sexta-feira, 15 de maio de 2020

O PERISPÍRITO E SUAS PROPRIEDADES FUNCIONAIS


O perispírito é o órgão por excelência da alma. Ele vem resolver todas as dificuldades aparentes, explicando perfeitamente a vida. Só por ele a memória pode ter explicação razoável, assim como todo o movimento de agregação e desagregação, de fluxo e refluxo da matéria de que é constituído o corpo carnal, com a sua organização e reorganização de tecidos.

O perispírito é o conservador da forma e do equilíbrio vital; é ele que mantém a tonalidade do organismo, além das propriedades psíquicas que lhe são peculiares. Além de tudo, o perispírito não está em ação unicamente quando unido ao corpo carnal; mantém-se pronto a funcionar logo que se desembaraça do corpo físico.

Esta afirmação nada tem de estranha, quando consideramos a vida do feto no seio materno, onde é dotado de todos os órgãos, sem que, entretanto, se utilize da maioria deles. Inativos durante a vida pré-natal, os órgãos só começam a funcionar no momento do nascimento do ser, e sua ação só se estabiliza com o desenvolvimento completo do indivíduo.

Parece que a luta pela existência é que proporciona o funcionamento dos órgãos inativos, mas existentes no seio materno. Primeiro são os órgãos vocais, depois os visuais; o estômago começa a trabalhar, os pulmões a respirar; os braços, as pernas e assim por diante, até que o cérebro entre em vibrações para a rude tarefa da vida em prol da perfeição espiritual.

Uma comparação bem lembrada relativa ao problema filosófico e biológico, aplicável ao perispírito, é a metamorfose da lagarta. Allan Kardec já se havia utilizado dessa imagem que, certamente, não pode ser tomada ao pé da letra, para dar uma ideia do espírito revestido do seu invólucro corporal na vida terrestre, e do seu invólucro psíquico, na vida futura: "a lagarta encerrada na crisálida e depois renascida como borboleta, senhora dos ares". [...]

Sem o Espírito revestido do respectivo invólucro, que adquire propriedades funcionais, à medida que os seres passam, gradativamente, do animal inferior ao homem, o transformismo não passa de concepção abstrata, ao passo que, com a ideia do perispírito, tudo se concilia e melhor se esclarece, pondo nos devidos termos a explicação materialista da hereditariedade, influência do meio etc.

O conhecimento do perispírito vem, pois, trazer-nos os seguintes esclarecimentos:

1) O Espírito não é um produto dos nervos e do cérebro, pois preexiste, sobrevive e manifesta-se após a desagregação desses órgãos;

2) Possui um organismo fluídico, que o envolve durante a vida carnal e o individualiza ainda após à separação do corpo material;

3) Explica a conservação do tipo individual, apesar da renovação incessante de todas as moléculas;

4) Explica a reparação das partes lesadas;

5) Explica o equilíbrio das funções vitais apesar da renovação das células.

Além de todas essas considerações, poderíamos acrescentar que só com o auxílio do perispírito se poderão explicar as manifestações do inconsciente, tantas vezes constatadas nas sessões experimentais do nosso tempo e por todos os magnetizadores que souberam penetrar nos refolhos da psique humana.


Cairbar Schutel



Fonte: do livro A VIDA NO OUTRO MUNDO, Publicação original de 1932
Versão digital de 2011, Casa Editora O Clarim
www.oclarim.com.br
Fonte da Gravura: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg2RcTJXYoDgZEViawg0_OgKXyLFOaeb8p6aQo8qi4Eal30nzRqfiqglxZgahcCr_ykWKhxvrGVexN-MzypqvojysUTDyahOFoE3TZaY_Wixw7jKkYbtWMg8hYB0mr-Lq1Tt6daZkHD-GA/s1600/corpos+(1).jpg

PERDER NOSSAS IDEIAS E IMAGENS PRIMITIVAS DE DEUS


[...] Assim, para encontrar Deus, necessitamos perder Deus – pelo menos as nossas ideias e imagens primitivas de Deus. Afastar-nos destas imagens familiares será doloroso, individualmente e para a comunidade da qual fazemos parte. É um nível profundo da nossa psique que está a ser mudado. Até para uma pessoa não religiosa, lá estará a dor de sentir que está a perder uma certa forma familiar e reconfortante de Deus. Tanto a dor como o júbilo acompanham a descoberta do mistério vivo porque os ídolos que temos de quebrar estão densamente enredados nas nossas próprias imagens de nós mesmos.

A sensação de separação de Deus, no entanto, é necessária para a individuação ou diferenciação espiritual. É particularmente dolorosa e perturbadora para as pessoas religiosas. A sua primeira lufada de ar do Reino pode ser percebida menos com uma descoberta de Deus e mais com uma perda ou até uma rejeição sacrílega do Deus que antes lhes havia sido servido de forma tão segura. Mas através do terrível vazio da ausência, Deus é encontrado… Lentamente, emerge a ideia de que perder a imagem é o pré-requisito para encontrar o original. Perder-se no caminho é o melhor caminho para buscar Deus. Esta verdade sobre a visão de Deus revela outra lei à qual podemos nem sequer nos aperceber que estamos obedecendo: para encontramos o nosso próprio ser temos de perder os seres do nosso ego. Para aprofundarmos a nossa relação, temos que largar e deixar ir o outro. A ausência, então, transforma-se, imperceptivelmente, no mistério da presença. Por fim, damo-nos conta de que a ausência de Deus não é mais do que o fracasso dos nossos poderes de compreensão para captarmos a presença real de Deus.

Tudo o que podemos dizer, com exatidão, sobre Deus, segundo S. Tomás de Aquino, é que Deus é, não o que Deus é. A nossa relação com Deus é, portanto, de natureza semelhante ao mistério que nós somos para nós mesmos. Se é verdade que Deus permanece sempre um mistério para nós, também é verdade que nós somos um mistério para nós próprios. O mistério é, no fim de contas, o facto de sequer existirmos, de existir alguma coisa. Esta perplexidade é uma qualidade humana fundamental e, segundo Aristóteles, é a chave da Filosofia. Este espanto de ser humano é condicionado pelo deslumbramento pelo mistério de Deus. Esta misteriosidade de Deus é a afirmação bíblica primordial sobre Deus. Apesar de todo o pensamento e de todos os rituais que vem acumulando, a incognoscibilidade conhecível de Deus ainda é o pivô de Teologia Cristã.

“Se o podes compreender”, diz Santo Agostinho, “então não é Deus. Se foste capaz de compreender então compreendeste algo que não é Deus. Se foste capaz de compreender, mesmo parcialmente, então enganaste-te a ti mesmo com os teus próprios pensamentos.” Esta humildade (e humor) radical face ao inefável mistério de Deus é o fundamento da Tradição Cristã. Do coração dessa tradição emana uma autoridade que liberta. Os seus mestres indicam o caminho, com um sábio desconhecimento, uma ignorância aprendida e humilde, que acede ao Reino.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: “Perder e encontrar”, in “Jesus, o Mestre Interior”
https://studylibpt.com/
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

ÂNFORA DE OURO - SÍMBOLOS BÍBLICOS À LUZ DA FILOSOFIA ROSACRUZ


“Antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço”. Eclesiastes, 12:6

A cada dia que passa, se acelera mais a Evolução. Permite-se às almas renascerem dentro de um prazo mais curto. Àqueles que possuem maior desenvolvimento espiritual, se lhes proporciona todas as oportunidades possíveis, dentro das atuais condições do mundo, para fazê-los avançar em sua evolução anímica e se estimula para progredirem e aprenderem um grande número de lições no transcurso de cada vida.

Em certo sentido, as provas presentes diferem grandemente das que as precederam. Os pioneiros lêmures foram escolhidos e treinados sem seu próprio consentimento, ou seja, inconscientemente. Os selecionados da Época Atlante, os semitas originais, o foram com seu conhecimento, mas, frequentemente, sem seu consentimento. Esta a razão por que se rebelaram muitas vezes contra seu guia, violaram suas Leis, se desviaram e casaram com mulheres de raças mais atrasadas. Um curso bem diferente é o que se vai seguir na crise que ora começa.

É regra geral que, quanto mais velho seja o Ego, terá preferência em todas as linhas de evolução. As almas são velhas ou jovens segundo a rapidez com que se tenham adaptado às condições e aprendido as lições da escola da vida, através de cujas experiências percorreram o caminho da vida, ou da Evolução. Assim sendo, pouco ou nada têm a opinar a respeito de quando ou onde devam renascer. Tais decisões as tomam por eles os Senhores do Destino. Mas, conforme crescemos espiritualmente, nos concedem maior liberdade para escolher nosso próprio destino.

A humanidade primitiva se viu compelida, por Leis muito duras, a fazer o bem e a refrear o mal. De maneira similar, a parte da atual humanidade que se encontra suficientemente avançada para ser a semente escolhida de hoje, terá inteira liberdade para decidir se será ou não utilizada para esse propósito.

No “Conceito Rosacruz do Cosmo” se nos diz que, no final de nossa Época, aparecerá publicamente um Mestre; que todos aqueles que estiverem suficientemente evoluídos se reunião a seu redor e o aceitarão como guia. Esse grupo formará, então, a nova raça. Desse núcleo trata e fala o Apocalipse, capítulo 14, versículos 4 e 5:

“Estes são os que não estão contaminados com mulheres porque são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que, dentre os homens, foram comprados como primícias para DEUS e para o Cordeiro. E em suas bocas não se achou engano; porque são irrepreensíveis diante do Trono de DEUS”.

Em todos os lugares se fala da Vontade de seguir.

A “gente escolhida” desta Época escolherá e não será escolhida. Não somente temos o direito de escolher nesta Época de provas, senão que saberemos, antecipadamente, o que de nós se espera. Também no final da Época Lemúrica existiu um núcleo de Egos adiantados que eram “diferentes da humanidade comum desse tempo”. A diferença principal não consistia em que esses Egos adiantados possuíssem órgãos melhor desenvolvidos, senão que possuíam a consciência de seu verdadeiro uso e propósito.

Esses pioneiros constituíram a minoria que recebeu o germe da Mente na última parte da Época Lemúrica.

A altura da Época Atlante, foi assinalada outra classe de Egos adiantados como “diferentes” da massa comum. A diferença, nesse caso, constituiu-se no grande desenvolvimento de duas coisas: pulmões que respiram ar e mentes raciocinadoras. Agora estamos nos aproximando do final da Época Ariana, e dos mais adiantados das raças arianas se extrairá a semente para a Sexta Raça Raiz.

Podemos saber exatamente em que sentido devemos ser diferentes do resto da humanidade, se quisermos ser incluídos nesse grupo dos eleitos. O requisito exigido àqueles que desejem ser escolhidos é um bem desenvolvido Corpo-Alma, ou, como chamamos em nossa literatura Rosacruz – o Dourado Traje Nupcial. “E, saindo os servos pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons; e as bodas encheram-se de convidados. Porque muitos são chamados e poucos escolhidos”.

Dourado Traje Nupcial é o termo que aplicam os ocultistas ao Corpo-Alma, o corpo que agora estamos desenvolvendo e que será utilizado como veículo na próxima etapa. Este corpo é muito belo em sua aparência. Irradia como um nimbo de luz suave e brilhante ao redor do Corpo Denso ou Físico. Quando Cristo disse: “Permiti que brilhe vossa luz” estava falando tanto em forma figurada como literalmente.

Quando grandes pintores estabeleceram o costume de pintar os Santos com um halo por trás da cabeça, ou um nimbo ao redor do corpo, foi porque sentiam que esse brilho realmente existia, pudessem ou não vê- lo. De fato, pode ser visto por pessoas que possuem pelo menos um pequeno grau de visão espiritual.

“Existe como que uma espécie de renda de matéria dourada que reverbera ou possui reflexos da mais fina contextura em volta do corpo, ressaltando todos os detalhes do Corpo Físico em um maravilhoso e dedicado tecido da mais fina trama, de modo que, se cada uma das outras matérias do corpo fosse separada, uma pessoa contemplando a forma, com vista clarividente, distinguiria uma espécie de corpo de filigrana completo em todos os detalhes”.

O Eclesiastes ensina, no capítulo 12, versículo 6:

“Antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço”.

É evidente que está descrevendo o processo da morte. Menciona primeiro o Cordão Prateado (sua ruptura). Este é o ponto em que, se pode dizer, ocorre a morte física e constitui o fim do Corpo Denso. O Corpo Vital, do qual a Alma Dourada é a parte mais elevada, será naturalmente o próximo a abandonar-se ou “romper-se”. Depois, se segue a dissolução do Corpo de Desejos, representado por um cântaro, porque é comumente comparado ao elemento aquoso. Por último, toca a vez da liberação da roda de nascimentos.


Irene Gómez de Ruggiero



Fonte: do livro OS SÍMBOLOS BÍBLICOS À LUZ DA FILOSOFIA ROSACRUZ
Fraternidade Rosacruz Max Heindel - Centro Autorizado do Rio de Janeiro
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/flores-%C3%A2nfora-ivy-arte-abstract-2633976/

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O PROBLEMA DA IMORTALIDADE


A Humanidade, deslocada dos legítimos preceitos da moral – Moral Divina, Religião de todos os tempos e de todos os povos, que foi substituída criminosamente por mandamentos humanos e cultos esdrúxulos – não cogita, mormente nos tempos em que nos achamos, dos seus deveres e seus destinos.

São relativamente poucos os que pensam no dia de amanhã a não ser para auferir bastardos lucros. Entretanto, a pequena, a insignificante fração que constitui esses poucos, esforça-se e trabalha, uns para a conquista de uma crença verdadeira que bem lhes oriente no caminho da vida, outros, para verem resolvido, no nosso planeta, o grande problema, o problema máximo cuja resolução é, de fato, o que nos oferece maiores promessas, mais valorosos benefícios.

A Imortalidade é, com efeito, o pivô sobre o qual se devem movimentar todos os cometimentos para uma orientação segura da vida. A sabedoria e as virtudes nunca terão grande razão de ser enquanto os homens se desinteressarem pela imortalidade. A resolução do grande problema afeta por tal forma todas as ramificações do saber humano, que permaneceremos estacionários se a Humanidade, ou antes, os homens continuarem a pôr à margem esta questão de interesse político, religioso, científico e social, pois, de fato, é ela a base fundamental de todos os problemas que inflamam o cérebro e fazem palpitar o coração; é, na verdade, o ponto de partida para todos os estudos; é sobre essa rocha que se deverá erguer o grande edifício, o enorme Monumento onde pontificarão: a Ciência, a Religião, a Filosofia, as Artes. A própria Paz, interna e externa, não se conseguirá, nos países e nas nações, sem a Luz da Imortalidade, assim como sem ela é impossível manter a Fraternidade entre os povos.

Pascal dizia com suma razão: "A imortalidade é o nosso primeiro interesse, é uma coisa de tal importância que é preciso ter perdido toda a sensibilidade para ser indiferente ao seu conhecimento". Com efeito, não é a solução desse problema que aclara a nossa razão, ilumina o nosso destino, dá sentido ao nosso futuro pessoal, à nossa existência? Não é a solução desse problema que nos dá uma orientação firme, norteando a nossa vida ao influxo de nobres paixões, de uma moral legitima e edificante? Poderão a negação e a dúvida produzir semelhante milagre, formar caracteres, arregimentarmos para enfrentar os dissabores da existência, as decepções cotidianas que nos assaltam e oprimem?

Quem não se viu ainda em frente do desespero, quem não se deteve à porta fechada de um túmulo, quem não viu desaparecer do seu convívio um ente querido, quem, nos momentos angustiosos, não disse para si mesmo – a morte é o fim de toda essa tragédia que os homens representam no grande palco do mundo? Tragará ela os bons como os ruins, os virtuosos, os abnegados, os sábios que, debruçados sobre livros ou absorvidos em seus laboratórios, trabalham pela coletividade, pela bem geral, pela comunidade?

Os nossos entes amados, objetos da nossa afeição, aqueles que constituíram nossos melhores afetos, nossa veneração, nosso amor, serão dissolvidos, extintas nos abismos do nada? Será que não somos mais que um volume de carne cobrindo um esqueleto, formando ao todo uma combinação de oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono? Será que não somos mais que uma armação de ossos coberta de albumina e fibrina, com uma rede de nervos imersa num lago de água?

Os pensadores, os que procuram encarar a vida tal como é, não teriam meditado nunca? Não lhes teria passado pela mente essas naturalíssimas conjeturas, essas considerações que surgem no nosso cérebro e em nosso coração nos momentos difíceis que atravessamos, quando sentimos a vida pesada, quando o aguilhão das contrariedades nos assalta e oprime?

E como responder a todas essas perguntas sem resolver o grande problema que é a chave principal, a chave "mágica", que abre todas essas portas fechadas à nossa razão, à nossa inteligência, ao nosso sentimento, ao nosso coração?

Darão, porventura, as religiões sacerdotais uma resposta a esses quesitos que ensombram a Humanidade? A Ciência Catedrática, com todos os recursos que lhe têm vindo das novas descobertas e invenções, será ela capaz de responder-nos positiva e categoricamente de modo a satisfazer o nosso entendimento e por um paradeiro às ânsias que se acentuam todos os dias em nossa alma?

Finalmente, somos ou não somos? Existimos ou não existimos? Continuaremos a viver após o último ato da nossa existência terrestre? Ao cair o pano, restará de nós alguma coisa, ou tudo se extinguirá? Será a vida uma farsa que começa no berço e termina no túmulo? Será a vida uma sucessão continua de micróbios, um combate sem tréguas de animálculos que se entredevoram e se sucedem, tendo por epílogo desagregação do "Eu" debaixo de uma laje fria, dentro de um sepulcro?

Meditemos sobre tudo isso, pensemos: eis o primeiro trabalho a realizar. Esqueçamo-nos por um momento das ilusões que nos fascinam e embrutecem; encaremos a realidade sem temor, porque, dela nos desviando, só teremos ilusões e desenganos. Tomemos a sério a vida, para que a vida se nos mostre tal como é, sem enganadoras aparências.

Fiquemos certos de que não teremos paz, nem saúde, nem religião, nem sabedoria, nem felicidade, sem que o grande mistério do "ser" ou "não ser" fique resolvido.


Cairbar Schutel



Fonte: do livro A VIDA NO OUTRO MUNDO, Publicação original de 1932
Versão digital de 2011, Casa Editora O Clarim
www.oclarim.com.br
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

A FUNÇÃO DO MANTRA


É importante lembrarmos que a prece e a meditação ocupam a totalidade da pessoa. Oramos com o corpo e com a alma, assim como, com o espírito.

Utilizamos nossos corpos nas preces, até mesmo quando pronunciamos palavras e, ainda mais, quando cantamos e cantarolamos. Na prece estritamente contemplativa, reduzimos as ações do corpo a um mínimo, mas, mesmo nela, há os movimentos da respiração.

Todas as tradições orientais enfatizam sobremaneira a importância da respiração. A meditação Zen focaliza a respiração abdominal: inspiração e expiração. A isso eles dão o nome de hara. Trata-se de um centro muito importante. Não deveríamos negligenciá-lo. Trata-se de um centro emocional, mas, ele é o verdadeiro centro da psique, e muitas pessoas se beneficiam pela concentração no hara. Outros preferem focalizar o coração, e isso talvez seja mais central. Você também pode se concentrar no ajña chakra, também chamado terceiro olho. Na Índia, colocamos ali uma marca de cor carmesim. Os dois olhos são os olhos da dualidade, com os quais olhamos o mundo exterior, o eu exterior. O terceiro olho é o olho interior que enxerga a luz interior. Muitas pessoas conferem grande importância à sincronização do mantra com a respiração, pois isso nos ajuda a levar o corpo ao coração da prece. Porém, é claro que quando consideramos estritamente a meditação, levamos o corpo à imobilidade, tanto quanto possível, de modo que a mente não se distraia. Algumas pessoas insistem em uma postura ereta e em completa imobilidade. Na meditação, o relaxamento é uma necessidade primordial. O corpo e a mente precisam estar completamente relaxados, para que o espírito possa estar completamente aberto e receptivo ao Espírito de Deus. No Yoga se diz que a posição deveria ser confortável e estável, relaxada e firme. Deveria haver estabilidade para manter a pessoa firme, mas ao mesmo tempo ela deveria estar relaxada.

Precisamos nos lembrar que os sons vibram o corpo todo e possuem um profundo efeito na psique. É impossível concebermos os efeitos causados à psique pelos sons de uma cidade moderna, com suas intermináveis distrações. Todos os dias, e a cada hora, somos bombardeados com esses sons, e as imagens da televisão. Nossos períodos de silêncio tornam-se, assim, muito importantes para que sejamos capazes de abandonar todas essas distrações. O mantra tem por função recompor a alma, trazê-la de volta ao seu centro, e reunir a totalidade da pessoa (corpo, alma e espírito) com o Espírito de Deus.

Não sei se deixei isso claro, essa distinção tão importante entre corpo, alma e espírito. Temos um corpo, o organismo físico que nos une a todos os organismos físicos do universo. Temos a alma, a psique que é o organismo psicológico, com sentidos, sentimentos, imaginação, razão e vontade. O centro da psique é o ego, isso que em Sânscrito se chama ahamkara, o “fabricante do eu”. A psique é muito limitada. Mas, além dela, há o espírito, o Atman, que é o ponto da transcendência do si mesmo. Naquele ponto, corpo e alma vão além de suas limitações humanas, abrindo-se para o infinito, o eterno, o divino. A meditação é a passagem além do corpo e da alma, para aquele ponto do espírito.

A meta que precisa ser mantida em mente com firmeza é a de centrar o corpo e a alma nas profundezas do espírito, onde o espírito humano encontra o Espírito de Deus. Nas palavras de São Paulo: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus”. Nesse ponto do espírito, transcendemos o ego e nos abrimos para o Espírito Santo. Trata-se de um ponto de encontro, para nosso espírito e o Espírito de Deus. A meditação deveria ser aquele ponto de encontro, onde o espírito humano toca e se abre para o Espírito Santo de Deus. É interessante a maneira pela qual a palavra “espírito” é por vezes utilizada no Novo Testamento para o humano, e outras vezes para o divino: porque é o ponto de encontro. O espírito é aquilo que São Francisco de Sales chamava “o refinado ponto da alma”. Trata-se do ponto da transcendência de si, de onde vamos para além de nós mesmos, e recebemos o divino Espírito em nossos corações, ou seja, para o centro de nosso ser. A repetição do mantra é uma simples maneira de mantermos todas as faculdades da alma e corpo centradas nesse ponto do espírito.

Trata-se de um processo que reúne todas as faculdades da alma no ponto do Espírito, onde são penetradas pela luz da verdade. Em essência, essa luz é uma luz de amor. Trata-se de amor do Espírito Santo que inunda o coração, e que nos leva a estar face a face com Deus. Na tradição oriental, todos os métodos de meditação são meios de se chegar a esse centro interior. Porém, o que ali acontece depende de sua particular fé e tradição. Para o cristão, o ponto do espírito é o ponto em que o amor de Deus inunda o coração através do Espírito Santo.

Isto traz à tona o problema das distrações. Quando começamos a meditar, a mente começa a divagar. Para a maioria das pessoas, a atividade mental nunca cessa. Particularmente no caso das pessoas nos dias atuais, e especialmente para os ocidentais, cujas vidas são tão repletas de distrações, e para quem a televisão, com seu fluxo constante de imagens, é uma fonte constante de distração, o problema do controle da mente torna-se muito agudo. Todo o tempo estamos pensando, pensando e pensando. Parece que a maioria das pessoas não consegue parar o fluxo contínuo de pensamentos, mas, o que elas podem fazer é não se ocupar com eles, deixar que eles fluam e, na quietude, observá-los, como se fossem nuvens no céu, enquanto a mente mais profunda, o espírito interior, permanece em quieto repouso na presença de Deus. Lutar contra as distrações pode ser mais prejudicial do que benéfico. Então, o ego atua. Você procura parar a si mesmo, e então, isso piora as coisas. O mantra continua na quietude, e os pensamentos continuam a ir e vir, mas você não precisa se ocupar com eles. Deixe que eles venham, deixe-os ir, mas mantenha o mantra na quietude, continuando por debaixo deles todos.


Pe. Bede Griffiths, OSB



Bede Griffiths foi um monge Beneditino, nascido na Inglaterra em 1906 e, educado em Oxford. Depois de 20 anos como monge na Inglaterra, ele foi para a Índia para encontrar “a outra metade de sua alma”. Esta palestra foi extraída do conjunto de palestras que ele proferiu no John Main Seminar de 1991. Essas palestras exploram a tradição da meditação cristã e relacionam-na com as grandes tradições orientais. Pe. Bede mostra como a jornada interior pode contribuir para a unidade espiritual. Ele faleceu na Índia em 1993. (http://www.bedegriffiths.com/biography.html).


Fonte: Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
http://www.wccm.com.br/series-de-palestras/61-meditacao-e-a-nova-criacao-em-cristo/387-a-funcao-do-mantra
Fonte da Gravura: ventosdepaz.com.br

ANSEIO POR RECEBER INSTRUÇÃO DO MESTRE


Não há dúvida de que o anseio por receber instrução do Mestre é legítimo. Porém não podemos nos esquecer de duas máximas do ocultismo. A primeira é que: “Quando o discípulo está pronto o Mestre aparece.” Será que realmente estamos prontos para sermos instruídos pelos verdadeiros Mestres? Estamos prontos para enfrentar uma disciplina de treinamento mais exigente e rigorosa do que a dos atletas olímpicos, não só por alguns meses ou anos antes da competição, mas por toda nossa vida? Estamos prontos para assumir o compromisso de servir à humanidade, sem nenhuma distinção, por séculos e milênios sem fim, até que o último ser humano seja salvo? Estamos prontos para renunciar ao nosso conforto, aos nossos interesses pessoais e até mesmo aos nossos bens, para executar o trabalho do Mestre? Estamos prontos para continuar a servir, mesmo quando vilipendiados e injuriados? Estamos realmente conscientes de todas as implicações de nossa eventual aceitação como discípulo do Mestre?

A segunda máxima, uma extensão da Lei do Karma, é de que “Cada um tem o Mestre que merece.” Somente o próprio indivíduo pode avaliar o grau de sua pureza de coração, de seu altruísmo, de sua entrega a Deus, de seu amor incondicional por todos os seres, de sua humildade e de seu discernimento, para saber que tipo de Mestre ele merece.

O livro apropriadamente intitulado Aos Pés do Mestre, de Krishnamurti, menciona que existem quatro qualificações para Senda. “A primeira dessas qualificações é o Discernimento, usualmente tomado no sentido da distinção entre o real e o irreal, que conduz o homem a entrar na Senda. É isso; mas é também muito mais, e deve ser praticado não somente no início da Senda, mas a cada passo, todo o dia, até o fim.”[1] Os Grandes Instrutores alertam repetidamente que todo discípulo está se preparando para tornar-se um Mestre e, portanto, deve desenvolver seu intelecto, percepção e discernimento ao ponto de jamais ser enganado pelas ilusões do mundo. Se aspiramos a nos tornar discípulos, devemos também desenvolver o discernimento, investigando todos os ângulos da doutrina que nos for apresentada. Essa era uma recomendação constante do Senhor Buda: submetermos sempre ao crivo da mente e do coração os ensinamentos que nos são passados pelos sábios e pelas Escrituras, incluindo até mesmo a doutrina que ele havia ensinado. A fé cega leva ao fanatismo e à estagnação. A fé consciente, ao contrário, leva ao crescimento e, no seu devido tempo, à iluminação.

Que a Luz Divina ilumine nossas mentes e fortaleça a nossa determinação, para que possamos trilhar o árduo Caminho da Perfeição que finalmente leva aos pés do Mestre.


Raul Branco


Nota:

[1] Aos Pés do Mestre, Editora Teosófica, 8ª ed. 2010


Fonte: Os Mestres e suas Mensagens / Raul Branco (ed. digital)
1ª Edição, Brasília: Editora Teosófica, 2013
Fonte da Gravura: Mais Yoga

TANTOS CAMINHOS


É dito que existem tantos Caminhos como existem seres humanos e que as necessidades de cada um mudam com o passar do tempo. Da mesma forma como as brincadeiras de criança dão lugar aos esportes e à busca da sensualidade no adolescente, mais tarde aos jogos de poder no adulto e, finalmente, no homem maduro ao anseio espiritual, assim também, o buscador da verdade passa por diferentes etapas em sua jornada. Em cada etapa da vida teremos novos desafios. Assim como a fruta só aparece na estação certa, no ser humano o amadurecimento espiritual virá no seu devido tempo, e a Providência Divina colocará ao nosso alcance as circunstâncias mais favoráveis ao nosso progresso. Cabe a cada um, porém, discernir o que lhe é mais apropriado e tomar as ações devidas para aproveitar as oportunidades ao seu alcance.

Porém, devemos ter sempre em mente que todas as informações, instruções e revelações do exterior, estejam elas contidas nas Sagradas Escrituras, livros inspirados, nas palavras de grandes sábios ou em mensagens canalizadas, são meramente meios para um fim. O objetivo último de toda a vida espiritual é a experiência interior de unidade com o Todo e com todos, ou a união com Deus, como dizem os místicos. Nas palavras de Lama Govinda, “Os instrutores tibetanos sempre enfatizam o fato de que a verdade última não pode ser expressa em palavras, mas somente experimentada em nosso interior. Portanto, nossas crenças não são importantes, mas sim o que nós experimentamos e praticamos, e como isso afeta a nós mesmos e o ambiente que nos cerca.”[1]

Aqueles que se sentem confortáveis em sua tradição ou movimento, nele encontrando tudo o que seu coração pede, devem aproveitar para mergulhar fundo em seus estudos e, principalmente, em suas práticas. Devemos ter em mente, porém, que cada um de nós é um diamante em processo de lapidação. Existem inúmeras facetas dessa pedra preciosa que precisam ser buriladas. Em geral, precisamos mudar de posição ou a direção do movimento, para burilar uma nova faceta. Por isso devemos ter em mente a sabedoria milenar contida na preciosa obra, Luz no Caminho: “Procura o caminho recolhendo-te para o interior. Busca o caminho avançando ousadamente para o exterior. Não o busques por qualquer via especial. Para cada temperamento existe uma estrada que parece a mais desejável. O caminho, porém, não é encontrado só pela devoção, só pela contemplação religiosa, pelo progresso ardoroso, pelo trabalho com autossacrifício, pela atenta observação da vida. Nenhuma destas coisas isoladamente é capaz de levar o discípulo mais do que um passo adiante. Todos os degraus são necessários para formar a escada. Os vícios dos homens tornam-se degraus na escada, um a um, à medida que vão sendo superados.”[2]

Por essa razão, convém ao buscador estar sempre atento a outros enfoques, a outras doutrinas, além daquelas professadas por sua religião, movimento ou tradição. É dito que uma das melhores maneiras de entendermos as doutrinas de nossa religião é estudarmos outra religião. Como estaremos começando do princípio e, no caso da “religião dos outros,” não seremos tolhidos em nossas pesquisas por nossos condicionamentos oriundos de questões de fé doutrinária, torna-se mais fácil estudarmos e questionarmos até entendermos os pontos fundamentais dessa outra religião. Isso invariavelmente nos remeterá a vários pontos paralelos de nossa própria religião, que anteriormente haviam sido aceitos mesmo sem ser entendidos. Como todas as religiões originam-se da mesma fonte e levam ao mesmo objetivo, não é de se estranhar que venhamos a encontrar inúmeras concordâncias ou paralelos em seus aspectos fundamentais. A teosofia, a sabedoria divina, é exatamente a essência esotérica fundamental que está por trás de todas as grandes religiões, tradições e movimentos espirituais.


Raul Branco


Notas:

[1] Insights of a Himalayan Pilgrim, Lama Govinda. Dharma Press, p. 38.
[2] Luz no Caminho, Mabel Collins. Editora Teosófica, 1999, p. 51.


Fonte: Os Mestres e suas Mensagens / Raul Branco (ed. digital)
1ª Edição, Brasília: Editora Teosófica, 2013
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

ESTABILIDADE


Vivemos, a maioria de nós, em um mundo que nos exige muito. O estresse e as tensões cobram seu tributo a muitos de nós. [...] São Bento, na [sua] Regra, apresenta a estabilidade como sendo um dos principais objetivos [da vida]. Precisamos confiar em nós mesmos, estar seguros de que não seremos desequilibrados pelo aparecimento dos primeiros ventos de tempestade. [...]

A meditação é um caminho para essa estabilidade, a estabilidade que é a realidade de nosso próprio ser. A repetição do mantra se parece ao lançar âncora, ancorarmo-nos nas profundezas de nosso próprio ser. [...] A verdadeira estabilidade só pode chegar a cada um de nós quando estamos firmemente ancorados em Deus. A descoberta extraordinária que precisamos fazer é a de que, uma vez que estejamos ancorados em nosso verdadeiro ser, estamos ancorados em Deus. Descobrimos, ao mesmo tempo, nossa própria fragilidade; as tempestades da vida podem nos jogar de um para outro lado tão facilmente. Mas, também descobrimos, ao mesmo tempo, nosso próprio potencial extraordinário: o de sermos um com a energia de Deus, com o poder de nós mesmos expandirmos nossas vidas para a generosidade, o amor, a vida eterna, o que vale dizer para a vida ilimitada.


John Main, OSB



Fonte: John Main OSB, THE HUNGER FOR DEPTH AND MEANING, editado por Peter Ng (Singapura: Medio Media, 2007), p. 151.
Via: http://www.wccm.com.br/leitura-john-main-osb/945-estabilidade
Fonte da Gravura: https://fancycrave.tumblr.com/post/151252920190/download-by-charles-rondeau

quarta-feira, 13 de maio de 2020

NASCIMENTO E MORTE RELATIVOS


O nascimento e a morte não são antagônicos, pois cada nascimento é uma morte relativa, e cada morte um nascimento relativo. Nosso ser astral deve desaparecer com o nosso nascimento terrestre, para reviver em nossa consciência cerebral; depois, no momento da morte, reconquista a sua liberdade. Volta então à sua existência normal, enriquecido ou empobrecido, segundo a utilização que fez de sua vida terrestre, com vistas à vida futura.

O ato da concepção nos dá a vida corpórea; ao nascimento a alma se reveste da consciência cerebral e por ocasião da morte o espírito readquire as faculdades ocultas. A mudança da vida terrestre para a vida transcendental é tão grande que não podemos concebê-la nitidamente. Não podemos nos imaginar entrando num Céu tal como no-lo pintaram, nem no inferno como o entendemos, e de fato não mereceríamos um mais do que o outro. Estaremos desembaraçados de todos os males que aderem à nossa existência corpórea.

Nossas concepções restringidas pelos estreitos âmbitos da vida dos sentidos ampliar-se-ão no Além. Nossa atividade, que não estará a serviço dum organismo corpóreo, terá campo de ação mais vasto, e como disporemos de um meio de locomoção astral, poderemos gozar de uma existência de tal forma superior a esta...

Tudo nos leva a presumir que no Além viveremos em uma comunidade de espíritos bem maior do que na terra, onde a humanidade mal inicia a formação de grupos solidários.

É também de prever que a moral seja lá superior à da Terra, e que o nosso lugar no Além seja tanto mais favorável quanto mais na Terra tivermos procurado viver beneficiando a solidariedade geral.


Carl Du Prel



Fonte: do livro (digital), "O Outro Lado da Vida"
Fonte da Gravura: Espiritismo Brasil

MEDITAÇÃO - FÉ, MANTRA E AMOR


Quando ele nos diz para não nos preocuparmos, Jesus não está negando a realidade dos problemas do dia-a-dia. Está nos dizendo para abandonarmos a ansiedade, e não a realidade. Aprender a não se preocupar é uma tarefa difícil... [No entanto], a despeito de sua síndrome de atenção deficiente, até a mente moderna também tem sua capacidade natural de se aquietar e de transcender suas fixações. Nas profundezas, ela descobre sua própria clareza onde está em paz, livre da ansiedade. A maioria de nós tem cerca de meia dúzia de ansiedades favoritas, tais como doces amargos que mastigamos sem parar. Ficaríamos assustados se nos privassem delas. Jesus nos desafia a superar o medo de abrir mão da ansiedade, o medo que temos da própria paz. A prática da meditação é uma forma de aplicar seu ensinamento à prece; através da experiência, ela prova que a mente humana pode realmente optar por não se preocupar. [...]

Optar por repetir o mantra com fé, e voltar a ele, sempre que as distrações intervém, é o exercício da nossa liberdade de prestar atenção. Não se trata de algo como uma opção por uma determinada marca da prateleira do supermercado. É a opção pelo compromisso. O caminho do mantra é um ato de fé, e não uma jogada de poder do ego. Em cada ato de fé existe uma declaração de amor. A fé prepara o terreno para que a semente do mantra germine no amor. Não criamos um milagre da vida e do crescimento sozinhos, mas, somos responsáveis por seu desabrochar. Chegar à paz da mente e do coração - ao silêncio, à tranquilidade e à simplicidade - não exige a vontade de um campeão, mas a atenção incondicional, a fidelidade continuada de um discípulo.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: Extraído de "Meditação", no livro "Jesus, O Mestre Interior"
São Paulo: Martins Fontes, 2004, pp. 277-278.
http://www.wccm.com.br/leitura-laurence-freeman-osb/872-meditacao-200202
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

A BÍBLIA PERANTE O ROSACRUCIANISMO


A Bíblia foi dada ao mundo por elevados Espíritos, inspirados por Hierarquias acima da possibilidade de erro, daí constituir o Livro Sagrado, fonte espiritual legítima para a Doutrina Rosacruz. Entretanto, imprescindível resulta estar capacitado para compreendê-lo. Ao examiná-lo com a profundidade e o discernimento necessários, verificamos estar baseado em claves gradativas que fazem com que cada buscador da Verdade encontre o exato conhecimento que está em condições de assimilar.

Certo é, também, que a versão da Bíblia que chega até nós está muito deturpada, com seus textos originais alterados, adaptados ou mal traduzidos. Mas, sua estrutura geral e seus ensinamentos esotéricos não foram profundamente prejudicados, em parte devido ao desconhecimento, pelos censores, de todo o alcance de suas entrelinhas, de modo que suas humanas deficiências não impedem o aproveitamento, por parte dos seres mais esclarecidos, da excelência espiritual de sua origem.

Aqui oferecemos um exemplo do sentido profundo da Bíblia: a história de Moisés e dos filhos de Israel. Compreendemos que cada palavra na Bíblia tem um valor ou significado oculto. A pessoa comum lerá seus versículos literalmente, e continuará ignorando seu conteúdo esotérico, extraindo deles, assim, um aproveitamento muito menor.

O nome Moisés representa “o salvo das águas”, simbolizando a mente vitoriosa que ascende e domina as inferiores ondas da sensualidade, as baixas emoções. A “vara arrojada ao chão”, e sua transformação em serpente, expressa a espinha vertebral pela qual flui a força da vida, força que, se não é bem utilizada, passa a constituir a serpente do sexo, envenenando com sua mordedura. Os filhos de Israel, ou da Luz, são as potencialidades latentes que existem dentro de nós e que precisam ser libertadas do Faraó, governador do Egito, que encarna a obscuridade. Foi preciso que fôssemos conduzidos a essa obscuridade ou ignorância para que esquecêssemos nossa origem divina e, mais tarde, quando por nossos valores próprios estivéssemos aptos, iniciarmos o retorno à Terra Prometida. Sabemos que, a princípio, Moisés ama a filha do Faraó, que representa a sensualidade; depois, porém, casa-se com a moça que “vigia as ovelhas”. Na Bíblia, a palavra ovelha indica sempre pureza. As palavras femininas moça e mulher indicam sempre, também, coração ou natureza emocional, em um sentido elástico de amor. A maioria dos humanos ama, em primeiro lugar, a filha do Faraó, ou as emoções inferiores, procurando, a seguir, um amor mais elevado, ou em outras palavras, a mulher (coração) que vigia as ovelhas, que é pura, superior. Dado esse passo, nosso progresso espiritual avança mais depressa. Conversamos com DEUS “na montanha”, como demonstração de consciência elevada, e somente “na montanha”, possuidores de elevada consciência, podemos harmonizar-nos com a Divindade. Então, Moisés recebe as Tábuas da Lei, com os Dez Mandamentos gravados por DEUS. Isso revela que, após nos colocarmos em condições de chegar até DEUS, encontramos discernimento e força para viver Suas Leis e ser Seus disseminadores, Leis já gravadas, então, em nossa própria alma.


Irene Gómez de Ruggiero



Fonte: do livro OS SÍMBOLOS BÍBLICOS À LUZ DA FILOSOFIA ROSACRUZ
Fraternidade Rosacruz Max Heindel - Centro Autorizado do Rio de Janeiro
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/livro-b%C3%ADblia-aberto-%C3%B3culos-1936547/

ASPECTOS DO AMOR


À luz da experiência da meditação somos capazes de ver... o grande poder de equilíbrio do amor, que nos cria, nos acompanha... que nos cura e nos ensina... Não se trata de um amor que precisamos conquistar ou merecer, mas é um amor que está constantemente conosco.

Nossos olhos estão bem abertos na meditação, para ver o quanto este poder do amor está presente em meio a nosso desequilíbrio, nossa teimosia, nossa distração. Mesmo na distração de nossa meditação somos capazes de sentir, cada vez mais profundamente, a presença da paz. E, na medida em que nos ensina a nos amarmos a nós mesmos, a amarmos aos outros e a amar a Deus, a meditação também nos ensina que todos os relacionamentos são, na verdade, aspectos de um relacionamento.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: do Retiro com Laurence Freeman (London: Medio Media/Arthur James, 1997), pp. 84-86.
http://www.wccm.com.br/leitura-laurence-freeman-osb/947-aspectos-do-amor-200509
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

A PSICOLOGIA DO RITUAL


Há uma realidade espiritual por trás das formas das religiões organizadas, e é unicamente esta realidade que lhes dá o seu valor. Elas não foram criadas com a intenção de que funcionassem como uma disciplina para treinar a alma, ou nem mesmo para que servissem como um meio para agradar a Deus, mas sim para possibilitar que a Luz do Espírito possa ser colocada em foco na consciência.

Se compreendermos a psicologia do ritual, jamais seremos prisioneiros da superstição e nunca estaremos em luta contra formas vazias. Compreenderemos que uma forma é um canal para uma força, e que o canal físico para uma força não é apenas o material usado num sacramento, mas também a vívida imagem pictórica criada, por seu uso ritual, na mente dos adoradores.

Quando estamos procurando a validade das formas da Igreja, é para a força que está por trás do símbolo que devemos olhar. O signo exterior e visível, seja ele uma taça ou uma cruz, é apenas o ponto focal da atenção, o ponto que capacita o adorador a entrar em contato psíquico com a forma de força espiritual que é a vida que anima aquele símbolo.

Quando queremos encontrar uma explicação sobre o significado dos símbolos e rituais da Igreja, devemos olhar para a psicologia, não para a história. Aquilo que é comemorado não é um ato mundano, mas sim uma reação espiritual, e somente quando nós mesmos criamos essa reação interior é que podemos partilhar da eficácia do ato que foi o seu protótipo.

A crucificação de Nosso Senhor, nas mãos da autoridade romana, foi apenas a sombra projetada, sobre o plano material, pela luta que estava sendo travada no mundo espiritual. Não foi o derramamento do sangue de Jesus de Nazaré que redimiu a humanidade, mas o derramamento da força espiritual emanada da mente de Jesus, o Cristo. O simbolismo que comemora a Sua morte faz com que concentremos a nossa atenção no Sacrifício da Cruz e no trabalho que esse sacrifício tem feito pela humanidade. A subconsciência racial dos povos cristãos está profundamente impregnada com este ideal [...].

O ritual que faz com que uma congregação concentre a sua atenção está utilizando a mente-grupo. É bastante sabido que a mente-grupo, sob a influência do medo ou da raiva, é capaz de pânicos e linchamentos dos quais os membros individuais que compõem essa multidão são absolutamente incapazes; o mesmo acontece com os impulsos da vida espiritual. Uma congregação é uma multidão organizada, cuja atenção é canalizada, por apelos aos cinco sentidos físicos, para um único foco o sacrifício da Missa - e a emoção-grupo desse modo engendrada é capaz de elevar a mente-grupo a alturas que os indivíduos que compõem essa congregação são incapazes de alcançar sem ajuda.

Não se deve pensar que uma explicação deste tipo, do aspecto psicológico do poder da Eucaristia, possa ter qualquer intenção de diminuir o reconhecimento do seu aspecto Divino; sua única atenção é mostrar a maneira pela qual as forças espirituais operam no nível da mente. Se desejamos compreender o modus operandi das forças espirituais, devemos distinguir entre o espiritual e o mental. A confusão entre estes dois tipos de psicologia é que leva a tantos mal-entendidos.

Para ser apreendido pela mente humana não treinada, o poder de Deus tem de ser corporificado numa ideia concreta. Daí a necessidade da Encarnação, que apresentou Deus ao homem que ele pode compreender. Portanto, os sacramentos da Igreja são encarnações, ou corporificações na forma, de verdades espirituais primárias, por demais abstratas para poderem ser apreendidas pela mente não instruída. Por meio do seu simbolismo pictórico, a mente é capaz de contemplar aquilo que jamais poderia conceber sem ajuda. Esta contemplação possibilita que ela estabeleça uma ligação com a potência espiritual que realiza o trabalho projetado pelo sacerdote que está no plano físico. Desse modo, ligada em pensamento, a força espiritual se derrama na alma e realiza o seu trabalho divino.

Há, portanto, três aspectos para um sacramento o poder sem forma de Deus, transportado do abstrato para o concreto por Nosso Senhor; segundo, o ritual simbólico que nos faz lembrar da função particular do trabalho de Nosso Senhor; e, terceiro, a imagem formada na nossa imaginação. Quando esta última se firma na consciência, o circuito foi completado e Nosso Senhor nos colocou em contato com Deus.


Dion Fortune



Fonte: do livro "Magia Aplicada", de Dion Fortune
Biblioteca Esotérica Virtual
http://www.pgem.hpg.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

terça-feira, 12 de maio de 2020

SONO E SONHOS


Antes do adormecer e do acordar, existe um estado de pouca duração durante o qual o eu e o corpo astral estão separados do corpo físico, enquanto existe a ligação com o corpo etérico. O homem está, pois, em presença de sua memória (ligada ao corpo etérico) e pode exercer certas funções mentais (igualmente ligadas ao corpo etérico), mas faltam-lhe as percepções sensoriais claras, a plena consciência e o pensar racional, que não podem prescindir do instrumento do corpo físico. Certas experiências do eu durante esse estado, combinadas com reminiscências da memória, fazem surgir então os sonhos. O sonho constitui, pois, um estado intermediário entre o sono e a vigília. Ele é caracterizado por uma consciência reduzida, por imagens e formas do mundo exterior, sem, no entanto, lógica e clareza. O eu traduz suas vivências e recordações em imagens simbólicas.

Desde tempos imemoriais, o homem conhecia a natureza desse estado que possibilitava uma experiência velada de certas realidades espirituais. Daí a importância atribuída à arte de analisar os sonhos para se conhecer a realidade espiritual ou para se chegar à verdadeira personalidade do homem, revelada durante o sonho quando inexistem tabus sociais e barreiras fazendo com que o caráter se dissimule durante a vida normal.

Sem pretender ser completos, podemos indicar alguns tipos relevantes de sonhos:

1. Em muitos sonhos o homem é perseguido pelas reminiscências do dia. Preocupações e angústias o acompanham, problemas não resolvidos martelam seu espírito de maneira incoerente e certos impulsos (vingança, ódio, amor, cobiça) manifestam-se de modo irrefreado. Um sono repleto de sonhos dessa espécie não é regenerador, pois impede uma separação suficiente e benéfica entre o eu e a parte orgânica.

2. Muitos sonhos são determinados, em seu enredo, por influências do ambiente. Assim, podemos sonhar uma história que termina no tilintar agudo de uma flauta tocada por um dos personagens do drama onírico. Acordados, verificamos que o despertador provocou o tilintar no sono: eu recordo toda uma história que o precede e cujo final lógico é o tilintar. Isso prova que os sonhos não se desenrolam no tempo, mas são imagens instantâneas que somente ao recordar são mentalmente decompostas em várias fases sucessivas. Da mesma maneira, um incêndio no sonho pode ter por causa o calor excessivo provocado por um cobertor.

3. Há sonhos causados pelo próprio corpo. Uma refeição um pouco pesada, tomada antes de dormir, pode provocar pesadelos, e muitas vezes o próprio órgão pode aparecer sob uma forma simbólica (intestinos = serpente, dente = torre, sangue = água). Vemos mais uma vez que o sonho é simbolizador. A arte de interpretar os sonhos consiste, justamente, em descobrir a realidade que se traduz em símbolos.

4. Como já foi dito, os desejos mais íntimos do eu, reprimidos durante a vigília e sem possibilidade de subir à consciência, podem ter livre curso no sonho, embora sob forma simbólica. Esse fenômeno figura nos fundamentos de muitas análises psicoterapêuticas.

5. Um tipo de sonho ainda mais significativo é aquele em que o indivíduo encontra pessoas vivas ou mortas, recebendo delas uma mensagem que amiúde se confirma, mais tarde, na realidade: uma pessoa ausente pode dizer-nos, no sonho, que está doente ou morta; a notícia confirmatória chega poucos dias mais tarde. O que se torna patente aqui é uma experiência, feita pelo eu, de uma realidade no mundo espiritual. Com efeito, a morte de qualquer pessoa é um acontecimento que se reflete naquele domínio. Transcendendo os limites do espaço, o eu vivencia esse fato e o sonho o transforma em imagem.

6. Finalmente há pessoas que, ao despertar, sabem que no sonho lhes apareceu um ser espiritual superior com uma mensagem ou uma revelação, ou que elas assistiram a acontecimentos do futuro. São os chamados sonhos proféticos, que tamanho papel tiveram em tempos passados, desde os sonhos interpretados por José na corte do Faraó (as vacas gordas e as vacas magras) até visões dos profetas (aparições de Serafins, Querubins, Anjos, etc.). Esses sonhos também têm papel importante na psicologia moderna (especialmente em C. G. Jung).

Não há adormecer ou despertar sem sonho; na maioria dos casos, contudo, nós não nos lembramos dele. Muitas vezes, também, sem poder recordar um sonho concreto, acordamos com a certeza de ter passado um tempo num outro mundo.

Ao despertar, muitas vezes sonhamos com a volta ao corpo de forma simbólica. Por exemplo, sonhamos que estamos voando e nos aproximamos cada vez mais do chão, até bater nele. Nesse instante despertamos. Ou então queremos entrar num edifício ou, por exemplo, numa torre. Não conseguimos fazê-lo durante algum tempo, até que finalmente quase irrompemos nela à força e acordamos. Aqui o corpo é representado pelo símbolo da torre.

O sono, com a fase transitória do sonho, é, pois, um fenômeno que decorre de uma necessidade rítmica de todo o nosso ser. É fácil compreender que sonos ou sonhos provocados artificialmente (narcóticos, hipnose, anestesia) não são, nesse sentido, naturais, perturbando o equilíbrio das forças físicas e psicoespirituais.

Os três estados vigília, sonho e sono correspondem a três graus diferentes de consciência. Podemos dizer que o homem é homem somente quando, no estado de vigília, é plenamente consciente e lúcido.

A Antroposofia ensina que a consciência do animal é semelhante (embora não idêntica) à nossa consciência de sonho, enquanto a planta vive numa inconsciência total, correspondendo ao nosso estado de sono. A consciência dos minerais se é que podemos ainda falar em consciência seria ainda mais apagada do que a do nosso sono mais profundo.

No próprio homem também existem zonas ou sistemas diferenciados por vários graus de consciência. Rudolf Steiner expôs a genial ideia da trimembração do organismo humano, cuja essência pode ser resumida da seguinte forma:

O homem é plenamente consciente em seu pensar e em suas observações sensoriais. Rudolf Steiner chama esse sistema de neuro sensorial, ensinando que ele está centrado na cabeça, muito embora o corpo todo possua percepções sensoriais. O polo oposto é constituído pelas funções completamente inconscientes do metabolismo e da vontade traduzida em movimentos (o homem tem a representação clara dos motivos e do resultado almejado de um ato de vontade; mas o funcionamento e a realização do impulso volitivo lhe são completamente ocultos). Esse outro polo constitui o sistema do metabolismo e dos membros. Ele atua em todo o corpo, mas seu centro está no abdome e nos membros.

Entre esses dois polos, e com o grau de consciência intermediário entre a lucidez completa do sistema neuro sensorial e a inconsciência do sistema metabólico motor, acha-se o sistema circulatório (respiração, circulação) que tem por sede a parte torácica e liga, por assim dizer, os dois extremos. A esse sistema corresponde a vida sentimental e um grau de consciência equivalente ao estado de sonho.


Rudolf Lanz



Fonte: do livro “Noções Básicas de Antroposofia”, de Rudolf Lanz
Ed. Antroposófica, 7a. ed., 2005
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/narrativa-hist%C3%B3ria-sonho-dizer-794978/

PERISPÍRITO E ENFERMIDADE


[...] a gênese da maioria das enfermidades crônicas humanas se encontra na matriz perispiritual, que se utiliza da roupagem orgânica (física-vital) para drenar os desequilíbrios anímicos ali armazenados. Segundo a Doutrina Espírita, as enfermidades físicas e psíquicas de longa data têm as suas causas profundas nos recessos da alma endividada, que pode plasmar na mente, através do arrependimento mórbido, “zonas de remorso”, desequilibrando o perispírito e, consequentemente, o princípio vital, criando as predisposições mórbidas para as moléstias crônicas se manifestarem. Libertando-nos de uma visão fatalista e predestinada, frisemos que os débitos passados (dívidas cármicas) podem ser resgatados por uma infinidade de “acontecimentos reparadores”, exonerando as distonias mentais antes que os distúrbios físicos correspondentes sejam gerados; neste capítulo, encaixam-se todas as iniciativas dignificantes voltadas ao bem comum.

“De modo geral, porém, a etiologia das moléstias perduráveis que afligem o corpo físico e o dilaceram guardam no corpo espiritual as suas causas profundas. A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no Espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvulas de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos classificar de «zona de remorso», em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, com reflexo permanente na parte do veículo fisio psicossomático ligada à lembrança das pessoas e circunstâncias associadas ao erro de nossa autoria. Estabelecida a ideia fixa sobre esse «nódulo de forças mentais desequilibradas», é indispensável que acontecimentos reparadores se nos contraponham ao modo enfermiço de ser, para que nos sintamos exonerados desse ou daquele fardo íntimo ou exatamente redimidos perante a Lei. Essas enquistações de energias profundas no imo de nossa alma, expressando as chamadas dívidas cármicas, por se filiarem a causas infelizes que nós mesmos plasmamos na senda do destino, são perfeitamente transferíveis de uma existência para outra. Isso porque, se nos comprometemos diante da Lei Divina em qualquer idade da nossa vida responsável, é lógico venhamos a resgatar as nossas obrigações em qualquer tempo, dentro das mesmas circunstâncias nas quais patrocinamos a ofensa em prejuízo dos outros. É assim que o remorso provoca distonias diversas em nossas forças recônditas, desarticulando as sinergias do corpo espiritual, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade [...]. Todavia, ainda mesmo quando sejamos perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral.” (Evolução em Dois Mundos, André Luiz, cap. XIX, pp. 213-4)

Inferindo uma energia própria ao pensamento humano, Manoel Philomeno de Miranda associa a ação do mesmo nos “tecidos sutis do perispírito”, que plasmará o corpo físico do Espírito reencarnante. Caso tenhamos desequilibrado o psicossoma com uma força mental desagregadora empregada na prática dos atos infelizes da criatura humana, destruindo as matrizes perispirituais, esta distonia será transferida ao corpo físico em formação, criando suscetibilidades que poderão permitir o desenvolvimento de enfermidades futuras.

“- Os atos infelizes deliberadamente praticados, em razão da força mental de que necessitam, destroem os tecidos sutis do perispírito que, se ressentindo do desconcerto, deixarão matrizes na futura forma física, na qual se manifestarão as deficiências purificadoras, e a queda do tom vibratório específico permitirá que os envolvidos no fato, no tempo e no espaço, próximos ou não, se vinculem pelo processo de uma sintonia automática de que não se furtarão. Aí se estabelecem as enfermidades de qualquer porte. Os fatores imunológicos do organismo, padecendo a disritmia vibratória que os envolve, são vencidos por bactérias, vírus e toda a sorte de micróbios patológicos que logo se desenvolvem, dando gênese às doenças físicas. Por sua vez, na área mental, os conflitos e mágoas, os ódios acerbos, as ambições tresvariadas e os tormentosos delitos ocultos, quando da reencarnação, por estarem ínsitos no Espírito endividado, respondem pelas distonias psíquicas e alienações mais variadas. [...] Eis porque é rara a enfermidade que não conte com a presença de um componente espiritual, quando não seja diretamente esta o seu efeito. O corpo e a mente refletem a realidade espiritual de cada criatura [...]. (Painéis da Obsessão, Manoel Philomeno de Miranda, cap. VI, pp. 48-9)


Dr. Marcus Zulian Teixeira



Fonte: do livro "A Natureza Imaterial do Homem"
2a. Edição, São Paulo, Edição do Autor, 2015
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal