terça-feira, 18 de outubro de 2022

ESOTERISMO - UM MÉTODO, UMA ATITUDE E UMA REALIDADE


O esoterismo não é uma filosofia, mas um método; não é uma religião, mas uma atitude interior; não é um conjunto de teorias e de leis estáticas, mas uma realidade viva em contínua evolução e transformação que procura atuar e se expressar na consciência dos homens que se voltam para ele com aspiração sincera e ardorosa não apenas de conhecer, mas também e sobretudo de “viver” as leis espirituais; para progredir, evoluir e caminhar rumo a uma plena realização espiritual.


Dra. Angela Maria La Sala Batà



Fonte: do livro "Conhecer para Ser"
Tradução de Pier Luigi Cabra
Ed. Pensamento, São Paulo/SP
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

UM EM DEUS


A sabedoria (jñana) é o tesouro que o homem deve acumular para que possa se perceber como divino e se fundir no oceano da Bem-Aventurança Divina.

As vacas podem ser de raças, cores ou tamanhos diferentes, mas o leite que produzem é o mesmo em todo o mundo.

Similarmente, todas as religiões, qualquer que seja a sua origem ou a extensão da sua influência, são meios para o ensinamento desse processo ao homem.

Atualmente a lei do comportamento humano é "cada um por si".

Isso ocorre porque não se conhece nem se percebe o fato de que todos são “um em Deus”.

Este é o produto da prática espiritual (sadhana).

É uma convicção que cresce lentamente, mas que deve ser adquirida.



Sri Sathya Sai Baba



Fonte: Divino Discurso, 24 de maio de 1967
www.sathyasai.org.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

ILUSÃO - DESILUSÃO - DEMOLIÇÃO


Conhecer e, ao mesmo tempo, compreender é, sem sombra de dúvida, raro e é o resultado de um amadurecimento interior que toma o homem capaz de transformar as suas convicções mentais em realização e de unir a sabedoria à consciência.

Para tomar mais claro aquilo que estamos dizendo gostaria de citar... Erich Fromm que, em seu conhecido livro "Avere o Essere ?", faz uma distinção entre “ter conhecimento” e “conhecer”.

Ele diz que o verdadeiro conhecer baseia-se na modalidade do ser, pois não é um acúmulo de ideias nem de teorias, mas uma capacidade da mente de ir além da aparência das coisas, de ir além da lógica comum, de ir além dos esquemas, das etiquetas, dos condicionamentos culturais e sociais e colher a verdadeira essência e o real significado daquilo que queremos conhecer.

Ele escreve: “O verdadeiro conhecimento tem início com a demolição das ilusões, com a ‘desilusão’. Conhecer significa penetrar sob a superfície, com a finalidade de alcançar as raízes e, portanto, as causas; conhecer significa ver a realidade tal como ela é.” (De Avere o Essere ?)

Essa “demolição” ou “desilusão”, a que se refere Erich Fromm, corresponde à purificação da mente de que fala o esoterismo e à libertação dos condicionamentos que ocorre com o despertar da verdadeira consciência que começa a iluminar o intelecto.

De fato, quando as duas modalidades, a do conhecer e a do ser, se aproximam, o homem passa por uma fase evolutiva em que começa a sentir a necessidade de fazer uma "tabula rasa", de negar tudo aquilo em que acreditava antes, todas as convicções e teorias às quais estava apegado e que agora parecem falsas, ilusórias e insatisfatórias. Na realidade, não são as teorias e as convicções que são ilusórias e erradas, mas a nossa maneira de abordá-las é que é limitada e condicionada pelo nosso estado de inconsciência e de identificação.



Dra. Angela Maria La Sala Batà




Fonte: do livro "Conhecer para Ser"
Tradução de Pier Luigi Cabra
Ed. Pensamento, São Paulo/SP
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/rodopio-redemoinho-v%c3%b3rtice-tornado-1454979/

REENCARNAÇÃO E SIMBIOSE


Chega o tempo, pelas abordagens complexas e integrais da Ciência Espírita, em que a Humanidade, por misericordioso contributo da genuína revelação, logra compreender, sem mistérios ou exotismos, secções interpretativas ou arroubos personalistas, a equação definitiva e lógica da vida, da dor e da evolução.

A reencarnação, que se fundamenta na contribuição lúcida e respeitável de pesquisadores, de filósofos, e na clareza meridiana do Espiritismo, dinamiza a formação conceitual dos seres que se preparam, até inconscientemente, para os labores culturais de uma Nova Era, com a realidade do Espírito e sua fecunda destinação divina, por cerne e força propulsora de toda e qualquer iniciativa.

Contudo, pelo entendimento da reencarnação que nos capacita, vida após vida, à plenitude intelecto-moral, impossível não ajuizar das verdades que essa mecânica sublime de progresso e aprimoramento faculta aos estudiosos e interessados.

Desde as embrionárias aglomerações das Mônadas Psíquicas ao protoplasma que ensejou à Terra o desenvolvimento dos elementos orgânicos, de que surgiram as espécies e o próprio corpo celular que atende à evolução do Espírito consciente, que os elementos de ordem exclusivamente espiritual, em se apropriando das moléculas que patrocinam, graças às suas emanações de ordem divina, se associam e se dão a permutas, numa entrosagem sinérgica que desafia o senso comum do homem atado ao pensamento materialista.

Semelhante princípio, que nos denuncia a interdependência do Universo, enseja-nos a compreensão da simbiose positiva ou negativa, tão evidente no plano social globalizado em que todos nós — os terráqueos encarnados e desencarnados — respiramos e realizamos nossa evolução.

Identidade, simpatia, afinidade, sintonia, aversão, repulsa, indisposição, antipatia são condições variadas da alma frente a propostas e desafios da estrada que devemos palmilhar, aprendendo e ensinando, reajustando e iluminando.

Em todo processo reencarnatorio vige a realidade que nos é própria, quando partilhamos de circuitos psíquicos e emocionais de valor ou degradantes, numa engrenagem simbiótica que, nem sempre, ajuizamos e podemos entender, seja para incrementar o bem já semeado em outras estações de esforço e aprendizado, seja para vivenciar o inferno da irresponsabilidade e ingratidão plantado progressivamente, numa afronta inconsequente à Providência Divina, que nos cumula de oportunidades e bênçãos.

Simbiontes como os líquens, algas e fungos, que vivem juntos com outros organismos da Natureza nos induzem a entender o parasitismo diversificado entre mentes e corações na condição humana, deixando-nos a refletir, notadamente após as observações profundas que hoje, sem o corpo físico, podemos levar a efeito, com riqueza e propriedade, que muitos se sustentam reciprocamente pela viciosa ondulação vibracional da maldade, em cujos circuitos lamentáveis e esgotantes da alma sofrem terrivelmente para drenar as próprias ilusões e equívocos, a fim de que, numa sequência natural, lógica e benfeitora, realizem os trabalhos que enaltecem seus espíritos, porque edificantes da vontade de Deus, que é amor puro e santificado.

A ignorância e o capricho personalista são vilões da alma inquieta e preguiçosa, mas pelas reencarnações, que de modo impressionante e ainda inacessível às mentes comuns, nos obrigam a avançar, todos nós nos internamos no clima que vimos edificando desde os primórdios de nossa marcha inconsciente, para a intensificação do progresso que nos capacita e liberta, rumo à felicidade sem jaça (mácula).



Wagner Gomes da Paixão / Leão e André Luiz




Fonte: do livro "Evolução e Vida"
UEM - União Espírita Mineira
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/an%c3%aamonas-tent%c3%a1culo-an%c3%aamonas-do-mar-793409/

OBEDECENDO ÀS LEIS DIVINAS


Em vez de fazerem esforços para se aperfeiçoarem, os humanos preferem proteger a sua natureza inferior. Deixam-se ir atrás das suas fraquezas, dos seus desejos e caprichos, e nem tentam distinguir a origem dos seus pensamentos, sentimentos e desejos: mal sentem despertar no seu íntimo esses pensamentos e esses sentimentos, cedem imediatamente. E depois de terem dado a todos os seus impulsos a possibilidade de se manifestarem, ficam admirados por se sentirem enfraquecidos e infelizes. Na realidade, para se tornarem fortes e felizes, os seres precisam de aprender a submeter-se às leis divinas. Sim, contrariamente ao que a maioria das pessoas imagina, é quando obedecem às leis que se tornam fortes e felizes, e não quando se opõem a elas. Quando se opõem às leis divinas, mais cedo ou mais tarde são esmagadas.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

METANOIA - A MUDANÇA RUMO A UMA REALIDADE MAIS PROFUNDA


A metanoia é um estado relacionado ao dom de lágrimas e arrependimento e flui dessas virtudes. As duas palavras gregas das quais se origina são “meta” e “nous”. O prefixo "meta" significa ir mais longe e implica também uma mudança. E a palavra “nous” refere-se ao intelecto, não à inteligência racional, mas à inteligência intuitiva.

É a maneira de conhecer intuitivamente a verdade de algo. Meister Eckhart, um místico alemão do século XIV, descreve esse conhecimento intuitivo como visão com "o olho do coração", como fizeram muitos dos primeiros Padres da Igreja. Eckhart fala de “conhecimento puramente espiritual: no qual a alma é arrebatada de todas as coisas corpóreas. Lá ouvimos sem sons e vemos sem matéria…".

É uma forma de saber que está além da nossa forma usual de compreensão; é uma transformação da consciência, uma transcendência em direção à Realidade mais profunda, até mesmo um encontro com a Realidade Última; é o caminho “para poder ver Deus” (Mestre Eckhart). Os primeiros cristãos, notadamente Clemente e Orígenes no século II, equiparavam a ideia platônica de “nous” com a “imagem de Deus” em Gênesis. Na verdade, eles o viam como nosso ponto de contato com Deus; era considerada a parte mais elevada da alma, a essência da humanidade, nosso “órgão” de oração. Os primeiros Padres da Igreja concordaram que esta "imagem" está contida em cada um de nós sem exceção. Isso foi adicionado à teoria grega de que "apenas 'como Ele' pode-se saber 'como Ele'", que foi totalmente endossada por pensadores cristãos, incluindo Tomás de Aquino e Meister Eckhart, e, portanto, implica que podemos conhecer Deus intuitivamente, colocando que já somos "como Ele" em nossa essência; temos algo essencial em comum com o Divino, o que o Mestre Eckhart chama de "a centelha", "o castelo" ou às vezes "o solo" do nosso ser.

Alcançar o nous e ir além nos permite, portanto, perceber quem realmente somos: filhos de Deus. "... a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus...". (João 1:12)

No entanto, para nos conscientizarmos dessa “semelhança” essencial, precisamos nos purificar de nossas emoções desordenadas e egocêntricas e só assim podemos ver a verdadeira realidade. O que isso significa é claramente explicado pela experiência de Maria Madalena. (João 20, 10-19) Após a crucificação de Jesus, ela se aproxima do túmulo e o encontra vazio. Ela está perturbada e imersa em sua dor profunda. Mesmo quando Jesus aparece para ela, ela ainda está tão dominada pela dor que não consegue ver claramente. Ela não reconhece Jesus e pensa que ele é o jardineiro. No momento em que Jesus chama seu nome, ela rompe sua visão da realidade, obscurecida por suas próprias emoções e necessidades, e então ela pode ver Jesus em sua verdadeira realidade.

A palavra metanoia também foi usada pelos Padres e Mães do Deserto e relacionada a outras formas de rezar – como curvar-se ou prostrar-se – que incorporam o movimento do corpo. Isso nos fala sobre as atitudes necessárias para alcançar a metanoia, para receber a graça: humildade e arrependimento. Metanoia, portanto, significa descobrir quem você realmente é e quem é Deus/Cristo, a fonte de alegria infinita.



Kim Nataraja




Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/yoga-buda-divindade-shiva-agua-386611/

sábado, 15 de outubro de 2022

A CAPACIDADE DE CONCENTRAÇÃO E OS CAPRICHOS DA MENTE


A capacidade de concentração é uma qualificação muito útil. Você deve observar os caprichos da sua mente — de que modo ela se transporta, que objetos persegue – e então, lentamente, por meio da meditação, ensiná-la a permanecer tranquila e a se comportar de forma benéfica. Não se preocupe com o ambiente insatisfatório no qual se encontra. É natural que ele possa apresentar alguns inconvenientes e não ser o lugar ideal, porém é inútil tentar fugir disso. Você pode superar esses inconvenientes treinando a própria mente. Permaneça no mesmo ambiente e ore ao Senhor para que Ele o preencha com os Seus pensamentos e a Sua visão, fazendo-o ignorar as dificuldades ao seu redor! Não busque conforto, pois ele pode não ser apropriado para a meditação. Aprenda a sentir-se confortável em qualquer lugar; é o melhor a fazer. Viva com alegria onde quer que esteja; esse é o caminho. Deleite-se no universo da sua mente. Ali adore o Senhor que você escolheu como a sua meta e liberte-se de todas as desvantagens do ambiente natural ou humano! Então nenhum lugar lhe será incômodo ou lhe parecerá desagradável. (Dhyana Vahini, cap. 14)



Sri Sathya Sai Baba



Fonte: www.sathyasay,org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/shiva-deusa-divindade-%c3%adndia-indian-67703/

PONTOS A PONDERAR


1. Os grandes problemas da vida são um desafio quanto ao autodomínio.

2. O autodomínio aplicado aos grandes problemas da vida abrange todas as lições do domínio da vida em geral.

3. O autodomínio bem-sucedido depende do desejo de confrontar o que seja desagradável. Dor, medo e ressentimento são mais intensos e incapacitantes quando tentamos fugir da necessidade de encará-los.

4. Sentimentos de desamparo, dependência e solidão são normais quando existe um grande problema em nossa vida. Aceitar esses sentimentos como parte de nossa experiência nos permite reconhecer aquela parte de nós que transcende o problema.

5. O “desconhecido” é a parte principal de um grande problema. O poder de intimidação que tem o desconhecido pode ser reduzido através das informações mais completas ou lidando-se com o problema por partes. A compreensão total, entretanto, deve sempre esperar até depois de passada a crise.

6. Nunca somos confrontados com um problema que não possamos resolver. Nossa responsabilidade está em descobrir e aplicar os recursos interiores na superação do problema.

7. Aceite o fato de que tudo que você está experimentando agora, agradável e desagradável, só bem mais tarde poderá ser reconhecido como um apoio no processo de alcançar seu próprio objetivo na vida.



Richard A. Rawson, M.D., F.R.C.



Fonte: extrato do opúsculo "Grandes decisões da Vida", de Edgar Wirth, Ph.D., F.R.C.
Ordem Rosacruz - AMORC - Curitiba - PR
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O DESERTO NOS DESPOJA DE NÓS MESMOS


O PROCESSO DE RECONHECIMENTO DE IR AO DESERTO PARA SE ENCONTRAR CONSIGO MESMO EQUIVALE A ADMITIR QUEM SE É, SEM MÁSCARAS, NUM CONVITE QUE SÓ DEUS PODE NOS FAZER, PARA NOS ACOLHER SEM JULGAMENTOS, NOS CONVIDANDO À RENOVAÇÃO DE PENSAMENTOS, GESTOS E ATITUDES.

O despojamento de si constitui um encontro com a verdade. É o que os gregos chamam de gnosis, isto é, o conhecimento radical de si mesmo.

Se fizermos uma análise comparativa das religiões, constataremos que todos os expoentes religiosos passaram por algo como o deserto antes de iniciar o seu ministério, como Buda e Krishna, como forma de se preparar para o desempenho da tarefa. Tal experiência atende a uma necessidade de se desidentificar com o mundo, recuperar a conexão direta com Deus, delimitar a missão real e dar prosseguimento ao processo de despertar das consciências, motivo pelo qual vieram até nós.

Além disso, o deserto é para pessoas fortes. Não é qualquer um que aguenta a experiência de abstrair-se do mundo. Cada vez mais, as pessoas ingressam numa euforia vazia, num usufruir e exaurir de todos os sentidos, na busca de um prazer ininterrupto, numa clara tentativa de fugir de si próprias.

[...] O deserto é uma experiência provisória, como a noite, por exemplo. Não deve ser uma constante na vida de ninguém. Fomos criados por Deus para vivermos em comunidade e em fraternidade, embora seja necessário que repetidas vezes regressemos ao deserto. Lá, fazemos um estágio de aprendizado que nos habilita a voltar à luta.

Uma das maiores dores enfrentadas pelo ser humano é a solidão.

[...] Todos nós temos projetos de mudanças, mas ainda lidamos com instintos que ficam se repetindo, e por isso procrastinamos, adiamos essas mudanças, até que a vida se imponha com sua Lei de Progresso, que nos arroja para a frente, e ainda assim a mudança não acontece de forma mágica.

Paulo de Tarso vai para o deserto e passa por essa experiência rica ali contida. Ele entende quem é Jesus, compromete-se com a tarefa do Mestre, começa a divulgar o seu Evangelho, funda igrejas de cidade em cidade, mas, um dia, escreve uma carta aos Romanos (7:19) dizendo: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”. Olha a ambivalência. “Eu sei o que é bom”, ele diz. “Mas faço o que é errado.” É a transição entre o homem velho e o homem novo.

[...] Embora ainda tenhamos muitos aspectos de nosso ser a serem trabalhados, tomamos uma decisão. Essa decisão estabelece uma meta que demanda tempo, paciência, persistência e disciplina para ser alcançada. Logo, no deserto, podemos deixar de nos identificar com crenças que nos tolhem como “eu tenho de ser o melhor, o mais bonito, o mais rico etc.”, só assim permitimos que o eu eterno, a centelha divina incorruptível criada por Deus e que habita em nós desde que Ele a soprou em nossas narinas (Gênesis 2:4), se desenvolva à sua imagem e semelhança (Gênesis 1:27). Desse modo, a luz divina que brilha em todos nós tomará conta de nosso ser, como está dito em Mateus 5:16, “brilhe vossa luz”.

É crucial deixar que o ego infantil ceda espaço para que possamos chegar um dia a dizer o que Paulo disse, no final de sua vida: “Já não sou eu quem vive; é Jesus quem vive em mim”. (Gálatas 2:20)

[...] Antes da Luz, é preciso ter a admissão da Sombra. Por isso, o processo de reconhecimento de ir ao deserto para se encontrar consigo mesmo equivale a admitir quem se é. Não se inquiete nessa experiência, afinal ninguém estará lá para julgá-lo.

[...] No momento em que nos julgamos abandonados, quando, na nossa concepção, nem mesmo Deus está nos suportando, é o momento em que Ele nos carrega nos braços, pois Deus não desiste dos filhos.

[...] Se você não desiste, mesmo sem acreditar que haja mudança, Deus muito menos desistirá, pois sabe que o dia da mudança chegará. Ele é quem não desiste mesmo, pois nada, absolutamente nada vai nos separar do amor de Deus.

É intelectualmente muito fácil acreditar que Deus nos ama, mas emocionalmente é difícil de entender, afinal a raça humana não é muito amável, e para constatar isso basta ler as manchetes de um fim de semana ou mesmo observar a forma como a maioria das pessoas vive. Talvez se um de nós fosse Deus, pensasse: Não tem mais jeito, vou recomeçar tudo... Se Deus tivesse para nós o mesmo olhar que temos para com outras pessoas, talvez isso acontecesse, pois não haveria razão para motivarmos o amor Dele. Mas Deus não é como nós somos! Ele vê todos os nossos equívocos, e olha que são muitos, mas ainda assim nos ama. Isso não significa que Ele seja indiferente aos nossos muitos erros, mas porque não desiste, demonstra um amor tão arrebatador, que nos dá a condição de acreditarmos em nós e, mudando a forma de estar no mundo, agirmos para nos tornarmos melhores.



Rossandro Klinjey



Fonte: do livro "O Tempo do Autoencontro -  Como fortalecer-se em tempos difíceis e vencer os desertos da vida"
Ed. Planeta do Brasil - Academia - São Paulo – SP, 2020 - www.planetadelivros.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/photos/deserto-panorama-p%c3%b4r-do-sol-duna-2774945/

VIVER NO ESPÍRITO DE DEUS


O poder do Novo Testamento está em seu sentido dramático do contraste entre a vida anterior de fé em Cristo e a vida transformada por essa fé. São Pedro viu nisso a dramática diferença entre a morte e a vida: “Por isso o evangelho foi pregado até aos mortos, para que, apesar de terem sido julgados neste mundo pelo que fizeram em vida, pudessem viver segundo Deus em espírito.” (1 Pedro: 4-6)

É exatamente disso que trata a meditação – passar da morte ou meia-vida para estar totalmente vivo no Espírito de Deus. Nunca devemos menosprezar ou sentir vergonha da pura magnificência da visão cristã e do convite cristão. Na meditação vivemos por essa perspectiva e aceitamos o convite porque a meditação é nossa disposição total para Deus.

Quando meditamos... estamos totalmente disponíveis para Deus; totalmente à sua disposição. É disso que se trata a oração pura: sem pedidos, sem recriminações, sem performances, sem ameaças, apenas sendo simples, totalmente aberto à maravilha da realidade última. A meditação é importante para nós porque através desta disposição chegamos à experiência da fé.

Não se trata apenas de acreditar em Deus ou mesmo tentar viver pela crença em seu Amor, é saber que estamos Nele e que Ele está em nós e isso é o que significa viver na vida do Amor de Deus. Conhecê-lo pessoalmente das profundezas do nosso ser é o que ganhamos na meditação, e esse conhecimento é real.


Fr. John Main, OSB



Fonte: do livro "O Coração da Criação", Canterbury Press, 2007
Traduzido para o espanhol por Lucía Gayón, e para o português por este blog.
PERMANECER EN SU AMOR - Coordenadora: Lucía Gayón - Ixtapa, México
www.permanecerensuamor.com - permanecerensuamor@gmail.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

LEIS ETERNAS ESTABELECIDAS PELA INTELIGÊNCIA CÓSMICA


As pessoas, na sua maioria, estão convencidas de que não poderão prosperar se não conseguirem fazer o que lhes agrada. E para isso estão dispostas a passar por cima de todas as regras, de todos os “tabus”, como elas dizem. Querem ser livres. E que liberdade é essa? A de fazerem loucuras e até de se destruírem, porque, quando alguém se liberta da luz, da sabedoria, da razão, sofre inevitavelmente. Até fisicamente acaba por ficar doente, pois a doença não é mais do que a manifestação, no plano físico, das desordens que a pessoa deixou que se instalassem no plano psíquico. Querermos derrubar os preceitos e as regras de uma moral limitadora, para sermos finalmente nós próprios, não é mau, pelo contrário. Mas precisamos de saber que, acima das leis da moral humana, existem leis eternas estabelecidas pela Inteligência Cósmica e, quer se queira quer não, se se transgride essas leis paga-se com o desgosto, o sofrimento e a doença.



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: www.prosveta.com
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

O DOM DAS LÁGRIMAS


O objetivo de nossa jornada espiritual é basicamente o mesmo que está expresso nesta frase que Thomas Merton escreveu sobre as Mães e Pais do Deserto: “O que os pais mais ansiavam era o seu verdadeiro eu em Cristo. E para isso eles tiveram que renunciar completamente ao falso eu, o eu fabricado sob a compulsão social do mundo. Precisamos perceber que somos muito mais do que nosso 'eu falso e superficial'. A jornada espiritual é a peregrinação para aquele 'verdadeiro ser em Cristo.'”

Nem todos podemos ir para um verdadeiro deserto, mas podemos entrar no silêncio interior e na solidão que a meditação nos oferece para deixar para trás nossos pensamentos que muitas vezes giram apenas em torno do nosso "eu" condicionado e, nessa quietude e paz interior, vamos experimentar quem realmente somos, "nosso verdadeiro eu em Cristo".

O primeiro sinal de cura é muitas vezes a abundância de lágrimas. Os Padres e Mães do Deserto o chamavam de “o dom das lágrimas”: “Primeiro reze pelo dom das lágrimas para que através da dor você possa suavizar sua aspereza nativa. Então, uma vez que você tenha confessado seus pecados ao Senhor, você obterá o perdão para eles” (Evagrius Ponticus, “Tratado da Oração”, cap. 5). Essas lágrimas são aquelas que não derramamos quando nos machucamos, mas são um sinal da crescente consciência e remorso que temos pelos danos que infligimos aos outros quando agimos por nossa própria ignorância e nossas feridas. Esse reconhecimento, tanto de nossas feridas quanto das que causamos aos outros, é o passo mais importante no caminho da cura.

São Paulo até chama isso de remorso, arrependimento, o primeiro batismo. Você é batizado com suas próprias lágrimas. “Penthos”, a raiz grega da palavra “arrependimento”, significa tristeza e dor. Isso não tem nada a ver com culpa. Na verdade, a culpa é um produto do ego. Ao nos acusarmos de nossas más ações, mostramos a nós mesmos que não somos dignos. E isso se confirma em nossa baixa autoestima. Em vez de buscar a cura e o perdão, ficamos entrincheirados em nossa auto-rejeição prejudicial. No entanto, o verdadeiro remorso leva ao perdão imediato, como vemos pelo que foi dito acima.

Não havia dúvida do que os Padres do Deserto pensavam sobre isso: “Um soldado perguntou ao velho: Deus aceita o arrependimento? O velho responde: diga-me, querido, se suas roupas estão rasgadas, você as joga fora? A resposta do soldado foi: não, eu conserto e continuo usando. E o velho lhe disse: se você salva sua própria roupa, você não acha que Deus seria amável com alguém feito à sua imagem?" (Vitae Patrum).

O segundo batismo, segundo São Paulo, é o batismo do Espírito que só é possível depois que nossas lágrimas abrandaram a dureza de nossos corações, nossa grosseria e nos ajudaram a deixar para trás nosso egocentrismo. Então o véu é levantado momentaneamente e nos é concedida uma experiência dada pela graça sobre “nosso verdadeiro eu em Cristo” à medida que nos tornamos conscientes e abertos à influência curativa e amorosa do Espírito inundando nosso verdadeiro centro em um momento vitalmente transformador.



Kim Nataraja




Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana
http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e para o português por este blog.
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

domingo, 9 de outubro de 2022

O ESCOPO DA ÉTICA


[...] Se a ética for entendida apenas como um mecanismo para manter a ordem social, então abrangerá apenas os aspectos externos do comportamento humano, aqueles que têm um impacto direto e observável nos outros. E se ela só se relacionasse com o impacto de nossas ações sobre os outros – mais precisamente, com as consequências de nossas ações –, então quaisquer sentimentos e intenções que possamos abrigar em nossos corações seriam irrelevantes ou neutros no que se refere à ética.

Particularmente, não concordo com isso. Esta é uma compreensão muito limitada. A própria noção de ética não faz sentido se não se levar em consideração a MOTIVAÇÃO. Se batemos nossa cabeça em uma árvore, podemos culpar a árvore? Claro que não! A ideia de responsabilidade moral pressupõe a presença de alguma motivação interior. Por isso, para mim, descrever a ética sem que haja referência à motivação parece incompleto. Na verdade, a dimensão motivacional interior é o aspeto mais importante da ética. Porque, quando a nossa motivação é pura, genuinamente voltada para o benefício dos outros, nossas ações têm a natural tendência a serem eticamente fundamentadas. É por isso que considero a compaixão como sendo o princípio-chave sobre o qual uma abordagem completa da ética pode ser construída. É a partir de um interesse compassivo pelo bem-estar dos outros que nossos valores e princípios éticos podem emergir, incluindo o princípio da justiça.



Tenzin Gyatso, Dalai Lama do Tibete




Fonte: do livro "Além da Religião : uma ética por um mundo sem fronteiras"
Tradução de Beatriz Bispo
Lúcida Letra, 2016, Teresópolis, RJ
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/budismo-dalai-lama-lama-1293757/

VEJA AS COISAS COMO ELAS SÃO


As circunstâncias não ocorrem para atender às nossas expectativas. Os fatos acontecem como têm de acontecer. As pessoas comportam-se de acordo com o que são. Acolha as coisas que de fato conseguir.

Abra os olhos: veja as coisas como elas são e preserve-se assim da dor causada pelos falsos apegos e os estragos evitáveis.

Pense no que lhe dá prazer: os instrumentos, sejam quais forem, de que você depende, as pessoas que lhe são caras. Mas lembre-se de que cada uma delas tem caráter próprio, separado, independentemente da maneira como as vemos.

Como exercício, pense nas menores coisas às quais você está ligado. Por exemplo, vamos supor que você tenha uma xícara favorita. É, afinal de contas, apenas uma xícara e, caso ela se quebre, você pode lidar com o fato. Em seguida, passe para coisas mais importantes — ou pessoas — às quais você se sente mais apegado.

Lembre-se sempre, por exemplo, quando abraçar seu filho, seu marido ou sua mulher, de que está abraçando um ser mortal. Assim, se um deles morrer, você será capaz de suportar a dor da perda com maior sinceridade.

Quando algo acontece, a única coisa que está em seu poder é sua atitude com relação ao fato. Suas alternativas são a aceitação ou o ressentimento.

O que realmente nos assusta e desanima não são os acontecimentos externos em si, mas a maneira como pensamos a respeito deles. Não são as coisas que nos perturbam, mas a forma como interpretamos seu significado.

Pare de atemorizar com noções irrefletidas, reações impulsivas e com suas impressões sobre como as coisas são.

As pessoas e as coisas não são como desejamos que sejam nem o que parecem ser. São aquilo que são.



Epicteto




Fonte: do livro "A arte de viver: uma nova interpretação de Sharon Lebell"
Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira
Ed. Sextante, 2006, Rio de Janeiro - RJ
www.sextante.com.br
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

APEGO: A RAIZ DO SOFRIMENTO HUMANO E DEPRESSÃO


Depressões construídas no tempo são verdadeiras prisões emocionais corretivas. Depois desse caminhar milenar com o foco mental centrado em nós mesmos, surge um dos sentimentos mais difíceis de superar nas linhas evolutivas da Terra: o apego.

O apego é o laço energético, emocional e espiritual que cria grande parte do sofrimento humano, aprisionando nossa vida mental na órbita da maior imperfeição moral: o interesse pessoal baseado no egoísmo.

O budismo, ao estabelecer a proposta das “Quatro Nobres Verdades”, deixa bem claro que o apego é uma das raízes dos sofrimentos humanos. Nosso desejo de possuir, de ter, ao invés de ser, nos leva às ilusões, e essas levam à dor.

A parábola do Filho Pródigo ilustra essa nossa velha conduta. Isso fica muito claro no trecho: “E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente”. O filho queria o que lhe pertencia e ele ajuntou tudo. E o que nos pertence legitimamente? Para que ajuntarmos?

Esse enfoque serve, também, para fazer uma radiografia emocional da depressão. Esse apego surge de um comportamento repetitivo. É uma prisão em nós mesmos. Uma prisão corretiva, porque chega um momento em que, ao longo das reencarnações, não existe mais suporte mental para a sanidade e a saúde após a repetição intencional dessa conduta destrutiva.

Outros efeitos nocivos decorrentes do apego passam a encarcerar nossa mente em experiências ainda mais dolorosas. O medo é a primeira delas. Quem se apega tem enorme medo de perder. Nessa ótica, a depressão pode ser analisada como a dificuldade da criatura em aceitar a realidade de perder. Perder algo ao qual se encontra agarrado há muito tempo. Perder algo de seu interesse pessoal. Quando temos esse medo cruel de perder irradiado das nascentes do coração, consumimos-nos no sentimento de tristeza. Tristeza é a emoção que indica uma necessidade de adaptação. Quando nos rebelamos em nos adaptar, essa dor se prolonga, podendo chegar a seu ponto de saturação, chamado depressão.

A pessoa entristecida e que se sente continuamente inconformada com as situações que a entristecem forma um campo psíquico e emocional para a rebeldia, conduta muito presente nos quadros de depressão. Essa rebeldia, por sua vez, pode abrir um leque de sentimentos e comportamentos na vida de relação do depressivo, tais como: mau humor, agressividade, culpa, melindre, personalismo, vaidade, mágoa, inveja, confusão mental, baixa de energia, irritabilidade, raiva, solidão, dependência, pessimismo, inquietação, desesperança, angústia, rejeição, fragilidade, abandono e inferioridade.

Para todos nós, a experiência da perda é muito desafiadora. Para o depressivo é algo pior ainda. É pior porque a mola mestra de sua vida mental é a rebeldia em aceitar a realidade. Como fator agravante, muitas dessas supostas perdas não são reais, pois ocorrem em razão das idealizações do depressivo. Daquilo que ele achava que era de uma forma e é de outra.

[...]

Quem não aceita a realidade da vida como ela é, nem aceita as pessoas como são faz em seu campo mental um juízo muito distante da realidade e, quando os fatos e as pessoas se manifestam como são, há um sentimento de revolta no depressivo. Ele se encontra tão apegado às suas crenças idealistas, aos seus conceitos limitadores, aos seus sentimentos tóxicos e aos seus pensamentos fixos que não admite a realidade. Ele cria uma resistência e prolonga sua dor. Esse apego apaixonado às expectativas pessoais em relação à vida e ao ato de viver talvez seja sua maior dor.

É quando o interesse pessoal se transforma em paixão que as coisas se tornam um problema. O egoísmo é o apego ao nosso ego, a paixão pelo que acreditamos, pensamos, sentimos, fazemos. É essa conduta milenar que adoece moralmente e psiquicamente todos nós aqui na Terra. Ela construiu a ilusão da perfeição, a idealização de um ser humano ideal em detrimento de um ser humano real.

O depressivo é alguém que já está sendo convocado há um bom tempo para sair desse comportamento, porém tem rejeitado aceitar essa mudança.

A depressão não é um castigo, mas um alerta, um indicador de saturação. Acreditamos que o depressivo é alguém que, provavelmente, já vem sofrendo demais nesta e em outras vidas, e a doença é um pedido da vida para que ele perceba que também merece ser feliz. Depressão não é imposição, é colheita e também semeadura. Quando a depressão acontece, é um sinal da vida querendo abrir os olhos do depressivo para a realidade da sua existência. Uma realidade melhor que aquela na qual ele pretende se manter por rebeldia e apego.



Wanderley Oliveira



Fonte: do livro "Depressão e autoconhecimento: como extrair preciosas lições desta dor"
Editora Dufaux, Belo Horizonte - MG, 2012
comercial@editoradufaux.com.br
www.editoradufaux.com.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/aquarela-pintura-arte-efeito-4799196/

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

DESCOBRINDO DEUS NO NOSSO INTERIOR


Em suas reflexões sobre a natureza da meditação, São João da Cruz escreveu: "Deus é o centro da minha alma". Um dos grandes dilemas religiosos do nosso tempo é que aqueles de nós que pensam que são religiosos estão tentando entender Deus com nossas mentes, e aqueles de nós que não são abertamente religiosos, por outro lado, rejeitam Deus em suas vidas. O que todos nós devemos descobrir é que a única maneira de podermos falar sobre Deus de maneira significativa é descobrindo-o dentro de nós. Descobrindo a nós mesmos, descobrindo nossa própria capacidade de ser mais completos, encontramos Aquele que é. Nessa descoberta nos libertamos...

A meditação é uma oportunidade maravilhosa para todos nós, porque retornando à nossa origem, às raízes do nosso ser, voltamos à nossa inocência. O chamado à meditação, para os primeiros Padres da Igreja, era um chamado à pureza de coração e isso é precisamente inocência: pureza de coração.

Uma visão sem nuvens de egoísmo, desejo ou imagens, um coração simplesmente movido pelo amor. A meditação nos leva à pura clareza, clareza de visão, clareza de compreensão e clareza de amor; uma clareza que vem da simplicidade. E começar a meditar não requer nada mais do que a simples determinação de começar e depois continuar.

Deixe-me lembrá-lo do que é. A meditação é o caminho da atenção. Na meditação vamos além dos pensamentos, além do desejo e da imaginação e nesse além começamos a saber quem somos aqui e agora em Deus "em quem vivemos e nos movemos e em quem existimos." (At 17,28) O caminho da simplicidade é o caminho da palavra única, a repetição de uma palavra (mantra, pensamento semente). É a recitação e a fé com que pronunciamos a palavra todas as manhãs e todas as noites que nos leva para além do barulho das palavras, para além do labirinto das ideias, para a unidade.

Os grandes problemas da vida surgem da incapacidade de comunicação - de comunicar-se até mesmo com o nosso interior - e a meditação é o caminho para alcançar a comunhão plena, a unidade do ser. Na meditação e na vida enriquecida pela meditação somos plenamente nós mesmos, quem quer que sejamos.



Dom John Main, OSB


Carla Cooper (Organ.)
Traducido por WCCM España




Fonte: “Deus é o centro da minha alma”. Trecho de “The Road to the Unknown” de John Main, OSB (New York: Crossroad, 1990) pp. 18-20.
Via: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

A NATUREZA DO SOFRIMENTO E A LEI DO CARMA


Assim como a evolução dos seres orgânicos se verifica segundo um conjunto de leis (lei da gravidade, do eletromagnetismo, da hereditariedade, da seleção natural etc.), também a evolução dos Espíritos se dá segundo leis de diferentes naturezas, desconhecidas da ciência oficial e, paulatinamente, reveladas pela doutrina espírita.

Kardec denominou esse conjunto de princípios de lei natural, afirmando que é a única necessária à felicidade dos homens e que apenas sofremos quando nos afastamos dela. (O Livro dos Espíritos, item 614) O progresso se dá pelo cumprimento da lei natural, que se encontra estabelecida na consciência do homem. (O Livro dos Espíritos, item 621) O bem consiste em nos identificarmos com ela, o mal em desconsiderarmos seus princípios. O bem traz consigo o melhoramento do ser e a aquisição de faculdades nobres que nos aproximam de Deus. O mal, ao contrário, provoca a paralisação dessa marcha, o embotamento das forças do Espírito e a inserção em experiências educativas, que muitas vezes, são dolorosas. Há, portanto, uma sanção à infração da lei natural.

Em decorrência de uma atitude humana equivocada segue-se, como visto, uma resposta da lei divina, que se dá, a princípio, na consciência do Espírito faltoso. Essa resposta pode ser examinada do ponto de vista qualitativo e quantitativo.

Sob o aspecto qualitativo, parece ser uma resposta mais ou menos padronizada. O pensamento espírita admite que cada um é punido naquilo em que pecou. Esta afirmação dos Espíritos veio em resposta ao questionamento de Kardec: se da análise das vicissitudes da vida corpórea se possa induzir quanto ao gênero da existência anterior. Kardec parece ter entendido que sim, que o tipo de sofrimento guarda relação de intimidade com o tipo de ação cometida em existência pretérita. Pode-se deduzir isso pelo seguinte comentário de Kardec:

[...] a natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos dos atos de um culpado pelo castigo que lhe inflige a lei. (O Livro dos Espíritos, item 399)

Ao voltar ao assunto, em outra obra, Kardec é ainda mais explícito, ao afirmar que:

[...] pela natureza dos sofrimentos da vida corpórea pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anteriores existências. (O céu e o inferno, parte I, cap. 7)

Examinando a lei de causa e efeito agora sob o aspecto quantitativo, é natural indagar-se: havendo Espíritos de diversos graus, o bem e o mal seriam os mesmos para todos eles? Kardec preocupou-se com essa questão e perguntou aos Espíritos se são absolutos, para todos os homens, o bem e o mal. A essa indagação, seguiu-se a resposta:

A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende principalmente da vontade que se tenha de praticá-lo. O bem é sempre o bem e o mal sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem. Diferença só há quanto ao grau da responsabilidade. (O Livro dos Espíritos, item 636)

No item seguinte, Kardec insiste no tema, perguntando se o selvagem que, cedendo ao seu instinto, se nutre de carne humana é culpado? Na resposta, os Benfeitores reafirmam o que disseram:

[...] tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz. (O Livro dos Espíritos, item 637)

Diante do pensamento dos Benfeitores, Kardec comenta:

As circunstâncias dão relativa gravidade ao bem e ao mal. Muitas vezes, comete o homem faltas que, nem por serem consequência da posição em que a sociedade o colocou se tornam menos repreensíveis. Mas, a sua responsabilidade é proporcionada aos meios de que ele dispõe para compreender o bem e o mal. Assim, mais culpado é, aos olhos de Deus, o homem instruído que pratica uma simples injustiça, do que o selvagem ignorante que se entrega aos seus instintos. (O Livro dos Espíritos, item 637)

Pode-se concluir, portanto, que do ponto de vista quantitativo erros equivalentes nem sempre receberão da lei uma resposta de igual intensidade. Vários fatores se relacionam a uma atitude equivocada, sob o aspecto da culpabilidade, atenuantes uns, agravantes outros.

A própria definição de ato moral, que é o objeto de estudo da ética filosófica, relaciona a atitude em si mesma com as suas motivações e com a intenção de fazê-la. Os atos morais são atos humanos conscientes e voluntários dos indivíduos que afetam outros indivíduos, determinados grupos sociais ou a sociedade em seu conjunto. O ato moral se apresenta como uma totalidade de elementos: motivo, intenção ou fim, decisão pessoal, emprego de meios adequados, resultados e consequências. Sendo, então, um ato consequencial livre, ele só pode ser considerado como tal, e passível de punição, se for cometido livremente por alguém consciente do que está fazendo. Ato cometido sob absoluta pressão, que não deixa ao agente a possibilidade de não fazê-lo, não é considerado como passível de responsabilidade.

O Livro dos Espíritos estabelece, então, que a lei natural culpabiliza os erros humanos segundo dois parâmetros: a intenção e o grau de conhecimento que se tenha em relação ao cometido. (O Livro dos Espíritos, item 954)

Do ponto de vista da intenção, vê-se que, muitas vezes, erros de consequências danosas são cometidos por pessoas bem intencionadas (o que obviamente atenua sua responsabilidade), e, de forma diversa, o desejo do mal, às vezes, não se concretiza apenas por falta de oportunidade, o que não deixa de ser um erro.

Por outro lado, a ignorância pode atenuar uma falta. No entanto, o desconhecimento nem sempre pode desculpar a falta por completo, pois a ausência de conhecimento, em muitas ocasiões, se dá por descaso ou indolência.

Não se pode desculpar aquele que alega não conhecer o erro, quando a possibilidade de conhecê-lo encontrava-se à sua mão. Como regra geral, a culpabilidade diante de uma falta é diretamente proporcional ao progresso intelectual amealhado, pois este lhe dá a verdadeira medida do que foi feito e das possíveis consequências do ato praticado.

Em resumo: a atitude equivocada lesa a mente, e a partir daí, se desencadeia a resposta imposta pela lei natural. Podemos então aventar a hipótese de que a energia psíquica gerada pelo ato criminoso terá um poder lesivo diferente, relacionado ao contexto em que foi perpetrado e proporcional aos dois fatores previamente citados: intenção e conhecimento.

Vejamos a seguinte metáfora: em uma parede são desferidos tiros com armas de calibres distintos. Todos os tiros estarão danificando a parede, mas o grau de dano será proporcional à energia de impacto decorrente do tamanho da bala e da potência da arma. Uma espingarda de “chumbinho” talvez apenas danifique a pintura, mas um tiro de canhão vai destruí-la por completo. Acreditamos que o mesmo se dê com os atos humanos. Atitudes criminosas cometidas por indivíduos em fase primária da evolução humana serão como tiros de “chumbinho”. A mesma atitude cometida por indivíduos em condição evolutiva superior serão como tiros de canhão.




Ricardo Baesso de Oliveira




Fonte: do livro "O Sentido da Reencarnação"
EVOC – Editora Virtual O Consolador, 2020
Londrina-PR
Fonte da Gravura: https://cdn.mensagenscomamor.com/content/images/m000484897.jpg?v=1&w=463&h=410

UM GRITO AO CÉU


Muitos acontecimentos penosos dizem respeito ao conjunto da colectividade e é impossível evitá-los: uma inundação, um tremor de terra ou uma guerra, por exemplo. Durante uma guerra, não se pode escapar às provações, às infelicidades, às grandes perdas, mas aquele que ora, que age através da alma e do espírito, transforma interiormente nele próprio estas provações, ainda que exteriormente os acontecimentos sejam os mesmos, onde os outros fraquejam, perdem a coragem ou até se suicidam, ele encontra em si próprio forças, um alimento espiritual, um encorajamento.

Os humanos habituaram-se a receber tudo do exterior. Por um lado, é normal, porque eles não poderiam viver sem as numerosas matérias e energias que recebem da água, do ar, do sol e da terra. Nós somos criaturas e todas as criaturas, toda a Criação é obrigada a receber do exterior aquilo de que necessita para continuar a viver. Só o Criador escapa a esta lei: Ele não necessita de esperar que o alimentem. Sim, mas como Ele deixou uma partícula de Si mesmo em cada criatura, uma centelha, um espírito que é da mesma natureza que Ele, graças ao espírito cada criatura pode tornar-se, ela própria, criadora. O ser humano, em vez de estar à espera de tudo do exterior, pode agir interiormente através do seu pensamento, da sua vontade, do seu espírito, e captar o maior número de elementos de que necessita para se alimentar física e psiquicamente. Por isso, o Ensinamento dos Iniciados foi sempre o ensinamento do espírito criador e aqueles que aceitam este Ensinamento serão sempre fortes, independentes, estarão sempre acima das circunstâncias.

Não se deve suportar as situações passivamente, deixar-se ir, mas sim procurar reagir. Não podereis melhorar tudo, não estais ainda à altura de o fazer, mas a vossa oração é como uma pequena semente que dá frutos imediatos. Vós pronunciastes algumas palavras, concentrastes-vos numa linguagem luminosa, e isso foi como um grito para que venham salvar-vos. Vós não observais a vida em vosso redor, todavia eu estou sempre a dizer-vos que é daí que deveis tirar lições. Olhai uma criança: quem a instruiu, quem lhe revelou que a palavra é uma força? Quando se sente em perigo, ela grita: «Mamã!» Como é que esta criança aprendeu a servir-se de uma palavra mágica? Se ela não tivesse gritado, a mãe não teria sabido que se passava qualquer coisa. Mas ela ouve-a e vai apressadamente salvá-la. Então, porque não pensais vós em lançar pelo menos um grito ao Céu?



Omraam Mikhaël Aïvanhov




Fonte: Opúsculo 305, "A Oração" - Publicações Maitreya, Porto, Portugal
https://publicacoesmaitreya.pt
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/vectors/mu%c3%a7ulmano-ora%c3%a7%c3%a3o-rezar-mesquita-7059888/

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

OBEDIÊNCIA - OUVIR COM ATENÇÃO


O primeiro dos votos beneditinos é o de obediência. A raiz latina desta palavra, "ob-audire", significa "ouvir com atenção".

Os cristãos do deserto foram obedientes, ouviram com atenção: a Deus, aos mandamentos, que no deserto se chamavam bem-aventuranças, e a seu "Abba" e "Amma", seus pais e mães espirituais. Um dos anciãos disse que Deus pede aos monges e monjas dois tipos de obediência: que eles obedeçam às Sagradas Escrituras e que obedeçam a seus Pais e Mães espirituais.

O objetivo desta escuta profunda é silenciar os desejos do ego, nosso próprio desejo e aprender a ouvir a "voz mansa e delicada" dentro do nosso ser mais profundo, a vontade de Deus. A obediência está, portanto, intimamente relacionada às virtudes da pobreza e da humildade, conhecer nossa necessidade de Deus e conhecer nossas próprias limitações.

A essência da meditação também é escutar atentamente, escutar nosso mantra ressoando por si mesmo em nosso ser. Lembremo-nos do que disse John Main: "Nossa meditação realmente começa quando, em vez de pronunciar o mantra, começamos a ouvi-lo envolto em atenção cada vez mais profunda." (John Main, OSB, "A Word Made Silence")

Silenciando nossos pensamentos, colocando nossa atenção no mantra e deixando para trás nossas imagens condicionadas, que muitas vezes são resultado de nossas feridas emocionais, transcenderemos nosso "ego", a parte consciente de nosso ser. Então, com o tempo, seremos capazes de deixar nosso verdadeiro eu, a centelha divina dentro de nós, permear todos os nossos pensamentos e ações. A atenção concentrada é a essência da oração, como enfatizou Evagrius (Evágrio Pôntico): "Quando a atenção busca atenção, ela a encontra. Porque se há algo que acontece no caminho da atenção é a oração e, portanto, deve ser cultivada."

A mesma atenção deve ser dada às Escrituras. A cultura do século IV ainda era em grande parte uma cultura oral e as Escrituras eram lidas em assembleias semanais – chamadas synaxis. Prestar atenção era essencial...

Depois de ouvir as escrituras, os monges do deserto deveriam ir para suas celas e repetir um ou dois versos que os tocassem ou ressoassem particularmente. Eles não devem refletir sobre seu significado, mas internalizar as palavras e deixá-las que lhes falassem pessoalmente. Isso poderia levá-los à oração e à contemplação, estando na presença silenciosa de Deus. Esta disciplina tornou-se "lectio divina" na tradição beneditina: lectio, meditação, oração e contemplação. A repetição das palavras sagradas leva ao silêncio da verdadeira contemplação. Isso é realmente parte da disciplina e prática da meditação, como John Main e Laurence Freeman nos ensinaram. "Precisamos ler as Escrituras, saboreá-las e deixar as Escrituras nos inspirarem", como aponta Laurence Freeman, OSB. E então permitiremos que influencie a maneira como conduzimos nossas vidas.



Kim Nataraja



Fonte: WCCM Espanha - Comunidad Mundial para la Meditación Cristiana - http://wccm.es/
Traduzido por WCCM España e em português por este blog.
Fonte da Gravura: Acervo de autoria pessoal

SEGUINDO AS PEGADAS DIVINAS


Exteriormente, os versos que descrevem as travessuras de Krishna quando criança parecem retratar fatos objetivos, mas eles têm um profundo valor subjetivo. Vocês devem usar a imagem objetiva como uma chama para acender a emoção subjetiva da devoção. Por exemplo, há uma descrição do menino Krishna virando um pote de coalhada e fugindo com uma bola de manteiga; conta-se que a Mãe Yashodha descobriu o seu esconderijo seguindo as pegadas impressas no chão pelas solas dos seus pés lambuzados de coalhada. 

A manteiga que o Senhor Krishna cobiça é o fruto da ioga, o produto final da batedura da mente por meio do discernimento (viveka). Ele adora se deleitar com essa manteiga e se afasta com ela para a solitude da autorrealização. Vocês também podem descobrir o Senhor por meio das suas pegadas, que podem ser achadas em todos os lugares, desde que se empreenda uma busca sincera com olhos treinados. Vocês as encontrarão onde quer que haja beleza, virtude, humildade, justiça, verdade, amor e paz. Os olhos têm que ser treinados para descobrir as pegadas de Deus; é assim que se deve dominar a mente.



Sathya Sai Baba
Divino Discurso, 25 de outubro de 1966)



Fonte: www.sathyasai.org.br
Fonte da Gravura: https://pixabay.com/pt/illustrations/a-arte-de-pouca-senhor-krishna-5407580/