quinta-feira, 4 de junho de 2020

UM PADRÃO DE MEDITAÇÃO DIÁRIA


Permitir que o padrão da meditação diária prevaleça entre tantos outros padrões da nossa vida, não só imaginária, mas, efetivamente, é um desafio para o que há de melhor em nós; para o melhor em nós. É uma introdução mundana para uma lei cósmica de sacrifício.

Há uma história indiana que nos conta como Vishnu vinha todo dia trazer oferendas para Shiva, colocando mil flores de lótus aos seus pés. Um dia, após alguns milhares de anos desta adoração, ele descobriu, ao deitar as flores de lótus, que havia apenas 999 naquele dia. (Estas coisas acontecem, eventualmente.) Sem hesitar ele arrancou um de seus olhos, lindo, com a forma de uma flor de lótus, para completar a oferenda, colocando-o entre as 999.

A adoração é uma outra forma de compreendermos a auto-renúncia, que é a dinâmica no coração da meditação e de todo amor. Nos oferece uma forma diferente de encarar o sacrifício. Não como uma perda de alguma coisa preciosa, algo arrancado de nós enquanto interiormente esperneamos e gritamos. Mas, como uma oportunidade preciosa para entrarmos em contato com maior bem-aventurança e plenitude. Aceitar, e ceder a estes momentos, é um presente do louvor que reúne todo nosso ser, nos unifica e nos simplifica na súbita alquimia do amor.

Esta é a ação multi-dimensional do mantra na meditação, e esta é a razão pela qual precisamos ser tão simples ao repetirmos o mantra, para que todas estas dimensões sejam harmonizadas e desenvolvidas conjuntamente. Não é apenas um sacrifício de tempo... O sacrifício inclui nossos pensamentos e imaginação, as mil e uma conversações em todos os níveis de nossa mente. Assim como o foi para Vishnu, é uma oferenda de toda nossa forma de ver e conhecer, uma cegueira parcial e temporária, que é um ato de fé, noutra e superior forma de ver e conhecer.

O mantra introduz… na experiência da oração um ato espontâneo de louvor que envolve todo nosso ser. Não apenas dizendo a Deus... quão onipotente, onisciente e onipresente "ele" é. Mas aceitando o convite inerente à nossa verdadeira existência para nos tornarmos como Deus é: pela graça, pela adoção, pelo amor.

Nesta cooperação entre graça e natureza nosso ser torna-se pleno. Cristo, aquele que cura, opera mais unindo profundidade e superfície, o interior e o exterior, na pura dádiva do louvor que é nosso e dele, à medida em que ouvimos o mantra. Como o Padre John Main, OSB ensinou, nossa meditação se torna uma oração mais pura, não só na ação de repetirmos o mantra em face às distrações, mas na facilidade em ouvi-lo.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos Amigos" - Leitura de 06/04/2008
WCCM International Newsletter - Janeiro de 1997 - Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/santo-medita%C3%A7%C3%A3o-ioga-meditando-198958/

O ALFA E O ÔMEGA DE TODA A FILOSOFIA E RELIGIÃO


A quintessência, o Alfa e o Ômega de toda a filosofia e religião resume-se no seguinte:

– que existe uma Realidade absoluta, infinita, eterna, consciente,

– que todas as coisas do universo, percebidas como várias e distintas, não são senão manifestações múltiplas dessa única Realidade...

A pluralidade dos fenômenos é meramente aparente – a unidade do Noúmeno é real.

A Realidade não teve princípio, nem terá fim – ao passo que seus fenômenos começam e acabam, nascem e morrem. Os fenômenos transitórios são causados – a eterna Realidade é incausada, mas causadora de todos os efeitos.

A perfeição do homem consiste na faculdade de perceber a unidade da Causa absoluta através da pluralidade dos efeitos relativos. Os seres irracionais, dotados de sentidos mas destituídos de razão, não percebem senão a pluralidade dos fenômenos, ignorando a unidade do Noúmeno. Quanto mais próximo está um homem da animalidade do irracional, tanto mais percebe a pluralidade dos fenômenos e tanto menos conhece a unidade do Noúmeno – e vice-versa.

Perceber a pluralidade sem a unidade, é analfabetismo filosófico; perceber a unidade sem a pluralidade, é unilateralismo de principiante; perceber a unidade na pluralidade, é que é o mais alto grau de perfeição. O primeiro estado é caos, o segundo é monotonia, o terceiro é harmonia.


Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Tumblr.com

ENCONTRAR A DEUS


Receio que não haja um meio fácil, porque encontrar Deus é coisa muito difícil e árdua.

O que chamamos Deus não será algo que a mente cria?

Você sabe o que é a mente. A mente é o resultado do tempo e pode criar qualquer coisa, qualquer ilusão. Ela tem o poder de criar ideias, de projetar-se em fantasias, em imaginação; está constantemente acumulando, eliminando, escolhendo. Sendo preconceituosa, estreita, limitada, a mente pode delinear Deus, ela pode imaginar o que seja Deus, de acordo com suas próprias limitações. Porque certos instrutores, sacerdotes e chamados salvadores disseram que há Deus e o descreveram, a mente é capaz de imaginar Deus nesses termos; mas essa imagem não é Deus. Deus é algo que não pode ser encontrado pela mente.

Para compreender Deus, você precisa primeiro compreender a sua própria mente - o que é muito difícil. A mente é muito complexa, e compreendê-la não é fácil. Mas é bastante fácil sentar e embarcar em algum tipo de sonho, ter várias visões, ilusões, e depois pensar que se está muito próximo de Deus. A mente pode ludibriar-se muito.

Assim, para realmente experimentar aquilo que se possa chamar Deus, você precisa estar completamente tranquilo; e acaso não verificaram já como isso é extremamente difícil? Nunca observaram que mesmo as pessoas mais velhas nunca se sentam e ficam quietas, como elas se agitam irrequietas, como movem os dedos e gesticulam com as mãos? Fisicamente, é difícil sentar e ficar quieto; muito mais difícil é a mente aquietar-se! Você pode seguir um guru e forçar a mente a aquietar-se; mas sua mente não estará realmente quieta. Ela ainda estará desassossegada como uma criança que se pôs de castigo num canto. É uma grande arte ter a mente completamente silenciosa sem coerção; e só então há a possibilidade de experimentar aquilo que se pode chamar de Deus.

Você está mesmo interessado em descobrir? Você faz perguntas e depois se senta; você não ouve realmente. Já notaram como as pessoas mais idosas quase nunca ouvem vocês? Elas raramente os ouvem porque estão muito encenadas em seus próprios pensamentos, em suas próprias emoções, em suas próprias satisfações e tristezas. Espero que vocês tenham notado isto. Se souberem observar e ouvir, realmente ouvir, vocês descobrirão uma porção de coisas, não só sobre as pessoas mas também sobre o mundo.

Aqui está esse rapaz perguntando se Deus está em toda parte. Ele é muito novo para fazer esse tipo de pergunta. Não sabe o que ela realmente significa. Ele provavelmente tem alguma vaga ideia de alguma coisa - a sensação da beleza, uma percepção dos pássaros no céu, de águas correntes, de um rosto bonito, sorridente, de uma folha dançando ao vento, de uma mulher carregando um fardo. E há ira, ruído, tristeza - tudo isto está no ar. Então, ele está naturalmente interessado e ansioso por descobrir o que significa a vida. Ouve as pessoas mais velhas falarem sobre Deus e fica intrigado. É muito importante para ele fazer tal pergunta, não é mesmo? E é igualmente importante que todos vocês busquem a resposta; portanto, como eu disse outro dia, vocês começarão a captar o sentido de tudo isto interiormente, inconscientemente, no mais profundo de si mesmos; e então, à medida que crescerem, terão ideias de outras coisas além deste horroroso mundo de conflitos. O mundo é belo, a Terra é farta; mas nós a estragamos.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP
Fonte da Gravura: La Fuente

quarta-feira, 3 de junho de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE A HUMILDADE


É quase impossível superestimar o valor da verdadeira humildade e seu poder na vida espiritual, pois o início da humildade é o início do caminho da bem-aventurança, e a consumação da humildade é a perfeição de toda alegria.

A humildade contém em si a resposta a todos os grandes problemas da vida da alma; é a única chave que dá acesso à fé, início da vida espiritual, pois fé e humildade são inseparáveis.

Na perfeita humildade desaparece todo egoísmo e a alma não vive mais para si nem em si mesma para Deus, mas se perde de vista, mergulha em Deus e é nele transformada.

A essa altura da vida espiritual, a humildade atinge o mais alto grau de exaltação da grandeza. É aqui que todos os que se humilham são exaltados, pois vivendo não mais para si ou no nível humano, o espírito é liberto de todas as limitações e vicissitudes da criatura e da contingência, e mergulha nos atributos de Deus, cujo poder, magnificência, grandeza e eternidade se tornam nossos pelo amor, pela humanidade.

Se formos incapazes de humildade, seremos incapazes de alegria, porque só a humildade pode destruir o egocentrismo que impossibilita a alegria.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Novas sementes de contemplação"
Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

O SENTIDO ESOTÉRICO


[...] O “sentido esotérico” significa, em essência, o poder de viver e funcionar subjetivamente, possuir um contato interno constante com a alma e o mundo no qual se encontra, o que deve se efetuar subjetivamente através do amor, ativamente demonstrado; da sabedoria, constantemente vertida, e da capacidade de incluir e identificar a si mesmo com tudo que respira e sente, uma das notáveis características de todo verdadeiro Filho de Deus.

Quero dizer, portanto, que há de se manter internamente uma atitude mental que possa se orientar à vontade em qualquer direção. É capaz de reger e controlar a sensibilidade emocional, não somente do próprio discípulo, como também de todos com os quais entra em contato. Pela força do seu pensamento silencioso, é capaz de levar luz e paz para todos. Por meio do poder mental, é capaz de se sintonizar com os pensamentos do mundo e o reino das ideias e discriminar e escolher os elementos e conceitos mentais que o habilitarão, como trabalhador do Plano, a influenciar seu meio ambiente e a revestir os novos ideais nesta matéria mental que permitirá que sejam reconhecidos com mais facilidade no mundo habitual do pensamento e do viver cotidianos. Esta atitude mental também capacitará o discípulo a se orientar para o mundo das almas e, deste lugar de elevada inspiração e luz, descobrir seus colaboradores, se pôr em comunicação com eles e – em união com eles – colaborar no desenvolvimento das intenções divinas.

Este sentido esotérico é a principal necessidade do aspirante nesta época da história mundial. Até que os aspirantes tenham captado isto em alguma medida e possam utilizá-lo, não poderão fazer parte do Novo Grupo, nem trabalhar como magos brancos, e estas instruções permanecerão teóricas e sobretudo intelectuais, em vez práticas e operacionais.

A meditação é necessária para cultivar este sentido esotérico interno, e meditação contínua nas primeiras etapas de desenvolvimento. Mas, à medida que o tempo passa e o homem cresce espiritualmente, esta meditação diária dará lugar a uma orientação espiritual constante e a meditação, tal como a compreendemos e dela necessitamos agora, já não será necessária.

O desapego do homem pelas formas que utiliza será tão completo que ele viverá sempre no “centro do Observador” e, a partir deste ponto e atitude dirigirá as atividades da mente, das emoções e das energias que fazem a expressão física possível e útil.

A primeira etapa do desenvolvimento e cultivo do sentido esotérico consiste em manter uma atitude de observação constante e desapegada.


Fundação Lucis Trust - Escola Arcana



Fonte: www.lucis.org/pt-br/422-2/introducao-ao-livros/o-sentido-esoterico/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mandala-esot%C3%A9rico-m%C3%ADstico-magia-1866212/

REALIDADE ETERNA DA VIDA


Toda a tradição cristã nos diz... que, caso nos tornássemos sábios, deveríamos aprender a lição de que aqui não temos “nenhuma cidade que nos prende”... Mas, a principal fantasia de muitos dos interesses mundanos, opera a partir de um ponto de vista completamente oposto... sabedoria de nossa tradição..., é a de que a consciência de nossa fraqueza física nos permite enxergar, também, nossa própria fragilidade espiritual. Existe uma consciência profunda em todos nós, tão profunda que, frequentemente, permanece enterrada, na maior parte do tempo, de que devemos estabelecer contato com a integralidade da vida e, com a fonte da vida. Devemos estabelecer contato com o poder de Deus e, de alguma maneira, abrir esse nosso frágil vaso terreno ao amor eterno de Deus...

A Meditação é uma via de poder, pois é o meio de entendermos nossa própria mortalidade. É o meio de nos concentrarmos em nossa própria morte. Ela consegue isso, por ser uma via que segue além de nossa própria mortalidade. É uma via que segue, além de nossa própria morte, até a ressurreição, para uma nova e eterna vida, a vida que nasce de nossa união com Deus. A essência do Evangelho cristão é a de que somos convidados para essa experiência agora, hoje. Todos nós somos convidados a morrer para a nossa própria auto-importância, o nosso próprio egoísmo, nossas próprias limitações. Somos convidados a morrer para nossa própria exclusividade... Nosso convite a morrer, também é o de nascer para a nova vida, para a comunidade, para a comunhão, para uma vida plena e, sem medos. Suponho que seria difícil estabelecer o que é que as pessoas mais temem, a morte ou a ressurreição. Porém, na meditação perdemos nosso medo, pois compreendemos que a morte é morte do medo e, ressurreição é nascer para a nova vida.

Cada vez que nos sentamos para meditar, nos conectamos com esse eixo de morte e ressurreição. Isso se dá, pois em nossa meditação vamos além de nossa própria vida e, de todas as limitações de nossa vida, em direção ao mistério de Deus. Descobrimos, cada um de nós a partir de nossa própria experiência, que o mistério de Deus é o mistério do amor, amor infinito, amor que expulsa todos os medos.

Essa é a nossa ressurreição, elevarmo-nos à completa liberdade que se dá como um alvorecer em nós, uma vez que estejam em foco nossa própria vida e morte e ressurreição. A meditação é o grande meio de focalizarmos nossa vida na realidade eterna que é Deus, a eterna realidade que ali está para ser encontrada em nossos próprios corações. A disciplina de repetir o mantra, a disciplina do retorno diário, pela manhã e à tarde, à meditação, possui esse único e supremo objetivo: o de nos focalizarmos completamente no Cristo, com uma acuidade visual que veja nós mesmos e toda a realidade, como ela é. Ouçamos o que São Paulo escreveu aos Romanos: "Ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor". (Rom 14: 7-8)


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Morte e Ressureição" - Leitura de 23/03/2008
MOMENT OF CHRIST (New York: Continuum, 1998), pp. 68-70.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/universo-c%C3%A9u-star-espa%C3%A7o-cosmos-3591579/

MASCARANDO A INFIDELIDADE


Ao falar de Ananda Moyi Ma, a "Santa Impregnada de Alegria", Yogananda nos diz: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma, de toda tua mente e de todas as tuas forças", Cristo proclamou, "este é o primeiro mandamento."

Rejeitando todo apego inferior, Ananda Moyi Ma oferece fidelidade exclusiva ao Senhor. Com a lógica segura da fé, e jamais recorrendo às distinções excessivamente rebuscadas dos eruditos, a santa, semelhante a uma criancinha, resolveu o único problema da vida humana: estabelecer unidade com Deus.

​O homem esqueceu esta simplicidade absoluta, agora obscurecida por milhões de controvérsias. Negando ao Criador um amor monoteísta, as nações tentam mascarar sua infidelidade com o respeito escrupuloso ao culto exterior da caridade. Estes gestos humanitários são virtuosos porque, por um momento, desviam a atenção do homem de si mesmo, mas não o eximem de sua primordial responsabilidade na vida,  "o primeiro mandamento" a que Jesus se referiu. A edificante obrigação de amar a Deus é assumida pelo homem desde o momento e que respirou pela primeira vez o ar concedido gratuitamente por seu único Benfeitor.


Paramahansa Yoganada



Fonte: do livro "Autobiografia de um Iogue"
Comunidade Monástica Anglicana
Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/espaco-de-partilha
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/b%C3%ADblia-crist%C3%A3-jesus-religi%C3%A3o-2989425/

FACULDADE INTUITIVA DO HOMEM


Como se pode desenvolver ou adquirir essa faculdade?

[...] Nenhum poder real, nenhuma faculdade poderosa pode aparecer no nosso ser fora das Leis eternas. A Lei primordial, que domina todas as faculdades e todas as percepções, é que o ser deve, antes de tudo, realizar, em si mesmo, uma síntese, uma harmonia, um conjunto que não deixe lugar a nenhuma dissonância. É dessa síntese que resultam os poderes superiores do espírito e do superconsciente; é por ela que podem nascer e se expandir as mais altas faculdades psíquicas. Esses poderes e essas faculdades se encontram em todos os seres, mas, em estado latente; basta realizar as condições de uma harmonia perfeita para que apareçam e, progressivamente, se desenvolvam.

O primeiro ponto que deve realizar aquele que quer iniciar-se nessas faculdades superiores, é criar, em si, essa síntese, essa harmonia: deve ser senhor de seu corpo, senhor de seu espírito, senhor de suas emoções, senhor de seus impulsos. É neste domínio que experimenta o sentimento de sua força, a soberana calma que lhe dá pleno poder em torno, este perfeito equilíbrio sem o qual nenhuma ação é possível. Esse domínio próprio dá uma severidade deliciosa, uma alegria sem sombra e sem limite que não se encontra em outra parte e que é uma das mais altas felicidades acessíveis ao homem. Com isso adquire a força de vencer, não somente nos seus interesses materiais, mas ainda nessas pesquisas apaixonadas que lhe fariam esquecer tudo, se os seus deveres não o solicitassem.

É aí que se encontra a Senda, a única Senda, a única que conduz aos poderes reais, às faculdades estáveis. Aquele que persevera nessa linha de conduta sentir-se-á, dia a dia, mais poderoso, e sua força crescerá à medida que se tornar mais calmo e mais em posse de si mesmo.

A faculdade intuitiva não se pode manifestar, brotar, expandir-se, até dar ao ser uma visão nova e inteiramente diferente da vida, senão quando a calma é obtida. Tocamos aí em um dos mais altos cumes iniciáticos. Os cimos, no ar que os rodeia, são, para nós, a imagem mais perfeita da paz e da estabilidade; mas, esses altos cimos não podem ser escalados se os declives precedentes não forem galgados. É, pois, de primordial necessidade ter, antes de tudo, obtido a calma do corpo, o apaziguamento dos sentimentos, o domínio das emoções, a posse das ideias antes de realizar outra ambição. [...]


Henri Durville



Fonte: do livro "Como Desenvolver as Faculdades Intuitivas", 2004
Ed. Professor Francisco Valdomiro Lorenz - Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento
São Paulo - SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/terceiro-olho-olho-espirituais-2886688/

COMO É QUE EU POSSO CONHECER-ME ?


Como é que eu posso conhecer-me? Não pelo pensamento, pois este só reflete meu consciente, mas pela meditação. A meditação vai além do consciente e penetra o inconsciente. Nela eu me torno cônscio do substrato de meu ser na matéria, na vida, na consciência humana. Posso experimentar minha solidariedade com o universo, com a estrela mais remota do espaço exterior e com as partículas mais ínfimas do átomo. Posso experimentar a união com todas as coisas vivas, com a terra, com estas flores e coqueiros, com os pássaros e esquilos, com todos os seres humanos. Posso ainda ir além de todas as formas externas das coisas no tempo e espaço, e descobrir o Substrato de onde provém. Posso conhecer o Pai, a Fonte e Origem, além do ser e não-ser, o Uno “sem segundo” da filosofia indiana.

​
Pe. Bede Griffiths, OSB



Fonte: Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/pensamentos-semanais-2018
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

O RUGIR DA TEMPESTADE


Um dos mais desconcertantes problemas da vida espiritual é o de mantermos nosso interesse em meio às intermináveis dificuldades e aos mais cruéis desafios. É a rotina e monotonia de nossa vida diária que solapa nossa vitalidade e força. A vida da maior parte da humanidade é feita de pequenos fatos e incidentes que podemos chamar de trivialidades da existência. Grandes e extraordinários acontecimentos raramente ocorrem nas vidas de homens e mulheres comuns. Demonstrar entusiasmo por coisas extraordinárias é fácil, porém é extremamente difícil mantê-lo em meio à rotina diária. O maior dos desafios do ser humano consiste na manutenção da integridade espiritual em meio dos detalhes triviais da vida. Manter equilíbrio perfeito de pensamento e emoção entre as provocações incessantes causadas pelos fatos e acontecimentos da existência diária, demanda uma energia que a maioria não está em condições de apresentar. E, além disso, a prova da vida espiritual está no âmbito das atividades comuns e não na esfera de empreendimentos extraordinários.

Foi Emerson quem disse que jamais algo de grandioso fora conseguido sem o entusiasmo. [...] Isso tem sido bem evidenciado nas vidas de inumeráveis aspirantes, que retornaram à existência mundana devido à sua inabilidade em manter o entusiasmo na vida espiritual. Entretanto, o entusiasmo não deve ser confundido com o desempenho eficiente de nossas obrigações. A chamada eficiência do mundo é devida, geralmente, ao cultivo de certos hábitos. Uma vida eficiente não é necessariamente uma vida criadora - muitas vezes é uma vida automática. [...] O entusiasmo por alguma coisa emana de uma condição de profundo interesse.

[...] A dificuldade para a maior parte de nós é que vivemos nossas vidas num nível demasiado superficial; nossos pensamentos e emoções são extremamente rasos. Esta tendência para a superficialidade aumentou enormemente nos últimos tempos devido a uma primazia indevida dada à rapidez. Nossa civilização está num estado de precipitação terrível - embora não saiba para onde corre tanto! Ora, uma vida superficial tem constante necessidade de excitações, sejam materiais ou espirituais. Há um anseio por mais e mais excitações, sensações e entretenimentos.

[..] É quando a vida interna feneceu que as dificuldades objetivas parecem intransponíveis. Assim, é a falta de interesse profundo que arrefece o entusiasmo humano. O ser humano está ressequido por dentro e procura renovação de fora! Nenhuma mudança na condição objetiva, nenhuma alteração na disposição do Karma lhe trará renovação, enquanto não penetrar nas reais profundezas de seu próprio ser.

[...] A experiência de todos os místicos espirituais é de que as dificuldades objetivas são varridas pelo impacto do entusiasmo nascido do interesse profundo. Entusiasmo e interesse profundo são fenômenos conjugados, ou então podemos também dizer que um é a expressão e o outro a fonte. O entusiasmo surge somente num estado de interesse profundo intrinsecamente presente, não de forma relativa, porém absolutamente presente no indivíduo. Realmente significa que o interesse não é por alguma coisa, nem em relação a algo particular. É somente o estado de puro interesse que serve de base para o verdadeiro entusiasmo. O interesse por alguma coisa só produz superficialidade, porque constitui entrave para a mente. Uma sensibilidade apenas por alguma coisa não é de modo algum sensibilidade, porque pelo processo inconsciente da resistência, ela torna a mente insensível a outras coisas. A mente aberta unicamente a uma coisa é uma mente fechada. Assim, a condição de puro interesse é que é essencial para o despertar do entusiasmo. É a mente de grande amplitude que é capaz de interesse profundo. A mente sem amplitude é mente rasa ou superficial. Ter amplitude é ter profundidade para poder receber e reter as influências e os impulsos da vida. A mente rasa recebe pouco e, portanto, também dá muito pouco à vida. Quando o recebimento é escasso, a doação também é pequena, desprovida de toda generosidade.

[...] Porém a questão é: Temos de provocar tormentas e perturbações a fim de criar o entusiasmo de viver? Este remédio parece ser pior do que a doença! Afinal de contas o que é uma tormenta ou uma perturbação? Obviamente, é um desafio da vida. Devido a estes desafios, ficamos perturbados. Mas como no rio da vida correm novas águas a todo o momento, a vida é um desafio incessante. Não há momento em que não exista o desafio da vida.

[...] Não há dúvida de que a vida está constantemente enviando, de maneira incessante, desafios de todos os lados e em diversos níveis. Porém, a mente, através de suas respostas, emanadas das esferas de sua memória, trabalha como um "amortecedor de choques", em relação a estes desafios. É esta atividade da mente que nos leva à passividade. Somos, então, impedidos de enfrentar os desafios da vida, devido à intervenção da mente. A mente está interessada em agir como intermediária, porque só assim pode manter sua continuidade. Devido a essa mediação, nós nem mesmo nos tornamos conscientes dos desafios da vida. Algumas vezes, as suas fortificações desmoronam devido à natureza esmagadora do desafio, porém tais circunstâncias raramente acontecem na vida de uma pessoa comum. A pessoa não percebe os contínuos desafios da vida, devido às barreiras colocadas pela mente entre ela e o seu ambiente. Dessa forma a mente a mantém afastada de um contato direto com a vida.

[...] A maioria de nós está circunscrita a uma existência estagnada. Como haver entusiasmo numa existência assim? Se a mente pudesse receber os desafios da vida, sem emitir qualquer resposta de seus centros de memória, permaneceria viçosa e vital. Da mesma forma como a natureza é purificada pela tormenta que ruge, assim o será a mente humana pelos desafios da vida. Recebê-los, porém não reagir a eles, a partir dos centros de memória, é "ficar impassível" no meio da tempestade, é ficar quieto onde se está, porque qualquer movimento da mente, nesta hora de tormenta, conduzirá o peregrino espiritual a uma confusão cada vez maior.

[...] Mas permanecer impassível numa tormenta requer tremenda coragem. Não resistir à tormenta, nem fugir dela implica em receber em cheio o impacto da tormenta. E ao receber este impacto, o homem fica absolutamente só. O desafio sem resposta é um estado de solidão. Quando uma tempestade ruge na Natureza, cada árvore está sozinha, pois tem que se apoiar em sua própria resistência. Porém naquela solidão, se a árvore não resiste, torna-se mais leve devido à queda das folhas e galhos mortos. Da mesma forma, se a pessoa puder permanecer quieta, sozinha e renovada. E na renovação subjetiva, as dificuldades do ambiente objetivo se dissolverão na atmosfera. A solidão criada pela tormenta está cheia de tremendas possibilidades espirituais. [...]


Rohit Mehta



Fonte: do livro "Procura o Caminho", Ed. Teosófica, Brasília, DF
Fonte da Gravura: Mais Yoga - maisyoga.com

terça-feira, 2 de junho de 2020

ERRAR É HUMANO


Se dizemos que a carne é fraca, a consciência também pode estar errada. Partindo do principio que a alma do homem evolui para a perfeição da Alma universal da qual ela se originou, sua consciência objetiva é o reflexo da compreensão que ele tem da Consciência universal que há nele. Sua consciência mortal está submissa por um lado à ilusão dos sentidos e por outro aos erros de interpretação das impressões vindas do exterior ou do interior. Sua própria razão é imperfeita em seu funcionamento limitado.

Sabemos a que ponto a consciência humana está sujeita ao erro. O veículo terrestre de nossa alma, isto é, nosso corpo, pertence ao mundo finito da matéria. Assim sendo, ele participa na imperfeição do mundo terrestre e sucumbe frequentemente aos erros de comportamento. A cada um desses erros cometidos, o corpo e a consciência submetem-se à lei evolutiva do carma. Estas duas formas de carma estão intimamente ligadas e se fundem na globalidade do ser.

O carma, ou “lei da compensação”, opera no corpo de maneira que o homem aprenda a respeitar as leis naturais que o regem. Quando elas são infringidas, os resultados são efeitos negativos que aparecem então na forma de sofrimentos e de doenças. Estes sofrimentos e doenças constituem-se em experiencias para a alma, a qual aprende progressivamente a dominar as suas causas. Desta feita, estes males contribuem à sua evolução, o que naturalmente não quer dizer que eles sejam uma necessidade.

Quando nos esforçamos para agir em harmonia com as leis que regem nosso corpo e nossa consciência, contribuímos para o nosso bem-estar geral e experimentamos uma certa quietude. Vemos então que apenas um conhecimento perfeito destas leis nos permite manter a boa saúde e nos elevarmos aos ideais espirituais.

Tomemos um exemplo entre dezenas de outros: o do fumante. Uma pessoa que fuma muito e há muito tempo não pode se surpreender por estar doente dos pulmões e do coração, ou mesmo por morrer. O mesmo principio se aplica à consciência. Se durante nossa encarnação nossos pensamentos e emoções não são orientados na direção daquilo que há de mais positivo e se não nos libertamos da ignorância, estamos, pois, em erro, com todas as consequências que isto implica nos planos material e espiritual. Assim sendo, parece-me importante insistir no fato de que nem toda provação é sistematicamente de origem cármica, de forma que nem todo problema de saúde ou acidente sofrido por nosso corpo tampouco o seja.

O ensinamento rosacruz oferece a possibilidade de acessar o conhecimento e de se libertar da ignorância. De fato, nosso Eu interior, ou seja, o Deus que há em nós, possui todas as qualidades e todos os atributos da Sabedoria divina. É a razão pela qual o homem deve se abrir a esta Sabedoria e deixá-la se exprimir por meio dele.


Christian Bernard, FRC



Fonte: do livro "Reflexões Rosacruzes", 1a. ed., 2011
Biblioteca Rosacruz - Ordem Rosacruz (AMORC), Curitiba - PR
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/humano-gear-homem-m%C3%A1quina-m%C3%A1quina-192607/

A EXPERIÊNCIA DO DESERTO


A oração contemplativa é, de certo modo, simplesmente, a preferência pelo deserto, pelo vazio, pela pobreza. Alguém começa a conhecer o sentido da contemplação quando, intuitiva e espontaneamente, procura o caminho obscuro e desconhecido da aridez, de preferência a qualquer outro. O contemplativo é alguém que escolhe antes o não saber do que o saber. Antes não fruir do que fruir. Antes não ter provas de que Deus o ama. Aceita o amor de Deus na fé, num desafio a toda evidência aparente. Essa é a condição necessária – e uma condição muito paradoxal – para a experiência mística da realidade de Deus e de seu amor por nós. Somente quando somos capazes de ‘largar’ tudo o que há dentro de nós, todo desejo de ver, de saber, de provar e de experimentar a presença de Deus, é que nos tornamos realmente capazes de ter a experiência dessa presença com a convicção e realidade avassaladoras que revolucionam nossa existência inteira.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Poesia e Contemplação", T. Merton
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Tumblr.com

"O ESPAÇO É UMA ENTIDADE"


É conveniente recordar que "o espaço é uma entidade", segundo expressão de Blavatsky. Quando definiu desta maneira o espaço fez uma das mais importantes insinuações à humanidade.

Conhecer a existência desta entidade conduz ao reconhecimento prático do aforismo de que "nEle vivemos, movemos-nos e temos nosso ser", que explica a necessidade do ensino esotérico sobre os centros planetários e os planos como estados de consciência.

O discípulo começa, então, a estudar-se a si mesmo em relação a esta Entidade omniabarcante, a informar-se da direção de onde chegam as diferentes energias (que dão poder a sua vida e motivam suas ações) e vai familiarizando-se gradualmente sobre o "lugar destas usinas de poder e radiantes centros de luz que, criados pelo divino Criador, são fontes de vida e origem da luz e do conhecimento", conforme expressões dos antigos arquivos (...).


Alice A. Bailey


Fonte: do livro "Discipulado na Nova Era", vol. 2
Lucis Trust - https://www.lucistrust.org/
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

ATENÇÃO INCONDICIONAL E ININTERRUPTA


No Sermão da Montanha, Jesus identificou as preocupações materiais como nossa principal fonte de ansiedade. Como podemos nos sentir mais confortáveis e reduzir o sofrimento pessoal? Esta é a maior preocupação que obscurece o momento presente e rompe as verdadeiras prioridades.

"Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais do que a roupa?" Mt 6:25.

Quando ele diz para não nos preocuparmos, Jesus não está negando a realidade dos problemas diários. Está nos dizendo para abandonarmos a ansiedade e não a realidade. Aprender a não se preocupar é uma tarefa difícil... 

A despeito de seu 'distúrbio-deficiência de atenção', a mente moderna também tem sua capacidade natural de ficar tranquila e transcender suas fixações. Na profundidade, ela descobre sua própria clareza quando está em paz, livre da ansiedade. A maioria de nós tem cerca de meia dúzia de ansiedades favoritas, como doces amargos que mastigamos infinitamente. Ficaríamos assustados se nos livrássemos delas. Jesus nos desafia a superar o medo de abrir mão da ansiedade, o medo que temos da própria paz. A prática da meditação é uma forma de aplicar seu ensinamento à prece; ela prova, por meio da experiência, que a mente humana pode realmente optar por não se preocupar.

Isto não significa que podemos anular facilmente a mente e afastar todos os pensamentos segundo nossa vontade. Na meditação, permanecemos distraídos e, contudo, livres da distração, porque - por mais minimamente que seja a princípio - estamos livres para optar por onde colocar nossa atenção.

Gradualmente, a disciplina da prática diária fortalece essa liberdade. Seria pueril imaginar que conseguiremos plenamente esta liberdade a curto prazo. Permanecemos distraídos por muito tempo. Logo nos acostumamos com as distrações como companheiras de viagem no caminho da meditação. Mas elas não têm que predominar. Optar por dizer o mantra com fé e voltar a ele sempre que as distrações intervêm, exercita a liberdade que temos de prestar atenção. Não se trata de uma escolha no sentido de optarmos por uma determinada marca na prateleira do supermercado. É a opção pelo compromisso. A recitação do mantra é um ato de fé, e não um deslocamento do poder do ego. Em cada ato de fé existe uma declaração de amor. A fé prepara o terreno para que a semente do mantra germine no amor.

Não criamos um milagre de vida e crescimento sozinhos, mas somos responsáveis por seu desenvolvimento. Chegar à paz da mente e do coração - ao silêncio, à tranquilidade e à simplicidade - não exige a vontade de um campeão, mas a atenção incondicional e ininterrupta, bem como a fidelidade de um discípulo.


Dom Laurence Freeman, OSB




Fonte: "Meditação" - Leitura de 09/03/2008 http://www.wccm.com.br/site_antigo/leitura_09_03_08.htm
JESUS,O MESTRE INTERIOR (Martins Fontes, São Paulo 2004), pp. 277-278.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/setas-dentro-press%C3%A3o-solicita%C3%A7%C3%A3o-de-2029157/

segunda-feira, 1 de junho de 2020

DEUS OLHA PARA O CORAÇÃO (1Sam 16,7)


Terá o pobre sido recebido pelos anjos unicamente devido à sua pobreza? E terá o rico sido enviado para o lugar dos tormentos apenas pela sua riqueza? Não. No caso do pobre, o premio foi para a humildade, e no caso do rico, a condenação foi para o orgulho.

Eis a prova de que não foi a riqueza mas o orgulho que levou a que o rico fosse castigado. O pobre foi levado para o seio de Abraão; ora, as Escrituras dizem de Abraão que ele tinha muito ouro e prata e que era rico na Terra (Gn 13,2). Mas, se todos os ricos são enviados para o lugar dos tormentos, como pode Abraão receber o pobre no seu seio? Acontece que Abraão, com toda a sua fortuna, era pobre, humilde, respeitador e obediente às ordens de Deus. Ele tinha as suas riquezas em tão pouca conta que, quando Deus lho pediu, aceitou oferecer em sacrifício o filho a quem as destinava (Gn 22,4).

Aprendei, pois, a ser pobres e a ter necessidades, quer possuais alguma coisa neste mundo, quer não possuais nada. Porque há mendigos cheios de orgulho e ricos que confessam os seus pecados. "Deus resiste aos orgulhosos", estejam eles cobertos de seda ou de trapos, "mas dá a sua graça aos humildes" (Tg 4,6), quer eles possuam, ou não, bens deste mundo. Deus olha para o interior; é aí que avalia, é aí que examina.


Santo Agostinho de Hipona



Fonte: Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/pensamentos-semanais-2019
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O QUE É A VERDADEIRA LIBERDADE


A verdadeira liberdade não é coisa que se adquira; é o resultado da inteligência. Você não pode sair e comprar liberdade no mercado. Não pode obtê-la lendo um livro ou ouvindo alguém falar. A liberdade vem com a inteligência.

Mas, o que vem a ser inteligência? Poderá haver inteligência quando há medo, ou quando a mente está condicionada? Quando a sua mente está cheia de preconceitos, ou quando você imagina que é um ser humano maravilhoso, ou quando é muito ambicioso e deseja subir a escada do sucesso, material ou espiritualmente, pode acaso haver inteligência? Quando você está preocupado consigo mesmo, quando segue ou venera alguém, pode acaso haver inteligência?

De fato, a inteligência aparece quando você compreende toda essa estupidez e rompe com ela. Portanto, você precisa começar a fazer isso; e a primeira coisa a fazer é tomar consciência de que sua mente não é livre. Você precisa observar como sua mente está presa por todas essas coisas, e, então, haverá um princípio de inteligência, a qual acarreta liberdade. Você tem que encontrar a resposta por si mesmo. Qual é a vantagem de alguma outra pessoa ser livre quando você não é, ou de outra pessoa ter alimento quando você padece fome?

Para ser criativo, o que implica ter realmente iniciativa própria, é preciso haver liberdade; e para haver liberdade é preciso haver inteligência. Portanto, você precisa inquirir e descobrir o que está entravando a sua inteligência. Precisa investigar a vida, tem de questionar os valores sociais, tudo, e não aceitar coisa alguma porque está com medo.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP
Fonte da Gravura: Imagens do Google

ESTAR CONSCIENCIAL


Se pudéssemos fazer um 'restart' da mente, tal como se nossa vida principiasse a partir do momento em que propomos esse exercício, livrando-nos de preconceitos (ideias fixas que tomamos de pronto como verdades e conceitos absorvidos pelas tradições), mas preservando a nossa capacidade intelectual já alcançada, chegaríamos de pronto à percepção de que estamos vivos, mediante justamente nossa capacidade de pensar, ou seja, porque percebemos a vida, pois não basta estar vivo - o que seria simplesmente vegetar -, mas, além disso, é imprescindível ter consciência dessa maravilha que é viver. Foi essa a primeira constatação lógica que levou o filósofo francês René Descartes a celebrizar a frase “Penso, logo, existo”.

Pensamos em função de sermos um Ser, uma Consciência, um “Eu”, uma identidade individual exclusiva. Descobrimos então que temos o poder de manipular a potência do nosso pensamento, criando ideias desejadas ou dando novos rumos a quaisquer outras que nos surjam involuntariamente (e não é verdade que alguns de nossos pensamentos nos sobrevêm sem que tenham sido elaboradas pelo nosso consciente?).

Descobrimos ainda que somos inteligentes (já que exercemos influência na condução das ideias) e que gozamos da liberdade de pensamento.

Se tivermos uma mente já bem ativa, poderemos criar todo um Universo particular, inventar um reinado próprio, elaborar histórias e criar um cotidiano, como se fossemos deuses — ainda que esse mundo seja apenas uma ficção dentro da nossa própria casa mental.

Mas então, um problema filosófico logo se configura acerca da essência do Ser: desde quando o indivíduo é constituído? Pois, se levarmos ao pé da letra a expressão "Penso, logo, existo", seremos forçados a crer que a existência só é tida como válida a partir de quando o indivíduo adquire intelecto para reconhecer-se vivo e consciente de si - o que não ocorre senão depois de alguns anos após o seu parto biológico. Desta maneira, a criança que não formula um juízo considerável deixaria de ser considerada uma Consciência, um Ser. E parece um absurdo desconsideramos que uma criancinha que já ande, fale e exprima desejos, sentimentos e emoções, não possa ser considerada uma pessoa. Por outro lado, teríamos um ancião que, pelo avanço da idade, caia na caduquice e então deixe de ser uma Consciência em razão de não mais possuir o domínio de sua sanidade mental.

Para não sustentarmos tal absurdo, teremos de considerar a possibilidade de a Consciência existir e ter compreensão de si mesma fora do âmbito físico, sendo justamente a natureza física - no caso, por ainda estar em formação orgânica - a causa pela qual essa Consciência não possa se manifestar inteligivelmente. Assim, um bebê - mesmo que ainda muito longe de poder expressar suas capacidades intelectivas - já é aquele indivíduo inteligente que mais tarde evidenciará, bem como o velho caduco continua sendo o mesmo Ser, embora agora suas ideias não possam mais ser evidenciadas em virtude das fraquezas da máquina corporal.

Mas, concentrando-nos no estado mental voluntário de si, encontramos o Ser como condição para o Estar Consciencial.

Só que, além de nosso mundo mental, há muito mais...


Louis Neilmoris



Fonte: do livro "O Grande Encontro Filosófico - Autodescobrimento Aplicado"
Ed. Luz Espírita, abril de 2014, digital - www.luzespirita.org.br
Fonte da Gravura: artista ucraniano Alexey Leonov - http://leonov.idea.in.ua/
Outras dezenas de quadros em: http://leonov.idea.in.ua/en/gallery

O EU INTERIOR


O eu interior não é uma parte de nosso ser, como o motor de um carro, mas sim nossa própria realidade substancial em sua totalidade e em seu nível mais pessoal e existencial.

Ele é como a vida e, de fato, é vida: é nossa vida espiritual em seu máximo, a vida pela qual tudo mais em nós é vivo e se move.

Ele permeia, abarca e ultrapassa todo o nosso ser.

Se está desperto, comunica uma nova vida à inteligência na qual vive, de modo que se torne uma viva consciência de si mesmo.

Essa consciência, por sua vez, não é tanto algo que possuímos quanto algo que somos; é uma nova e indefinível qualidade do nosso ser vivo.



Thomas Merton, OSB



Fonte: "A experiência interior", T. Merton
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

domingo, 31 de maio de 2020

AMBIÇÃO - PREENCHIMENTO - EGO


[...] Ambição não é preenchimento. A ambição é inflação do eu. Na ambição há a ideia de proveito pessoal, sempre em oposição ao lucro de outrem; há nela o culto do êxito a competição cruel e a exploração de outrem.

No despertar da ambição há descontentamento constante, destruição e vacuidade; pois, no próprio momento do êxito, há um fenecimento e, portanto, um renovado impulso para outras consecuções.

Quando discernirdes profundamente que a ambição tem dentro de si esta constante luta e angústia, então compreendereis o que é o preenchimento. O preenchimento é a expressão fundamental daquilo que é verdadeiro.

Com frequência, porém, toma-se equivocadamente uma reação superficial pelo preenchimento. O preenchimento não é apenas para uns poucos, mas exige profunda inteligência. Na ambição há o objetivo e o incitamento no sentido da sua consecução; porém o preenchimento requer um ajuste contínuo e a reeducação de todo nosso ser social.

Onde há ambição, há também a busca de recompensa da parte dos governos, das igrejas ou da sociedade, ou então há o desejo das recompensas das virtudes com suas consolações. No preenchimento desaparece integralmente a ideia de recompensa e de punição, pois todo o medo cessa por completo.

Fazei experiências em relação ao que vos estou dizendo, e discerni por vós mesmos. Vossa vida atual está eivada de ambição, não de preenchimento.

Esforçai-vos por vos tornardes alguma coisa, em lugar de vos perderdes nas limitações que impedem o verdadeiro preenchimento.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Medo", 2a. ed., 1948
Instituição Cultural Krishnamurti, RJ
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/adora%C3%A7%C3%A3o-espirituais-arati-f%C3%A9-3895833/

O EXATO ORIGINAL DE QUEM NÓS SOMOS


[...] Na revelação cristã do significado do amor, a meditação é o poder da prece que prende nossa atenção no imóvel ponto da conversão... Ao criarmos raízes neste local de transformação, que não é geográfico, mas espiritual, nosso próprio e mais profundo centro, nos modificamos: deixamos de ser uma aproximação, uma mera imitação de nós mesmos para nos tornarmos o exato original de quem nós somos.

“Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas, transformai-vos, renovando a vossa mente” (Romanos 12:1-2).

A vida do espírito na natureza humana é uma contínua repadronização. O salto de fé, a cujo aperfeiçoamento dedicamos nossas vidas, é simplesmente o único salto pelo qual deixamos que nossas mentes sejam transformadas e que todo nosso ser seja transfigurado. Em vez de lermos “este mundo”, leiamos “ego”: a parcela que pensa que é o todo. Ele veio a bloquear involuntariamente e a distorcer inconscientemente o mistério da vida em razão dos padrões que ele criou através da dor e da rejeição: a percepção de um mundo sem amor. [...]

Mesmo se a meditação nada mais fosse do que uma breve imersão diária no reino interior, mereceria nossa completa atenção. Porém, ela é mais do que uma fuga temporária da prisão de nossos padrões de medo e de desejo. Por mais complexos que sejam esses padrões que nos fazem temer a morte e o verdadeiro amor que são necessários ao nosso crescimento e sobrevivência, a meditação os simplifica a todos.

Dia após dia, meditação após meditação, esse processo de simplificação prossegue. Gradualmente nos tornamos mais destemidos, até saborearmos a total liberdade do medo, na felicidade de nos sentirmos libertos das imagens e recordações do desejo. E, então, e até mesmo antes disso, nos tornamos úteis aos outros, aptos a amar sem medo ou desejo... livres para servir o Ser, que é o Cristo interior.


Dom Laurence Freeman, OSB




Fonte: "Carta Três" - Leitura de 02/03/2008
WEB OF SILENCE (London: Darton, Longman, Todd, 1996), pp. 28-29, 31.
Tradução de Roldano Giuntoli - http://www.wccm.com.br/site_antigo/leitura_02_03_08.htm
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

AS ONDAS MENTAIS (ZEN - ZAZEN)


"Uma vez que desfrutamos todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não precisamos ir em busca de uma alegria excessiva. Assim, nossa serenidade é imperturbável."

Quando estiver praticando zazen*, não tente deter seu pensamento. Deixe que ele pare por si mesmo. Se alguma coisa lhe vier à mente, deixe que entre e deixe que saia. Ela não permanecerá por muito tempo. Tentar parar o pensamento significa que você está sendo incomodado por ele. Não se deixe incomodar por coisa alguma. Pode parecer que essa coisa vem de fora mas, na verdade, são apenas as ondas de sua mente e se você não se deixar incomodar por elas, gradualmente se tornarão mais e mais calmas. Em cinco ou dez minutos, no máximo, sua mente estará calma, serena. Sua respiração então se tornará mais lenta e a pulsação, um pouco mais acelerada.

Leva um certo tempo até que a mente se acalme durante sua prática. Surgem muitas sensações, muitos pensamentos ou imagens, mas são apenas ondas da própria mente. Nada vem de fora dela. Em geral, pensamos que nossa mente recebe impressões e experiências do exterior, mas isso não é uma compreensão correta da nossa mente. A verdade é que a mente inclui tudo; quando pensamos que algo surge de fora, isso quer dizer somente que algo surge na nossa própria mente. Nada exterior a si mesmo pode perturbá-lo. E você mesmo que cria as ondas da mente. Se deixar a mente como ela é, ela se tornará calma. Esta é a chamada mente grande.

Quando a mente está vinculada a algo fora dela própria, trata-se da pequena mente, uma mente limitada. Se sua mente não estiver vinculada a nada, então não haverá mais compreensão dualista na atividade de sua mente. Compreenderá que a atividade não é mais do que ondas da sua mente. A mente grande experimenta tudo dentro de si própria. Percebe a diferença entre ambas? A mente que tudo inclui e a mente ligada a alguma coisa em particular? Na verdade, elas são a mesma coisa, a compreensão é que é diferente, e sua atitude perante a vida será diferente de acordo com a compreensão que você tiver.

Que tudo esteja incluído na mente é a essência da mente; e a experiência disto é a posse do sentimento religioso. Embora as ondas surjam, a essência da sua mente é pura, como água clara com poucas ondas. Na verdade, a água tem sempre ondas. Elas são a prática da água. Falar de ondas separadas da água, ou da água separada das ondas, é uma ilusão. Água e ondas são uma só coisa. A grande e a pequena mente são uma só. Quando você entender sua mente desta maneira, terá alguma segurança em seus sentimentos. Como sua mente nada espera de fora, ela está sempre completa. Uma mente com ondas não é uma mente perturbada e sim ampliada. Qualquer coisa que você experimente é uma expressão da mente grande.

A atividade da mente grande é ampliar a si mesma através das diversas experiências. Em certo sentido nossas experiências, ocorrendo uma a uma, são sempre frescas e novas, mas em outro sentido não passam de um contínuo e repetitivo desdobramento da mente grande. Por exemplo, se há algo bom para o desjejum, você dirá "isto é bom". O "bom" provém de alguma coisa experimentada há tempos, ainda que você não lembre quando. Com a mente grande, nós aceitamos cada experiência do mesmo modo que reconhecemos a face que vemos no espelho como a nossa própria face. Para nós, praticantes, não existe o medo de perder essa mente. Não há qualquer lugar, nem para onde ir, nem de onde voltar; não existe medo da morte, do sofrimento da velhice ou da doença. Uma vez que desfrutamos todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não precisamos ir em busca de uma alegria excessiva. Assim, nossa serenidade é imperturbável, e é com essa imperturbável serenidade da mente grande que praticamos zazen.


Shunryu Suzuki


*Zazen: prática de meditação


Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/medita%C3%A7%C3%A3o-zazen-meditar-budismo-3998095/