morte confessava perante os outros monges: “Parece-me que ainda nem comecei a fazer penitência”.

Os monges do Monte Athos, repetindo a oração de Jesus, usam uma espécie de Rosário, chamado “komboschini”, que os ajuda a contar as invocações feitas... É composto de 100 nós, divididos em intervalos de 25, onde se fazem as “conversões”, isto é, prostrações profundas, grandes inclinações. Arrependimento e prostrações demonstram a atitude física e psíquica dos convertidos do Evangelho.

4. Orar com o coração

A oração hesicasta é também chamada de “oração do coração”. A noção de “coração” é um elemento essencial na espiritualidade oriental. O coração é o centro do ser humano, a raiz da faculdade ativa do intelecto e da vontade, o ponto de onde provém e para onde converge toda a vida espiritual. É a fonte, obscura e profunda de onde jorra a vida psíquica e espiritual da criatura humana.

A criatura humana costuma dispersar-se em muitas coisas, sobretudo através dos pensamentos. Pela inteligência, o espírito conhece um mundo mais externo, e corre o risco de perder o contato com o mundo espiritual. Orar com o coração significa voltar os olhos mais para a interioridade. Para reconstruir e reunificar a pessoa, é necessário reencontrar uma relação mais harmoniosa entre a inteligência e o coração.

5. Orações simples, com poucas imagens

O Metropolita Ortodoxo Kalixtos Ware resume alguns aspectos importantes deste tema da oração hesicasta, baseando-se em experiências e palavras de muitos Santos eremitas:

Quando preenchemos a mente com a recordação de Deus, precisamos dar-lhe uma tarefa, uma atividade. E a única atividade, para este caso, é a invocação do Nome: “Senhor Jesus”. A recordação do Nome recupera uma mente desintegrada, partida em muitos cacos, e coloca de lado os pensamentos dispersivos. Não se trata de um conflito selvagem, nem de repressão violenta, mas de um delicado e perseverante ato de dar destaque ao Nome do Senhor. Quem não gosta de colocar em evidência o nome da pessoa amada?

Pronunciar o nome é morar na intimidade, é ir para o interior da casa. Não há necessidade de visualizar nada, mas é bastante estar dentro, morar, permanecer, bem dentro de uma sensação, de um sentimento, de uma convicção.

6. Oração hesicasta e iluminação

Quando a oração hesicasta se torna perfeita oração do coração, seu primeiro efeito é a iluminação. Não podemos esquecer que esta oração é o grito suplicante do cego que pede a Jesus que o cure da cegueira (cf. Lc 18,38). E Jesus atende ao grito do pobre cego: abre-lhe os olhos e lhe dá a iluminação.

A teologia da luz é muito importante para a espiritualidade. Na liturgia tudo é luz: a igreja fica toda iluminada, as imagens, o altar, os candelabros, a Palavra que vai ser proclamada diante do povo fiel. A Páscoa é uma festa de luz!

O Natal tem a Estrela que conduz os magos ao local onde se acha o Menino-Deus! A Festa da Transfiguração relembra o modo como o corpo de Jesus se torna transparente e todo iluminado no alto do Monte Tabor (cf. 9,28s). A luz espiritual interior deve tornar-se, de modo carismático, sempre mais visível. É o frágil corpo humano, transfigurado, que já começa a participar da glória da divindade. Quem através da prece provou a alegria e a presença de Deus tem os olhos iluminados.

7. A Oração como bondade do coração

O que mais impressiona, em pessoas que seguem a via hesicasta, é a sua capacidade de criarem dentro de si mesmo e ao redor de si certas condições para serem elas mesmas a encarnação de uma oração contínua: a sua mansidão, a sua imensa bondade e o seu modo, reconciliado, de relacionar-se com todas as criaturas.

Conta-nos o Peregrino Russo:

“Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus.”

8. Oração e atuação no mundo

Orar com o coração não quer dizer desprezar o mundo e as pessoas, pelo contrário: é reencontrar o amor para com todas as criaturas. A Oração de Jesus transforma cada um (a) em criaturas para os outros. Yves Leloup, autor francês, que viveu um período no Mosteiro do Monte Athos, recolheu estas palavras de um dos monges: “Rezar é a arte de amar!”

Orar, rezar segundo o modelo hesicasta significa dar o sangue do próprio coração. É dar-se ao mundo, às pessoas, à própria casa, às estradas, ao trabalho e às refeições, dar a todas as atividades uma palavra, uma luz, transformar, enfim, tudo em um mundo espiritual.

Concluindo:

Podem-se ler páginas e páginas maravilhosas sobre a oração hesicasta. Mas vamos fechar estas páginas de Leitura Espiritual, citando alguns belos pensamentos de Evágrio Pôntico (séc. IV dC):

A oração é um diálogo do intelecto com Deus.

Reza sobretudo para receberes o dom das lágrimas, para abrandares a dureza do teu coração e obteres a misericórdia do Senhor.

Comporta-te com coragem e ora com força: manda para longe de ti todas as preocupações e reflexões que te assaltarem. Reza para não te deixares tomar pela inquietação e para não veres esvair-se o teu vigor.

A oração brota da doçura do coração e da ausência do ódio. A oração é fruto da serena alegria e do reconhecimento.

A oração expulsa a tristeza e a falta de coragem.

Durante a oração, esforça-te para tornares a tua mente surda e muda. Então poderás rezar de fato!

Não rezes para que se cumpra a tua vontade, a não ser que ela esteja em conformidade com a Vontade do Senhor.

A oração sem distrações é a mais alta manifestação da inteligência.

Orar significa elevar a inteligência até Deus.

Assim como a vista é o que de melhor possuímos entre todos os sentidos corporais, a oração é a mais divina de todas as virtudes.

Quando um dia, na tua oração, te sentires pervadido de grande alegria, então finalmente encontraste a verdadeira oração. *


Frei Vitório Mazzuco Filho, OFM



NOTAS:

*MEYENDORF, J., San Gregorio Palamas e La Mistica Ortodossa. Turim: 1976, pp. 11-14

Obs.: O texto acima segue, em suas grandes linhas, o Professor de Espiritualidade Frei Iannis Spiteris, OFMCap. Toma por base suas aulas de Espiritualidade Oriental, no Pontifício Ateneu Antonianum. Cf. sua Apostila de 1990, p. 73-91, que o Autor deste artigo traduziu e adaptou.



FONTE:

http://www.franciscanos.org.br
Via: http://www.ecclesia.org.br/
Fonte da Gravura: www.ecclesia.org.br/

quinta-feira, 7 de maio de 2020

SATHYA E DHARMA (VERDADE E RETIDÃO)


Sathya e Dharma (Verdade e Retidão) são os conceitos mais importantes do Ramayana. Os Vedas, que são o verdadeiro alento vital dos bharatiyas (indianos), proclamam: “Satyam Vada (Fale a verdade). Dharmam Chara (Aja com retidão)”. Para honrar a palavra dada de seu pai, Rama decidiu ir para a floresta deixando Ayodhya. A verdade é o alicerce para toda a retidão. Não há religião maior que a verdade. Rama se destacou como um defensor da Verdade para cumprir a promessa de seu pai, a fim de manter as tradições de sua dinastia Ikshvaku, proteger seu país e o bem-estar do mundo. Todos, que se consideram seres humanos, devem defender a verdade da mesma maneira. Mahatmas (almas nobres) são aqueles cujas ações, pensamentos e palavras estão em perfeito acordo. Pessoas más são aquelas cujos pensamentos, palavras e ações são divergentes entre si. O Senhor Rama é, de fato, um Mahatma (alma nobre), digno de adoração por tempos imemoráveis! (Discurso Divino, 14 de abril de 1989)


Sathya Sai Baba



Fonte: https://www.sathyasai.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

REFLEXÕES - PIETRO UBALDI


Quem tiver olhos abertos para ler dentro de si, porque se acostumou ao auto controle e à introspecção, pode, olhando para o fruto, reconstruir a estrutura da árvore e das raízes. Isto quer dizer que, olhando para os seus instintos e qualidades atuais, pode reconstituir a série de pensamentos e atos que, longamente repetidos, se tornaram hábitos, para constituir o que hoje é sua personalidade.

Deveríamos ter o máximo cuidado antes de gerar qualquer pensamento ou ato, porque depois ficamos a eles amarrados e os levamos conosco até atingir todas as suas consequências fatais. (....) E quanto mais repetimos um pensamento ou um ato, tanto mais ele se fixa, se torna firme e estável, descendo à profundeza de nossa personalidade, onde fixa aqueles marcos indeléveis que são as nossas qualidades.

Nossos hábitos não são nada no começo, são só pequenos movimentos, sem importância, em que ninguém repara. Mas, caindo e rolando sobre o caminho da nossa vida, eles atraem outros movimentos, que com a repetição descem até a nossa profundidade, tornando-se hábitos e transformando-se, finalmente, na terrível avalancha dos nossos instintos, aos quais é difícil resistir.

Quando alguém cai no seio de um carma coletivo, é porque fez por merecê-lo.

Podemos ficar tranquilos, pois ninguém pode fazer-nos mal algum que já não esteja dentro de nós.

Nem tudo o que constitui a nossa personalidade está contido na parte consciente, como nem todas as formas de luz estão contidas no espectro visível.


Pietro Ubaldi



Fonte: dos livros "A Lei de Deus" e "Princípios de uma Nova Era", de Pietro Ubaldi
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

COMO MEDITAR (Meditação Cristã - Thomas Merton)


Thomas Merton, espírito arguto e refinado, refinado na escola do mundo, que para isto é a melhor, dispôs-se a nos propiciar uma explanação modernizada daquilo que, de tratados antigos, chega até nós carregando estilo e conceituação de sua época, sobre a direção espiritual e a meditação.

Coisas antigas em formas novas, eis a contribuição de Merton, acrescendo que tudo é reformulado, pelas conquistas de psicologia moderna, pela qual muita coisa obscura se tornou clara e outras foram reduzidas às verdadeiras proporções.

Belo e acertado seu conceito quanto ao diretor espiritual: “um amigo em quem se confia, que, numa atmosfera de compreensão e simpatia, nos ajuda e fortalece em nossos esforços, nosso tatear, para corresponder à graça do Espírito Santo, que é o único verdadeiro Guia no sentido pleno da palavra”. Mas conhece e aponta os maus, que os há também.

Merton, neste tratado de meditação, ensina aos iniciantes, melhormente que certos tratados antigos, em virtude de abordar, ânimo aberto e destemido, dificuldades existentes nesse difícil capítulo da espiritualidade cristã, e as aberrações que podem surgir.
...

Iniciaremos apresentando o ponto de vista do monge trapista sobre um dos exercícios mais importantes da vida de oração: a meditação. Aqueles que se iniciam na oração procuram os caminhos mais adequados para chegarem aos elevados patamares da união com Deus. Contudo, tem o homem moderno sérias desconfianças em relação aos métodos e fórmulas, sendo o comodismo a opção natural.

Merton nos dá conselhos úteis, e chega a propor, com toda discrição, o seu método:


COMO MEDITAR

A alma bem disciplinada, como o corpo bem disciplinado, é ágil, dócil e sabe se adaptar. A alma que não sabe se dobrar, ser flexível e livre, é incapaz de progredir no caminho da oração. Uma rigidez imprudente poderá, no início, parecer dar bons resultados, mas acabará paralisando a vida interior.

Há, entretanto, algumas exigências universais para o exercício sadio da oração mental. Não podem, de forma alguma, ser negligenciadas.

Para meditar, tenho de afastar meu pensamento de tudo que me impeça de estar atento a Deus presente em meu coração. Ora, isso é impossível se não recolho meus sentidos. Mas é praticamente inútil recolher-me no momento de oração se, durante o dia, permiti aos sentidos e à imaginação andarem soltos.

Consequentemente, o desejo de se entregar à meditação supõe o esforço de conservar um recolhimento moderado e atento durante o dia todo. Significa viver habitualmente numa atmosfera de fé, com momento ocasionais de oração e atenção a Deus. O mundo em que vivemos apresenta um problema atordoante a qualquer pessoa que deseje adquirir hábitos de recolhimento.

... Thomas Merton alerta nossas motivações e pontua a postura humilde exigida na união com Deus, e trata das mortificações dos nossos sentidos. Observemos o que diz o monge sobre:


O SEGREDO DO NOSSO DESTINO

A primeira coisa que tenho de fazer, se quero ter vida de oração, é desenvolver uma forte resistência às atrações fúteis que a sociedade moderna exerce sobre meus cinco sentidos. Terei, portanto, de mortificar meus desejos.

Não falo aqui de práticas ascéticas extraordinárias, mas simplesmente da autorrenúncia requerida para viver segundo as normas da razão e do Evangelho. […]

Para fazer uma meditação séria e frutuosa, temos de iniciar nossa oração com o senso real da necessidade que temos dos frutos que dela provém. Não basta aplicar nosso espírito às coisas espirituais do mesmo modo que faríamos para observar um fenômeno natural ou um teste científico. Na oração mental, entramos num domínio do qual não somos os senhores, e nos propomos a consideração de verdades que excedem nossa compreensão natural e que contém, no entanto, o segredo de nosso destino. Procuramos, na oração mental, penetrar mais profundamente na vida de Deus. Mas Deus está infinitamente acima de nós, embora esteja em nós e seja o princípio de nosso ser. A graça da íntima união com Ele é, apesar de tudo, sempre um dom que Ele nos faz, ainda que a possamos obter pela oração e as boas obras.

... Lemos Merton finalmente chegar à "matéria-prima" de tudo aquilo que foi tratado anteriormente:

A meditação deve ter um assunto definido, preciso. No início da vida de oração, quanto mais precisos e concretos formos na meditação, tanto mais êxito teremos. A disciplina que nos impomos para nos concentrarmos num assunto especial claro e nítido tende a unificar as faculdades, dispondo-as assim, remotamente, para a oração contemplativa.

O ASSUNTO DA MEDITAÇÃO

Está claro que a escolha do assunto é de importância na meditação. E torna-se imediatamente evidente, desde que a meditação é uma forma íntima e pessoal de atividade espiritual, que a escolha deva ser pessoal. A maior parte das pessoas não consegue meditar bem num “tema” imposto por outro, sobretudo se é algo de abstrato.

O assunto normal da meditação, conforme a tradição ascética cristã, será algum mistério da fé. [...]

A finalidade da meditação é, portanto, em primeiro lugar, tornar-nos capazes de ver e experimentar os mistérios da vida de Cristo como fatores reais, presentes em nossa própria vida espiritual.

Para tornar essa experiência mais profunda e pessoal, procura a meditação penetrar debaixo da superfície exterior, no sentido íntimo, e, (o mais importante) relacionar os acontecimentos históricos narrados no Evangelho, com a nossa própria vida aqui e agora.



Fonte: do livro "Direção Espiritual e Meditação", Thomas Merton, Ed. Vozes
Via: https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://i2.wp.com/www.ahintofrosemary.com/wp-content/uploads/2019/03/maxresdefault-1.jpg?w=669&ssl=1

ADAM (ADÃO) - CONDUTOR DA LUZ DO MUNDO INFINITO


Quando a Luz do Mundo Infinito criou o mundo manifesto, criou um receptáculo completo para conter todas as bênçãos oriundas desta mesma Luz. Este receptor se chamava Adam (Adão). Adam conteria um nível de consciência como nunca foi visto em toda a história do mundo manifesto. Adam também seria o condutor através da qual a Luz do Mundo Infinito seria canalizada e compartilhada. Nos primeiros instantes da Criação, Adam era “macho” e “fêmea”, e dentro de Adam havia todas as almas que um dia encarnariam no mundo manifesto. E essas almas eram também “macho e fêmea”. E é assim que somos constituídos, tanto física como espiritualmente, equilibrando os dois aspectos. Após a queda do homem original, resta-nos uma importante missão: reunir os aspectos opostos da alma dentro da consciência.

Rav Avraham Abuláfia nos ensina que o encontro desta alma gêmea original só poderia ser encontrada mediante a junção das almas “masculina” e “feminina” que habita em cada um de nós. Mas quando o aspecto feminino foi separado do masculino, Chavá (Eva) começou a existir como sendo uma entidade independente. Chavá está concentrada essencialmente em biná (na forma da neshamá) e malchut (na forma da néfesh). A parte mais densa de Chavá se separou dos aspectos mais elevados da Árvore da Vida. Em outras palavras, o mundo manifesto (Chavá) se “divorciou” do mundo espiritual (Adam).

Adam tornou-se a inteligência das partes masculinas da alma (keter, chochmá, chessed, netzach, yessod) e Chavá tornou-se a inteligência das partes femininas da alma (biná, guevurá, tiferet, hod, malchut). Quando Adam Kadmon (que compreendia a totalidade) era o receptor para a Luz do Mundo Infinito, sua capacidade de receber era ilimitada, e uma enorme intensidade da Luz se refletia no mundo manifesto. Porém depois da queda e da corrupção da alma, Adam deixou de se ver como um canal receptor (cabalista) - ele canalizava somente o que sua autoimagem residual (ego) lhe indicava que era capaz de receber. O Homem não mais se percebeu como unicidade e perdeu sua consciência espiritual completa, neste momento o mundo caiu na escuridão e a porção masculina se separa da porção feminina da alma. Pelo fato de o aspecto feminino ter sido criado em equilíbrio espiritual com o aspecto masculino, Chavá não podia ser maior que a natureza espiritual de Adam, e por isso, a Luz em malchut igualmente diminuiu.

À medida que o aspecto feminino diminuía, havia cada vez menos Luz manifesta pelo mundo. Gradualmente, ao longo das gerações, se deu uma total redução da Luz dentro do mundo manifesto. Até os dias de hoje lutamos para enfrentar os desafios gerados por essa redução da Luz dentro do mundo físico. O mundo caminhava em passos largos em direção a obscuridade. Somente quando surge Avraham (palavra código na Cabalá) é que o equilíbrio começava a ser restaurado. Avraham é o primeiro a conseguir restaurar os dois aspectos da alma (masculino e feminino) em si. Como resultado de sua compreensão e conhecimento espiritual e principalmente de seu desejo de trazer sabedoria para a humanidade, Avraham se tornou o canal para revelar a Luz do Mundo Infinito para a humanidade. Por ter encontrado a totalidade dos fragmentos da alma dentro de si mesmo, Avraham pode encontrar sua alma gêmea – Sara. O equilíbrio foi restaurado novamente entre o masculino e o feminino através do trabalho conjunto de Avraham e Sara. O papel de malchut, o aspecto feminino, foi elevado, e a escuridão foi substituída pela Luz. A humanidade recomeçava então a sua reconstrução espiritual. O grande desafio das futuras gerações seria a manutenção deste equilíbrio.

Hoje em dia, a manutenção desta interação espiritual entre o masculino e o feminino ocorre por intermédio do desenvolvimento das qualidades espirituais da Árvore da Vida, o que poderá ser a história de uma vida inteira de desenvolvimento e lapidação espiritual.

A chave para a preparação deste “casamento” está na forma como governamos o nosso desejo. Os nossos sábios nos informam que a essência central do ser humano é o desejo. Aqui reside a força motriz que gerencia não apenas a natureza humana como também todo o universo. Somos todos feitos de desejo, e segundo a Cabalá, isso vai além, todo o universo é movido pelo desejo. O desejo nutre todas as experiências manifestas.

Tudo o que fazemos, cada passo que damos sempre começa com o acender de um desejo que necessita ser preenchido. A Cabalá afirma que não há nenhum condutor mais profundo e potencialmente espiritual na união entre as duas partes (masculina e feminina) da alma do que o desejo.

Entre todas as manifestações do desejo, a que mais concentra energia potencial de Criação é o desejo sexual. E como todo e qualquer desejo, também aqui devemos procurar o refinamento. Quando nos tornamos conscientes do propósito espiritual e do papel cósmico que a união das almas masculinas e femininas desempenha no grande esquema das coisas, nos tornamos carregados de energia de Criação e fazemos o universo se mover. Por intermédio da união casher (pura) entre o masculino (o espírito) e o feminino (o corpo) pode-se manter um padrão crescente da qualidade e quantidade da Presença Divina dentro do mundo.

Aprendemos na Cabalá que muitas ações de morte são promovidas pelas palavras amargas e reativas que deriva (na grande parte das vezes) não intencionalmente de nós. Para que possa encontrar “graça aos olhos” do espírito, o corpo deve se preparar para receber a sua missão espiritual neste mundo. Para tal preparação é necessário que o cabalista restaure o “pacto único”: o nome código que significa o pacto da língua e a circuncisão do órgão procriador. Estes dois pontos - a língua e o órgão procriador, na verdade os dois pontos essenciais do "intercurso" - são os dois centros primários de energia, ou pontos de contato, situados ao longo da linha central do corpo. E ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio) do desejo.

Na Cabalá, a energia emitida a partir de cada um destes centros ou pontos de contato funde-se com aquela da alma-gêmea da pessoa para procriarem. O poder de procriar fisicamente brota do ponto mais baixo, inferior, ao passo que o poder de procriar espiritualmente brota do ponto mais elevado da boca e língua. Aprendemos que humanos (seres materiais) são criados a partir da união inferior dos órgãos procriadores, ao passo que anjos (seres espirituais) são criados a partir da união de "boca a boca," pelo poder do beijo e das palavras.

Temos ainda, conforme a Cabalá um centro adicional de energia - ou ponto de contato - o ponto central do peito, o ponto de contato do "abraço." Este ponto, relativo aos pontos acima e abaixo dele, representa um nível intermediário de energia conectiva, mais material que aquele do ponto acima, porém mais espiritual que aquele do ponto abaixo dele. Aqui, os anjos descem para vestir-se numa forma corpórea e terrena.

Sendo assim, segundo os ensinamentos da Cabalá a união entre o homem e a mulher deve se iniciar a partir do ponto médio, o ponto do abraço, para ascender ao ponto mais elevado, o beijo e as palavras de amor e finalmente descer ao ponto inferior.

Na Cabalá, todo estado meditativo e esforço espiritual para despertar energias e criar uniões relaciona-se a uma fórmula contemplativa para atingirmos o nosso ponto de contato interno com o Criador. A meditação dos três pontos de contato estabelece esta mesma ordem sequencial para toda a preparação contemplativa.

O primeiro estágio da experiência com o Criador deve ser estabelecido pelo ponto central, ou seja, pelo desejo de ser chaver (companheiro) do caminho. Aqui entra a importância do relacionamento com a congregação e a comunidade como um todo. Em seguida deve-se elevar a boca. Aqui há uma alegoria com o relacionamento com o mestre (rav) por se tratar de um relacionamento de palavras (ensinamentos). E por último nos níveis mais corporais, pois aqui reside a dedicação de corpo inteiro ao caminho. Aqui também reside um caminho a ser contemplado (no corpo) para que se possa rapidamente atingir um grau mais contemplativo de fluxo do Shefá (fluxo divino) pelos caminhos da Árvore da Vida.


Rav Mario Meir



Fonte: Academia de Cabala
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal



quarta-feira, 6 de maio de 2020

O VAZIO EXISTENCIAL


Quando Sigmund Freud iniciou as suas pesquisas com pacientes histéricos especialmente, tornou-se o começo de uma das mais belas e oportunas interpretações da psique humana, dando lugar a uma verdadeira revolução cultural, desmistificando o sexo, suas funções e libertando-o da hipocrisia vitoriana que vigia triunfante.

Foi um período de inesperadas interpretações de transtornos emocionais e somatizações perturbadoras, que puderam ser tratados com cuidado, proporcionando existências menos turbulentas e desastrosas.

Embora a descoberta da libido sexual causasse surpresa e recebesse exagerado significado facultou mais amplas percepções e entendimento a respeito dos conflitos humanos.

Inevitavelmente, ocorreu um exagero na sua interpretação, principalmente por negar a realidade espiritual da humanidade.

Logo depois, Alfred Adler, discordando do mestre, iniciou as investigações nos conflitos da inferioridade humana, que culminaram na Psicologia individual e, com a cooperação de Karen Horney, formaram a Escola Neo-Freudiana.

Horney, ademais, discrepou das diferenças da psicologia de mulheres e de homens, afirmada por Freud e demonstrou que as mesmas resultam mais de fenômenos sociais e culturais do que da biologia.

Relativamente, ao mesmo tempo, Carl Gustav Jung afirmou que a libido, essa energia psíquica extraordinária, representa todas as forças da vida e não somente aquelas de natureza sexual. Procurou analisar as marcas antigas impressas no inconsciente e adotou a doutrina dos arquétipos, propiciando vida exuberante a todos aqueles que se encontram em conflitos desnorteantes.

Cada época da humanidade é assinalada pelas circunstâncias psicologicamente castradoras que respondem por enfermidades somatizadas perversas.

A ciência atual e a tecnologia de ponta proporcionam uma visão quase ilimitada sobre a existência do ser humano e enseja-lhe uma gama de informações que se multiplicam a cada momento, atormentando a cultura hodierna.

O conhecimento rápido e extremamente volumoso quão variado, não tem sido digerido de forma adequada e eis que surgem inquietadores a insatisfação, a frustração, ao lado do medo, da incerteza, do vazio existencial.

Vive-se a época do ter e do poder, do exibir-se e do desfrutar, sem a consequência da harmonia interior e do enriquecimento espiritual.

A aparência substitui a realidade e o importante não é o ser interior, porém o ego exaltado, que provoca inveja e competição no palco da ilusão.

De certo modo, foram perdidos o sentido existencial, o objetivo da vida, o foco transcendente da autorrealização. Em consequência, aumentam as patologias do comportamento e o banquete dos mascarados toma aspecto sombrio quando o álcool, a drogadição e o sexo desvairado passam a enlouquecer os grupos em depressão...

O avanço na direção do abismo na queda pelo suicídio, o abandono de si mesmo ou a violência desgovernada passam a ser a realidade indiscutível do processo de evolução social.

Tudo isso, como decorrência do vazio existencial que se apodera do indivíduo, porque não encontra apoio no sentimento de amor que vem desaparecendo a pouco e pouco do seu desenvolvimento moral.

A ambição pelas coisas de imediato significado tem substituído os valores realmente legítimos da emoção, quais sejam: a prece, a meditação, a solidariedade e o afeto.

Torna-se urgente o impositivo de uma alteração de conduta, buscando-se novos focos de interesse existencial, tais como: a conquista da paz, do trabalho de beneficência, da imortalidade.

O ser humano, graças ao seu instinto gregário, necessita de outrem, que contribui com recursos grandiosos, especialmente na área emocional da afetividade para a identificação de realizações em prol do progresso e do equilíbrio social, econômico, moral e ético.

A fraternidade, substituída pelo individualismo deve ceder o seu direcionamento para o conjunto, o todo, a convivência geral, incluindo a Natureza.

O desrespeito às forças vivas do Universo trabalha a favor da destruição do ser humano mais cedo ou tarde.

É imperioso que se trabalhe através da educação, por todos os meios ao alcance, em favor de objetivos sérios e bem estruturados para a existência.

Uma vida sem um sentido bem delineado, estimulador e doador de energias, torna-se apenas um fenômeno vegetativo que deve ser alterado para a dinâmica da autoconscientização.

Todos anelam e mantêm o desejo de liberdade, que somente adquire significado quando acompanhada pela responsabilidade em relação ao comportamento vivenciado, para que se não converta em libertinagem, conforme sucede neste momento em toda parte da civilização.

Esse desregramento, a leviandade com que são tratadas as questões de alto significado, quando atingem o fundo do poço, abrem espaço para governos arbitrários e cruéis que crucificam os países e os mantém sob injunções penosas, degradantes.

Desse modo, uma revisão de conceito em torno do existir é fundamental para preencher-se o íntimo de estímulos, mediante labores significativos e que produzam desafios contínuos.

Assim, o amor ao próximo, como decorrência do autoamor, faz-se terapia preventiva e curadora para quaisquer existências vazias, que se consomem na angústia, em sofrimentos indescritíveis.

Buscando-se a compreensão do sentido existencial que não se constitui de divertimentos ou fanfarronices, constata-se que os ideais do Bem são impostergáveis e ao entregar-se à sua conquista, mediante relacionamentos edificantes, nos quais a fraternidade se responsabilize pela construção do dever, consegue-se a vitória íntima.

Repentinamente, assim procedendo, cada qual que se dedique ao amor, à amizade sem mácula, descobrirá que essa é a meta a ser alcançada e o serviço de auxílio recíproco é o objetivo a que todos se devem dedicar.

A sociedade moderna tem necessidade de compreender que se renasce no corpo carnal para que seja alcançada a plenitude e não exclusivamente para as necessidades inferiores, as biológicas, conforme os estudos de Maslow em muito boa elaborada reflexão.

Assim sendo, a educação da libido freudiana, a superação do conflito de inferioridade adleriano, a compreensão profunda das neuroses, conforme Horney e a iluminação da sombra junguiana, ressurgem no conceito kardequiano, quando afirma que "Fora da caridade não há salvação".



Joanna de Ângelis / Divaldo Pereira Franco



Fonte: http://divaldofranco.com.br/mensagens.php?not=572
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

SOMATIZAÇÃO E DEPRESSÃO


Quando se recebe uma in-formação errada ela gera uma energia negativa que se transforma em depressão.

A depressão caminha aceleradamente para se tornar o segundo maior problema de saúde da humanidade. Isso dá uma ideia do tamanho do problema que existe hoje em termos de in-formação errada que a humanidade está recebendo.

Quando falta alguma coisa em termos de realização pessoal, o resultado líquido e certo é a depressão. É apenas uma questão de tempo para ela se instalar. E o que é realização pessoal? São as necessidades básicas de alimento, habitação, trabalho e remuneração digna, amor, desenvolvimento intelectual e espiritual. Acontece que em todos esses itens a humanidade está indo de mal a pior. E o resultado só poderia ser a depressão generalizada que toma conta da humanidade.

Isso já acontece há muito tempo. E sempre a in-formação recebida foi manipulada e distorcida. Que façam isso já é esperado, mas que as pessoas não tenham interesse em saber a verdade, em receber a in-formação correta, é trágico. Estamos falando em in-formação em todos os itens citados acima. Para compensar essa falta, a humanidade busca freneticamente outras informações que possam substituir a verdade. Isso é impossível de conseguir e a depressão lentamente se instala. E com ela toda uma série de consequências mais danosas ainda. Uma coisa traz a outra.

A depressão é fruto do desespero. A humanidade conseguiu criar um sistema de vida totalmente artificial em todos os sentidos. Por exemplo: se você recebe uma in-formação manipulativa em termos de economia, emprego, bolsa de valores etc., conseguirá os resultados que precisa para a sua sobrevivência? Não precisa responder.

A in-formação que cria a prosperidade e abundância existe, mas não é buscada pelas pessoas. Elas se contentam com qualquer informação sem verificar se é verdade ou não.

Nosso corpo é um sistema energético in-formacional. Ele só funciona perfeitamente se receber o que precisa. Uma in-formação verdadeira. Somos nutridos por in-formação. Tudo é energia e in-formação. Tudo é eletro-magnetismo. Nosso DNA é pura in-formação. Um código! Uma in-formação errada neste código gera um ser com defeito ou doença. Dizem: mal formação. Ele foi in-formado erradamente.

Da mesma forma que a depressão é resultado da in-formação errada em todos os setores citados, é possível resolve-la com a in-formação correta. Transferindo-se as in-formações corretas o corpo humano por ressonância mórfica se ajustará gradativamente. Lembram dos campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake? Os campos são formados por in-formações. É possível transferir Ondas de In-formações para resolver o problema.

Recebida a in-formação todo o ser passará por uma trans-formação para expurgar toda a in-formação negativa que recebeu pela vida toda. Isso demanda um certo tempo, dependendo de cada caso. Após isto surge uma nova pessoa, um novo ser, alinhado com a in-formação de Tudo-Que-Existe.



Hélio Couto



Fonte: www.heliocouto.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

SENHOR DO DESTINO


O ser humano é senhor do seu destino. Há muitas pessoas que ainda acreditam que a sua existência é regida pelo acaso ou pela fatalidade; ou, então, que existe uma vontade superior que se lhes impõe, a vontade de Deus ou dos deuses. A Igreja ainda ensina aos cristãos que o seu destino é regido pela vontade de Deus, uma vontade misteriosa, impenetrável. Uma criança nasce defeituosa, um homem é condenado injustamente, uma mulher é atropelada por um automobilista embriagado ao atravessar a rua e morre… Alguém dirá: "É a vontade de Deus." Não, não existe uma vontade de Deus que distribui arbitrariamente felicidade ou infelicidade. Foram os próprios humanos que, pela vida que viveram num passado próximo ou longínquo, prepararam as condições da sua existência atual. Aquilo a que se chama o “destino” de um ser é o cumprimento, a aplicação, das leis que ele próprio pôs a funcionar com os seus pensamentos, os seus sentimentos e os seus atos. É ele que forja o seu destino. Se agiu mal no passado, mas decide praticar, daí em diante, a justiça e a retidão, viverá a verdadeira vida, a vida da alma e do espírito, a vida imortal.



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 3 de maio de 2020

O MOMENTO DA DIFILCUDADE


Todo discípulo passa por períodos difíceis nos quais aquilo que em outros tempos ele pensava que sabia o abandona, ou parece inútil. 

Quando se recupera, ele lembra e sente o poder de muitas frases familiares e cheias de força que se aplicam diretamente ao seu caso, e que poderiam tê-lo tirado da escuridão em que estava.

Agora ele compreende que a lei rege cada circunstância, que só ele é responsável pela sua própria situação, e que nunca está sozinho, porque, onde o pensamento consegue chegar, o Mestre pode estar  presente.

Ele vê também que tudo o que começa na sequência do tempo termina na sequência do tempo. Sim, ele conhece muito bem estes fatos todos. Ele viu estas verdades serem repetidas uma e outra vez. Ele já tem recebido, graças a elas, ânimo e encorajamento para continuar o trabalho. Ele já mencionou estes fatos para outras pessoas, quando elas enfrentavam seus momentos de dificuldade. Por que, então, ele os esqueceu quando chegou a sua própria hora de sofrimento?

Há muitas coisas que jamais esquecemos.  Em nossa consciência normal de estado de vigília, nunca experimentamos dor, sofrimento ou alegria tão grandes que nos impeçam de lembrar e aplicar de imediato um grande número de fatos necessários. Por que então esquecemos estas  verdades da alma, especialmente considerando que havia, ao nosso dispor, grande número  de fatores estimulando a lembrança? Deve ser porque falávamos superficialmente destes fatos – ao invés de fazer deles uma parte ativa das nossas vidas.

Parece ser sábio, e também necessário, preparar-nos para os momentos de dificuldade através de um estudo mais intenso e de uma prática mais regular do ensinamento.

Temos uma tendência de ser negligentes nestas atividades, até que as provações acontecem.  A época propícia para construir um baluarte de defesa diante de tais desafios está nas temporadas agradáveis. Este é o momento favorável, quando a oportunidade bate à nossa porta,  a mente permanece aguda, o coração não se sente sobrecarregado,  e o corpo está saudável.

Se o discípulo aproveita com eficiência estes momentos, ele acumula uma força cujo impulso fará com que atravesse a hora da dificuldade assim como o impulso de um carro faz com que ele ultrapasse um obstáculo temporário.

E ninguém deve pensar que este momento de dificuldade não chegará.  Os ciclos precisam completar as suas trajetórias. Inevitavelmente, o final de um ciclo ocorrerá quando parecemos perder a ligação com o poder vivo da alma divina, e então só o impulso resultante do trabalho e do esforço por praticar aquilo que sabemos nos levará, em segurança, até mais adiante.

Também devemos ficar animados pelo fato de que, em comparação com a jornada toda, o momento da dificuldade é muito curto.

As provações mais difíceis nunca duram demasiado, e toda a eternidade está disponível, no passado e no futuro.

Devemos aproveitar ao máximo, portanto, as muitas, inúmeras, horas de oportunidade; e lembrar que, uma vez tendo feito isso, quando acontecerem momentos difíceis, poderemos esperar pelo retorno da luz com paciência, e confiantemente.



John Garrigues



Fonte: AmazoniaTeosofica 
https://amazoniateosofica.com.br/index.php/2018/10/25/o-momento-da-dificuldade/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal