quinta-feira, 28 de maio de 2020

KARMA E DHARMA


A teoria completa da reencarnação também deve abrigar o conteúdo da memória reencarnatória, bem como determinados envolvimentos de causa e efeito que possam ocorrer entre duas encarnações díspares.

A memória reencarnatória é fácil de compreender, pois presumimos que existe uma janela não local que está sempre aberta entre reencarnações. Normalmente, não temos consciência dela mas, no momento da morte, quando o apego ao ego fica extremamente reduzido, podemos ficar particularmente cientes dessa janela não local e ter uma visão panorâmica de nós mesmos ao longo de diversas existências.

Do mesmo modo, no momento do nascimento, como o apego ao ego ainda não se formou, a abertura da janela não local pode permitir que uma experiência panorâmica das encarnações fique armazenada na memória do recém-nascido. Existem muitas informações para apoiar esta teoria.

Em experiências de quase-morte, muitas pessoas descrevem, de modo explícito, uma visão panorâmica desta vida e, às vezes, até de vidas passadas. Do mesmo modo, embora ninguém se lembre imediatamente do momento do nascimento, com o uso de técnicas especiais estas memórias foram evocadas e são consistentes com a visão panorâmica de vidas passadas. Grof usa a técnica de respiração holotrópica para regressão ao nascimento ou mesmo antes do nascimento. Muitos de seus pacientes se lembram de dados reencarnatórios. Já mencionei os terapeutas de regressão a vidas passadas. Eles também acham correto regressar seus pacientes ao início da infância para extrair memórias de vidas passadas.

Como ocorre um envolvimento de causa e efeito entre duas pessoas que continuam unidas entre esta encarnação e a seguinte? Se duas pessoas estão correlacionadas por meio da não localidade quântica e uma delas causa o colapso de um evento e o experimenta, um evento correlacionado de colapso torna-se uma certeza para o parceiro envolvido, exceto que o momento exato do colapso desse evento não precisa ser especificado. Pode ocorrer em qualquer momento no futuro, mesmo que o futuro seja na próxima encarnação. Essa é a natureza da não localidade quântica. Deste modo, uma causa nesta vida pode se propagar não localmente para a próxima vida, precipitando um efeito não local. Os teosofistas usam a palavra sânscrita karma para denotar essas conexões não locais de causa e efeito entre encarnações.

No entanto, há essas propensões mentais e vitais que também são efeitos que levamos de uma vida para outra. Chamei essas propensões de karma em um trabalho anterior, embora a palavra sânscrita samskaras também seja usada para essa transmigração em particular.

Há uma terceira conotação que pode ser dada à palavra karma. Há o repertório de contextos supramentais que aprendemos para viver; são levados conosco de um nascimento para outro. São o que os teosofistas chamam mente superior e também é algo que se propaga de uma vida para outra; portanto, pode ser chamado karma.

Definido desse modo, o karma abrange tudo que transmigra de uma vida para as seguintes. Dessa forma, podemos falar de karma acumulado ao longo de muitas vidas até a presente. É claro que podemos falar de karma futuro, que se refere ao karma que formamos na vida presente.

Entretanto, a literatura oriental sobre reencarnação inclui mais um conceito relacionado ao karma – o karma ambiente (prarabdha, em sânscrito), o karma que frutifica nesta vida. Prarabdha é a porção do karma passado responsável por nosso corpo atual. A ideia é que não levamos todas as propensões de nosso karma acumulado para a vida que estamos vivendo agora, e sim um número selecionado de karmas. A surpresa das surpresas é que esta ideia foi confirmada por dados empíricos graças à pesquisa de um terapeuta de vidas passadas, chamado David Cliness. Ele estudou inúmeros pacientes que se recordam de diversas vidas passadas. Curiosamente, descobriu que as pessoas não trazem para a vida atual todos os contextos e propensões adquiridos previamente nestas vidas anteriores. Ele usou a linguagem do jogo de pôquer para descrever a situação; é como se a pessoa jogasse este jogo com as propensões e contextos adquiridos e escolhesse cinco cartas do baralho, onde 52 estão disponíveis.

Podemos teorizar. Por que traríamos uma seleção específica de karma ambiente? Porque queremos nos concentrar em uma agenda específica de aprendizado para esta vida. Essa agenda de aprendizado tem o nome de outra palavra sânscrita, dharma (grafada com “d” minúsculo para diferenciá-la da palavra Dharma com “d” maiúsculo, que denota o Todo, o Tao).

Essa ideia da vida como a realização de uma agenda de aprendizado pode fazer lembrar o maravilhoso filme O feitiço do tempo [Groundhog day], no qual o herói reencarna (por assim dizer) entre uma vida e outra com uma agenda de aprendizado simples, mas muito importante – o amor.

Mais uma coisa que posso dizer sobre o dharma: quando cumprimos a agenda de aprendizado que trouxemos para esta vida, a vida se torna cheia de êxtase. Se, pelo contrário, encontramos êxtase na vida, podemos concluir que estamos cumprindo nosso dharma. O mitologista Joseph Campbell costumava dizer: “Siga sua felicidade”. Ele sabia.


Amit Goswami



Fonte: do livro "DEUS NÃO ESTÁ MORTO"
Tradução de Marcello Borges
Ed. Goya, SP
www.editoragoya.com.br
Fonte da Gravura: https://www.shutterstock.com/image-vector/karma

A BUSCA DO SILÊNCIO CONTEMPLATIVO NOS HESICASTAS E NOS MÍSTICOS CRISTÃOS


A busca do silêncio contemplativo nos hesicastas

O hesicasmo é a tradição mística do Oriente. (1) Nessa tradição, se enfatiza a necessidade da oração descer ao coração. O monge que ensinou a oração ao peregrino lhe leu uma passagem da Filocalia onde “São Simeão, o Novo Teólogo”, diz:

"Permanece sentado no silêncio e na solidão, inclina a cabeça, fecha os olhos; respira mais devagar, olha, pela imaginação, para o interior de teu coração, concentra tua inteligência, isto é, teu pensamento, da tua cabeça para teu coração. Dize, ao respirar: 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim', em voz baixa, ou simplesmente em espírito. Esforça-te para afastar todos os pensamentos, sê paciente e repete muitas vezes esse exercício. (2)

(...) Ao cabo de certo tempo, senti que a oração por si só passava para meu coração, isto é, que meu coração, ao bater regularmente, ia recitando as santas palavras no ritmo das batidas, por exemplo: 1 – Senhor, 2 – Jesus, 3 – Cristo, e assim por diante." (3)

Segundo os monges do deserto, esse é o caminho mais seguro para Deus. Nouwen cita Arsênio: “Muitas vezes me arrependi de ter falado”, disse Arsênio, “mas nunca de ter permanecido em silêncio”. (4) O silêncio é precioso. A partir do silêncio, as palavras adquirem um significado mais profundo. Como diz Leloup: “Pela palavra, gastamos muita energia, e pelo silêncio, recolhemos esta energia, que nos tornará capazes de dizer ‘palavras dignas do silêncio’, tão fortes como ele”. (5) Somente quem sabe silenciar, também sabe escutar. (6) “O silêncio dos lábios para os antigos devia levar ao silêncio do coração que, por sua vez, podia levar ao silêncio do Espírito”. (7) Contudo, não podemos esquecer que esse silêncio é dom de Deus. Thomas Merton o descreve:

"Assim como Moisés, na solidão do Monte Horeb, conduziu seus rebanhos até as regiões mais recônditas do deserto e, ali, contemplou a sarça ardente e ouviu a voz que lhe falou, aprendendo dessa voz o Nome Santo e indizível de Deus, assim também, penetra o monge no ermo, pelo silêncio e a perfeita solidão. Ali, descobre a ‘sarça ardente’, isto é, o seu próprio espírito, que arde como o fogo de Deus sem se consumir. Para contemplar esse tremendo mistério deve imitar Moisés e retirar as ‘sandálias’ de seus pés – ou elevar-se acima de todos os conceitos que possa ter sobre Deus, pois o Deus de quem ele se aproxima não é um mero ‘objeto’ capaz de ser contido dentro dos limites de um conceito. É o Deus Vivo, ardendo como chama intangível, na própria substância de nosso espírito, que dele recebe toda a sua vida. Só a alma que arde nessa chama divina pode percebê-lo. A chama de Deus é a chama de pura vida, do Ser Infinito, da Realidade Absoluta. Só o podem conhecer aqueles que abandonaram toda falsidade e ilusão, toda mentira e fingimento. Mais que isso, abandonaram-se a si próprios, elevaram-se acima de si mesmos, passando além de si. Transcendendo-se desse modo, realizaram-se com a máxima perfeição, não mais vivendo em si mesmos, mas nele." (8)

A busca do silêncio contemplativo nos místicos cristãos

Segundo o Frei Patrício, “os místicos são atraídos pelo mistério; eles não querem compreender, querem permanecer a contemplar silenciosamente o mistério.” (9) Para contemplar silenciosamente o mistério, se faz necessária a solidão. A solidão propicia o silêncio, que auxilia na contemplação do mistério. A solidão “tem por finalidade colocar a alma em estado de silêncio e receptividade, para que se abram as profundezas espirituais à ação do Espírito Santo, que faz conhecer os mistérios do reino de Deus e nos ensina as insondáveis riquezas do amor e da sabedoria de Cristo”. (10) O monge beneditino Anselm Grün nos fala da mística cristã:

"De uma maneira substancialmente mais otimista fala-se da experiência silenciosa de Deus na mística alemã da Idade Média. Para Mestre Eckhart, Johannes Tauler e Heinrich Seuse, o degrau mais elevado da oração é a união silenciosa com o mais profundo da alma, onde o próprio Deus repousa sem qualquer imagem. Quando nos desvinculamos de todas as nossas imagens, e mergulhamos no fundamento mais íntimo de nós mesmos livre de toda e qualquer imagem, então nós somos um com Deus. Mestre Eckhart acha que as imagens que fazemos de Deus podem impedir que o próprio Deus entre em nós: ‘A própria imagem criada que se fixe em ti é tão grande como Deus: ela impede a presença de Deus inteiramente. Na medida em que esta imagem penetra em ti, Deus tem que ceder lugar, e na medida em que ela sai Deus entra’". (11)

É como se houvesse um desnudar do ser humano de todas as imagens e ideias, desbloqueando o caminho para Deus. “Quando tivermos renunciado a todos os pensamentos próprios, quando tivermos mandado embora o Deus que nós criamos, estaremos dando a Deus a possibilidade de nascer em nós.” (12) Anselm Grün diz mais:

"Em cada um de nós existe um lugarzinho onde o silêncio é completo, um lugar livre de ruído dos pensamentos, livre das preocupações e desejos. É um lugar em que nós mesmos nos encontramos inteiramente em nós. Este lugar, que não é perturbado por nenhum pensamento, é para Eckhart o que existe de mais precioso no homem, o ponto onde o verdadeiro encontro entre Deus e o homem pode ocorrer. A este lugar do silêncio nós precisamos avançar. Não temos necessidade de criá-lo, ele já existe, apenas está obstruído por nossos pensamentos e preocupações. Quando desobstruímos em nós este lugar do silêncio, poderemos encontrar Deus assim como ele é. Então não nos fixamos em nós e em nossos pensamentos, mas nos desvinculamos inteiramente de tudo, deixamo-nos cair no mistério de Deus que nos sustenta. Então não prescrevemos a Deus como ele tem que vir ao nosso encontro, mas nos abrimos para a sua vinda assim como ele a imaginou. Mesmo depois de havermos desobstruído em nós este lugar do silêncio, não podemos forçar uma experiência de Deus. Também aqui não podemos sentir senão o vazio e a escuridão. Mas então estaremos abertos à sua chegada, sem que estejamos curiosos e impacientes na expectativa de uma experiência de Deus."


Rolf Roeder - Teólogo



Notas:

1Cf.  __________. O peregrino russo – três relatos inéditos, p. 10.
2 __________. Relatos de um peregrino russo, p. 23
3 Ibid., p. 34.
4 Henri J. M. NOUWEN. A espiritualidade do deserto e o ministério contemporâneo, p. 39.
5 Jean-Yves LELOUP,. Escritos sobre o Hesicasmo, p. 38-39.
6 Sugiro a leitura do livro de “Anselm GRÜN. As exigências do silêncio.
7 Anselm GRÜN. As exigências do silêncio, p. 44.
8 Thomas MERTON. A Vida Silenciosa, p. 156-157.
9 Frei PATRÍCIO, ocd. O barulho adoece e o silêncio cura, p. 38.
10 Thomas MERTON. A Vida Silenciosa, p. 130.
11 Anselm GRÜN, As Exigências do Silêncio, p. 81-82.
12 Anselm GRÜN, As Exigências do Silêncio, p. 82.
13 Ibid., p. 81-83.



Fonte: https://www.academia.edu/8211016/A_busca_do_sil%C3%AAncio_contemplativo_nos_hesicastas_e_nos_m%C3%ADsticos_crist%C3%A3os
Fonte da Gravura: Fotografías de Rosa Sorrosal
http://www.good-will.ch/postcards_es.html

A DESCOBERTA DO NOSSO VERDADEIRO SER


A compreensão Zen - a descoberta do nosso verdadeiro ser - surge apenas a partir da prática repetitiva e disciplinada.

A compreensão dos princípios subjacentes a uma arte Zen não se baseia num entendimento cognitivo ou intelectual. Mais exatamente, fundamenta-se na percepção intuitiva dos princípios subjacentes ao Universo tal como eles se aplicam àquela arte em particular. Trata-se de uma forma de intuição Zen aplicada a uma atividade em especial. Por essa razão, Leggett (1) descreve os Caminhos como "representações parciais do Zen em determinadas áreas". Uma vez que são desprovidos de forma, os princípios subjacentes a uma arte não podem ser descritos por completo nem diretamente aprendidos. A filosofia do ensino das artes Zen consiste no aprendizado dos princípios fundamentais através da prática repetitiva das técnicas. Elas representam formalizações da compreensão que os mestres têm dos princípios; podem ser consideradas aproximações dos princípios subjacentes. Assim, o hassetsu (2) é um conjunto de técnicas que, na melhor das hipóteses, são aproximações da maneira naturalmente correta de disparar uma flecha. Essas técnicas podem levar o estudante apenas até certo ponto. No fim das contas, cada estudante tem de enxergar os princípios subjacentes por si mesmo, e isto só pode ser alcançado através de intermináveis repetições dos oito estágios do kyudô (3). O que nos leva a uma explicação mais aprofundada do adágio "milhares de repetições, e a perfeição emerge a partir de nosso verdadeiro ser". No kyudô, assim como nos outros Caminhos, a compreensão Zen - a descoberta do nosso verdadeiro ser - surge apenas a partir da prática repetitiva e disciplinada.


Kenneth Kushner



Notas:

1 T. Leggett,_Zen and the Ways, Boulder, Shambhala, 1978, p. 125
2 Hassetsu: Os oito estágios do kyudô; sequência de disparo formalizada.
3 Kyudô: O Caminho do arco.



Fonte: do livro "O Arqueiro Zen e a Arte de Viver", Kenneth Kushner, pp. 25-6
Ed. Pensamento, SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/tori-japon%C3%AAs-santu%C3%A1rio-torii-1976609/

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A UNIDADE ALÉM DA DUALIDADE


Nossa meditação nos expõe a profundas feridas em nossa natureza e, nos força a encarar o sofrimento da humanidade, desde o início dos tempos. Ela cultiva a compaixão e, isso por sua vez precisa se expressar como compaixão em nossas vidas.

Precisamos superar a dualidade da mente consciente que nos separa de Deus e uns dos outros, e compreender que, em Cristo, essa dualidade foi superada. Vocês sabem, o pecado original é uma queda em direção à dualidade. O ser humano original foi criado para ser unificado em corpo, alma e espírito e assim estar aberto a Deus. A queda da humanidade é a queda do espírito à psique, o que vale dizer, ao ego, ao eu separado. Em lugar de nos abrirmos constantemente a Deus no espírito, caímos em nosso ego, e nos fechamos no medo e na luta, para nos auto-preservarmos. Cristo veio para nos libertar dessa dualidade. Uma vez que você cai em direção à psique, tudo se torna dual, o bem e o mal, certo e errado, branco e preto, consciente e inconsciente, mente e matéria, sujeito e objeto, verdade e erro. A mente racional dualiza tudo. Ela enxerga tudo em termos de pares de opostos.

Porém, sempre além do dualismo da mente está o espírito unificador. A meditação nos leva além das dualidades, em direção ao espírito unificado. Jesus é aquele que rompeu a divisão em nossa natureza. São Paulo nos diz que ele “destruiu a muralha divisória”. No Templo, em Jerusalém, havia uma muralha que nenhum gentio podia cruzar. Caso o fizesse, ele seria executado. Era para os judeus, o povo escolhido. Essas pessoas ficavam de fora. Jesus destruiu essa muralha divisória, franqueando o Templo a toda a humanidade. Todavia, nós construímos todas essas muralhas novamente, dividindo o mundo e, é claro, que este tem sido o nosso problema.

Jesus destruiu a muralha divisória, como diz São Paulo, e isto é a hostilidade dentre nós, e reconciliou-nos em um corpo na cruz. Necessitamos, hoje em dia, levar a sério essa visão de que a humanidade é um corpo, um todo orgânico. Os Padres possuíam esse forte sentimento do Adão que está em toda a humanidade. São Tomás de Aquino, numa bela frase, nos disse: 'Omnes homines, unus homo', todos os homens são um homem, um todo orgânico. Somos todos membros deste único Homem que caiu e se dividiu em conflitos e confusão. E Jesus restaurou a humanidade, não apenas judeus ou cristãos, ou qualquer grupo em particular, mas a humanidade a essa unicidade, o novo Adão, a raça humana consciente de sua unidade fundamental e de sua unidade com o cosmos. Isso é o que hoje estamos recuperando. Estamos começando a redescobrir a humanidade que nos é comum. A televisão que traz os eventos de todas as partes do mundo para tão perto das pessoas está nos ajudando a compreender que as coisas que acontecem no Iraque e em outros lugares, são parte de nossos próprios problemas. Enxergamos a humanidade como parte de um todo cósmico. Somos todos parte deste planeta, moldados por ele e estamos crescendo e vivendo a partir dele. Somos todos partes uns dos outros, estamos crescendo através de contatos uns com os outros, assim como um todo orgânico. Estamos recuperando essa unidade, além da dualidade, por direito de nascimento.

Em nossa tradição hebraica, a dualidade é muito forte. Penso que a humanidade teve que passar pelo dualismo para aprender a diferença entre o certo e o errado, o bem e o mal, a verdade e o erro. Você precisa passar por esse estágio de separação e divisão, porém você precisa transcendê-lo. O Velho Testamento geralmente reflete essa dualidade: eram sempre os israelitas que eram o povo sagrado e de fora ficavam os gentios que deveriam ser rejeitados. Os bons deveriam ser separados e os maus condenados. Esse dualismo permeia toda a tradição judaica.

Jesus é originário dessa tradição judaica e frequentemente se utilizava de sua linguagem de rejeição e condenação. Ainda assim, ele ia sempre além dela e nos levava ao ponto onde transcendemos todas as dualidades. Há uma maravilhosa expressão disso no evangelho de São João: “afim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós.” Jesus é completamente um com o Pai mas, mesmo assim, ele não é o Pai. É uma relação não dual. Não é um, e não é dois. É um mistério de amor. O amor não é um, e não é dois. Quando duas pessoas se unem no amor elas se tornam uma e ainda mantém sua distinção. Jesus e o Pai possuíam essa completa comunhão em amor e ele nos pede para nos tornarmos um assim como ele é um com o Pai, unicidade completa, no ser não-dual do Pai. É o chamado cristão, para a recuperação dessa unidade.

Na Índia, essa ideia da não-dualidade, advaita, é fundamental. A tradição indiana possui esse sentido de ir além das dualidades. Os cristãos de nossos dias podem aprender muitas coisas da tradição indiana e particularmente esse entendimento do advaita, a não-dualidade. O cristianismo desenvolveu, a partir de Israel, uma tradição de dualismo. Atravessou a cultura greco-romana, que também era dualista, ainda que de um modo diferente, mas mesmo assim continuou. Porém, hoje, estamos nos encontrando com as religiões da Ásia e estamos começando a descobrir o princípio da não-dualidade. É o chamado fundamental da humanidade. A não-dualidade não é um, e nem é dois, e não é racional. A mente racional requer que tudo seja um ou dois, enquanto que a não-dualidade, que está além do racional, afirma uma relação que não é um e também não é dois. Somente através da meditação passamos além dessa dualidade. Estamos sendo chamados a recuperar a unidade, além da dualidade, que é nosso direito por nascimento e que, só ela, pode atender a mais profunda carência da humanidade hoje.

Tenho planos para um livro sobre as Escrituras do mundo, para ser lido por cristãos e outros, no qual eu tente mostrar que todas religiões, hinduísmo, budismo, taoismo, islamismo, judaísmo e cristianismo, todas elas, possuem um elemento dualístico, a partir do qual começam e, em seguida, se dirigem a esse não-dualismo. Judaísmo e islamismo são especialmente dualistas em suas escrituras; tendem a sempre ser dualistas e podem ser repletas de terríveis acusações a não-crentes e descrições de sua condenação e punição. Este é um estágio da religião que não devemos rejeitar e que as pessoas tem de atravessar. Os sufis dos séculos oito e nove, no Islam, foram além, direto para o não-dualismo; o não-dualismo sufi é exatamente similar ao não-dualismo indiano, assim como o não-dualismo de Mestre Eckhart, de nossa tradição cristã. Toda religião, através de sua tradição mística, vai além do dualismo, para o não-dual. Este é o nosso chamado, ir além do dualismo.

A meditação é o único caminho para se ir além do dualismo. Quando a mente cessa, você descobre o princípio unificador por trás de tudo. Esta é nossa verdadeira esperança e nosso chamado. Isto é importante, e penso que no movimento da meditação Deus está nos conduzindo, e a humanidade através de nós pela meditação. É um chamado que percorre todo o mundo. Por toda parte pessoas estão se encontrando, descobrindo esta carência e atendendo-a nos diferentes caminhos da meditação.

Estamos todos sendo chamados a abrir nossos corações ao mistério não-dual da Santíssima Trindade. É a comunhão de amor. É a Realidade não-dual. É o nosso chamado hoje.

Om  (Om)
Saha Nāvavatu, Saha Nau Bhunaktu (Possa Ele proteger-nos juntos - revelando conhecimento)
Saha Viryam Karavāvahai (Possamos obter vigor, juntos)
Tejasvināvadhitamastu (Que nosso estudo seja revigorante)
Mā Vidvishāvahai (Possamos nunca hostilizar um ao outro)
Om Śāntih Śāntih Śāntih (Om Paz Paz Paz)
Mantra do Katha e Śvetāshvatara Upanishads


Pe. Bede Griffiths, OSB*



Fonte: Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
http://www.wccm.com.br/series-de-palestras/61-meditacao-e-a-nova-criacao-em-cristo/388-a-unidade-alem-da-dualidade
Fonte da Gravura: Tumblr



*Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

RUMI - A PAIXÃO PELA UNIDADE


(Excertos)
Na rica tradição mística do islã, Rûmî tem despontado como uma de suas figuras mais luminosas. Como místico, revelou com grande intensidade poética os temas do amor e da unidade do ser humano com o mistério sempre maior de Deus. O objetivo deste artigo é situá-lo na tradição do sufismo e apresentar, de forma sintética, alguns traços de sua reflexão mística: a paixão pela unidade, o trajeto para a unidade, a evidência de Deus e a religião do amor.

O grande interesse suscitado pelo diálogo inter-religioso nos tempos atuais tem favorecido o processo de aproximação teórico e existencial de tradições religiosas distintas e de suas experiências místicas. Impõe-se com cada vez maior clareza a necessidade deste contato mais estreito, desta abertura à alteridade, como requisitos essenciais para uma justa avaliação das outras tradições religiosas. 

Na visão de uma autora que consagrou sua vida a estudar e a traduzir a extensa obra de Rûmî para o francês, Eva de Vitray-Meyerovitch, a mensagem desse místico traduz um radical universalismo: “uma mensagem de amor que retoma os valores mais essenciais do Cristianismo e do Islã, sem deles nada negar, acrescentando-lhes uma dimensão integralmente fraterna e ecumênica.”[1]

O Sufismo é o nome mais recorrente para designar a experiência mística do Islã, traduzindo uma “dimensão interior” muitas vezes desconhecida ou desapercebida da tradição islâmica. O termo Sufismo, tradução de tasawwuf, deriva-se da raiz suf, que em árabe significa lã. De fato, na experiência primordial do sufismo, os primeiros ascetas revestiam-se com o hábito de lã, de modo semelhante aos eremitas cristãos, em sinal de penitência e destacamento do mundo. A ideia que predomina é a da “pureza”(safa), sendo o sufi aquele “puro de coração” em razão da presença envolvente do Bem Amado. Na busca de uma definição mais sintética, G.C. Anawati indicou que a mística sufi constitui um “método sistemático de união íntima, experimental, com Deus.”[2] Não há, porém, uma definição que esgote a complexidade do fenômeno.

Rûmî ilustrou de forma admirável tal complexidade através da parábola do elefante, descrita no terceiro livro do Masnavi: “Alguns hindus estavam exibindo um elefante num quarto escuro, e muita gente se reuniu para vê-lo. Mas como o quarto estava escuro demais para que eles pudessem ver o elefante, todos procuravam senti-lo com as mãos, para ter uma ideia de como ele era. Um apalpou sua tromba e declarou que o animal parecia um cano d´água; outro apalpou sua orelha, e disse que devia ser um leque enorme; outro sua perna, e pensou que fosse uma coluna; outro apalpou seu dorso e declarou que o animal devia ser como um grande trono. De acordo com a parte que apalpava, cada um deu uma descrição diferente do animal. Um, por assim dizer, chamou-o de Dal e outro de Alif.”

Como indicou Rûmî, a compreensão do Sufismo exige uma capacidade particular de apreensão da realidade que escapa ao olhar sensorial comum. Assim como a palma da mão, na parábola descrita, não consegue captar a totalidade do elefante, da mesma forma o olho da “percepção sensorial” é incapaz de alcançar a complexidade do Real.

O Sufismo remonta às origens do Islã e durante todo o seu desenvolvimento esteve radicalmente ligado à tradição islâmica. Em nenhum momento afirmou-se como ruptura com a fé corânica, evoluindo sempre na linha de sua interiorização e aprofundamento. Isto não significa a ausência de outras influências judaico-cristãs que marcavam o meio onde o Islamismo veio se firmar, ou de outras tradições religiosas que o Islã, em seu processo de expansão, encontrou pelo caminho. Os autores falam, sobretudo, do influxo cristão, neoplatônico, gnóstico e budista. Apesar de sua profunda ligação corânica, os místicos sufis encontraram em sua trajetória uma viva oposição da ortodoxia islâmica, que resistiu ao singular sentido alegórico atribuído pelos sufis aos ritos e cerimônias tradicionais, bem como à sua peculiar interpretação do Corão. A tensão entre esoterismo e exoterismo não é exclusiva da tradição sufi, mas comum às diversas tradições religiosas. Há, sempre, a presença de dificuldades, tensões e mesmo conflitos abertos entre os guardiães da religião oficial, que se pretendem portadores da exclusiva gramática das normas, dogmas e práticas consideradas legítimas, e aqueles que buscam a dinâmica de uma religião interior, que não se detém diante das diferenças, na busca do mistério sempre maior de Deus.

Não há místico sufi tão conhecido no Ocidente como Djalâl-od-Din Rûmî. Na visão de Erich Fromm, Rûmî foi “um dos maiores humanistas e místicos muçulmanos”, antecipando em duzentos anos traços essenciais do humanismo renascentista, como as ideias da tolerância religiosa e da força criativa fundamental do amor.[3]

O decisivo acontecimento espiritual em sua vida foi, porém, o encontro com o velho nativo Shams ud-Din de Tabriz, no ano de 1244. O encontro de Rûmî com o dervixe errante, que tinha cerca de 60 anos, provocou a grande transformação em sua vida. Há inúmeras versões sobre o encontro destes “dois oceanos espirituais”, e todas elas indicam a experiência de estupefação mútua que fez brotar uma das mais espetaculares e ricas histórias de união mística. Segundo José Jorge de Carvalho, esta profunda união entre dois indivíduos é singular e única, “algo extremamente raro, em que duas pessoas conseguiram penetrar as esferas recônditas da realidade extra-sensorial e extra-racional, e ver juntos a mesma dimensão, o mesmo espaço, a mesma fração da verdade absoluta.” Da inspiração desse encontro nasceu uma das obras mais vastas e impressionantes de poesia mística, as famosas odes místicas de Rûmî, o Divan de Shams de Tabriz, inteiramente consagrado à experiência do amor, que, para além de sua manifestação terrestre, expressa a hipóstase do amor divino.

Na linha da tradição mística sufi, há em Rûmî uma visceral paixão pela unidade. Esta “consciência do Uno” foi saudada por Hegel em sua enciclopédia filosófica. Ele destacou no místico a presença “da unidade da alma com o Uno”, enquanto “elevação sobre o finito e o vulgar, uma transfiguração da naturalidade e da espiritualidade, na qual o que há de extrínseco e transitório na natureza imediata, como no espírito empírico e terreno é absorvido.” Na base da compreensão metafísica de Rûmî está a convicção na unidade da existência (wahdat-e-wudjud). Uma unidade provisoriamente rompida na dinâmica existencial da individualidade pelo golpe da separação do espírito humano de sua origem fundamental. Há uma nostalgia permanente do ser humano, que anseia retornar à fonte e à união com o Amado. A nostalgia manifesta-se como amor, que não é senão uma expressão da “sede metafísica” pela unidade. Há em Rûmî um desejo imenso de Deus, uma paixão pela unidade que “passa além das fronteiras. Da razão e da loucura. Do inferno e do paraíso. Das confissões. Tamanha a sua paixão pela unidade que muitos confundiram-no - erro formidável - com um panteísta. Deus em sua Unidade é o tesouro escondido, mais perto do humano do que sua própria veia jugular. Mais próximo do humano que o vínculo que o une à sua própria alma. Para Rûmî, a única e exclusiva realidade é a unidade. A multiplicidade não passa de aparência e ilusão. Não pode haver senão unidade da existência. O véu que, para ele, separa o ser humano de sua origem é o “sentimento de ser um existente independente e abandonado no seio de uma multiplicidade que não é senão ilusória.” O “Ser Absoluto” (al wujûd al-mutlaq) é, para ele, a essência de tudo o que existe. O ser de Deus é único em seu princípio e múltiplo em sua forma de manifestação. A Realidade é simultaneamente una e fonte de toda existência limitada, que é sempre existência derivada. Para Ibn´Arabi, Deus é sempre a Unidade que está por trás da multiplicidade e das aparências. Na perspectiva de Rûmî, o horizonte do ser humano está para além do “eu” e do “nós”. Não existe “eu” e nem “nós” no mundo da Unidade.

Seguindo uma lógica presente na tradição islâmica, Rûmî assinala que é necessário “morrer antes de morrer” (M IV, 2271,2272 e 1372). Trata-se de condição fundamental para o renascimento do ser espiritual (M V, 551). Não há como se achegar ao Bem Amado, senão renunciando à própria vida. “Diante de Deus, não pode haver dois “Eu”. Tu dizes “Eu” e Ele diz “Eu”; ou bem tu morres diante d´Ele ou então Ele que morre diante de ti, para que toda a dualidade desapareça. Mas Ele não pode morrer nem objetivamente, nem subjetivamente. Pois, Ele é o ser vivo que não morre jamais.” O morrer antes de morrer corresponde para Rûmî à morte mística, que deve anteceder à morte física. Trata-se da morte do “pequeno eu.” Este estado de aniquilação do eu e sua absorção no Amado é o ideal místico de fanâ (MI, 3054). Esta absorção no Amado faz com que a condição efêmera do ser humano transforme-se em realidade eterna, que não morre jamais. Rûmî serve-se do exemplo da fragilidade da gota d´água, sempre ameaçada pela impetuosidade do vento e da terra. Ela só se protege do risco de sua dispersão quando é lançada no mar, que é a sua fonte. No mar, ela está protegida do calor do sol, do vento e da terra. No mar, sua forma exterior desaparece, mas sua essência permanece inalterada (M IV, 2615-2618). Para que se dê o acesso ao coração purificado, que possibilita esta experiência de despojamento radical, é necessário, segundo Rûmî, captar o sentido espiritual, uma razão iluminada pela luz divina. Não há outro caminho possível para se alcançar a iluminação, a inspiração divina e a visão mística.

Segundo a compreensão de Rûmî, o acesso ao sentido espiritual ocorre quando supera-se o limite da percepção sensorial. O olho do sentido exterior é como a palma da mão que não consegue captar a totalidade, como sinalizado na história do elefante no quarto escuro. Trata-se de uma percepção limitada, pois ainda muito agarrada à “concha terrena”; ela só consegue vislumbrar a espuma que escamoteia a realidade do mar (M V, 1030-1031). O sentido espiritual escapa à percepção superficial que só enxerga as formas. As formas são tímidas e frágeis diante da realidade. Esta tensão entre as formas e a realidade percorrerá toda a reflexão de Rûmî no Masnavi, e servirá igualmente para o seu firme questionamento da escolástica muçulmana (kalam). Em sua visão não é possível um conhecimento fundado na negação da divina providência. Tal conhecimento não gera senão perplexidade. O verdadeiro conhecimento deve estar permanentemente sob o influxo de Deus (M IV, 3728-3729). Da mesma forma, a ciência dos exotéricos é vivamente questionada por Rûmî. São aqueles que estão limitados às formas exteriores e que se encontram desprovidos de espírito para penetrar na dinâmica da realidade (MI, 1016-1021). Só aqueles que aprenderam a discernir as coisas do espírito, que se encontram habitados pelo conhecimento intuitivo de Deus (ma´rifa), conseguem ver para além das formas e da espuma (M VI, 1460-1461).

De acordo com a visão de Rûmî, o conhecimento de Deus não é obtido pelo intelecto ou pelo conhecimento discursivo (ilm), mas unicamente pela iluminação divina. E o órgão essencial que faculta esta acolhida é o coração (qalb). Não o órgão de carne e sangue, mas o órgão espiritual e sutil da percepção mística. Na tradição sufi, o coração é o “receptáculo cristalino e proteico capaz de refletir todas as epifanias ou atributos de Deus: a inesgotável, infinita manifestação da Divindade na morada da união.”

A contemplação do mistério de Deus possibilitada pela dinâmica do coração exige, antes, a purificação e dilatação deste órgão. Não há como contemplar a morada do totalmente outro quando o coração está obstruído. Só depois de purificado de toda imperfeição é que este órgão passa a refletir o conteúdo profundo do mistério divino (M I, 1394-1396). Trata-se de um processo longo e complexo, que não se realiza sem a presença de um guia (pir). Um passo importante para esta purificação é a busca da humildade e do desapego, o constante trabalho de retirada da ferrugem que impede ao coração refletir de forma viva o mistério que nele habita.

Segundo Rûmî, a estação mais importante no caminho místico e no trajeto para a Unidade é a pobreza (faqr). Não necessariamente a pobreza de um mendicante ordinário, mas sobretudo o estado no qual o sujeito vive a experiência radical de estar absolutamente pobre diante do Criador ou, como diz o Corão, “pobre de Deus” (35,15).

Em toda a obra de Rûmî perpassa a imagem do Deus misericordioso e omnicompassivo (Al-Rahman), de absoluta proximidade (tashbih). Deus, para os muçulmanos, se manifesta sob dois aspectos: da majestade (jalâl) e da beleza (jamâl). Há em Rûmî um acento nesta última dimensão, que pontua o dado da proximidade, do Deus como Amado. Não é possível escapar de sua misericórdia. Deus sempre acompanha o ser humano. Na visão de Rûmî, Deus está presente no íntimo do coração: é o sempre-já-aí.

Nada mais importante para Rûmî do que a gratuidade do amor a Deus, um amor que é auto-finalizado; um amor que existe não em função de um temor ou de uma esperança, mas que encontra em Deus mesmo sua razão de ser (MIII, 1910-1913; 4595-4599). O amor é um dos temas mais importantes na obra de Rûmî, objeto de seus poemas mais ricos e singelos. Para ele, o amor é “o astrolábio dos mistérios de Deus.” Para Rûmî, o amor é expressão da nostalgia da separação original. Trata-se de uma sede metafísica que anseia pela unidade. O amor humano é etapa e ponte que traduz uma caminhada mais complexa em direção ao Amado. O amor é, para Rûmî, um “estado de alma” que conduz ao horizonte do amor divino e aponta o caminho. Daí sua convicção da importância da religião do amor como a mais sublime forma de todas as religiões. O amor é “o único lugar, o único ponto capaz de religar o eu do ser humano e o mundo da unidade, que é o mundo da divindade.” Rûmî foi sempre considerado um dos místicos mais abertos para a dinâmica inter-religiosa. Trata-se de um verdadeiro apóstolo da abertura ao outro.

Na compreensão de Rûmî, a verdadeira religião distingue-se muitas vezes da religião meramente formal. Como habita no coração do crente verdadeiro, ela traduz um determinado estado da mente, marcado pela humildade e pela dinâmica compassiva. A experiência religiosa autêntica é aquela que bebeu na fonte de um mundo que está para além das palavras, que conformou um novo sentimento, traduzido numa paisagem distinta. Para Rûmî, “as palavras santas não permanecem nos corações cegos e obstinados, mas retornam à luz de onde procederam” (MII, 316). 

Não constitui tarefa simples traduzir a reflexão mística de Rûmî. Toda a sua obra vem desenvolvida com linguagem resguardada pela presença de um simbolismo complexo, de contos esotéricos e significação escondida. A linguagem esotérica, como lembra Pablo Beneíto, é uma linguagem técnica pontuada pela inspiração mística. Trata-se de uma linguagem alusiva, distinta do comentário exotérico do significado explícito. Ela “desempenha uma função fundamental e constitui um procedimento insubstituível no processo de transmissão de experiência imediata ou compreensão interna”. Foram inúmeros anos dedicados por Rûmî à redação de sua extensa obra poética, que culmina no grandioso Masnavi. Muitos de seus poemas foram compostos em estado de grande inspiração mística, e foram ditados, cantados e recitados para os seus discípulos que os guardavam na memória para depois serem escritos.

Quando se toma como referência sua obra fundamental, o Masnavi, que foi talvez o ponto de apoio mais importante na redação deste artigo, percebe-se que ele apresenta uma síntese pessoal reelaborada de quase todas as teorias místicas conhecidas no séc. XIII. Mas de uma tal complexidade que dificulta, quando não impossibilita, a edificação teórica de um sistema místico propriamente dito a partir de suas narrações e parábolas. As noções esotéricas estão pontuadas nos dois níveis, simbólico e explicativo, presentes no Masnavi. A recorrente linguagem simbólica e alusiva serve também como instrumento para resguardar os mistérios da Realidade suprema.

Um dos traços que mais impressionam na leitura de sua obra é a forma peculiar e única com a qual ele expressa a presença do fiel diante do mistério inesgotável de Deus, do fiel que, mesmo desconhecendo a chave de acesso à sua presença, coloca-se à sua sombra: “Um dia, um homem chegou diante de uma árvore. Viu folhas, ramos, frutos estranhos. A cada um perguntou o que eram essas árvores e esses frutos. Nenhum jardineiro o compreendeu, nem sabia o nome da árvore, nem lhe pôde indicar o que ela poderia ser. O homem disse a si mesmo: Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram frescos e verdes. Vou então me colocar a sua sombra.”

A presença deste mistério na vida de Rûmî é tão impressionante que só o silêncio é capaz de dar conta da lâmina de seu conteúdo. Muitos de seus poemas terminam conclamando o silêncio: Silêncio!

Toda a sua obra é um convite para captar este mundo impermeável às palavras, um convite para lavar as mãos e o rosto “nas águas deste lugar.” É no aprendizado deste lugar que se firma a alma dos nobres, dos que buscam a pureza, dos que conseguem captar e tornar esplêndidos cada som dissonante. Ao contrário dos exotéricos, “comedores de argila”, os sufis verdadeiros buscam ardentemente a essência. Para Rûmî, é a alma nobre que perdura. As palavras são acidentes efêmeros, que passam. “As preces rituais, a guerra santa, os jejuns não perdurarão, mas sim o espírito (que habita a pessoa iluminada).” (MV, 249)


Prof. Faustino Teixeira [*]


Notas:

[*] Professor da pós-graduação em Ciência da Religião (UFJF).
[1] Eva de VITRAY-MEYEROVITCH. Islã, l´autre visage. Paris: Albin Michel, 1995, pp. 69-70. A autora sublinha a presença de inúmeros pontos comuns entre Rûmî e São Francisco de Assis, que morreu quando Rûmî tinha 19 anos. Ver também: Id. Rûmî e o sufismo. São Paulo: ECE, 1990, pp. 23 e 54-57; José Jorge de CARVALHO. O encontro de novas e velhas religiões. In: Alberto MOREIRA & Renée ZICMAN (Orgs.). Misticismo e novas religiões. Petrópolis: Vozes/USF/IFAN, 1994, p. 92.
[2] G.C. ANAWATI & Louis GARDET. Mystique musulmane: aspects et tendances - expériences et techniques. 4 ed. Paris: J.Vrin, 1986, p. 13.
[3] Eric FROMM. Prefácio. In: A. Reza ARASTEH. Rumi, el persa, el sufi. Barcelona: Paidos Orientalia, 1977, pp. 12-13.




Fonte: Revista de Estudos da Religião Nº 4 / 2003 / pp. 20-41
http://www.pucsp.br/rever/rv4_2003/p_teixeira.pdf (ver texto completo)
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mesquita-isl%C3%A3o-mu%C3%A7ulmano-ora%C3%A7%C3%A3o-5075059/

terça-feira, 26 de maio de 2020

A META QUE AS RELIGIÕES TEM EM COMUM


Os grupos de meditação introduziram um novo modo de vida, na Igreja, e para a humanidade como um todo. Dom John Main, ao apresentar a meditação com um mantra, revitalizou uma antiga tradição de prece contemplativa da ordem beneditina. Ele, então, estendeu esse meio de meditação e de vida contemplativa aos leigos. Esta tradição de meditação se origina dos Padres do Deserto, e foi transmitida a São Bento por Cassiano. Atualmente ela se espalha por todo o mundo. Possui raízes na antiga tradição da Índia, tendo se tornado um método de prece típico da tradição do Ocidente. Podemos encontrá-la, não apenas no Budismo e no Hinduísmo, mas também entre os sufis no Islã, e no movimento hassídico do Judaísmo.

Qual será o futuro da vida contemplativa, com base nesta tradição na Igreja e no mundo. Em primeiro lugar, acredito que devamos reconhecer que a tradição cristã não pode se sustentar isoladamente. Somos hoje desafiados a ver nossa religião no contexto de outras religiões do mundo. Especificamente, encontramos esse meio de meditação em todas as grandes religiões, e a vida contemplativa deve ser encarada como um chamado para a humanidade. A partir de uma civilização materialista centrada na ciência e na tecnologia, estamos mudando para uma nova era na qual pessoas de todas as partes do mundo se voltam conscientemente para um caminho espiritual, buscando integrar suas vidas, para conduzir todas as coisas ao centro interior do coração, e para encontrar o significado da vida, não no mundo exterior, mas na realidade interior cujo reflexo é o mundo exterior. É no contexto desse novo mundo, que precisamos encontrar o lugar da vida contemplativa na Igreja, e o lugar das comunidades oblatas no incentivo a esse modo de vida.

Costumo repetir esse ponto de vista de que o mundo exterior é um reflexo, tal como em um espelho, do mundo interior. Esse é o ponto de vista da física moderna: o de que quando passamos além das aparências exteriores, em primeiro lugar dos corpos exteriores, depois dos átomos, prótons e elétrons, chegamos finalmente a um campo de energias. Precisamos reconhecer que nós mesmos somos um campo de energia que opera dentro do vasto campo de energias do universo. Projetamos esse mundo tri-dimensional à nossa volta, através de nossos sentidos e de nossas mentes. Esse mundo tri-dimensional é transitório. Trata-se de uma expressão do vasto mistério da energia, que nós criamos e no qual vivemos, e que precisamos transcender. Confundimos sempre os fenômenos exteriores, as aparências, o mundo do espaço e do tempo, com a Realidade, mas estamos lentamente aprendendo que tudo isso é passageiro.

Essas são as grandes conquistas do discernimento da Índia. Acredito que o Buddha, dentre todos os seres humanos, teve o mais profundo discernimento da natureza do universo. Para ele esse mundo das aparências, dos sentidos, era transparente. Ele enxergava tudo como sendo passageiro. ‘Tudo passa. Tudo é sofrimento (no sentido de ser insatisfatório, sem que haja satisfação definitiva)’. ‘Tudo é irreal’, sem substância, sem que haja qualquer fundamento real. Todo esse mundo em que vivemos, o mundo dos sentidos, é o mundo dos fenômenos, das aparências. Todavia, essas aparências refletem a realidade eterna. Assim, vivemos em um mundo de fenômenos passageiros, e todas as coisas estão se alterando, o tempo todo, e tudo está em fluxo e em conflito, tal como num espelho ou nas águas de um lago, está refletindo a realidade divina. Na hora da morte, passamos para além do fluxo dos fenômenos e do corpo, tais como os conhecemos, para adentrar a realidade. Parece-se um pouco com assistirmos à tela da televisão. Vemos os eventos que se passam e, se bem não soubéssemos, poderíamos pensar que é ali que eles estão se passando. Porém, não é na tela que eles estão se passando. Eles se passam além, em algum local, e aquilo que vemos trata-se de uma re-apresentação. Assim, todo o mundo físico é uma re-apresentação, uma manifestação de uma realidade que não vemos.

Toda tradição religiosa possui um termo para essa realidade que não é vista. Na Índia temos Brahman. E por trás do corpo humano temos Atman, o Ser único. O Buddha o chamava nirvana. Quando todos os fenômenos se vão, existe uma ‘explosão’ de todas as aparências, de todas alterações e do vir a ser, e você adentra a Realidade que é Eterna. Em tradição budista posterior, a Realidade é denominada sunyata, a vacuidade. Quando todas as coisas se esvaziam, você tem a vacuidade, que é a plenitude.

Na China, existe o Tao. Confúcio e seus seguidores tinham seus rituais e sua vida, política e socialmente organizada, contudo, Lao Tsé enxergava o Tao por trás disso tudo, o ritmo do universo, a maravilhosa ordem que está por trás de todas as coisas que, todavia, não pode ser vista. Ele sempre usava essa bonita ilustração para a vacuidade: ‘Construímos os raios e a roda de modo a conduzir uma carruagem, todavia, é o espaço vazio do cubo da roda que permite que a roda gire sobre o eixo. Construímos potes de argila, todavia é o espaço vazio do interior do pote que o torna útil. Construímos casas de tijolos, argamassa e madeira, todavia são os espaços vazios, das portas, das janelas, que fazem com que a casa seja habitável’. Assim a vacuidade é tão importante quanto a plenitude.

Na tradição muçulmana, o poeta Sufi Ibn Al Arabi mostrava que por trás do Deus do Alcorão está Al Haqq: a Realidade. No Judaísmo, na Cabala, eles falavam de Ein Sof, o Infinito. Por trás de Iaweh, da Lei, dos Profetas, e de tudo o mais, está Ein Sof, o Infinito.

Todos nós estamos no processo de descoberta de que por trás das projeções do mundo físico, do mundo psicológico, e até mesmo da religião, está a Realidade que buscamos. Karl Rahner a chamava de ‘o divino mistério’, o mistério por trás de todas as coisas. Essa é a meta de nossa busca religiosa. Necessitamos de um mundo físico, e necessitamos dos símbolos da religião, contudo, precisamos ir além deles, para a Realidade. Este é o nosso chamado.


Pe. Bede Griffiths, OSB*



Fonte: Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
http://www.wccm.com.br/series-de-palestras/61-meditacao-e-a-nova-criacao-em-cristo/389-a-meta-que-as-religioes-tem-em-comum
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/religi%C3%A3o-religi%C3%B5es-do-mundo-menorah-2456138/


*Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).

O SUBLIME MISTÉRIO OCULTO NO HOMEM



[...] O Ocultismo sabe que o homem é um ser mental agindo através do corpo físico que lhe serve de instrumento para a aquisição de experiência no plano físico. Ele não é apenas uma entidade mental, mas tem também um núcleo espiritual de potencial ilimitado no qual pode ver a si mesmo como sendo um com a Realidade que fundamenta o universo, geral e vagamente designada como Deus. É através deste Centro espiritual, ou antes divino, oculto sob muitas camadas da mente, que ele pode entrar em contato com todo o universo, em todos os níveis de sutileza e resolver em seu interior, no mais profundo de sua consciência, o total e eterno mistério de sua própria natureza, do universo e da Realidade da qual ambos são derivados. Por conter em si mesmo o sublime mistério de sua existência, oculto nas profundezas de sua mente, é que o homem pode vir a percebê-lo, transcendendo sistematicamente as diferentes camadas da mente.

A filosofia do Ocultismo baseia-se desse modo na revelação sistemática do mistério por um grande número de Adeptos do Ocultismo, alguns dos quais têm se manifestado ao mundo, de tempos em tempos, como sábios, santos e místicos. Esse grupo de homens coordenou a Sabedoria Eterna, repetidamente verificou-a com sua própria experiência e preservou-a através das idades como um legado para toda a humanidade. São esses homens, os verdadeiros guardiães da humanidade, que trabalham constantemente por trás dos bastidores guiando-a pelo caminho da evolução, que é seu destino, com sabedoria e vontade infalíveis.

Pelo exposto acima fica claro que não pode haver comparação entre esta filosofia e a do materialismo. Esta ultima baseia-se em percepções sensoriais de pessoas ainda envolvidas nas limitações da mente inferior e que, com dados incompletos e vagos, tentam desenvolver, sobre o homem e o universo, teorias experimentais constantemente em mutação. A primeira fundamenta-se na experiência direta de seres Auto-realizados e liberados que têm não apenas investigado sistematicamente os mundos mais sutis, como também encontraram a Verdade final da existência e procuram projetá-la nos reinos do pensamento, em benefício daqueles que ainda são prisioneiros de suas próprias mentes.

Nos dias atuais tem-se dado grande consideração às realizações da ciência, como o homem está descobrindo os segredos do átomo, sondando cada vez mais as enormes profundezas do espaço, caçando micróbios, controlando doenças etc., e por isso muitos ingênuos acreditam que a ciência acabará por resolver todos os problemas humanos e por fazer da Terra um céu sem Deus. Seria absurdo minimizarem-se as realizações da ciência. Elas são realmente admiráveis, mas não exageremos sua importância ou eficácia na solução dos problemas mais profundos que a humanidade tem de enfrentar. A ciência já criou problemas muito sérios e urgentes por ignorar as realidades da vida, e o desenvolvimento de nossa natureza moral e espiritual não acompanhou o do intelecto. Talvez nunca tenha antes havido tanta inquietação, medo, conflito, incerteza, tanto acúmulo de meios de destruição em massa, tanta concentração de poder em indivíduos, muitos dos quais, por simples acidente ou erro de julgamento, podem destruir populações inteiras, infligindo enorme sofrimento a pessoas inocentes e desamparadas. Mesmo os inúmeros prazeres e meios de diversão que a ciência vem proporcionando não são benefícios puros, pois fazendo com que o homem se volte cada vez mais para o exterior tornam-no superficial e isolado da única fonte de verdadeira força, paz e sabedoria que está dentro dele. A quase universal e progressiva insatisfação da juventude que procura lenitivo na mudança constante, nas excitações de várias espécies e mesmo nas drogas, é um sintoma da moléstia básica que aflige nossa civilização - a desintegração da psique que se verifica quando o homem repudia sua natureza espiritual e é separado de seu Centro Divino. Nem tudo isso, é claro, deve-se propriamente à ciência, mas à filosofia materialista desenvolvida e adotada por aqueles que trabalham pelo progresso da ciência ou a exploram para seus propósitos políticos e sociais de curta visão.

Ao considerarmos a filosofia do Ocultismo, não devemos confundi-la com as filosofias geralmente associadas às doutrinas das religiões ortodoxas. É verdade que as grandes religiões do mundo foram transmitidas por instrutores espirituais que estavam em contato com as realidades interiores, e assim as doutrinas fundamentais dessas religiões refletem mais ou menos as doutrinas que fazem parte do Ocultismo. Mas nenhuma religião permanece em sua pureza original, livre de acréscimos que, no decorrer do tempo, vão se acumulando; nenhuma permanece incólume aos preceitos e fraquezas daqueles que transmitem as doutrinas de uma geração para outra, apos a perda de contato com as realidades interiores. É inevitável, por conseguinte, que todas as religiões se tornem cada vez mais deterioradas, ineficientes e formais. Eis por que o estudo e a prática de todas as religiões requerem discriminação, e aquele que procura seriamente a Verdade deve tentar separar cuidadosamente o que é verdadeiro e fundamental do que é falso e supérfluo, resultante de acréscimos que tiveram lugar no decorrer do tempo.

É necessário o mesmo cuidado no estudo das várias filosofias que, de tempos em tempos, são formuladas por filósofos acadêmicos nos diversos países. Cumpre estudá-las com discernimento, fazendo-se um esforço para separar o que é baseado em pura especulação do que é apoiado no conhecimento. O teste decisivo no caso de todas as doutrinas, quer de natureza religiosa quer filosófica, é estarem fundamentadas em experiência direta e poderem ser verificadas experimentalmente por alguém que possua as qualificações necessárias. Esse teste talvez não seja fácil de ser efetuado, mas todas as religiões e filosofias devem ser submetidas a ele, a fim de se comprovar sua validade. [...]


I. K. Taimni



Fonte: do livro "O Homem, Deus e o Universo", I. K. Taimni, Ed. Pensamento, pp. 7-9
Fonte da Gravura: Acervo de autorial pessoal

OS PLANOS DO MUNDO ESPIRITUAL


No Outro Mundo, como neste, existem planos de existência, mundos "superpostos", uns "acima" dos outros, constituindo uma espécie de escada de perfeição. Na Terra, é, também, assim: existe o lugar para o camponês iletrado e para o homem de Ciência. Os índios e selvícolas não poderiam viver em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Tudo no Outro Mundo obedece a uma ordem espiritual bem determinada, sem privilégios, nem exclusões.

Desde o primeiro passo, logo a começar da superfície da Terra, até o último, conta-se grande variedade de planos de Vida, ou sejam, Mundos Espirituais, para usar de uma linguagem mais aproximada à compreensão, porque não existe expressão nos vocabulários comuns para caracterizar a natureza desses mundos, que chamaremos semimateriais ou fluídicos. Provavelmente, esses planos é que foram simbolizados, na visão de Jacó, por uma escada com inumeráveis degraus que, apoiados na Terra, chegavam ao Céu.

Não pode ser de outro modo. A lei do progresso rege de modo perfeito a evolução anímica. Os Espíritos, revestidos de seu corpo perispiritual, não podem viver num meio que não esteja de acordo com sua vestimenta espiritual, e esta vibra sempre ao ritmo da elevação de cada um, em sabedoria e moralidade.

Uma região isenta, por exemplo, de oxigênio, seria hostil a Espíritos que ainda precisam de oxigênio para viver. Uma região em que não predomina o carbono não poderia ser habitada por Espíritos que necessitam, pela sua condição ainda de inferioridade, de carbono para a manutenção do seu corpo perispiritual.

O indivíduo sentir-se-ia desequilibrado, e a sua condição média tornar-se-ia infeliz, sofredora, insuportável se assim não fosse. Tudo obedece a uma ordem e harmonia admiráveis na criação. Daí a necessidade desses diversos planos, como garantia de vida aos que fazem a sua evolução para um estado melhor.

Os antigos tinham noções destes princípios e acreditavam na existência de muitos céus superpostos, que se compunham de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por centro.

Esta teogonia fez, dessa escala de céus diversos graus de bem-aventurança: o último deles era o abrigo da suprema felicidade.

A opinião comum era a de que havia sete céus; em cada um deles, em sentido ascendente, aumentava a felicidade dos crentes. Os muçulmanos admitem nove céus. O astrônomo Ptolomeu contava onze, e denominava o último Empíreo, por causa da luz brilhante que ali reinava. A teologia católica admite três céus: o primeiro da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em que giram os astros; e o terceiro, para além deste, é a morada do Altíssimo, a habitação dos que O contemplam face a face. É conforme esta crença que o Apóstolo Paulo diz que foi arrebatado até o “terceiro céu”.

Enfim, é crença unânime que, sob uma ou outra denominação, essas esferas superpostas constituem a habitação das almas, o Mundo Espiritual. Na verdade, seria ilógico e verdadeiro contrassenso julgarmos um vácuo a atmosfera que nos rodeia, o nada dos ignorantes de então. A constituição física e química da atmosfera era ignorada dos povos passados. Ainda na Idade Média não se tinha do estado gasoso da matéria senão noções rudimentares. Sobre a vida, mesmo, só se sabia que ela se extinguia por falta de ar; mas não se conhecia o mecanismo da combustão e da respiração.

Foi o gênio ilustre de Lavoisier que deu os primeiros passos para a descoberta dos elementos contidos no ar que respiramos. Foi tão grande a descoberta desse insigne francês, e tão iluminado era o famoso químico, que, em 8 de março de 1794, quando sua cabeça rolou sobre o patíbulo, o ilustre matemático Lagrange, disse: “Cem anos não serão bastantes para produzir outra cabeça semelhante”.

Hoje podemos afirmar muito mais que Lavoisier; sabemos que tudo o que existe no nosso corpo, existe na atmosfera, no ar que respiramos: azoto, oxigênio, hidrogênio, carbono, cujas combinações formam a cal, a soda, o fósforo, os ácidos, o enxofre, o flúor, o silício, o magnésio, o lítio, o ferro, o manganês, o cobre, o chumbo etc.

Sabemos mais que em nossa atmosfera vivem inúmeros micróbios, flutuam ovos de infusórios, partículas de algodão, de farinha, de penas, matérias que se evolam das fábricas, que saem da combustão, do enxofre e outros sais etc. Só nas costa da Bretanha e da Normandia calcula-se que um hectare de terreno não recebe menos, anualmente, de 147 quilogramas de matérias sólidas; das quais 37 quilogramas são de sal marinho.

Não é preciso estendermo-nos em considerações para provar que o ar é alguma coisa, contém muita coisa; não é o vazio que se apresenta aos nossos olhares acanhados. O Espiritismo, penetrando fundamente na Ciência, abre brechas ao pensamento, e dá, ao mesmo tempo, razão à crença cega dos povos antigos, que, em sua concepção infantil, proclamavam os céus sobrepostos, cada qual mais adiantado, crença essa que se confirma agora com dados científicos e as revelações de caráter coletivo que estão sendo feitos e verificados em todos os pontos do globo.

Não há dúvida; existem planos de existência, de vida em mundos superpostos, uns "acima" dos outros, constituindo, no seu conjunto, uma espécie de escada de perfeição.


Cairbar Schutel



Fonte: do livro A VIDA NO OUTRO MUNDO, Publicação original de 1932
Versão digital de 2011, Casa Editora O Clarim - www.oclarim.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

INTEGRIDADE


Muitas vezes, temos a impressão de que nos apressamos muito em passar pela vida, ao passo que há em nosso coração a chama essencial do ser. Nossa pressa, muitas vezes, a leva ao ponto de se extinguir. Porém, quando nos sentamos para meditar, na simplicidade e na imobilidade, a chama começa a queimar de maneira firme e brilhante. Ao abandonarmos o processo de pensar em termos de sucesso e auto-importância, a luz da chama nos ajuda a nos entendermos, e aos outros, em termos de luz, de calor e de amor.

O mantra nos conduz ao ponto da imobilidade, no qual a chama do ser pode queimar com brilho. Nos ensina, aquilo que sabemos, mas, frequentemente, esquecemos, de que não podemos viver uma vida plena, a menos que ela esteja estabelecida em algum propósito subjacente. A vida possui um significado e um valor supremos, que só são descobertos na firme imobilidade do ser, que é nossa ligação essencial com Deus. É terrivelmente fácil, permitirmos que a vida se torne uma mera rotina. Os papéis que representamos, podem facilmente tomar o lugar do ser. Caímos facilmente na representação dos papéis de estudantes, de mães, de maridos, de gerentes, de monges e, assim por diante... Jesus veio ao mundo para nos dizer que a vida nada tem a ver com a representação de papéis ou, com o fato de sermos um funcionário dentro de algum sistema. A vida tem a ver com o significado e o propósito que sentimos na profundidade do nosso mais imóvel ser. Nosso valor surge a partir de quem nós somos em nós mesmos e, não a partir do que fazemos como um personagem de nós mesmos.

O significado supremo de Deus não surge daquilo que a sociedade nos diz que somos, isso significaria “preferirmos a aprovação humana, à aprovação de Deus”, tal como nos disse Jesus... Cada um de nós... deve descobrir a verdade fundamental acerca de si mesmo. Ligados a Deus, devemos estar abertos ao amor que nos redime da ilusão e da superficialidade. Devemos viver a partir dessa sacralidade infinita e pessoal, que temos como um templo do Espírito Santo. Descobrindo que o mesmo Espírito que criou o universo habita nossos corações e, em silêncio é amor para todos, e propósito de toda vida.


Dom John Main, OSB



Fonte: WORD MADE FLESH (London: DLT, 1993), pp. 55-56.
Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
http://www.wccm.com.br/leitura-john-main-osb/953-integridade-200524
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

AS DUAS FACES DO DHAMMA (DHARMA)


Nosso primeiro encontro com o Buddhismo nos confronta com um paradoxo. Intelectualmente, ele parece ser o deleite do livre pensador: sóbrio, realista, não dogmático, quase científico, em sua estrutura e em seu método. Mas, se entramos em contato íntimo com o Dhamma (Dharma) vivo, descobrimos logo que ele tem um outro lado que parece ser a antítese de todos os nossos pressupostos racionalistas. Ainda aqui não encontramos credos rígidos ou especulações aleatórias, mas não deixamos de encontrar ideais religiosos de renúncia, contemplação e devoção; um corpo de doutrinas lidando com temas que transcendem a percepção sensorial e o pensamento; e - talvez o que seja mais desconcertante - um programa de treinamento no qual a fé aparece como uma virtude cardeal e a dúvida como um obstáculo, barreira e grilhão.

Quando tentamos determinar nosso próprio relacionamento com o Dhamma, nos vemos desafiados a descobrir um sentido nessas duas faces aparentemente irreconciliáveis: a face empírica, voltada para o mundo, que nos diz para investigar e verificar as coisas por nós mesmos; e a face religiosa, voltada para o além, aconselhando-nos a dissipar nossas dúvidas e depositar a confiança no Mestre e no seu Ensinamento.

Um modo de resolver esse dilema é aceitar somente uma face do Dhamma como autêntica, rejeitando a outra como espúria ou supérflua. Assim, com o pietismo tradicional buddhista, podemos abraçar o lado religioso da fé e da devoção, mas nos afastar da visão de mundo mais realista e da tarefa da inquirição crítica; ou, com a apologética buddhista moderna, podemos exaltar o empirismo do Dhamma e a semelhança com a ciência, mas nos defrontarmos embaraçosamente com o lado religioso. Ainda assim, uma reflexão sobre os requisitos de uma espiritualidade buddhista genuína, torna claro que ambas as faces do Dhamma são igualmente autênticas, e que ambas devem ser levadas em consideração. Se fracassarmos em fazê-lo, não somente nos arriscamos a adotar uma visão parcial do ensinamento, mas nosso próprio envolvimento com o Dhamma será, provavelmente, dificultado por atitudes parciais e conflitantes.

O problema, entretanto, permanece: como integrar as duas faces do Dhamma sem cair em contradição? Sugerimos que a chave para alcançar essa reconciliação e assegurar assim a consistência interna de nossa própria perspectiva e prática repousa na consideração de dois pontos fundamentais: primeiro, o propósito condutor do Dhamma; segundo, a estratégia empregada para alcançar tal propósito. O propósito é a obtenção da libertação do sofrimento. O Dhamma não tem como objetivo a aquisição de informação fatual sobre o mundo, e assim, apesar de uma compatibilidade com a ciência, seus objetivos e preocupações são necessariamente diferentes daqueles da ciência. Primária e essencialmente, o Dhamma é um caminho de emancipação espiritual, de libertação da roda de nascimento, morte e sofrimento repetidos. Oferecido a nós como o meio insubstituível de libertação, o Dhamma não busca o mero assentimento intelectual, mas demanda uma resposta que deve ser totalmente religiosa. Ele nos chama do fundo do nosso ser; e de lá, ele desperta a fé, a devoção e o compromisso apropriados quando o objetivo final de nossa existência está em jogo.

Mas, para o Buddhismo, a fé e a devoção são somente incentivos que nos impelem a entrar e perseverar ao longo do caminho; elas não podem, por si mesmas, assegurar a libertação. A causa primária da prisão e do sofrimento – ensina-nos o Buddha - é a ignorância com relação à verdadeira natureza da existência; assim, na estratégia buddhista de libertação, o instrumento primário deve ser a sabedoria, o conhecimento e visão das coisas como elas realmente são. Investigação e inquirição crítica, calmas e descompromissadas, constituem o primeiro passo em direção à sabedoria, capacitando-nos a dissipar nossas dúvidas e ganhar uma compreensão conceptual das verdades das quais depende a nossa libertação. Mas a dúvida e o questionamento não podem continuar indefinidamente. Uma vez tendo decidido que o Dhamma será nosso veículo para a libertação espiritual, devemos embarcar nesse veículo, devemos deixar nossa hesitação para trás e entrar no curso do treinamento que nos levará da fé para a visão libertadora.

Para aqueles que se aproximam do Dhamma com o objetivo de gratificação intelectual ou emocional, inevitavelmente ele revelará duas faces, e uma delas permanecerá sempre uma incógnita. Mas se estivermos preparados para nos aproximar do Dhamma segundo seus próprios termos, como um caminho de libertação do sofrimento, não haverá, de modo algum, duas faces. Ao contrário, veremos o que estava lá desde o começo: a face única do Dhamma, a qual, como qualquer outra face, apresenta dois lados complementares.


Bhikkhu Bodhi



Fonte: Capítulo do livro “Pensando o Buddhismo”, do Venerável Bhikkhu Bodhi
Tradução: Equipe Nalanda - Edições Nalanda, 2000 - http://edicoesnalanda.cjb.net/
Este artigo apareceu na Newsletter n. 2, outono de 1985. A tradução foi de Ricardo Sasaki.
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html