sexta-feira, 22 de julho de 2022

À FRENTE DO DESESPERO


Dias há nos quais tens a impressão de que mesmo a luz do sol parece débil, sem que consiga fulgir nos panoramas do teu caminho. Tudo são inquietações e ansiedades que pareciam vencidas e que retornam como fantasmas ameaçadores, gerando clima de sofrimento interior.

Nessas ocasiões, tudo corre mal. Acontecem insucessos imprevistos e contrariedades surgem de coisas sem importância que se amontoam, transformando-se em óbice cruel de difícil transposição.

Surgem aflições em família que navegava em águas de paz; repontam problemas de conjuntura grave em amigos que te buscam socorros imediatos; e, como se não bastassem, a enfermidade chega e se assenhoreia da frágil esperança que, então, se faz fugidia.

Nessa roda-viva, gritas interiormente por paz e sentes indescritível necessidade de repouso. A morte se te afigura uma bênção capaz de liberar-te de tantas dores!...

Refaze, porém, a observação.

Tudo são testemunhos necessários à fortaleza espiritual, indispensável à fixação dos valores transcendentes. Não fora isso, porém, todas essas abençoadas oportunidades de resgate, e a vida calma enfraqueceria o teu caráter, conspirando contra a paz porvindoura, por adiar o instante em que ela se instalaria no teu íntimo.

Quando tudo corre bem em volta de nós e de referência a nós, não nos dói a dor alheia nem nos aflige a aflição do próximo. Perdemos a percepção para as coisas sutis da vida espiritual, a mais importante, e desse modo nos desviamos da rota redentora.

Não te aborreças, pois, com os acontecimentos afligentes que independem de ti.

A família segue adiante, o amor muda de domicílio, a doença desaparece, a contrariedade se dilui, a agressão desiste, a inquietude se acalma se souberes permanecer sereno ante toda dor que te chegue, enquanto no círculo de fé sublimas aspirações e retificas conceitos.

Continua fiel no posto, operário anônimo do bem de todos, e espera.

Os ingratos que se acreditaram capazes de te esquecer lembrar-se-ão e possivelmente volverão; os amigos que te deixaram, os amores que te não corresponderam, aqueles que te não quiseram compreender, os que zombaram da tua fraqueza e ridicularizaram tua dor envolta nos tecidos da humildade, e os que investiram contra os teu anelos, todos voltarão, tornarão sim, pois ninguém atinge a plenitude da montanha sem a vitória pelo vale que necessita ser vencido.

Tem calma! Silencia a revolta!

Refugia-te na palavra clarificadora do Evangelho consolador e enxuga tuas lágrimas com as suas lições. Dos seus textos extrai o licor da vitalidade e tece com as mãos da esperança a grinalda de paz para o coração lanhado e sofrido. Se conseguires afogar todas as penas na oração de refazimento, sairás do colóquio da prece restaurado, e descobrirás que, apesar de tudo acontecer em tais dias, Jesus luze intimamente nas províncias do teu espírito. Poderás, então, confiar e seguir firme, certo da perene vitória do amor.



Divaldo Pereira Franco / Joanna de Ângelis




Fonte: do livro "Lampadário Espírita"
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quinta-feira, 21 de julho de 2022

VELHOS HÁBITOS E CONCEPÇÕES ERRÔNEAS


O cristianismo põe a tônica na crucificação de Jesus. Evidentemente, é bom associar-se à paixão e à morte de Jesus para se compreender a grandeza do seu sacrifício. Mas, na nova vida que o Cristo agora nos propõe, não é preconizado que se fixe pelo suplício da cruz, pois o Cristo também se manifesta pela beleza, pela alegria, pela luz. Na nova cultura, a ideia da glória do Cristo é que alimentará a nossa vida interior. Deus rejubilará ao ver que já não damos a primazia ao lado negativo, que deixamos de abraçar o pó e de nos ajoelhar diante de túmulos, pois Ele destinou-nos um futuro muito mais grandioso. Os mortos de que devemos ocupar-nos não são os dos cemitérios, mas sim os que estão sepultados no interior de nós: os nossos velhos hábitos, as nossas concepções velhas e erradas. São esses os mortos que temos de procurar, para acabarmos com eles!



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 20 de julho de 2022

SILÊNCIO, SIMPLICIDADE E ABISMO INTERIOR


No processo de simplificação evangélica é necessário aludir à estreita relação que tem com o silêncio. No fundo, essa renúncia aos apegos, afetos, necessidades, preocupações consiste no exercício de silenciar todas as pressões externas que me dizem o que é importante para os outros, e também as pressões internas que me impõem o que absolutamente preciso para viver: os afetos , estima, valor, segurança ou prestígio. De fato, o silêncio é o clima em que o olhar se simplifica e o coração se unifica. Mas, para isso, não basta o silêncio externo, em que se silenciam as vozes e os ruídos ao nosso redor, é necessário sobretudo o silêncio interior, que consiste em silenciar as reivindicações e os ruídos que vêm das paixões.

Se meus desejos, meus medos, minhas alegrias e minhas dores, se todos os movimentos que vêm dessas "quatro paixões" não fossem perfeitamente ordenados a Deus, eu não estaria solitário, haveria ruído em mim; é necessário o apaziguamento, o "sono das paixões", a unidade do ser. [1]

É a mesma coisa que São João da Cruz nos ensina quando fala de acalmar a casa interior: "Daí, nas quatro paixões da alma, que são: alegria, dor, esperança e medo, sendo acalmado pela mortificação contínua, e nos apetites naturais adormecer na sensualidade pela secura ordinária, e na elevação da harmonia dos sentidos e poderes interiores, cessando suas operações discursivas, como dissemos, que é todo o povo e morada da parte inferior da alma, que é o que chama aqui de sua casa, dizendo: Minha casa já está calma. [2]

O silêncio de que precisamos não pode consistir simplesmente em calar a boca ou fugir dos ruídos externos. O verdadeiro silêncio tem a ver com a descoberta do tesouro, porque é fruto da atração de Deus. Se ele me encontra, me oferece seu amor e me chama para ele - essa é a essência da vocação cristã - ele me atrai para ser dele. E a primeira resposta a essa atração é atenção prioritária a ele, escutá-lo; e só podemos ouvir se calarmos, silenciarmos. Mas presos nas complicações da vida e dentro de nós mesmos, não podemos ouvir a Deus. Devemos, então, entrar num processo pelo qual tudo se simplifica, precisamente porque as vozes interiores e exteriores que não vêm de Deus são silenciadas e o supérfluo desaparece, para que Deus possa começar a ser verdadeiramente Deus em nós. É um itinerário ao qual Deus nos atrai para nos fazer seus e entrar em profunda comunhão de amor com Ele; itinerário que se percorre na desapropriação e no abandono, que supõe uma verdadeira descida ao abismo interior em que tudo o que não é Deus é silenciado e, assim, tudo se simplifica à força de olhar apenas para Deus e buscar apenas a sua vontade. Esta mudança é como a inclinação que nos faz descer para o abismo interior onde Deus habita. É o caminho necessário para que nossa habitação em Cristo se torne uma realidade da mesma forma que ele habita em nós. E a simples intenção é o que nos torna semelhantes a Deus.

A simplicidade da intenção é o que dá às almas o descanso em Deus, como um abismo insondável ao qual devemos aspirar, como nos diz a carta aos Hebreus: "Esforcemo-nos, pois, por entrar nesse descanso". (Hb 4,11)

"A simplicidade comunica à alma o repouso do abismo." Ou seja, o descanso em Deus, abismo insondável, prelúdio e eco daquele descanso eterno de que fala São Paulo: "Nós, os que cremos, seremos introduzidos no descanso". (Hb 4,3) [3]


Notas:
[1] Santa Isabel de la Trinidad, Últimos ejercicios, día décimo.
[2] San Juan de la Cruz, Noche Oscura, Libro I, cap. 13, 15.
[3] Santa Isabel de la Trinidad, Últimos ejercicios, día tercero, que comenta una frase de Ruisbroeck.





Fonte: Hermandad de Contemplativos en el Mundo
https://contemplativos.com/retiro-espiritual/la-simplicidad-espiritual/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mar-p%c3%b4r-do-sol-arvores-papagaios-4420591/

NOSSA VIDA MENTAL


Nossa vida mental é o campo de nossa consciência desperta na faixa evolutiva em que o conhecimento adquirido nos permite operar.

Encarnados e desencarnados povoam o planeta Terra na condição de habitantes de um imenso edifício de vários andares, em posições horizontais diversas, de acordo com o estado consciencial de cada um, produzindo pensamentos múltiplos que poderão atrair, repelir ou neutralizar.

A mente transmite de dentro para fora as impressões da alma e recebe de fora para dentro as sensações da matéria, motivo pelo qual a alma reflete sua vontade, seu desejo, sua inteligência, sua memória e sua imaginação.

O pensamento desloca, em torno de nós, forças sutis ou campo vibratório, construindo paisagens ou formas e criando centros magnéticos ou ondas, com os quais emitimos a nossa atuação ou recebemos a atuação dos outros.

Os pensamentos são ondas de força que poderão alimentar, deprimir, sublimar, arruinar, integrar, induzir e desintegrar, razão por que, quem mais pensa, dando corpo ao que idealiza, mais apto se faz à recepção das correntes mentais invisíveis, nas obras do bem ou do mal.

É por esta razão que, quando vivemos e convivemos com criaturas idealistas, operosas, confiantes, otimistas e realizadoras, somos beneficiados, nutridos ou abastecidos de substância mental em grande proporção, favorecendo o nosso trabalho em forma de impulsos e estímulos que a nossa mente recolhe; ao passo que, quando vivemos e convivemos com criaturas desanimadas, pessimistas e amarguradas, nosso nível mental ou tônus mental fica sujeito a depressões e enfermidades.

Todos somos afetados pelas vibrações de paisagens, de pessoas e de coisas que nos cercam, e é por isso que, quando não nos habilitamos a conhecimentos mais altos e não exercitamos a vontade para sobrepor-nos às circunstâncias de ordem inferior, sofremos a imposição do meio onde vivemos e convivemos.

Princípios idênticos regem as nossas relações, uns com os outros; conversações alimentam conversações, pensamentos ampliam pensamentos, e é em função deste princípio que demoramos muito mais conversando com aqueles que se afinam com o nosso modo de ser e de proceder.

Quando estamos pensando, imaginando, desejando ou agindo, seja no mundo físico ou no mundo espiritual, nossa mente está sintonizada com todos aqueles que pensam, imaginam, desejam ou agem como nós, da mesma forma que a fonte está comandada pela nascente.

Daí a grande necessidade de constante renovação para o bem, orando e vigiando, trabalhando e servindo, aprendendo e amando, para que a nossa vida mental ou vida íntima se ilumine e aperfeiçoe, se realmente desejamos a companhia dos bons, dos sábios e dos justos, através do intercâmbio mental.



Ruy Gibim




Fonte: Revista "Reformador" - Junho 2007
Federação Espírita Brasileira - https://www.febnet.org.br/
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domingo, 17 de julho de 2022

SIMPLICIDADE E VERDADE


(...) A chave para a unidade interior que leva à simplicidade é (...) focar plena e conscientemente em Deus. Na medida em que permitimos que as realidades da vida - por mais importantes que sejam - nos afastem dos fundamentos, mesmo que momentaneamente, caímos na dispersão que leva a um coração dividido. E o resultado dessa falta de coerência entre a centralidade de Deus, em que cremos, e as realidades que nos absorvem é o cansaço e a falta de frutos em nossas vidas.

Por outro lado, um olho são, limpo e simples dá-nos um coração unificado, que tem um único amor, do qual brota tudo o que procura e deseja, que é uma coisa: Deus. Para chegar lá, é preciso percorrer o caminho da unificação de tudo em Deus: um itinerário espiritual que envolve um sério trabalho ascético de vitória para reconhecer Deus em tudo, distingui-lo de qualquer realidade que não seja ele e centrar o olhar e o coração, com amor exclusivo, nele. O sinal de que você está avançando nesse caminho é a paz sobrenatural e o fruto que ela produz em si mesmo e nos outros.

Tudo isso não pode ser reduzido a um exercício circunstancial realizado em algum momento singular, mas deve conformar-se ao habitual "tom" de nossa vida ordinária, que serve como exercício permanente para realizar o indispensável discernimento de escolher Deus como "único necessário" a cada momento e viver o momento presente com toda intensidade sobrenatural.

"Marta, Marta, você está inquieta e preocupada com muitas coisas; apenas uma é necessária. Maria, então, escolheu a melhor parte, e não lhe será tirada." (Lc 10,41-42)

Este não é um aspecto tangencial da espiritualidade cristã, mas um elemento importante dela. Isso fica claro, por exemplo, por São Tomás de Aquino explicando a profunda relação que existe entre simplicidade e verdade, a ponto de se identificar.

A simplicidade, como o próprio nome sugere, é o oposto da duplicidade, que consiste em pensar uma coisa e dizer outra. Portanto, a simplicidade pertence à virtude da veracidade. E retifica a intenção não diretamente, pois esta é típica de toda virtude, mas exclui a duplicidade por desacordo entre o que se pretende e o que se manifesta. [1]

A virtude da simplicidade e a da verdade são, na realidade, a mesma e diferem apenas com uma distinção de razão, pois em um caso se chama verdade por causa da concordância dos sinais com o significado, e em outro simplicidade, porque não se propõe objetivos diversos, a saber: fingir internamente uma coisa e externamente expressar outra diferente. [2]

Se formos capazes de aplicar a verdade aos eventos que nos acontecem e à nossa própria vida interior, tudo será simplificado imediatamente (...).

Agora, para alcançar a simplicidade, é preciso ir além da mera veracidade, que evita enganos e mentiras. São Tomás fala da "verdade da vida", diferente da verdade que consiste em declarar as coisas como são. A vida é verdadeira quando se adapta ao seu ser autêntico, ao que Deus tem em mente para o ser humano e para cada pessoa. Podemos dizer que temos uma vida "verdadeira" na medida em que ela está de acordo com o plano de Deus. E esta verdade da vida equivale à simplicidade do coração. O homem simples (simples, reto e íntegro) é primeiro o que deve ser, e depois manifesta, sem engano, o que é.

Comentando o texto de 2Co 1,12, São Tomás identifica a retidão de consciência com a simplicidade do coração: "O motivo de nosso orgulho é o testemunho de nossa consciência: ela nos assegura que procedamos com todo o mundo, e sobretudo convosco, com a sinceridade [simplicidade] [3] e honestidade de Deus, e não pela sabedoria carnal, mas pela graça de Deus”. Vemos que a simplicidade consiste, ao mesmo tempo, em manter a intenção dirigida a Deus com justiça e em fazer, de fato, o que é bom em si, a sinceridade da ação. Tudo isso se opõe à sabedoria da carne, que é o oposto da simplicidade. [4]

Recordemos, neste sentido, que São Paulo recomenda simplicidade de coração aos servos a serviço de seus senhores; uma simplicidade que se alcança olhando para Cristo e cumprindo a vontade de Deus, e se manifesta em obras: "Escravos, obedeçam a seus senhores na Terra com respeito e temor, com a simplicidade de seu coração, como Cristo. Não pelas aparências, para parecer bem diante dos homens, mas como servos de Cristo que fazem, de coração, o que Deus quer, voluntariamente, como quem serve ao Senhor e não aos homens." (Ef 6:5-7)

Assim, no caso dos escravos, a simplicidade de coração consiste em agirem não em face de seus senhores, para agradá-los com aparências, mas como servos de Cristo, o que demonstram fazendo a vontade de Deus. É por isso que ele pode dizer a todos nós: "Tudo o que fizerdes, fazei-o de toda a vossa alma, como para servir ao Senhor e não aos homens." (Cl 3,23) Assim, segundo Santo Tomás, a simplicidade une a verdade do coração e a verdade das obras, de modo que a simplicidade leva a obedecer com retidão a vontade de Deus. [5]

Comentando a carta aos Filipenses, São Tomás dá-nos a razão última da simplicidade do cristão, que é que somos filhos de Deus e devemos assemelhar-nos a Ele em tudo, também na sua simplicidade: «Faça o que fizer, seja sem protestos nem argumentos Assim sereis irrepreensíveis e humildes, filhos de Deus sem mácula.” (Fp 2,14-15) Isso só se consegue ser alcançado dirigindo permanentemente o nosso olhar para Deus e mantendo a intenção unificada no Uno. [6]

Consequentemente, para ser simples, é preciso agir com retidão de intenção, de modo que o que realmente queremos e buscamos seja cumprir a vontade de Deus, direcionando conscientemente toda a nossa vida para Deus e evitando que outros interesses se infiltrem. Por isso é muito importante que nos esforcemos para "purificar a intenção". (...)

(Texto completo no sítio infra especificado)


Notas:

[1] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 109, a. 2.

[2] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 111, a. 3.

[3] El texto griego dice ἁπλότητι, como Mt 6,22, y la Vulgata en latín traduce simplicitate.

[4] Cf. Santo Tomás de Aquino, In II ad Corinthios, cap. 1, lect. 4, n. 32, citado por Pablo Martí, La simplicidad moral en el hombre (https://mercaba.org/FICHAS/VyV/lsmeeh.pdf).

[5] Santo Tomás de Aquino, In ad Ephesios, cap. 6, lect. 2, 344-348. En In ad Colossenses, cap. 3, lect. 4, n. 178, se refiere a un texto similar: «Esclavos, obedeced en todo a vuestros amos humanos, no por servilismo o respetos humanos, sino con sencillez (ἁπλότητι / simplicitate) y temor del Señor» (Col 3,22), en el que relaciona la simplicidad con el temor de Dios.

[6] Santo Tomás de Aquino, In ad Philipenses, cap. 2, lect. 4, n. 81.



Fonte: Hermandad de Contemplativos en el Mundo
https://contemplativos.com/retiro-espiritual/la-simplicidad-espiritual/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/dente-de-le%c3%a3o-flor-espiritual-seixo-864963/

sábado, 16 de julho de 2022

RECORDAÇÕES DE NOSSA VIDA


Como a maioria das pessoas, vós tendes o mau hábito de recordar sobretudo o que vos fez sofrer; guardais tudo convosco, recordando, ruminando.

Isso é muito perigoso, não se deve remoer o que foi mau.

Há que tirar daí uma conclusão, de uma vez por todas, e não pensar mais no assunto.

Fazeis mal a vós próprios revivendo continuamente estados ou acontecimentos negativos.

Tentai, antes, recordar os momentos mais luminosos da vossa existência, procurai compreender por intermédio de quem e como eles aconteceram, rememorai-os muitas vezes, exatamente como voltais a ouvir muitas vezes uma música de que gostais, e assim revivereis as mesmas sensações de pureza, de liberdade, de luz.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

SANTO ANTÔNIO E A TEOSOFIA DO SOL


A visão parcial da foto (acima) de Roberto Gil mostra a antiga escultura de Santo Antônio, patrono da cidade de Lisboa, que está na Igreja de Santo Antônio. A escultura foi poupada pelo terremoto de 1755. A imagem contém um Sol acima da cabeça do Santo.



O Santo de Lisboa e Pádua Ensina Ideias e Princípios Básicos da Filosofia Esotérica



A alma e o espírito nunca se separam da natureza. Apenas o ser humano desinformado faz isso, e assim provoca sofrimento.

A sabedoria antiga anda perto da natureza e vê o sagrado nos fenômenos do meio ambiente. A filosofia esotérica sabe que a natureza tem sete níveis de existência e consciência.

Antes de ela ser física, ela é espiritual; durante sua existência física ela é espiritual, e depois de ser física, ela volta a ser apenas espiritual por algum tempo. A filosofia esotérica autêntica é uma filosofia da natureza, ao mesmo tempo que é uma filosofia do espírito.

Este fato fica claro também no cristianismo do frei Antônio de Lisboa e Pádua. Em sermão do início do século XIII, Santo Antônio cita a Epístola de Tiago, 1,17:

“Toda dádiva excelente e todo dom perfeito vem do alto, desce do Pai das luzes, como o raio desce do Sol.”

Em seguida Antônio identifica a luz do Sol com Jesus:

“Assim como o raio do Sol, descendo do Sol, ilumina o mundo e, todavia, não se afasta nunca do Sol, também o Filho de Deus, descendo do Pai, iluminou o mundo e, contudo, não se afastou nunca do Pai, porque faz um todo com o Pai; ele mesmo o disse em S. João: eu e o Pai somos um só.” [1]

A teosofia ou sabedoria divina não foi criada por Helena Blavatsky mas existe desde antes do surgimento da humanidade atual. Olhando para estas passagens desde o ponto de vista da filosofia esotérica, vemos uma alusão aos sete níveis de consciência do ser humano. O Sol ou Pai do Céu corresponde a Atma, o sétimo princípio, uma fagulha do Absoluto. O Sol envia ao mundo o seu Filho, isto é, um raio de luz, Jesus, o sexto princípio, chamado em sânscrito de Buddhi, o princípio da compaixão universal.

O “mundo” que é iluminado por Jesus ou Buddhi, a Luz divina, significa os cinco princípios inferiores da consciência. O quinto é a mente pensante, “Manas”. O quarto princípio é a emoção, “Kama” em sânscrito. O terceiro, “Linga Sharira”, garante as estruturas sutis astrais do corpo (pelas quais flui a vitalidade). O segundo princípio é “Prana”, a vitalidade. Finalmente o primeiro princípio é o corpo físico propriamente dito, Sthula Sharira.

E é preciso lembrar que a luz da estrela está presente em cada átomo do corpo físico do ser humano. A luz astral, cujo nível espiritual e superior os cristãos chamam de Jesus, permeia todas as coisas.

Temos então em primeiro lugar a estrela, ou Sol; em seguida a luz da estrela, e finalmente o mundo. Ou seja, o Pai do Céu, o Filho, e o mundo, ou humanidade. E cada ser humano possui em si mesmo o Pai, Atma, o Filho, Buddhi, e os outros cinco níveis de consciência.

Mas Jesus e o Pai são um só. Atma e Buddhi são inseparáveis. Não há Sol sem Luz, nem Sabedoria sem Compaixão, nem Pai sem Filho. E esta unidade fundamental é a Mônada.

Antônio destaca algumas linhas mais adiante que todos somos filhos da Luz e nascemos através da Verdade.

A luz permite ver a Verdade.

O Sol é o Logos, ou seja, o conjunto harmônico das leis que comandam o universo. O Sol é a Verdade e o conhecimento absolutos. Através da Verdade alcançamos a iluminação. É por isso que nas imagens e esculturas de muitos santos e sábios – inclusive de Santo Antônio – é comum ver um pequeno Sol junto às suas cabeças.


Nota:

[1] Da p. 417 do volume I de “Obras Completas”, Santo António de Lisboa, Lello & Irmão, Editores, Porto, Portugal, 1987, edição bilíngue (latim e português) em dois volumes. Sobre sermos todos filhos da luz, veja a p. 418.





Carlos Cardoso Aveline




Fonte: FILOSOFIA ESOTÉRICA.COM
https://www.filosofiaesoterica.com/
Fonte da Gravura: https://www.patriarcado-lisboa.pt/site/index.php?id=10105

DEIXANDO DE LADO A SOBERBA


Existe uma Cura para a Doença de Querer Superioridade Sobre Outros


A soberba é uma ilusão que destrói o discernimento


A vida faz com que o soberbo seja humilhado, para que descubra a humildade e o bom senso. Infelizmente, pode ocorrer que o indivíduo fique longo tempo preso na oscilação violenta entre os extremos da glória pessoal e da completa derrota, ambas imaginárias.

A soberba é geralmente definida como sinônimo de orgulho, arrogância e um sentimento de superioridade em relação aos outros. Dela decorre a vontade de obter privilégios, de inferiorizar, prejudicar e desprezar os nossos semelhantes. Isso com frequência é feito de modo sorrateiro e disfarçado. Muitos sofrem de soberba e nem sabem disso. O fenômeno é com frequência subconsciente.

A soberba pode começar como uma defesa contra a humilhação. O pobre eu maltratado quer indenizar a si mesmo pelo que sofreu, e trata de fazer isso através da fantasia da autoimportância pessoal. Cai então numa gangorra de altos e baixos, de glória e derrota, e tudo nesta oscilação é igualmente falso e exagerado.

Em um inspirador sermão intitulado “O Espírito da Soberba”, Santo Antônio de Lisboa e Pádua afirma que o soberbo pisa sobre os pobres e os menores, mas também gosta de desprezar os que lhe são iguais, e insulta e zomba dos maiores. Antônio cita uma epístola de Pedro, em que se afirma que Deus – isto é, a lei universal – resiste aos soberbos, e dá a sua graça (a graça do bom carma) aos humildes. [1]

O destino do soberbo é ser humilhado, para descobrir a humildade: mas muitos soberbos, querendo compensar o trauma da humilhação sofrida ou evitar a profunda humilhação que temem, desenvolvem como mecanismo de proteção uma camada ainda mais forte de orgulho disfarçado e vão novamente à luta contra o mundo, sem aceitar a lição do realismo e do equilíbrio.

A soberba é um problema geral da humanidade, afirma Antônio. Nenhum de nós está completamente livre do autoengano que é o orgulho. Na família, assim como na sociedade e no convívio entre as nações, as lutas por poder são quase sempre duelos mais ou menos disfarçados entre formas diferentes de soberba.

As guerras, a prática do ódio na política e certos campeonatos de futebol são exemplos claros disso.

Mas a doença da busca de superioridade sobre os outros vai muito além da competição e da inveja nas relações humanas. A soberba é o princípio de toda ilusão. A luxúria e outras formas de prazer exagerado são variantes desta fantasia adoentada de superioridade.

Por isso o Cristianismo, assim como as religiões orientais, descreve o sábio como alguém exteriormente pobre, manso e humilde de coração. Os meios esotéricos e teosóficos não estão de modo algum livres da soberba. O desejo de parecer santo é uma marca do tolo infantil, que prefere fingir para si mesmo e para os outros, ao invés de viver com autenticidade.

Um dos princípios básicos da filosofia ocidental clássica é o axioma estoico do imperador Marco Aurélio, segundo o qual é aconselhável viver cada dia da nossa vida como se fosse o último. Lembrar da fragilidade da existência humana é uma lição de realismo e permite perceber quão preciosa ela é, e como são fúteis e inúteis as manias de grandeza, assim como as manias de perseguição.

O Jesus do Novo Testamento deu um exemplo de vida simples e humilde. Francisco de Assis, para compensar a soberba que via no alto clero cristão da sua época, criou a “ordem dos frades menores”, da qual Santo Antônio de Lisboa foi membro.

E Antônio prevê:

“…Quando uma humildade mais forte entrar no coração do homem e vencer o espírito da soberba e expulsar a cegueira do entendimento, então [os cinco sentidos] se mudarão dos vícios para as virtudes, da soberba para a humildade. Então, pois, aparecerão nos olhos a humildade e a simplicidade; na boca ressoarão a verdade e a bondade; dos ouvidos se removerá toda maledicência e toda lisonja; nas mãos se encontrará a pureza e a piedade; nos pés, a ponderação.” [2]

Antônio termina o sermão pedindo a Jesus – símbolo da alma espiritual de cada um – que vença com humildade a soberba do sentimento maldoso. E que nos possibilite quebrar com a simplicidade do coração a dureza da soberba e do orgulho, e “estender por toda parte nos sentidos do nosso corpo o sinal da humildade, a fim de que mereçamos chegar à sua glória”.

A humildade de que se fala na mística cristã e na teosofia autêntica é a base da verdadeira dignidade interior. Graças a ela, o ser humano é suficientemente realista para perceber que tem em si mesmo algo magnífico, a consciência elevada da sua própria alma espiritual. De outro lado, o eu inferior, que coordena o funcionamento dos seus cinco sentidos, é como um pobre animal a que pode faltar equilíbrio no modo como avalia a si mesmo. O eu inferior deve ser bem cuidado, corretamente treinado, e esclarecido sobre sua função na vida, para que desenvolva o necessário bom senso.


NOTAS:

[1] “Obras Completas”, Santo António de Lisboa, Lello & Irmão, Editores, Porto, Portugal, 1987, edição em dois volumes, ver volume I, pp. 186-187. Santo António, ou Antônio, nasceu entre 1190 e 1195 e viveu até 1231.

[2] “Obras Completas”, vol. I, pp. 191-192. No original deste trecho, temos “detracção”, ao invés de “maledicência”, palavra que uso para facilitar a compreensão do leitor do século 21. Alguns tempos de verbos foram adaptados à gramática atual.




Carlos Cardoso Aveline




Fonte: FILOSOFIA ESOTÉRICA.COM
https://www.filosofiaesoterica.com/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/vitral-religi%c3%a3o-janela-748180/

sexta-feira, 15 de julho de 2022

A CHAMADA É ENTRAR NA EXPERIÊNCIA AGORA, HOJE


O caminho da meditação é a própria simplicidade. Tudo o que temos a fazer é arranjar tempo todas as manhãs e todas as noites de nossas vidas. Isso significa uma conversão radical da obscura consciência egoísta. Ao não pensar nossos próprios pensamentos, não construir nossos próprios planos, entramos no mais profundo silêncio, na mais profunda reverência do ser; isso é nos enraizar em Deus. Até o nosso corpo está incluído nesse processo. Quando meditamos sozinhos ou com outras pessoas, devemos fazer um esforço sério para sentar e ficar quietos, literalmente quietos, durante todo o tempo de meditação. Este é o sinal físico da conversão interior. Consiste em um certo abandono do corpo. Então, você fecha os olhos e começa a recitar sua palavra, seu mantra. Recite-o pacificamente, calmamente e permita que a palavra penetre nas profundezas do seu ser enquanto cria uma ressonância dentro de você. Cada parte de você em ressonância com Deus. O mantra traz essa realidade. À medida que entramos nessa ressonância, entramos na luz que é o seu Amor.

A maravilha da revelação cristã, que é a mensagem comunicada por Jesus, é que cada um de nós em cada ônibus, em cada prédio de escritórios, em cada sala de aula, em cada casa é chamado não apenas a ver através da luz, mas nossa missão final é poder ver a própria luz. Nesse ponto nos tornamos indivisíveis, um com a luz. Esse é o momento, como descreve São Pedro: “compartilhamos a mesma essência de Deus”. Esse é o nosso destino atual. Devemos começar a viver esse destino agora, preparar-nos para sua plenitude. Maravilha e mistério nos transformam agora. E o propósito de nossa meditação diária é aprender a viver agora, nesta vida, em cada momento de nossa existência, em harmonia com o supremo, com nosso destino eterno. A meditação diária é nossa preparação atual para um destino que convida cada um de nós para a expansão infinita do espírito, a expansão para a pura alegria de ser.

Claro que devemos ter cuidado para não nos embriagarmos com as palavras, falando do nosso destino. Devemos tomar medidas práticas para entrar nele. Há um limite estrito para o benefício obtido ao ler livros ou ouvir palestras sobre meditação. A chamada é para entrar na experiência agora, hoje. Cada um de nós deve aprender a simplicidade, a humildade, a pobreza de espírito, contentando-se em repetir nossa palavra do começo ao fim durante a meditação. Isso significa que abandonamos todos os pensamentos, inclusive os mais recorrentes ou insistentes: isso está me fazendo bem? O que estou ganhando com isso? Toda ação de egocentrismo deve ir para ser lançada ao verdadeiro centro nas profundezas do ser de Deus.

Quando começamos, devemos dar um passo de fé. Mas se repetimos o mantra com espírito de humildade, e o repetirmos todas as manhãs e todas as noites, do começo ao fim, seremos capazes de entender agora, em tempo hábil, o que é a vida eterna. Começaremos a entender o que é a alegria de ser. Começará a compreender a brilhante infinidade do ser de Deus. No infinito de Deus encontramos a felicidade, e com a felicidade encontramos a luz.

É-nos dito: 'Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é aquele que resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo.' (2 Cor. 4,6)



Fr. John Main, OSB




Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón - Ixtapa, México
www.permanecerensuamor.com - permanecerensuamor@gmail.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

DOUTRINA ESPÍRITA OU ESPIRITISMO

 





Fonte: Federação Espírita Brasileira
Brasília-DF
https://www.febnet.org.br/


quinta-feira, 14 de julho de 2022

A LUZ É O VERBO


A luz é a matéria que Deus, o Fogo Primordial, emanou de Si, na origem do mundo, quando disse: «Haja luz!».

Essa luz é o Verbo mencionado no início do Evangelho de São João: «No começo era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus. Tudo o que foi feito, foi feito por Ele...».

A luz é o Verbo que o Criador proferiu e pelo qual criou o mundo.

O mundo físico, tal como nós o conhecemos, não passa de uma condensação da luz primordial.

Deus, o princípio ativo, projetou a luz, e foi sobre essa luz, que já era uma matéria, que Ele agiu para criar o Universo."



Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O ECO INTERIOR


Meu pai espiritual costumava me dizer: sua vida é oração e a maneira como você a vive é seu método particular. Nesse sentido, pode ser muito bom ter “momentos fortes” de oração como dizem, mas cuidado para não cairmos no esquecimento depois.

Ele sempre insistiu que a vida deveria ser uma liturgia ou uma cerimônia de louvor. Que se de alguma forma separássemos o que era oração ou meditação do resto de nossas ações, poderia haver uma inclinação gradual para a dessacralização de certas atividades ou momentos. Admitiu, sem dificuldade, que todos nós temos etapas e momentos diferentes no caminho espiritual; reconhecia, então, que já não estava mais acostumado a pedir e nem mesmo agradecer especialmente, mas sim a “deixar-se ir”. Esse deixar-se guiar tinha indicadores claros e o principal deles era a percepção da Presença.

Perguntei-lhe muito sobre esse assunto, sobre como era possível que Deus fosse percebido. E ele respondeu que essa percepção era a oração contínua a que se referia. Que poderia tomar muitas formas, como "A Oração de Jesus"*, vivendo no “cântico” do Nome; que muitas outras devoções diversas poderiam ser usadas ou que havia mesmo aqueles que haviam substituído os pensamentos pela repetição de salmos ou passagens da escritura sagrada. Mas que a principal pista que ele poderia me dar e ao mesmo tempo a mais simples era esta: se você está em seus pensamentos você não percebe Deus. No momento em que você ignora seus pensamentos, você se aproxima Dele e quando você fica em silêncio, ou seja, quando você realmente presta atenção, sua Presença aparece.

Eu era apaixonado por isso como uma possibilidade e ao mesmo tempo me revoltava. Como o silêncio poderia ser tudo o que era necessário? O que é o silêncio, perguntei a ele? No início, é parar a marcha, desacelerar tudo e, paradoxalmente, ouvir os sons. Quando você pára você percebe o movimento do mundo, você se torna um ponto fixo. Quanto mais parado, mais tudo se move.

No começo você acalma seu corpo, depois desacelera a respiração, depois ouve os sons próximos e depois de um tempo presta atenção aos que estão longe, muito longe. E aí você já percebe uma mudança importante no fluxo das coisas, que nada mais é do que o rio dos seus pensamentos. Não brigue com os pensamentos, deixe-os passar sem lhes dar importância. Este era um modo que lhe servia bem em meio à agitação. Saia do ritmo geral e preste atenção. Atenção em quê? Ao silêncio que estava no fundo de todo barulho, à quietude que abraça todos os movimentos.

Ele não se referia a uma determinada meditação, mas a uma forma de se “vestir” no meio da cidade ou em meio às tarefas. Mas ele disse que todos nós temos nossa marca única ou a maneira pela qual Deus se dá a conhecer a nós. Há aqueles que se conectam pela observação da beleza de qualquer forma que se apresente, ou seja, naquela harmonia especial que produz a combinação das coisas em um dado momento. Outros foram canalizados pela absoluta dedicação à atividade do momento. Alguns se apaixonaram pelo Santo Nome** e não conseguiam mais parar de ouvi-lo em seus corações ou em uma certa forma de “eco” interior.

Ele costumava me dizer que o único propósito da vida humana era "se deixar levar" por Deus. Que venhamos a ser inflamados pelo seu Espírito e que nessa união ígnea estavam todas as respostas para todas as perguntas e que foi em vão tentar entender. Querer entender Deus e o projeto sagrado com nossa compreensão é como tentar navegar em um navio de pedra. Os dentes são para mastigar, os pulmões para respirar, a mente para implementar questões funcionais. Não é o órgão para se juntar a Ele.

No entanto, deixou claro que a razão não deve se opor à fé, porque senão em momentos difíceis a fé perdeu substância e foi derrotada pelas contradições da razão. Ele também insistiu que a fé não é o que comumente entendemos por ela. Essa fé não é realmente acreditar, mas já, de alguma forma, conhecer e saber com certeza. Apesar de receber todo esse ensinamento, Deus parecia fugidio, completamente ausente, e a beleza que eu via em tudo estava envolta na nostalgia da finitude.

* "Oração de Jesus" ou "oração do Coração": "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tenha misericórdia (piedade) de mim (de nós) pecador(es)."

** "Santo Nome": Senhor Jesus Cristo.




El Santo Nombre (Autor não citado)



Fonte: Blog El Santo Nome
https://elsantonombre.org
Fonte da Gravura: Acerco de autoria pessoal

domingo, 3 de julho de 2022

O QUE É UM INICIADO?


Uma das causas mais frequentes da obscuridade aparente dos estudos de ciência oculta diz respeito à confusão dos termos empregados por aqueles que tratam dessas questões. É, então, indispensável bem definir primeiro as palavras que se empregam, sob pena de cairmos no erro que acabamos de indicar. Poucos termos prestam-se mais a confusão do que aquele de Iniciado. Uns consideram o Iniciado como o ser excepcional, designado com veneração por todos os autores do ocultismo; outros encaram o termo com uma significação bem menos elevada e que se pode aplicar de uma maneira geral.

Basta reportarmos-nos a significação primitiva dessa palavra para verificar que a última acepção é a mais correta. Com efeito, o titulo de Iniciado, na Antiguidade, indicava simplesmente um homem instruído, cujos graus de instrução variavam, segundo os casos, sem que o titulo geral de Iniciado sofresse a mínima modificação.

O Iniciado nos pequenos mistérios possuía uma instrução equivalente àquela dada em nossos dias pela universidade; o Iniciado nos grandes mistérios aprendia a manejar as grandes forças ocultas da natureza. Chegado ao ápice dessa instrução, ele adquiria o titulo de Vidente, de Profeta ou de Adepto. Assim, Iniciado ou Adepto são os dois termos que designam respectivamente o começo e o apogeu da carreira de ocultista. Todos os homens instruídos adquiriam, na Antiguidade, o titulo de Iniciados e os títulos de filho da mulher, filho da Terra, filho dos deuses, filho de Deus* designando sua elevação hierárquica na ordem dos conhecimentos humanos.

Sem querer nos aprofundar sobre o ensinamento que eles recebiam, falemos, entretanto, de um ponto muito importante. A doutrina ensinada era sobretudo sintética e a pesquisa da Unidade Universal lhes era indicada como o objetivo de seus esforços. De outro lado, os Iniciados aprendiam a adaptar o ensinamento aos temperamentos diversos dos povos que eles eram encarregados de organizar como legisladores. É por isso que vemos as leis de Orfeu, de Moisés, de Licurgo, de Solon, de Pitágoras serem tão diferentes em aparência, enquanto que todos esses homens adquiriram seus conhecimentos numa mesma fonte. A perda desses dados conduz nossos legisladores contemporâneos à ruína e à subjugação das nações que eles querem organizar, todas sobre a mesma base. O povo possuía, então, uma religião ou uma organização social, com relação absoluta ao seu próprio temperamento, e que era um excelente meio de torná-lo feliz; o homem instruído, ao contrário, sabia convictamente que não existia senão uma religião, e que todos os cultos eram adaptações, como as cores são aspectos diversos de uma única luz branca.

Assim, a guerra religiosa era quase totalmente desconhecida na Antiguidade, pois nenhum homem inteligente poderia sequer pensar em tal possibilidade; o povo, tão somente, seria capaz dessas infantilidades. A sociedade antiga aparece-nos, agora, com todo o esplendor de sua organização unitária e compreendemos porque o Iniciado podia entrar em todos os templos e sacrificar a todos os deuses, em comunhão com os sacerdotes de todos os cultos, que o reconheciam como um filósofo da unidade, assim como eles próprios. Os ignorantes sectários, que pretendem hoje em dia falar de religião, proclamam a esse respeito o politeísmo, sem compreender que os cristãos de hoje aparecem, ao pesquisador ingênuo, mais politeísta do que os membros de qualquer outra seita.

Imaginemos, com efeito, um homem instruído, mas ignorante de nossos costumes religiosos, que subitamente fosse convidado a fazer um estudo a esse respeito, não possuindo como dados senão monumentos. Veja se suas conclusões não seriam essas: “A religião desses povos curiosos parece consistir principalmente na adoração de um velho, de um supliciado e de uma pomba. Todos seus templos apresentam essas imagens. Eles adoram, além disso, vários deuses que se encontram sobre seus altares sob os nomes de São José, São Luís etc. Além disso, eles oferecem sacrifícios de flores recém desabrochadas a uma divindade que parece ser aquela da natureza e que eles chamam Maria. Encontram-se, também, várias imagens de animais sobre seus altares, um cachorro, ao lado de um deus inferior, São Roque, e, mesmo, um porco, acompanhando um outro deus, Santo Antônio. Existem, também, cervos, cordeiros etc. Eles parecem ter particularmente adorado esse animal, que seguidamente representam deitado sobre um livro.”

Essas conclusões nos fazem rir e balançar a cabeça. O que diria, com efeito, um Iniciado do mundo antigo, instrutor de Moisés ou de Pitágoras, acusado pelo sábio contemporâneo de adorar batatas ou crocodilos! O argumento do politeísmo e de idolatria não prova senão uma coisa: é a ignorância ou a má fé daqueles que o empregam.

O papel do Iniciado do mundo antigo era, antes de tudo, social. Os Iniciados formavam, no mundo inteiro, uma fraternidade de inteligência unida por uma doutrina unitária. É essa fraternidade que certas sociedades secretas têm como objetivo mais ou menos delineado de reconstituir. Mas esse objetivo e esses estudos não têm para nós senão um interesse secundário. A Antiguidade, por atraente que seja seu estudo, não incitaria tanto nossa atenção como nossa sociedade atual. É nela, que devemos ver agora o Iniciado.

Digamos, inicialmente, que é muito fácil ser um Iniciado. Basta, para isso, conhecer os dados mais elementares da ciência oculta e compreender, graças ela, a necessidade imperiosa de união fraternal de todos os homens. Esses dados podem ser obtidos pelo trabalho pessoal ou pelas sociedades de iniciação. Isto exige algumas palavras adicionais de explicação.

Se foi bem compreendida a diferença capital que atribuímos aos termos de Iniciado e de Adepto, é fácil deduzir que se pode, até certo ponto, formar Iniciados, mas não se formam Adeptos. Esses homens, cada vez mais raros, só chegam ao adeptado por suas próprias forças. O objetivo inicial de uma sociedade de iniciação é indicar a seus membros, da melhor maneira possível, o caminho do aperfeiçoamento espiritual, que deve ser realizado pelo esforço individual. A doutrina ensinada deve versar sobre a fraternidade, fonte de todos os desenvolvimentos posteriores do ser humano.

Na prática, a sociedade deve envidar todos os seus esforços para realizar, entre seus membros, o objetivo que ela persegue, para fazer de cada um deles um apóstolo militante e, após, um verdadeiro Iniciado. Dois grandes procedimentos são empregados para o ensino da iniciação; esses procedimentos, diferenciando particularmente as escolas de iniciação de fonte oriental daquelas de origem ocidental, indicam facilmente a origem de um centro oculto.

A iniciação oriental opera sobretudo pela mediação, isto é, o objetivo sendo de fazer criar, para cada indivíduo, sua doutrina sintética, sua maneira de ver o Universo e sua constituição. A iniciação oriental dá a seu discípulo um texto bastante curto e sintético sobre o qual ele deve meditar longas semanas, ou mesmo meses. O resultado dessa meditação é de livrar pouco a pouco os princípios analíticos contidos no texto e de criar uma doutrina fazendo-a, por assim dizer, sair de si mesma.

A iniciação ocidental procede de maneira diferente. Ela dá, inicialmente, a seu discípulo, uma serie de dados sobre a questão, a serem pesquisados e meditados longamente, impelindo-o a condensar todas as opiniões e ideias diversas num resumo sintético.

Das duas maneiras, chega-se ao mesmo resultado: a iniciação oriental ampliando um texto sintético e a iniciação ocidental condensando textos analíticos, obtendo uma síntese geral. Digamos, enfim, que certas sociedades praticam, ao mesmo tempo, esses dois procedimentos, escalonando-os gradualmente. De qualquer maneira, o primeiro ou o único objetivo procurado, é de levar o aluno a criar sua própria doutrina.

Pouco importa, inicialmente, que essa doutrina seja, em todos os detalhes, excelente ou não. O essencial é que ela exista. A Sociedade dando as bases gerais ao Iniciado evita erros fundamentais. O Iniciado tendo uma criação pessoal, modifica-a posteriormente, segundo seus estudos e sua evolução interior. Constata-se, dessa maneira, a inanidade dos ensinamentos dados pelas sociedades, que perderam totalmente essa base indispensável e que quiseram praticar a fraternidade universal sem criar, em primeiro lugar, homens capazes de compreender seu alcance. Tais sociedades não tardam a transformar-se num corpo político, tendendo à dissolução, desde que não retorne energicamente a seu objetivo primitivo, por uma rápida reorganização.

A utilidade social dos Iniciados é incontestável; basta imaginar a grandeza possível das gerações futuras se a unidade se realiza. Certas sociedades procuram agir sobre as massas para chegar a essa unidade, cuja necessidade pressentiram. As sociedades de iniciação, ao contrário, dirigem-se às inteligências menos numerosas, e mais capazes de compreender a nobreza da fraternidade universal.

O dia em que o padre católico, tornado Iniciado, souber receber em sua igreja, como um igual, o Iniciado ortodoxo, o Iniciado muçulmano e o Iniciado budista, a fraternidade dos povos estará bem mais perto de realizar-se na prática. Esse dia está, talvez, muito longe; quem sabe, ao contrário, ele se aproxima mais rapidamente do que pensamos. Seria temerário esperar essa união dos povos? É possível que esse ideal seja utópico, inatingível; entretanto, nesta época de positivismo exagerado, é consolador viver esse sonho da união dos Iniciados, realizando um pouco a união universal de todos os homens na paz e na harmonia.

* Saint-Yves D’Alveydre: “La Mission des Juifs”, Paris, ed. Traditionelles, 1972, vol. 2



Dr. Gérard Encausse (Papus)




Fonte: Extraído e traduzido da Revista L’Initiation, N. 4, 1973
Via: www.martinismocuraecaridade.blogspot.com/2021/02/o-que-e-um-iniciado.html
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/buda-rezar-meditar-budismo-1053130/

sexta-feira, 1 de julho de 2022

RESPONSABILIDADE - SOMOS A CAUSA DOS ACONTECIMENTOS


A partir deste momento, comece a pensar que você é a causa de sua vida e de seu mundo. Esse é o significado de ser um buscador: assumir total responsabilidade pelo seu próprio ser.

A infelicidade não tem causa externa; a causa é interna. Você insiste em atirar a responsabilidade para fora de si mesmo, mas isso é apenas uma desculpa.

Sim, a infelicidade é desencadeada de fora, mas o exterior não o cria. Quando alguém o insulta, o insulto vem de fora, mas a raiva está dentro de você. A raiva não é causada pelo insulto, não é o efeito de insulto. Se não houvesse a energia da raiva em você, o insulto permaneceria impotente. Ele teria simplesmente passado e você não teria se perturbado por ele.

Causas não existem fora da consciência humana, elas existem dentro de você. Você é a causa de sua vida, e entender isso é entender uma das verdades mais básicas; entender isso é começar uma jornada de transformação.


OSHO




Fonte: do livro "Todos os Dias - 365 Meditações Diárias", p. 181
Ed. Versus, Rio de Janeiro/Campinas, 17ª ed., 2017
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O MOMENTO PRESENTE É A VONTADE DE DEUS


O momento presente é sempre como um embaixador que manifesta a vontade de Deus, e o coração fiel sempre responde: fiat. Assim a alma em todas as escolhas está localizada em seu centro e correto lugar. Sem deter-se jamais, está indo firme, e todos os caminhos conduzem-na da mesma forma para a frente, para o longe e infinito: tudo é para ela, sem diferença alguma, meio e instrumento de santidade, desde que considere que o que se apresenta seja a única coisa necessária (Lc 10,42). Já não procura, a alma, como preferência, a oração ou o silêncio, o retiro ou a conversão, a leitura ou as escrituras, nem a reflexão ou cessar de refletir; não lhe preocupa o distanciamento ou a busca de livros espirituais ou a escolha entre abundância ou escassez, doença ou saúde, vida ou morte. Simplesmente o que ela procura em cada momento é a vontade de Deus. A única coisa que ela quer é o despojamento, a renúncia a tudo o que foi criado, seja real ou apenas afetivo; nunca ser nada por si e para si, mas estar sempre conforme a vontade de Deus, para agradar-lhe em tudo, fazendo da fidelidade ao momento presente sua única alegria e como se não houvesse outra coisa no mundo digna de sua atenção.


Jean-Pierre de Caussade, SJ



Fonte: do livro "O Abandono à Divina Providência"
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/tempo-ampulheta-areia-agora-vidro-4789970/

quinta-feira, 30 de junho de 2022

NOSSA PRIMEIRA PÁTRIA: O MUNDO ESPIRITUAL

O ser humano, tal como hoje o conhecemos, é o resultado de uma longa evolução. Foram precisos milhões de anos para o espírito do homem tomar posse do seu corpo físico, para ele descer às suas células, a fim de as animar, e fazer dele este ser capaz de refletir, de ter sentimentos, de agir. Mas, ao aprender a manifestar-se cada vez mais no plano físico, o homem perdeu o contacto com o mundo divino, ao ponto de agora negar a existência desse mundo, do qual já nem sequer se lembra. É certo que estava nos planos da Inteligência Cósmica que o homem aprendesse a agir na matéria, mas tal aconteceu à custa do lado espiritual e, por isso, ele deve agora restabelecer o contacto com o mundo divino. Aliás, com a chegada da Era do Aquário, começam a aparecer no mundo correntes que vão nessa direção. Por um lado, a técnica e o progresso material assumem uma importância cada vez maior, é certo, mas por outro lado sente-se que os humanos se dirigem – embora ainda desajeitadamente – para a Ciência Iniciática, porque sentem necessidade de retomar o contacto com o mundo invisível, que foi a sua primeira pátria.


Omraam Mikhaël Aïvanhov



Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

ALÉM DA MOTIVAÇÃO


Uma das coisas básicas que nos interessa é encontrar nosso caminho, não apenas para a harmonia externa de nossas vidas, onde não há conflito ou atrito, mas para a harmonia interior, algo que só podemos descrever com a palavra “paz”. A sensação de paz é a sensação de estar intacto, inteiro, completo. É imensamente maior do que a sensação de estar calmo. É transcendentalmente mais do que a ausência de turbulência. É algo muito mais positivo. É uma sensação de bem-estar extático.

A paz flui em nós quando descobrimos nossa harmonia na dimensão externa como interna. É uma harmonia interior como uma harmonia de que somos capazes através da relação com os outros e da harmonia, por exemplo, que experimentamos na natureza, quando vemos as montanhas num dia claro, ou o mar em toda a sua força. Nesses momentos de revelação de harmonia, surge algo sobre nossa humanidade: um sentimento de unidade com a natureza, consigo mesmo e com os outros. É por isso que meditamos. É triste e perigoso encontrar pessoas que rejeitam esses momentos como se fossem sentimentais ou escapistas. A paz não é uma fuga das lutas da vida. As lutas da vida são honrosamente concluídas.

Quando você começa a meditar, você deve ter uma motivação. Você deve ter um objetivo para começar, um empurrão para iniciar o caminho. Não há melhor incentivo do que alcançar este estado de harmonia interior e exterior. A paz é um objetivo nobre e unificador. Em muitas das escrituras sagradas do Oriente e do Ocidente, esse estado é descrito como um estado de bênção, glória, salvação ou simplesmente vida. O significado é ser totalmente completo, humanamente vivo. Então, sim, aqui está uma motivação para meditar que pode ser boa.

Mas uma vez que você comece a meditar de forma regular diária, logo perceberá que a meditação opera em uma dinâmica diferente. Não é necessário estar constantemente afirmando ou definindo sua motivação ou seu objetivo. Há um impulso direcional na própria meditação que o leva adiante com cada vez menos automotivação ou motivação externa. É muito diferente de qualquer outra atividade em sua vida. Você não visualiza isso da maneira convencional, como se dissesse: "Se eu meditar tantas vezes, vou conseguir isso, ou tal nível de paz, e se eu for particularmente leal, obterei algo mais por isso."

Uma vez que você começa a meditar, descobre que chega a ela com uma quantidade menor de demanda sem procurar uma recompensa. Meditamos simplesmente porque é o caminho mais claro para um senso de totalidade, de unidade, que está além de nosso controle ou posse, e só pode ser desfrutado quando aceitamos a natureza de ser um presente.


Fr. John Main, OSB



Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón - Ixtapa, México
www.permanecerensuamor.com - permanecerensuamor@gmail.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal