quinta-feira, 16 de julho de 2020

SOLIDÃO - QUIETUDE ÍNTIMA


Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Segundo Pascal, o grande pensador científico-filosófico do século XVII, “a verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem, sua verdadeira virtude e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável.”

Nem sempre a solidão pode ser encarada como dor ou insânia. É, em muitas ocasiões, períodos de preparação, tempos de crescimento, convites da vida ao amadurecimento.

De acordo com o pensamento de Pascal, o âmago do ser está intimamente ligado ao bem, à virtude e à religião. É justamente nas “épocas de solidão” que conseguimos a motivação necessária para estabelecer a verdade sobre esse fato.

Na solidão é que encontramos sanidade para nosso mundo interior, respostas seguras para nossos caminhos incertos e nutrição vitalizante para os labores que enfrentamos em nossa viagem terrena.

Nestes nossos apontamentos sobre a solidão, não estamos nos referindo à “tristeza de estar só”, mas sim, necessariamente, à “quietude íntima”, tão importante e saudável para que façamos um trabalho de autoconsciência, valorizando as nuances de nossa vida interior.

Muitos indivíduos vivem dentro de um ciclo diário estafante. Realizam suas atividades num ambiente de competitividade, agitação, pressa e rivalidade, vivendo em constante tensão psicológica e, por consequência, alterando suas funções fisiológicas. Por viverem num estado de cansaço e desgaste contínuos, não conseguem fazer uma real interação entre o meio ambiente e seu mundo interno, o que ocasiona sérios problemas de convivência e inúmeros conflitos pessoais.

Nem sempre é possível abandonarmos a vida alvoroçada, os ruídos e as músicas estridentes, talvez seja até mesmo inviável; mas é perfeitamente realizável dedicarmos algum tempo à solidão, retirando-nos para momentos de reflexão.

Nos instantes de silêncio, exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à Consciência Divina. É nesse momento que ficamos cientes de que realmente não estamos sozinhos e que podemos entrar em contato com a voz da consciência. A voz de Deus, por assim dizer, começará a “falar em nós”.

Inúmeras criaturas criam uma mente agitada por temerem que estão vazias, pensam não haver nada dentro delas que lhes dê proteção, apoio e segurança. Acreditam que são uma casca que precisa exclusivamente de sustentação exterior; por isso, continuam ocupando a casa mental ansiosamente, obstruindo seu acesso à luz espiritual.

A mente pode ser uma ajuda efetiva, ou mesmo um obstáculo ferrenho na escolha da melhor direção para atingimos o amadurecimento íntimo. A crença em nossa limitação é que faz com que restrinjamos nossa mente. Isso se agrava quando envolvemo-la no burburinho de vozes, no tumulto e na agitação do cotidiano, passando assim a não avaliarmos corretamente seu verdadeiro potencial.

São muitos os caminhos de Deus, e a solidão pode ser um deles. “E saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.” (1)

Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “privacidade da solidão”.

O Cristo Amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleceriam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a Vida e unos com todos os seres.

“... buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam. (...) Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.” (2) A Espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranquilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã.

Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Ninguém é capaz de seguir sua verdadeira estrada existencial, se não refletir sobre sua essência. Não encontraremos o caminho de que verdadeiramente necessitamos, se nós mesmos não o buscarmos, usando nossos inerentes recursos da alma para perceber as inarticuladas orientações divinas em nós.

Somente cada um pode interpretar as razões da Vida em si mesmo.

Adotemos o aprendizado com o Senhor Jesus, exemplificado no Horto das Oliveiras: retiremo-nos para um lugar à parte e cultivemos os interesses de nossa alma.

Se não encontrarmos um recanto externo que facilite a meditação, nem alguma paisagem mais afastada junto à Natureza, onde possamos repousar da inquietação da multidão, mesmo assim poderemos penetrar o nosso santuário íntimo.

Sigamos o Mestre, recolhendo-nos na solidão e no silêncio do templo da alma, onde exclusivamente encontraremos as reais concepções do amor e da justiça, da felicidade e da paz, de que todos temos direito por Paternidade Divina.


Francisco do Espírito Santo / Hammed


(1) Lucas 22,39
(2) O Livro dos Espíritos (Allan Kardec), Questão 771 – Que pensar dos que fogem do mundo para se votarem ao mister de socorrer os desgraçados? “Esses se elevam, rebaixando-se. Têm o duplo mérito de se colocarem acima dos gozos materiais e de fazerem o bem, obedecendo à lei do trabalho.” Questão 771-a – E dos que buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam? “Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.”



Fonte: do livro (digital) "As Dores da Alma"
8ª ed., agosto/2000, Boa Nova - Editora e Distribuidora de livros espíritas
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal





O DAR DE DEUS (DANA PRAJNA PARAMITA)


"Não-apego é dar; isto é: não apegar-se a nada é, por si só, dar."


Falando em sentido relativo, tudo quanto existe na natureza, tudo quanto existe no mundo humano, toda obra cultural criada é algo que nos foi e está sendo dado. Mas como originalmente tudo é um, na verdade nós também estamos dando tudo. Momento a momento estamos criando alguma coisa e essa é a alegria da nossa vida. Mas esse "eu" que está sempre criando e dando alguma coisa não é o pequeno "eu", e sim o grande "eu". Mesmo que você não perceba a unidade desse grande "eu" com todas as coisas, ao dar algo, você se sente bem, porque nesse momento você se sente um com aquilo que está dando. Eis por que a gente se sente melhor dando que recebendo.

[...] O mestre Dogen disse: "Dar é não-apego". Quer dizer, não apegar-se às coisas é, por si só, dar. Não importa o que é dado. Dar um vintém ou uma folha que seja, é "dana prajna paramita"*. Dar uma linha ou mesmo uma palavra do ensinamento é "dana prajna paramita". A oferenda de algo material ou de um ensinamento, se feita com espírito de desapego, tem o mesmo valor. Com o espírito correto, tudo o que fazemos, tudo o que criamos é "dana prajna paramita". [...]

De acordo com o cristianismo, todas as coisas existentes na natureza foram criadas e dadas a nós por Deus. Esta é a ideia perfeita do dar. Mas se você pensa que Deus criou o homem e que você, de algum modo, está separado de Deus, você até é capaz de pensar que pode criar algo independente, algo que não tenha sido dado por Ele. Por exemplo, nós criamos auto-estradas e aviões e de tanto repetir "eu crio, eu crio, eu crio", acabamos esquecendo quem é realmente o "eu" que cria coisas e logo nos esquecemos de Deus. Este é o perigo da cultura humana. Na verdade, criar com o "grande eu" é dar; não podemos criar nem possuir o que criamos, uma vez que tudo é criado por Deus. Lembre-se sempre disto. É porque esquecemos quem é que está criando, e qual a razão da criação, que nos apegamos aos objetos ou ao seu valor de troca. Isto é insignificante comparado ao valor absoluto de algo como a criação de Deus. Ainda que uma coisa não tenha nenhum valor material ou relativo para o "eu pequeno", ela tem, em si, valor absoluto. Não estar apegado a uma coisa é estar consciente do seu valor absoluto. Tudo o que você faz deve ser baseado nessa consciência, e não em conceitos de valor material ou egocentrados. Então, o que quer que você faça é o dar verdadeiro, é "dana prajna paramita".

[...] Se você compreender "dana prajna paramita", entenderá como é que criamos tantos problemas para nós mesmos. Claro, viver é criar problemas... Se estamos cônscios de que aquilo que fazemos ou criamos é realmente o dom do "grande eu", então não nos apegamos ao feito, e desse modo não criamos problemas nem para nós nem para os outros.

Além do mais, dia após dia devemos esquecer o que fizemos; este é o verdadeiro não-apego. E devemos fazer algo novo. Para fazermos algo novo, é óbvio que precisamos conhecer nosso passado, e isso está certo. Mas não devemos agarrar-nos àquilo que fizemos; devemos apenas levá-lo em consideração. É igualmente necessário ter alguma ideia do que devemos fazer no futuro. Mas futuro é futuro e passado é passado; aqui, agora, devemos trabalhar em algo novo. Essa é nossa atitude, e é assim que temos de viver neste mundo. Isto é "dana prajna paramita": dar alguma coisa ou criar alguma coisa por nós próprios. Portanto, fazer alguma coisa é assumir nossa verdadeira atividade
criadora. [...]


Shunryu Suzuki



* "Dana prajna paramita". Dana significa dar, prajna é sabedoria, e paramita quer dizer atravessar ou alcançar a outra margem. Nossa vida pode ser vista como a travessia de um rio. O objetivo do esforço da nossa vida é alcançar a outra margem, o nirvana. Prajna paramita, a verdadeira sabedoria da vida, é alcançar a outra margem a cada passo do caminho. Alcançar a outra margem com cada um dos passos da travessia é o caminho do verdadeiro viver. (Shunryu Suzuki)



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budista-ritual-%C3%A1gua-budismo-1807518/

INTELIGÊNCIA É AMOR


A maioria pensa que inteligência é o resultado da aquisição de conhecimento, informação, experiência. Por ter grande soma de conhecimento e experiência, acreditamos ser capazes de fazer face à vida com inteligência. Mas a vida é uma coisa extraordinária, nunca é estacionária; como o rio, está fluindo constantemente, nunca para. Achamos que por amontoar mais experiência, mais conhecimento, mais virtude, mais riqueza, mais possessões, seremos inteligentes. Por isso, respeitamos as pessoas que acumularam conhecimento, os eruditos, e bem assim as que são ricas e cheias de experiência. Mas será a inteligência o resultado de “mais” disso ou “mais” daquilo? O que é que está por trás deste processo de adquirir mais, de desejar mais? Ao desejar mais, estamos às voltas com acumulação, não estamos?

Ora, o que acontece quando se acumulou conhecimento, experiência? Qualquer outra experiência que vocês tenham é imediatamente traduzida em termos de “mais e mais”, e vocês nunca estão realmente experimentando, mas estão sempre amontoando; e esse amontoar é o processo da mente, que é o centro do “mais e mais”. O “mais e mais” é o “eu”, o ego, a entidade encerrada em si mesma que só está preocupada em acumular, seja negativa ou positivamente. Assim sendo, com sua experiência acumulada, a mente se defronta com a vida. Ao defrontar-se com a vida, com esse acúmulo de experiência, a mente ainda está buscando “mais e mais”, de modo que nunca experimenta, só acumula. Enquanto a mente for apenas um instrumento de acumulação, não haverá verdadeira experimentação. Como podem vocês franquear-se à experiência quando estão sempre pensando em obter algo dessa experiência, em adquirir alguma coisa mais?

Por isso, o homem que está acumulando, amealhando, o que está desejando mais, nunca está experimentando a vida em primeira mão. É só quando a mente não está preocupada com o “mais e mais”, com acumular, que há a possibilidade de ser inteligente. Quando a mente está preocupada com o “mais e mais”, toda experiência ulterior fortifica a muralha do “eu” encerrado em si mesmo, o processo egocêntrico que é o centro de todo conflito. Façam o favor de acompanhar isto. Vocês acham que a experiência liberta a mente, mas ela não o faz. Enquanto a sua mente estiver afeta à acumulação, ao “cada vez mais”, toda experiência que tiverem apenas os fortifica em seu egocentrismo, em seu egoísmo, em seu processo fechado de pensar.

A inteligência só é possível quando há liberdade real em relação ao ego, em relação ao “eu”, isto é, quando a mente já não seja o centro da busca de “mais e mais”; quando ela já não está subjugada pelo desejo de experiência maior, mais vasta, mais expansiva. Inteligência é a liberdade em relação à pressão do tempo, não é? Porque o “cada vez mais” implica tempo, e enquanto a mente for o centro da busca de “mais e mais”, ela será o resultado do tempo. Por isso o cultivo do “cada vez mais” não é a inteligência. A compreensão de todo esse processo é o autoconhecimento. Quando alguém se conhece tal como é, sem um centro acumulador, desse autoconhecer provém a inteligência capaz de fazer face à vida; e essa inteligência é criativa.

Examinem suas próprias vidas. Considerem como são tediosas, estúpidas, estreitas, porque vocês não são criativos... Suas vidas estão cercadas de medo, e por isso há autoridade e imitação. Vocês não sabem o que é ser criativo. Por criatividade não entendo o pintar quadros, escrever poemas ou saber cantar. Refiro-me à natureza mais profunda da criatividade que, uma vez descoberta, é uma fonte eterna, uma corrente imorredoura; e ela só pode ser encontrada mediante a inteligência. Essa fonte é o intemporal; mas a mente não pode encontrar o intemporal enquanto for o centro do “eu”, do ego, da entidade que está eternamente pedindo “mais”.

Quando vocês compreenderem tudo isto, não só verbalmente, mas em profundidade, descobrirão que com a inteligência desperta ocorre uma criatividade que é realidade, que é Deus, coisa sobre a qual não se pode especular nem meditar. Vocês nunca chegarão a isso mediante... suas preces por “mais e mais” ou por escapar do “mais e mais”. Essa realidade só pode ocorrer quando vocês entenderem o estado de sua própria mente, a malícia, a inveja, as reações complexas, à medida que surgem, de momento a momento, cotidianamente. Ao entender essas coisas experimenta-se um estado que se pode chamar de amor. Esse amor é inteligência, e produz uma criatividade que é intemporal.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP (texto adaptado)
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 15 de julho de 2020

SOBRE A COMPUNÇÃO *


É uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos.

Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida.


Thomas Merton, OSB


* Contrição; sentimento de remorso, de culpa, de arrependimento; tristeza profunda por ter proferido ofensas; excesso de pesar, de sofrimento por ter praticado uma má ação.


Fonte: A vida silenciosa, Ed. Vozes, 2002, p.108
Via Associação Thomas Merton - https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/homem-pensamento-pensamentos-2546791/



terça-feira, 14 de julho de 2020

INTELECTIVO - INTUITIVO


Se alguém me pergunta, o que é Deus? disse Santo Agostinho, confesso que não sei; mas, se ninguém me pergunta, eu sei.

Com esta frase enuncia o grande gênio africano um fato que todo homem espiritual conhece de sobejo e que, não raro, o faz sofrer acerbamente. O nosso verdadeiro saber não é intelectivo, mas intuitivo, e por isto não é definível, como as coisas do intelecto. O que é definível é incerto, mas o que é certo é indefinível – não há dúvida de que o homem meramente intelectual e não espiritual tachará de absurda esta afirmação, que, no entanto, é uma grande verdade. Posso ter duma realidade espiritual uma experiência interna meridianamente clara e soberanamente certa, e ao mesmo tempo ser totalmente incapaz de a explicar ou definir analiticamente a outros, nem mesmo ao meu próprio Eu intelectual. Paulo de Tarso tentou, durante três decênios, analisar a grande experiência espiritual que tivera, quiçá na fração de um segundo, às portas de Damasco, disse que fora arrebatado ao “terceiro céu”, onde ouvira "árreta rémata" (ditos indizíveis) – mas acaba por confessar, como mais tarde seu grande discípulo Santo Agostinho, que saber da realidade do mundo espiritual é uma coisa, mas defini-la é impossível. Analisar quer dizer “dissolver” – mas como se poderia dissolver o que é indissolúvel, por ser um Todo simples, e não composto? Definir quer dizer pôr "fines", fins, circunscrever de certos limites – mas como se poderia limitar o que é por natureza ilimitado? Definir o infinito é fazê-lo finito, isto é, negá-lo, destruí-lo.

Inteligir (*) é um ato do meu pequeno Eu humano que tenta abranger na sua estreiteza individual a largueza do grande Tu universal.

Intuir não é um ato do Eu individual, mas sim um ato do Tu universal, de Deus, ato esse do qual o meu Eu é o objeto passivo, e não o sujeito ativo, como no caso do inteligir.

No inteligir, o menos pretende abranger o mais, o individual tenta capturar em si o universal – tenta esse absurdo e matematicamente impossível. No intuir acontece o contrário, e por isto é possível e razoável. Em última análise, toda a experiência mística é a mais alta racionalidade, a mais perfeita lógica.


Prof. Huberto Rohden



(*) Temos as palavras “inteligência, intelecto, inteligente”, mas abandonamos o verbo básico “inteligir” (do latim intelligere, ou melhor intellegere, derivado de inter-legere, ler por entre, ou talvez intus-legere, ler por dentro). Julgamos necessário restituir ao vernáculo o verbo inteligir, como também intuir, do latim intueri, ver por dentro, ou propriamente “ser protegido de dentro”, palavra essa que compreende uma verdadeira síntese de experiência mística.



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Tumblr.com

PROGRESSO NESTE E EM OUTROS MUNDOS - REENCARNAÇÃO


O dístico "Nascer, morrer, renascer ainda, progredir continuamente, tal é a lei" (Kardec) proclama um princípio e uma lei natural correlacionada. O principio é o da reencarnação, meio pelo qual nos é dado cumprir como contingência natural a lei do progresso. A reencarnação traz a ideia da preexistência e da sobrevivência da alma e só assim se pode entender a razão de ser da vida na Terra, sua transitoriedade e o sofrimento, porém reconhecendo a perfeição por destino.

Mas é ainda preciso ligar todo esse raciocínio a uma outra afirmativa de Jesus: "Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse eu vo-lo teria dito...". Com as moradas outras entende-se outras humanidades e de certa forma acesso a essas outras moradas. Não estamos sós no universo.

Tem-se com isto uma compreensão bem maior da Majestade do Criador Supremo, dando-se sentido à existência, descortinando-lhe a Justiça, onde se configura a condição do mérito contrariamente à do privilégio. Por certo estaríamos indagando da parcialidade de uma justiça bem menor se justiça fosse, em que, numa única existência, selada para sempre a sorte de cada um, as almas viventes teriam diversificadas oportunidades de sofrimento ou gozo, sem poder reconstruir o próprio destino. Tão diferente da realidade explicitada pela doutrina espírita.

Progredir é preciso, é lei. Aleatoriamente pode-se ter ideias diferentes quanto ao progresso. Comporta uma visão imediatista e outra de mais amplos horizontes. Na concepção do homem comum pode ser a conquista de valores transitórios constantes dos bens terrenos, por vezes riquezas, vassalagem, conforto. E nem é condenável que melhoremos de vida e que aspiremos a tanto. Para muitos, aquisição de conhecimentos técnico-profissionais, títulos que destaquem, postos de relevo na sociedade e na política. Serão criaturas úteis quando no bom desempenho desses postos. Mas é necessário considerar também o progresso como conquista inalienável do Espírito não só quando lhe abre as portas da inteligência e da cultura mas também quanto as dos sentimentos enobrecidos. Diremos então de um progresso material, de um progresso intelectual e de um progresso moral, que não marcham nem sempre no mesmo ritmo, é bom lembrar. Pode-se ainda falar do progresso coletivo da Humanidade como um todo, das civilizações, ou isoladamente de um povo, de uma nação, de um grupo, de uma instituição, de uma causa. Há espíritos que se afeiçoam a determinadas tarefas, que se reúnem para cumpri-las, que se especializam no campo da ciência, da técnica, ou em missões de condutores de povos. São grandes almas, muitas vezes, que sacodem a inércia em que se demora a humanidade. Sem o conceito da reencarnação seriam prodígios inexplicáveis os grandes sábios, os grandes inventores, os grandes santos. São naturalmente ajudados por Espíritos Superiores empenhados por sua vez em ajudar o progresso. Executam missões ou concluem tarefas a que se afeiçoaram e em que se aperfeiçoaram. Sem esquecer aquelas almas que passam pela Terra dando o exemplo vivo da humildade, sem destaques, desconhecidas do mundo, mas por si mesmas engrandecidas.

Mas, como vimos, a reencarnação não pressupõe apenas a ideia estritamente terrena de espíritos que convivem conosco neste ou conviveram naquele tempo. Dilata-se-nos o conceito se admitirmos - e por que não? - que outras humanidades se permitem intercâmbio conosco trazendo-nos o fruto de seus avanços e trocando experiências por solidariedade ou por compromissos assumidos para o seu próprio melhoramento. Um gênio extraordinário que se antecipa de milênios à nossa ciência, como é o caso de Leonardo da Vinci, para citar apenas um, não adquiriu na Terra o conhecimento que ela não lhe poderia ter dado por não comportar. Espíritos como esse não só preexistiram com certeza mas trouxeram de outras paragens o aprendizado adquirido quem sabe em escolas superiores do espaço ou em mundos superiores.

Admitir, no entanto, que um cérebro físico, por milagres de disposição neuronial, houvesse produzido o gênio extraordinário que avança além dos estágios da ciência ou da concepção da arte, seria nada esclarecedor e nada convincente. Sem o espírito preexistente, com experiências adquiridas alhures, não se explicariam tantas conquistas que constituem eloquentes registros da História. Aqui a ideia dessa fraternidade e desse intercâmbio interplanetário é um novo aspecto engrandecedor da mensagem espírita. Nessa ordem de considerações as conquistas tecnológicas podem representar experiências trazidas a nós vindas de outras plagas, não tenhamos maiores dúvidas.

As humanidades progridem. Progridem os mundos habitados.


Alberto Souza Rocha



Fonte: do livro "Reencarnação em Foco", Casa Editora O Clarim, Matão, SP
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

O DESTINO ESSENCIAL DO SER HUMANO


Enquanto você pensar que pode apenas meditar o suficiente para se dar bem ou o suficiente para conquistar algo, na verdade você não começou a meditar. Quando você se der conta que deu início a uma jornada que irá durar até o fim de sua vida, você terá começado a aprender. A esse momento, de reconhecimento e concordância, chamamos compromisso. Ele é corretamente descrito como um momento de graça e compreensão, porque nele experimentamos nossa mais profunda significação e compreendemos a importância da prece para que estejamos completamente vivos. Meditamos não tanto para entendermos porque estamos vivos quanto para vivermos diferentemente, para vivermos mais completamente. [...]

A própria meditação é uma experiência de aprendizado, literalmente “uma disciplina”. Só a disciplina nos ensinará a verdade e só a prática nos levará a despertar. A disciplina da meditação é uma escola. É uma escola de amor e nosso crescimento nessa escola é crescimento no discipulado do amor. Nos ensina o que precisamos saber, a enxergar com o coração, a viver a partir do centro, a abraçar com todas as fibras de nosso ser. Nos ensina o que precisamos saber para cumprirmos o destino essencial que cada ser humano possui: ser seu eu pela eternidade. O destino humano é o do viver eterno... A maioria de nós começa a meditar num ponto em que parcialmente concordamos com a ideia de vivermos uma vida finita. Todavia, também começamos a compreender que isso foi um erro.

É fácil concordarmos com a ideia de vida finita, porque é uma vida vivida no interior de paredes protetoras. Nos parece estar segura e a salvo... Mas a opção mais desafiadora de todas é a de vivermos eternamente, a de respondermos a mais elevada verdade sobre a existência, a identidade e a morte. A compreensão de que somos feitos para a eternidade extrapola o poder da imaginação, significando não apenas a vida do mundo futuro, mas vida vivida completamente agora. E o estarmos completamente vivos demanda, a todo momento, tudo o que somos. Não admira que depreciemos a maravilha disso e construamos aquelas paredes protetoras... Todavia, a vida é mais forte do que nossos medos... Viver eternamente significa viver integralmente no presente momento. A eternidade é o perpétuo agora, e ao aprendermos a viver eternamente no presente aprendemos a verdade sobre o amor.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "O agora do amar" - Leitura de 15/06/2008
The Selfless Self (London: Darton, Longman and Todd, 1996) pp. 36-37.
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A CURA DA SOMBRA


A cura da sombra é, por um lado, uma questão moral — ou seja, o reconhecimento daquilo que reprimimos, o modo como efetuamos essas repressões, a maneira como racionalizamos e enganamos a nós mesmos, a espécie de objetivos que temos e as coisas que ferimos (ou até mesmo mutilamos) em nome desses objetivos. Por outro lado, a cura da sombra é uma questão de amor. Até onde poderia o nosso amor estender-se às partes quebradas e arruinadas de nós mesmos, às nossas partes repulsivas e perversas? Quanta caridade e compaixão sentimos pelas nossas próprias fraquezas e doenças? Como poderíamos construir uma sociedade interior baseada no princípio do amor, reservando um lugar para todos? E uso a expressão "cura da sombra" para enfatizar a importância do amor. Se nos aproximamos de nós mesmos para nos curar e colocamos o "eu" no centro, isso com muita frequência degenera no objetivo de curar o ego — ficar mais forte, tornar-se melhor e crescer de acordo com os objetivos do ego, que em geral são cópias mecânicas dos objetivos da sociedade. Mas quando nos aproximamos de nós mesmos para curar essas firmes e intratáveis fraquezas congênitas de obstinação, cegueira, mesquinhez, crueldade, impostura e ostentação, defrontamo-nos com a necessidade de todo um novo modo de ser; nele, o ego precisa servir, ouvir e cooperar com um exército de desagradáveis figuras da sombra e descobrir a capacidade de amar até mesmo o mais insignificante desses traços.

Amar a si mesmo não é fácil, pois significa amar todas as partes de si mesmo — incluindo a sombra, na qual somos tão inferiores e tão inaceitáveis socialmente. Os cuidados que dedicamos a essa parte humilhante são também a cura. E mais: como a cura depende dos cuidados, às vezes "cuidar" quer dizer apenas "trazer consigo". O primeiro passo essencial para a redenção da sombra é a capacidade de trazê-la conosco (como fizeram os protestantes puritanos, ou os judeus no eterno exílio, dia a dia conscientes de seus pecados, de atalaia contra o Diabo, em guarda para não dar um passo em falso; uma longa jornada existencial com um fardo de pedras às costas, sem ninguém sobre quem descarregá-las e sem destino certo ao final). Mas esse trazer consigo e cuidar não podem ter um desenvolvimento programático que faça aquela qualidade inferior se sujeitar aos objetivos do ego, pois isso não seria amor.

Amar a sombra pode começar com o trazê-la consigo, mas isso ainda não é suficiente. A qualquer momento pode irromper alguma outra coisa qualquer, como aquela introspecção que escarnece do paradoxo da nossa própria loucura — a loucura comum a todos os homens. E então talvez nos chegue a alegre aceitação do rejeitado e do inferior, um acompanhá-lo e até mesmo vivê-lo parcial. Esse amor talvez leve até mesmo a uma identificação com a sombra, a uma passagem ao ato da sombra, caindo no seu fascínio. Portanto, a dimensão moral nunca deve ser abandonada. E assim a cura é um paradoxo que exige dois fatores incomensuráveis: primeiro, o reconhecimento moral de que essas partes de mim são opressivas e intoleráveis, e precisam mudar; e, segundo, a risonha aceitação amorosa que as aceita exatamente como elas são, com alegria e para sempre. Lutamos arduamente e desistimos, julgamos com severidade e aceitamos com alegria. O moralismo ocidental e o abandono oriental, cada um contém apenas um lado da verdade.

Acredito que essa atitude paradoxal da consciência em relação à sombra encontra um exemplo arquetípico no misticismo religioso judaico, onde Deus tem duas faces: a face da retidão moral e da justiça, e a face da misericórdia, do perdão e do amor. Os ensinamentos chassídicos contêm esse paradoxo, suas parábolas mostram uma profunda piedade moral combinada com uma espantosa alegria de viver.

A descrição que Freud fez do mundo escuro que encontrou não faz justiça à psique, era uma descrição demasiado racional. Freud não captou suficientemente a paradoxal linguagem simbólica através da qual a psique se manifesta. Ele não chegou a perceber plenamente que cada imagem, cada experiência, tem um aspecto prospectivo bem com um aspecto redutivo, um lado positivo bem como um lado negativo. Ele não viu com suficiente clareza o paradoxo de que o lixo apodrecido também é o fertilizante, que ingenuidade também é inocência, que perversidade polimorfa também é alegria e liberdade física, que o homem mais feio é também o redentor disfarçado.

Em outras palavras, as descrições da sombra feitas por Freud e Jung não são duas posições distintas e conflitantes. Pelo contrário, a posição de Jung deve ser superposta à de Freud, ampliando-a e acrescentando-lhe uma dimensão, e essa dimensão considera os mesmos fatos e as mesmas descobertas, mas mostra que se trata de símbolos paradoxais.


JAMES HILLMAN *


* James Hillman foi um psicólogo e conferencista americano de fama internacional. Ele estudou e posteriormente conduziu estudos no C. G. Jung Institute, em Zurique. Foi fundador de um movimento conhecido como 'psicologia arquetípica' pós-junguiana. (Wikpédia)



Fonte: do livro "AO ENCONTRO DA SOMBRA - O potencial oculto do lado escuro da natureza humana", Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.), Tradução MERLE SCOSS
Ed. CULTRIX, São Paulo
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/verde-rosto-luz-retrato-mulher-5124174/

ATENÇÃO, CONCENTRAÇÃO E COMPREENSÃO (SMRTI - SAMADHI - PRAJÑA)


[...] Quando você estiver praticando a atenção plena do seu corpo, "inspirando, eu sei que meu corpo existe. Expirando, eu sei que meu corpo existe", o seu corpo se torna o único objeto da sua consciência. Quando a atenção plena é forte e está focada desse jeito, nasce a concentração. O objeto de sua concentração também é o seu corpo. Quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes, você consegue avançar em direção à realidade, ter um lampejo, uma realização e descobrir coisas. Atenção plena, ou SMRTI em sânscrito, é a primeira energia. A atenção faz surgir a concentração, SAMADHI, a segunda energia, e, juntas, atenção plena e concentração trazem a compreensão direta, PRAJÑA.

Meditar significa gerar esses três tipos de energia. Você não tem que pedir que elas venham até você a partir de fora. Todo mundo tem as sementes da atenção plena, concentração e compreensão dentro de si. Com as práticas de respirar, andar e sentar atentamente, nós ajudamos estas sementes a se manifestarem enquanto energias. Estes são os três tipos de energia que fazem com que um ser seja iluminado. Estas energias fazem com que você acorde, unifique totalmente o seu corpo e mente, e elas lhe põem em contato com todas as maravilhas da vida. Você para de correr e de tentar buscar a felicidade noutro lugar. Você vê que a felicidade é possível no aqui e agora.

A alegria e felicidade são possíveis imediatamente quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes. Você redescobre que o seu corpo existe; que todas as maravilhas da vida existem; que tantas condições de felicidade já estão disponíveis. Isso já é compreensão direta. Esta compreensão pode lhe ajudar a se libertar das preocupações, do seu medo, anseio e busca. Esse tipo de compreensão lhe ajuda a reconhecer, que existem condições mais do que suficientes para você ser feliz aqui e agora mesmo. A compreensão traz liberdade, alegria e felicidade.

Quando você está totalmente consciente do que é real, e consegue manter viva essa consciência e concentração, surge a compreensão. Quando você está consciente da presença de uma flor, e sustenta essa consciência, isso é concentração. A concentração nasce da atenção plena; a energia da atenção é portadora da concentração. Se você pratica profundamente a atenção, a concentração existe, e com esta concentração você é capaz de olhar profundamente para o que está acontecendo e você vai penetrar a realidade. [...]


Thich Nhat Hanh


Fonte: do livro "Paz Mental - Tornar-se Completamente Presente"
Tradução de Maria Goretti Rocha de Oliveira
Ed. Vozes, Petrópolis/RJ, 2017
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budismo-%C3%A1sia-meninos-camboja-1822518/

domingo, 12 de julho de 2020

O CAMINHO DA VIDA É O CORAÇÃO


A história do ser humano é a busca e, simultaneamente, a realização de um significado existencial. Nas construções monumentais e nas sagas dos povos pode-se encontrar sua tentativa de entender a realidade e a si mesmo. Guerras de conquistas, bem como dramas pessoais, tudo circula em torno da ânsia em compreender o significado essencial da vida. O ser humano navega no mar da procura de seu próprio sentido.

O caminho da vida é o coração. Ele é como um grande porto num imenso oceano navegável. Por ele passam todas as lutas e experiências da alma. Navegantes de todos os mares sabem de sua grandiosidade e do quanto se valem de suas poderosas amarras para se sentirem pertencentes, isto é, vinculados a algo transcendente. O caminho da vida é o amor que acontece no coração, lugar íntimo dos encontros profundos. É nele onde se encontram os gritos e os sussurros dos que se escondem do tempo de viver. É em seu seio nutridor que as dores e as alegrias encontram formas de expressão. Os heróis se valem dele para adquirir coragem para as maiores batalhas. Suas forças são alimentadas pela energia que perpassa em suas vias amorosas. O sentido e o significado da vida são decifrados por aqueles que têm coragem de viver seus mais profundos sentimentos, a serviço da vida. Não há como fugir ou alienar-se do próprio coração. Deus fez a razão para que o ser humano entenda o que se passa em seu coração. É também nele que o Espírito se revela a si mesmo e ao mundo.

Nossos anjos e demônios ali fazem morada e buscam incansavelmente abrir-se à vida para que se integrem à sua própria totalidade, como uma só alma. Mágoas e perdões se aproximam para o casamento perfeito em favor do amor pleno. É na sua intimidade que o eu mais profundo faz sua permanência e sua impermanência. Nele se constroem as histórias e se forjam os alicerces da esperança. Fugir ao contato com o mistério que habita em seu interior é ausentar-se do encontro com a felicidade. Tudo que nele ocorre é particular e inacessível a alguém que não seja o seu próprio dono. O que dele nasce vem do íntimo do Espírito em sua permanente ligação com Deus. [...]

O movimento da vida é de dentro para fora, conduzido pelas forças do coração. A energia amorosa é que faculta o movimento de realização do mundo interno de cada ser humano. O filósofo F. Nietzsche sintetizava esse pensamento na expressão: “Torna-te no que és”. [...]


Adenáuer Novaes



Fonte: do livro Mito Pessoal e Destino Humano
Fundação Lar Harmonia, Salvador, Ba, 2005
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A CONSCIÊNCIA DE QUE EXISTIMOS


Tanto de nossa vida parece desvanecer da memória. Problemas que nos atormentam, ou prazeres que nos emocionam, planos que nos absorvem completamente, pesares inconsoláveis que pareciam fazer com que nossa vida tivesse chegado ao fim, todos são temperados pelo tempo. Existem outras experiências, frequentemente não tão emotivamente irresistíveis quando de sua ocorrência, que não se desvanecem. Recordamos essas epifanias de consciência pura de maneira mais profunda, porque se tornam parte de nós. Na maneira frequentemente modesta e quieta em que aconteceram, elas eliminaram algumas das camadas obscuras usuais e nos revelaram como realmente somos, quem somos realmente. Nesse despertar não houve nenhum trovão, nem manchetes místicas. Porém, foram novidades que não se dissiparam com a chegada dos jornais matutinos...

Recordo-me, por exemplo, que quando garoto, ao voltar da escola, frequentemente parava em frente à vitrine de uma loja em que havia selos filatélicos estrangeiros, que para mim à época eram irresistivelmente belos. Um dia, um amigo de família, mais velho, passando por ali, interrompeu meu olhar contemplativo extático para me cumprimentar. No dia seguinte, enquanto parado em frente à mesma vitrine, na minha volta para casa, a mesma pessoa passava e, brincando, perguntou-me se eu estivera ali parado desde o dia anterior. Algo indescritível mas fortemente familiar se acendeu dentro de mim, algo que está comigo até hoje: uma consciência do si-mesmo, ser tomado de surpresa mas sem medo, o conhecimento de que existimos no universo de outros assim como no nosso próprio. Qualquer que seja a maneira como venhamos a descrever esses momentos, e eles são muito comuns, pois pontuam o desenvolvimento de nossa consciência, eles são a prova que necessitamos, de que somos reais, que existimos. E, ao tempo em que essa prova tenha se aprofundado suficientemente em nós, começamos a encontrar o sentido da existência, como um desenvolvimento na santidade. [...]

São Bento dá um aviso a seus monges, no capítulo sobre “os instrumentos das boas obras”: não desejar ser chamado santo antes de realmente o ser. A ironia, é claro, é que ao tempo em que o indivíduo se torna realmente santo, ele não mais irá querer ser chamado santo. Ou qualquer coisa que o valha. Enquanto estivermos preocupados com a “honra” que as pessoas deveriam nos devotar, ou com que pensem e falem bem de nós, teremos um atestado de que ainda nos encontramos a uma boa distância...

Crescemos em santidade preocupando-nos com “a honra procedente daquele que exclusivamente é Deus”. Preocupar-se é amar, é se devotar. A honra que vem de Deus é a dignidade de nossa verdadeira natureza, nossa bondade essencial e inalienável, que nos torna a todos, afinal, merecedores do perdão...


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos amigos" - Leitura de 23/11/2008
WCCM International Newsletter, outubro de 2007, pp. 2-7
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - http://www.wccm.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sábado, 11 de julho de 2020

O TAO FLUI LIVREMENTE


[...] este é o segredo. Através da aceitação de todas as coisas que a vida oferece, a pessoa do Tao nunca entra em conflito com a realidade. Ela observa os processos sem querer mexer neles ou modificá-los com os pensamentos. A mudança – e é importante saber isto – influi por si mesma em toda a enorme inteligência do Tao. Não temos de gostar de tudo que ocorre em nossa vida, o que enxergamos objetiva e honestamente. Podemos deixá-lo também completamente sem comentários. Nossa inteligência, existente em nossa compreensão, reconhece as coisas desagradáveis, os problemas, os conflitos, antes mesmo que eles cheguem à consciência. Por isto não tem sentido ter ideias, com nossa capacidade limitada, de como deve ser a vida, e depois nos prendermos a elas. As forças do Tao querem fluir livremente e sem obstáculos. Com qualquer medida de iniciativa própria só estaríamos contrariando o efeito. [...]


Theo Fisher



Fonte: do livro "WuWei - A Arte de Viver o Tao"
Editora Árvore da Terra, 1999
Tradução: Ulrike Pfeiffer
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/roda-falou-raios-irradiar-t%C3%BAnel-1364437/

DIÁLOGO COM AS LEIS DA VIDA


É certo que a vida pensa. Vemos seus efeitos, que nos revelam uma extraordinária sabedoria. Mas a vida não formula seu pensamento com palavras, como o fazemos nós. Ela age, não fala. Sua linguagem é concreta, manifesta-se materializada nos fatos. Para entender aquela linguagem, é necessário observar esses fatos.

Observando o mundo que nos circunda, é fácil constatar que não há fenômeno cujo desenvolvimento não seja dirigido por uma lei própria, como um trilho já feito sobre o qual ele caminha. Este caminho não se traça ao acaso, mas é orientado com direção a uma dada finalidade, segue uma técnica de desenvolvimento que constitui a lei do fenômeno. Tudo isto é mais evidente no plano físico e dinâmico, domínio da ciência. Assim, os fenômenos movem-se em um regime de planificação preestabelecida, que os enquadra dentro de uma ordem, necessária para que tudo não se desmorone no caos.

A lógica dessa estrutura orgânica faz-nos supor que, para o mesmo regime de ordem, estejam sujeitos também os fenômenos que se processam no plano mental e moral. Tanto mais que eles são de natureza biologicamente mais evoluída do que a dos fenômenos da matéria e da energia, e são mais importantes do que estes, por dizerem respeito à diretriz de nossa conduta e, portanto, à nossa evolução. E, neste caso, trata-se do elemento humano, que é o mais avançado, na escala evolutiva. Tendo em vista tudo aquilo que a ciência nos mostra acontecer nos campos de seu domínio, seria absurdo que a mesma coisa não acontecesse também na zona do ápice da vida, posta frente à evolução, no ponto de sua mais intensa atividade de conquista. A razão nos diz que, além do universo da matéria e da energia, deve haver também um universo do espírito constituído dos valores imponderáveis morais e ideais, isto é, uma outra ordem de fenômenos regulados, como acontece com os outros, por leis que lhes disciplinam o funcionamento.

Conhecer estas leis, para depois adequar-se a elas, significa possuir a arte da conduta certa, podendo gozar de todas as vantagens que dela derivam e evitar todos os danos que são consequência fatal de todo erro contra aquelas leis. Esse é um discurso utilitário, coerente com a realidade da vida, que também é utilitária. Nós o estamos fazendo em um momento no qual o homem passa da fase infantil a de adulto. Ele é então capaz de compreendê-lo. É evidente que, presentemente, se vive em um ritmo de transformismo evolutivo acelerado em todos os campos. A vida sabe o que faz. Quem observa seu funcionamento, desde suas primeiras tentativas elementares e formas menos evoluídas até suas construções mais complexas e evoluídas, não pode deixar de encontrar nela uma inteligência superior.

Ainda que contenha males e imperfeições, a vida sempre vence e avança. Se ela, além de suas formas, é constituída, também, de uma inteligente diretriz de funcionamento, é inegável, então, que deve ser possível comunicar-se com essa inteligência para compreender qual é o seu pensamento e a sua vontade. Ora, comunicar-se significa estabelecer um diálogo no qual se propõe questões e se obtêm respostas. Chegados a este ponto, trata-se de resolver o problema de como conseguir estabelecer esse diálogo. Trata-se de descobrir neles (fatos) aquele pensamento subterrâneo que se esconde sepulto no íntimo da realidade.

Como aprendê-lo, então? É preciso aprender a comportar-se, a escolher a solução justa para nossos problemas. Em suma, trata-se de conquistar uma nova consciência da vida e um senso de responsabilidade, fruto de um conhecimento anteriormente não possuído. Trata-se de passar do estado de incerteza do primitivo imprevidente, a um novo modo de viver, regido por uma planificação inteligente, para possuir em vez de uma vida incerta e perigosa, uma vida garantida e protegida.

Mas aquilo que é mais urgente para atingir tal planificação e gozar as suas vantagens, é o conhecer e, portanto, o seguir as leis da vida. Sem isto bate-se a cabeça, a cada passo, contra aquelas leis que reagem a cada violação, comportando-se para conosco como nós nos comportamos para com elas. É portanto de supremo interesse conhecê-las, seja para evitar danos, como para ganhar vantagens.


Prof. Pietro Ubaldi



Do livro ” Pensamentos” – parte 2 – cap. 1
Via Instituto Pietro Ubaldi
http://pietroubaldi.org.br/site/2020/03/23/dialogo-com-as-leis-da-vida/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A ETERNIDADE DA COMPLETUDE DO SER


Se quisermos abraçar a eternidade da completude do ser (o “EU SOU” de Deus), temos que, primeiro, encarar a realidade dura e crua da impermanência e do vazio. Temos sempre a tentação de lhe reduzir a intensidade, de descê-la a um grau inferior de consciência e, até, de adormecer. O Buda chamou-nos a atenção para este enevoar da mente, neste ou até mesmo em qualquer outro momento da nossa viagem, com intoxicantes e sedativos, estimulantes ou tranquilizantes. Jesus instou todos a manterem-se totalmente conscientes:

“Ficai alerta, ficai despertos. Não sabeis quando o momento chegará… Vigiai pois não sabeis quando virá o dono da casa. À noitinha ou à meia-noite, ao cantar do galo ou ao início da madrugada; se ele vier subitamente, que não vos encontre a dormir. E o que vos digo a vós digo a todos: vigiai.” (Mt. 13: 33-37).

Na Epístola aos Efésios, S. Paulo diz que este estado de vigília conduz aos “poderes espirituais da sabedoria e da visão” e em direção à gnose, ao conhecimento espiritual. Mas, mesmo com a mais forte das fés, o sentimento de separação, pleno de tristeza, não é imediatamente dissipado, mesmo quando a sabedoria começa a refulgir. O muro do ego pode parecer um obstáculo insuperável, um beco sem saída que não nos deixa qualquer escapatória. Mas, tal como nos recorda a Ressurreição, o que parece ser o fim, não o é, na realidade. Encarando o nosso egoísmo entrincheirado e reconhecendo a sua morte lenta, a meditação ajuda-nos a verificar a nossa ressurreição na nossa própria experiência.

A lei da natureza inferior, do “karma”, e a dominação pelo ego limitador reinam, reinam, até que aparece um buraco no muro. Primeiro, é um só tijolo que é removido, como se fosse por uma mão invisível, e vislumbramos uma perspectiva para além de tudo o que alguma vez pensamos ou fomos capazes de conhecer. É uma experiência e, no entanto, é conhecida de uma forma diferente de qualquer outra coisa que tenhamos experienciado anteriormente. Já não somos aquela mera pessoa individual que pensávamos ser. A vida mudou de forma irreversível. Vivemos e, no entanto, tal como S. Paulo, já não vivemos. 

Eu sou porque não sou.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: Leitura Semanal – 25.01.2015
“O Labirinto” (excerto), in “Jesus, o Mestre Interior”
Comunidade Mundial para a Meditação Cristã (Portugal)
https://www.meditacaocrista.com/leituras-semanais/archives/01-2015
Fonte da Gravura: Tumblr.com

REENCARNAÇÃO - ESQUECIMENTO E LEMBRANÇAS DE VIDAS ANTERIORES


As provas ou evidências - diretas ou indiretas - da Reencarnação não se limitam irredutivelmente às lembranças, às reminiscências, como fatos 'sine qua non'. Estas são um contributo dos mais importantes, não há como negar. [...]

Guardamos, intimamente pelo menos, a noção de quem somos e com isso fazemos um auto-reconhecimento de nossas fraquezas, de nossos arrastamentos, e perante nós mesmos nos questionamos. Pois, somos hoje, basicamente, o fruto do nosso ontem.

É preciso acrescentar que a alma não está totalmente enclausurada na matéria a ponto de não gozar de momentos transitórios de emancipação em que possa recordar compromissos assumidos.

Quando menos seja, chegará o momento de, uma vez desencarnados, verificarmos o saldo positivo ou negativo de nossas passagens pela Terra. As lembranças não ficam perdidas, antes arquivadas: o esquecimento, de toda a forma, não quer dizer destruição, como assevera Gabriel Delanne. E afinal de contas, a vida não se compõe apenas de sofrimentos e de erros. Também de acertos. Queremos dizer que a alma conhece, oculta no subconsciente, eventos relacionados às suas encarnações, influenciando decisões conscientes qual como costuma ocorrer nas sugestões post-hipnóticas. É mais ou menos isso o que nos diz Ernesto Bozzano. Faz-se cumprir, assim, uma espécie de precognição subconsciente. Seria então um determinismo de consequências, em função do livre-arbítrio; a cada causa correspondendo um efeito correlato. A causa está no arbítrio. Mas, se a criatura soubesse de tudo com maior clareza, se pudesse recordar fielmente o passado, é o que pensa Red Cloud, citado por Karl Muller, seria como o aluno que conhecesse as questões de um exame com antecedência...

Em "O Livro dos Espíritos " lemos, questão 393, que "a cada nova existência o homem pode distinguir de melhor forma o bem do mal. E quando entra na vida espiritual vê as faltas cometidas e o que poderia ter feito ao invés de cometê-las...". E Kardec acrescenta: "Se não temos durante a vida corpórea uma lembrança precisa daquilo que fomos, e do que fizemos de bem ou de mal, temos entretanto a sua intuição. Nossas tendências instintivas são uma reminiscência de nosso passado...". E diz, mais: "Se tivéssemos a lembrança de nossos atos pessoais anteriores, teríamos a dos atos alheios, e esse conhecimento poderia ter desagradáveis consequências sobre nossas relações sociais". Insiste o Codificador: "O esquecimento das faltas cometidas não constitui obstáculo à melhoria do Espírito, podendo guiar-se pela intuição no esforço de resistir ao mal, secundada pelos Espíritos que o assistem, se ele atende às boas inspirações." Quer dizer isso: Basta que estude a si mesmo, de boa vontade, e poderá saber não exatamente quem foi, como se chamou, mas o que foi, o que fez, não bem pelo posicionamento que hoje desfruta na sociedade, mas por suas tendências naturais e pelo esforço maior ou menor desenvolvido para melhorar-se. São evidências essas para o bom entendedor. [...]

Na obra "O Problema do Ser do Destino e da Dor", Leon Denis esclarece a razão fisiológica do esquecimento: "O movimento vibratório perispirítico amortecido pela matéria no decurso da vida atual é excessivamente fraco para que o grau de intensidade e a duração necessária à renovação dessas recordações possam ser obtidas durante a vigília". E explica mais: "O despertar da memória não é mais do que um efeito de vibração produzido pela ação da vontade nas células cerebrais. Para as anteriores ao nascimento é necessário procurá-las na consciência profunda, mas para reaver o fio das lembranças é preciso que a alma saia; é assim no sonambulismo e no transe". Está explicado aí porque a estrutura de apoio é o perispírito e porque essa rememoração é dita extracerebral. Gabriel Delanne diz que nem todos os pacientes estão aptos a fazer nascer na memória o seu passado. E a explicação é praticamente a mesma: "Isso se deve a causas múltiplas e a principal resulta, ao que parece, do que se poderia chamar a densidade espiritual, isto é, a imperfeição relativa desse campo fluídico, cujas vibrações pode não se ajustarem à intensidade necessária para ressuscitar o passado de maneira suficiente, mesmo com o estímulo artificial do magnetismo". Prossegue: "Acontece, por vezes, entretanto, que a alma, exteriorizada temporariamente, encontra, por momentos, condições favoráveis para que esse renascimento do passado possa produzir-se".

[...] A lei da Causalidade virá impor predisposições e condições. Ajustar-se-ão condições que não serão em absoluto fortuitas. Mas a redução do movimento vibratório do perispírito, enquanto se impregna de fluido vital indispensável à vida que ressurge no plano físico, vai restringir a memória psíquica, diluir a consciência, em cumprimento de leis amorosas, e porque nada haveria de perder-se, arquivar-se-á todo o acervo de lembranças na faixa que lhe é própria, a faixa perispiritual, expressa na linguagem oficial por subconsciente ou por inconsciente, o ld de Freud.

Não é, pois, de estranhar, dizemos agora, que inesperadamente um fato que nos chame a atenção, uma paisagem visualizada, uma melodia que nos enterneça, algo que funcione como despertamento, valendo por sugestão espontânea, desdobrando-se por associação de ideias, nos afaste da realidade vígil e nos leve a consciência a projetar-se a regiões profundas do ser, à subconsciência, onde vigem as lembranças. Isso é comum também nos sonhos lúcidos. Sempre que uma causa acarrete estado vibratório já produzido, criando uma espécie de ressonância, as lembranças com toda a probabilidade reaparecerão, ou tímida ou nitidamente. Ora, isso mesmo acontece, muitas vezes, com relação à vida atual. Questão de aprofundamento maior ou menor, resultando numa viagem ao passado atual ou ao passado remoto - sempre o mesmo mecanismo. Neste último caso, trazido do extracerebral para o registro memorial do cérebro físico, eis caracterizadas as reminiscências.

Notará o leitor que - não há como fugir - tratar do esquecimento nos forçará invariavelmente a tratar das lembranças.

Há um ditado popular que diz: "A gente nunca se esquece de quem se esquece da gente...". É o contraste, o paradoxo. Assim, para provar que por vezes - nem sempre - nos lembramos, torna-se necessário estudar conjuntamente por que razão, tão de hábito, nos esquecemos.


Alberto Souza Rocha



Fonte: do livro "Reencarnação em Foco", Casa Editora O Clarim, Matão, SP
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

quinta-feira, 9 de julho de 2020

OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA


De acordo com o Vedanta, existem sete estados de consciência, porém muitos deles não foram totalmente investigados pelos pesquisadores modernos da área médica. Na verdade, alguns desses estados não são nem mesmo reconhecidos pela ciência tradicional.

Na Índia, um dos maiores videntes do século XX, Sri Aurobindo, disse que por nos encontrarmos em um estágio muito primitivo da evolução humana, a maioria das pessoas só experimenta os três primeiros estados de consciência: o sono, o sonho e o estado desperto. Um dia reconheceremos e compreenderemos os estados mais expandidos de consciência, e quando o fizermos, conceitos como o sincronismo, a telepatia, a clarividência e o conhecimento das vidas passadas serão habitualmente aceitos.

Cada um dos sete estados de consciência representa um aumento na nossa experiência de sincronismo e cada estado progressivo nos leva para mais perto do ideal da iluminação. Todo mundo experimenta os três primeiros. Lamentavelmente, a maioria das pessoas nunca ultrapassa esses três estados básicos.

O primeiro nível de consciência é o sono profundo. Nele, ainda percebemos alguma coisa, ou seja, reagimos a estímulos como o som, a luz intensa e o toque, mas quase todos os nossos sentidos estão embotados e existe muito pouca cognição ou percepção.

O segundo estado de consciência é o sonho. Durante os sonhos, estamos um pouco mais despertos e alertas do que durante o sono profundo. Quando sonhamos, temos experiências. Vemos imagens, ouvimos sons. Até mesmo pensamos nos sonhos. Enquanto estamos sonhando, o mundo dos sonhos parece real, importante e relevante. Somente depois que acordamos é que reconhecemos o sonho como uma realidade que estava restrita àquele momento particular em que estávamos sonhando, realidade essa que talvez não seja diretamente relevante para a nossa vida quando estamos acordados.

O terceiro estado de consciência é o estado desperto. Esse é o estado no qual quase todos passamos a maior parte do tempo. Quando comparamos a atividade cerebral mensurável durante o estado de consciência desperto constatamos que ela é bem diferente da que tem lugar durante o sono profundo e o sonho.

O quarto estado de consciência ocorre quando efetivamente vislumbramos a alma, quando transcendemos, quando ficamos, mesmo que pela fração de um momento, absolutamente imóveis e quietos, e nos conscientizamos do observador que existe dentro de nós. Esse estado de consciência ocorre durante a meditação, quando experimentamos a interrupção, o momento tranquilo entre os pensamentos. As pessoas que praticam regularmente a meditação têm essa experiência sempre que meditam e, como resultado, o estado do eu delas se expande. O quarto estado de consciência também produz os seus próprios efeitos fisiológicos. Os níveis de cortisol e adrenalina aumentam. O estresse se reduz. A pressão sanguínea cai e a função imunológica apresenta uma melhora. Os pesquisadores do cérebro demonstraram que quando experimentamos o intervalo entre os pensamentos, a atividade cerebral é muito diferente da que tem lugar quando estamos meramente acordados e alertas. Isso significa que vislumbrar a alma produz mudanças fisiológicas tanto no cérebro quanto no corpo. Nesse quarto estado de consciência, assim como podemos vislumbrar a alma, também podemos entrever os primórdios do sincronismo.

O quinto estado de consciência é chamado de consciência cósmica. Nesse estado, o espírito pode observar o corpo material. A percepção vai além de simplesmente estar desperta no corpo, além de simplesmente vislumbrar a alma, para estar desperta e alerta com relação ao nosso lugar como parte do espírito infinito. Mesmo quando o corpo está dormindo, o espírito - o observador silencioso - está contemplando o corpo no seu sono profundo, quase como se estivéssemos tendo uma experiência fora do corpo. Quando isso acontece, há uma percepção alerta que tudo vê, não apenas quando estamos dormindo e sonhando, mas também quando estamos completamente despertos. O espírito está observando e nós somos o espírito. O observador pode observar o corpo enquanto este está sonhando e ao mesmo tempo espreitar o sonho. A mesma experiência ocorre na consciência desperta. O corpo pode estar jogando uma partida de tênis, falando ao telefone ou assistindo à televisão. O tempo todo o espírito está observando o corpo/mente nessas atividades.

O quinto estágio é chamado de consciência cósmica porque nossa percepção encerra simultaneamente duas qualidades: a local e a não-local. Nesse estado, quando sentimos uma conexão com a inteligência não-local, o sincronismo realmente começa a se manifestar. Compreendemos que uma parte de nós está localizada e outra parte, por ser não-local, está ligada a todas as coisas. Vivemos plenamente nossa inseparabilidade com relação a tudo o que existe. A intuição se desenvolve. O discernimento aumenta. As pesquisas demonstram que depois que as pessoas alcançam um estado de consciência cósmica e têm essa experiência de tudo testemunhar, suas ondas cerebrais passam a possuir a qualidade da meditação mesmo quando estão envolvidas em alguma atividade. Essas pessoas podem estar jogando futebol, mas as suas ondas cerebrais são idênticas às de uma pessoa que esteja meditando.

O sexto estado de consciência é chamado de consciência divina. Nesse estado, a testemunha se torna cada vez mais desperta. Na consciência divina, não apenas sentimos a presença do espírito em nós, como também começamos a sentir esse mesmo espírito em todos os outros seres. Vemos a presença do espírito nas plantas. Finalmente sentimos a presença do espírito nas pedras. Reconhecemos que a força revigorante da vida se expressa em todos os objetos do universo tanto no observador quanto no que é observado, no que vê e no cenário. Essa consciência divina nos permite enxergar a presença de Deus em todas as coisas. As pessoas em um estado de consciência divina são até mesmo capazes de se comunicar com os animais e as plantas. Esse não é um estado de consciência constante no caso da maioria dos seres humanos. Entramos e saímos dele. No entanto, todos os grandes profetas e videntes, inclusive Jesus Cristo, Buda, muitos iogues e um grande número de santos, viveram na consciência divina.

O sétimo e último estágio de consciência, a meta suprema, é chamado de consciência unitária. Ela também pode ser denominada iluminação. Na consciência unitária, o espírito naquele que percebe e o espírito no que é percebido se fundem e se tornam um só. Quando isso acontece, vemos o mundo inteiro como uma extensão do nosso ser. Não apenas nos identificamos com a nossa consciência pessoal, como também compreendemos que o mundo é uma projeção do nosso eu. O eu pessoal se transforma completamente no eu universal. Nesse estágio, os milagres são lugar-comum, mas não são nem mesmo necessários porque a esfera infinita de possibilidades está disponível a cada momento. Transcendemos a vida. Transcendemos a morte. Somos o espírito que sempre existiu e sempre existirá.


Dr. Deepak Chopra



Fonte: do livro "A Realização Espontânea do Desejo", Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
Tradução de Claudia Gerpe Duarte.
Fonte da Gravura: Tumblr.com