quinta-feira, 23 de julho de 2020

ENTRE O AMOR E O MEDO


A diferença entre nosso estado mental quando estamos amando, quando comparado com nossa atitude quando estamos em estado de medo ou isolamento é algo que todos conhecemos. O amor evoca um espírito de felicidade na vida; evoca sua diversidade, sua imprevisibilidade, seu colorido. Quanto mais generosamente permitirmos que esse espírito de amor se expanda em nosso interior, tanto mais nos tornamos centrados no outro; tanto mais encontramos nossa perfeição no outro, nossa realização no outro. É nessa experiência que abandonamos nossa auto-consciência e descobrimos nossa verdadeira consciência. Nós a descobrimos em contato com uma outra consciência verdadeira. É desse encontro que surge a energia criativa que nos permite trabalhar inegoisticamente, amorosamente.

À medida em que lemos o Evangelho vemos que há uma escolha diante de nós. A alternativa é entre o amor e o medo. O medo é destrutivo e corrosivo, seja ele medo de doença, guerra ou fome, seja medo do sobrenatural, de deuses raivosos e vingativos que precisam ser aplacados com rituais compulsivos. A diferença entre o mundo bárbaro e o civilizado é que a barbárie prospera no medo. A civilização prospera no amor que impulsiona o vigor, a energia, a vitalidade e a criatividade. A energia bárbara é negativa; seu principal impulso é destrutivo e sua principal arte é a guerra. A principal arte da vida cristã é a paz.

Nosso compromisso com a meditação é nossa abertura para a paz do amor redentor de Deus, nossa total aceitação dele, nossa renúncia à auto fixação e nosso compromisso com a auto-entrega. Enquanto estamos repetindo nosso mantra, não podemos ficar pensando em nós e é precisamente a auto-obsessão que nos reconduz à fantasia. Assim, quando percebemos que paramos de repetir o mantra, que nossa mente está divagando, devemos simplesmente retornar a ele e, com ele, para a realidade. Isto é, retornar para Deus presente em nossos corações. Em outras palavras, retornamos para uma fé que nos impulsiona para além de nós mesmos, para Deus. Todos nós sabemos que esta auto-transcendência é nossa salvação. Fundamentalmente, todos nós sabemos que precisamos encontrá-la no silêncio de nossos corações. As alternativas são, realidade ou ilusão.

A função fundamental da fantasia é a de tentar nos afastar dos medos e ansiedades que sentimos, criando uma realidade alternativa. Mas o que acontece é que o medo é apenas enterrado mais fundo... A função fundamental do Evangelho, que é na verdade o único fundamento, é a de expulsar o medo, de arrancá-lo com suas raízes, para que possamos ir cada vez mais fundo dentro de um coração sem medo e lá encontrarmos o amor mais profundo. Assim, o maior presente que podemos compartilhar com o mundo é a nossa experiência da realidade.


Dom John Main, OSB



Fonte: "A irrealidade do medo" - Leitura de 30/11/2008
THE HEART OF CREATION (New York: Continuum; 1998), pp. 24-25
Tradução de Roldano Giuntoli
Via: Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship)
http://www.grevkafi.org

FELICIDADE ADQUIRIDA PELO LONGO TRABALHO INTERIOR



“... Assim, pois, aqueles que pregam ser a Terra a única morada do homem, e que só nela, e numa só existência, lhe é permitido atingir o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam aqueles que os escutam...”

(O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. 5, item 20)


As estradas que nos levam à felicidade fazem parte de um método gradual de crescimento íntimo cuja prática só pode ser exercitada pausadamente, pois a verdadeira fórmula da felicidade é a realização de um constante trabalho interior.

Ser feliz não é uma questão de circunstância, de estarmos sozinhos ou acompanhados pelos outros, porém de uma atitude comportamental em face das tarefas que viemos desempenhar na Terra.

Nosso principal objetivo é progredir espiritualmente e, ao mesmo tempo, tomar consciência de que os momentos felizes ou infelizes de nossa vida são o resultado direto de atitudes distorcidas ou não, vivenciadas ao longo do nosso caminho.

No entanto, por acreditarmos que cabe unicamente a nós a responsabilidade pela felicidade dos outros, acabamos nos esquecendo de nós mesmos. Como consequência, não administramos, não dirigimos e não conduzimos nossos próprios passos. Tomamos como jugo deveres que não são nossos e assumimos compromissos que pertencem ao livre-arbítrio dos outros. O nosso erro começa quando zelamos pelas outras pessoas e as protegemos, deixando de segurar as rédeas de nossas decisões e de nossos caminhos. Construímos castelos no ar, sonhamos e sonhamos irrealidades, convertemos em mito a verdade e, por entre ilusões românticas, investimos toda a nossa felicidade em relacionamentos cheios de expectativas coloridas, condenando-nos sempre a decepções crônicas.

Ninguém pode nos fazer felizes ou infelizes, somente nós mesmos é que regemos o nosso destino. Assim sendo, sucessos ou fracassos são subprodutos de nossas atitudes construtivas ou destrutivas.

A destinação do ser humano é ser feliz, pois todos fomos criados para desfrutar a felicidade como efetivo patrimônio e direito natural.

O ser psicológico está fadado a uma realização de plena alegria, mas por enquanto a completa satisfação é de poucos, ou seja, somente daqueles que já descobriram que não é necessário compreender como os outros percebem a vida, mas sim como nós a percebemos, conscientizando-nos de que cada criatura tem uma maneira única de ser feliz. Para sentir as primeiras ondas do gosto de viver, basta aceitar que cada ser humano tem um ponto de vista que é válido, conforme sua idade espiritual.

Para ser feliz, basta entender que a felicidade dos outros é também a nossa felicidade, porque todos somos filhos de Deus, estamos todos sob a Proteção Divina e formamos um único rebanho, do qual, conforme as afirmações evangélicas, nenhuma ovelha se perderá.

É sempre fácil demais culparmos um cônjuge, um amigo ou uma situação pela insatisfação de nossa alma, porque pensamos que, se os outros se comportassem de acordo com nossos planos e objetivos, tudo seria invariavelmente perfeito. Esquecemos, porém, que o controle absoluto sobre as criaturas não nos é vantajoso e nem mesmo possível. A felicidade dispensa rótulos, e nosso mundo seria mais repleto de momentos agradáveis se olhássemos as pessoas sem limitações preconceituosas, se a nossa forma de pensar ocorresse de modo independente e se avaliássemos cada indivíduo como uma pessoa singular e distinta.

Nossa felicidade baseia-se numa adaptação satisfatória à nossa vida social, familiar, psíquica e espiritual, bem como numa capacidade de ajustamento às diversas situações vivenciais.

Felicidade não é simplesmente a realização de todos os nossos desejos; é antes a noção de que podemos nos satisfazer com nossas reais possibilidades. Em face de todas essas conjunturas e de outras tantas que não se fizeram objeto de nossas presentes reflexões, consideramos que o trabalho interior que produz felicidade não é, obviamente, meta de uma curta etapa, mas um longo processo que levará muitas existências, através da Eternidade, nas muitas moradas da Casa do Pai.


Francisco do Espírito Santo Neto / Hammed



Fonte: do livro "Renovando Atitudes", Ed. Boa Nova, 1997
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ASSUMINDO RESPONSABILIDADE PELA PRÓPRIA SOMBRA


Assim como a projeção de emoções negativas, também a projeção de qualidades negativas é muito comum na nossa sociedade, pois caímos na ilusão de equiparar "negativo" a "indesejável". Desse modo, em vez de aceitar nossos traços negativos e integrá-los, nós os alienamos e projetamos, vendo-os em todas as outras pessoas exceto em nós mesmos. Mas eles, como sempre, continuam a nos pertencer. [...]

Todos nós temos pontos cegos — tendências e traços que simplesmente recusamos admitir como sendo nossos, que nos recusamos a aceitar e que, portanto, arremessamos sobre o meio ambiente, onde lançamos mão de todo o nosso falso moralismo para, enfurecidos e indignados, lutar contra eles, sem perceber que o nosso próprio idealismo nos cega ante o fato de que a batalha é travada no nosso íntimo e de que o inimigo está muito mais próximo de nós. E a única coisa necessária para que esses aspectos sejam integrados é tratar a nós mesmos com a mesma bondade e compreensão que dispensamos aos nossos amigos. Como Jung, com a maior eloquência, afirma: 

"A aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e a epítome de toda uma visão de vida. Alimentar os famintos, perdoar um insulto, amar o inimigo em nome de Cristo — todas essas, sem dúvida alguma, são grandes virtudes. Aquilo que faço ao menor dos meus irmãos, eu o faço a Cristo. Mas o que acontece se eu descobrir que o menor dentre eles, o mais pobre dentre os mendigos, o mais impudente dentre os pecadores, o próprio inimigo, todos eles estão dentro de mim e que eu, eu mesmo, preciso das esmolas da minha própria bondade, que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado — o que acontece então?" *

As consequências são sempre duplas: primeiro, chegamos a acreditar que somos totalmente isentos da qualidade que estamos projetando e, portanto, que ela não está à nossa disposição — não agimos sobre ela, não a utilizamos e não a satisfazemos de modo algum, o que provoca em nós um estado crônico de frustração e de tensão. Segundo, vemos essas qualidades como existentes no meio ambiente, onde elas assumem proporções impressionantes ou aterradoras, de modo que acabamos por nos fustigar com a nossa própria energia.

No Nível do Ego, a projeção é identificada com extrema facilidade: se uma pessoa ou coisa no ambiente nos informa, provavelmente não estamos projetando; por outro lado, se ela nos afeta, o mais provável é que sejamos uma vítima das nossas próprias projeções. [...] E essa é a diferença crucial: aquilo que vejo nos outros está mais ou menos correto se apenas me informa; mas, se me afeta fortemente em termos de emoção, então trata-se, sem dúvida, de uma projeção.

Assim, quando nos apegamos de maneira ostensiva a alguém (ou a alguma coisa), estamos abraçando a sombra; e quando evitamos ou odiamos alguém num nível fortemente emocional, estamos travando um combate com a sombra...

O ato de desfazer uma projeção representa um movimento ou transição "descendente" ao longo do espectro da consciência... pois, ao recuperar aspectos de nós mesmos que havíamos alienado, estamos ampliando nossa área de identificação. E o primeiro passo, o passo fundamental, consiste sempre em percebermos que as coisas que julgávamos que o meio ambiente fazia para nós de maneira mecânica são, na verdade, coisas que estamos fazendo para nós mesmos — coisas pelas quais somos responsáveis.

Desse modo, quando sinto ansiedade, geralmente alego que sou uma vítima indefesa dessa tensão e que as pessoas ou situações no meio ambiente estão fazendo com que eu me sinta ansioso. Meu primeiro passo será tornar-me plenamente consciente dessa ansiedade, ficar em contato com ela, estremecer e sentir calafrios e arquejar — sentir realmente toda essa ansiedade, convidá-la a entrar, expressá-la — e assim perceber que eu sou o responsável, que eu estou criando a tensão, que eu estou bloqueando a minha excitação e, por causa disso, estou sentindo ansiedade. Eu estou fazendo isso para mim mesmo; logo, essa ansiedade é um assumo entre eu, o eu, não entre eu e o meio ambiente. Essa mudança da minha atitude significa que, onde antes eu alienava a minha excitação, separava-me dela e alegava ser sua vítima, eu agora estou assumindo a responsabilidade por aquilo que estou fazendo a mim mesmo.

Se o primeiro passo para "curar" as projeções da sombra consiste em assumir a responsabilidade pelas nossas projeções, então o segundo passo consistirá simplesmente em reverter a direção das nossas projeções e fazer aos outros, com toda a gentileza, aquilo que até agora estivemos fazendo a nós mesmos com toda a crueldade.

[...] À medida que vamos progressivamente enfrentando nossos opostos, torna-se cada vez mais evidente — e nunca será demais insistir nessa tecla — que, já que a Sombra é uma faceta real e integrante do ego, todos os "sintomas" e desconfortos que ela parece estar nos infligindo são, na realidade, sintomas e desconfortos que estamos infligindo a nós mesmos; por mais que, no nível consciente, possamos protestar que se trata do contrário. E quase como se, por exemplo, eu estivesse deliberada e dolorosamente me beliscando, mas fingindo que não estava me beliscando! Quaisquer que sejam os meus sintomas nesse nível — culpa, medo, ansiedade, depressão — todos eles, a rigor, são o resultado do meu ato de beliscar "mentalmente" a mim mesmo. A implicação direta, por mais incrível que pareça, é que eu quero que esse sintoma doloroso, qualquer que seja a sua natureza, esteja presente em mim... tanto quanto quero que ele desapareça!

Assim, o primeiro oposto que você pode tentar confrontar é esse desejo secreto e ensombrecido de manter e conservar seus sintomas; esse desejo inconsciente de beliscar a si mesmo. Você me permitiria a insolência de sugerir que, quanto mais ridícula essa ideia lhe parecer, mais essa reação indicará o quanto você está fora de contato com a sua própria Sombra, com aquele seu lado que está beliscando você?

Ao fazer contato com meus sintomas e tentar deliberadamente me identificar com eles, devo manter em mente que qualquer sintoma — se tem um núcleo emocional — é a forma visível de uma Sombra que contém não apenas a qualidade oposta como também a direção oposta.

[...] Como sempre, os traços projetados — assim como as emoções projetadas — serão todos os aspectos "vistos" nos outros que não só nos informam como também nos afetam com certa violência. Em geral, trata-se das qualidades, detestáveis para nós, que imaginamos que outras pessoas possuem; das qualidades que estamos sempre dispostos a denunciar e condenar com a maior violência. Não importa se estamos apenas lançando nossas condenações contra a mesquinhez do nosso próprio coração escuro e esperamos com isso exorcizá-lo. Às vezes, as qualidades projetadas são algumas de nossas próprias virtudes e, nesse caso, aferramo-nos à pessoa sobre quem depositamos as nossas "coisas boas" e, em geral, tentamos febrilmente conservar e monopolizar essa pessoa. Essa "febre" é provocada, naturalmente, pelo imperioso desejo de nos aferrarmos a esses aspectos de nós mesmos.

Em última análise, as projeções surgem em todos os sabores. De qualquer modo, as qualidades projetadas — assim como as emoções projetadas — serão sempre o oposto daquilo que, em nível consciente, imaginamos possuir. Mas (ao contrário das emoções) os traços, qualidades e ideias não possuem, em si, uma direção; logo, sua integração é direta. No primeiro passo do trabalho com seus opostos, você chegará a perceber que as coisas que ama ou despreza nos outros são apenas as qualidades da sua própria Sombra. Não se trata de um assunto entre você e os outros, mas de um assunto entre você e você. Ao trabalhar seus opostos, você irá tocar a sua Sombra; e ao compreender que está beliscando a si mesmo, você irá "parar de se beliscar". Como os traços projetados não envolvem nenhuma direção, sua integração não exigirá o segundo passo — a reversão.

E assim é que, ao lidar com os nossos opostos e ao conceder direitos iguais à Sombra, finalmente estendemos nossa identidade (e, portanto, nossa responsabilidade) a todos os aspectos da psique; deixamos de ser apenas a persona distorcida e empobrecida. E, dessa maneira, a cisão entre a persona e a Sombra é "integrada e curada".


Ken Wilber


* C. G. Jung: Modem Man in Seack of a Soul (Londres: Harcourt Brace Jovanovich, 1955), págs. 271-272.


Fonte: do livro "AO ENCONTRO DA SOMBRA - O potencial oculto do lado escuro da natureza humana", Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.), Tradução MERLE SCOSS
Ed. CULTRIX, São Paulo
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/m%C3%A3o-silhueta-forma-horror-984170/

O SILÊNCIO - ANATMAN


[Um] motivo pelo qual o silêncio nos é tão perturbador [é este]: Assim que começamos a nos tornar silentes, experimentamos a relatividade de nossa mente comum cotidiana. Com essa mente medimos nossas coordenadas de espaço e de tempo, calculamos as probabilidades e contabilizamos nossos erros e acertos. Trata-se de um nível de consciência muito útil e importante. É um estado mental tão útil e familiar que facilmente acreditamos ser tudo o que somos: a totalidade de nossa mente, nosso verdadeiro eu, nossa inteira significação.

A vida, o amor e a morte frequentemente nos ensinam o contrário. Nos encontramos com o silêncio em muitas reviravoltas inesperadas da estrada da vida, em maneiras imprevisíveis, em pessoas improváveis. Sua saudação possui um efeito que é ao mesmo tempo emocionante, pleno de maravilhamento, ainda que frequentemente apavorante.

A cada momento nossos pensamentos, medos, fantasias, esperanças, raivas e atrações estão todos surgindo e desaparecendo. Nos identificamos automaticamente com esses estados, sejam eles passageiros ou compulsivamente recorrentes, sem pensar aquilo que estamos pensando. Quando o silêncio nos ensina o quão transitórios e, portanto, pouco confiáveis na verdade são esses estados, confrontamo-nos com o terrível questionamento de quem somos nós. No silêncio precisamos lutar contra a terrível possibilidade de nossa própria irrealidade.

O pensamento budista faz dessa experiência, denominada "anatman" ou, o “não ser”, um dos principais pilares de sabedoria em seu caminho de libertação do sofrimento e um de seus meios de iluminação essenciais. Incentiva-se o praticante budista a buscar essa experiência da transitoriedade interior e, em vez de fugir dela, mergulhar nela de cabeça, assim como o fizeram Meister Eckhart e os grandes místicos cristãos.

É compreensível que "anatman" seja a ideia budista que outros considerem a mais desafiadora. Quanto absurdo, quão terrível, quão sacrílego dizer que eu não existo. De fato, muito do antagonismo cristão ao "anatman" é infundado ou fundamentado em interpretação errônea. Não quer dizer que não existimos, mas que não existimos em autônoma independência, que é o tipo de existência que o ego gosta de imaginar que tem; o tipo de fantasia de ser Deus... Trata-se da arrogância que frequentemente ataca as pessoas religiosas.

Não existo independentemente, pois Deus é o fundamento de meu ser. À luz desse entendimento, lemos as palavras de Jesus no Novo Testamento, com percepção aprofundada: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me..., mas, o que perder a sua vida por causa de mim, a salvará.” (Lc 9, 23-24)

Caso, através do silêncio, possamos abraçar esta verdade do "anatman", faremos importantes descobertas acerca da natureza da consciência. Descobriremos que a consciência, a alma, é mais do que o fantástico sistema de julgamento, de cálculo e de computação do cérebro. Somos mais do que aquilo que pensamos. A meditação, [por exemplo], não é o que pensamos.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "O Silêncio da Alma" - Leitura de 12/10/2008 (The Tablet: 10 de maio de 1997)
Tradução de Roldano Giuntoli
Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

quinta-feira, 16 de julho de 2020

SOLIDÃO - QUIETUDE ÍNTIMA


Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Segundo Pascal, o grande pensador científico-filosófico do século XVII, “a verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem, sua verdadeira virtude e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável.”

Nem sempre a solidão pode ser encarada como dor ou insânia. É, em muitas ocasiões, períodos de preparação, tempos de crescimento, convites da vida ao amadurecimento.

De acordo com o pensamento de Pascal, o âmago do ser está intimamente ligado ao bem, à virtude e à religião. É justamente nas “épocas de solidão” que conseguimos a motivação necessária para estabelecer a verdade sobre esse fato.

Na solidão é que encontramos sanidade para nosso mundo interior, respostas seguras para nossos caminhos incertos e nutrição vitalizante para os labores que enfrentamos em nossa viagem terrena.

Nestes nossos apontamentos sobre a solidão, não estamos nos referindo à “tristeza de estar só”, mas sim, necessariamente, à “quietude íntima”, tão importante e saudável para que façamos um trabalho de autoconsciência, valorizando as nuances de nossa vida interior.

Muitos indivíduos vivem dentro de um ciclo diário estafante. Realizam suas atividades num ambiente de competitividade, agitação, pressa e rivalidade, vivendo em constante tensão psicológica e, por consequência, alterando suas funções fisiológicas. Por viverem num estado de cansaço e desgaste contínuos, não conseguem fazer uma real interação entre o meio ambiente e seu mundo interno, o que ocasiona sérios problemas de convivência e inúmeros conflitos pessoais.

Nem sempre é possível abandonarmos a vida alvoroçada, os ruídos e as músicas estridentes, talvez seja até mesmo inviável; mas é perfeitamente realizável dedicarmos algum tempo à solidão, retirando-nos para momentos de reflexão.

Nos instantes de silêncio, exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à Consciência Divina. É nesse momento que ficamos cientes de que realmente não estamos sozinhos e que podemos entrar em contato com a voz da consciência. A voz de Deus, por assim dizer, começará a “falar em nós”.

Inúmeras criaturas criam uma mente agitada por temerem que estão vazias, pensam não haver nada dentro delas que lhes dê proteção, apoio e segurança. Acreditam que são uma casca que precisa exclusivamente de sustentação exterior; por isso, continuam ocupando a casa mental ansiosamente, obstruindo seu acesso à luz espiritual.

A mente pode ser uma ajuda efetiva, ou mesmo um obstáculo ferrenho na escolha da melhor direção para atingimos o amadurecimento íntimo. A crença em nossa limitação é que faz com que restrinjamos nossa mente. Isso se agrava quando envolvemo-la no burburinho de vozes, no tumulto e na agitação do cotidiano, passando assim a não avaliarmos corretamente seu verdadeiro potencial.

São muitos os caminhos de Deus, e a solidão pode ser um deles. “E saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.” (1)

Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “privacidade da solidão”.

O Cristo Amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleceriam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a Vida e unos com todos os seres.

“... buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam. (...) Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.” (2) A Espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranquilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã.

Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.

Ninguém é capaz de seguir sua verdadeira estrada existencial, se não refletir sobre sua essência. Não encontraremos o caminho de que verdadeiramente necessitamos, se nós mesmos não o buscarmos, usando nossos inerentes recursos da alma para perceber as inarticuladas orientações divinas em nós.

Somente cada um pode interpretar as razões da Vida em si mesmo.

Adotemos o aprendizado com o Senhor Jesus, exemplificado no Horto das Oliveiras: retiremo-nos para um lugar à parte e cultivemos os interesses de nossa alma.

Se não encontrarmos um recanto externo que facilite a meditação, nem alguma paisagem mais afastada junto à Natureza, onde possamos repousar da inquietação da multidão, mesmo assim poderemos penetrar o nosso santuário íntimo.

Sigamos o Mestre, recolhendo-nos na solidão e no silêncio do templo da alma, onde exclusivamente encontraremos as reais concepções do amor e da justiça, da felicidade e da paz, de que todos temos direito por Paternidade Divina.


Francisco do Espírito Santo / Hammed


(1) Lucas 22,39
(2) O Livro dos Espíritos (Allan Kardec), Questão 771 – Que pensar dos que fogem do mundo para se votarem ao mister de socorrer os desgraçados? “Esses se elevam, rebaixando-se. Têm o duplo mérito de se colocarem acima dos gozos materiais e de fazerem o bem, obedecendo à lei do trabalho.” Questão 771-a – E dos que buscam no retiro a tranquilidade que certos trabalhos reclamam? “Isso não é retraimento absoluto do egoísta. Esses não se insulam da sociedade, porquanto para ela trabalham.”



Fonte: do livro (digital) "As Dores da Alma"
8ª ed., agosto/2000, Boa Nova - Editora e Distribuidora de livros espíritas
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal





O DAR DE DEUS (DANA PRAJNA PARAMITA)


"Não-apego é dar; isto é: não apegar-se a nada é, por si só, dar."


Falando em sentido relativo, tudo quanto existe na natureza, tudo quanto existe no mundo humano, toda obra cultural criada é algo que nos foi e está sendo dado. Mas como originalmente tudo é um, na verdade nós também estamos dando tudo. Momento a momento estamos criando alguma coisa e essa é a alegria da nossa vida. Mas esse "eu" que está sempre criando e dando alguma coisa não é o pequeno "eu", e sim o grande "eu". Mesmo que você não perceba a unidade desse grande "eu" com todas as coisas, ao dar algo, você se sente bem, porque nesse momento você se sente um com aquilo que está dando. Eis por que a gente se sente melhor dando que recebendo.

[...] O mestre Dogen disse: "Dar é não-apego". Quer dizer, não apegar-se às coisas é, por si só, dar. Não importa o que é dado. Dar um vintém ou uma folha que seja, é "dana prajna paramita"*. Dar uma linha ou mesmo uma palavra do ensinamento é "dana prajna paramita". A oferenda de algo material ou de um ensinamento, se feita com espírito de desapego, tem o mesmo valor. Com o espírito correto, tudo o que fazemos, tudo o que criamos é "dana prajna paramita". [...]

De acordo com o cristianismo, todas as coisas existentes na natureza foram criadas e dadas a nós por Deus. Esta é a ideia perfeita do dar. Mas se você pensa que Deus criou o homem e que você, de algum modo, está separado de Deus, você até é capaz de pensar que pode criar algo independente, algo que não tenha sido dado por Ele. Por exemplo, nós criamos auto-estradas e aviões e de tanto repetir "eu crio, eu crio, eu crio", acabamos esquecendo quem é realmente o "eu" que cria coisas e logo nos esquecemos de Deus. Este é o perigo da cultura humana. Na verdade, criar com o "grande eu" é dar; não podemos criar nem possuir o que criamos, uma vez que tudo é criado por Deus. Lembre-se sempre disto. É porque esquecemos quem é que está criando, e qual a razão da criação, que nos apegamos aos objetos ou ao seu valor de troca. Isto é insignificante comparado ao valor absoluto de algo como a criação de Deus. Ainda que uma coisa não tenha nenhum valor material ou relativo para o "eu pequeno", ela tem, em si, valor absoluto. Não estar apegado a uma coisa é estar consciente do seu valor absoluto. Tudo o que você faz deve ser baseado nessa consciência, e não em conceitos de valor material ou egocentrados. Então, o que quer que você faça é o dar verdadeiro, é "dana prajna paramita".

[...] Se você compreender "dana prajna paramita", entenderá como é que criamos tantos problemas para nós mesmos. Claro, viver é criar problemas... Se estamos cônscios de que aquilo que fazemos ou criamos é realmente o dom do "grande eu", então não nos apegamos ao feito, e desse modo não criamos problemas nem para nós nem para os outros.

Além do mais, dia após dia devemos esquecer o que fizemos; este é o verdadeiro não-apego. E devemos fazer algo novo. Para fazermos algo novo, é óbvio que precisamos conhecer nosso passado, e isso está certo. Mas não devemos agarrar-nos àquilo que fizemos; devemos apenas levá-lo em consideração. É igualmente necessário ter alguma ideia do que devemos fazer no futuro. Mas futuro é futuro e passado é passado; aqui, agora, devemos trabalhar em algo novo. Essa é nossa atitude, e é assim que temos de viver neste mundo. Isto é "dana prajna paramita": dar alguma coisa ou criar alguma coisa por nós próprios. Portanto, fazer alguma coisa é assumir nossa verdadeira atividade
criadora. [...]


Shunryu Suzuki



* "Dana prajna paramita". Dana significa dar, prajna é sabedoria, e paramita quer dizer atravessar ou alcançar a outra margem. Nossa vida pode ser vista como a travessia de um rio. O objetivo do esforço da nossa vida é alcançar a outra margem, o nirvana. Prajna paramita, a verdadeira sabedoria da vida, é alcançar a outra margem a cada passo do caminho. Alcançar a outra margem com cada um dos passos da travessia é o caminho do verdadeiro viver. (Shunryu Suzuki)



Fonte: do livro "Mente Zen, Mente de Principiante", Ed. Palas Athena
Editado por Trudy Dixon - Tradução de Odete Lara
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budista-ritual-%C3%A1gua-budismo-1807518/

INTELIGÊNCIA É AMOR


A maioria pensa que inteligência é o resultado da aquisição de conhecimento, informação, experiência. Por ter grande soma de conhecimento e experiência, acreditamos ser capazes de fazer face à vida com inteligência. Mas a vida é uma coisa extraordinária, nunca é estacionária; como o rio, está fluindo constantemente, nunca para. Achamos que por amontoar mais experiência, mais conhecimento, mais virtude, mais riqueza, mais possessões, seremos inteligentes. Por isso, respeitamos as pessoas que acumularam conhecimento, os eruditos, e bem assim as que são ricas e cheias de experiência. Mas será a inteligência o resultado de “mais” disso ou “mais” daquilo? O que é que está por trás deste processo de adquirir mais, de desejar mais? Ao desejar mais, estamos às voltas com acumulação, não estamos?

Ora, o que acontece quando se acumulou conhecimento, experiência? Qualquer outra experiência que vocês tenham é imediatamente traduzida em termos de “mais e mais”, e vocês nunca estão realmente experimentando, mas estão sempre amontoando; e esse amontoar é o processo da mente, que é o centro do “mais e mais”. O “mais e mais” é o “eu”, o ego, a entidade encerrada em si mesma que só está preocupada em acumular, seja negativa ou positivamente. Assim sendo, com sua experiência acumulada, a mente se defronta com a vida. Ao defrontar-se com a vida, com esse acúmulo de experiência, a mente ainda está buscando “mais e mais”, de modo que nunca experimenta, só acumula. Enquanto a mente for apenas um instrumento de acumulação, não haverá verdadeira experimentação. Como podem vocês franquear-se à experiência quando estão sempre pensando em obter algo dessa experiência, em adquirir alguma coisa mais?

Por isso, o homem que está acumulando, amealhando, o que está desejando mais, nunca está experimentando a vida em primeira mão. É só quando a mente não está preocupada com o “mais e mais”, com acumular, que há a possibilidade de ser inteligente. Quando a mente está preocupada com o “mais e mais”, toda experiência ulterior fortifica a muralha do “eu” encerrado em si mesmo, o processo egocêntrico que é o centro de todo conflito. Façam o favor de acompanhar isto. Vocês acham que a experiência liberta a mente, mas ela não o faz. Enquanto a sua mente estiver afeta à acumulação, ao “cada vez mais”, toda experiência que tiverem apenas os fortifica em seu egocentrismo, em seu egoísmo, em seu processo fechado de pensar.

A inteligência só é possível quando há liberdade real em relação ao ego, em relação ao “eu”, isto é, quando a mente já não seja o centro da busca de “mais e mais”; quando ela já não está subjugada pelo desejo de experiência maior, mais vasta, mais expansiva. Inteligência é a liberdade em relação à pressão do tempo, não é? Porque o “cada vez mais” implica tempo, e enquanto a mente for o centro da busca de “mais e mais”, ela será o resultado do tempo. Por isso o cultivo do “cada vez mais” não é a inteligência. A compreensão de todo esse processo é o autoconhecimento. Quando alguém se conhece tal como é, sem um centro acumulador, desse autoconhecer provém a inteligência capaz de fazer face à vida; e essa inteligência é criativa.

Examinem suas próprias vidas. Considerem como são tediosas, estúpidas, estreitas, porque vocês não são criativos... Suas vidas estão cercadas de medo, e por isso há autoridade e imitação. Vocês não sabem o que é ser criativo. Por criatividade não entendo o pintar quadros, escrever poemas ou saber cantar. Refiro-me à natureza mais profunda da criatividade que, uma vez descoberta, é uma fonte eterna, uma corrente imorredoura; e ela só pode ser encontrada mediante a inteligência. Essa fonte é o intemporal; mas a mente não pode encontrar o intemporal enquanto for o centro do “eu”, do ego, da entidade que está eternamente pedindo “mais”.

Quando vocês compreenderem tudo isto, não só verbalmente, mas em profundidade, descobrirão que com a inteligência desperta ocorre uma criatividade que é realidade, que é Deus, coisa sobre a qual não se pode especular nem meditar. Vocês nunca chegarão a isso mediante... suas preces por “mais e mais” ou por escapar do “mais e mais”. Essa realidade só pode ocorrer quando vocês entenderem o estado de sua própria mente, a malícia, a inveja, as reações complexas, à medida que surgem, de momento a momento, cotidianamente. Ao entender essas coisas experimenta-se um estado que se pode chamar de amor. Esse amor é inteligência, e produz uma criatividade que é intemporal.


J. Krishnamurti



Fonte: do livro "O Verdadeiro Objetivo da Vida", Ed. Cultrix, SP (texto adaptado)
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 15 de julho de 2020

SOBRE A COMPUNÇÃO *


É uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos.

Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida.


Thomas Merton, OSB


* Contrição; sentimento de remorso, de culpa, de arrependimento; tristeza profunda por ter proferido ofensas; excesso de pesar, de sofrimento por ter praticado uma má ação.


Fonte: A vida silenciosa, Ed. Vozes, 2002, p.108
Via Associação Thomas Merton - https://merton.org.br/
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/homem-pensamento-pensamentos-2546791/



terça-feira, 14 de julho de 2020

INTELECTIVO - INTUITIVO


Se alguém me pergunta, o que é Deus? disse Santo Agostinho, confesso que não sei; mas, se ninguém me pergunta, eu sei.

Com esta frase enuncia o grande gênio africano um fato que todo homem espiritual conhece de sobejo e que, não raro, o faz sofrer acerbamente. O nosso verdadeiro saber não é intelectivo, mas intuitivo, e por isto não é definível, como as coisas do intelecto. O que é definível é incerto, mas o que é certo é indefinível – não há dúvida de que o homem meramente intelectual e não espiritual tachará de absurda esta afirmação, que, no entanto, é uma grande verdade. Posso ter duma realidade espiritual uma experiência interna meridianamente clara e soberanamente certa, e ao mesmo tempo ser totalmente incapaz de a explicar ou definir analiticamente a outros, nem mesmo ao meu próprio Eu intelectual. Paulo de Tarso tentou, durante três decênios, analisar a grande experiência espiritual que tivera, quiçá na fração de um segundo, às portas de Damasco, disse que fora arrebatado ao “terceiro céu”, onde ouvira "árreta rémata" (ditos indizíveis) – mas acaba por confessar, como mais tarde seu grande discípulo Santo Agostinho, que saber da realidade do mundo espiritual é uma coisa, mas defini-la é impossível. Analisar quer dizer “dissolver” – mas como se poderia dissolver o que é indissolúvel, por ser um Todo simples, e não composto? Definir quer dizer pôr "fines", fins, circunscrever de certos limites – mas como se poderia limitar o que é por natureza ilimitado? Definir o infinito é fazê-lo finito, isto é, negá-lo, destruí-lo.

Inteligir (*) é um ato do meu pequeno Eu humano que tenta abranger na sua estreiteza individual a largueza do grande Tu universal.

Intuir não é um ato do Eu individual, mas sim um ato do Tu universal, de Deus, ato esse do qual o meu Eu é o objeto passivo, e não o sujeito ativo, como no caso do inteligir.

No inteligir, o menos pretende abranger o mais, o individual tenta capturar em si o universal – tenta esse absurdo e matematicamente impossível. No intuir acontece o contrário, e por isto é possível e razoável. Em última análise, toda a experiência mística é a mais alta racionalidade, a mais perfeita lógica.


Prof. Huberto Rohden



(*) Temos as palavras “inteligência, intelecto, inteligente”, mas abandonamos o verbo básico “inteligir” (do latim intelligere, ou melhor intellegere, derivado de inter-legere, ler por entre, ou talvez intus-legere, ler por dentro). Julgamos necessário restituir ao vernáculo o verbo inteligir, como também intuir, do latim intueri, ver por dentro, ou propriamente “ser protegido de dentro”, palavra essa que compreende uma verdadeira síntese de experiência mística.



Fonte: do livro "Profanos e Iniciados", Ed. Alvorada, 1990
Fonte da Gravura: Tumblr.com

PROGRESSO NESTE E EM OUTROS MUNDOS - REENCARNAÇÃO


O dístico "Nascer, morrer, renascer ainda, progredir continuamente, tal é a lei" (Kardec) proclama um princípio e uma lei natural correlacionada. O principio é o da reencarnação, meio pelo qual nos é dado cumprir como contingência natural a lei do progresso. A reencarnação traz a ideia da preexistência e da sobrevivência da alma e só assim se pode entender a razão de ser da vida na Terra, sua transitoriedade e o sofrimento, porém reconhecendo a perfeição por destino.

Mas é ainda preciso ligar todo esse raciocínio a uma outra afirmativa de Jesus: "Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse eu vo-lo teria dito...". Com as moradas outras entende-se outras humanidades e de certa forma acesso a essas outras moradas. Não estamos sós no universo.

Tem-se com isto uma compreensão bem maior da Majestade do Criador Supremo, dando-se sentido à existência, descortinando-lhe a Justiça, onde se configura a condição do mérito contrariamente à do privilégio. Por certo estaríamos indagando da parcialidade de uma justiça bem menor se justiça fosse, em que, numa única existência, selada para sempre a sorte de cada um, as almas viventes teriam diversificadas oportunidades de sofrimento ou gozo, sem poder reconstruir o próprio destino. Tão diferente da realidade explicitada pela doutrina espírita.

Progredir é preciso, é lei. Aleatoriamente pode-se ter ideias diferentes quanto ao progresso. Comporta uma visão imediatista e outra de mais amplos horizontes. Na concepção do homem comum pode ser a conquista de valores transitórios constantes dos bens terrenos, por vezes riquezas, vassalagem, conforto. E nem é condenável que melhoremos de vida e que aspiremos a tanto. Para muitos, aquisição de conhecimentos técnico-profissionais, títulos que destaquem, postos de relevo na sociedade e na política. Serão criaturas úteis quando no bom desempenho desses postos. Mas é necessário considerar também o progresso como conquista inalienável do Espírito não só quando lhe abre as portas da inteligência e da cultura mas também quanto as dos sentimentos enobrecidos. Diremos então de um progresso material, de um progresso intelectual e de um progresso moral, que não marcham nem sempre no mesmo ritmo, é bom lembrar. Pode-se ainda falar do progresso coletivo da Humanidade como um todo, das civilizações, ou isoladamente de um povo, de uma nação, de um grupo, de uma instituição, de uma causa. Há espíritos que se afeiçoam a determinadas tarefas, que se reúnem para cumpri-las, que se especializam no campo da ciência, da técnica, ou em missões de condutores de povos. São grandes almas, muitas vezes, que sacodem a inércia em que se demora a humanidade. Sem o conceito da reencarnação seriam prodígios inexplicáveis os grandes sábios, os grandes inventores, os grandes santos. São naturalmente ajudados por Espíritos Superiores empenhados por sua vez em ajudar o progresso. Executam missões ou concluem tarefas a que se afeiçoaram e em que se aperfeiçoaram. Sem esquecer aquelas almas que passam pela Terra dando o exemplo vivo da humildade, sem destaques, desconhecidas do mundo, mas por si mesmas engrandecidas.

Mas, como vimos, a reencarnação não pressupõe apenas a ideia estritamente terrena de espíritos que convivem conosco neste ou conviveram naquele tempo. Dilata-se-nos o conceito se admitirmos - e por que não? - que outras humanidades se permitem intercâmbio conosco trazendo-nos o fruto de seus avanços e trocando experiências por solidariedade ou por compromissos assumidos para o seu próprio melhoramento. Um gênio extraordinário que se antecipa de milênios à nossa ciência, como é o caso de Leonardo da Vinci, para citar apenas um, não adquiriu na Terra o conhecimento que ela não lhe poderia ter dado por não comportar. Espíritos como esse não só preexistiram com certeza mas trouxeram de outras paragens o aprendizado adquirido quem sabe em escolas superiores do espaço ou em mundos superiores.

Admitir, no entanto, que um cérebro físico, por milagres de disposição neuronial, houvesse produzido o gênio extraordinário que avança além dos estágios da ciência ou da concepção da arte, seria nada esclarecedor e nada convincente. Sem o espírito preexistente, com experiências adquiridas alhures, não se explicariam tantas conquistas que constituem eloquentes registros da História. Aqui a ideia dessa fraternidade e desse intercâmbio interplanetário é um novo aspecto engrandecedor da mensagem espírita. Nessa ordem de considerações as conquistas tecnológicas podem representar experiências trazidas a nós vindas de outras plagas, não tenhamos maiores dúvidas.

As humanidades progridem. Progridem os mundos habitados.


Alberto Souza Rocha



Fonte: do livro "Reencarnação em Foco", Casa Editora O Clarim, Matão, SP
Fonte da Gravura: Grev Kafi (the pseudonym of two symbolist painters, Evdokia Fidel'skaya and Grigoriy Kabachnyi, a married couple, that work in co-authorship) - http://www.grevkafi.org

O DESTINO ESSENCIAL DO SER HUMANO


Enquanto você pensar que pode apenas meditar o suficiente para se dar bem ou o suficiente para conquistar algo, na verdade você não começou a meditar. Quando você se der conta que deu início a uma jornada que irá durar até o fim de sua vida, você terá começado a aprender. A esse momento, de reconhecimento e concordância, chamamos compromisso. Ele é corretamente descrito como um momento de graça e compreensão, porque nele experimentamos nossa mais profunda significação e compreendemos a importância da prece para que estejamos completamente vivos. Meditamos não tanto para entendermos porque estamos vivos quanto para vivermos diferentemente, para vivermos mais completamente. [...]

A própria meditação é uma experiência de aprendizado, literalmente “uma disciplina”. Só a disciplina nos ensinará a verdade e só a prática nos levará a despertar. A disciplina da meditação é uma escola. É uma escola de amor e nosso crescimento nessa escola é crescimento no discipulado do amor. Nos ensina o que precisamos saber, a enxergar com o coração, a viver a partir do centro, a abraçar com todas as fibras de nosso ser. Nos ensina o que precisamos saber para cumprirmos o destino essencial que cada ser humano possui: ser seu eu pela eternidade. O destino humano é o do viver eterno... A maioria de nós começa a meditar num ponto em que parcialmente concordamos com a ideia de vivermos uma vida finita. Todavia, também começamos a compreender que isso foi um erro.

É fácil concordarmos com a ideia de vida finita, porque é uma vida vivida no interior de paredes protetoras. Nos parece estar segura e a salvo... Mas a opção mais desafiadora de todas é a de vivermos eternamente, a de respondermos a mais elevada verdade sobre a existência, a identidade e a morte. A compreensão de que somos feitos para a eternidade extrapola o poder da imaginação, significando não apenas a vida do mundo futuro, mas vida vivida completamente agora. E o estarmos completamente vivos demanda, a todo momento, tudo o que somos. Não admira que depreciemos a maravilha disso e construamos aquelas paredes protetoras... Todavia, a vida é mais forte do que nossos medos... Viver eternamente significa viver integralmente no presente momento. A eternidade é o perpétuo agora, e ao aprendermos a viver eternamente no presente aprendemos a verdade sobre o amor.


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "O agora do amar" - Leitura de 15/06/2008
The Selfless Self (London: Darton, Longman and Todd, 1996) pp. 36-37.
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial de Meditação Cristã - www.wccm.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A CURA DA SOMBRA


A cura da sombra é, por um lado, uma questão moral — ou seja, o reconhecimento daquilo que reprimimos, o modo como efetuamos essas repressões, a maneira como racionalizamos e enganamos a nós mesmos, a espécie de objetivos que temos e as coisas que ferimos (ou até mesmo mutilamos) em nome desses objetivos. Por outro lado, a cura da sombra é uma questão de amor. Até onde poderia o nosso amor estender-se às partes quebradas e arruinadas de nós mesmos, às nossas partes repulsivas e perversas? Quanta caridade e compaixão sentimos pelas nossas próprias fraquezas e doenças? Como poderíamos construir uma sociedade interior baseada no princípio do amor, reservando um lugar para todos? E uso a expressão "cura da sombra" para enfatizar a importância do amor. Se nos aproximamos de nós mesmos para nos curar e colocamos o "eu" no centro, isso com muita frequência degenera no objetivo de curar o ego — ficar mais forte, tornar-se melhor e crescer de acordo com os objetivos do ego, que em geral são cópias mecânicas dos objetivos da sociedade. Mas quando nos aproximamos de nós mesmos para curar essas firmes e intratáveis fraquezas congênitas de obstinação, cegueira, mesquinhez, crueldade, impostura e ostentação, defrontamo-nos com a necessidade de todo um novo modo de ser; nele, o ego precisa servir, ouvir e cooperar com um exército de desagradáveis figuras da sombra e descobrir a capacidade de amar até mesmo o mais insignificante desses traços.

Amar a si mesmo não é fácil, pois significa amar todas as partes de si mesmo — incluindo a sombra, na qual somos tão inferiores e tão inaceitáveis socialmente. Os cuidados que dedicamos a essa parte humilhante são também a cura. E mais: como a cura depende dos cuidados, às vezes "cuidar" quer dizer apenas "trazer consigo". O primeiro passo essencial para a redenção da sombra é a capacidade de trazê-la conosco (como fizeram os protestantes puritanos, ou os judeus no eterno exílio, dia a dia conscientes de seus pecados, de atalaia contra o Diabo, em guarda para não dar um passo em falso; uma longa jornada existencial com um fardo de pedras às costas, sem ninguém sobre quem descarregá-las e sem destino certo ao final). Mas esse trazer consigo e cuidar não podem ter um desenvolvimento programático que faça aquela qualidade inferior se sujeitar aos objetivos do ego, pois isso não seria amor.

Amar a sombra pode começar com o trazê-la consigo, mas isso ainda não é suficiente. A qualquer momento pode irromper alguma outra coisa qualquer, como aquela introspecção que escarnece do paradoxo da nossa própria loucura — a loucura comum a todos os homens. E então talvez nos chegue a alegre aceitação do rejeitado e do inferior, um acompanhá-lo e até mesmo vivê-lo parcial. Esse amor talvez leve até mesmo a uma identificação com a sombra, a uma passagem ao ato da sombra, caindo no seu fascínio. Portanto, a dimensão moral nunca deve ser abandonada. E assim a cura é um paradoxo que exige dois fatores incomensuráveis: primeiro, o reconhecimento moral de que essas partes de mim são opressivas e intoleráveis, e precisam mudar; e, segundo, a risonha aceitação amorosa que as aceita exatamente como elas são, com alegria e para sempre. Lutamos arduamente e desistimos, julgamos com severidade e aceitamos com alegria. O moralismo ocidental e o abandono oriental, cada um contém apenas um lado da verdade.

Acredito que essa atitude paradoxal da consciência em relação à sombra encontra um exemplo arquetípico no misticismo religioso judaico, onde Deus tem duas faces: a face da retidão moral e da justiça, e a face da misericórdia, do perdão e do amor. Os ensinamentos chassídicos contêm esse paradoxo, suas parábolas mostram uma profunda piedade moral combinada com uma espantosa alegria de viver.

A descrição que Freud fez do mundo escuro que encontrou não faz justiça à psique, era uma descrição demasiado racional. Freud não captou suficientemente a paradoxal linguagem simbólica através da qual a psique se manifesta. Ele não chegou a perceber plenamente que cada imagem, cada experiência, tem um aspecto prospectivo bem com um aspecto redutivo, um lado positivo bem como um lado negativo. Ele não viu com suficiente clareza o paradoxo de que o lixo apodrecido também é o fertilizante, que ingenuidade também é inocência, que perversidade polimorfa também é alegria e liberdade física, que o homem mais feio é também o redentor disfarçado.

Em outras palavras, as descrições da sombra feitas por Freud e Jung não são duas posições distintas e conflitantes. Pelo contrário, a posição de Jung deve ser superposta à de Freud, ampliando-a e acrescentando-lhe uma dimensão, e essa dimensão considera os mesmos fatos e as mesmas descobertas, mas mostra que se trata de símbolos paradoxais.


JAMES HILLMAN *


* James Hillman foi um psicólogo e conferencista americano de fama internacional. Ele estudou e posteriormente conduziu estudos no C. G. Jung Institute, em Zurique. Foi fundador de um movimento conhecido como 'psicologia arquetípica' pós-junguiana. (Wikpédia)



Fonte: do livro "AO ENCONTRO DA SOMBRA - O potencial oculto do lado escuro da natureza humana", Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.), Tradução MERLE SCOSS
Ed. CULTRIX, São Paulo
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/verde-rosto-luz-retrato-mulher-5124174/

ATENÇÃO, CONCENTRAÇÃO E COMPREENSÃO (SMRTI - SAMADHI - PRAJÑA)


[...] Quando você estiver praticando a atenção plena do seu corpo, "inspirando, eu sei que meu corpo existe. Expirando, eu sei que meu corpo existe", o seu corpo se torna o único objeto da sua consciência. Quando a atenção plena é forte e está focada desse jeito, nasce a concentração. O objeto de sua concentração também é o seu corpo. Quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes, você consegue avançar em direção à realidade, ter um lampejo, uma realização e descobrir coisas. Atenção plena, ou SMRTI em sânscrito, é a primeira energia. A atenção faz surgir a concentração, SAMADHI, a segunda energia, e, juntas, atenção plena e concentração trazem a compreensão direta, PRAJÑA.

Meditar significa gerar esses três tipos de energia. Você não tem que pedir que elas venham até você a partir de fora. Todo mundo tem as sementes da atenção plena, concentração e compreensão dentro de si. Com as práticas de respirar, andar e sentar atentamente, nós ajudamos estas sementes a se manifestarem enquanto energias. Estes são os três tipos de energia que fazem com que um ser seja iluminado. Estas energias fazem com que você acorde, unifique totalmente o seu corpo e mente, e elas lhe põem em contato com todas as maravilhas da vida. Você para de correr e de tentar buscar a felicidade noutro lugar. Você vê que a felicidade é possível no aqui e agora.

A alegria e felicidade são possíveis imediatamente quando a atenção plena e concentração são suficientemente fortes. Você redescobre que o seu corpo existe; que todas as maravilhas da vida existem; que tantas condições de felicidade já estão disponíveis. Isso já é compreensão direta. Esta compreensão pode lhe ajudar a se libertar das preocupações, do seu medo, anseio e busca. Esse tipo de compreensão lhe ajuda a reconhecer, que existem condições mais do que suficientes para você ser feliz aqui e agora mesmo. A compreensão traz liberdade, alegria e felicidade.

Quando você está totalmente consciente do que é real, e consegue manter viva essa consciência e concentração, surge a compreensão. Quando você está consciente da presença de uma flor, e sustenta essa consciência, isso é concentração. A concentração nasce da atenção plena; a energia da atenção é portadora da concentração. Se você pratica profundamente a atenção, a concentração existe, e com esta concentração você é capaz de olhar profundamente para o que está acontecendo e você vai penetrar a realidade. [...]


Thich Nhat Hanh


Fonte: do livro "Paz Mental - Tornar-se Completamente Presente"
Tradução de Maria Goretti Rocha de Oliveira
Ed. Vozes, Petrópolis/RJ, 2017
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/budismo-%C3%A1sia-meninos-camboja-1822518/

domingo, 12 de julho de 2020

O CAMINHO DA VIDA É O CORAÇÃO


A história do ser humano é a busca e, simultaneamente, a realização de um significado existencial. Nas construções monumentais e nas sagas dos povos pode-se encontrar sua tentativa de entender a realidade e a si mesmo. Guerras de conquistas, bem como dramas pessoais, tudo circula em torno da ânsia em compreender o significado essencial da vida. O ser humano navega no mar da procura de seu próprio sentido.

O caminho da vida é o coração. Ele é como um grande porto num imenso oceano navegável. Por ele passam todas as lutas e experiências da alma. Navegantes de todos os mares sabem de sua grandiosidade e do quanto se valem de suas poderosas amarras para se sentirem pertencentes, isto é, vinculados a algo transcendente. O caminho da vida é o amor que acontece no coração, lugar íntimo dos encontros profundos. É nele onde se encontram os gritos e os sussurros dos que se escondem do tempo de viver. É em seu seio nutridor que as dores e as alegrias encontram formas de expressão. Os heróis se valem dele para adquirir coragem para as maiores batalhas. Suas forças são alimentadas pela energia que perpassa em suas vias amorosas. O sentido e o significado da vida são decifrados por aqueles que têm coragem de viver seus mais profundos sentimentos, a serviço da vida. Não há como fugir ou alienar-se do próprio coração. Deus fez a razão para que o ser humano entenda o que se passa em seu coração. É também nele que o Espírito se revela a si mesmo e ao mundo.

Nossos anjos e demônios ali fazem morada e buscam incansavelmente abrir-se à vida para que se integrem à sua própria totalidade, como uma só alma. Mágoas e perdões se aproximam para o casamento perfeito em favor do amor pleno. É na sua intimidade que o eu mais profundo faz sua permanência e sua impermanência. Nele se constroem as histórias e se forjam os alicerces da esperança. Fugir ao contato com o mistério que habita em seu interior é ausentar-se do encontro com a felicidade. Tudo que nele ocorre é particular e inacessível a alguém que não seja o seu próprio dono. O que dele nasce vem do íntimo do Espírito em sua permanente ligação com Deus. [...]

O movimento da vida é de dentro para fora, conduzido pelas forças do coração. A energia amorosa é que faculta o movimento de realização do mundo interno de cada ser humano. O filósofo F. Nietzsche sintetizava esse pensamento na expressão: “Torna-te no que és”. [...]


Adenáuer Novaes



Fonte: do livro Mito Pessoal e Destino Humano
Fundação Lar Harmonia, Salvador, Ba, 2005
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A CONSCIÊNCIA DE QUE EXISTIMOS


Tanto de nossa vida parece desvanecer da memória. Problemas que nos atormentam, ou prazeres que nos emocionam, planos que nos absorvem completamente, pesares inconsoláveis que pareciam fazer com que nossa vida tivesse chegado ao fim, todos são temperados pelo tempo. Existem outras experiências, frequentemente não tão emotivamente irresistíveis quando de sua ocorrência, que não se desvanecem. Recordamos essas epifanias de consciência pura de maneira mais profunda, porque se tornam parte de nós. Na maneira frequentemente modesta e quieta em que aconteceram, elas eliminaram algumas das camadas obscuras usuais e nos revelaram como realmente somos, quem somos realmente. Nesse despertar não houve nenhum trovão, nem manchetes místicas. Porém, foram novidades que não se dissiparam com a chegada dos jornais matutinos...

Recordo-me, por exemplo, que quando garoto, ao voltar da escola, frequentemente parava em frente à vitrine de uma loja em que havia selos filatélicos estrangeiros, que para mim à época eram irresistivelmente belos. Um dia, um amigo de família, mais velho, passando por ali, interrompeu meu olhar contemplativo extático para me cumprimentar. No dia seguinte, enquanto parado em frente à mesma vitrine, na minha volta para casa, a mesma pessoa passava e, brincando, perguntou-me se eu estivera ali parado desde o dia anterior. Algo indescritível mas fortemente familiar se acendeu dentro de mim, algo que está comigo até hoje: uma consciência do si-mesmo, ser tomado de surpresa mas sem medo, o conhecimento de que existimos no universo de outros assim como no nosso próprio. Qualquer que seja a maneira como venhamos a descrever esses momentos, e eles são muito comuns, pois pontuam o desenvolvimento de nossa consciência, eles são a prova que necessitamos, de que somos reais, que existimos. E, ao tempo em que essa prova tenha se aprofundado suficientemente em nós, começamos a encontrar o sentido da existência, como um desenvolvimento na santidade. [...]

São Bento dá um aviso a seus monges, no capítulo sobre “os instrumentos das boas obras”: não desejar ser chamado santo antes de realmente o ser. A ironia, é claro, é que ao tempo em que o indivíduo se torna realmente santo, ele não mais irá querer ser chamado santo. Ou qualquer coisa que o valha. Enquanto estivermos preocupados com a “honra” que as pessoas deveriam nos devotar, ou com que pensem e falem bem de nós, teremos um atestado de que ainda nos encontramos a uma boa distância...

Crescemos em santidade preocupando-nos com “a honra procedente daquele que exclusivamente é Deus”. Preocupar-se é amar, é se devotar. A honra que vem de Deus é a dignidade de nossa verdadeira natureza, nossa bondade essencial e inalienável, que nos torna a todos, afinal, merecedores do perdão...


Dom Laurence Freeman, OSB



Fonte: "Caríssimos amigos" - Leitura de 23/11/2008
WCCM International Newsletter, outubro de 2007, pp. 2-7
Tradução de Roldano Giuntoli
Via Comunidade Mundial para a Meditação Cristã - http://www.wccm.com.br/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal