terça-feira, 12 de maio de 2020

SONO E SONHOS


Antes do adormecer e do acordar, existe um estado de pouca duração durante o qual o eu e o corpo astral estão separados do corpo físico, enquanto existe a ligação com o corpo etérico. O homem está, pois, em presença de sua memória (ligada ao corpo etérico) e pode exercer certas funções mentais (igualmente ligadas ao corpo etérico), mas faltam-lhe as percepções sensoriais claras, a plena consciência e o pensar racional, que não podem prescindir do instrumento do corpo físico. Certas experiências do eu durante esse estado, combinadas com reminiscências da memória, fazem surgir então os sonhos. O sonho constitui, pois, um estado intermediário entre o sono e a vigília. Ele é caracterizado por uma consciência reduzida, por imagens e formas do mundo exterior, sem, no entanto, lógica e clareza. O eu traduz suas vivências e recordações em imagens simbólicas.

Desde tempos imemoriais, o homem conhecia a natureza desse estado que possibilitava uma experiência velada de certas realidades espirituais. Daí a importância atribuída à arte de analisar os sonhos para se conhecer a realidade espiritual ou para se chegar à verdadeira personalidade do homem, revelada durante o sonho quando inexistem tabus sociais e barreiras fazendo com que o caráter se dissimule durante a vida normal.

Sem pretender ser completos, podemos indicar alguns tipos relevantes de sonhos:

1. Em muitos sonhos o homem é perseguido pelas reminiscências do dia. Preocupações e angústias o acompanham, problemas não resolvidos martelam seu espírito de maneira incoerente e certos impulsos (vingança, ódio, amor, cobiça) manifestam-se de modo irrefreado. Um sono repleto de sonhos dessa espécie não é regenerador, pois impede uma separação suficiente e benéfica entre o eu e a parte orgânica.

2. Muitos sonhos são determinados, em seu enredo, por influências do ambiente. Assim, podemos sonhar uma história que termina no tilintar agudo de uma flauta tocada por um dos personagens do drama onírico. Acordados, verificamos que o despertador provocou o tilintar no sono: eu recordo toda uma história que o precede e cujo final lógico é o tilintar. Isso prova que os sonhos não se desenrolam no tempo, mas são imagens instantâneas que somente ao recordar são mentalmente decompostas em várias fases sucessivas. Da mesma maneira, um incêndio no sonho pode ter por causa o calor excessivo provocado por um cobertor.

3. Há sonhos causados pelo próprio corpo. Uma refeição um pouco pesada, tomada antes de dormir, pode provocar pesadelos, e muitas vezes o próprio órgão pode aparecer sob uma forma simbólica (intestinos = serpente, dente = torre, sangue = água). Vemos mais uma vez que o sonho é simbolizador. A arte de interpretar os sonhos consiste, justamente, em descobrir a realidade que se traduz em símbolos.

4. Como já foi dito, os desejos mais íntimos do eu, reprimidos durante a vigília e sem possibilidade de subir à consciência, podem ter livre curso no sonho, embora sob forma simbólica. Esse fenômeno figura nos fundamentos de muitas análises psicoterapêuticas.

5. Um tipo de sonho ainda mais significativo é aquele em que o indivíduo encontra pessoas vivas ou mortas, recebendo delas uma mensagem que amiúde se confirma, mais tarde, na realidade: uma pessoa ausente pode dizer-nos, no sonho, que está doente ou morta; a notícia confirmatória chega poucos dias mais tarde. O que se torna patente aqui é uma experiência, feita pelo eu, de uma realidade no mundo espiritual. Com efeito, a morte de qualquer pessoa é um acontecimento que se reflete naquele domínio. Transcendendo os limites do espaço, o eu vivencia esse fato e o sonho o transforma em imagem.

6. Finalmente há pessoas que, ao despertar, sabem que no sonho lhes apareceu um ser espiritual superior com uma mensagem ou uma revelação, ou que elas assistiram a acontecimentos do futuro. São os chamados sonhos proféticos, que tamanho papel tiveram em tempos passados, desde os sonhos interpretados por José na corte do Faraó (as vacas gordas e as vacas magras) até visões dos profetas (aparições de Serafins, Querubins, Anjos, etc.). Esses sonhos também têm papel importante na psicologia moderna (especialmente em C. G. Jung).

Não há adormecer ou despertar sem sonho; na maioria dos casos, contudo, nós não nos lembramos dele. Muitas vezes, também, sem poder recordar um sonho concreto, acordamos com a certeza de ter passado um tempo num outro mundo.

Ao despertar, muitas vezes sonhamos com a volta ao corpo de forma simbólica. Por exemplo, sonhamos que estamos voando e nos aproximamos cada vez mais do chão, até bater nele. Nesse instante despertamos. Ou então queremos entrar num edifício ou, por exemplo, numa torre. Não conseguimos fazê-lo durante algum tempo, até que finalmente quase irrompemos nela à força e acordamos. Aqui o corpo é representado pelo símbolo da torre.

O sono, com a fase transitória do sonho, é, pois, um fenômeno que decorre de uma necessidade rítmica de todo o nosso ser. É fácil compreender que sonos ou sonhos provocados artificialmente (narcóticos, hipnose, anestesia) não são, nesse sentido, naturais, perturbando o equilíbrio das forças físicas e psicoespirituais.

Os três estados vigília, sonho e sono correspondem a três graus diferentes de consciência. Podemos dizer que o homem é homem somente quando, no estado de vigília, é plenamente consciente e lúcido.

A Antroposofia ensina que a consciência do animal é semelhante (embora não idêntica) à nossa consciência de sonho, enquanto a planta vive numa inconsciência total, correspondendo ao nosso estado de sono. A consciência dos minerais se é que podemos ainda falar em consciência seria ainda mais apagada do que a do nosso sono mais profundo.

No próprio homem também existem zonas ou sistemas diferenciados por vários graus de consciência. Rudolf Steiner expôs a genial ideia da trimembração do organismo humano, cuja essência pode ser resumida da seguinte forma:

O homem é plenamente consciente em seu pensar e em suas observações sensoriais. Rudolf Steiner chama esse sistema de neuro sensorial, ensinando que ele está centrado na cabeça, muito embora o corpo todo possua percepções sensoriais. O polo oposto é constituído pelas funções completamente inconscientes do metabolismo e da vontade traduzida em movimentos (o homem tem a representação clara dos motivos e do resultado almejado de um ato de vontade; mas o funcionamento e a realização do impulso volitivo lhe são completamente ocultos). Esse outro polo constitui o sistema do metabolismo e dos membros. Ele atua em todo o corpo, mas seu centro está no abdome e nos membros.

Entre esses dois polos, e com o grau de consciência intermediário entre a lucidez completa do sistema neuro sensorial e a inconsciência do sistema metabólico motor, acha-se o sistema circulatório (respiração, circulação) que tem por sede a parte torácica e liga, por assim dizer, os dois extremos. A esse sistema corresponde a vida sentimental e um grau de consciência equivalente ao estado de sonho.


Rudolf Lanz



Fonte: do livro “Noções Básicas de Antroposofia”, de Rudolf Lanz
Ed. Antroposófica, 7a. ed., 2005
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/narrativa-hist%C3%B3ria-sonho-dizer-794978/

PERISPÍRITO E ENFERMIDADE


[...] a gênese da maioria das enfermidades crônicas humanas se encontra na matriz perispiritual, que se utiliza da roupagem orgânica (física-vital) para drenar os desequilíbrios anímicos ali armazenados. Segundo a Doutrina Espírita, as enfermidades físicas e psíquicas de longa data têm as suas causas profundas nos recessos da alma endividada, que pode plasmar na mente, através do arrependimento mórbido, “zonas de remorso”, desequilibrando o perispírito e, consequentemente, o princípio vital, criando as predisposições mórbidas para as moléstias crônicas se manifestarem. Libertando-nos de uma visão fatalista e predestinada, frisemos que os débitos passados (dívidas cármicas) podem ser resgatados por uma infinidade de “acontecimentos reparadores”, exonerando as distonias mentais antes que os distúrbios físicos correspondentes sejam gerados; neste capítulo, encaixam-se todas as iniciativas dignificantes voltadas ao bem comum.

“De modo geral, porém, a etiologia das moléstias perduráveis que afligem o corpo físico e o dilaceram guardam no corpo espiritual as suas causas profundas. A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no Espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvulas de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos classificar de «zona de remorso», em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, com reflexo permanente na parte do veículo fisio psicossomático ligada à lembrança das pessoas e circunstâncias associadas ao erro de nossa autoria. Estabelecida a ideia fixa sobre esse «nódulo de forças mentais desequilibradas», é indispensável que acontecimentos reparadores se nos contraponham ao modo enfermiço de ser, para que nos sintamos exonerados desse ou daquele fardo íntimo ou exatamente redimidos perante a Lei. Essas enquistações de energias profundas no imo de nossa alma, expressando as chamadas dívidas cármicas, por se filiarem a causas infelizes que nós mesmos plasmamos na senda do destino, são perfeitamente transferíveis de uma existência para outra. Isso porque, se nos comprometemos diante da Lei Divina em qualquer idade da nossa vida responsável, é lógico venhamos a resgatar as nossas obrigações em qualquer tempo, dentro das mesmas circunstâncias nas quais patrocinamos a ofensa em prejuízo dos outros. É assim que o remorso provoca distonias diversas em nossas forças recônditas, desarticulando as sinergias do corpo espiritual, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade [...]. Todavia, ainda mesmo quando sejamos perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral.” (Evolução em Dois Mundos, André Luiz, cap. XIX, pp. 213-4)

Inferindo uma energia própria ao pensamento humano, Manoel Philomeno de Miranda associa a ação do mesmo nos “tecidos sutis do perispírito”, que plasmará o corpo físico do Espírito reencarnante. Caso tenhamos desequilibrado o psicossoma com uma força mental desagregadora empregada na prática dos atos infelizes da criatura humana, destruindo as matrizes perispirituais, esta distonia será transferida ao corpo físico em formação, criando suscetibilidades que poderão permitir o desenvolvimento de enfermidades futuras.

“- Os atos infelizes deliberadamente praticados, em razão da força mental de que necessitam, destroem os tecidos sutis do perispírito que, se ressentindo do desconcerto, deixarão matrizes na futura forma física, na qual se manifestarão as deficiências purificadoras, e a queda do tom vibratório específico permitirá que os envolvidos no fato, no tempo e no espaço, próximos ou não, se vinculem pelo processo de uma sintonia automática de que não se furtarão. Aí se estabelecem as enfermidades de qualquer porte. Os fatores imunológicos do organismo, padecendo a disritmia vibratória que os envolve, são vencidos por bactérias, vírus e toda a sorte de micróbios patológicos que logo se desenvolvem, dando gênese às doenças físicas. Por sua vez, na área mental, os conflitos e mágoas, os ódios acerbos, as ambições tresvariadas e os tormentosos delitos ocultos, quando da reencarnação, por estarem ínsitos no Espírito endividado, respondem pelas distonias psíquicas e alienações mais variadas. [...] Eis porque é rara a enfermidade que não conte com a presença de um componente espiritual, quando não seja diretamente esta o seu efeito. O corpo e a mente refletem a realidade espiritual de cada criatura [...]. (Painéis da Obsessão, Manoel Philomeno de Miranda, cap. VI, pp. 48-9)


Dr. Marcus Zulian Teixeira



Fonte: do livro "A Natureza Imaterial do Homem"
2a. Edição, São Paulo, Edição do Autor, 2015
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 11 de maio de 2020

SUFISMO - IDEAIS


O EMBLEMA SUFI

O Emblema do Movimento Sufi - um coração alado - simboliza seus ideais.

O coração é tomado em ambos os sentidos, o celeste e o terreno. Como o centro do ser de uma pessoa, é um receptáculo na Terra, do Espírito Divino, e se eleva ao Reino do Céu quando corresponde ao Espírito de Deus, que eternamente procura guiar a humanidade. A elevação do coração é indicada pelas asas abertas, e estas representam, respectivamente, desprendimento e independência; desprendimento dos gozos mundanos e da arbitrária opinião, e independência na consciência do Amor, da Sabedoria e do Poder de Deus.

O Crescente no coração simboliza correspondência; é o coração correspondendo ao Espírito de Deus, que se levanta. O Crescente é o símbolo da correspondência, porque vai ficando mais cheio, correspondendo mais e mais ao sol. A luz, que se vê na lua crescente, é a luz do sol, e, aumentando correspondentemente, se torna ela cheia da luz do sol. Semelhantemente, a alma nobilitada sempre se torna uma expressão mais plena das qualidades divinas.

A Estrela no centro do Coração representa a centelha Divina, que se reflete no coração humano com amor, e, pela virtude do sopro Divino, pode ser soprada até que se levante uma chama para iluminar o caminho da vida de uma pessoa.


O IDEAL SUFI

O principal objetivo do Movimento Sufi é no rumo da Unidade, que é um ideal dual. Primeiramente, unidade do homem com Deus a fim de que a humanidade possa compreender perfeitamente a verdade da afirmação de Cristo - «Eu e meu Pai somos um » - porque por este meio o Reino do Céu pode ser alcançado aqui na Terra, como exortou o Mestre. O ideal correspondente conduz à unidade mais estreita entre os povos do mundo, pela transposição das barreiras e distinções artificiais de raça e credo, que parecem dividir os homens; isto pode ser realizado por um conhecimento mais perfeito do objetivo da vida e uma compreensão mais profunda das suas leis e possibilidades. O princípio básico reconhecido pelos Sufis é a «Paternidade de Deus, e a Fraternidade do Homem».

As principais atividades do Movimento Sufi são:

a) Fraternidade Mundial,
b) Adoração Universal, e
c) A Ordem Sufi.

A Fraternidade Mundial projeta uma luz cheia sobre os aspectos interiores da vida, artes, religião comparada, reforma social, educação etc., pois que, por este meio, nós podemos prosseguir no destino da vida, criando uma atitude simpática para com outrem, o que dará em resultado harmonia e felicidade mútuas e culminará eventualmente na muito desejada paz mundial.

A Adoração Universal. A devocional atividade do Movimento Sufi reconhece a Divina Sabedoria na diversidade das formas religiosas e das crenças; reconhece os Mensageiros e Fundadores de cada religião que Deus tem mandado à terra em diferentes períodos, a fim de socorrer a humanidade segundo as necessidades da época; respeita, outrossim, todas as almas iluminadas, que têm aurido sua inspiração de uma e a mesma fonte, o Divino Espírito de Guia, que sempre dirige o homem para a meta ideal.

O Serviço Devocional não se restringe a nenhuma religião particular, pois que todas compreende, é a Igreja de Todos, e inclui todas as igrejas; seguindo-o, portanto, a pessoa não abandona a sua religião ou forma de adoração. Os termos da mística, tais como Iluminação, Revelação, Salvação, Libertação, Unificação e União, são reconhecidos como correspondendo ao ideal Sufi da Consciência de Deus. Visto que filosofia, ciência, arte e religião formal, invariavelmente, deixam de satisfazer o apetite da alma, os grandes Sufis do mundo têm realizado uma divina bem-aventurança, que transcende os mais altos sonhos do homem normal.

A qualidade de membro do Movimento Sufi investe uma pessoa dos privilégios de ambas as atividades exotéricas acima, e ao mesmo tempo, a torna elegível para ser recebida na escola esotérica chamada a Ordem Sufi.


A ORDEM SUFI

Esta é uma escola de treino individual no conhecimento da verdade. A iniciação (Bayat) e o treino dados na Ordem Sufi compreendem o desenvolvimento físico, mental, moral e espiritual para o desdobramento da alma humana - o ser eterno, ao qual pertence todo poder e beleza. Não se impõem restrições ou disciplina especiais, nem se exigem votos ou compromissos. Assim como ao sedento se dá água e ao faminto alimento, assim também, ao que busca a Verdade se lhe revela o Caminho para Deus. Há uma Chave de Ouro resolvendo os mistérios da vida, e que é a sincera devoção com o entendimento esclarecido. O corpo humano é o Templo de Deus e o coração, o Seu Sacrário. Ninguém pode aspirar por justiça a bênção Divina, ela é conferida pela Graça de Deus, semelhantemente, ninguém pode justamente dizer - «estou pronto para Bayat (iniciação) e mereço-a». Cristo disse verdadeiramente: «pedi e recebereis, procurai e achareis».

O termo Sufi deriva-se da mesma raiz da palavra grega Sophia, significando Sabedoria, e a palavra persa Sajaí, significando Pureza. Sua moderna significação implica em Sabedoria Pura, ou a Essência da Verdade, que é a base de todas as religiões.

A aspiração do Sufi é alcançar um conhecimento consciente de Deus, tornar real a Divina Presença e gozar a União com o Pai.


Hazrat lnayat Khan



Fonte: do livro "A Mensagem Sufi", pp. 11-13
Fundação Educacional e Editorial Universalista - FEEU, Porto Alegre/RS
Fonte da Gravura: http://www.sufiireland.com/uploads/8/1/2/7/8127955/9541154.gif

O SELO DE SALOMÃO PARA O MARTINISTA


O Selo de Salomão representa o Universo e seus dois ternários, Deus e a Natureza; ele é, por este motivo, chamado o “Sinal do Macrocosmos” ou do "Grande Mundo", em oposição à estrela de cinco pontas que é o “Sinal do Microcosmos”, do "Pequeno Mundo", ou seja, do Homem.

O Selo de Salomão é formado por dois triângulos. O que tem seu vértice para cima representa tudo o que ascende. Simboliza o Fogo e o Calor. Psiquicamente, representa as aspirações que o ser humano eleva até seu Criador. Em um sentido material significa a evolução das forças físicas, desde o Centro da Terra até o Centro do Sistema planetário ao qual pertencemos, o Sol. Em uma palavra, expressa o retorno natural das forças morais e físicas até o Princípio do qual emanaram.

O triângulo com a ponta para baixo representa tudo o que desce. É o símbolo hermético da Água e da Umidade. No mundo espiritual representa a ação da Divindade sobre Suas Criaturas. No mundo físico corresponde à corrente involutiva que parte do Sol, centro de nosso sistema planetário, até chegar ao Centro da Terra.

Estes dois triângulos combinados expressam não só a Lei do Equilíbrio, como também a Lei da Atividade Eterna de Deus e do Universo. Representam o movimento perpétuo, a degeneração e a regeneração incessantes pela Água e pelo Fogo. Quer dizer, mediante a Putrefação - termo usado antigamente em lugar da palavra mais científica de Fermentação.

O Selo de Salomão é, pois, a imagem perfeita da Criação e é com este significado que Louis Claude de Saint-Martin o inclui em seu Pantáculo Universal.



(Autor não especificado)



Fonte: HERMANUBIS MARTINISTA
http://www.hermanubis.com.br/artigos/artigos.htm
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/estrela-de-davi-dreidel-judaica-4703731/
https://i.pinimg.com/564x/ac/e3/04/ace3044448117172e8e72e32081e5dbd.jpg

A LEI DE ETERNA JUSTIÇA


Dentre as leis que regem a manifestação de Vida subjetiva – se assim quisermos chamar a Vida Interior do homem, independente ou quase das funções vegetativas da vida corporal – uma há que recebeu um nome hoje consagrado pela terminologia mundial teosófica: a Lei de Carma ou de Ação e Reação. Esta Lei, que pode ser chamada com razão Lei fundamental da manifestação da Vida e de sua expressão nos três mundos Mental, Emocional e Físico, é a que se expressa em relação a cada homem sob o aspecto de destino ou predestinação individual.

É uma lei complexa que parece como que o traço de união, a argamassa que liga todos os seres e coisas do Universo, a trama invisível que encadeia os acontecimentos, palavras, atos, pensamentos e sentimentos de todos os seres do Universo. Encadeia essas coisas, porque cada pensamento origina um novo pensamento; cada emoção uma nova emoção; cada desejo um novo desejo; cada palavra uma nova palavra, cada ato um novo ato, cada acontecimento um novo acontecimento, cada situação uma nova situação, e isto obedecendo a uma ordem transcendentemente lógica e perfeita, embora nem sempre ao alcance do homem vulgar.

Em virtude desta Lei, sábia e resumidamente expressa pelo Apóstolo Paulo, “cada um colhe o que semeia”, seja individual, seja coletivamente, pois existe o Carma coletivo e o Carma individual, que caraterizam: o primeiro as raças, as nações, os povos, as sociedades, as famílias etc., e o segundo o caráter individual e as individuais qualidades, idiossincrasias e atributos de cada indivíduo.

“Não se colhem figos nos espinheiros nem uvas nas silvas”, disse o Cristo. “Pelo fruto se conhece a árvore” – é uma expressão da linha cármica individual. E estas outras palavras do mesmo grande Instrutor caracterizam outro aspecto do Carma como Imanência Divina: “Nem um cabelo de vossa cabeça cairá sem que o Pai saiba.”

Outro grande Instrutor, Gautama, o Buddha, ou Sakia Muni, afirmou no Dhammapada, título de uma escritura que quer dizer “Caminho da Lei”:

“As coisas brotam do coração e o coração as determina; aquele que fala ou age com mau coração, a dor o acompanha como a roda acompanha o pé do animal que a arrasta. Porém o homem que fala ou age com bom coração, a felicidade o acompanha como a própria sombra.”

Eis aí uma belíssima expressão figurada da atuação da Lei do Carma na vida dos indivíduos.


Aleixo Alves de Souza



Fonte: do texto "O Que a Teosofia Ensina", de A.A.S
www.filosofiaesoterica.com.br
Fonte da Gravura: Seara de Luz - Instagram

domingo, 10 de maio de 2020

ESPIRITUALIDADE E MEDITAÇÃO


Entrevista com Jean-Yves Leloup

Padre ortodoxo e pessoa de intensa vida espiritual, Jean-Yves Leloup diz em entrevista exclusiva que o ser humano pode ser um pacificador num mundo em guerra, mas precisa, primeiro, investir na busca da paz interior e na entrega e confiança em Deus.

Todas as vezes que vem a Brasília, o padre ortodoxo francês Jean-Yves Leloup hospeda-se na casa de seu velho amigo, o psicólogo e reitor da Universidade da Paz (Unipaz), Pierre Weil. Anualmente, Leloup vem à capital para proferir seminários organizados pela Unipaz.

Trajando vestes claras, este homem de 57 anos de idade (em 2007) e 35 anos de sacerdócio, com formação em Psicologia Transpessoal, Filosofia e Teologia, tem, como sua referência de vida, o Ser, que encontra-se presente no interior de cada homem que busca a paz e o sentido da vida. Ora, o Ser é, nada mais nada menos, que uma das várias alcunhas pelas quais ele denomina Deus. Leloup refere-se à Suprema Divindade de diversas formas, com reverência surpreendente: Clara Luz, Pura Consciência, Consciência Absoluta, Ser Essencial, Absoluto.

Autor de 43 livros, entre eles Terapeutas do Deserto, A Arte de Cuidar e a autobiografia O Absurdo e a Graça, Leloup também traduziu e comentou os evangelhos de Felipe, de Tomé e de Maria Madalena, considerados apócrifos na tradição cristã. Sua fé em Jesus Cristo não o impede de ter um profundo respeito por outras crenças, numa postura claramente ecumênica. Ele é pertencente a uma corrente espiritual da ortodoxia cristã, chamada hesicasmo, que, em grego, significa: calma, paz, tranquilidade e ausência de preocupação. O sacerdote hesicasta procura devotar sua vida ao recolhimento interior e à oração.

Nesta entrevista à Comunidade VIP, Jean-Yves Leloup revela como descobriu a espiritualidade em sua vida e mostra que a busca pelo aperfeiçoamento interior é a chave para pacificar as “guerras” que cada um trava em seu cotidiano.

Como descobriu a espiritualidade?

Nasci numa família de ateus. Tive formação muito racionalista. Saí da casa de meus pais para conhecer o mundo. Com apenas 19 anos, fiquei muito doente em Istambul (Turquia), em decorrência de uma comida estragada. E ali, naquela cidade, vivi uma experiência impressionante. Fui declarado clinicamente morto e até quiseram me enterrar. Quando voltei ao meu corpo, comecei a me interrogar: “O que não morre, quando todo o resto morre?” Há o momento em que o pássaro sai da gaiola, e também há o momento em que o vôo sai do pássaro. Nesse momento em que o vôo sai do pássaro, tem um instante de luz e de presença que permanece. Em Istambul, encontrei o patriarca Atenágoras, da Igreja Ortodoxa, que me levou até um ícone do Cristo. Ao lado desse ícone estava uma inscrição em grego, que dizia “Eu Sou”. Naquele momento, o “Eu Sou” não eram meras palavras, mas o que eu tinha acabado de viver, durante a morte clínica. E foi a partir desse momento que me interessei pelo Cristianismo.

Nas chamadas “experiências de quase morte”, há relatos de pessoas que vêem um túnel de luz ou imagens referentes a sua crença. O que o senhor viu, naquela hora?

Vi apenas a vastidão, pois meu inconsciente não guardava nenhuma imagem religiosa. Foi até normal não ter visto nada. Senti apenas o espaço que contém todas as coisas. É como se estivesse vendo o dia, ao invés das coisas que aparecem no dia. E o dia permanece. Em latim, a palavra “dia” quer dizer "dies", que, por sua vez, significa Deus. Essas palavras têm a mesma raiz, no latim. Então, ver o dia é ver Deus.

Após o encontro com Atenágoras, o que ocorreu?

Fui para o Monte Athos, na Grécia. Lá, encontrei a tradição cristã-ortodoxa, as raízes do Cristianismo. Para mim, ele é a síntese entre o interior e o exterior, entre os lados material e espiritual. São duas coisas que não podem ser separadas. É a síntese da encarnação. O visível e o invisível devem ser mantidos unidos; a eternidade e o tempo; o finito e o infinito. Precisamos sair da dualidade.

Como surgiu a vocação para ser padre?

Quando descobri Cristo, ao invés de ser apenas um professor de Psicologia e Filosofia preferi ser também padre, onde pude transmitir também essa dimensão espiritual. Não apenas de ensinamentos intelectuais, mas também através da prática, de forma a levar a transformação interior ao ser humano.

Como descobriu a Unipaz e conheceu Pierre Weil?

Na França eu era diretor de um centro internacional chamado Sainte Baume. Convidei Pierre a visitar o local e a participar de colóquios sobre Psicologia Transpessoal. Foi em Sainte Baume que concretizamos a visão da Universidade Holística Internacional, cujo princípio é o de uma educação que leve em conta todos os componentes do ser humano: físico, afetivo, emocional, religioso e intelectual.

O que recomenda para desenvolvermos a paz interior e sermos também pacificadores?

A primeira coisa é descobrir a paz interior. É importante, nesse aspecto, cultivar práticas que acalmem a nossa mente, pois é aí que residem todas as espécies de medos e resistências. Na prática hesicasta do cristianismo ortodoxo damos muita atenção à respiração, pois, quando ela está calma, a mente encontra-se calma também. Nessas condições, podemos encontrar esse lugar de paz dentro de nós mesmos. Mas tudo isso ainda são práticas externas. Talvez o mais importante seja o abandono, não tentar controlar nada. Devemos confiar no Ser Essencial que nos ajuda. E é nessa confiança, nessa fé, que descobrimos um centro que nos ajuda a atravessar as dificuldades da existência. Uma vida que não tem sentido é uma vida sem centro. Podemos fazer as mesmas coisas estando centrados ou não. E aí a gente consegue observar as diferenças.

A prática hesicasta é semelhante à meditação oriental?

Sim. É o mesmo princípio, porque o ser humano é igual, não importa onde esteja. A respiração não pertence a nenhuma religião em particular. E a luz também. A abertura do coração também pertence a todos. O ser humano está em busca da verdade, não importa se ele está no Oriente ou Ocidente. Ele está orientado em direção a esta mesma realidade. No evangelho de São João está escrito que o Verbo, o Logos, é aquele que esclarece e ilumina todo homem que vem a esse mundo, não apenas os cristãos.

Ultimamente, surgiu uma onda de livros em defesa do ateísmo, vindos de autores como o biólogo inglês Richard Dawkins e o jornalista inglês Christopher Hitchens. O que acha desse movimento?

Depende de qual imagem de Deus estamos rejeitando. Em nível psicológico, muitos ateus estão rejeitando aquilo que eles viveram no passado. Mas o Deus que eles estão rejeitando muitas vezes não tem nada a ver com o Deus verdadeiro. É, simplesmente, uma certa imagem ou representação divina que eles estão rejeitando. A questão é o que fazer com a religião, Deus e a razão. Com a mesma flor a abelha pode fazer o seu mel e a vespa pode fazer o seu veneno. E a culpa não é da flor.

O livro O Segredo, de Rhonda Byrne é um sucesso de vendas, ao relatar como funciona a chamada Lei da Atração. Como o senhor conceitua esse fenômeno?

O poder mental é algo conhecido há muito tempo e depende basicamente do que pensamos. Um antigo provérbio diz que, quando Deus quer punir alguém, Ele cumpre todos os seus desejos. Na realidade, não sabemos o que é verdadeiramente bom para a nossa vida. No filme O Segredo, um menino consegue a bicicleta vermelha que ele tanto desejava. Mas depois não é dito que ele pode ter tido um acidente com aquela mesma bicicleta. Da mesma forma, alguém que obtém uma casa imensa, enorme, pode ser, à primeira vista, maravilhoso. Mas depois, o que ocorre naquela casa pode ser algo muito destrutivo. Essa prática é muito superficial, porque, na verdade, a questão é saber o que é realmente bom para o ser humano.

Então, como devemos pedir o que queremos?

Temos nossos próprios pensamentos e desejos, mas devemos colocá-los nas mãos de uma Vontade maior. O Pai-Nosso diz: “Que seja feita a Vossa Vontade”. Eu quero isso, mas será que realmente será bom para mim? Que seja feita a vontade da Vida. Que seja feita a vontade do Amor. Que muitas vezes nossos desejos são egoístas e esta é uma maneira de colocarmos nosso ser dentro de um Ser Maior. Eu tenho o poder do pensamento, mas devemos também confiar numa força maior, mais elevada.

Ou seja, é uma entrega a Deus?

É um abandono, uma entrega, uma confiança em Deus.

Os anjos são referências constantes nos textos bíblicos, inclusive no episódio da vinda de Jesus. Qual o papel desses seres na nossa vida?

Da mesma forma que entre o ser humano e a matéria existem mundos intermediários, o vegetal e o animal, entre o ser humano e a Clara Luz, a Pura Consciência, também existem níveis de consciência intermediários. Os anjos são esses planos de consciência, esses níveis de ser que podem fazer esse elo entre a consciência ordinária e a Consciência Absoluta. Muitas vezes somos mais inteligentes do que a inteligência que temos, como se nossa consciência entrasse em contato com uma de âmbito mais elevado. E é isso que chamamos de anjos. Num nível mais humano, o anjo também pode ser um mestre interior, uma voz que nos guia. Ou seja, é nossa inteligência que está aberta a uma dimensão mais ampla.

Existem anjos da guarda, na sua concepção?

Cada ser humano tem uma maneira particular de entrar em relação com o Absoluto. E é essa maneira particular que chamamos de nosso anjo. Isso tem relação com o Absoluto, o Infinito Real. Quando a gente está nessa abertura, inteligência e fé, certas manifestações nos mostram que estamos acompanhados, guiados. A gente pode chamar a isso de anjo da guarda. Em outras tradições, recebem outros nomes. O importante não é o nome que damos, mas a realidade que está por trás das experiências que vivemos. A tradição cristã diz para não idolatrarmos esses mundos intermediários. E hoje em dia muitas pessoas tomam experiências do tipo psicológicas por experiências espirituais, e experiências do mundo intermediário como experiências do mundo absoluto. A gente deve colocar cada coisa em seu lugar.

É difícil diferenciar uma coisa da outra – o intermediário e o absoluto?

Não, não é difícil. Aquilo que faz parte do mundo intermediário faz parte do mundo terreno. São coisas que passam. São coisas emotivas, intelectuais, mas fazem parte do mundo mortal. O mundo do Absoluto está além do tempo. É aquilo que não conseguimos agarrar ou compreender, que a gente não consegue reduzir a nossas pequenas experiências.

As religiões cristãs em geral são caracterizadas como dogmáticas. Como funciona essa questão para você?

Na origem, o dogma era um paradoxo. Era algo feito para despertar a consciência para além do funcionamento binário do cérebro. Por exemplo, o dogma que diz que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus tem o sentido de ultrapassar, ir além da consciência ordinária. O dogma então é um pouco como o Koan, do japonês. Ou seja, um paradoxo que nos ajuda a ir além da razão, mas sem perder a razão. Mas hoje em dia o dogma é confundido com dogmatismo, que significa obrigar alguém a acreditar em algo. Isso é destrutivo. O dogma, na realidade, foi criado para que saíssemos do dogmatismo. É um convite para que verifiquemos se isto é verdade.

Poderia deixar uma mensagem de Natal? (Em novembro de 2007)

Pouco importa se Cristo nasceu há 2 mil anos, se Ele não nascer hoje, no interior de mim mesmo. O Natal é o momento onde podemos aceitar o nascimento do Ser no interior de nós mesmos, para o nosso bem-estar e o bem-estar de todos.



Fonte: Jornal da Comunidade - Brasília - Novembro 2007
http://www.oracaodejesus.com/entrevista-com-jean-yves-leloup
Fonte da Gravura: VentosDePaz - ventosdepaz.com.br

A LUZ E A VIDA (VERBO - PALAVRA)


Não é sem interesse mostrar que existem relações entre a luz e os bioelementos, isto é, os principais elementos químicos que caracterizam a evolução da vida, e que foi a luz que criou a vida sobre a terra.

Na revista Atlantis, publiquei um estudo sob este título: A luz e a vida onde aventei a hipótese de que os bioelementos (o carbono, o hidrogênio, o oxigênio, o azoto) estão em relação direta com as principais radiações luminosas.

Pelos trabalhos de Louis de Broglie sabemos que a matéria é energia que contém luz e calor; a desintegração atômica demonstrou-o de uma forma irrefutável. Mas ainda não foram percebidas as relações que existem entre as diversas radiações da luz solar e os bioelementos, nem se compreendeu ainda, embora isso já esteja contido na lenda do nascimento de Vênus-Afrodite, desde a mais remota antiguidade, que foram radiações luminosas que formaram nas águas primitivas a primeira matéria viva.

Com efeito, no mito do nascimento de Vênus, contado na Teogonia de Hesíodo, 800 anos antes de nossa era, vemos Kronos, o Tempo, mutilar seu pai Urano, o Céu (Aur-Iuz) e lançar no mar os restos de sua virilidade. E é do sêmen do Urano que nasce Afrodite. Eis por que Botticelli representou Vênus saindo das ondas, de pé numa concha de Santiago, símbolo solar.

As principais radiações do sol dividem-se em três grupos distintos:

1º - Os raios infravermelhos, caloríficos, de grande comprimento de ondas.
2º - Os raios visíveis, do vermelho ao azul.
3º - Os raios ultravioletas, cujas ondas são curtíssimas.

Ora, essas três divisões correspondem aos três caracteres da manifestação do demiurgo, enquanto criador, mantenedor e destruidor (que destrói para reconstruir).

Já sabemos que os raios visíveis conservam a vida e que os raios ultravioletas destroem-na. O papel criador pertenceria, portanto, aos raios infravermelhos. Com efeito, estes são os raios caloríficos; não é portanto de admirar que eles se encontrem na origem do carbono e da química orgânica, a química do carbono.

Compreende-se, a partir daí, por que os alquimistas colocavam o carvão e a cor negra na base da Grande Obra que, na realidade, é uma pesquisa acerca das relações entre a luz e a vida.

Na outra extremidade do espectro, encontram-se os raios ultravioletas, os destruidores: eles estão relacionados com o azoto e talvez o tenham engendrado; azoto significa "impróprio para manter a vida" (A, privativo, e ZOÉ, vida). Essa palavra, entre os alquimistas, era escrita assim: AZOT, e era formada da primeira letra dos alfabetos latino, grego e hebraico, e da última letra desses mesmos alfabetos.

Os bioelementos correspondem aos quatro elementos clássicos. Se o carbono se associa ao elemento Terra e o azoto ao Fogo, iremos encontrar o Ar e a Água (Aor e Agni) nos raios intermediários.

Com efeito, os raios vermelhos estão relacionados com o hidrogênio enquanto os raios a se relacionam com o oxigênio, isto é, com os dois principais constituintes da água e do ar.

Restam os raios azuis, que se colocam entre os raios que mantêm a vida e os que a destroem. A que corresponderiam eles? Eu estava na impossibilidade de sabê-lo e já perdia a esperança de vir a descobri-lo, quando fui instruído por uma voz misteriosa, que já ouvira outras vezes, e isso, num momento em que meu pensamento estava ocupado com coisas inteiramente diferentes esses raios correspondiam ao protóxido de azoto. E, com efeito, o protóxido de azoto coloca-se entre o oxigênio (raios amarelos) e o azoto (raios ultravioletas); além do mais, os raios azuis são calmantes, adocicantes; fazem adormecer. O protóxido de azoto é usado para fazer adormecer nas operações cirúrgicas, ocasiões em que, o paciente vislumbra uma luz azul.

É este, portanto, o quadro das relações entre as radiações luminosas vindas do sol e os fenômenos vitais:

Raios ultravioletas - Azoto . . . destroem a vida.
Raios azuis - Protóxido de azoto N2O . . . fazem adormecer.
Raios amarelos - Oxigênio, raios vermelhos - Hidrogênio . . . conservam a vida.
Raios infravermelhos - Carbono . . . criam a vida.

Acrescentamos que o protoplasma, que é encontrado no fundo dos mares, parece constituir a primeira matéria viva; que alguns seres, como as medusas, são formados de uma substância gelatinosa que contém mais de 90% de água. Nosso corpo, em média, contém 65% de água, e reconstitui o meio marinho subterrâneo, no qual se banham células semelhantes aos primeiros organismos.

Assim o problema tantas vezes pesquisado da origem da vida parece ter encontrado a sua solução (por vezes entrevista, aliás) e essa origem está em completo acordo com os ensinamentos do Evangelho joanita. Ele nos da uma clara visão das relações entre o demiurgo solar e suas criaturas. Toda a história da evolução da Humanidade encontra, a partir daí, sua explicação lógica, e não é este um dos menores ensinamentos que podemos tirar do Evangelho iniciático de Ioan (João)

Percebe-se, agora, que a natureza da luz é o maior dos problemas da Física, que os átomos são formados de luz e que eles contêm em si uma força imensa. Essa força é a ENERGIA (energeia, em grego), palavra na qual encontramos Aor-Agni. Por que admirável mistério esse nome caracteriza as qualidades do Verbo, saído da substancia-princípio, a Virgem matéria, a MATÉRIA virgem, que se tornou a Virgem Maria, aspecto feminino do ESPÍRITO?

As teorias sobre a luz levam a conclusões contraditórias e opostas, como tudo o que diz respeito ao Deus universal, no qual os contrários se unem. A palavra luz, está bem próxima da palavra Lex, a lei; e Phos está bem próxima de Sophia, a Sabedoria. Vemos, portanto, que existe um mundo de interferências entre as palavras e as coisas, interferências às quais os homens são estranhos e que não podem ser atribuídas senão àquele a quem João chama de o VERBO, a PALAVRA.

Hermes - que representa o Conhecimento do dualismo representa do pelas duas serpentes do caduceu e as duas asas de seu capacete, está unido a Vênus-Afro a Beleza e o Amor - no hermafrodita - o andrógino dos arquimistos*. Simples clarões que brilham em meio às trevas, para nos guiar até a luz.


Paul Le Cour


Nota deste blog:
* Palavra não encontrada nos dicionários; talvez seja "alquimistas" a correta.


Fonte: do livro "O Evangelho Esotérico de São João", Ed. Pensamento, 2a. Ed., pp. 127-9
Via: HERMANUBIS MARTINISTA
http://www.hermanubis.com.br/artigos/artigos.htm
Fonte da Gravura: http://bibliaecatequese.com/wp-content/uploads/2014/09/sjoaoevangelista.jpg

sábado, 9 de maio de 2020

A ORAÇÃO DO CORAÇÃO


A oração hesicástica, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a rezar com o coração e a partir dele tem importância especial.

Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Os autores espirituais do monte Sinai, do monte Atos e os startsi da Rússia oitocentista apoiam-se todos na tradição do deserto.

Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: "Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós". No decorrer dos séculos, essa perspectiva da oração tem sido central no hesicasmo*. Rezar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra "coração" é usada em seu sentido bíblico pleno; em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como "coração partido" e "sentido no coração" mostram ser comum pensarmos no coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradição judeu-cristã, a palavra "coração" refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.

No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás** dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.

Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: "A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração". Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; significa que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração.

Isaac, o Sírio, escreve:

"Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir."

E João de Cárpato diz:

"É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente 'intracardíaco'), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, "Cristo está em vós." (2Cor13,5)

Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador". A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.

Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o "descanso" do hesicasta. Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Senhor de nossos corações e do universo. Assim, as palavras de Jesus: "Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mt 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As tentações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranquilos, mesmo em meio a uma existência agitada.

Isso levanta o problema de como praticar a oração do coração em um ministério bastante agitado. É a essa questão de disciplina para a qual precisamos agora voltar a atenção.


Oração e ministério

Como nós, que não somos monges nem vivemos no deserto, praticamos a oração do coração? Como ela influencia nosso ministério cotidiano?

A resposta a essa pergunta está na formulação de uma disciplina definitiva, uma regra de oração. As características da oração do coração que nos ajudam a formular essa disciplina:

— A oração do coração alimenta-se de orações breves e simples;

— A oração do coração é incessante;

— A oração do coração inclui tudo;

— Alimenta-se de Orações Breves.

No contexto de nossa cultura verbosa, é significativo ouvir os monges do deserto nos aconselhando a não usar palavras em excesso:

"Perguntaram ao aba Macário: 'Como se deve rezar?' O ancião respondeu: 'Não há, em absoluto, necessidade de fazer longos discursos; basta estender a mão e dizer: Senhor, como queres e como sabes, tem misericórdia. E se o conflito ficar mais ameaçador, dizer: Senhor, ajuda. Ele sabe muito bem do que precisamos e nos mostra sua misericórdia'."

João Clímaco é ainda mais explícito:

"Quando rezar, não procure se expressar em palavras extravagantes pois, quase sempre, são as frases simples e repetitivas de uma criancinha que nosso Pai do céu acha mais irresistíveis. Não se esforce em muito falar, para que a busca de palavras não lhe distraia a mente da oração. Uma única frase nos lábios do coletor de impostos foi suficiente para lhe alcançar a misericórdia divina; um pedido humilde feito com fé foi suficiente para salvar o bom ladrão. A tagarelice na oração sujeita a mente à fantasia e à dissipação; por sua natureza, as palavras simples tendem a concentrar a atenção. Quando encontrar satisfação ou contrição em determinada palavra de sua oração, pare nesse ponto."

Essa é uma sugestão muito útil para nós que tanto dependemos da capacidade verbal. A tranquila repetição de uma única palavra ajuda-nos a descer com a mente ao coração. (Também a base da Oração Cristã)***. Essa repetição nada tem a ver com mágica. Não tem o propósito de enfeitiçar Deus, nem de forçá-lo a nos ouvir. Pelo contrário, uma palavra ou sentença repetida com frequência ajuda-nos a nos concentrar, a nos mover para o centro, a criar uma tranquilidade interior e, assim, a ouvir a voz de Deus. Quando simplesmente tentamos ficar sentados em silêncio e esperar que Deus nos fale, nos vemos bombardeados por intermináveis pensamentos e ideias conflitantes. Mas quando usamos uma sentença bastante simples como: "Ó Deus, vem em meus auxílio", ou "Jesus, mestre, tem piedade de mim", ou uma palavra como "Senhor" ou "Jesus", é mais fácil deixar as muitas distrações passarem sem nos deixarmos iludir por elas. Essa oração simples, repetida com facilidade, esvazia aos poucos nossa vida interior apinhada e cria o espaço sossegado onde habitamos com Deus. É como uma escada pela qual descemos ao coração e subimos a Deus. Nossa escolha de palavras depende de nossas necessidades e das circunstâncias do momento, mas é melhor usar palavras da Escritura.

Quando somos fieis a essa oração simples e a praticamos com regularidade, ela nos conduz devagar a uma experiência de descanso e nos abre à presença ativa de Deus. Além disso, em um dia muito atarefado, podemos levar essa oração conosco. Quando, por exemplo, passamos, no início da manhã, 20 minutos sentados na presença de Deus com as palavras: "O Senhor é meu pastor", elas lentamente constroem em nosso coração um pequeno ninho para si mesmas e ali ficam o restante de nosso dia atarefado. Até enquanto falamos, estudamos, cuidamos do jardim ou construímos alguma coisa, a oração continua em nosso coração e nos mantém conscientes da orientação onipresente de Deus. A disciplina não é agora dirigida para um discernimento mais profundo do que significa chamar Deus de nosso Pastor, mas para a íntima experiência da ação pastoral de Deus em tudo que pensamos, dizemos ou fazemos.


Incessante

A segunda característica da oração do coração é ser incessante. A pergunta de como seguir a ordem de Paulo: "Orai incessantemente" foi fundamental no hesicasmo desde a época dos monges do deserto até a Rússia oitocentista. Há muitos exemplos desse interesse nos dois extremos da tradição hesicástica. (Vejamos um dos principais:)

Na famosa história do Peregrino Russo lemos:

"Pela graça de Deus sou cristão, mas pelas minhas ações sou um grande pecador... No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a liturgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: 'Orai incessantemente' (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida."

O camponês foi de igreja em igreja, para ouvir sermões, mas não encontrou a resposta que queria. Finalmente, encontrou um santo staretz que lhe disse:

"A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, precisamos suplicar com mais frequência a Deus que nos ensine a rezar sem cessar. Rezar mais e rezar com mais fervor. É a própria oração que lhe revela como rezá-la sem cessar; mas leva algum tempo."

Então, o santo staretz ensinou ao camponês a Oração de Jesus: "Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim". Enquanto viajava como peregrino pela Rússia, o camponês passou a repetir essa oração com os lábios. Até considerava a oração de Jesus sua companheira verdadeira. E, então, um dia, teve a sensação de que a oração passou sozinha de seus lábios para seu coração. Ele diz:

"... parecia que, pulsando normalmente, meu coração começava a dizer as palavras da oração a cada batida... Desisti de dizer a oração com os lábios. Passei simplesmente a ouvir o que meu coração dizia."

Aqui aprendemos outro jeito de chegar à oração incessante. A oração continua a rezar dentro de mim, até enquanto falo com os outros ou me concentro no trabalho manual. Ela se torna a presença ativa do Espírito de Deus que me guia pela vida.

Desse modo vemos como, pela caridade e pela atividade da oração de Jesus em nosso coração, nosso dia todo se transforma em oração contínua. Não sugiro que imitemos o peregrino russo, mas que, também nós, em nosso ministério atarefado, nos preocupemos em rezar sem cessar, para que, seja o que for que comamos ou bebamos, seja o que for que façamos o façamos pela glória de Deus. (Veja 1Cor 10,31). Amar e trabalhar pela glória de Deus não pode permanecer uma ideia sobre a qual pensamos de vez em quando. Deve se tornar uma incessante doxologia**** interior.


Inclui tudo

Uma última característica da oração do coração é que ela inclui todos os nossos interesses. Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossa preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração.

Quando dizemos a alguém: "Vou rezar por você", assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristeza humanas, todos os conflitos agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso.

Aqui vislumbramos o sentidos das palavras de Jesus:

"Tomais sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Sim, o meu jugo é fácil de carregar, e o meu fardo é leve." (Mt 11,29-30)

Jesus nos convida a aceitar seu fardo, que é o do mundo todo, um fardo que inclui o sofrimento humano em todos os tempos e lugares. Mas esse fardo divino é leve e podemos carregá-lo quando nosso coração se transforma no coração manso e humilde de nosso Senhor.

Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. A disciplina de conduzir todo o nosso povo com suas lutas ao coração manso e humilde de Deus é a disciplina de oração e também do ministério. Enquanto o ministério significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de atividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, ministério e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus.

Vimos como a oração do coração se nutre de orações breves, é incessante e inclui tudo. Essas três características mostram como a oração do coração é o alento da vida espiritual e de todo o ministério. Na verdade, essa oração não é apenas uma atividade importante, mas o próprio centro da nova vida que queremos representar e na qual queremos iniciar nosso povo. As características da oração do coração deixam claro que ela exige uma disciplina pessoal. Para levar uma vida de oração não podemos passar sem orações específicas. Precisamos dizê-las de uma forma que nos ajude a ouvir melhor o Espírito que reza em nós. Precisamos continuar a incluir em nossa oração todas as pessoas com as quais e para as quais vivemos e trabalhamos. Essa disciplina vai nos ajudar a passar de um ministério entontecedor, fragmentário e muitas vezes frustrante para um ministério integrador, holístico e muito gratificante. Ela não vai facilitar o ministério, mas simplificá-lo; não vai torná-lo doce e piedoso, mas sim espiritual; não vai fazê-lo indolor e sem lutas, mas tranquilo no verdadeiro sentido hesicástico.


Henri Nouwen


Notas deste blog:

*Hesicasmo:  Prática espiritual mística de algumas igrejas cristãs, sobretudo ortodoxas. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/hesicasmo.

**Satanás: Do hebraico "satan" שטן - Significa "questionador", "opositor", "oponente". Não é um ser existente. É mitológico. Apenas uma figura de linguagem, um símbolo, um arquétipo.

***Nota do autor do site: ecclesia.org

****Doxologia: Manifestação gloriosa de Cristo; louvor ou prece à glória de Deus. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/doxologia.




Fonte: NOUWEN, Henri J. M. A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo - O Caminho do Coração. São Paulo: Ed. Loyola, 2000.
Via http://www.ecclesia.org.br/biblioteca/espiritualidade/a_oracao_do_coracao.html
Fonte da Gravura: Tumblr

A CIÊNCIA DE ENTRAR NO SILÊNCIO


O objetivo da meditação é a experimentação do Divino.

"Antes que os olhos possam ver, não deverão mais poder chorar. Antes que o ouvido possa escutar, deverá ter perdido sua sensibilidade. E antes que a Voz possa falar em presença dos Mestres, deverá ter perdido o poder de ferir". É o que podemos ler no Lumiére sur le Chemin (Luz do caminho). Poderíamos acrescentar, é claro: "Antes que a voz do Mestre possa ser ouvida, o aspirante deverá ter calado as vozes do medo, da cólera, da avidez, da inveja, da luxúria e todas as outras vozes pelas quais a Sombra confunde o espírito do buscador".

Mas, em nossa época de recompensas imediatas e de compensações rápidas, é difícil suprimir a necessidade inconsciente de iluminação instantânea. Consequentemente, muitos estudantes bem intencionados pensam que aplicando com fé as técnicas antigas, serão recompensados com o presente último, o presente da iluminação espiritual, como prometido pelos sábios que desenvolvem e praticam essas técnicas desde muito tempo. Então, se escutarmos atentamente, poderemos ouvir a queixa, velada mas clara, da maioria dos estudantes que não fizeram progresso ao menos como desejavam.

Infelizmente, esse fenômeno está mais fortemente ligado ao fenômeno moderno de ruptura com o passado do que à incapacidade do estudante sincero em se aplicar a sua tarefa. Pois, da mesma forma que a ciência, uma vez liberada do elemento filosófico, que a ancora ao conjunto da vida e dos Valores humanos, deixa de ser a "ciência" em seu sentido tradicional, e é transformada em escravo servil à tecnologia, assim também às técnicas esotéricas antigas, privadas dos elementos fisiológicos aos quais estavam ligadas para a eficácia, tornam-se simples robô nas mãos daqueles que estão desconectados de suas raízes psíquicas e espirituais.

Já é bem sabido que, para os pitagóricos, o problema da espiritualidade não era, na verdade, tornar-se divino mas, antes, tomar consciência do divino nos princípios universais. O processo pitagórico concentrava-se essencialmente sobre isto, pois eles sabiam que exatamente o que detém o aspirante em seu desenvolvimento da consciência divina, nos princípios universais, tanto quanto hoje como ontem, é um estado interior de cegueira relacionado com a psicologia de cada um.

Não nos esqueçamos de que, naquela época, não havia realmente uma classe média, mas sim unta classe superior e uma classe inferior. E embora houvesse certamente traumas psicológicos entre as pessoas da alta sociedade, estes não eram tão numerosos quanto os que podiam ser encontrados na classe inferior, Além do mais, entre os pitagóricos, os aspirantes provinham em grande parte das classes abastadas; e apesar disto, antes de serem aceitos na escola, eles eram severamente testados no que tocava a sua predisposição psicológica. E uma vez aceitos, não havia garantia de progresso, pois isto deveria ser conquistado, e não concedido. A preparação psicológica era, e continua a sê-lo, um imperativo vital para o trabalho espiritual.

Após ter sido aceito entre os pitagóricos, o aspirante era primeiramente submetido a um período de silêncio que durava cinco anos. Durante esse "período de silêncio", o aspirante deveria aprender a guardar para si mesmo as suas próprias opiniões, a reconhecer e suspender suas próprias tendências em tecer considerações sobre cada assunto. Em outras palavras, o aspirante deveria aprender a ser silencioso interiormente, para ser capaz de escutar. De tal maneira que, quando viesse a falar, estivesse extremamente consciente de suas motivações e do significado de suas palavras. O medo havia sido vencido, os traumas psicológicos regulados e, enfim, a vontade teria se tornado verdadeiramente livre.

No mundo de hoje, embora os testes para o aspirante sejam muito mais sutis, a maior parte dos estudantes trabalha com a concepção errônea de ter investido determinado numero de anos no estudo dos ensinamentos de tal filosofia ou escola de mistério ou de que "o tempo de serviço" deve ser uma garantia de seu progresso. Nada pode estar mais longe da verdade! Pois antes e a menos que se tenha obtido êxito em comer porções substanciais de nossa própria sombra, permaneceremos privados desses elementos psicológicos que são indispensáveis ao avanço espiritual.

Saiba que o segredo de desenvolver a ciência de penetrar no silêncio deve ser encontrado na consciência de si, na interrogação de si, e na honestidade frente a frente a si mesmo. Primeiramente, deve-se estar consciente de suas reações interiores às circunstâncias e acontecimentos exteriores. Depois, deve-se ser capaz de se perguntar por que as reações em questão são experimentadas. E, enfim, deve-se ser suficientemente honesto consigo mesmo e aceitar examinar em detalhes todas as respostas que podem surgir para este auto-interrogatório. Esta abordagem demonstrou ser muito eficaz para integrar as energias discordantes que rivalizam para manter nossa atenção na cena de nossa consciência.

(Autor não especificado)



Fonte: HERMANUBIS MARTINISTA
http://www.hermanubis.com.br/artigos/artigos.htm
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