quinta-feira, 9 de julho de 2020

OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA


De acordo com o Vedanta, existem sete estados de consciência, porém muitos deles não foram totalmente investigados pelos pesquisadores modernos da área médica. Na verdade, alguns desses estados não são nem mesmo reconhecidos pela ciência tradicional.

Na Índia, um dos maiores videntes do século XX, Sri Aurobindo, disse que por nos encontrarmos em um estágio muito primitivo da evolução humana, a maioria das pessoas só experimenta os três primeiros estados de consciência: o sono, o sonho e o estado desperto. Um dia reconheceremos e compreenderemos os estados mais expandidos de consciência, e quando o fizermos, conceitos como o sincronismo, a telepatia, a clarividência e o conhecimento das vidas passadas serão habitualmente aceitos.

Cada um dos sete estados de consciência representa um aumento na nossa experiência de sincronismo e cada estado progressivo nos leva para mais perto do ideal da iluminação. Todo mundo experimenta os três primeiros. Lamentavelmente, a maioria das pessoas nunca ultrapassa esses três estados básicos.

O primeiro nível de consciência é o sono profundo. Nele, ainda percebemos alguma coisa, ou seja, reagimos a estímulos como o som, a luz intensa e o toque, mas quase todos os nossos sentidos estão embotados e existe muito pouca cognição ou percepção.

O segundo estado de consciência é o sonho. Durante os sonhos, estamos um pouco mais despertos e alertas do que durante o sono profundo. Quando sonhamos, temos experiências. Vemos imagens, ouvimos sons. Até mesmo pensamos nos sonhos. Enquanto estamos sonhando, o mundo dos sonhos parece real, importante e relevante. Somente depois que acordamos é que reconhecemos o sonho como uma realidade que estava restrita àquele momento particular em que estávamos sonhando, realidade essa que talvez não seja diretamente relevante para a nossa vida quando estamos acordados.

O terceiro estado de consciência é o estado desperto. Esse é o estado no qual quase todos passamos a maior parte do tempo. Quando comparamos a atividade cerebral mensurável durante o estado de consciência desperto constatamos que ela é bem diferente da que tem lugar durante o sono profundo e o sonho.

O quarto estado de consciência ocorre quando efetivamente vislumbramos a alma, quando transcendemos, quando ficamos, mesmo que pela fração de um momento, absolutamente imóveis e quietos, e nos conscientizamos do observador que existe dentro de nós. Esse estado de consciência ocorre durante a meditação, quando experimentamos a interrupção, o momento tranquilo entre os pensamentos. As pessoas que praticam regularmente a meditação têm essa experiência sempre que meditam e, como resultado, o estado do eu delas se expande. O quarto estado de consciência também produz os seus próprios efeitos fisiológicos. Os níveis de cortisol e adrenalina aumentam. O estresse se reduz. A pressão sanguínea cai e a função imunológica apresenta uma melhora. Os pesquisadores do cérebro demonstraram que quando experimentamos o intervalo entre os pensamentos, a atividade cerebral é muito diferente da que tem lugar quando estamos meramente acordados e alertas. Isso significa que vislumbrar a alma produz mudanças fisiológicas tanto no cérebro quanto no corpo. Nesse quarto estado de consciência, assim como podemos vislumbrar a alma, também podemos entrever os primórdios do sincronismo.

O quinto estado de consciência é chamado de consciência cósmica. Nesse estado, o espírito pode observar o corpo material. A percepção vai além de simplesmente estar desperta no corpo, além de simplesmente vislumbrar a alma, para estar desperta e alerta com relação ao nosso lugar como parte do espírito infinito. Mesmo quando o corpo está dormindo, o espírito - o observador silencioso - está contemplando o corpo no seu sono profundo, quase como se estivéssemos tendo uma experiência fora do corpo. Quando isso acontece, há uma percepção alerta que tudo vê, não apenas quando estamos dormindo e sonhando, mas também quando estamos completamente despertos. O espírito está observando e nós somos o espírito. O observador pode observar o corpo enquanto este está sonhando e ao mesmo tempo espreitar o sonho. A mesma experiência ocorre na consciência desperta. O corpo pode estar jogando uma partida de tênis, falando ao telefone ou assistindo à televisão. O tempo todo o espírito está observando o corpo/mente nessas atividades.

O quinto estágio é chamado de consciência cósmica porque nossa percepção encerra simultaneamente duas qualidades: a local e a não-local. Nesse estado, quando sentimos uma conexão com a inteligência não-local, o sincronismo realmente começa a se manifestar. Compreendemos que uma parte de nós está localizada e outra parte, por ser não-local, está ligada a todas as coisas. Vivemos plenamente nossa inseparabilidade com relação a tudo o que existe. A intuição se desenvolve. O discernimento aumenta. As pesquisas demonstram que depois que as pessoas alcançam um estado de consciência cósmica e têm essa experiência de tudo testemunhar, suas ondas cerebrais passam a possuir a qualidade da meditação mesmo quando estão envolvidas em alguma atividade. Essas pessoas podem estar jogando futebol, mas as suas ondas cerebrais são idênticas às de uma pessoa que esteja meditando.

O sexto estado de consciência é chamado de consciência divina. Nesse estado, a testemunha se torna cada vez mais desperta. Na consciência divina, não apenas sentimos a presença do espírito em nós, como também começamos a sentir esse mesmo espírito em todos os outros seres. Vemos a presença do espírito nas plantas. Finalmente sentimos a presença do espírito nas pedras. Reconhecemos que a força revigorante da vida se expressa em todos os objetos do universo tanto no observador quanto no que é observado, no que vê e no cenário. Essa consciência divina nos permite enxergar a presença de Deus em todas as coisas. As pessoas em um estado de consciência divina são até mesmo capazes de se comunicar com os animais e as plantas. Esse não é um estado de consciência constante no caso da maioria dos seres humanos. Entramos e saímos dele. No entanto, todos os grandes profetas e videntes, inclusive Jesus Cristo, Buda, muitos iogues e um grande número de santos, viveram na consciência divina.

O sétimo e último estágio de consciência, a meta suprema, é chamado de consciência unitária. Ela também pode ser denominada iluminação. Na consciência unitária, o espírito naquele que percebe e o espírito no que é percebido se fundem e se tornam um só. Quando isso acontece, vemos o mundo inteiro como uma extensão do nosso ser. Não apenas nos identificamos com a nossa consciência pessoal, como também compreendemos que o mundo é uma projeção do nosso eu. O eu pessoal se transforma completamente no eu universal. Nesse estágio, os milagres são lugar-comum, mas não são nem mesmo necessários porque a esfera infinita de possibilidades está disponível a cada momento. Transcendemos a vida. Transcendemos a morte. Somos o espírito que sempre existiu e sempre existirá.


Dr. Deepak Chopra



Fonte: do livro "A Realização Espontânea do Desejo", Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
Tradução de Claudia Gerpe Duarte.
Fonte da Gravura: Tumblr.com

domingo, 5 de julho de 2020

INTEGRIDADE E SIGNIFICADO DA VIDA


Muitas vezes temos a impressão de que nos apressamos muito em passar pela vida, mesmo enquanto ainda haja em nosso coração a chama essencial do ser. Nossa pressa, muitas vezes, a leva ao ponto de se extinguir. Porém, quando nos sentamos para meditar, na simplicidade e na imobilidade, a chama começa a queimar de maneira firme e brilhante. Ao abandonarmos o processo de pensar em termos de sucesso e auto-importância, a luz da chama nos ajuda a nos entendermos e também aos outros em termos de luz, de calor e de amor.

O mantra nos conduz ao ponto da imobilidade no qual a chama do ser pode queimar com brilho. Nos ensina aquilo que sabemos mas, frequentemente, esquecemos de que não podemos viver uma vida plena a menos que ela esteja estabelecida em algum propósito subjacente. A vida possui um significado e um valor supremos que só são descobertos na firme imobilidade do ser que é nossa ligação essencial com Deus. É terrivelmente fácil permitirmos que a vida se torne uma mera rotina. Os papeis que representamos podem facilmente tomar o lugar do ser. Caímos facilmente na representação dos papeis de estudantes, de mães, de maridos, de gerentes, de monges e assim por diante... Jesus veio ao mundo para nos dizer que a vida nada tem a ver com a representação de papeis ou com o fato de ser um funcionário dentro de algum sistema. A vida tem a ver com o significado e o propósito que sentimos na profundidade do nosso mais imóvel ser. Nosso valor surge a partir de quem nós somos em nós mesmos e não a partir do que fazemos como um personagem de nós mesmos.

O significado supremo de Deus não surge daquilo que a sociedade nos diz que somos, isso significaria “preferirmos a aprovação humana à aprovação de Deus”, tal como nos disse Jesus... Cada um de nós... deve descobrir a verdade fundamental acerca de si mesmo. Ligados a Deus, devemos estar abertos ao amor que nos redime da ilusão e da superficialidade. Devemos viver a partir dessa sacralidade infinita e pessoal que temos como um templo do Espírito Santo. Descobrindo que o mesmo Espírito que criou o universo habita nossos corações e, em silêncio, é amor para todos é o propósito de toda vida.


Dom John Main, OSB



Fonte: "Integridade" - Leitura de 18/05/2008 - Word Made Flesh (London: DLT, 1993) pp. 55-56.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

POR QUE A NOSSA DESMEDIDA PREOCUPAÇÃO COM O DESTINO?


Os preocupados vivem entorpecidos no hoje por quererem controlar, com seus pensamentos e com sua imaginação, os fatos do amanhã.

As tarefas evolutivas executadas por nós na Terra fazem parte de um processo dinâmico que levará nossas almas ainda por inúmeras encarnações. A Vida não tem outro objetivo senão o de doação, de proteção e de recursos, para que possamos atingir uma estabilidade íntima que nos assegure a clareza e a serenidade mental, elementos imprescindíveis que nos facilitarão o progresso espiritual.

Se acreditamos, porém, que nossa felicidade ou infelicidade venha de coisas externas, do acaso ou das mãos de outras pessoas, estaremos dificultando nosso crescimento e amadurecimento interior.

A criatura que atingiu a lucidez espiritual já adquiriu a capacidade de compreender a eficiência com que a Natureza age em todos nós. Ela se conduz no cotidiano pacificada e serena, pois percebeu que está constantemente ganhando recursos da Vida Excelsa, mesmo quando atravessa o que consideramos “transtornos existenciais”. Ao mesmo tempo, aprendeu que, por mais que se preocupe, a reunião de todas essas preocupações não poderá mudar coisa alguma em sua vida.

“... O Espírito na escolha das provas que queira sofrer (...) escolhe, de acordo com a natureza de suas faltas, as que o levem à expiação destas e a progredir mais depressa.” (Questão 264 de O Livro dos Espíritos)

A Providência Divina agindo em nós faz com que saibamos exatamente o que precisamos escolher para nosso aprimoramento interior. Para que a consciência da criatura tenha uma boa absorção ou uma sensível abertura para o aprendizado é preciso que adquira senso e raciocínio, noção e atributos, todos extraídos das suas provas e expiações, ou seja, das diversas experiências vivenciais.

Ainda encontramos nesta questão: “uns impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações (...) outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder (...) muitos, finalmente, se decidem a experimentar suas forças nas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.”

Por que então a nossa desmedida preocupação com o destino dos outros? Por que tentamos forçar as coisas para que aconteçam? As almas estão vivenciando o útil e o necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades naturais e divinas. Podemos orientar, amar, apoiar, ajudar, mas jamais achar que sabemos melhor como as coisas devem ser e como as criaturas devem se comportar.

No entanto, é importante não confundirmos preocupação com prudência ou cautela. A previdência e o planejamento, para que possamos atingir um futuro promissor, são desejos naturais dos homens de bom senso.

Na realidade, preocupação quer dizer aflição e imobilização do presente por causa de um suposto fato que poderá acontecer, ou ainda uma suspeita de que uma decisão poderá causar ruína ou perda.

A preocupação excessiva com fatos em geral e com o bem-estar das pessoas está alicerçada, em muitas ocasiões, em um mecanismo psicológico chamado “autodistração”.

Os preocupados têm dificuldade de concentração no momento presente e, por isso, fazem com que a consciência se desvie do foco da experiência para a periferia, isto é, vivem entorpecidos no hoje por quererem controlar, com seus pensamentos e com sua imaginação, os fatos do amanhã.

Esse desvio da atenção é uma busca deliberada de distração do indivíduo; é uma forma de impedir a si próprio de ver o que precisa perceber em seu mundo interior.

Quando dizemos que nos preocupamos com os outros, quase sempre estamos nos abstraindo:

— das atitudes que não temos coragem de tomar;
— das responsabilidades que não queremos assumir;
— das carências afetivas que negamos a nós mesmos;
— dos atos incoerentes que praticamos e não admitimos;
— dos bloqueios mentais que possuímos e não aceitamos.

Deslocamos todos os nossos esforços, atenção e potencialidades para socorrer, proteger, salvar, convencer e aconselhar nossos “companheiros de viagem”, olvidando muitas vezes, propositadamente ou não, nossa primeira e mais importante tarefa na Terra: a nossa transformação interior.

É incontestável que a preocupação jamais nos preservará das angústias do amanhã, apenas colocará obstáculos às nossas realizações do presente.

Não devemos nem podemos forçar mudanças de atitudes nas pessoas. Em realidade, só podemos modificar a nós mesmos. Nosso livre-arbítrio nos confere possibilidades de uso particular com o fim específico de retificarmo-nos, porém não nos dá o direito de querer modificar os outros. 

Acreditamos, ainda assim, que temos o poder de exigir que os outros pensem como nós e que podemos interferir nas manifestações dos adultos que nos cercam. Por mais queridos que nos sejam, não nos é lícito dissuadi-los de suas decisões e posturas de vida.

Cada um se expressa perante a existência como pode. Assim, suas criações, desejos, metas e objetivos são coerentes com seu grau evolutivo. Qualquer tipo de coação em um modo de ser é profundo desrespeito.

Confiemos na Paternidade Universal que rege a todos, visto que preocupação, em síntese, é desconfiança nas Leis da Vida. Não nos compete determinar ou dirigir as decisões alheias, nem mesmo temos o direito de convencer ninguém ou censurar as opções de vida de quem quer que seja.

Por que condenar os atos e as atitudes de alguém que o próprio “Criador do Universo” deixou livre para decidir? Por que sofrer ou preocupar-se com isso?

Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligirmos e tentarmos mudar o imutável?

Nossa percepção, hoje, nos esclarece sobre os fatos do ontem, talvez sobre acontecimentos da semana anterior ou, possivelmente, sobre eventos quase esquecidos de anos passados.

Tudo ocorre dentro de um perfeito sincronismo tempo/espaço. Não adianta nos preocuparmos com o nosso processo de aprendizado nem com o dos outros, pois, se alguém não está conseguindo caminhar convenientemente agora, é porque lhe falta algo a fazer, ou mesmo, coisas a aprender. No Universo, tudo obedece a um ritmo natural; as raízes de nossa evolução corporal/espiritual estão arraigadas nas íntimas relações com a Natureza. Em nível mais profundo, somos parte dela.

Vivenciamos conscientemente, a todo instante, os ciclos da Natureza com nossas emoções e sentimentos. Experimentamos desânimo e abatimento no transcurso de um longo período de estiagem; porém, quando a chuva cai, a nossa sensação é de alegria e prazer; ou, durante as tempestades, nossas impressões oscilam desde a apreensão até o medo. Sentimos a alma leve e feliz com o surgimento do sol, nos dias calmos e iluminados.

Há um tempo para tudo. Em verdade, os ritmos que nos governam são inerentes à vida. Também nós, os espíritos domiciliados ou não na Terra física, identificamos nossos ritmos internos através das sensações da dor e do prazer, a fim de avaliarmos o “grau de acerto” de nossos atos e decisões.

Dia e noite, primavera e inverno, amanhecer e entardecer são fases da Natureza, atuando diretamente nos ritmos de nossas ocupações e procedimentos do cotidiano.

Em verdade, a nossa identificação com a Vida Superior se plenifica quando harmonizamos nossos ritmos internos com os ritmos externos da Natureza.

Propõe o professor Rivail aos Nobres Emissários: “Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de perfeição?” E os Espíritos respondem à questão com sabedoria: “Não, dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do que outros.” (Questão 179 de O Livro dos Espíritos)

Os ritmos interiores dos indivíduos se prendem ao nível evolucional/espiritual de cada um, e toda a vida no Universo está dentro de uma ordem perfeita. Tanto os astros da abóbada celeste, como os seres microscópicos do nosso planeta, todos são regidos por uma Divina Ordem, que mantém trajetórias e órbitas perfeitamente alinhadas, como também os ritmos e os propósitos coerentes com o grau de necessidade e progresso das criaturas e das demais criações.

Embora os ritmos biológicos de uma pessoa difiram completamente dos ritmos de outros seres, podemos encontrar ritmos orgânicos semelhantes em membros de uma mesma espécie.

A ação de inspirar resulta com exata precisão em seu reverso, a ação de expirar. Esta sucessão ou alternância produz um ritmo. Quando suprimimos um deles, o outro também desaparecerá, pois se submetem mutuamente. Por que aquilo que nos parece tão evidente na respiração nos passa despercebido, ou mesmo sem análise alguma, nos outros campos do conhecimento humano?

(...) Toda vida em nós e fora de nós está em constante ritmicidade. Por que, então, desrespeitar os mecanismos de que se utilizam as leis divinas na evolução? Por que nos afligimos e tentarmos mudar o imutável?

Como é importante caminhar, passo após passo, acompanhando nosso próprio “compasso existencial” e percebendo a hora propícia de mudança!

O dia de hoje nos fornecerá exatamente as oportunidades de que precisamos para compor com estrofes e versos harmônicos o “poema de nossa vida”, cuja métrica foi antecipadamente determinada por nós no ontem. Nossas experiências da vida não acontecem por acaso. O Planejamento Divino nada faz sem um desígnio proveitoso; tudo tem sua razão de ser. Não é preciso desespero, nem preocupação; tudo acontece como tem que acontecer.


Francisco do Espírito Santo / Hammed



Fonte: do livro (digital) "As Dores da Alma"
8ª ed., agosto/2000, Boa Nova - Editora e Distribuidora de livros espíritas
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/menina-tempo-press%C3%A3o-de-tempo-2786277/

segunda-feira, 29 de junho de 2020

DESEJO EGOÍSTA


A certeza do fundamentalista precisa ser sacrificada e todos necessitamos que nos seja permitido o questionamento radical. Nossa experiência com a morte da certeza também é morte do desejo, do desejo egoísta de estarmos certos, de estarmos a salvo, de sermos melhores que os outros. Essa morte é a nossa parte na cruz. O renascimento do desejo que se segue é o do desejo transformado que se projeta de um coração puro, na visão de Deus. Desejar a Deus não se parece a nenhum outro desejo que tenhamos conhecido. E, no entanto, “feliz é a pessoa cujo desejo por Deus tenha se tornado como a paixão da amante por seu amado” disse São João Clímaco. Não se exaure e não nos leva a explorar terceiros para poder satisfazê-lo. Ele tanto é desejar quanto estar livre do desejo, tal como se havia experimentado anteriormente. [...]

A meditação é purificação do coração e a morte do desejo. Assim como há um nascimento para cada morte, também há a regeneração do desejo como desejo por Deus. Isso nunca poderá ser um objeto de satisfação do ego. Porém, é claro, que é um desejo por nossa própria felicidade: não podemos nunca desejar ser infelizes. Desejar a Deus... é desejar nossa felicidade pela obediência à lei... do amor.

Essa lei afirma que o único tipo de desejo que nos fará verdadeira e permanentemente felizes é o desejo pela felicidade dos outros.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: Leitura de Domingo, 28 Junho 2020, extraído da Newsletter da WCCM Internacional, Inverno de 2000.
Via Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - http://www.wccm.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

ILUMINAÇÃO INTERNA


Ensinamentos espirituais não têm o fim de convencer outros de certas verdades; são antes uma iluminação de dentro, que esclarece coisas que até esse momento, embora presentes, se achavam ainda envoltas em trevas.

O ensinamento espiritual é o despertar da alma dormente para a grande alvorada da verdade sobre si mesma, “imagem e semelhança de Deus”.

E, como toda a alma, segundo Tertuliano, é “cristã por natureza”, é tarefa do guia espiritual atualizar o cristianismo potencial dentro da alma humana.

O guia espiritual é um jardineiro solícito que dá à sementinha um ambiente favorável e propício ao seu despertar, à evolução da sua vida latente.

Neste sentido, comparava-se o grande e humilde vidente Sócrates a uma parteira, que não dá vida à criança mas ajuda-a a passar da vida na escuridão do seio materno para a vida à claridade solar.


Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DESAPRENDER PARA ADQUIRIR O MODO CORRETO


O primeiro passo na vida interior, hoje em dia, não é, como imaginam alguns, aprender a não ver, a não provar, não ouvir, nem sentir as coisas.

Muito ao contrário, o que devemos fazer é começar a desaprender os nossos modos errados de ver, de provar, de sentir para adquirir uns tantos modos corretos.

(...) A minha alma não se descobre senão quando age.

Ela deve, pois, agir.

A estagnação e a inatividade trazem a morte espiritual.

Mas a minha alma não deve projetar-se inteiramente nos efeitos externos da sua atividade.

Não preciso ver-me a mim mesmo, eu só preciso ser quem sou.

​
Thomas Merton, OSB


Fonte: do livro "Homem algum é uma ilha"
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

EGOÍSMO - O INIMIGO PARTICULAR E PÚBLICO


Considerando o alerta deixado pelos Espíritos amigos da codificação kardequiana, temos bem definido o nosso maior inimigo e maior entrave para nossa evolução — o egoísmo.

O egoísmo — chaga da Humanidade — tem que desaparecer da Terra, pois afasta o progresso moral. Ao Espiritismo está reservada a tarefa de fazê-la subir na hierarquia dos mundos. Com efeito, o egoísmo é o alvo para o qual todos os verdadeiros crentes devem apontar suas armas, dirigir suas forças e sua coragem. Digo coragem porque cada um necessita muito mais dela para vencer-se a si mesmo, do que para vencer os outros. Desse modo, que cada um empregue todos os esforços a combatê-lo em si, certo de que esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho é o causador de todas as misérias do mundo terreno. É a negação da caridade e, por conseguinte, o maior obstáculo à felicidade dos homens. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, A. Kardec, cap. XI, item 11)

O egoísmo é a ideia e atitude de colocar os próprios interesses acima de tudo o mais, acima dos direitos dos demais e das leis universais, justificando a si mesmo essa prerrogativa pela falsa razão de que na ordem natural das coisas seja cada um por si.

Os psicólogos em geral acreditam que esse sentimento seja natural e — num estágio temporário — até necessário para a formação da personalidade. Para o homem primitivo (na infância da trajetória espiritual), a descoberta intelectiva de si e das próprias necessidades (sobrevivência, proteção, saúde, bem-estar etc.) estimula o egocentrismo no sentido de que este acaba maturando a consciência do instinto bruto para o sentimento, começando pelo amor-próprio para então ser estendido ao amor fraternal a todos os semelhantes.

O biólogo britânico Richard Dawkinks defende a tese da naturalidade do egoísmo dentro do campo físico, no que sintetiza a evolução (processo de transformação genética) pela ação do que ele chama de "gene egoísta". Segundo o cientista, é justamente por ser essa ação egoística — buscando sempre o melhor para si — que o organismo humano se desenvolve.

O instinto egoísta é característico na criança que, naturalmente por não estar empossada das capacidades racionais suficientes para um julgamento, age assim muito por autodefesa ou interesse em si mesmo. E não fossem as necessidades e os riscos da vida, como se desenvolveriam o amor por si mesmo e o interesse em cuidar-se individualmente? Até aí, tudo bem.

Pode ocorrer, porém, de a pessoa — mesmo tendo já adquirido as capacidades racionais — recusar largar o egocentrismo, fantasiando uma vida infantil na tentativa de preservar aquelas regalias próprias das crianças.

O amor resume toda a doutrina de Jesus, visto que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso feito. Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, A. Kardec, cap. XI, item 8)

O conhecimento da verdade nos abre a porta para a libertação, porém, não necessariamente de pronto, porque, ao lado de reconhecer o bem e o mal, é preciso ter a decisão de conduzir-se para o autodescobrimento, quer dizer, para a perfeição espiritual. Eis por que não podemos associar inequivocamente o ser inteligente a um ser bom; sabedoria e caridade são duas potências distintas, quer dizer, como diria Emmanuel — mentor espiritual de Chico Xavier —, são duas asas, com as quais nos lançamos ao voo da evolução e da felicidade; esteja qualquer delas com o menor sinal de imperfeição, o voo fica defeituoso e a altura máxima inalcançável.

Portanto, é preciso uma combinação de razão e sentimento. A razão isoladamente é fria e carece do direcionamento das nossas emoções. Entretanto, se estas forem mais fortes e tendenciosas ao egocentrismo, podemos então negar verdades — mesmo as mais plausíveis — ou, por fraqueza moral, nos subjugarmos aos vícios carnais, ainda que muito cientes das consequências. Um exemplo clássico é o drama das dependências ao tabagismo, à bebida alcoólica e às drogas: quem hoje ousa negar os malefícios físicos e psíquicos dessas pragas? Ninguém, certo? Porém, não é sabido que dentre os seus dependentes haja homens dos mais letrados? Há surpresa se eu disser que haja médicos e biólogos (supostamente, os profissionais que melhor compreendem a gravidade desses vícios) decaídos nessas terríveis manias?

O que faz uma pessoa consciente (capaz de usar seus atributos intelectuais para julgar e tomar decisões) optar por uma trilha que ela já sabe ser errada, ou, melhor dizendo, deixar de seguir um caminho melhor para trilhar uma opção menos perfeita? — A resposta é simples: egoísmo, ou o desejo imediatista de satisfazer a um prazer carnal ou psicopatológico (inclusive pelo automatismo fisiológico).

A verdade é que, pelo estágio de progressão a que a nossa Humanidade terrena já alcançou, todos nós já temos ciência suficiente para discernir entre o bem e o mal, o que implica dizer que o egoísmo ainda tem sido conservado, fazendo vigorar a ilusão pelos bens temporários e ofuscando o tesouro espiritual.

A primeira grande consequência do egoísmo para o egoísta é a decepção. Por presumir ser sempre mais importante do que os demais e merecer sempre o melhor, o egoísta está a todo instante suscetível de se decepcionar e o tamanho da decepção é proporcional ao grau de egoísmo. No exagerado amor-próprio, dito orgulho, está o sentido dos correntes golpes de ser traído pelas superestimadas expectativas.

A presunção é menos fé do que orgulho, e o orgulho sempre é castigado, cedo ou tarde, pela decepção e pelos fracassos que lhe são infligidos. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, A. Kardec, cap. XIX, item 4)

No ato de se projetar sempre para os melhores postos o indivíduo priva a si mesmo de receber algo superior ao que ele próprio já espera. A surpresa que tiver será sempre negativa, de rebaixamento — e as surpresas acontecem. Do contrário, ao se projetar num patamar mais baixo, ele deixa um enorme
campo para ser bem surpreendido.

O pior de tudo é que a decepção dói demais porque ela nunca vem de fora, mas sim da comparação íntima, de onde os fatos põem o indivíduo e a distância do posto esperado. Como nem sempre é possível impor suas próprias vontades sobre os demais, vem a inevitável dor de verificar-se incapaz de sustentar seu egocentrismo. Quando o egoísta tem força física, financeira ou persuasão para fazer valer suas vontades e o faz, ele sofre duplamente, pois nessas condições, ainda que chegue ao topo e mostre para os demais que conseguiu o que queria, intimamente ele é sempre advertido pela sua consciência de que, além de tudo, ele está usurpando algo, ocupando um direito que não lhe pertence e infantilmente tenta ostentar. E poderá até convencer aos que estão ao redor de que é detentor do que usurpou, mas não tem como enganar a si mesmo. E o egoísmo faz sangrar por dentro, porque também isola o pseudo vencedor à cruciante desgraça da solidão.

Eis o grande confronto de todos os andarilhos nessa estrada evolutiva: superar a si mesmo vencendo o egoísmo.


Louis Neilmoris



Fonte: do livro "O Grande Encontro Filosófico - Autodescobrimento Aplicado"
Ed. Luz Espírita, abril de 2014, digital - www.luzespirita.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

terça-feira, 23 de junho de 2020

A VERDADE NÃO EXISTE NOS OPOSTOS


A verdade não existe nos opostos. Os opostos são apenas o jogo recíproco de relações.

Vosso incessante esforço para vos ajustardes entre os opostos é a causa do conflito, porém a libertação é a liberdade dos opostos.

A luta e a aflição vêm à existência quando o “eu”, pela emoção, pelo pensamento, cria a divisão dos opostos. A plenitude existe em todos, posto que esteja colhida pelo vosso eu-consciência, por vós mesmos criado. Na liberdade do eu-consciência está a realização da plenitude. Enquanto o eu-consciência, isto é, o ego existir, tem de haver esforço e por conseguinte tristeza.

Quando estiverdes libertos dos opostos, dos extremos, a harmonia virá à existência. Isto é libertação. Isto é consumação da sabedoria; porém não podereis realizar isto, se houver um único pensamento do “meu” e do “teu”, isto é, do “eu”, que é separatividade.

Na realidade, na verdade, na vida não há nem separação nem unidade. A verdade é completa. Nela todos os opostos cessam de existir. A plenitude não tem aspectos, nem divisões, nem opostos. É a essa plenitude que eu denomino perfeição e que existe a todos os instantes em todas as coisas, em todo o ser humano. Porém, em virtude de seu eu-consciência, o homem cria divisões entre a realidade e si próprio.

O “eu” pertence ao tempo, está sempre buscando orientação, pelos opostos, adquirindo qualidades, criando separatividades, conflitos, esforços.

Estais aprisionados ao conflito, e porque não podeis compreender esse conflito, desejais o oposto; repouso, paz, que é um conceito intelectual. Nesse desejo criastes uma máquina intelectual e essa máquina intelectual é a religião. Ela está inteiramente divorciada de vossos sentimentos, de vossa vida diária e é, por isso, simplesmente uma coisa artificial. Essa máquina intelectual pode ser também a sociedade, criada intelectualmente, uma máquina da qual vos tornastes escravos, e pela qual sereis desapiedadamente esmagados. Criastes essas máquinas, porque estais em conflito, porque através do medo e da ansiedade, sois arrastados para o oposto naquele conflito, porque estais buscando repouso, satisfação.

O desejo do oposto cria o medo e desse medo surge a imitação.

Assim, inventais conceitos intelectuais, tais como as religiões, com suas crenças e padrões, a sua autoridade e disciplina, os seus salvadores e mestres, para conduzir-vos a o que desejais, que é o conforto, a segurança, a satisfação, a fuga desse constante conflito.

Se fordes timoratos (medrosos, temerosos), buscais coragem, porém o medo vos perseguirá ainda, pois que somente estareis escapando de um oposto para o outro. Ao passo que, se vos libertardes da causa do temor, que é o desejo, então não conhecereis, quer a coragem, quer o temor, e a maneira de operar isto, é tornar-se acautelado, vigilante, e não buscar alcançar coragem, porém libertar-se dos motivos na ação.

Este processo, de desenvolver a coragem é realmente, uma evasão ao medo; se, porém, discernirdes a causa do medo, este naturalmente, cessará. Por que não sois capazes de discernir diretamente? — Porque, se houver percepção direta, tem de haver ação e, para evitar a ação, desenvolveis o oposto, estabelecendo-se assim uma série de fugas sutis.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Medo", 2a. ed., 1948
Instituição Cultural Krishnamurti, RJ
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

LIBERDADE EXIGE CONSCIÊNCIA


A consciência é a alma da liberdade, os seus olhos, a sua energia, a sua vida. Sem consciência, a liberdade não sabe jamais o que fazer de si mesma. E um ente racional que não sabe o que fazer consigo, acha insuportável o tédio da vida. Ele está, literalmente, morrendo de fastio. Assim como o amor não encontra a sua plenitude simplesmente em amar às cegas, também a liberdade definha quando se reduz a 'agir às soltas', sem qualquer finalidade. Um ato sem intenção priva-se de alguma coisa da perfeição da liberdade, porque liberdade é mais do que uma questão de preferência indeterminada, ao acaso. Não basta, para afirmar a minha liberdade, escolher 'qualquer coisa'. Preciso usar e desenvolver a minha liberdade através da escolha de qualquer coisa de 'bom'.


Fr. Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Homem Algum é uma Ilha"
Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A NATUREZA DA ALMA


[...] Na vastidão do oceano, não existe nenhum ego. [...] Quando começamos a compreender a alma, o mar oferece uma maravilhosa analogia. Imagine o oceano em uma realidade não-local, o campo de infinitas possibilidades, o nível virtual da existência que sincroniza todas as coisas. Cada um de nós é como uma onda nesse oceano. Somos criados a partir dela e ela forma a essência de quem somos. Assim como a onda assume uma forma específica, nós também ostentamos padrões intricados da realidade não-local. Esse vasto e infinito oceano de possibilidade é a essência de todas as coisas no mundo físico. O oceano representa o não-local, e a onda, o local. Os dois estão intimamente conectados.

Tão logo definimos a alma como sendo oriunda da esfera não-local, ou virtual, nosso lugar no universo torna-se extraordinariamente claro. Somos ao mesmo tempo locais e não-locais, um padrão individual emergindo da inteligência não-local, que também é parte de todos e de tudo. Por conseguinte, podemos pensar na alma como tendo duas partes. A alma vasta, não-local, existe como o nível virtual ou do espírito. Ela é poderosa, pura e capaz de qualquer coisa. A parte pessoal, local, da alma existe no nível quântico. É ela que alcança a vida do dia-a-dia e sustenta a essência de quem somos. Ela também é poderosa, pura e capaz de qualquer coisa. O mesmo potencial ilimitado do espírito infinito também reside em cada um de nós. A alma pessoal, que nos vem à cabeça quando pensamos no nosso "eu", é uma emanação da alma eterna.

Se conseguíssemos aprender a viver a partir do nível da alma, veríamos que a nossa parte melhor e mais luminosa está conectada a todos os ritmos do universo. Verdadeiramente nos conheceríamos como os fazedores de milagres que somos capazes de ser. Ficaríamos livres do medo, do anseio, do ódio, da ansiedade e da hesitação. Viver a partir do nível da alma significa deixar para trás o ego, as limitações da mente que nos atrelam aos eventos e resultados do mundo físico.

Não existe nenhum "eu" individual clamando por atenção na vastidão do oceano. Existem ondas, contracorrentes e marés, mas no final, tudo é o oceano. Todos somos padrões de não-localidade fingindo ser pessoas. No fim, tudo é espírito. No entanto, todos nos sentimos muito individuais, não é mesmo? Os nossos sentidos nos garantem que nosso corpo é real, e temos pensamentos muito pessoais e individuais. Aprendemos coisas, nos apaixonamos, temos filhos e trabalhamos na nossa profissão. Por que não sentimos esse vasto oceano revolvendo dentro de nós? Por que nossa vida parece tão limitada? Tudo volta aos três níveis da existência.

No nível físico, que chamamos de mundo real, a alma é o observador no meio da observação. Sempre que observamos alguma coisa, três componentes estão envolvidos. O primeiro, que ocorre no mundo físico, é o objeto de observação. O segundo, que tem lugar no nível da mente, é o processo de observar. O terceiro componente da observação é o observador efetivo, que chamamos alma.

Vamos examinar um simples exemplo dos três componentes da observação. [...] Um animal peludo, de quatro pernas, torna-se o objeto da sua observação. A seguir, seus olhos recebem a imagem do objeto e transmitem o sinal para a sua mente, que interpreta o objeto como sendo um cachorro. Mas quem está observando o cachorro? Volte a percepção para o interior e você se tornará consciente de uma presença dentro de você. Essa presença é a sua alma, a extensão da vasta inteligência não-local que está se manifestando em você. Desse modo, a mente está envolvida no processo do conhecimento, mas a alma é aquela que conhece.

Essa presença, essa percepção consciente, essa alma, a que conhece, é imutável. Ela é o ponto imóvel de referência no meio do cenário em transformação do mundo físico. Todos possuímos uma alma, mas como cada um de nós observa as coisas a partir de um lugar diferente e de um conjunto distinto de experiências, não as observamos exatamente da mesma maneira. As variações no que observamos se baseiam nas interpretações da nossa mente. [...] Nossas mentes interpretam a observação de modos diferentes. A interpretação acontece no nível mental, mas é a nossa alma individual que está condicionada pela experiência, e através dessa memória da experiência passada a alma influencia nossas escolhas e a maneira como interpretamos a vida.

Essas minúsculas sementes de memória se amontoam na alma individual ao longo de uma vida e essa combinação de memória e imaginação baseada na experiência se chama carma. O carma se acumula na parte pessoal da alma, a onda na essência do nosso ser, e a colore. Essa alma pessoal governa a consciência e fornece um gabarito para o tipo de pessoa que cada um de nós virá a ser. Além disso, as ações que praticamos podem afetar essa alma pessoal e modificar nosso carma, para melhor ou pior.

A parte universal, não-local da alma não é afetada por essas ações, estando conectada a um espírito que é puro e imutável. Na verdade, a definição de iluminação é "o reconhecimento de que sou um ser infinito que vejo e sou visto a partir de um ponto de vista particular e localizado, observo e sou observado a partir de uma perspectiva localizada". Não importa o que mais possamos ser, independentemente da confusão que possamos ter feito na vida, sempre é possível entrar em contato com a parte da alma que é universal, o campo infinito de puro potencial, e modificar o curso do nosso destino. Isso é o sincrodestino, ou seja, tirar vantagem dessa conexão entre a alma pessoal e a alma universal para moldar a nossa vida. Desse modo, as sementes de memória construídas pela experiência, o carma, ajudam a determinar quem somos. Mas outras coisas além do carma moldam a individualidade da alma pessoal; os relacionamentos também desempenham um papel importante na construção da alma.

[...] Se nosso corpo é terra reciclada, nossas emoções são energia reciclada e os nossos pensamentos são informação reciclada, o que torna você um indivíduo? E a sua personalidade? Bem, a personalidade tampouco tem origem em nós. Ela é criada através da identificação seletiva com situações e por meio dos relacionamentos. Pense em um amigo íntimo. Como você o define? Quase todos fazemos isso descrevendo as pessoas na vida delas - o cônjuge, os filhos, os pais, os colegas de trabalho. Também as descrevemos no contexto das situações da vida delas, o tipo de trabalho que fazem, onde moram, como se divertem. Aquilo que chamamos de personalidade é construído em uma base de relacionamentos e situações.

Podemos então agora perguntar: se o meu corpo, meus pensamentos, emoções e personalidade não são originais ou criados por mim, quem sou eu na realidade? De acordo com muitas das grandes tradições espirituais, uma das grandes verdades é que "eu sou o outro". Sem o outro, não existiríamos. Sua alma é o reflexo de todas as almas. Imagine-se tentando compreender a complexa rede de interações pessoais que o tornaram quem você é hoje.

[...] Você é o infinito, visto a partir de um ponto de vista localizado. A sua alma é a parte de você que é simultaneamente universal e individual, e ela é um reflexo de todas as'outras almas. Por conseguinte, definir a alma dessa maneira significa compreender que sua alma é ao mesmo tempo pessoal e universal, que ela encerra um significado e implicações que estão além da sua experiência pessoal de vida. A alma é o observador que interpreta e faz escolhas em uma confluência de relacionamentos. Esses relacionamentos fornecem as circunstâncias, o cenário, os personagens e os eventos que moldam as histórias da nossa vida.

Assim como a alma é criada através dos relacionamentos e é um reflexo de todos eles, a experiência da vida é formada a partir do contexto e do significado. Ao mencionar o contexto estou me referindo a todas as coisas à nossa volta que nos permitem entender o significado de ações, palavras e ocorrências individuais, ou qualquer outra coisa.

[...] Finalmente, chegamos a uma definição mais completa da alma. A alma é o observador que interpreta e faz escolhas baseadas no carma; ela também é uma confluência de relacionamentos, dos quais emergem contextos e significado, e é esse fluxo de contexto e significado que cria a experiência. Por conseguinte, é através da alma que criamos a nossa vida.

[...] Podemos agora aprimorar ainda mais a definição da alma. A alma é a confluência de significados, contextos, relacionamentos e histórias míticas ou temas arquetípicos que dão origem aos pensamentos, memórias e desejos do dia-a-dia (condicionados pelo carma) que criam as histórias das quais participamos.

No caso de quase todas as pessoas, essa participação nas histórias da nossa vida acontece automaticamente, sem que o percebamos de forma consciente. Vivemos como atores de uma peça que só recebem uma fala de cada vez, representando nosso papel sem entender a história toda. Mas quando você entra em contato com a sua alma, enxerga o roteiro inteiro do drama. Você compreende. Continua a tomar parte na história, mas agora participa alegre, completa e conscientemente. Você pode fazer escolhas baseadas no conhecimento e nascidas da liberdade. Cada momento adquire uma qualidade mais profunda oriunda do reconhecimento do que ele significa no contexto da sua vida. Ainda mais emocionante é o fato de que somos capazes de reescrever a peça ou modificar nosso papel aplicando a intenção, aproveitando as oportunidades que surgem da coincidência e sendo leais ao chamado de nossa alma. [...]


Dr. Deepak Chopra



Fonte: do livro "A Realização Espontânea do Desejo", Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
Tradução de Claudia Gerpe Duarte.
Fonte da Gravura: Tumblr.com

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A SIMPLICIDADE DAS COISAS ESPIRITUAIS


O recolhimento é uma transposição de foco, que harmoniza toda nossa alma com o que está além e acima de nós.

É uma 'conversão', uma 'volta' do nosso ser às coisas espirituais e a Deus.

Como são simples as coisas espirituais, o recolhimento é também uma simplificação do nosso estado de espírito e da nossa atividade espiritual.

Tal simplificação nos confere aquela paz e visão das coisas que Jesus proclama ao dizer:

'Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso' (Mt 6,22).


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Homem algum é uma ilha"
Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O QUE É A VACUIDADE?


Vacuidade é o modo como as coisas realmente são. É o modo como as coisas existem, que é oposto ao modo como elas aparecem. Acreditamos, naturalmente, que as coisas que vemos ao nosso redor – como mesas, cadeiras e casas – são verdadeiramente existentes porque acreditamos que elas existem exatamente do modo como aparecem. No entanto, o modo como as coisas aparecem aos nossos sentidos é enganoso e completamente contraditório ao modo como elas realmente existem.

As coisas aparecem como existindo do seu próprio lado, sem dependerem da nossa mente. Este livro que aparece para a nossa mente, por exemplo, parece ter sua própria existência objetiva, independente. Ele parece estar “fora”, ao passo que nossa mente parece estar “dentro”. Sentimos que o livro pode existir sem a nossa mente; não sentimos que nossa mente esteja, de alguma maneira, envolvida em trazer o livro à existência. [...]

Embora as coisas apareçam diretamente aos nossos sentidos como sendo verdadeiramente existentes, ou inerentemente existentes, em realidade todos os fenômenos carecem, ou são vazios, de existência verdadeira. Este livro, nosso corpo, nossos amigos, nós próprios e o universo inteiro são, em realidade, apenas aparências à mente, como coisas vistas em um sonho. Se sonharmos com um elefante, o elefante aparecerá vividamente com todos os seus detalhes – poderemos vê-lo, ouvi-lo, cheirá-lo e tocá-lo; mas, quando acordarmos, realizaremos que ele era apenas uma aparência à mente. Não iremos perguntar “Onde está o elefante, agora?” porque entenderemos que ele era simplesmente uma projeção da nossa mente e não tinha existência fora de nossa mente. Quando a percepção onírica (a percepção durante o sonho) que apreendia o elefante cessou, o elefante não foi para lugar algum – ele simplesmente desapareceu, pois era apenas uma aparência à mente e não existia separado da mente. Buda disse que isso também é verdadeiro para todos os fenômenos; eles são meras aparências à mente, em total dependência das mentes que os percebem.

O mundo que experienciamos quando estamos acordados e o mundo que experienciamos quando sonhamos são, ambos, meras aparências à mente, e que surgem das nossas concepções equivocadas. Se quisermos afirmar que o mundo do sonho é falso, teremos também que dizer que o mundo da vigília é falso; e se quisermos afirmar que o mundo da vigília é verdadeiro, também teremos que dizer que o mundo onírico, ou mundo do sonho, é verdadeiro. A única diferença entre eles é que o mundo onírico é uma aparência para a nossa mente sutil do sonho, ao passo que o mundo da vigília é uma aparência para a nossa mente densa da vigília. O mundo onírico existe apenas enquanto a percepção onírica, para a qual ele aparece, existir; e o mundo da vigília existe apenas enquanto a percepção da vigília, para a qual ele aparece, existir. Buda disse: “Deves saber que todos os fenômenos são como sonhos”.

Quando morremos, nossas mentes densas da vigília se dissolvem em nossa mente muito sutil e o mundo que experienciávamos, quando estávamos vivos, simplesmente desaparece. O mundo tal como os outros o percebem continuará existindo, mas o nosso mundo pessoal desaparecerá tão completa e irrevogavelmente como o mundo do sonho da noite passada desapareceu.

Buda também declarou que todos os fenômenos são como ilusões. Há muitos tipos diferentes de ilusão, como miragens, arco-íris e alucinações provocadas por drogas. [...] O que todas as ilusões têm em comum é que o modo como elas aparecem não coincide com o modo como elas existem. Buda comparou todos os fenômenos a ilusões porque, devido à força das marcas da ignorância do agarramento ao em-si (em si mesmo), acumuladas desde tempos sem início, o que quer que apareça para a nossa mente aparece, naturalmente, como existindo verdadeiramente e, instintivamente, concordamos com essa aparência; mas, em realidade, tudo é totalmente vazio de existência verdadeira. Assim como uma miragem que aparece como sendo água, quando, de fato, não é água, as coisas aparecem de um modo enganoso. Por não compreendermos sua real natureza, somos enganados pelas aparências e nos aferramos a livros e mesas, corpos e mundos como verdadeiramente existentes. O resultado de nos agarrarmos aos fenômenos desse modo é que desenvolvemos autoapreço, apego, ódio, inveja e demais delusões*, nossa mente torna-se agitada e desequilibrada e a nossa paz mental é destruída.

Somos como viajantes em um deserto, que se esgotam correndo atrás de miragens, ou como alguém andando à noite por uma rua, confundindo as sombras das árvores com criminosos ou animais selvagens à espreita para atacar.


Geshe Kelsang Gyatso


* Engano, logro, burla, ilusão, delírio


Fonte: do livro "Budismo Moderno - O caminho de compaixão e sabedoria",
3ª. ed., Editora Tharpa Brasil, São Paulo, SP - www.tharpa.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/logotipo-tri%C3%A2ngulo-de-penrose-1932539/



DE FORA – DE DENTRO


A fim de compreender coisas espirituais, deve o homem antes desaprender que aprender.

Pesados atavismos da nossa pré-história animal obstruem o caminho da nossa ascensão superior.

Percebemos apenas a superfície da realidade, e não a realidade em si mesma, e facilmente concluímos que os fenômenos externos sejam a realidade total.

E, quando semelhante analfabetismo adquire foros de ciência, torna-se difícil ao materialista converter-se para a Realidade.

Enquanto não penetrarmos as camadas opacas dos fenômenos sensórios não somos homens realistas, ou espirituais.

O iniciado é um homem que “foi para dentro”, como seu nome diz: “in-ir” (ir para dentro) – ao passo que profano é um homem que “está de fora”: “pro-fano” (diante do templo).

Este enxerga apenas os efeitos – aquele vê a causa de todos eles.

A Realidade é infinitamente simples; enquanto não nos simplificarmos das mil e uma complexidades da vida não chegaremos a conhecer a Realidade, que é Deus mesmo.


Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal