sexta-feira, 5 de junho de 2020

IMPERMANÊNCIA: ENSINAMENTO BÁSICO DO BUDISMO


"Devemos encontrar a perfeita existência através da existência imperfeita."


O ensinamento básico do budismo é a impermanência ou a mudança. Para cada existência, a verdade básica é que tudo muda. Ninguém pode negar essa verdade e todo o ensinamento do budismo está condensado nela. Este é o ensinamento para todos. Seja onde for, este ensinamento é verdadeiro. [...]

Este também é chamado o ensinamento do nirvana. Quando percebemos a perene verdade de que "tudo muda" e encontramos serenidade nisso, descobrimo-nos no nirvana.

Sem aceitar o fato de que tudo muda, não podemos encontrar perfeita tranquilidade. Mas, infelizmente, embora seja verdade, temos dificuldade em aceitá-lo. Por não conseguirmos aceitar a verdade da impermanência é que sofremos. Em consequência, a causa do sofrimento é a não aceitação dessa verdade. O ensinamento da causa do sofrimento e o ensinamento de que tudo muda são, pois, dois lados da mesma moeda. Em termos subjetivos, a impermanência é a causa de nosso sofrimento. Em termos objetivos, este ensinamento é simplesmente a verdade básica de que tudo muda.

[...] Devemos encontrar a perfeita existência através da existência imperfeita. Devemos encontrar a perfeição na imperfeição. Para nós, a completa perfeição não é diferente da imperfeição. O eterno existe por causa da existência não-eterna. No budismo, esperar algo fora deste mundo é um ponto de vista herético. Não buscamos nada fora de nós mesmos. Devemos encontrar a verdade neste mundo, através de nossas dificuldades, de nosso sofrimento. Este é o ensinamento básico do budismo. O prazer não é diferente da dificuldade. Bom não é diferente de mau. Bom é mau; mau é bom. São dois lados da mesma moeda. Portanto, a iluminação deve estar na prática. Este é o entendimento correto da prática, o entendimento correto da nossa vida. Assim, encontrar prazer no sofrimento é a única maneira de aceitar a verdade da impermanência. Sem compreender como aceitar essa verdade, você não pode viver neste mundo. Mesmo que tente escapar dele, seu esforço será em vão. Se você pensa que existe alguma outra maneira de aceitar a eterna verdade de que tudo muda, é ilusão sua. Este é o ensinamento básico de como viver neste mundo. Qualquer que seja seu sentimento acerca disso, você tem de aceitá-lo. Você tem de realizar este tipo de esforço.

Assim, enquanto não nos tornarmos fortes o bastante para aceitar a dificuldade como prazer, temos de continuar no esforço. Na verdade, quando você se torna suficientemente honesto e franco, não é tão difícil aceitar essa verdade. Você pode mudar um pouco sua maneira de pensar. Sabemos que é difícil, mas a dificuldade não será sempre a mesma - algumas vezes será difícil, outras nem tanto. Se você está sofrendo, achará algum prazer no ensinamento de que tudo muda. Quando você tem problemas, é bem fácil aceitar este ensinamento. Então, por que não aceitá-lo em outras ocasiões? É a mesma coisa. As vezes, você até pode rir de si mesmo ao descobrir quão egocêntrico é. Mas, independente de como se sinta a respeito deste ensinamento, é muito importante mudar sua maneira de pensar e aceitar a verdade da impermanência.


Shunryu Suzuki



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
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AHIMSA - ALÉM DA NÃO-VIOLÊNCIA: O AMOR


Todos somos como vibrações localizadas da infinita bondade da presença de Deus. Então, o amor é a nossa própria natureza. O amor é nosso primeiro, meio e último nome. Amor é tudo; não o amor como sentimentalismo, mas o amor que é auto esquecido e sem interesse próprio.

Isso também é maravilhosamente exemplificado na vida e obra de Gandhi. Ele nunca tentou ganhar nada. Ele apenas tentou mostrar amor; e é isso que "ahimsa" realmente significa. Não é apenas um negativo. A não-violência não captura seu significado. Significa mostrar amor incansavelmente, não importa o que aconteça. Esse é o significado de dar a outra face. De vez em quando você precisa defender alguém, mas isso significa que você está sempre disposto a sofrer primeiro pela causa - ou seja, pela comunhão com seus inimigos. Se você vencer seus inimigos, você falhou. Se você faz de seus inimigos seus parceiros, Deus conseguiu.


Pe. Thomas Keating, OCSO



Fonte: Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/religi%C3%A3o-ahimsa-ahura-mazda-baha-i-2028188/

INTER-RELACIONAMENTO HUMANO


Personagens e seus valores

Herdamos um mundo com a construção já em andamento, cheio de padrões e paradigmas* assentados conforme as condições da sociedade local. Os valores culturais desse sítio em que habitamos são estabelecidos pela somatória dos gostos e aptidões comuns de nossos conterrâneos, variando de uma região para outra.

Além disso, crescemos identificando as pessoas com quem nos relacionamos pelos postos e valores sociais que elas ocupam (o pai, a mãe, o irmão, o padre, o professor, o médico, o policial etc.). Então, nesses termos, para nós as pessoas que a princípio estão sob rótulos e valores são personagens de um conjunto social. Esses títulos conceituam os Seres e acabam diferenciando-os uns dos outros, criando a ilusão de que o Espírito que anima o homem tenha a medida igual à metragem humana.

Assim é que a mãe diz amar o filho, o filho diz amar a mãe, o esposo diz amar a esposa etc. Todavia, faz-se necessário averiguar se esse benquerer é de fato direcionado ao Ser ou ao posto ocupado por esse personagem. Supomos então uma trama: Maria (mãe) diz amar Joãozinho (filho), do jeito que ele é, incondicionalmente como se diz ser o amor materno. Porém, Maria conhece verdadeiramente quem é o Ser que agora anima o personagem de seu filho? E se conhecesse, ela modificaria seu sentimento? Ora, digamos que o Espírito X, que nesta vida encarnou como filho, tenha sido na vida passada de Maria o seu esposo, seria nela o mesmo sentimento de hoje tal qual fora lá atrás?

Não, provavelmente.

Enquanto na vida material a posição que os Espíritos ocupam numa encarnação pesa no sentimento que lhe atribuímos, pois desconhecemos os valores espirituais destas almas. Não raro, supomos que o status terreno e as características físicas reflitam o valor desta alma no plano espiritual.

Olhando então para aqueles com quem compartilhamos nossos dias, temos o desafio de compreendê-los por dois prismas: o primeiro é o de que todos os indivíduos são consciências espirituais, com valores espirituais, sendo esses valores diferentes da organização a que estamos submetidos na Terra; o segundo critério a ser observado é que, embora sejamos seres espirituais, ora ocupamos uma identidade fictícia nas encarnações, logo, precisamos representar bem esse personagem, o que nos cobra respeitarmos o papel que cada um exerce aqui. O pai biológico, por exemplo, num plano espiritual é mais um irmão nosso, muitas vezes muito mais atrasado moral e, ou intelectualmente que o próprio filho, todavia, nessa ficção que é a vida carnal, exercendo a paternidade, requer do filho o tratamento especial pelas ligações consanguíneas.

Saber que espiritualmente não somos isso que dramatizamos na Terra não implica em desprezarmos essa realidade material temporária, mas sim nos sugere vivermos nosso personagem dignamente para irmos ao encontro do que verdadeiramente somos - porque invariavelmente isso ocorrerá, após o prazo desta encarnação.

Se herdamos um plano físico já em desenvolvimento - portanto, não sendo exatamente uma construção nossa - é porque há uma consciência maior coordenando tudo, desta maneira, é justo pensar que o planejamento natural visa propósitos acertados para todos nós, ou seja, a posição que ocupamos neste plano terreno - por exemplo, sendo homem ou mulher; rico ou pobre; branco, negro ou amarelo; neste país ou em outro etc. - satisfaz a uma ordem sobreposta à nossa vontade. E pelo fato de supormos que poderíamos ser aquela pessoa, ocupar aquele outro posto e viver numa situação qualquer diferente da que ora vivemos, faz com que despendamos grande parte de nossa vida nos imaginando fora de onde estamos e do que somos.

Viver imaginando ser outra pessoa é negar a si mesmo e desdenhar a posição que ocupamos, desobedecendo aos desígnios da natureza, que nos confiou o bom exercício do personagem que nos foi destinado e que devemos interpretar dignamente. Se os outros têm atributos que julgamos ser salutares, que conquistemos então esses valores para o nosso personagem, sem que seja preciso - porque é impossível - trocarmos os papeis.

Uma vez que a consciência não pertence ao corpo material, concluímos que nosso Ser essencial é na forma espiritual, que sobreviverá à morte corporal, numa dimensão diferente desta onde ora vivemos. Desta forma, é justo crermos que o papel que estamos representando e suas características de vida estejam limitados ao tempo desta encarnação, e que passada esta temporada, viveremos sob novas condições, características da nova dimensão onde habitaremos. Isto nos remete à ideia de que aquilo que aqui fazemos terá relação com a posição futura a ser ocupada por cada um de nós.

A esperança de ocuparmos uma posição melhorada, em relação ao que atravessamos na forma humana, deve nos dar forças para desempenharmos os propósitos que hoje nosso personagem terreno nos reclama.


Louis Neilmoris


* Paradigma: algo que sirva de modelo, padrão, exemplo comum.


Fonte: do livro "O Grande Encontro Filosófico - Autodescobrimento Aplicado"
Ed. Luz Espírita, abril de 2014, digital - www.luzespirita.org.br
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quinta-feira, 4 de junho de 2020

NATUREZA DO ESOTERISMO


Uma das definições mais inadequadas do esoterismo é a de que diz respeito ao que está oculto e velado e que, embora pressentido, permanece desconhecido. Infere-se que ser esoterista é estar entre aqueles que procuram penetrar em certo reino secreto no qual o estudante comum não tem permissão de entrar.

A abordagem fundamental dos que procuram captar o esoterismo ou ensiná-lo aos estudantes consiste em enfatizar o mundo das energias e reconhecer que, por trás de todos os acontecimentos do mundo fenomênico existe o mundo das energias, as quais são da maior diversidade e complexidade, mas todas se movem e atuam sob a Lei de Causa e Efeito.

É desnecessário assinalar a natureza prática desta definição e sua aplicabilidade à vida do aspirante individual, à vida da comunidade e dos assuntos mundiais como aos níveis condicionantes imediatos das energias espirituais experimentais que procuram constantemente fazer impacto ou contato com o mundo dos fenômenos – e o fazem sob a direção espiritual, a fim de implementar o Plano Divino. A afirmação acima é de vital importância; todas as demais definições estão implícitas nela, e é a primeira verdade importante que todo aspirante aos mistérios e à universalidade do que move os mundos e fundamenta o processo evolutivo deve aprender e aplicar.

A primeira tarefa do esoterista consiste em captar a natureza das energias que procuram condicioná-lo e que se expressam no plano físico através do seu equipamento ou veículo de manifestação. Portanto, o estudante esoterista deve compreender que:

1. Ele é um agregado de forças herdadas e condicionadas pelo que foi, além de uma grande força antagonista que não é um princípio e que chamamos de corpo físico;

2. Ele é sensível a certas energias, das quais será cada vez mais consciente e que, embora hoje desconheça e não tenham utilidade para ele, deve se tornar consciente em um dado momento, para que possa penetrar com mais profundidade no mundo das forças ocultas. Tais energias poderiam ser malignas para ele se trabalhasse com elas e, portanto, deve saber diferenciá-las e descartá-las; há outras energias que deverá aprender a usar, porque são benéficas e aumentariam seu conhecimento e, portanto, devem ser consideradas boas. Mas tenham em mente que as energias em si não são boas nem más. A Grande Loja Branca, a nossa Hierarquia espiritual, e a Loja Negra empregam as mesmas energias universais, mas com motivos e objetivos diferentes; ambos os grupos são compostos de esoteristas treinados.

Portanto, o esoterista em treinamento deve:

1. Tornar-se consciente da natureza das forças que constituem o equipamento da sua personalidade e que ele próprio levou magneticamente à expressão nos três mundos (físico/etérico, astral e mental), e que são uma combinação de forças ativas. Ele deve aprender a diferenciar entre a energia estritamente física, que responde automaticamente a energias internas e outras, e as que vêm dos níveis emocionais e mentais da consciência, as quais são enfocadas através do corpo etérico, o qual, por sua vez, mobiliza e energiza o veículo físico para certas atividades;

2. Tornar-se sensível às energias impulsionadoras da alma, que emanam dos níveis mentais superiores, as quais procuram controlar as forças do homem tríplice quando ele alcança um determinado grau de evolução bem definido;

3. Reconhecer as energias que condicionam seu meio ambiente, vendo-as não como eventos ou circunstâncias, mas como energias em ação; por esse meio aprende a abrir caminho por trás das cenas dos acontecimentos externos e para o mundo das energias, procurando fazer contato e se capacitar para gerar certas atividades. Assim penetra no mundo dos significados. Os fatos e circunstâncias, os acontecimentos e fenômenos físicos de todo tipo, são simplesmente símbolos do que ocorre nos mundos internos, mundos em que o esoterista deve penetrar até onde a sua percepção permitir; portanto descobrirá sequencialmente mundos que exigirão dele uma penetração científica;

4. Para a maioria dos aspirantes a própria Hierarquia espiritual é um reino esotérico a ser descoberto e que aceitará ser penetrado.

Reconhecer entre a energia e a força, saber discriminar entre os diversos tipos de energia, tanto com relação a eles mesmos (aspirantes e discípulos) como aos assuntos mundiais, e começar a relacionar o que se vê e experimenta com o invisível, o que condiciona e o que determina é a tarefa do esoterista.

As igrejas e os homens devem aprender que nada existe no mundo dos fenômenos, das forças e das energias que não possa ser controlado pelo espiritual. Tudo o que existe é, em realidade, espírito em manifestação. Os povos estão adquirindo mentalidade política, o que os Mestres veem como um grande passo para a frente. Há de se ter alcançado um grande progresso quando as pessoas de orientação espiritual incluírem esta área relativamente nova do pensamento humano e sua atividade internacional dentro do campo da investigação esotérica.

O esoterismo é uma ciência – essencialmente a ciência da alma de todas as coisas – e tem terminologia, experimentos, deduções e leis próprias. Quando digo alma refiro-me à consciência animadora que se encontra na natureza toda e nos níveis que estão fora da zona que de maneira geral chamamos de natureza. Os estudantes se esquecem de que todo nível de consciência, do superior ao inferior, é um aspecto do plano físico cósmico e em consequência – do ponto de vista do processo evolutivo – é de natureza material e – do ponto de vista de determinados Observadores divinos – é absolutamente tangível e formado de substância criadora. O esoterista trabalha todo o tempo com substância; com a substância vivente e vibrante de que são feitos os mundos e que – herdada de um sistema solar anterior – está matizada pelos fatos passados e, como se disse , “já tingida pelo carma”.

O estudo esotérico, unido a uma forma de viver esotérica revela, no devido tempo, o mundo dos significados e conduz oportunamente ao mundo das significações. O esoterista procura descobrir a razão do porquê; luta com o problema dos fatos, acontecimentos, crise e circunstâncias a fim de chegar ao significado que possam ter para ele; quando descobre o significado de qualquer problema específico, utiliza-o como estímulo para penetrar mais profundamente no mundo de significados que recém lhe foi revelado; aprende então a incorporar seus pequenos problemas pessoais ao Todo maior, perdendo assim de vista o eu inferior e descobrindo o eu superior.

O verdadeiro ponto de vista esotérico é sempre o do Todo maior. O estudante vê o mundo de significados como uma rede intrincada e estendida sobre todas as atividades e aspectos do mundo fenomênico.

O esoterismo implica, portanto, em viver uma vida em sintonia com as realidades subjetivas internas, o que só é possível quando o estudante está inteligentemente polarizado e mentalmente enfocado, e que só é útil quando ele pode se mover entre estas realidades internas com destreza e compreensão.

Toda verdadeira atividade esotérica produz luz e iluminação; cujo resultado é a intensificação e qualificação da luz herdada da substância mediante a luz superior da alma – no caso da humanidade que trabalha conscientemente. Por conseguinte, podemos definir o esoterismo e sua atividade em termos de luz. 

O esoterista se ocupa da luz nos três aspectos, mas atualmente é preferível que se ocupe de uma abordagem diferente até que – mediante desenvolvimentos, ensaios e experimentos – conheça as triplas diferenciações em um sentido prático e não somente teórico e místico.

Desafiaria todos os esoteristas a procurarem uma abordagem prática do que delineei e pediria para viverem uma vida redentora, desenvolverem a sensibilidade mental inata e atuarem continuamente de acordo com o significado que há por trás dos assuntos mundiais, nacionais, comunais e individuais. Se assim o fizerem, então a luz brilhará repentina e crescentemente sobre seu caminho. Portanto, poderão ser portadores de luz e saber que “nessa luz verão a Luz”, e que também seus semelhantes a verão.


Alice A. Bailey



Fonte: Lucis Trust - Escola Arcana
www.lucis.org
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UM PADRÃO DE MEDITAÇÃO DIÁRIA


Permitir que o padrão da meditação diária prevaleça entre tantos outros padrões da nossa vida, não só imaginária, mas, efetivamente, é um desafio para o que há de melhor em nós; para o melhor em nós. É uma introdução mundana para uma lei cósmica de sacrifício.

Há uma história indiana que nos conta como Vishnu vinha todo dia trazer oferendas para Shiva, colocando mil flores de lótus aos seus pés. Um dia, após alguns milhares de anos desta adoração, ele descobriu, ao deitar as flores de lótus, que havia apenas 999 naquele dia. (Estas coisas acontecem, eventualmente.) Sem hesitar ele arrancou um de seus olhos, lindo, com a forma de uma flor de lótus, para completar a oferenda, colocando-o entre as 999.

A adoração é uma outra forma de compreendermos a auto-renúncia, que é a dinâmica no coração da meditação e de todo amor. Nos oferece uma forma diferente de encarar o sacrifício. Não como uma perda de alguma coisa preciosa, algo arrancado de nós enquanto interiormente esperneamos e gritamos. Mas, como uma oportunidade preciosa para entrarmos em contato com maior bem-aventurança e plenitude. Aceitar, e ceder a estes momentos, é um presente do louvor que reúne todo nosso ser, nos unifica e nos simplifica na súbita alquimia do amor.

Esta é a ação multi-dimensional do mantra na meditação, e esta é a razão pela qual precisamos ser tão simples ao repetirmos o mantra, para que todas estas dimensões sejam harmonizadas e desenvolvidas conjuntamente. Não é apenas um sacrifício de tempo... O sacrifício inclui nossos pensamentos e imaginação, as mil e uma conversações em todos os níveis de nossa mente. Assim como o foi para Vishnu, é uma oferenda de toda nossa forma de ver e conhecer, uma cegueira parcial e temporária, que é um ato de fé, noutra e superior forma de ver e conhecer.

O mantra introduz… na experiência da oração um ato espontâneo de louvor que envolve todo nosso ser. Não apenas dizendo a Deus... quão onipotente, onisciente e onipresente "ele" é. Mas aceitando o convite inerente à nossa verdadeira existência para nos tornarmos como Deus é: pela graça, pela adoção, pelo amor.

Nesta cooperação entre graça e natureza nosso ser torna-se pleno. Cristo, aquele que cura, opera mais unindo profundidade e superfície, o interior e o exterior, na pura dádiva do louvor que é nosso e dele, à medida em que ouvimos o mantra. Como o Padre John Main, OSB ensinou, nossa meditação se torna uma oração mais pura, não só na ação de repetirmos o mantra em face às distrações, mas na facilidade em ouvi-lo.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos Amigos" - Leitura de 06/04/2008
WCCM International Newsletter - Janeiro de 1997 - Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/santo-medita%C3%A7%C3%A3o-ioga-meditando-198958/

O ALFA E O ÔMEGA DE TODA A FILOSOFIA E RELIGIÃO


A quintessência, o Alfa e o Ômega de toda a filosofia e religião resume-se no seguinte:

– que existe uma Realidade absoluta, infinita, eterna, consciente,

– que todas as coisas do universo, percebidas como várias e distintas, não são senão manifestações múltiplas dessa única Realidade...

A pluralidade dos fenômenos é meramente aparente – a unidade do Noúmeno é real.

A Realidade não teve princípio, nem terá fim – ao passo que seus fenômenos começam e acabam, nascem e morrem. Os fenômenos transitórios são causados – a eterna Realidade é incausada, mas causadora de todos os efeitos.

A perfeição do homem consiste na faculdade de perceber a unidade da Causa absoluta através da pluralidade dos efeitos relativos. Os seres irracionais, dotados de sentidos mas destituídos de razão, não percebem senão a pluralidade dos fenômenos, ignorando a unidade do Noúmeno. Quanto mais próximo está um homem da animalidade do irracional, tanto mais percebe a pluralidade dos fenômenos e tanto menos conhece a unidade do Noúmeno – e vice-versa.

Perceber a pluralidade sem a unidade, é analfabetismo filosófico; perceber a unidade sem a pluralidade, é unilateralismo de principiante; perceber a unidade na pluralidade, é que é o mais alto grau de perfeição. O primeiro estado é caos, o segundo é monotonia, o terceiro é harmonia.


Huberto Rohden



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
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ENCONTRAR A DEUS


Receio que não haja um meio fácil, porque encontrar Deus é coisa muito difícil e árdua.

O que chamamos Deus não será algo que a mente cria?

Você sabe o que é a mente. A mente é o resultado do tempo e pode criar qualquer coisa, qualquer ilusão. Ela tem o poder de criar ideias, de projetar-se em fantasias, em imaginação; está constantemente acumulando, eliminando, escolhendo. Sendo preconceituosa, estreita, limitada, a mente pode delinear Deus, ela pode imaginar o que seja Deus, de acordo com suas próprias limitações. Porque certos instrutores, sacerdotes e chamados salvadores disseram que há Deus e o descreveram, a mente é capaz de imaginar Deus nesses termos; mas essa imagem não é Deus. Deus é algo que não pode ser encontrado pela mente.

Para compreender Deus, você precisa primeiro compreender a sua própria mente - o que é muito difícil. A mente é muito complexa, e compreendê-la não é fácil. Mas é bastante fácil sentar e embarcar em algum tipo de sonho, ter várias visões, ilusões, e depois pensar que se está muito próximo de Deus. A mente pode ludibriar-se muito.

Assim, para realmente experimentar aquilo que se possa chamar Deus, você precisa estar completamente tranquilo; e acaso não verificaram já como isso é extremamente difícil? Nunca observaram que mesmo as pessoas mais velhas nunca se sentam e ficam quietas, como elas se agitam irrequietas, como movem os dedos e gesticulam com as mãos? Fisicamente, é difícil sentar e ficar quieto; muito mais difícil é a mente aquietar-se! Você pode seguir um guru e forçar a mente a aquietar-se; mas sua mente não estará realmente quieta. Ela ainda estará desassossegada como uma criança que se pôs de castigo num canto. É uma grande arte ter a mente completamente silenciosa sem coerção; e só então há a possibilidade de experimentar aquilo que se pode chamar de Deus.

Você está mesmo interessado em descobrir? Você faz perguntas e depois se senta; você não ouve realmente. Já notaram como as pessoas mais idosas quase nunca ouvem vocês? Elas raramente os ouvem porque estão muito encenadas em seus próprios pensamentos, em suas próprias emoções, em suas próprias satisfações e tristezas. Espero que vocês tenham notado isto. Se souberem observar e ouvir, realmente ouvir, vocês descobrirão uma porção de coisas, não só sobre as pessoas mas também sobre o mundo.

Aqui está esse rapaz perguntando se Deus está em toda parte. Ele é muito novo para fazer esse tipo de pergunta. Não sabe o que ela realmente significa. Ele provavelmente tem alguma vaga ideia de alguma coisa - a sensação da beleza, uma percepção dos pássaros no céu, de águas correntes, de um rosto bonito, sorridente, de uma folha dançando ao vento, de uma mulher carregando um fardo. E há ira, ruído, tristeza - tudo isto está no ar. Então, ele está naturalmente interessado e ansioso por descobrir o que significa a vida. Ouve as pessoas mais velhas falarem sobre Deus e fica intrigado. É muito importante para ele fazer tal pergunta, não é mesmo? E é igualmente importante que todos vocês busquem a resposta; portanto, como eu disse outro dia, vocês começarão a captar o sentido de tudo isto interiormente, inconscientemente, no mais profundo de si mesmos; e então, à medida que crescerem, terão ideias de outras coisas além deste horroroso mundo de conflitos. O mundo é belo, a Terra é farta; mas nós a estragamos.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP
Fonte da Gravura: La Fuente

quarta-feira, 3 de junho de 2020

CONSIDERAÇÕES SOBRE A HUMILDADE


É quase impossível superestimar o valor da verdadeira humildade e seu poder na vida espiritual, pois o início da humildade é o início do caminho da bem-aventurança, e a consumação da humildade é a perfeição de toda alegria.

A humildade contém em si a resposta a todos os grandes problemas da vida da alma; é a única chave que dá acesso à fé, início da vida espiritual, pois fé e humildade são inseparáveis.

Na perfeita humildade desaparece todo egoísmo e a alma não vive mais para si nem em si mesma para Deus, mas se perde de vista, mergulha em Deus e é nele transformada.

A essa altura da vida espiritual, a humildade atinge o mais alto grau de exaltação da grandeza. É aqui que todos os que se humilham são exaltados, pois vivendo não mais para si ou no nível humano, o espírito é liberto de todas as limitações e vicissitudes da criatura e da contingência, e mergulha nos atributos de Deus, cujo poder, magnificência, grandeza e eternidade se tornam nossos pelo amor, pela humanidade.

Se formos incapazes de humildade, seremos incapazes de alegria, porque só a humildade pode destruir o egocentrismo que impossibilita a alegria.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Novas sementes de contemplação"
Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: http://www.good-will.ch/postcards_es.html

O SENTIDO ESOTÉRICO


[...] O “sentido esotérico” significa, em essência, o poder de viver e funcionar subjetivamente, possuir um contato interno constante com a alma e o mundo no qual se encontra, o que deve se efetuar subjetivamente através do amor, ativamente demonstrado; da sabedoria, constantemente vertida, e da capacidade de incluir e identificar a si mesmo com tudo que respira e sente, uma das notáveis características de todo verdadeiro Filho de Deus.

Quero dizer, portanto, que há de se manter internamente uma atitude mental que possa se orientar à vontade em qualquer direção. É capaz de reger e controlar a sensibilidade emocional, não somente do próprio discípulo, como também de todos com os quais entra em contato. Pela força do seu pensamento silencioso, é capaz de levar luz e paz para todos. Por meio do poder mental, é capaz de se sintonizar com os pensamentos do mundo e o reino das ideias e discriminar e escolher os elementos e conceitos mentais que o habilitarão, como trabalhador do Plano, a influenciar seu meio ambiente e a revestir os novos ideais nesta matéria mental que permitirá que sejam reconhecidos com mais facilidade no mundo habitual do pensamento e do viver cotidianos. Esta atitude mental também capacitará o discípulo a se orientar para o mundo das almas e, deste lugar de elevada inspiração e luz, descobrir seus colaboradores, se pôr em comunicação com eles e – em união com eles – colaborar no desenvolvimento das intenções divinas.

Este sentido esotérico é a principal necessidade do aspirante nesta época da história mundial. Até que os aspirantes tenham captado isto em alguma medida e possam utilizá-lo, não poderão fazer parte do Novo Grupo, nem trabalhar como magos brancos, e estas instruções permanecerão teóricas e sobretudo intelectuais, em vez práticas e operacionais.

A meditação é necessária para cultivar este sentido esotérico interno, e meditação contínua nas primeiras etapas de desenvolvimento. Mas, à medida que o tempo passa e o homem cresce espiritualmente, esta meditação diária dará lugar a uma orientação espiritual constante e a meditação, tal como a compreendemos e dela necessitamos agora, já não será necessária.

O desapego do homem pelas formas que utiliza será tão completo que ele viverá sempre no “centro do Observador” e, a partir deste ponto e atitude dirigirá as atividades da mente, das emoções e das energias que fazem a expressão física possível e útil.

A primeira etapa do desenvolvimento e cultivo do sentido esotérico consiste em manter uma atitude de observação constante e desapegada.


Fundação Lucis Trust - Escola Arcana



Fonte: www.lucis.org/pt-br/422-2/introducao-ao-livros/o-sentido-esoterico/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/mandala-esot%C3%A9rico-m%C3%ADstico-magia-1866212/

REALIDADE ETERNA DA VIDA


Toda a tradição cristã nos diz... que, caso nos tornássemos sábios, deveríamos aprender a lição de que aqui não temos “nenhuma cidade que nos prende”... Mas, a principal fantasia de muitos dos interesses mundanos, opera a partir de um ponto de vista completamente oposto... sabedoria de nossa tradição..., é a de que a consciência de nossa fraqueza física nos permite enxergar, também, nossa própria fragilidade espiritual. Existe uma consciência profunda em todos nós, tão profunda que, frequentemente, permanece enterrada, na maior parte do tempo, de que devemos estabelecer contato com a integralidade da vida e, com a fonte da vida. Devemos estabelecer contato com o poder de Deus e, de alguma maneira, abrir esse nosso frágil vaso terreno ao amor eterno de Deus...

A Meditação é uma via de poder, pois é o meio de entendermos nossa própria mortalidade. É o meio de nos concentrarmos em nossa própria morte. Ela consegue isso, por ser uma via que segue além de nossa própria mortalidade. É uma via que segue, além de nossa própria morte, até a ressurreição, para uma nova e eterna vida, a vida que nasce de nossa união com Deus. A essência do Evangelho cristão é a de que somos convidados para essa experiência agora, hoje. Todos nós somos convidados a morrer para a nossa própria auto-importância, o nosso próprio egoísmo, nossas próprias limitações. Somos convidados a morrer para nossa própria exclusividade... Nosso convite a morrer, também é o de nascer para a nova vida, para a comunidade, para a comunhão, para uma vida plena e, sem medos. Suponho que seria difícil estabelecer o que é que as pessoas mais temem, a morte ou a ressurreição. Porém, na meditação perdemos nosso medo, pois compreendemos que a morte é morte do medo e, ressurreição é nascer para a nova vida.

Cada vez que nos sentamos para meditar, nos conectamos com esse eixo de morte e ressurreição. Isso se dá, pois em nossa meditação vamos além de nossa própria vida e, de todas as limitações de nossa vida, em direção ao mistério de Deus. Descobrimos, cada um de nós a partir de nossa própria experiência, que o mistério de Deus é o mistério do amor, amor infinito, amor que expulsa todos os medos.

Essa é a nossa ressurreição, elevarmo-nos à completa liberdade que se dá como um alvorecer em nós, uma vez que estejam em foco nossa própria vida e morte e ressurreição. A meditação é o grande meio de focalizarmos nossa vida na realidade eterna que é Deus, a eterna realidade que ali está para ser encontrada em nossos próprios corações. A disciplina de repetir o mantra, a disciplina do retorno diário, pela manhã e à tarde, à meditação, possui esse único e supremo objetivo: o de nos focalizarmos completamente no Cristo, com uma acuidade visual que veja nós mesmos e toda a realidade, como ela é. Ouçamos o que São Paulo escreveu aos Romanos: "Ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor". (Rom 14: 7-8)


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Morte e Ressureição" - Leitura de 23/03/2008
MOMENT OF CHRIST (New York: Continuum, 1998), pp. 68-70.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/universo-c%C3%A9u-star-espa%C3%A7o-cosmos-3591579/

MASCARANDO A INFIDELIDADE


Ao falar de Ananda Moyi Ma, a "Santa Impregnada de Alegria", Yogananda nos diz: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma, de toda tua mente e de todas as tuas forças", Cristo proclamou, "este é o primeiro mandamento."

Rejeitando todo apego inferior, Ananda Moyi Ma oferece fidelidade exclusiva ao Senhor. Com a lógica segura da fé, e jamais recorrendo às distinções excessivamente rebuscadas dos eruditos, a santa, semelhante a uma criancinha, resolveu o único problema da vida humana: estabelecer unidade com Deus.

​O homem esqueceu esta simplicidade absoluta, agora obscurecida por milhões de controvérsias. Negando ao Criador um amor monoteísta, as nações tentam mascarar sua infidelidade com o respeito escrupuloso ao culto exterior da caridade. Estes gestos humanitários são virtuosos porque, por um momento, desviam a atenção do homem de si mesmo, mas não o eximem de sua primordial responsabilidade na vida,  "o primeiro mandamento" a que Jesus se referiu. A edificante obrigação de amar a Deus é assumida pelo homem desde o momento e que respirou pela primeira vez o ar concedido gratuitamente por seu único Benfeitor.


Paramahansa Yoganada



Fonte: do livro "Autobiografia de um Iogue"
Comunidade Monástica Anglicana
Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/espaco-de-partilha
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FACULDADE INTUITIVA DO HOMEM


Como se pode desenvolver ou adquirir essa faculdade?

[...] Nenhum poder real, nenhuma faculdade poderosa pode aparecer no nosso ser fora das Leis eternas. A Lei primordial, que domina todas as faculdades e todas as percepções, é que o ser deve, antes de tudo, realizar, em si mesmo, uma síntese, uma harmonia, um conjunto que não deixe lugar a nenhuma dissonância. É dessa síntese que resultam os poderes superiores do espírito e do superconsciente; é por ela que podem nascer e se expandir as mais altas faculdades psíquicas. Esses poderes e essas faculdades se encontram em todos os seres, mas, em estado latente; basta realizar as condições de uma harmonia perfeita para que apareçam e, progressivamente, se desenvolvam.

O primeiro ponto que deve realizar aquele que quer iniciar-se nessas faculdades superiores, é criar, em si, essa síntese, essa harmonia: deve ser senhor de seu corpo, senhor de seu espírito, senhor de suas emoções, senhor de seus impulsos. É neste domínio que experimenta o sentimento de sua força, a soberana calma que lhe dá pleno poder em torno, este perfeito equilíbrio sem o qual nenhuma ação é possível. Esse domínio próprio dá uma severidade deliciosa, uma alegria sem sombra e sem limite que não se encontra em outra parte e que é uma das mais altas felicidades acessíveis ao homem. Com isso adquire a força de vencer, não somente nos seus interesses materiais, mas ainda nessas pesquisas apaixonadas que lhe fariam esquecer tudo, se os seus deveres não o solicitassem.

É aí que se encontra a Senda, a única Senda, a única que conduz aos poderes reais, às faculdades estáveis. Aquele que persevera nessa linha de conduta sentir-se-á, dia a dia, mais poderoso, e sua força crescerá à medida que se tornar mais calmo e mais em posse de si mesmo.

A faculdade intuitiva não se pode manifestar, brotar, expandir-se, até dar ao ser uma visão nova e inteiramente diferente da vida, senão quando a calma é obtida. Tocamos aí em um dos mais altos cumes iniciáticos. Os cimos, no ar que os rodeia, são, para nós, a imagem mais perfeita da paz e da estabilidade; mas, esses altos cimos não podem ser escalados se os declives precedentes não forem galgados. É, pois, de primordial necessidade ter, antes de tudo, obtido a calma do corpo, o apaziguamento dos sentimentos, o domínio das emoções, a posse das ideias antes de realizar outra ambição. [...]


Henri Durville



Fonte: do livro "Como Desenvolver as Faculdades Intuitivas", 2004
Ed. Professor Francisco Valdomiro Lorenz - Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento
São Paulo - SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/terceiro-olho-olho-espirituais-2886688/

COMO É QUE EU POSSO CONHECER-ME ?


Como é que eu posso conhecer-me? Não pelo pensamento, pois este só reflete meu consciente, mas pela meditação. A meditação vai além do consciente e penetra o inconsciente. Nela eu me torno cônscio do substrato de meu ser na matéria, na vida, na consciência humana. Posso experimentar minha solidariedade com o universo, com a estrela mais remota do espaço exterior e com as partículas mais ínfimas do átomo. Posso experimentar a união com todas as coisas vivas, com a terra, com estas flores e coqueiros, com os pássaros e esquilos, com todos os seres humanos. Posso ainda ir além de todas as formas externas das coisas no tempo e espaço, e descobrir o Substrato de onde provém. Posso conhecer o Pai, a Fonte e Origem, além do ser e não-ser, o Uno “sem segundo” da filosofia indiana.


Pe. Bede Griffiths, OSB



Fonte: Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/pensamentos-semanais-2018
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

O RUGIR DA TEMPESTADE


Um dos mais desconcertantes problemas da vida espiritual é o de mantermos nosso interesse em meio às intermináveis dificuldades e aos mais cruéis desafios. É a rotina e monotonia de nossa vida diária que solapa nossa vitalidade e força. A vida da maior parte da humanidade é feita de pequenos fatos e incidentes que podemos chamar de trivialidades da existência. Grandes e extraordinários acontecimentos raramente ocorrem nas vidas de homens e mulheres comuns. Demonstrar entusiasmo por coisas extraordinárias é fácil, porém é extremamente difícil mantê-lo em meio à rotina diária. O maior dos desafios do ser humano consiste na manutenção da integridade espiritual em meio dos detalhes triviais da vida. Manter equilíbrio perfeito de pensamento e emoção entre as provocações incessantes causadas pelos fatos e acontecimentos da existência diária, demanda uma energia que a maioria não está em condições de apresentar. E, além disso, a prova da vida espiritual está no âmbito das atividades comuns e não na esfera de empreendimentos extraordinários.

Foi Emerson quem disse que jamais algo de grandioso fora conseguido sem o entusiasmo. [...] Isso tem sido bem evidenciado nas vidas de inumeráveis aspirantes, que retornaram à existência mundana devido à sua inabilidade em manter o entusiasmo na vida espiritual. Entretanto, o entusiasmo não deve ser confundido com o desempenho eficiente de nossas obrigações. A chamada eficiência do mundo é devida, geralmente, ao cultivo de certos hábitos. Uma vida eficiente não é necessariamente uma vida criadora - muitas vezes é uma vida automática. [...] O entusiasmo por alguma coisa emana de uma condição de profundo interesse.

[...] A dificuldade para a maior parte de nós é que vivemos nossas vidas num nível demasiado superficial; nossos pensamentos e emoções são extremamente rasos. Esta tendência para a superficialidade aumentou enormemente nos últimos tempos devido a uma primazia indevida dada à rapidez. Nossa civilização está num estado de precipitação terrível - embora não saiba para onde corre tanto! Ora, uma vida superficial tem constante necessidade de excitações, sejam materiais ou espirituais. Há um anseio por mais e mais excitações, sensações e entretenimentos.

[..] É quando a vida interna feneceu que as dificuldades objetivas parecem intransponíveis. Assim, é a falta de interesse profundo que arrefece o entusiasmo humano. O ser humano está ressequido por dentro e procura renovação de fora! Nenhuma mudança na condição objetiva, nenhuma alteração na disposição do Karma lhe trará renovação, enquanto não penetrar nas reais profundezas de seu próprio ser.

[...] A experiência de todos os místicos espirituais é de que as dificuldades objetivas são varridas pelo impacto do entusiasmo nascido do interesse profundo. Entusiasmo e interesse profundo são fenômenos conjugados, ou então podemos também dizer que um é a expressão e o outro a fonte. O entusiasmo surge somente num estado de interesse profundo intrinsecamente presente, não de forma relativa, porém absolutamente presente no indivíduo. Realmente significa que o interesse não é por alguma coisa, nem em relação a algo particular. É somente o estado de puro interesse que serve de base para o verdadeiro entusiasmo. O interesse por alguma coisa só produz superficialidade, porque constitui entrave para a mente. Uma sensibilidade apenas por alguma coisa não é de modo algum sensibilidade, porque pelo processo inconsciente da resistência, ela torna a mente insensível a outras coisas. A mente aberta unicamente a uma coisa é uma mente fechada. Assim, a condição de puro interesse é que é essencial para o despertar do entusiasmo. É a mente de grande amplitude que é capaz de interesse profundo. A mente sem amplitude é mente rasa ou superficial. Ter amplitude é ter profundidade para poder receber e reter as influências e os impulsos da vida. A mente rasa recebe pouco e, portanto, também dá muito pouco à vida. Quando o recebimento é escasso, a doação também é pequena, desprovida de toda generosidade.

[...] Porém a questão é: Temos de provocar tormentas e perturbações a fim de criar o entusiasmo de viver? Este remédio parece ser pior do que a doença! Afinal de contas o que é uma tormenta ou uma perturbação? Obviamente, é um desafio da vida. Devido a estes desafios, ficamos perturbados. Mas como no rio da vida correm novas águas a todo o momento, a vida é um desafio incessante. Não há momento em que não exista o desafio da vida.

[...] Não há dúvida de que a vida está constantemente enviando, de maneira incessante, desafios de todos os lados e em diversos níveis. Porém, a mente, através de suas respostas, emanadas das esferas de sua memória, trabalha como um "amortecedor de choques", em relação a estes desafios. É esta atividade da mente que nos leva à passividade. Somos, então, impedidos de enfrentar os desafios da vida, devido à intervenção da mente. A mente está interessada em agir como intermediária, porque só assim pode manter sua continuidade. Devido a essa mediação, nós nem mesmo nos tornamos conscientes dos desafios da vida. Algumas vezes, as suas fortificações desmoronam devido à natureza esmagadora do desafio, porém tais circunstâncias raramente acontecem na vida de uma pessoa comum. A pessoa não percebe os contínuos desafios da vida, devido às barreiras colocadas pela mente entre ela e o seu ambiente. Dessa forma a mente a mantém afastada de um contato direto com a vida.

[...] A maioria de nós está circunscrita a uma existência estagnada. Como haver entusiasmo numa existência assim? Se a mente pudesse receber os desafios da vida, sem emitir qualquer resposta de seus centros de memória, permaneceria viçosa e vital. Da mesma forma como a natureza é purificada pela tormenta que ruge, assim o será a mente humana pelos desafios da vida. Recebê-los, porém não reagir a eles, a partir dos centros de memória, é "ficar impassível" no meio da tempestade, é ficar quieto onde se está, porque qualquer movimento da mente, nesta hora de tormenta, conduzirá o peregrino espiritual a uma confusão cada vez maior.

[...] Mas permanecer impassível numa tormenta requer tremenda coragem. Não resistir à tormenta, nem fugir dela implica em receber em cheio o impacto da tormenta. E ao receber este impacto, o homem fica absolutamente só. O desafio sem resposta é um estado de solidão. Quando uma tempestade ruge na Natureza, cada árvore está sozinha, pois tem que se apoiar em sua própria resistência. Porém naquela solidão, se a árvore não resiste, torna-se mais leve devido à queda das folhas e galhos mortos. Da mesma forma, se a pessoa puder permanecer quieta, sozinha e renovada. E na renovação subjetiva, as dificuldades do ambiente objetivo se dissolverão na atmosfera. A solidão criada pela tormenta está cheia de tremendas possibilidades espirituais. [...]


Rohit Mehta



Fonte: do livro "Procura o Caminho", Ed. Teosófica, Brasília, DF
Fonte da Gravura: Mais Yoga - maisyoga.com

terça-feira, 2 de junho de 2020

ERRAR É HUMANO


Se dizemos que a carne é fraca, a consciência também pode estar errada. Partindo do principio que a alma do homem evolui para a perfeição da Alma universal da qual ela se originou, sua consciência objetiva é o reflexo da compreensão que ele tem da Consciência universal que há nele. Sua consciência mortal está submissa por um lado à ilusão dos sentidos e por outro aos erros de interpretação das impressões vindas do exterior ou do interior. Sua própria razão é imperfeita em seu funcionamento limitado.

Sabemos a que ponto a consciência humana está sujeita ao erro. O veículo terrestre de nossa alma, isto é, nosso corpo, pertence ao mundo finito da matéria. Assim sendo, ele participa na imperfeição do mundo terrestre e sucumbe frequentemente aos erros de comportamento. A cada um desses erros cometidos, o corpo e a consciência submetem-se à lei evolutiva do carma. Estas duas formas de carma estão intimamente ligadas e se fundem na globalidade do ser.

O carma, ou “lei da compensação”, opera no corpo de maneira que o homem aprenda a respeitar as leis naturais que o regem. Quando elas são infringidas, os resultados são efeitos negativos que aparecem então na forma de sofrimentos e de doenças. Estes sofrimentos e doenças constituem-se em experiencias para a alma, a qual aprende progressivamente a dominar as suas causas. Desta feita, estes males contribuem à sua evolução, o que naturalmente não quer dizer que eles sejam uma necessidade.

Quando nos esforçamos para agir em harmonia com as leis que regem nosso corpo e nossa consciência, contribuímos para o nosso bem-estar geral e experimentamos uma certa quietude. Vemos então que apenas um conhecimento perfeito destas leis nos permite manter a boa saúde e nos elevarmos aos ideais espirituais.

Tomemos um exemplo entre dezenas de outros: o do fumante. Uma pessoa que fuma muito e há muito tempo não pode se surpreender por estar doente dos pulmões e do coração, ou mesmo por morrer. O mesmo principio se aplica à consciência. Se durante nossa encarnação nossos pensamentos e emoções não são orientados na direção daquilo que há de mais positivo e se não nos libertamos da ignorância, estamos, pois, em erro, com todas as consequências que isto implica nos planos material e espiritual. Assim sendo, parece-me importante insistir no fato de que nem toda provação é sistematicamente de origem cármica, de forma que nem todo problema de saúde ou acidente sofrido por nosso corpo tampouco o seja.

O ensinamento rosacruz oferece a possibilidade de acessar o conhecimento e de se libertar da ignorância. De fato, nosso Eu interior, ou seja, o Deus que há em nós, possui todas as qualidades e todos os atributos da Sabedoria divina. É a razão pela qual o homem deve se abrir a esta Sabedoria e deixá-la se exprimir por meio dele.


Christian Bernard, FRC



Fonte: do livro "Reflexões Rosacruzes", 1a. ed., 2011
Biblioteca Rosacruz - Ordem Rosacruz (AMORC), Curitiba - PR
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/humano-gear-homem-m%C3%A1quina-m%C3%A1quina-192607/

A EXPERIÊNCIA DO DESERTO


A oração contemplativa é, de certo modo, simplesmente, a preferência pelo deserto, pelo vazio, pela pobreza. Alguém começa a conhecer o sentido da contemplação quando, intuitiva e espontaneamente, procura o caminho obscuro e desconhecido da aridez, de preferência a qualquer outro. O contemplativo é alguém que escolhe antes o não saber do que o saber. Antes não fruir do que fruir. Antes não ter provas de que Deus o ama. Aceita o amor de Deus na fé, num desafio a toda evidência aparente. Essa é a condição necessária – e uma condição muito paradoxal – para a experiência mística da realidade de Deus e de seu amor por nós. Somente quando somos capazes de ‘largar’ tudo o que há dentro de nós, todo desejo de ver, de saber, de provar e de experimentar a presença de Deus, é que nos tornamos realmente capazes de ter a experiência dessa presença com a convicção e realidade avassaladoras que revolucionam nossa existência inteira.


Thomas Merton, OSB



Fonte: do livro "Poesia e Contemplação", T. Merton
Via Comunidade Monástica Anglicana - Igreja Anglicana Tradicional do Brasil
https://www.mongesanglicanos.org/
Fonte da Gravura: Tumblr.com

"O ESPAÇO É UMA ENTIDADE"


É conveniente recordar que "o espaço é uma entidade", segundo expressão de Blavatsky. Quando definiu desta maneira o espaço fez uma das mais importantes insinuações à humanidade.

Conhecer a existência desta entidade conduz ao reconhecimento prático do aforismo de que "nEle vivemos, movemos-nos e temos nosso ser", que explica a necessidade do ensino esotérico sobre os centros planetários e os planos como estados de consciência.

O discípulo começa, então, a estudar-se a si mesmo em relação a esta Entidade omniabarcante, a informar-se da direção de onde chegam as diferentes energias (que dão poder a sua vida e motivam suas ações) e vai familiarizando-se gradualmente sobre o "lugar destas usinas de poder e radiantes centros de luz que, criados pelo divino Criador, são fontes de vida e origem da luz e do conhecimento", conforme expressões dos antigos arquivos (...).


Alice A. Bailey


Fonte: do livro "Discipulado na Nova Era", vol. 2
Lucis Trust - https://www.lucistrust.org/
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

ATENÇÃO INCONDICIONAL E ININTERRUPTA


No Sermão da Montanha, Jesus identificou as preocupações materiais como nossa principal fonte de ansiedade. Como podemos nos sentir mais confortáveis e reduzir o sofrimento pessoal? Esta é a maior preocupação que obscurece o momento presente e rompe as verdadeiras prioridades.

"Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais do que a roupa?" Mt 6:25.

Quando ele diz para não nos preocuparmos, Jesus não está negando a realidade dos problemas diários. Está nos dizendo para abandonarmos a ansiedade e não a realidade. Aprender a não se preocupar é uma tarefa difícil... 

A despeito de seu 'distúrbio-deficiência de atenção', a mente moderna também tem sua capacidade natural de ficar tranquila e transcender suas fixações. Na profundidade, ela descobre sua própria clareza quando está em paz, livre da ansiedade. A maioria de nós tem cerca de meia dúzia de ansiedades favoritas, como doces amargos que mastigamos infinitamente. Ficaríamos assustados se nos livrássemos delas. Jesus nos desafia a superar o medo de abrir mão da ansiedade, o medo que temos da própria paz. A prática da meditação é uma forma de aplicar seu ensinamento à prece; ela prova, por meio da experiência, que a mente humana pode realmente optar por não se preocupar.

Isto não significa que podemos anular facilmente a mente e afastar todos os pensamentos segundo nossa vontade. Na meditação, permanecemos distraídos e, contudo, livres da distração, porque - por mais minimamente que seja a princípio - estamos livres para optar por onde colocar nossa atenção.

Gradualmente, a disciplina da prática diária fortalece essa liberdade. Seria pueril imaginar que conseguiremos plenamente esta liberdade a curto prazo. Permanecemos distraídos por muito tempo. Logo nos acostumamos com as distrações como companheiras de viagem no caminho da meditação. Mas elas não têm que predominar. Optar por dizer o mantra com fé e voltar a ele sempre que as distrações intervêm, exercita a liberdade que temos de prestar atenção. Não se trata de uma escolha no sentido de optarmos por uma determinada marca na prateleira do supermercado. É a opção pelo compromisso. A recitação do mantra é um ato de fé, e não um deslocamento do poder do ego. Em cada ato de fé existe uma declaração de amor. A fé prepara o terreno para que a semente do mantra germine no amor.

Não criamos um milagre de vida e crescimento sozinhos, mas somos responsáveis por seu desenvolvimento. Chegar à paz da mente e do coração - ao silêncio, à tranquilidade e à simplicidade - não exige a vontade de um campeão, mas a atenção incondicional e ininterrupta, bem como a fidelidade de um discípulo.


Dom Laurence Freeman, OSB




Fonte: "Meditação" - Leitura de 09/03/2008 http://www.wccm.com.br/site_antigo/leitura_09_03_08.htm
JESUS,O MESTRE INTERIOR (Martins Fontes, São Paulo 2004), pp. 277-278.
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/setas-dentro-press%C3%A3o-solicita%C3%A7%C3%A3o-de-2029157/