terça-feira, 11 de abril de 2017

TERÇA-FEIRA SANTA: DIA DE MARTE


“Quando o dia registrou verdadeiros atos, a tarde e a noite convocam o eco celeste destes atos. Os resultados do dia não residem unicamente naquilo que foi diretamente criado; quando a atividade diurna bateu às portas do mundo espiritual, podem abrir-se, à noite, as portas de um outro mundo. E (deste mundo espiritual) flui o correspondente a genuína força interior empregada durante o dia.”


Em silêncio, sem provocar as mesmas excitações, realiza-se nas manhãs seguintes o mesmo que no domingo de Ramos. Jesus entra com seus discípulos na Cidade Santa. Já se acalmaram as grandes ondas de entusiasmo aprovador. Jesus, embora já envolvido nos relâmpagos e tensões da decisão que se aproxima, quer obedecer a lei até o fim. Cumpre o rito sagrado de preparação para a festa pascal. Traz suas oferendas. Mas já sentimos: é ele mesmo que será sacrificado e elevado ao céu. As inimizades e o ódio das pessoas o atingem. No domingo ainda podia parecer que o sol espiritual que nele ascendia sobre o horizonte do drama estivesse em coincidência com o sol natural que acende o entusiasmo primaveril nas almas dos homens. Mas, na segunda-feira, o engano se esclarece. Na terça-feira santa, o drama-mistério ultrapassa a simples despedida do velho mundo. Jesus marcha cada vez mais majestoso para a cidade. Quanto mais silenciosa a massa, tanto maior o ardor da volição (vontade) na fisionomia do Cristo. Nasceu o dia de Marte: inflama-se a luta. A massa calou- se: seus líderes têm medo e o medo é a raiz do ódio, que passa à agressão. Cada tropa do exército inimigo envia na vanguarda seus atacantes. Um grupo após o outro aborda o Majestoso. Sucedem-se as perguntas traiçoeiras. Disfarçam sob a forma de questões aquilo que deveria ser um golpe na face ou um golpe de espada. Chegam primeiro os sacerdotes, os sábios das escrituras e os presbíteros, ou seja, todos os membros do Sinédrio judeu. Mandam perguntar a Jesus com que autoridade age. Exigem que se identifique. Chegam depois outros, os fariseus, com os seguidores de Herodes, e pousam a questão embaraçosa: “É justo pagar tributo a César?”. Seguem-se os saduceus: querem saber o que pensa Jesus sobre a ressurreição dos mortos. Finalmente, chega um indivíduo que, acreditando poder comprometê-lo perante todo o povo, pergunta qual é, em sua opinião, a mais nobre das leis. Esses ataques, representando a atração das inimizades, constituem a melhor prova de quão intensamente era sentida a majestade de Cristo. Os cães só latem e mordem quando têm medo. Assim também essas questões, em realidade golpes de ódio, partem do medo. As forças das trevas tremem porque está nascendo o sol.

Jesus responde a cada uma das quatro questões. Mas não se contenta em aparar os golpes investidos contra ele: aceita o desafio e luta com as armas do espírito. Desenrola imagens potentes. Do mesmo modo que nos três anos passados falava aos discípulos em parábolas maravilhosamente poéticas, responde agora aos seus adversários em parábolas de combate. Conta a parábola dos viticultores aos quais fora confiado o parreiral e que se recusam a entregar a safra, matam os mensageiros do dono das parreiras e, finalmente, até seu próprio filho. Os adversários sentem a potência combativa da parábola. Sentem que se refere a eles próprios. De fato, Jesus prediz aos seus inimigos, pela parábola, que eles o matarão. Ele não o faz para ganhar fama de profeta. Sua parábola é uma luta final pelas almas de seus adversários. Quiçá elas ainda desaparecerão. Quiçá ainda serão aterrorizados pela visão de si mesmos.

O Cristo lança aos seus adversários mais uma parábola: a parábola do casamento real. É inestimável a grandeza micaélica desta parábola combativa. Trata-se daqueles que seriam indicados como convidados. Todos falham. O convite é feito, então, a estranhos, a gente que, normalmente, nem seria levada em consideração. Os estudiosos oficiais de Deus revelaram-se como mentirosos e hipócritas, e a Divindade apela então para pessoas cuja aparência não revela estarem à procura de Deus. Isto se dirige diretamente contra os adversários, contra os eclesiásticos privilegiados pela tradição. Ao ser descrita, enfim, a imagem e o destino daquele que não estava usando roupa adequada para a festa, toda a humanidade pode ver-se em rigoroso espelho. Mas, mesmo dirigida, em última análise, contra todos, a parábola das bodas reais é, sem dúvida o mais potente golpe desferido no dia de Marte da Semana Santa.

O Cristo prossegue. Ele mesmo dirige agora uma questão àqueles que lhe pousam perguntas capciosas: “De quem é filho o Messias? “Respondem: É filho de Davi”. O Cristo tem que lhes mostrar, citando o 110º salmo que eles conhecem, no qual Davi designa o Messias como seu senhor. E pergunta: “Como pode ele chamar o Cristo de seu senhor quando se trata de seu filho?” O Cristo desmascara os que o cercam como estranhos ao espírito e sua devoção como desprovida de espiritualidade. Os homens só olham para o terreno. Para compreender o divino, a primeira condição seria ver que o Messias é filho de Deus e não dos homens. O Cristo mostra aos homens o que deveriam reconhecer nele; mas não o reconhecem.

E vem, então o quarto contragolpe pelas armas espirituais do Cristo: os nove “ai-de-vós” sobre os fariseus, desembocando na lamentação sobre Jerusalém, mundo destinado ao declínio. No início de sua atuação, Jesus, no círculo familiar de seus discípulos, pronunciou as nove bem-aventuranças do Sermão da Montanha, revelando as nove partes do Ideal Luminoso do homem-espírito. Agora, no final de sua via terrena, ele põe as nove sombras ao lado das nove luzes. Os “ai-de-vós” são o desmascaramento combativo da humanidade inimiga de Deus, assim como as bem-aventuranças foram a revelação das nove faces do relacionamento entre o homem e Deus. A lamentação sobre Jerusalém inverte a palavra do Sermão da Montanha sobre a “Cidade na Montanha” que, pela primeira vez, fez reluzir a imagem da Jerusalém celeste.

Eis um conteúdo bem pouco silencioso para a “Semana do Silêncio”. Os golpes de espada cintilam de um lado e de outro. Luta-se e briga-se. O poder marcial do Verbo se precipita da boca daquele que mais tarde não se lamentará ao carregar a cruz para o alto do Gólgota.

Ao declinar o dia, quando Jesus com seus discípulos, como todas as tardes, deixa a cidade e, do outro lado do vale de Kidron, galga o Morro de Getsemane através dos jardins onde tantas vezes ensinara na intimidade do círculo de seus discípulos, desta vez não dirige seus passos para Betfagé e Bethânia. No alto do Monte das Oliveiras, em meio a maravilhoso bosque da paz, convida os discípulos a se acomodarem. Ainda estremecendo da luta que travou durante o dia, começa a falar aos discípulos pela última vez ao ar livre. E as palavras destes ensinamentos não são certamente menos poderosas do que as palavras de combate espiritual contra os adversários. Os corajosos atos da alma realizados durante o dia conclamam o eco dos deuses. O Cristo é capaz, mais do que nunca, de oferecer revelações aos discípulos. O que lhes oferece nesta noite – costumamos chamá-lo de “Apocalipse do Monte das Oliveiras” – é uma intervenção nos grandes futuros dos destinos da humanidade. Rasga-se a cortina do futuro. Abrem-se grandes perspectivas apocalípticas.

É sempre assim na vida. Quando o dia registrou verdadeiros atos, a tarde e a noite convocam o eco celeste destes atos. Os resultados do dia não residem unicamente naquilo que foi diretamente criado; quando a atividade diurna bateu às portas do mundo espiritual, podem abrir-se, à noite, as portas de um outro mundo. E (deste mundo espiritual) flui o correspondente a genuína força interior empregada durante o dia.

O presente torna-se transparente. Os discípulos passaram o dia com o Cristo contemplando o templo. Revelou-se que tudo isso está condenado a desaparecer. A destruição de Jerusalém e do templo é uma necessidade espiritual. Se não fosse executada, 40 anos depois, pelos romanos, teria que ser consumada de alguma outra maneira. Na visão que surgiu do declínio do templo transparece a visão de uma grande catástrofe. Todo um mundo submerge. O Cristo pinta, aos olhos dos discípulos, as cores de um ocaso do mundo. E se, durante o dia, se anunciava uma separação dos espíritos em inimigos de Cristo e em um pequeno grupo disposto a formar o apostolado, este fato também se torna transparente: todo o transcurso da História Universal nada mais será do que uma seleção dos espíritos. Alguns tendem para o divino, os outros tendem contra ele. E por mais imponentes que sejam as realizações destes últimos na Terra, tudo não passará de produtos de um medo oculto. E aquilo que, silenciosamente, germinará no grupo – talvez pequeno – daqueles que se unem ao divino portará em si o futuro do mundo.

Jesus continua o apocalipse vespertino que apresenta aos discípulos. Como lançara aos adversários parábolas combativas, assim dá aos discípulos as mais íntimas parábolas que lhes poderia dar: as duas parábolas de sua volta. No apocalipse já dissera que, sob o bramir do temporal universal, o Filho do Homem aparecerá sobre as nuvens do céu. Apontou para um futuro no qual, em meio ao barulho do fim do mundo, a nova revelação do Cristo terá que abrir caminho. Agora, ele mostra aos discípulos, nas parábolas das dez virgens e dos talentos (dinheiro) confiados, o que devem fazer os homens a fim de se preparar para a volta do Cristo. Um dia chegará o noivo da alma. Um dia voltará àquele que, ao partir, confiou aos seus servos o dinheiro; voltará para exigir as contas. Embaixo, no templo, os “ai-de-vós” ressoaram como anti-bem-aventuranças. Agora o dia desemboca em um elevado Sermão da Montanha. Com os últimos e mais íntimos ensinamentos, o Cristo fornece aos discípulos uma provisão de coragem para milhares de anos. As parábolas do retorno e, especialmente, a visão final da seleção dos espíritos em ovelhas e bodes, na qual finaliza todo o Apocalipse do Monte das Oliveiras, são uma provisão que manterá os discípulos através de muitas encarnações. A luz do apocalipse, que ilumina a noite que desce, é o dom solar conquistado de Marte.

As palavras pronunciadas pelo Cristo na terça-feira santa são, em conjunto, uma maravilhosa linha de orientação para toda luta entre as trevas e a luz, para toda luta pelo apostolado de Cristo contra os inimigos de Cristo. A palavra de Goethe, afirmando que toda a história mundial nada mais é do que uma luta constante da fé contra a descrença, já representa uma procura pela chave fornecida em detalhe pelo transcurso da terça-feira santa. Toda oposição contra o Cristo e toda inimizade contra o espírito tem suas raízes na incredulidade, em uma falta de força, em um medo profundamente oculto na alma humana. O apostolado de Cristo se afirma e mantém através da fé germinando força-coragem interior. A campanha cuja estratégia pode ser deduzida do conteúdo da terça-feira santa não é, entretanto, em primeiro lugar, uma campanha de guerra entre dois mundos humanos. É uma luta que deve ser travada interiormente. Em toda alma humana misturam-se o medo e a coragem, o oponente e o discípulo do Cristo.

As parábolas combativas dirigidas aos oponentes expõem sempre o medo como raiz da inimizade contra o espírito. O egoísmo dos viticultores que não queriam entregar o produto da safra é, como todo egoísmo, um produto da fraqueza e do medo interior. Nasce no homem o primeiro germe de coragem quando ele aprende a tudo abandonar e tudo sacrificar porque se compenetra do sentimento de que tudo o que possui e pode possuir pertence à Divindade.

Os “ai-de-vós” são de modo especial, o desmascaramento da descrença. Iniciam-se pelas palavras que, de imediato, arrancam a máscara não só à renegação do espírito, mas também a qualquer tipo de tutela sobre as almas humanas: “Ai-de-vós”, escribas e fariseus! “Desviastes as chaves das portas do céu, onde não podeis entrar e, portanto, não quereis que entrem os que se esforçam para entrar!”

A maior coragem é a exigida pelo trabalho na própria alma. “A luta contra si mesmo é a mais difícil das lutas. Vencer-se a si mesmo é a mais bela vitoria”. Na luta travada no interior de nossa própria alma, conquistamos os mais maduros dons das forças marcianas. Já na parábola combativa das bodas reais reluz na imagem do traje matrimonial, o ideal da autotransformação meditativa. A alma que adquire luminosidade através da purificação e da oração é o traje matrimonial.

Mais ainda, as parábolas das dez virgens e do dinheiro confiado são uma provisão para o trabalho interior. O óleo nas lâmpadas é uma imagem das forças que devem ser adquiridas pela alma; o dinheiro confiado simboliza os órgãos espirituais desenvolvidos no ser humano.

A resposta dada pelo Cristo à questão dos impostos revela como se impõe a genuína coragem adquirida através do esforço interior. Quem se esforça de maneira salutar pelo espírito, não se distancia na Terra, mas sabe manter o equilíbrio entre deveres terrenos e ideais espirituais e, justamente assim, adquire a soberania solar sobre tudo o que é terreno. É capaz de dizer, mesmo se, como era o caso naqueles dias, o trono está ocupado por uma fera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Na grande visão final da seleção dos espíritos revela-se, finalmente, o segredo da coragem interior. “O que fizestes a qualquer um de vossos mínimos irmãos, a mim o fizestes”. O fato de um homem estar trilhando corretamente o caminho de sua alma e de seu espírito revela-se em sua capacidade de amar. Amor é o verdadeiro antônimo do medo. Todo verdadeiro esforço ou tendência em direção ao espírito começa pela coragem interior e desemboca no amor. O verdadeiro amor pelos homens é idêntico ao amor pelo próprio Cristo. Os poderes marciais do dia são, embora caia a noite, totalmente irradiados pelo do Cristo quando todas as palavras de luta espiritual culminam a palavra amor.




Emil Bock






Fonte do Texto e da Gravura:
Biblioteca Virtual da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A LUA CHEIA DE ÁRIES - MEDITAÇÃO


Quando o Sol entra no campo da energia de Áries, há uma sincronização perfeita entre Áries, o Sol, Marte, Mercúrio e a Terra, que representa um sistema elétrico através do qual a energia de Áries é transmitida a todos os reinos da Natureza. A distribuição da energia de Áries sobre a Terra é feita pelos Mestres avançados, pelos seus discípulos, por determinados devas e através de dedicados grupos de servidores. (É o que somos quando nos propomos a participar desta meditação!).

A lua cheia de Áries é dedicada ao Cristo, ao Cristo em ascensão, sendo chamado Festival da Ressurreição. ... O maior presente do Cristo para a humanidade é o conceito de ressurreição, que nos foi dado quando o Sol estava na constelação de Áries...

A energia de Áries é ígnea. Carrega e estimula as Centelhas em todas as formas, ajudando-as a avançar e a progredir. A Ressurreição é um avanço progressivo da Centelha. É a luta, o trabalho. A luta é o esforço do Espírito para conquistar a matéria, o corpo e as emoções, e para conquistar o espaço e o tempo.

Este raio é lançado no reino mineral e, por séculos e séculos, a Centelha luta, trabalha pesado para destruir Suas limitações e prisões da matéria, e ingressa no reino vegetal. É uma grande ressurreição, porque a Centelha se lança da sepultura da matéria e começa a viver o perfume, a cor e a beleza. É uma grande vitória para o raio do Sol Espiritual.

Então, num grande dia, a Centelha do reino vegetal ingressa no animal. A Centelha estava fincada no reino vegetal, mas sai e passa a fazer parte do reino animal. É mais uma grande vitória para Ela e outro passo ruma à ressurreição.

A Centelha animal trabalha muito e sofre por séculos e séculos, até que num dia especial começa a falar e a pensar: é o passo principal do caminho da ressurreição. A Centelha torna-se um ser humano. Alguns desses seres trabalham bastante, sofrem muito, se esforçam, servem e se sacrificam, e, por tudo isso, ingressam no quinto reino.

O quinto reino é o dos Imortais através do qual passaram Cristo, o Senhor Buda, Zoroastro, Hércules e outros. Os grandes nos dizem que o caminho da ressurreição não pára aqui, mas continua até o sexto e sétimo reino. O sétimo reino nos liberta do sistema solar. É a consumação do caminho da ressurreição para um ser humano.

O processo de ressurreição dos reinos inferiores repete-se no ser humano: aqui começa o caminho mais difícil. Entramos no reino humano e ali somos fincados. Assim como a Centelha foi cravada no reino mineral, assim somos fincados no nosso corpo físico. Pensamos que somos o corpo e que além do corpo não há mais nada. Morremos para a forma. Matamos os outros pela matéria. Isso indica que, embora estejamos numa espiral mais alta ainda continuamos cravados no reino mineral, representado pelo nosso corpo.

Os que realmente lutam e trabalham no processo da ressurreição, que é o processo de tornar-se um Ser, algum dia escaparão desta armadilha e entrarão no nível emocional da conscientização.

O plano emocional, com seus gostos e idiossincrasias, com sua suscetibilidade, suas emoções negativas, seus encantos e redemoinhos emocionais, entre outros, é como uma selva. Se um ser humano pretende atingir a ressurreição de si próprio e entrar nos reinos mais elevados, deve conquistar seus sentimentos e encantos, que são identificações emocionais.

A pessoa deve então penetrar no mundo mental, que não é uma selva ou armadilha, mas uma prisão. Procura, desta vez, escapar da prisão que foi construída pelas suas próprias mãos. A mente é uma prisão quando age através das ilusões ou de fatos deturpados. Há muitas tramas na mente, como o orgulho, a vaidade, o egoísmo, o isolacionismo. Aprisionados por ela não é fácil escapar.

Mas o caminho da ressurreição continua. A Centelha não pode deter-se em nenhum estágio. Não importa quanto tempo. Não importa quanto tempo Ela permanece em um nível de aquisição; um dia ela romperá as paredes da Sua prisão e ingressará em outro reino.

A ressurreição é um processo de construir pontes entre um reino e outro. A ponte mais importante no nosso nível é a que existe entre a personalidade e a Tríade Espiritual. Os que trabalharem duro e dominarem suas necessidades e impulsos, encantos e ilusões, construirão a ponte.

A palavra-chave para os discípulos é: “Eu saio e venho do plano da mente que Eu governo.” Se uma pessoa não consegue pensar com a mente superior, será dirigida pela sua natureza física, pelos seus impulsos e tendências, pela sua natureza emocional, pelos seus encantos e emoções negativas, e também pela sua mente inferior, que divide, separa e pensa em termos de seus próprios interesses.

No caminho da ressurreição vencemos os nossos inimigos através da perseverança alimentada pela energia da vontade. Nossos inimigos são nossos pensamentos separativistas que funcionam como grades de uma cela aprisionando nossos conceitos sobre nós mesmos e sobre os outros. Nossos inimigos são nossas emoções negativas e nossos impulsos egoístas.

Durante o período da Lua Cheia de Áries a energia da vontade é contatada e utilizada apropriadamente no processo de evolução, nos planos mentais superiores.


(Este período de Lua Cheia é considerado juntamente com o período da Lua Cheia de Touro e Gêmeos como os mais importantes porque representam a tríade essencial a partir da qual outras tríades se formam para a sustentação do Plano Divino. Áries contém a força da ressurreição. Essa força pode ser verificada no estourar de uma semente quando brota e nos nossos corações quando somos invadidos por uma Vontade imensa de libertarmo-nos de algo do passado.)




Claudia de Luca




Fonte: do livro "Meditar na Lua Cheia é Construir a Nova Era"
Fonte da Gravura: pixabay.com - CC0 Creative Commons - Public Domain




Bibliografia e Sugestões Bibliográficas:

Saraydarian, T. Sinfonia do Zodíaco. Tradução Ângela do
Nascimento Machado. São Paulo. Editora Pensamento.1980.

Saraydarian, T. The Hierarchy and the Plan. Tradução Editora
Aquariana. Revisão Maria Helena da Nóbrega. Impressão Editora Parma. São Paulo. Editora Aquariana Ltda. 1990.

Beltrán Anglada, Vicente. Os Mistérios de Shambala. Tradução
Wania Santiago Lourenço. São Paulo. Aquariana. 1991.

Bailey, Alice A. Um tratado Sobre Magia Branca: O Caminho do Discípulo. Tradução; Jaime Treiger. 2a. ed. Revisada. Niterói. Fundação Cultural Avatar. 1991.

_______ . Psicologia Esotérica. Volume I, Tradução; Jaime
Treiger. 2a. ed. Revisada. Niterói. Fundação Cultural Avatar. 1994.

_______ . Do Intelecto à Intuição. Tradução autorizada por
membros da Fundação Cultural Avatar. Niterói. Fundação
Cultural Avatar. 1988.

MEDITAÇÃO PARA LUA CHEIA DE ÁRIES - O CARNEIRO


Esta lua cheia de áries, cujo símbolo é uma cabeça de carneiro, significa a entrada direta da eternidade nos ciclos do tempo.

Este símbolo representa os dois chifres do Carneiro dos Céus, que são as duas metades em que se divide o ano e que se complementam entre si.

Meditemos neste símbolo no ponto em que se encontram as duas sobrancelhas ao baixar ao longo do nariz. Isto nos indica como o tempo entra em nós em forma de nossa mente. A mente é somente consciência que se mede no despertar. Enquanto consciência, podemos ser definidos como o Princípio Eterno truncados pelo nascimento.



O sol corta o equador de sul a norte ao entrar no signo de áries e é dito que a cabeça do Deus Anual é cortada e substituída por uma cabeça de carneiro quando o sacrifício do ano completa seu círculo.

A criação enteira desta Terra se desperta no corpo do Deus Anual ao ir sendo criada nos diversos seres viventes da Terra.

O fogo invisível existe em forma de céu e o fogo visível existe como Deus Solar.

O explendor do Deus Solar se manifesta nas formas dos ciclos da estação em que o sol faz sua entrada no signo de áries.

Meditemos sobre este signo quando a lua cheia passa por ele e experimentaremos a luz mais brilhante de teu ser.

Que o Senhor dos Ciclos esteja conosco em forma de consciência enquanto meditamos na lua cheia de áries.



Ekkirala Krishnamacharya




Fonte: do livro "Meditações de Lua Cheia"
Editado por Dhanishtha, Barcelona, Espanha
Fonte das Gravuras: pixabay.com - CC0 Creative Commons - Public Domain

REINO DOS SENTIDOS - UM CAMINHO SEM FIM


Não se envolva no cultivo ou na promoção de vontades e desejos. Esse é um processo sem fim de semear e colher; você nunca alcançará contentamento e um desejo, quando satisfeito, incitará a sede de dez mais. Não corra atrás de desejos sinuosos ou de satisfações tortuosas. Todos os caminhos que conduzem ao reino dos sentidos são tortuosos e cegos, somente a estrada que conduz ao caminho do Senhor é reta. Cultive a retidão em cada ação, isso revelará o Eu Divino. Simplicidade lhe permitirá superar as três gunas (características). Nenhuma Guna única deve dominar; todas devem ser domesticadas para preencher o lago da bem-aventurança. É a sua bem-aventurança interna que importa, não o externo, o sensorial, o objetivo e o mundano. Se a estabilidade interna ou o equilíbrio interior não forem perturbados pelos altos e baixos externos, isso é um sinal certo de sucesso espiritual. (Discurso Divino, 12 de abril de 1959)




Sathya Sai Baba





Fonte: www.sathyasai.org.br
Fonte da Gravura: tumblr.com

SEGUNDA-FEIRA SANTA - DIA DA LUA


“A antiga clarividência ligada ao corpo era um dom da Lua, uma intervenção de forças lunares na natureza humana. Era relativo à noite, porque estava á disposição dos homens em estados inconscientes.”


No caminho que Jesus e seus discípulos fizeram todas as manhãs e todas as tardes da Semana Santa, da cidade para Bethânia à tarde ou vice-versa de manhã, existe um local tranquilo que ainda hoje está envolto no denso ambiente de um mistério. Partindo de Jerusalém, atravessamos o cume do Monte das Oliveiras e, lentamente, descemos pela outra encosta, onde vemos brilhar, em meio ao deserto da Judéia, o espelho mágico do Mar Morto; a meio caminho entre o Monte das Oliveiras e Bethânia encontramos um local cercado por altos muros. Ciprestes negros despontam por trás dos muros e parecem graves e solenes sinais apontando para o céu. Havia aí, no tempo de Jesus, uma pequena vila: “Betfagé” (a casa dos figos). Não devemos imaginar uma aldeia como outras aldeias. O grupo de pessoas que para lá transferira sua vida comunitária era unido por um esforço psico-espiritual especial.

As modestas cabanas eram cercadas por um pomar de figueiras. Mas essas figueiras não eram apenas plantas frutíferas; eram, para aqueles habitantes, árvores sagradas, sinais visíveis de seus esforços espirituais. Tratava-se de pessoas que, em seu círculo, procuravam conservar o mistério (segredo) espiritual da antiga Humanidade, mistério que surge, uma vez, também no Novo Testamento, na história de Nathanael. Os moradores de Betfagé praticavam o “sentar-se sob a figueira”, o estado vidente atingido através de exercícios, em parte físicos, em parte meditativos.

Betfagé, a casa dos figos, era um sítio onde se praticava a antiga clarividência. Foi de lá que Jesus, na manhã do domingo de Ramos, mandou Pedro e João trazerem o jumento e o burrinho. Lá existiam árvores sagradas e, do mesmo modo, animais sagrados. Os jumentos ali mantidos não eram animais de carga. Também eles expressavam um mistério naquele círculo de pessoas. Na corrente do Velho Testamento estava bem viva a memória daquele mago que fora mandado certa vez da Babilônia a fim de conjurar o impedimento de entrada do povo de Israel à Terra Prometida.

Bileam era descrito montado numa jumenta. Sabia-se, no entanto, que montar em jumenta não era apenas um modo de locomoção. Expressava um bem definido estado de alma, a saber, aquele enlevo sonâmbulo sob o qual o mago babilônico começava a falar, não em estado de consciência humana, mas como que espiritualmente possesso: entretanto, sem que ele soubesse como, a imprecação mágica que ele queria lançar contra Israel transformou-se em bênção. Os animais sagrados de Betfagé revelam que a visão ali praticada era de natureza inconsciente e ligada à corporeidade física: aliás, até nos contos de fada mais recentes, o jumento é o símbolo do corpo físico humano.

O filhote de jumento, no qual o Cristo montou para entrar na Cidade Santa no domingo de Ramos, pertence à esfera de imagens de Betfagé. Mas, quando ele teve a audácia de entrar na cidade montado no branco animal sagrado, não foi ele quem mergulhou no estado bileâmico de “montar uma jumenta” quem caiu em alienação extática, ao vê-lo, foi à massa popular. Foi como se um linguajar bileamítico se apoderasse do povo quando este chamava “hosana” àquele que chegava no dorso do jumento.

À noite, Jesus, como também faria nas noites seguintes, fora com seus discípulos para Bethânia para repousar. Durante a noite, o eco do êxtase popular, gritando “hosana”, ergueu-se em sua alma. Ele e seus discípulos não são mais os mesmos como no dia anterior, ao voltarem do dia seguinte a Jerusalém. Novamente passam por Betfagé. Na fisionomia de Cristo lê-se algo de extremamente grave, inexorável. Acontece, então, o fato misterioso: ele se aproxima das figueiras de Betfagé. Os discípulos se admiram, pensando que ele quer comer figos quando não é época destas frutas. E ouvem-no pronunciar a estranha e severa sentença: “Ninguém mais comerá destes figos, para todo o sempre”. Talvez naquele momento apenas supuseram que era subtendido algo de mais importante do que uma simples afirmação sobre a árvore e sua fertilidade. Mas não tiveram sua visão desvendada.

Os discípulos passam, então, um dia em Jerusalém com o Cristo, este dia que desenvolve dramaticamente toda a grave severidade. Ao atravessar a soleira do templo, irrompe o caos. Espalha-se o pânico, derrubam as mesas, o dinheiro rola no chão. Dá-se a inversão do êxtase jubiloso da véspera. O terror se apodera de todos os que estão na zona do templo.

Após pernoitarem novamente em Bethânia e, passando de manhãzinha outra vez por Betfagé, os discípulos subitamente têm a visão da árvore seca e pedem que Jesus lhes explique o mistério. Não aconteceu nenhum milagre grosseiro no qual Jesus teria, com suas palavras iradas, privado de vida uma criatura da terra. Como poderia ele ter destruído uma arvore pertencente àqueles que lhe haviam oferecido a jumenta e o filhote! O que aconteceu foi um ato espiritual que significa um importante entroncamento no drama do mistério da Semana Santa, nesse dia aparentemente de pouca importância.

No domingo de Ramos, embora a ressurreição do Lázaro desse o sinal para a luta decisiva, todo o ser do Cristo estava em atitude de dar, de oferecer.

Foi uma impressão positiva de seu ser que tocou as almas do povo. Devemos lembrar-nos também no simples significado humano do momento. Jesus foi ao Templo para orar e sacrificar como os outros fiéis, preparando a festa da Páscoa. Mas a previsão de importantes decisões apoderou-se de todo o seu ser. Impossível continuar inofensivo. A aura volitiva de seu ser, lançando faíscas de luz, contribuiu para induzir o povo na visão extática de sua grandeza solar. O Cristo perscruta a superficialidade e inconstância deste entusiasmo apenas natural, mas ainda não tem um pretexto para realizar sua defesa e seu contra-ataque. O povo tem razão. Não clamariam “hosana” se não tivessem percebido algo de seu verdadeiro ser. Ele não pode dizer que estão errados, como se confirmará no dia seguinte ao repetir-se a cena na zona do templo. Desta vez é um grupo de crianças que grita “hosana” porque um raio de seu verdadeiro ser penetra em suas almas. Os adversários perguntaram, astutos: “Que dizer quanto ao fato de crianças te aclamarem com “hosana”? Ele retruca: “Jamais lestes nas Escrituras, o trecho: da boca dos inocentes preparei-lhe louvores”?

Mas agora ele passou a noite em Bethânia. Tornou certa distância da vibração do domingo de Ramos. Aproxima-se das figueiras de Betfagé. Quer mostrar aos discípulos o quanto vale o “hosana” da véspera. Fora apenas o último fruto da árvore da antiga clarividência. Um resíduo da antiga força visionária ligada à natureza e ao corpo. Através das palavras que ele fala à figueira, ele renega todo o mundo das velhas visões extáticas. Sentimos algo de uma grande decisão para a humanidade. Jesus desvaloriza o “hosana” do povo e, ele mesmo, induz a transição para o “crucificai-o”! Ele possui a incrível coragem de aceitar e, pessoalmente aduzir a cegueira espiritual pela qual os homens deverão, fanaticamente, exigir sua morte. Para ele é mais importante que a humanidade trilhe os seus caminhos da consciência que, embora trágicos, a levarão à liberdade; embora sabendo que esta necessária cegueira espiritual levará os homens a crucificá-lo.

Quando os discípulos, na terça-feira de manhã, reveem as figueiras de Betfagé, os acontecimentos da segunda-feira só afastaram o sonho dos seus olhos. Perderam uma ilusão. Experimentam uma salutar sobriedade. Onde ainda há pouco viam um alto valor, vêem agora a imagem da árvore seca. A antiga clarividência ligada ao corpo era um dom da Lua, uma intervenção de forças lunares na natureza humana. Era relativo à noite, porque estava á disposição dos homens em estados inconscientes. Agora os discípulos percebem que as forças resumidas na imagem da figueira estão velhas, ultrapassadas.

O que Jesus lhes ensina agora é um prelúdio daquilo que lhes dará na misteriosa noite da mesma terça-feira no alto do Monte das Oliveiras. Revela-lhes que a humanidade alcançará algum dia uma nova vidência. A “fé” é o germe da nova visão. Jesus diz aos discípulos: “Se tiverdes um grãozinho de fé, sereis capazes de tudo. Bastará que digais a esta montanha: afasta-se, e ela se afastará. A visão se liberta; a montanha do mundo sensorial, que vos oculta a visão, desaparecerá. Através dos rochedos da existência terrena, percebereis a verdadeira essência de origem divina das coisas”. A visão antiga era de natureza lunar, a nova será solar. A força solar da fé fará abrir-se no coração humano o olho da nova visão, como diz o trecho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus”. Entre a visão inútil e a nova visão do coração que se torna solar, situa-se o período das trevas, da cegueira diante do espírito. E a partir desta cegueira espiritual, os homens crucificarão o Cristo.

Na segunda-feira santa o Cristo se defende de uma tentação. Se ele atasse sua atividade aos antigos estados de alienação clarividente, ele poderia ser reconhecido pelos homens. Não o aclamariam apenas com “hosana”, mas o escolheriam como rei. Revela-se agora, definitivamente, que o Cristo não quer atar-se às velhas forças. Trata-se para ele única e exclusivamente de fazer com que a humanidade encontre o caminho da consciência e da liberdade. No começo dos três anos, ele enfrentara a tentação de transformar morte em vida. Agora, no final de sua caminhada, na defesa contra a tentação até mesmo executa isto, de transformar vida em morte. Não é uma maldição, por carência de amor que ele executa nas figueiras daqueles que lhe oferecem a jumenta e o filhote. Não! O efeito parte da sua essência. Ele é o sol. E, quando nasce o sol, a lua empalidece. Assim empalidecem as forças lunares da antiga vidência. Revela-se que elas não têm futuro quando nasceu o sol da nova luz da alma.

O Cristo chega à praça do templo, o antiquíssimo e sagrado morro da Lua na mais velha cidade da humanidade. Já se inicia aí o grande movimento da Páscoa. Já aparecem muitas centenas de peregrinos. Ao redor do templo praticam-se compras, vendas, pechinchas e negócios. E, no próprio recinto do templo, reina uma atividade febril, pois o conteúdo das cerimônias pascais será o oferecimento de animais e o sacrifício da ovelha pascal. Isto permite fazer negócios porque tudo o que será sacrificado tem que ser primeiro comprado. E, por isso, formou-se uma quermesse no lugar onde deveria reinar o mais sagrado ambiente cultural. O velho Hannas, o mais notório “pão duro” da História, sabe fazer negócios. Já extraiu enorme fortuna do mercado do templo. Como presidente do conselho de altos sacerdotes saduceus, Hannas é também a força motriz dos compromissos políticos nos quais se baseiam os negócios ligados ao templo. Para comprar, os peregrinos devem cambiar o dinheiro que trouxeram de todos os países, em moeda oficial, nacional. Ora, esta moeda é de César. E, portanto, o local de vendas é, ao mesmo tempo, uma bolsa de valores romana. Admitiam-se os funcionários e alfandegários romanos, embora se soubesse que eram fiéis ao culto dos césares. Permitia-se-lhes o acesso, temendo que, caso contrário, os romanos pudessem roubar o Santíssimo do templo. E, assim estabelecera-se uma extrema materialização e profanação daquilo que fora uma vida puramente cultural. Na imagem da figueira seca, os discípulos viram a decadência da antiga consciência religiosa. Na imagem do mercado que se expandia na zona do templo revelava-se a decadência do culto religioso.

É neste local que penetra o Cristo. Vem para cumprir os ritos da festa. Mas o fogo, as faíscas de sua seriedade produzem efeito. Ele nem precisa falar muito: os homens são logo tomados de pânico. A pessoa de Cristo lhes revela, de modo terrificante, a decadência em que caíram. No começo dos três anos, na primeira festa pascal, sucedera algo semelhante. O efeito de grande terror partira então do caráter divino do Cristo, não obstante a grande reserva que Jesus ainda se impunha. Mas, agora, a divindade, nele, se transpôs inteiramente em caráter humano. Transformou-se em flamejante intensividade volitiva. Ele tem direito a arrancar a máscara do mundo degenerado do templo e a desencadear a tempestade. Sua atitude chega a ser em si mesma uma defesa contra a tentação, a saber, a tentação de permanecer atado ao antigo estado das coisas. Torna-se agora bem claro: o que poderá dar à humanidade em futuro espiritual só pode ser algo de radicalmente novo. No campo da consciência humana a vidência lunar tem que morrer, mesmo que isto acarrete uma penosa caminhada pelo deserto. O futuro só poderá florescer pela fé, pela vidência solar do coração. Também na esfera do culto, o antigo tem que ser despedido sem escrúpulos. Nada pode mais ser ligado ao antigo, por mais venerável que este tenha sido. Algo novo tem que entrar na vida. É o sol do Cristo que apaga no morro lunar Morija a luz da lua. O sol rechaça os fantasmas noturnos. A zona do templo, grandiosamente situado com vista para o mundo é silenciosamente substituída no morro Sion, na modesta sala da Santa Ceia, pelo germe de um novo fluxo cultural, solar. A religião da Lua é substituída quando na quinta-feira santa, o Cristo oferece pão e vinho aos discípulos no morro solar de Sion.




Emil Bock






Fonte do Texto e da Gravura:
Biblioteca Virtual da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br

domingo, 9 de abril de 2017

DOMINGO DE RAMOS - DIA DO ANTIGO SOL


“Atravessa em silêncio, sério, o povo que vibra em êxtase. Percebe nesta recepção a sua superficialidade. Visa camadas mais profundas. Quer algo muito diferente.”


No primeiro dia da Semana Santa, o Cristo entra na Cidade Santa. Apresenta-se-nos uma imagem irrelevante. Vemo-lo atravessar as portas da cidade montado em um burro, seguido por seus fiéis. Mas, como se fora o próprio Deus da primavera*, sua entrada provoca repentinamente um êxtase na alma da multidão. É como se algo do antigo êxtase solar das festas pagãs, da primavera se apoderasse dos homens: acende-se uma faísca. Ao cortar ramos de palmeira, o povo renova um hábito muito antigo, volta-se, às festividades em honra ao sol no início da primavera, comuns entre os povos pré-cristãos.

Pois a palmeira sempre foi considerada a árvore e o símbolo do sol, do sol natural que no céu primaveril desenvolve uma força tão nova. O povo enfeita o caminho com símbolos solares. Será ele talvez realmente o alto amigo e senhor do sol, anunciado aos homens como o grande rei da luz? Deverá ser quebrado o encanto do significado espiritual original da cidade de Jerusalém, que abrigava, na montanha de Sion, um dos mais antigos templos do Sol, antes que o templo de Salomão, na montanha da Lua, superasse tudo em importância? Ressurgirá a época de Melquisedeque, o grande iniciado do rito solar? Parece mesmo que o Cristo encontrará agora o acesso à Humanidade. O alto espírito solar já habita há três anos um corpo humano, já atravessou destinos humanos, terrenos. Manteve-se afastado, em silêncio. Se aparecia uma vez ou outra, encontrava incompreensão e inimizade por parte dos homens. Será diferente, agora? Será que o destino levara agora diretamente a uma grande salvação, em meio a jubiloso êxtase?

Não, estamos no inicio da mais séria semana da História da Humanidade. Os mesmos homens que espalham ramos de palmeira e irrompem extasiados em gritos de hosana, gritarão fanaticamente, alguns dias mais tarde, cheios de ódio: “Crucificai-o!”. Ao símbolo da vida, ramo de palmeira, virá se juntar o símbolo da morte, a cruz do Gólgota.

O próprio Cristo contribuiu para essa reviravolta. Atravessa em silêncio, sério, o povo que vibra em êxtase. Percebe nesta recepção a sua superficialidade. Visa camadas mais profundas. Quer algo muito diferente.

Em termos humanos poder-se-ia perguntar, por que Jesus não ficou na Galileia, sua terra, naquela época do ano em que justamente ao redor do Lago Genezaré eclodem os milagres de cores primaveris? Tivesse ficado na Galileia não teria morrido. Mas podemos igualmente perguntar por que o Cristo, sendo Deus**, não ficou nos mundos espirituais, nas esferas celestes? Não ficou nas bem-aventuradas alturas divinas. Deixou o céu e se fez homem. Realizou todo o sentido do seu ser através deste sacrifício, desta renúncia. Ao entrar em Jerusalém, sabendo exatamente que estava atirando a luva àqueles que tinham poder sobre ele, completava-se sua entrada no mundo terreno. No início da grave semana repete-se, ainda uma vez, em outro nível, aquilo que três anos antes significou o começo de sua vida terrena. Do mesmo modo que abandonara o céu, abandona agora a natureza paradisíaca da Galileia.

Quando ele desceu do céu a terra, os homens nada perceberam. João Batista, que prestou o auxílio sacerdotal àquela encarnação na existência terrena, apenas supunha o que estava acontecendo quando Jesus de Nazaré tornou-se portador e continente do Cristo. Mas, através do Homem, o fato foi percebido. Ressoou a palavra: “Este é meu filho amado”. Agora, no domingo de Ramos, nessa hora misteriosa, festivamente excitada, os homens o perceberam. À palavra que naquela ocasião ressoara apenas das alturas espirituais corresponde agora o “hosana” dos homens extasiados. Subitamente, os homens percebem, como em uma renovação instantânea da antiga clarividência, que não é apenas homem aquele que vem montado no burrinho. É como se a alma do povo se precipitasse para perceber o brilho irradiante, a aura solar que emana de Jesus de Nazaré. O ser divino do Cristo teve que se reter durante três anos, pois, se não fizesse, teria violentado os homens com sua força divina. Agora, no entanto, o fruto desta reserva é que o divino que se sacrificara, que se rebaixara entrando no humano, transforma-se em poderosa decisão volitiva. Primeiro, o divino ofuscava, escondia o humano na figura do Cristo. Agora, o humano arde em fogo divino. E é deste fogo de volição que parte a faísca que acende o entusiasmo da massa popular. A embriaguez de uma premonição primaveril se apodera do povo, mas este só sabe interpretar o fato politicamente.

O Cristo sabe melhor. Sabe que está trazendo algo à Cidade Santa, quintessência de toda a evolução pré-cristã da Humanidade: está introduzindo algo de totalmente diferente de tudo, até das maiores maravilhas que a Natureza terrena pode produzir. E uma semente de fogo que virá transformar o mundo pela base. A superfície bem pode estar agora concordando, excitada. Mas isto nada significa. Poucos dias depois veremos que a superfície pode imprecar tão bem quanto abençoar. Trata-se apenas de ondulações superficiais. A Natureza da terra em que penetrou o Cristo pelo batismo no Jordão só pode lhe dar, enfim, a morte. A cidade que grita “hosana” só pode finalmente crucificá-lo.

Salta a faísca, acende-se o fogo, mas o Cristo atravessa as ondas de entusiasmo sem alterar-se. Quer penetrar na camada mais profunda. Quantas maravilhas não nos doa o sol natural quando nasce de manhã e pare o dia! Mas o sol exterior, o sol antigo, relacionado apenas ao homem – ser natural, se põe todas as tardes. Após o solstício de verão, ele se afasta da terra, vem o outono e o inverno. O sol natural vem, mas vai, como a vida natural que sempre nasce e sempre morre. Às alegrias da infância segue-se sempre a dor da morte. Cada qual terá que morrer algum dia, por mais cheio de vida que tenha sido quando criança e quando jovem. O domingo de Ramos é o dia do velho sol. O domingo da Páscoa será o dia do novo sol. Este não é o sol natural, é o sol espiritual. Não se põe. É permanente. Pode até mesmo ser mais facilmente encontrado nas trevas de um destino grave, na miséria, na doença e na morte, do que no arrebatamento da alegria, da infantilidade despreocupada. O Cristo entra na velha Jerusalém. É domingo de Ramos. Mas ele traz para o mundo em ocaso, moribundo, a nova Jerusalém. Não acompanha a trilha primaveril do sol exterior. Por quê? Para acender, no mais íntimo da terra e da humanidade, o novo sol, o sol perene, fiel e onipotente. É este o caminho que vai do domingo de Ramos ao domingo da Páscoa, do velho ao novo sol.

Na história da entrada em Jerusalém reconhecemos o caráter falacioso de todos os estados extáticos. Todo entusiasmo apenas extático surge quando o homem obedece apenas à Natureza. É bom, sem dúvida, que sejamos capazes de vivenciar alegria e entusiasmo diante das imagens da primavera, no convívio com crianças, no encontro dos milagres da juventude e do amor. Certamente não gostaríamos de dispensar esse entusiasmo natural. Mas devemos saber e reconhecer que é perigoso confundi-lo com a própria vida. O entusiasmo apenas natural se origina, em realidade, do homem apenas corpóreo. Só em momentos ocasionais se ergue à altura do espírito. O verdadeiro entusiasmo, que persiste no “hosana” e não se transforma em “crucificai-o”, não se forma de baixo para cima, mas de cima para baixo, nasce quando o espiritual se enraíza no ser humano, quando a faísca divina se realiza e se encarna na terra.




Emil Bock






Fonte da Gravura e do Texto: Biblioteca Virtual da Antroposofia
http://www.antroposofy.com.br




Notas deste blog:
* Primavera no Hemisfério Norte.
** A essência crística é divina. Aqui não se refere a Jesus.

sábado, 8 de abril de 2017

O DESAFIO DA ADAPTAÇÃO


Não é nem um pouco fácil adaptar-se a uma realidade nova, mas não se esqueça de que a capacidade de adaptação é um dos atributos mais importantes da humanidade, sendo um dos elementos que distinguiu o gênero humano das espécies animais, na luta pela sobrevivência no plano físico.

Não tenha medo de mudanças. Acostume-se a elas, e, mais ainda: aprenda a dirigi-las, para que não seja arrastado de roldão pelas que vierem de fora, contrariando, amiúde, seus interesses pessoais. Em vez de encará-la como uma fatalidade angustiante, compreenda a mudança como uma aventura excitante, que lhe cabe viver para crescer, e, assim, corrigir pontos falhos em sua existência ou mesmo em si próprio e ser mais feliz e realizado.

No mundo célere em que se converteu a civilização atual, não há mais espaço para as ideias anacrônicas, utópicas e infantis de constância eterna. Aceite a inevitabilidade da evanescência de tudo. Nada é para sempre – em seus aspectos superficiais de manifestação – , embora a essência de tudo seja para sempre. As pessoas envelhecem e morrem, por mais que as amemos. Se não nos largarem, a morte nos separará delas, numa dimensão ou na outra de Vida. As fortunas vêm e vão, o conhecimento fica obsoleto, a inteligência pode ser ultrapassada por um nível de genialidade superior. Não há nada para sempre. Então, viva a mudança, a busca constante da excelência, a flexibilidade, a versatilidade e adaptabilidade a todos os contextos e habitats, a auto-suficiência e ao desapego a aprender-se a ser feliz com o agora, sem se angustiar pelo depois, muito embora se esteja, paradoxalmente, planejando o futuro e, como acabamos de propor, até mesmo gerindo, quanto possível, o processo de mudança pessoal.

Algumas coisas são permanentes, entre elas, inclusive, o princípio da impermanência. O amor, a honestidade, a justiça o ideal de serviço e de busca da realização pessoal são valores que existem em qualquer época ou circunstância, e que devem ser rigorosamente seguidos, sob pena de se sofrerem sérias consequências. Todavia, as formas de expressão desses princípios em cada quadro situacional e agrupamentos específicos de pessoas variam ao infinito. É sobre isso que falamos. Não postulamos, portanto, o novidadismo barato, o espírito rebelde e irresponsável de quem quer ser do contra, ou de quem não consegue se fixar a nada nem a ninguém, nem estabelecer compromissos ou ser responsável. Mas sim, apresentamos uma realidade existencial do ser humano: a necessidade de evolução constante, o impulso irrefreável do progresso, com que se deve habituar a mente, sob pena de graves prejuízos em todos os departamentos da vida.

Pense nisso com cuidado, pense nisso agora. Não se abrace com muita força ao seu momento presente, porque o que é fresco apodrece, e você pode, em pouco tempo, estar intoxicado com os odores nauseabundos das carnes putrefaças de seus sonhos cadaverizados. Solte, solte-se e flua com a vida. O futuro é sempre melhor que o presente, quando vivemos bem o presente. Agarrar-se ao passado que está morto, ou ao presente que é fluido, equivale a querer deter as águas de um rio para bebê-las ou fazer uso delas, provocando inundações ou, pior: o apodrecimento das águas paradas. Você tem o direito e até o dever de persistir na busca de seus sonhos, mas não pode ficar preso às formas específicas com que eles se manifestam em dado tempo ou circunstância. Solte a carne dos aspectos imaginários e egóicos de seus sonhos, e concentre-se na alma de seu ideal, que pode se adaptar a qualquer contexto ou circunstância.

Seja feliz confiando no fluxo da vida. Confie em Deus, confie em você mesmo. Confie no tempo e na vida, no bem e na vitória final da verdade. Se não, a ansiedade e a angústia agora e a tristeza e o pânico amanhã lhe serão fatais, azucrinando-lhe  a existência e retirando-lhe de você toda possibilidade de ser feliz e de estar em paz.




Benjamin Teixeira / Eugênia





Fonte: do livro "Perspectivas"
Acervo Virtual Espírita
Fonte da Gravura: tumblr.com

OBSERVADOR E OBSERVADO


O contato dos sentidos com o objeto suscita desejo e apego; isso leva a esforço e, consequentemente, à alegria ou desespero! Então, há o medo da perda ou tristeza pelo fracasso e o comboio de reações se alonga. O "observador" não deve se ligar ao "observado"; esse é o segredo para se viver feliz. Com muitas portas e janelas abertas a todos os ventos que sopram, como pode a chama da lâmpada sobreviver? A lâmpada é a sua mente que deve queimar constantemente, inalterada pelas exigências do mundo exterior. A entrega total ao Senhor (Saranagathi) é uma maneira de fechar as janelas e portas. Pois, quando você se rende completamente ao Senhor, você fica desprovido de "ego" e, assim, não é golpeado por alegria ou sofrimento. Saranagathi permitirá que você aproveite a Graça do Senhor para enfrentar todas as crises que surgem em sua vida e o torna heroico, firme e melhor preparado para enfrentar os desafios. (Discurso Divino, 13 de janeiro de 1965)




Sathya Sai Baba




Fonte: www.sathyasai.org.br
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quinta-feira, 6 de abril de 2017

REFLEXÕES PARA A CONSCIÊNCIA DA ALMA


Procure tomar conta de você. Cultive sua paz. Foque sua atenção no centro da testa e visualize um minúsculo ponto de luz. Experimente a diferença entre você, essa estrela brilhante, e seu corpo. Mesmo poucos momentos desse exercício trará de volta seu estado natural de paz. O cansaço termina e a irritação também. Suas ações serão embebidas de amor por si e por todos.

Raja Yoga é sobre a prática que nos torna conscientes de que somos almas e nos ajuda a estabelecer um relacionamento com a alma suprema que é nosso Pai. É uma combinação de conhecimento e meditação. O conhecimento, Ele apresenta a nós. A meditação é a ferramenta que nos ajuda a experimentar essa conexão. Uma vez que esse relacionamento é mantido, ele cuida de todos os outros relacionamentos. E nos dá sabedoria e força para lidar com os desafios que temos que enfrentar nesse mundo altamente complexo.

Amigo é alguém que fala ao nosso coração. Mesmo se houver uma diferença nas habilidades, papéis ou posições, há uma visão de igualdade que não permite nenhum sentimento de superioridade ou inferioridade. Há tal proximidade respeitosa que um não invade a personalidade do outro. As fraquezas são vistas como algo alheio que, na hora apropriada, deixarão de existir. Você não necessita provar-se para um amigo, pois você é amado como é, e o que você é basta.

Quando o conhecimento se torna sabedoria ele tem o poder de elevar o caráter. No final é meu caráter que levo comigo não minhas posses ou aquisições mas como elas moldaram meu caráter. Quando escolho cultivar sabedoria eu construo um belo caráter. Que hoje eu foque na qualidade do meu caráter. (365 Beautiful Thoughts, Brahma Kumaris, Canada)




Brahma Kumaris





Fonte: www.bkumaris.org.br
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quarta-feira, 5 de abril de 2017

A IMPORTÂNCIA DE SABER PARAR


Cada Ser Humano Combina Qualidades de Brahma, Vishnu e Shiva


Nota Editorial: O texto a seguir começa mencionando os três gunas, as qualidades ou propriedades da matéria. Eles são: 1) tamas ou inércia, estabilidade; 2) rajas ou movimento, paixão, exagero; e 3) satwa ou harmonia, equilíbrio, ritmo. (CCA)


Para muitos, o grande obstáculo é uma aparente incapacidade de vencer a tendência  à inércia, e de reunir a vontade necessária para iniciar ações no rumo necessário. Mas, para outros, o desafio quase insuperável é saber parar uma atividade depois que ela foi iniciada. O primeiro grupo de pessoas está obviamente lutando com a qualidade da indiferença, chamada de Tamas pelos hindus; enquanto que o segundo grupo está envolvido pela qualidade intensa e ativa de Rajas.

A incapacidade de puxar as rédeas da ação é um erro sutil, mas raramente é reconhecido como tal, quando se manifesta naqueles que estão intensamente engajados na prática de “boas” ações. Porém o apego destas pessoas à sensação de estar fazendo algo e à satisfação dos progressos visíveis as torna cegas para o seu processo de apego e, portanto, de escravidão. Até mesmo o “dever”, quando feito com exagero, pode significar que nosso dever não foi cumprido.

Qualquer veículo de transporte, se não está equipado com um sistema de freios eficiente, se transforma em uma séria ameaça. O mesmo ocorre com as energias do ser humano.  O poder da concentração, como todos sabem, é imenso. No entanto, se a concentração for prolongada indevidamente e estiver relacionada apenas com desejos pessoais, ela se torna uma obsessão. Para tornar-nos realmente capazes de dirigir nossas mentes, devemos, segundo William Judge afirma no início da sua versão dos Aforismos de Ioga de Patañjali, “desenvolver a vontade (…..), de tal modo que, ao invés de permitir que a mente vá de um assunto para outro ou de um objeto para outro e seja movimentada por eles, nós a usemos como instrumento − a qualquer momento e durante um período tão longo quanto quisermos − para a observação do que tenhamos decidido escolher.”

O mesmo ocorre com a arte de falar, um dos poderes mais importantes de que o ser humano dispõe. O uso generalizadamente excessivo desta faculdade é, sem  dúvida, uma doença da nossa cultura. Com frequência os divulgadores mais dedicados da filosofia teosófica, arrastados pelo seu espírito missionário, perdem a oportunidade de parar no momento crucial. Bastam algumas palavras desnecessárias para transformá-los em “chatos teosóficos” e expô-los a acusações de fanatismo. Em seu livro “The Art Spirit”, Robert Henri, um inspirado educador no campo da arte, fez a seguinte profecia, que podemos ter esperança de que se cumprirá:

“Acredito que os grandes artistas do futuro usarão menos palavras. Os textos serão mais curtos, mas mais cheios de significado (…..) Menos coisas serão ditas, mas cada coisa dita será mais completa e receberá uma atenção mais profunda. Agora nós exageramos. Há muita ‘arte’, muita ‘decoração’, muitas coisas são feitas e muitas diversões são desperdiçadas. E poucas coisas são realmente apreciadas.”

Em relação aos métodos empregados pelos Mestres de Sabedoria, um instrutor escreveu: “Os Mestres são dirigidos pela lei da ação e da reação, e têm suficiente sabedoria para não fazer algo que poderia resultar na anulação de todo o seu trabalho anterior (…..). Ao ir demasiado longe em determinado momento, empregando grande força no plano mental, a consequência seria uma reação de superstição e de maldade de todo tipo que desmancharia tudo.” Alguns vendedores descobriram esta verdade (embora em um plano muito inferior) em relação à sua profissão. A observação mostra que a resistência de um cliente diante do discurso do vendedor provoca frequentemente um fechamento dos punhos, e que as mãos relaxam tão logo a resistência cessa. Os vendedores que não percebem a chegada desta resistência frequentemente exageram na oferta da mercadoria, o que resulta num desperdício de energia e numa perda de possíveis vendas.

A seguinte observação, contida no seu artigo “O Progresso Espiritual”, mostra a clara consciência que H.P. Blavatsky tinha das nossas dificuldades nesta questão:

“O mal é frequentemente o resultado de um excesso de ansiedade, e os seres humanos tentam sempre fazer coisas em excesso. Eles não aceitam deixar o bem em paz, fazendo apenas o que a situação exige e nada mais. Eles exageram cada ação e assim produzem carma que deve ser trabalhado em um renascimento futuro.” [1]

Se não fosse pela ação benéfica dos testes cármicos, nada poderia deter os indivíduos em seu mergulho de cabeça na direção de um movimento perpétuo, destituído de significado. O coração e a inspiração da teosofia estão no fato de que, através do uso da vontade, nós podemos ser os nossos próprios censores cármicos.

Até o cientista, que para muitos personifica a virtude da pesquisa calma e paciente, pode desenvolver o vício da “impossibilidade de parar”.  Em sua busca infindável de fatos e mais fatos, esperando encontrar através deles as respostas definitivas para os mistérios sutis da vida, quantas vezes ele pára durante o tempo suficiente para poder analisar, avaliar e sintetizar − em suma, para compreender?  O ponto fraco da ciência de hoje não está na ausência de fatos, mas na ausência de compreensão dos fatos.  O Adepto, o Sábio, tendo chegado ao grau mais alto do poder da concentração, parece poder deduzir as leis de todo cosmo a partir de alguns poucos fatos.

Durante Kali Yuga, o “grande homem” – o gênio aclamado –, também é quase sempre um produto da atividade exagerada, e raramente da atividade controlada e equilibrada. Estes indivíduos talentosos podem parecer inspirados, mas nem sempre controlam a fonte de inspiração. Em consequência disso, quando a presença da inspiração está junto a eles, não cessam o trabalho com medo de que o momento precioso se perca para sempre.  Um verdadeiro gênio, de acordo com os critérios teosóficos, é um homem aperfeiçoado, com habilidade em todos os tipos de ação correta, nos diferentes estados mentais e níveis de consciência. Ele pode começar e parar à vontade qualquer pensamento, ação ou sentimento. Por mais absorvido que esteja no cumprimento de um elevado dever espiritual, ele é capaz, se necessário, de suspender imediatamente a atividade naquele plano para assumir alguma tarefa mundana. Em sua autobiografia, Mohandas Gandhi faz a seguinte avaliação de um certo Raychandbai, que, embora aparentemente não fosse um Adepto, teve um efeito muito nítido e inspirador sobre a vida de Gandhi:

“As operações comerciais de Raychandbai envolviam grandes somas de dinheiro. Era um conhecedor de pérolas e diamantes. Nenhum problema profissional complexo era demasiado difícil para ele. Mas estas coisas não eram o centro ao redor do qual sua vida girava. O centro era sua paixão por ver Deus face a face. Entre as coisas que eram inevitavelmente encontradas sobre sua mesa de trabalho estavam alguns livros religiosos e o seu diário. No momento em que ele terminava seu trabalho ele abria um livro religioso ou o seu diário (…..). Um homem que, imediatamente após terminar uma conversa sobre operações comerciais de grande porte, começava a escrever sobre as coisas ocultas do espírito não podia, evidentemente, ser de modo algum um homem de negócios, mas tinha que ser um real buscador da Verdade. E eu o vi assim absorvido em assuntos divinos em meio aos negócios não uma vez ou duas, mas muito frequentemente. Nunca o vi perder seu estado de equilíbrio.” [2]

É um fato estabelecido que as melhores virtudes, quando levadas ao exagero, se tornam defeitos. Isso poderia significar que todo defeito é uma virtude fora de controle? Até mesmo a maldição do egoísmo é apenas a distorção e a expansão do dever natural do autoapoio e da autopreservação. O que é a luxúria ou a paixão obsessiva, exceto o resultado do desejo de prolongar uma sensação perfeitamente inofensiva e frequentemente necessária? A comida deve ser saborosa, afirma-se, para que se tire benefício dela. O glutão erra somente porque busca atender um apetite perpétuo com uma alimentação incessante. O pseudoasceta condena as sensações; o homem sábio condena a sua não-regulação.

O que impele uma dona de casa ou um homem de negócios que estejam dedicados a alguma tarefa “desagradável” a manter-se trabalhando muito além do que mandam a prudência e o bom senso?  É o amor pelo trabalho ou o cumprimento consciente do dever?  As razões podem ser numerosas. Para alguns, o trabalho pode ser um ópio para esquecer de problemas, e para evitar examiná-los de frente. Alguns gostam da sensação de estar fazendo algo e daquele momento de satisfação suprema, mas passageira, que há quando uma tarefa é completada.  Outros desejam terminar logo o trabalho necessário e esquecê-lo de uma vez.  O buscador egoísta do Nirvana, ou da salvação, tem uma meta similar. Ele está frequentemente disposto a enfrentar um trabalho que envolve um sacrifício tremendo durante muitas encarnações, com o objetivo de libertar-se “permanentemente” de todos os problemas terrestres.

Por outro lado, existem aqueles cujas motivações são inegoístas e que, no entanto, parecem ser igualmente escravos do hábito de trabalhar em excesso.  Neste caso, é o medo de serem incapazes de terminar uma tarefa a tempo que frequentemente os leva a uma atividade ansiosa, impaciente.  Para eles, o conhecimento da lei cíclica do Carma deveria produzir uma compreensão de que, quando trabalhamos calmamente e de acordo com a lei natural, a própria natureza se coloca ao nosso serviço. “Se estivermos no rumo correto, haverá tempo e ocasião para cumprir todos os deveres e nenhum deles será esquecido (…..). Vivendo e agindo de modo integral e correto no momento presente e em toda vida, a força dinâmica do  cérebro irá atuar de modo integral, e completo, e não haverá exaustão.”

Como alguém pode determinar por si mesmo se está controlando qualquer tarefa em especial, ou se está sendo controlado por ela? Em algum momento adequado ele deve perguntar-se: “Posso parar esta atividade antes de ela estar completa? Posso interromper esta linha de pensamento?  Posso parar este desejo ou sentimento? Sou capaz de parar e desistir de tudo e de qualquer coisa conforme a minha vontade?”  Frequentemente, a vida produz estes testes através de interrupções constantes, às quais todos estão sujeitos nesta época de exigências que se contradizem umas às outras. Se a nossa resposta é o aborrecimento, ou uma retirada mental apenas parcial da tarefa que é preferida, a lição ainda está por ser completamente aprendida.

Para o hindu, o terceiro deus da trindade é Shiva, o destruidor. Brahma e  Vishnu são o poder criador e o poder preservador da natureza. Será difícil compreender por que uma divindade tão agressiva como Shiva pode ter tantos devotos leais?

Cada ser humano é uma combinação de Brahma, Vishnu e Shiva. Ele deve ter muito cuidado se só Brahma e Vishnu parecem prevalecer em si. Porque sem o exercício do poder de destruir a concha aprisionadora do apego − tantas vezes construída em torno de interesses, ideais, sentimentos, interpretações e até afetos − não pode haver a criação que leva ao progresso, nem a preservação de experiências da alma que são novas e mais valiosas.




Revista “Theosophy”




Fonte: "Filosofia Esotérica"
http://www.filosofiaesoterica.com/a-importancia-de-saber-parar/
Fonte da Gravura: tumblr.com




NOTAS:

[1] Veja em nossos websites associados a íntegra do artigo “O Progresso Espiritual”, de Helena Blavatsky.  (CCA)

[2] Capítulo I da parte dois, na Autobiografia de Mohandas Gandhi. O capítulo é intitulado “Raychandbai”. Na edição de Penguin Books, Londres, veja as páginas 92-93. (CCA)



O artigo acima foi publicado em janeiro de 1953 pela revista “Theosophy”,  em Los Angeles, pp. 100-104. O seu título original é “The Power to Stop”.  Em língua portuguesa, foi publicado inicialmente no boletim eletrônico “O Teosofista”, edição de agosto de 2009.

terça-feira, 4 de abril de 2017

CHOQUE DE RETORNO


Em cada dia, os acontecimentos a que assistis ou em que sois protagonistas, assim como as pessoas que encontrais, inspiram-vos certos pensamentos e certos sentimentos. Mas ficai a saber que, consoante a sua natureza e a força que lhes comunicastes, esses pensamentos e esses sentimentos seguem um determinado caminho no espaço e depois voltam ao seu lugar de origem, isto é, vós mesmos. Se esses pensamentos e esses sentimentos forem justos, generosos, chegar-vos-hão bênçãos, mas, se eles forem infectados por um veneno saído da vossa cabeça e do vosso coração, não vos admireis se também vos sentirdes envenenados. Chama-se a isso choque de retorno, e é uma lei que age tanto para o bem como para o mal. É claro que, mesmo sendo discípulos da Ciência Iniciática, vós não conseguireis controlar de um dia para o outro os vossos pensamentos e os vossos sentimentos, mas o essencial é que tomeis cada vez mais consciência da importância que tem esta questão. Algum tempo depois, não só sereis senhores do vosso psiquismo, mas também, quando certas influências nocivas vindas do exterior tentarem atacar-vos, sereis capazes de as repelir.




Omraam Mikhaël Aïvanhov






Fonte: http://www.prosveta.com
Fonte da Gravura: instagram.com