terça-feira, 14 de julho de 2020

O DESTINO ESSENCIAL DO SER HUMANO


Enquanto você pensar que pode apenas meditar o suficiente para se dar bem ou o suficiente para conquistar algo, na verdade você não começou a meditar. Quando você se der conta que deu início a uma jornada que irá durar até o fim de sua vida, você terá começado a aprender. A esse momento, de reconhecimento e concordância, chamamos compromisso. Ele é corretamente descrito como um momento de graça e compreensão, porque nele experimentamos nossa mais profunda significação e compreendemos a importância da prece para que estejamos completamente vivos. Meditamos não tanto para entendermos porque estamos vivos quanto para vivermos diferentemente, para vivermos mais completamente. [...]

A própria meditação é uma experiência de aprendizado, literalmente “uma disciplina”. Só a disciplina nos ensinará a verdade e só a prática nos levará a despertar. A disciplina da meditação é uma escola. É uma escola de amor e nosso crescimento nessa escola é crescimento no discipulado do amor. Nos ensina o que precisamos saber, a enxergar com o coração, a viver a partir do centro, a abraçar com todas as fibras de nosso ser. Nos ensina o que precisamos saber para cumprirmos o destino essencial que cada ser humano possui: ser seu eu pela eternidade. O destino humano é o do viver eterno... A maioria de nós começa a meditar num ponto em que parcialmente concordamos com a ideia de vivermos uma vida finita. Todavia, também começamos a compreender que isso foi um erro.

É fácil concordarmos com a ideia de vida finita, porque é uma vida vivida no interior de paredes protetoras. Nos parece estar segura e a salvo... Mas a opção mais desafiadora de todas é a de vivermos eternamente, a de respondermos a mais elevada verdade sobre a existência, a identidade e a morte. A compreensão de que somos feitos para a eternidade extrapola o poder da imaginação, significando não apenas a vida do mundo futuro, mas vida vivida completamente agora. E o estarmos completamente vivos demanda, a todo momento, tudo o que somos. Não admira que depreciemos a maravilha disso e construamos aquelas paredes protetoras... Todavia, a vida é mais forte do que nossos medos... Viver eternamente significa viver integralmente no presente momento. A eternidade é o perpétuo agora, e ao aprendermos a viver eternamente no presente aprendemos a verdade sobre o amor.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "O agora do amar" - Leitura de 15/06/2008
The Selfless Self (London: Darton, Longman and Todd, 1996) pp. 36-37.
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A CURA DA SOMBRA


A cura da sombra é, por um lado, uma questão moral — ou seja, o reconhecimento daquilo que reprimimos, o modo como efetuamos essas repressões, a maneira como racionalizamos e enganamos a nós mesmos, a espécie de objetivos que temos e as coisas que ferimos (ou até mesmo mutilamos) em nome desses objetivos. Por outro lado, a cura da sombra é uma questão de amor. Até onde poderia o nosso amor estender-se às partes quebradas e arruinadas de nós mesmos, às nossas partes repulsivas e perversas? Quanta caridade e compaixão sentimos pelas nossas próprias fraquezas e doenças? Como poderíamos construir uma sociedade interior baseada no princípio do amor, reservando um lugar para todos? E uso a expressão "cura da sombra" para enfatizar a importância do amor. Se nos aproximamos de nós mesmos para nos curar e colocamos o "eu" no centro, isso com muita frequência degenera no objetivo de curar o ego — ficar mais forte, tornar-se melhor e crescer de acordo com os objetivos do ego, que em geral são cópias mecânicas dos objetivos da sociedade. Mas quando nos aproximamos de nós mesmos para curar essas firmes e intratáveis fraquezas congênitas de obstinação, cegueira, mesquinhez, crueldade, impostura e ostentação, defrontamo-nos com a necessidade de todo um novo modo de ser; nele, o ego precisa servir, ouvir e cooperar com um exército de desagradáveis figuras da sombra e descobrir a capacidade de amar até mesmo o mais insignificante desses traços.

Amar a si mesmo não é fácil, pois significa amar todas as partes de si mesmo — incluindo a sombra, na qual somos tão inferiores e tão inaceitáveis socialmente. Os cuidados que dedicamos a essa parte humilhante são também a cura. E mais: como a cura depende dos cuidados, às vezes "cuidar" quer dizer apenas "trazer consigo". O primeiro passo essencial para a redenção da sombra é a capacidade de trazê-la conosco (como fizeram os protestantes puritanos, ou os judeus no eterno exílio, dia a dia conscientes de seus pecados, de atalaia contra o Diabo, em guarda para não dar um passo em falso; uma longa jornada existencial com um fardo de pedras às costas, sem ninguém sobre quem descarregá-las e sem destino certo ao final). Mas esse trazer consigo e cuidar não podem ter um desenvolvimento programático que faça aquela qualidade inferior se sujeitar aos objetivos do ego, pois isso não seria amor.

Amar a sombra pode começar com o trazê-la consigo, mas isso ainda não é suficiente. A qualquer momento pode irromper alguma outra coisa qualquer, como aquela introspecção que escarnece do paradoxo da nossa própria loucura — a loucura comum a todos os homens. E então talvez nos chegue a alegre aceitação do rejeitado e do inferior, um acompanhá-lo e até mesmo vivê-lo parcial. Esse amor talvez leve até mesmo a uma identificação com a sombra, a uma passagem ao ato da sombra, caindo no seu fascínio. Portanto, a dimensão moral nunca deve ser abandonada. E assim a cura é um paradoxo que exige dois fatores incomensuráveis: primeiro, o reconhecimento moral de que essas partes de mim são opressivas e intoleráveis, e precisam mudar; e, segundo, a risonha aceitação amorosa que as aceita exatamente como elas são, com alegria e para sempre. Lutamos arduamente e desistimos, julgamos com severidade e aceitamos com alegria. O moralismo ocidental e o abandono oriental, cada um contém apenas um lado da verdade.

Acredito que essa atitude paradoxal da consciência em relação à sombra encontra um exemplo arquetípico no misticismo religioso judaico, onde Deus tem duas faces: a face da retidão moral e da justiça, e a face da misericórdia, do perdão e do amor. Os ensinamentos chassídicos contêm esse paradoxo, suas parábolas mostram uma profunda piedade moral combinada com uma espantosa alegria de viver.

A descrição que Freud fez do mundo escuro que encontrou não faz justiça à psique, era uma descrição demasiado racional. Freud não captou suficientemente a paradoxal linguagem simbólica através da qual a psique se manifesta. Ele não chegou a perceber plenamente que cada imagem, cada experiência, tem um aspecto prospectivo bem com um aspecto redutivo, um lado positivo bem como um lado negativo. Ele não viu com suficiente clareza o paradoxo de que o lixo apodrecido também é o fertilizante, que ingenuidade também é inocência, que perversidade polimorfa também é alegria e liberdade física, que o homem mais feio é também o redentor disfarçado.

Em outras palavras, as descrições da sombra feitas por Freud e Jung não são duas posições distintas e conflitantes. Pelo contrário, a posição de Jung deve ser superposta à de Freud, ampliando-a e acrescentando-lhe uma dimensão, e essa dimensão considera os mesmos fatos e as mesmas descobertas, mas mostra que se trata de símbolos paradoxais.


JAMES HILLMAN *


* James Hillman foi um psicólogo e conferencista americano de fama internacional. Ele estudou e posteriormente conduziu estudos no C. G. Jung Institute, em Zurique. Foi fundador de um movimento conhecido como 'psicologia arquetípica' pós-junguiana. (Wikpédia)



Fonte: do livro "AO ENCONTRO DA SOMBRA - O potencial oculto do lado escuro da natureza humana", Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.), Tradução MERLE SCOSS
Ed. CULTRIX, São Paulo
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/verde-rosto-luz-retrato-mulher-5124174/

ATENÇÃO, CONCENTRAÇÃO E COMPREENSÃO (SMRTI - SAMADHI - PRAJÑA)


[...] Quando você estiver praticando a atenção plena do seu corpo, "inspirando, eu sei que meu corpo existe. Expirando, eu sei que meu corpo existe", o seu corpo se torna o único objeto da sua consciência. Quando a atenção plena é forte e está focada desse jeito, nasce a concentração. O objeto de sua concentração também é o seu corpo. Quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes, você consegue avançar em direção à realidade, ter um lampejo, uma realização e descobrir coisas. Atenção plena, ou SMRTI em sânscrito, é a primeira energia. A atenção faz surgir a concentração, SAMADHI, a segunda energia, e, juntas, atenção plena e concentração trazem a compreensão direta, PRAJÑA.

Meditar significa gerar esses três tipos de energia. Você não tem que pedir que elas venham até você a partir de fora. Todo mundo tem as sementes da atenção plena, concentração e compreensão dentro de si. Com as práticas de respirar, andar e sentar atentamente, nós ajudamos estas sementes a se manifestarem enquanto energias. Estes são os três tipos de energia que fazem com que um ser seja iluminado. Estas energias fazem com que você acorde, unifique totalmente o seu corpo e mente, e elas lhe põem em contato com todas as maravilhas da vida. Você para de correr e de tentar buscar a felicidade noutro lugar. Você vê que a felicidade é possível no aqui e agora.

A alegria e felicidade são possíveis imediatamente quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes. Você redescobre que o seu corpo existe; que todas as maravilhas da vida existem; que tantas condições de felicidade já estão disponíveis. Isso já é compreensão direta. Esta compreensão pode lhe ajudar a se libertar das preocupações, do seu medo, anseio e busca. Esse tipo de compreensão lhe ajuda a reconhecer, que existem condições mais do que suficientes para você ser feliz aqui e agora mesmo. A compreensão traz liberdade, alegria e felicidade.

Quando você está totalmente consciente do que é real, e consegue manter viva essa consciência e concentração, surge a compreensão. Quando você está consciente da presença de uma flor, e sustenta essa consciência, isso é concentração. A concentração nasce da atenção plena; a energia da atenção é portadora da concentração. Se você pratica profundamente a atenção, a concentração existe, e com esta concentração você é capaz de olhar profundamente para o que está acontecendo e você vai penetrar a realidade. [...]


Thich Nhat Hanh


Fonte: do livro "Paz Mental - Tornar-se Completamente Presente"
Tradução de Maria Goretti Rocha de Oliveira
Ed. Vozes, Petrópolis/RJ, 2017
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budismo-%C3%A1sia-meninos-camboja-1822518/

domingo, 12 de julho de 2020

O CAMINHO DA VIDA É O CORAÇÃO


A história do ser humano é a busca e, simultaneamente, a realização de um significado existencial. Nas construções monumentais e nas sagas dos povos pode-se encontrar sua tentativa de entender a realidade e a si mesmo. Guerras de conquistas, bem como dramas pessoais, tudo circula em torno da ânsia em compreender o significado essencial da vida. O ser humano navega no mar da procura de seu próprio sentido.

O caminho da vida é o coração. Ele é como um grande porto num imenso oceano navegável. Por ele passam todas as lutas e experiências da alma. Navegantes de todos os mares sabem de sua grandiosidade e do quanto se valem de suas poderosas amarras para se sentirem pertencentes, isto é, vinculados a algo transcendente. O caminho da vida é o amor que acontece no coração, lugar íntimo dos encontros profundos. É nele onde se encontram os gritos e os sussurros dos que se escondem do tempo de viver. É em seu seio nutridor que as dores e as alegrias encontram formas de expressão. Os heróis se valem dele para adquirir coragem para as maiores batalhas. Suas forças são alimentadas pela energia que perpassa em suas vias amorosas. O sentido e o significado da vida são decifrados por aqueles que têm coragem de viver seus mais profundos sentimentos, a serviço da vida. Não há como fugir ou alienar-se do próprio coração. Deus fez a razão para que o ser humano entenda o que se passa em seu coração. É também nele que o Espírito se revela a si mesmo e ao mundo.

Nossos anjos e demônios ali fazem morada e buscam incansavelmente abrir-se à vida para que se integrem à sua própria totalidade, como uma só alma. Mágoas e perdões se aproximam para o casamento perfeito em favor do amor pleno. É na sua intimidade que o eu mais profundo faz sua permanência e sua impermanência. Nele se constroem as histórias e se forjam os alicerces da esperança. Fugir ao contato com o mistério que habita em seu interior é ausentar-se do encontro com a felicidade. Tudo que nele ocorre é particular e inacessível a alguém que não seja o seu próprio dono. O que dele nasce vem do íntimo do Espírito em sua permanente ligação com Deus. [...]

O movimento da vida é de dentro para fora, conduzido pelas forças do coração. A energia amorosa é que faculta o movimento de realização do mundo interno de cada ser humano. O filósofo F. Nietzsche sintetizava esse pensamento na expressão: “Torna-te no que és”. [...]


Adenáuer Novaes



Fonte: do livro Mito Pessoal e Destino Humano
Fundação Lar Harmonia, Salvador, Ba, 2005
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A CONSCIÊNCIA DE QUE EXISTIMOS


Tanto de nossa vida parece desvanecer da memória. Problemas que nos atormentam, ou prazeres que nos emocionam, planos que nos absorvem completamente, pesares inconsoláveis que pareciam fazer com que nossa vida tivesse chegado ao fim, todos são temperados pelo tempo. Existem outras experiências, frequentemente não tão emotivamente irresistíveis quando de sua ocorrência, que não se desvanecem. Recordamos essas epifanias de consciência pura de maneira mais profunda, porque se tornam parte de nós. Na maneira frequentemente modesta e quieta em que aconteceram, elas eliminaram algumas das camadas obscuras usuais e nos revelaram como realmente somos, quem somos realmente. Nesse despertar não houve nenhum trovão, nem manchetes místicas. Porém, foram novidades que não se dissiparam com a chegada dos jornais matutinos...

Recordo-me, por exemplo, que quando garoto, ao voltar da escola, frequentemente parava em frente à vitrine de uma loja em que havia selos filatélicos estrangeiros, que para mim à época eram irresistivelmente belos. Um dia, um amigo de família, mais velho, passando por ali, interrompeu meu olhar contemplativo extático para me cumprimentar. No dia seguinte, enquanto parado em frente à mesma vitrine, na minha volta para casa, a mesma pessoa passava e, brincando, perguntou-me se eu estivera ali parado desde o dia anterior. Algo indescritível mas fortemente familiar se acendeu dentro de mim, algo que está comigo até hoje: uma consciência do si-mesmo, ser tomado de surpresa mas sem medo, o conhecimento de que existimos no universo de outros assim como no nosso próprio. Qualquer que seja a maneira como venhamos a descrever esses momentos, e eles são muito comuns, pois pontuam o desenvolvimento de nossa consciência, eles são a prova que necessitamos, de que somos reais, que existimos. E, ao tempo em que essa prova tenha se aprofundado suficientemente em nós, começamos a encontrar o sentido da existência, como um desenvolvimento na santidade. [...]

São Bento dá um aviso a seus monges, no capítulo sobre “os instrumentos das boas obras”: não desejar ser chamado santo antes de realmente o ser. A ironia, é claro, é que ao tempo em que o indivíduo se torna realmente santo, ele não mais irá querer ser chamado santo. Ou qualquer coisa que o valha. Enquanto estivermos preocupados com a “honra” que as pessoas deveriam nos devotar, ou com que pensem e falem bem de nós, teremos um atestado de que ainda nos encontramos a uma boa distância...

Crescemos em santidade preocupando-nos com “a honra procedente daquele que exclusivamente é Deus”. Preocupar-se é amar, é se devotar. A honra que vem de Deus é a dignidade de nossa verdadeira natureza, nossa bondade essencial e inalienável, que nos torna a todos, afinal, merecedores do perdão...


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos amigos" - Leitura de 23/11/2008
WCCM International Newsletter, outubro de 2007, pp. 2-7
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - http://www.wccm.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sábado, 11 de julho de 2020

O TAO FLUI LIVREMENTE


[...] este é o segredo. Através da aceitação de todas as coisas que a vida oferece, a pessoa do Tao nunca entra em conflito com a realidade. Ela observa os processos sem querer mexer neles ou modificá-los com os pensamentos. A mudança – e é importante saber isto – influi por si mesma em toda a enorme inteligência do Tao. Não temos de gostar de tudo que ocorre em nossa vida, o que enxergamos objetiva e honestamente. Podemos deixá-lo também completamente sem comentários. Nossa inteligência, existente em nossa compreensão, reconhece as coisas desagradáveis, os problemas, os conflitos, antes mesmo que eles cheguem à consciência. Por isto não tem sentido ter ideias, com nossa capacidade limitada, de como deve ser a vida, e depois nos prendermos a elas. As forças do Tao querem fluir livremente e sem obstáculos. Com qualquer medida de iniciativa própria só estaríamos contrariando o efeito. [...]


Theo Fisher



Fonte: do livro "WuWei - A Arte de Viver o Tao"
Editora Árvore da Terra, 1999
Tradução: Ulrike Pfeiffer
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/roda-falou-raios-irradiar-t%C3%BAnel-1364437/

DIÁLOGO COM AS LEIS DA VIDA


É certo que a vida pensa. Vemos seus efeitos, que nos revelam uma extraordinária sabedoria. Mas a vida não formula seu pensamento com palavras, como o fazemos nós. Ela age, não fala. Sua linguagem é concreta, manifesta-se materializada nos fatos. Para entender aquela linguagem, é necessário observar esses fatos.

Observando o mundo que nos circunda, é fácil constatar que não há fenômeno cujo desenvolvimento não seja dirigido por uma lei própria, como um trilho já feito sobre o qual ele caminha. Este caminho não se traça ao acaso, mas é orientado com direção a uma dada finalidade, segue uma técnica de desenvolvimento que constitui a lei do fenômeno. Tudo isto é mais evidente no plano físico e dinâmico, domínio da ciência. Assim, os fenômenos movem-se em um regime de planificação preestabelecida, que os enquadra dentro de uma ordem, necessária para que tudo não se desmorone no caos.

A lógica dessa estrutura orgânica faz-nos supor que, para o mesmo regime de ordem, estejam sujeitos também os fenômenos que se processam no plano mental e moral. Tanto mais que eles são de natureza biologicamente mais evoluída do que a dos fenômenos da matéria e da energia, e são mais importantes do que estes, por dizerem respeito à diretriz de nossa conduta e, portanto, à nossa evolução. E, neste caso, trata-se do elemento humano, que é o mais avançado, na escala evolutiva. Tendo em vista tudo aquilo que a ciência nos mostra acontecer nos campos de seu domínio, seria absurdo que a mesma coisa não acontecesse também na zona do ápice da vida, posta frente à evolução, no ponto de sua mais intensa atividade de conquista. A razão nos diz que, além do universo da matéria e da energia, deve haver também um universo do espírito constituído dos valores imponderáveis morais e ideais, isto é, uma outra ordem de fenômenos regulados, como acontece com os outros, por leis que lhes disciplinam o funcionamento.

Conhecer estas leis, para depois adequar-se a elas, significa possuir a arte da conduta certa, podendo gozar de todas as vantagens que dela derivam e evitar todos os danos que são consequência fatal de todo erro contra aquelas leis. Esse é um discurso utilitário, coerente com a realidade da vida, que também é utilitária. Nós o estamos fazendo em um momento no qual o homem passa da fase infantil a de adulto. Ele é então capaz de compreendê-lo. É evidente que, presentemente, se vive em um ritmo de transformismo evolutivo acelerado em todos os campos. A vida sabe o que faz. Quem observa seu funcionamento, desde suas primeiras tentativas elementares e formas menos evoluídas até suas construções mais complexas e evoluídas, não pode deixar de encontrar nela uma inteligência superior.

Ainda que contenha males e imperfeições, a vida sempre vence e avança. Se ela, além de suas formas, é constituída, também, de uma inteligente diretriz de funcionamento, é inegável, então, que deve ser possível comunicar-se com essa inteligência para compreender qual é o seu pensamento e a sua vontade. Ora, comunicar-se significa estabelecer um diálogo no qual se propõe questões e se obtêm respostas. Chegados a este ponto, trata-se de resolver o problema de como conseguir estabelecer esse diálogo. Trata-se de descobrir neles (fatos) aquele pensamento subterrâneo que se esconde sepulto no íntimo da realidade.

Como aprendê-lo, então? É preciso aprender a comportar-se, a escolher a solução justa para nossos problemas. Em suma, trata-se de conquistar uma nova consciência da vida e um senso de responsabilidade, fruto de um conhecimento anteriormente não possuído. Trata-se de passar do estado de incerteza do primitivo imprevidente, a um novo modo de viver, regido por uma planificação inteligente, para possuir em vez de uma vida incerta e perigosa, uma vida garantida e protegida.

Mas aquilo que é mais urgente para atingir tal planificação e gozar as suas vantagens, é o conhecer e, portanto, o seguir as leis da vida. Sem isto bate-se a cabeça, a cada passo, contra aquelas leis que reagem a cada violação, comportando-se para conosco como nós nos comportamos para com elas. É portanto de supremo interesse conhecê-las, seja para evitar danos, como para ganhar vantagens.


Prof. Pietro Ubaldi



Do livro ” Pensamentos” – parte 2 – cap. 1
Via Instituto Pietro Ubaldi
http://pietroubaldi.org.br/site/2020/03/23/dialogo-com-as-leis-da-vida/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A ETERNIDADE DA COMPLETUDE DO SER


Se quisermos abraçar a eternidade da completude do ser (o “EU SOU” de Deus), temos que, primeiro, encarar a realidade dura e crua da impermanência e do vazio. Temos sempre a tentação de lhe reduzir a intensidade, de descê-la a um grau inferior de consciência e, até, de adormecer. O Buda chamou-nos a atenção para este enevoar da mente, neste ou até mesmo em qualquer outro momento da nossa viagem, com intoxicantes e sedativos, estimulantes ou tranquilizantes. Jesus instou todos a manterem-se totalmente conscientes:

“Ficai alerta, ficai despertos. Não sabeis quando o momento chegará… Vigiai pois não sabeis quando virá o dono da casa. À noitinha ou à meia-noite, ao cantar do galo ou ao início da madrugada; se ele vier subitamente, que não vos encontre a dormir. E o que vos digo a vós digo a todos: vigiai.” (Mt. 13: 33-37).

Na Epístola aos Efésios, S. Paulo diz que este estado de vigília conduz aos “poderes espirituais da sabedoria e da visão” e em direção à gnose, ao conhecimento espiritual. Mas, mesmo com a mais forte das fés, o sentimento de separação, pleno de tristeza, não é imediatamente dissipado, mesmo quando a sabedoria começa a refulgir. O muro do ego pode parecer um obstáculo insuperável, um beco sem saída que não nos deixa qualquer escapatória. Mas, tal como nos recorda a Ressurreição, o que parece ser o fim, não o é, na realidade. Encarando o nosso egoísmo entrincheirado e reconhecendo a sua morte lenta, a meditação ajuda-nos a verificar a nossa ressurreição na nossa própria experiência.

A lei da natureza inferior, do “karma”, e a dominação pelo ego limitador reinam, reinam, até que aparece um buraco no muro. Primeiro, é um só tijolo que é removido, como se fosse por uma mão invisível, e vislumbramos uma perspectiva para além de tudo o que alguma vez pensamos ou fomos capazes de conhecer. É uma experiência e, no entanto, é conhecida de uma forma diferente de qualquer outra coisa que tenhamos experienciado anteriormente. Já não somos aquela mera pessoa individual que pensávamos ser. A vida mudou de forma irreversível. Vivemos e, no entanto, tal como S. Paulo, já não vivemos. 

Eu sou porque não sou.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: Leitura Semanal – 25.01.2015
“O Labirinto” (excerto), in “Jesus, o Mestre Interior”
Comunidade Mundial para a Meditação Cristã (Portugal)
https://www.meditacaocrista.com/leituras-semanais/archives/01-2015
Fonte da Gravura: Tumblr.com

REENCARNAÇÃO - ESQUECIMENTO E LEMBRANÇAS DE VIDAS ANTERIORES


As provas ou evidências - diretas ou indiretas - da Reencarnação não se limitam irredutivelmente às lembranças, às reminiscências, como fatos 'sine qua non'. Estas são um contributo dos mais importantes, não há como negar. [...]

Guardamos, intimamente pelo menos, a noção de quem somos e com isso fazemos um auto-reconhecimento de nossas fraquezas, de nossos arrastamentos, e perante nós mesmos nos questionamos. Pois, somos hoje, basicamente, o fruto do nosso ontem.

É preciso acrescentar que a alma não está totalmente enclausurada na matéria a ponto de não gozar de momentos transitórios de emancipação em que possa recordar compromissos assumidos.

Quando menos seja, chegará o momento de, uma vez desencarnados, verificarmos o saldo positivo ou negativo de nossas passagens pela Terra. As lembranças não ficam perdidas, antes arquivadas: o esquecimento, de toda a forma, não quer dizer destruição, como assevera Gabriel Delanne. E afinal de contas, a vida não se compõe apenas de sofrimentos e de erros. Também de acertos. Queremos dizer que a alma conhece, oculta no subconsciente, eventos relacionados às suas encarnações, influenciando decisões conscientes qual como costuma ocorrer nas sugestões post-hipnóticas. É mais ou menos isso o que nos diz Ernesto Bozzano. Faz-se cumprir, assim, uma espécie de precognição subconsciente. Seria então um determinismo de consequências, em função do livre-arbítrio; a cada causa correspondendo um efeito correlato. A causa está no arbítrio. Mas, se a criatura soubesse de tudo com maior clareza, se pudesse recordar fielmente o passado, é o que pensa Red Cloud, citado por Karl Muller, seria como o aluno que conhecesse as questões de um exame com antecedência...

Em "O Livro dos Espíritos " lemos, questão 393, que "a cada nova existência o homem pode distinguir de melhor forma o bem do mal. E quando entra na vida espiritual vê as faltas cometidas e o que poderia ter feito ao invés de cometê-las...". E Kardec acrescenta: "Se não temos durante a vida corpórea uma lembrança precisa daquilo que fomos, e do que fizemos de bem ou de mal, temos entretanto a sua intuição. Nossas tendências instintivas são uma reminiscência de nosso passado...". E diz, mais: "Se tivéssemos a lembrança de nossos atos pessoais anteriores, teríamos a dos atos alheios, e esse conhecimento poderia ter desagradáveis consequências sobre nossas relações sociais". Insiste o Codificador: "O esquecimento das faltas cometidas não constitui obstáculo à melhoria do Espírito, podendo guiar-se pela intuição no esforço de resistir ao mal, secundada pelos Espíritos que o assistem, se ele atende às boas inspirações." Quer dizer isso: Basta que estude a si mesmo, de boa vontade, e poderá saber não exatamente quem foi, como se chamou, mas o que foi, o que fez, não bem pelo posicionamento que hoje desfruta na sociedade, mas por suas tendências naturais e pelo esforço maior ou menor desenvolvido para melhorar-se. São evidências essas para o bom entendedor. [...]

Na obra "O Problema do Ser do Destino e da Dor", Leon Denis esclarece a razão fisiológica do esquecimento: "O movimento vibratório perispirítico amortecido pela matéria no decurso da vida atual é excessivamente fraco para que o grau de intensidade e a duração necessária à renovação dessas recordações possam ser obtidas durante a vigília". E explica mais: "O despertar da memória não é mais do que um efeito de vibração produzido pela ação da vontade nas células cerebrais. Para as anteriores ao nascimento é necessário procurá-las na consciência profunda, mas para reaver o fio das lembranças é preciso que a alma saia; é assim no sonambulismo e no transe". Está explicado aí porque a estrutura de apoio é o perispírito e porque essa rememoração é dita extracerebral. Gabriel Delanne diz que nem todos os pacientes estão aptos a fazer nascer na memória o seu passado. E a explicação é praticamente a mesma: "Isso se deve a causas múltiplas e a principal resulta, ao que parece, do que se poderia chamar a densidade espiritual, isto é, a imperfeição relativa desse campo fluídico, cujas vibrações pode não se ajustarem à intensidade necessária para ressuscitar o passado de maneira suficiente, mesmo com o estímulo artificial do magnetismo". Prossegue: "Acontece, por vezes, entretanto, que a alma, exteriorizada temporariamente, encontra, por momentos, condições favoráveis para que esse renascimento do passado possa produzir-se".

[...] A lei da Causalidade virá impor predisposições e condições. Ajustar-se-ão condições que não serão em absoluto fortuitas. Mas a redução do movimento vibratório do perispírito, enquanto se impregna de fluido vital indispensável à vida que ressurge no plano físico, vai restringir a memória psíquica, diluir a consciência, em cumprimento de leis amorosas, e porque nada haveria de perder-se, arquivar-se-á todo o acervo de lembranças na faixa que lhe é própria, a faixa perispiritual, expressa na linguagem oficial por subconsciente ou por inconsciente, o ld de Freud.

Não é, pois, de estranhar, dizemos agora, que inesperadamente um fato que nos chame a atenção, uma paisagem visualizada, uma melodia que nos enterneça, algo que funcione como despertamento, valendo por sugestão espontânea, desdobrando-se por associação de ideias, nos afaste da realidade vígil e nos leve a consciência a projetar-se a regiões profundas do ser, à subconsciência, onde vigem as lembranças. Isso é comum também nos sonhos lúcidos. Sempre que uma causa acarrete estado vibratório já produzido, criando uma espécie de ressonância, as lembranças com toda a probabilidade reaparecerão, ou tímida ou nitidamente. Ora, isso mesmo acontece, muitas vezes, com relação à vida atual. Questão de aprofundamento maior ou menor, resultando numa viagem ao passado atual ou ao passado remoto - sempre o mesmo mecanismo. Neste último caso, trazido do extracerebral para o registro memorial do cérebro físico, eis caracterizadas as reminiscências.

Notará o leitor que - não há como fugir - tratar do esquecimento nos forçará invariavelmente a tratar das lembranças.

Há um ditado popular que diz: "A gente nunca se esquece de quem se esquece da gente...". É o contraste, o paradoxo. Assim, para provar que por vezes - nem sempre - nos lembramos, torna-se necessário estudar conjuntamente por que razão, tão de hábito, nos esquecemos.


Alberto Souza Rocha



Fonte: do livro "Reencarnação em Foco", Casa Editora O Clarim, Matão, SP
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

quinta-feira, 9 de julho de 2020

OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA


De acordo com o Vedanta, existem sete estados de consciência, porém muitos deles não foram totalmente investigados pelos pesquisadores modernos da área médica. Na verdade, alguns desses estados não são nem mesmo reconhecidos pela ciência tradicional.

Na Índia, um dos maiores videntes do século XX, Sri Aurobindo, disse que por nos encontrarmos em um estágio muito primitivo da evolução humana, a maioria das pessoas só experimenta os três primeiros estados de consciência: o sono, o sonho e o estado desperto. Um dia reconheceremos e compreenderemos os estados mais expandidos de consciência, e quando o fizermos, conceitos como o sincronismo, a telepatia, a clarividência e o conhecimento das vidas passadas serão habitualmente aceitos.

Cada um dos sete estados de consciência representa um aumento na nossa experiência de sincronismo e cada estado progressivo nos leva para mais perto do ideal da iluminação. Todo mundo experimenta os três primeiros. Lamentavelmente, a maioria das pessoas nunca ultrapassa esses três estados básicos.

O primeiro nível de consciência é o sono profundo. Nele, ainda percebemos alguma coisa, ou seja, reagimos a estímulos como o som, a luz intensa e o toque, mas quase todos os nossos sentidos estão embotados e existe muito pouca cognição ou percepção.

O segundo estado de consciência é o sonho. Durante os sonhos, estamos um pouco mais despertos e alertas do que durante o sono profundo. Quando sonhamos, temos experiências. Vemos imagens, ouvimos sons. Até mesmo pensamos nos sonhos. Enquanto estamos sonhando, o mundo dos sonhos parece real, importante e relevante. Somente depois que acordamos é que reconhecemos o sonho como uma realidade que estava restrita àquele momento particular em que estávamos sonhando, realidade essa que talvez não seja diretamente relevante para a nossa vida quando estamos acordados.

O terceiro estado de consciência é o estado desperto. Esse é o estado no qual quase todos passamos a maior parte do tempo. Quando comparamos a atividade cerebral mensurável durante o estado de consciência desperto constatamos que ela é bem diferente da que tem lugar durante o sono profundo e o sonho.

O quarto estado de consciência ocorre quando efetivamente vislumbramos a alma, quando transcendemos, quando ficamos, mesmo que pela fração de um momento, absolutamente imóveis e quietos, e nos conscientizamos do observador que existe dentro de nós. Esse estado de consciência ocorre durante a meditação, quando experimentamos a interrupção, o momento tranquilo entre os pensamentos. As pessoas que praticam regularmente a meditação têm essa experiência sempre que meditam e, como resultado, o estado do eu delas se expande. O quarto estado de consciência também produz os seus próprios efeitos fisiológicos. Os níveis de cortisol e adrenalina aumentam. O estresse se reduz. A pressão sanguínea cai e a função imunológica apresenta uma melhora. Os pesquisadores do cérebro demonstraram que quando experimentamos o intervalo entre os pensamentos, a atividade cerebral é muito diferente da que tem lugar quando estamos meramente acordados e alertas. Isso significa que vislumbrar a alma produz mudanças fisiológicas tanto no cérebro quanto no corpo. Nesse quarto estado de consciência, assim como podemos vislumbrar a alma, também podemos entrever os primórdios do sincronismo.

O quinto estado de consciência é chamado de consciência cósmica. Nesse estado, o espírito pode observar o corpo material. A percepção vai além de simplesmente estar desperta no corpo, além de simplesmente vislumbrar a alma, para estar desperta e alerta com relação ao nosso lugar como parte do espírito infinito. Mesmo quando o corpo está dormindo, o espírito - o observador silencioso - está contemplando o corpo no seu sono profundo, quase como se estivéssemos tendo uma experiência fora do corpo. Quando isso acontece, há uma percepção alerta que tudo vê, não apenas quando estamos dormindo e sonhando, mas também quando estamos completamente despertos. O espírito está observando e nós somos o espírito. O observador pode observar o corpo enquanto este está sonhando e ao mesmo tempo espreitar o sonho. A mesma experiência ocorre na consciência desperta. O corpo pode estar jogando uma partida de tênis, falando ao telefone ou assistindo à televisão. O tempo todo o espírito está observando o corpo/mente nessas atividades.

O quinto estágio é chamado de consciência cósmica porque nossa percepção encerra simultaneamente duas qualidades: a local e a não-local. Nesse estado, quando sentimos uma conexão com a inteligência não-local, o sincronismo realmente começa a se manifestar. Compreendemos que uma parte de nós está localizada e outra parte, por ser não-local, está ligada a todas as coisas. Vivemos plenamente nossa inseparabilidade com relação a tudo o que existe. A intuição se desenvolve. O discernimento aumenta. As pesquisas demonstram que depois que as pessoas alcançam um estado de consciência cósmica e têm essa experiência de tudo testemunhar, suas ondas cerebrais passam a possuir a qualidade da meditação mesmo quando estão envolvidas em alguma atividade. Essas pessoas podem estar jogando futebol, mas as suas ondas cerebrais são idênticas às de uma pessoa que esteja meditando.

O sexto estado de consciência é chamado de consciência divina. Nesse estado, a testemunha se torna cada vez mais desperta. Na consciência divina, não apenas sentimos a presença do espírito em nós, como também começamos a sentir esse mesmo espírito em todos os outros seres. Vemos a presença do espírito nas plantas. Finalmente sentimos a presença do espírito nas pedras. Reconhecemos que a força revigorante da vida se expressa em todos os objetos do universo tanto no observador quanto no que é observado, no que vê e no cenário. Essa consciência divina nos permite enxergar a presença de Deus em todas as coisas. As pessoas em um estado de consciência divina são até mesmo capazes de se comunicar com os animais e as plantas. Esse não é um estado de consciência constante no caso da maioria dos seres humanos. Entramos e saímos dele. No entanto, todos os grandes profetas e videntes, inclusive Jesus Cristo, Buda, muitos iogues e um grande número de santos, viveram na consciência divina.

O sétimo e último estágio de consciência, a meta suprema, é chamado de consciência unitária. Ela também pode ser denominada iluminação. Na consciência unitária, o espírito naquele que percebe e o espírito no que é percebido se fundem e se tornam um só. Quando isso acontece, vemos o mundo inteiro como uma extensão do nosso ser. Não apenas nos identificamos com a nossa consciência pessoal, como também compreendemos que o mundo é uma projeção do nosso eu. O eu pessoal se transforma completamente no eu universal. Nesse estágio, os milagres são lugar-comum, mas não são nem mesmo necessários porque a esfera infinita de possibilidades está disponível a cada momento. Transcendemos a vida. Transcendemos a morte. Somos o espírito que sempre existiu e sempre existirá.


Dr. Deepak Chopra



Fonte: do livro "A Realização Espontânea do Desejo", Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
Tradução de Claudia Gerpe Duarte.
Fonte da Gravura: Tumblr.com

domingo, 5 de julho de 2020

INTEGRIDADE E SIGNIFICADO DA VIDA


Muitas vezes temos a impressão de que nos apressamos muito em passar pela vida, mesmo enquanto ainda haja em nosso coração a chama essencial do ser. Nossa pressa, muitas vezes, a leva ao ponto de se extinguir. Porém, quando nos sentamos para meditar, na simplicidade e na imobilidade, a chama começa a queimar de maneira firme e brilhante. Ao abandonarmos o processo de pensar em termos de sucesso e auto-importância, a luz da chama nos ajuda a nos entendermos e também aos outros em termos de luz, de calor e de amor.

O mantra nos conduz ao ponto da imobilidade no qual a chama do ser pode queimar com brilho. Nos ensina aquilo que sabemos mas, frequentemente, esquecemos de que não podemos viver uma vida plena a menos que ela esteja estabelecida em algum propósito subjacente. A vida possui um significado e um valor supremos que só são descobertos na firme imobilidade do ser que é nossa ligação essencial com Deus. É terrivelmente fácil permitirmos que a vida se torne uma mera rotina. Os papeis que representamos podem facilmente tomar o lugar do ser. Caímos facilmente na representação dos papeis de estudantes, de mães, de maridos, de gerentes, de monges e assim por diante... Jesus veio ao mundo para nos dizer que a vida nada tem a ver com a representação de papeis ou com o fato de ser um funcionário dentro de algum sistema. A vida tem a ver com o significado e o propósito que sentimos na profundidade do nosso mais imóvel ser. Nosso valor surge a partir de quem nós somos em nós mesmos e não a partir do que fazemos como um personagem de nós mesmos.

O significado supremo de Deus não surge daquilo que a sociedade nos diz que somos, isso significaria “preferirmos a aprovação humana à aprovação de Deus”, tal como nos disse Jesus... Cada um de nós... deve descobrir a verdade fundamental acerca de si mesmo. Ligados a Deus, devemos estar abertos ao amor que nos redime da ilusão e da superficialidade. Devemos viver a partir dessa sacralidade infinita e pessoal que temos como um templo do Espírito Santo. Descobrindo que o mesmo Espírito que criou o universo habita nossos corações e, em silêncio, é amor para todos é o propósito de toda vida.


Dom John Main, OSB



Fonte: "Integridade" - Leitura de 18/05/2008 - Word Made Flesh (London: DLT, 1993) pp. 55-56.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

POR QUE A NOSSA DESMEDIDA PREOCUPAÇÃO COM O DESTINO?


Os preocupados vivem entorpecidos no hoje por quererem controlar, com seus pensamentos e com sua imaginação, os fatos do amanhã.

As tarefas evolutivas executadas por nós na Terra fazem parte de um processo dinâmico que levará nossas almas ainda por inúmeras encarnações. A Vida não tem outro objetivo senão o de doação, de proteção e de recursos, para que possamos atingir uma estabilidade íntima que nos assegure a clareza e a serenidade mental, elementos imprescindíveis que nos facilitarão o progresso espiritual.

Se acreditamos, porém, que nossa felicidade ou infelicidade venha de coisas externas, do acaso ou das mãos de outras pessoas, estaremos dificultando nosso crescimento e amadurecimento interior.

A criatura que atingiu a lucidez espiritual já adquiriu a capacidade de compreender a eficiência com que a Natureza age em todos nós. Ela se conduz no cotidiano pacificada e serena, pois percebeu que está constantemente ganhando recursos da Vida Excelsa, mesmo quando atravessa o que consideramos “transtornos existenciais”. Ao mesmo tempo, aprendeu que, por mais que se preocupe, a reunião de todas essas preocupações não poderá mudar coisa alguma em sua vida.

“... O Espírito na escolha das provas que queira sofrer (...) escolhe, de acordo com a natureza de suas faltas, as que o levem à expiação destas e a progredir mais depressa.” (Questão 264 de O Livro dos Espíritos)

A Providência Divina agindo em nós faz com que saibamos exatamente o que precisamos escolher para nosso aprimoramento interior. Para que a consciência da criatura tenha uma boa absorção ou uma sensível abertura para o aprendizado é preciso que adquira senso e raciocínio, noção e atributos, todos extraídos das suas provas e expiações, ou seja, das diversas experiências vivenciais.

Ainda encontramos nesta questão: “uns impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações (...) outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder (...) muitos, finalmente, se decidem a experimentar suas forças nas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.”

Por que então a nossa desmedida preocupação com o destino dos outros? Por que tentamos forçar as coisas para que aconteçam? As almas estão vivenciando o útil e o necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades naturais e divinas. Podemos orientar, amar, apoiar, ajudar, mas jamais achar que sabemos melhor como as coisas devem ser e como as criaturas devem se comportar.

No entanto, é importante não confundirmos preocupação com prudência ou cautela. A previdência e o planejamento, para que possamos atingir um futuro promissor, são desejos naturais dos homens de bom senso.

Na realidade, preocupação quer dizer aflição e imobilização do presente por causa de um suposto fato que poderá acontecer, ou ainda uma suspeita de que uma decisão poderá causar ruína ou perda.

A preocupação excessiva com fatos em geral e com o bem-estar das pessoas está alicerçada, em muitas ocasiões, em um mecanismo psicológico chamado “autodistração”.

Os preocupados têm dificuldade de concentração no momento presente e, por isso, fazem com que a consciência se desvie do foco da experiência para a periferia, isto é, vivem entorpecidos no hoje por quererem controlar, com seus pensamentos e com sua imaginação, os fatos do amanhã.

Esse desvio da atenção é uma busca deliberada de distração do indivíduo; é uma forma de impedir a si próprio de ver o que precisa perceber em seu mundo interior.

Quando dizemos que nos preocupamos com os outros, quase sempre estamos nos abstraindo:

— das atitudes que não temos coragem de tomar;
— das responsabilidades que não queremos assumir;
— das carências afetivas que negamos a nós mesmos;
— dos atos incoerentes que praticamos e não admitimos;
— dos bloqueios mentais que possuímos e não aceitamos.

Deslocamos todos os nossos esforços, atenção e potencialidades para socorrer, proteger, salvar, convencer e aconselhar nossos “companheiros de viagem”, olvidando muitas vezes, propositadamente ou não, nossa primeira e mais importante tarefa na Terra: a nossa transformação interior.

É incontestável que a preocupação jamais nos preservará das angústias do amanhã, apenas colocará obstáculos às nossas realizações do presente.

Não devemos nem podemos forçar mudanças de atitudes nas pessoas. Em realidade, só podemos modificar a nós mesmos. Nosso livre-arbítrio nos confere possibilidades de uso particular com o fim específico de retificarmo-nos, porém não nos dá o direito de querer modificar os outros. 

Acreditamos, ainda assim, que temos o poder de exigir que os outros pensem como nós e que podemos interferir nas manifestações dos adultos que nos cercam. Por mais queridos que nos sejam, não nos é lícito dissuadi-los de suas decisões e posturas de vida.

Cada um se expressa perante a existência como pode. Assim, suas criações, desejos, metas e objetivos são coerentes com seu grau evolutivo. Qualquer tipo de coação em um modo de ser é profundo desrespeito.

Confiemos na Paternidade Universal que rege a todos, visto que preocupação, em síntese, é desconfiança nas Leis da Vida. Não nos compete determinar ou dirigir as decisões alheias, nem mesmo temos o direito de convencer ninguém ou censurar as opções de vida de quem quer que seja.

Por que condenar os atos e as atitudes de alguém que o próprio “Criador do Universo” deixou livre para decidir? Por que sofrer ou preocupar-se com isso?

Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligirmos e tentarmos mudar o imutável?

Nossa percepção, hoje, nos esclarece sobre os fatos do ontem, talvez sobre acontecimentos da semana anterior ou, possivelmente, sobre eventos quase esquecidos de anos passados.

Tudo ocorre dentro de um perfeito sincronismo tempo/espaço. Não adianta nos preocuparmos com o nosso processo de aprendizado nem com o dos outros, pois, se alguém não está conseguindo caminhar convenientemente agora, é porque lhe falta algo a fazer, ou mesmo, coisas a aprender. No Universo, tudo obedece a um ritmo natural; as raízes de nossa evolução corporal/espiritual estão arraigadas nas íntimas relações com a Natureza. Em nível mais profundo, somos parte dela.

Vivenciamos conscientemente, a todo instante, os ciclos da Natureza com nossas emoções e sentimentos. Experimentamos desânimo e abatimento no transcurso de um longo período de estiagem; porém, quando a chuva cai, a nossa sensação é de alegria e prazer; ou, durante as tempestades, nossas impressões oscilam desde a apreensão até o medo. Sentimos a alma leve e feliz com o surgimento do sol, nos dias calmos e iluminados.

Há um tempo para tudo. Em verdade, os ritmos que nos governam são inerentes à vida. Também nós, os espíritos domiciliados ou não na Terra física, identificamos nossos ritmos internos através das sensações da dor e do prazer, a fim de avaliarmos o “grau de acerto” de nossos atos e decisões.

Dia e noite, primavera e inverno, amanhecer e entardecer são fases da Natureza, atuando diretamente nos ritmos de nossas ocupações e procedimentos do cotidiano.

Em verdade, a nossa identificação com a Vida Superior se plenifica quando harmonizamos nossos ritmos internos com os ritmos externos da Natureza.

Propõe o professor Rivail aos Nobres Emissários: “Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de perfeição?” E os Espíritos respondem à questão com sabedoria: “Não, dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do que outros.” (Questão 179 de O Livro dos Espíritos)

Os ritmos interiores dos indivíduos se prendem ao nível evolucional/espiritual de cada um, e toda a vida no Universo está dentro de uma ordem perfeita. Tanto os astros da abóbada celeste, como os seres microscópicos do nosso planeta, todos são regidos por uma Divina Ordem, que mantém trajetórias e órbitas perfeitamente alinhadas, como também os ritmos e os propósitos coerentes com o grau de necessidade e progresso das criaturas e das demais criações.

Embora os ritmos biológicos de uma pessoa difiram completamente dos ritmos de outros seres, podemos encontrar ritmos orgânicos semelhantes em membros de uma mesma espécie.

A ação de inspirar resulta com exata precisão em seu reverso, a ação de expirar. Esta sucessão ou alternância produz um ritmo. Quando suprimimos um deles, o outro também desaparecerá, pois se submetem mutuamente. Por que aquilo que nos parece tão evidente na respiração nos passa despercebido, ou mesmo sem análise alguma, nos outros campos do conhecimento humano?

(...) Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. Por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligimos e tentarmos mudar o imutável?

Como é importante caminhar, passo após passo, acompanhando nosso próprio “compasso existencial” e percebendo a hora propícia de mudança!

O dia de hoje nos fornecerá exatamente as oportunidades de que precisamos para compor com estrofes e versos harmônicos o “poema de nossa vida”, cuja métrica foi antecipadamente determinada por nós no ontem. Nossas experiências da vida não acontecem por acaso. O Planejamento Divino nada faz sem um desígnio proveitoso; tudo tem sua razão de ser. Não é preciso desespero, nem preocupação; tudo acontece como tem que acontecer.


Francisco do Espírito Santo / Hammed



Fonte: do livro (digital) "As Dores da Alma"
8ª ed., agosto/2000, Boa Nova - Editora e Distribuidora de livros espíritas
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/menina-tempo-press%C3%A3o-de-tempo-2786277/

segunda-feira, 29 de junho de 2020

DESEJO EGOÍSTA


A certeza do fundamentalista precisa ser sacrificada e todos necessitamos que nos seja permitido o questionamento radical. Nossa experiência com a morte da certeza também é morte do desejo, do desejo egoísta de estarmos certos, de estarmos a salvo, de sermos melhores que os outros. Essa morte é a nossa parte na cruz. O renascimento do desejo que se segue é o do desejo transformado que se projeta de um coração puro, na visão de Deus. Desejar a Deus não se parece a nenhum outro desejo que tenhamos conhecido. E, no entanto, “feliz é a pessoa cujo desejo por Deus tenha se tornado como a paixão da amante por seu amado” disse São João Clímaco. Não se exaure e não nos leva a explorar terceiros para poder satisfazê-lo. Ele tanto é desejar quanto estar livre do desejo, tal como se havia experimentado anteriormente. [...]

A meditação é purificação do coração e a morte do desejo. Assim como há um nascimento para cada morte, também há a regeneração do desejo como desejo por Deus. Isso nunca poderá ser um objeto de satisfação do ego. Porém, é claro, que é um desejo por nossa própria felicidade: não podemos nunca desejar ser infelizes. Desejar a Deus... é desejar nossa felicidade pela obediência à lei... do amor.

Essa lei afirma que o único tipo de desejo que nos fará verdadeira e permanentemente felizes é o desejo pela felicidade dos outros.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: Leitura de Domingo, 28 Junho 2020, extraído da Newsletter da WCCM Internacional, Inverno de 2000.
Via Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - http://www.wccm.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

ILUMINAÇÃO INTERNA


Ensinamentos espirituais não têm o fim de convencer outros de certas verdades; são antes uma iluminação de dentro, que esclarece coisas que até esse momento, embora presentes, se achavam ainda envoltas em trevas.

O ensinamento espiritual é o despertar da alma dormente para a grande alvorada da verdade sobre si mesma, “imagem e semelhança de Deus”.

E, como toda a alma, segundo Tertuliano, é “cristã por natureza”, é tarefa do guia espiritual atualizar o cristianismo potencial dentro da alma humana.

O guia espiritual é um jardineiro solícito que dá à sementinha um ambiente favorável e propício ao seu despertar, à evolução da sua vida latente.

Neste sentido, comparava-se o grande e humilde vidente Sócrates a uma parteira, que não dá vida à criança mas ajuda-a a passar da vida na escuridão do seio materno para a vida à claridade solar.


Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DESAPRENDER PARA ADQUIRIR O MODO CORRETO


O primeiro passo na vida interior, hoje em dia, não é, como imaginam alguns, aprender a não ver, a não provar, não ouvir, nem sentir as coisas.

Muito ao contrário, o que devemos fazer é começar a desaprender os nossos modos errados de ver, de provar, de sentir para adquirir uns tantos modos corretos.

(...) A minha alma não se descobre senão quando age.

Ela deve, pois, agir.

A estagnação e a inatividade trazem a morte espiritual.

Mas a minha alma não deve projetar-se inteiramente nos efeitos externos da sua atividade.

Não preciso ver-me a mim mesmo, eu só preciso ser quem sou.


Thomas Merton, OSB


Fonte: do livro "Homem algum é uma ilha"
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal